1. Origem: Historicamente foi o pensador itálico Pitágoras [570-490 a.C] quem inventou e utilizou por primeira vez a palavra filosofia, do grego filoj + sofia: em vez de se chamar sábio, como os demais, dizia-se apenas um amante, amigo da sabedoria. Daí passarem os sábios gregos a serem chamados filósofos. Como diziam os antigos, a filosofia começa pela admiração que se sente diante do fato de as coisas existirem e serem tais como são. Da admiração surge a curiosidade de saber as causas da existência da realidade. Alguns dizem que é a experiência da morte, o sofrimento, a angústia o que causaria esta admiração. Outros ainda colocam que a filosofia nasce da dúvida que o mundo nos causa. Outros ainda dizem que ela nasce de uma vocação natural do homem de procurar entender tudo o que lhe rodeia. Contudo, foi com a insatisfação racional diante das explicações alegóricas, mitológicas que o homem, com o passar dos tempos, tentou ir mais além das explicações fantasiosas dadas à natureza, na medida em que buscava demonstrar, fundamentar e verificar na própria natureza suas propostas de respostas dadas àqueles fenômenos naturais. Neste sentido a filosofia significa a passagem do mito ao logos. Foram os pensadores gregos Platão [427-347 a.C] e Aristóteles [384-322 a.C] que definiram propriamente a filosofia como um tipo de ciência nobre, pois se busca mediante a filosofia o conhecimento das causas mais profundas de toda a realidade, incluindo à do próprio homem. Para Platão a filosofia é o uso do saber em proveito do homem. Platão observa que nada serviria possuir a capacidade de transformar pedras em ouro a quem não soubesse utilizar o ouro; do mesmo modo, de nada serviria uma ciência que tornasse imortal a quem não soubesse utilizar a imortalidade. A filosofia é a ciência em que coincide o fazer e o saber utilizar o que é feito [Eutidemo, 208e 290d]. Para Aristóteles a filosofia é ciência da verdade. Segundo Aristóteles é justo chamar a filosofia de ciência da verdade, porque o fim da ciência teorética é a verdade. Ora, não se conhece a verdade sem conhecer a causa. Por isso, também, a filosofia é ciência das causas. Mas dentre as causas as mais nobres e verdadeiras são as causas eternas. Assim é necessário que as causas dos seres eternos sejam mais verdadeiras do que todas as outras. Por conseguinte, a filosofia é ciência do ser verdadeiro e eterno, já que cada coisa possui tanto de verdade quanto possui de ser. [Metafísica, I, c.1, 993b 19-30]. As opiniões de Platão e Aristóteles registram no pensamento da Grécia ocidental o surgimento da filosofia, onde o homem passa a buscar uma explicação racional para o mundo, não se contentando com as explicações míticas e lendárias, em que todos os fenômenos eram atribuídos aos deuses. O nascimento da filosofia marca o início da superação das explicações míticas, baseadas nos mitos ocidentais. Este amor ao conhecimento faz surgir no homem muitas propostas de explicações para distintas formas de fenômenos. Aparece assim a filosofia, que em sua origem imediata é ciência empírica, mas que logo pelo aprofundamento das questões vai cada vez mais transcendendo o sensível e empírico e apresentando cada vez mais fórmulas de explicações mais abstratas e universais. Assim, pois, a filosofia surge como superação do mito. A partir de então a filosofia é o desejo que nasce da vontade da alma de possuir pela razão o conhecimento certo de toda realidade que sentimos, vemos e não vemos, sem o interesse de receber nenhuma recompensa útil, sensível ou prática em troca, senão a felicidade mesma da alma, enquanto é o estado de satisfação da alma de sentir-se plena e em paz na posse de um saber que lhe seja um bem e de poder transmiti-lo aos demais. A filosofia por ser um conhecimento intelectual não aniquila ou reprova o conhecimento sensível do mundo, mas o ordena para uma síntese inteligível, tornando-o abstrato e compreensível de um modo intelectual. O filósofo torna-se então o sábio, pois o filósofo é aquele que ama o saber e o busca sem querer receber nada em troca, porque busca o saber pelo saber. O filósofo descobre que a felicidade da alma e a plenitude dos desejos se encontram na posse da sabedoria, por isso não deseja trocá-la ou subordiná-la a nenhum outro bem perecível. Pois, para o filósofo a sabedoria é o bem imperecível da alma. A filosofia torna-se sinônimo de sabedoria, pois é o filósofo quem vai julgar e ordenar qual saber é o mais próprio da alma: tanto mais imperecível, certo e bom para alma, quanto mais nobre e necessário a sua busca e posse. O filósofo mediante a filosofia busca a sabedoria, que é um conhecimento que a alma julga imperecível, certo, bom e verdadeiro e que causa nela mesma a felicidade pela posse deste conhecimento a que julga como um bem pleno e que lhe impulsiona a oferecê-lo aos demais que ainda não o possuem. Portanto, a partir de Platão e Aristóteles a filosofia é considerada como ciência, pois é conhecimento certo pelas causas, cujo objeto material são todas as coisas e o objeto formal, as suas causas últimas. Concluindo, podemos dizer que do mesmo modo que o homem, por sua natureza corpórea, deseja os sabores dos alimentos e os deleites sensíveis, assim, também, deseja, mais intensamente, segundo sua natureza espiritual, saborear os sabores dos alimentos e dos deleites espirituais, portanto, saborear, conhecer algum bem espiritual. Este bem espiritual que é o conhecimento pode ser alcançado pelo amor à sabedoria, enquanto hábito ou disposição de conquistar pelo esforço do estudo humano aqueles bens imperecíveis para alma.
2. A Filosofia Tomista: A filosofia tomista é por excelência a metafísica ao serviço da teologia. Marcada pela forte influência do pensamento grego aristotélico, patrístico e especialmente latino agostiniano, árabe e judeu e dos seus predecessores escolásticos, sua filosofia é rica e inovadora, fruto de uma contemplação e reflexão intensa que revolucionou o vocabulário filosófico medieval e dispôs a mente humana a argumentar retamente numa ponte que liga as coisas da terra, com as do céu.
(a) A Filosofia Escolástica: No século XIII, o Ocidente Europeu foi o palco de uma Revolução Filosófica Medieval. A aquisição de novas fontes filosóficas exerceu forte influência sobre a vida intelectual. Do Oriente, as recém-chegadas filosofias árabes e judaicas, juntavam-se à tradição filosófica platônica e à vetus logica aristotélica, no Ocidente. Ampliou-se o legado aristotélico com a nova logica e as suas obras cosmológicas, política, ética e metafísica. Neste ambiente, a Escolástica estava munida de um leque incrível de fontes filosóficas. Logo, o estudo da filosofia aristotélica tomaria lugar de destaque nas universidades medievais, com novas versões e traduções para o latim dos inéditos textos gregos. Na Universidade de Nápoles, por exemplo, estudavam-se até seis anos de filosofia aristotélica, a ponto de ele vir a ser chamado 'o filósofo', hábito que herdou o próprio Tomás de Aquino [1225-1274] ao referir-se, em seus escritos, a Aristóteles. A famosa abertura do Livro I da Metafísica de Aristóteles: Todos os homens tem o desejo natural de conhecer [Met.I,980a 1-2] havia posto em evidência os estudos filosóficos. Neste contexto cresceu e desenvolveu-se o pensamento de Tomás de Aquino.
(b) A Filosofia Tomista: Em virtude da excelência de sua teologia, há que se afirmar a importância de sua filosofia. Neste sentido, o Aquinate, embora não desejasse ser senão teólogo, foi verdadeiramente um grande filósofo, pois sabia que a razão não contrariaria a fé, se ela fosse retamente utilizada e fundamentada no princípios evidentes para, com os raciocínios válidos, pôr a própria razão ao serviço da fé. A autonomia da filosofia não o conduziu a apoiar-se, sem mais, na autoridade dos filósofos, embora não descuidasse de considerar os mestres e as suas principais doutrinas. Por isso, sustentou que o argumento de autoridade fundado sobre a razão humana é, de todos, o mais fraco [STh.I, q1,a8,c]. A sua autoridade é a teológica, baseada na autoridade divina e não na humana. O Aquinate efetivamente marcou a filosofia, mas não quis inovar em seus estudos filosóficos e sequer quis instituir um novo sistema filosófico, criar uma filosofia sua, mas uma da verdade das coisas, do ser das coisas. De fato, embora não o tenha querido, revolucionou a investigação filosófica. Neste sentido, o papel e a finalidade da filosofia não é saber o que os homens pensaram, mas qual é a verdade das coisas [In I De caelo, lec.22]. Disse o melhor que pôde e soube, o que as coisas são na realidade; se já alguém o tinha dito antes dele, não era motivo para não o repetir; se ninguém o tinha dito ainda, não era motivo para ele não o dizer, pois não procurava fazer obra pessoal, mas pesquisa objetiva e alicerçada no real.
(c) Filosofia e ciência: Há de esclarecer que para todo o medievo, não há distinção entre filosofia e ciência; antes, ao contrário, a filosofia é a fonte de todo saber e é a ciência racional por excelência. Por esta razão, o estudo da filosofia é em si mesmo lícito e louvável, por causa da verdade que os filósofos buscam e acabam por descobri-la em Deus [STh.II-II,q167,a1,ad3]. Acerca da verdade que se alcançou no passado, a partir dos esforços de muitos filósofos, afirmou o Aquinate ser a filosofia perene já que a contribuição dum só homem, pelo seu trabalho e pelo seu gênio para o progresso da verdade é pouco comparada com o conjunto da ciência; no entanto, de todos esses elementos coordenados, escolhidos e reunidos, alguma coisa de grande se fez [In II Met, lec.1]. Por isso, para Tomás, é importantíssimo voltar às opiniões dos antigos, sejam as de quem for, pois isso é-nos duplamente útil, seja para guardarmos para o nosso uso o que disseram de bom, seja para nos defendermos do que disseram de mal [In I De anima, lec.2, n15]. De fato, a verdade que a razão perscruta lhe é natural e a sua investigação convém à filosofia. Mesmo pela razão pode-se alcançar as verdades referentes às realidades divinas inteligíveis, possíveis de serem investigadas pela razão humana [CG.I,4].
(d) Partes da Filosofia: Como o trabalho especulativo de toda a filosofia dirige-se para o conhecimento de Deus, a metafísica - também denominada filosofia primeira, sabedoria - que tem por objeto as verdades divinas, deve ser a última parte da filosofia [C.G. I, c.4]. Segundo o Aquinate, a razão se relaciona com a ordem das coisas de quatro modos, de cuja relação surge as partes da filosofia: a ordem que a razão não faz, mas a considera, como a das coisas naturais, cujo estudo próprio é o da Filosofia da Natureza da qual se seguem a Matemática, a Metafísica [e também, a Psicologia, a Antropologia]; a ordem que a razão faz em seu próprio ato, ordenando seus conceito, cujo estudo compete à Filosofia racional ou Lógica [In I Anal. lec.1, n.1/De pot. q.1, a.3,ad3] e aqui se inclui também a Gnosiologia; a ordem que a razão faz ao considerar as operações da vontade, cujo estudo compete à Filosofia Moral ou Ética [e também a Política] e a ordem que a razão faz ao considerar as realidades exteriores, das quais é causa, cuja competência é das Artes Mecânicas [In I Etic. lec.1, n.1-2] em que se inclui também a Estética. Feito isso, cabe colocar em evidência que para o Aquinate a filosofia é ciência especulativa, porque investiga acerca do próprio saber. Por isso, tal ciência, que é sabedoria, teve o seu nome mudado para o de filosofia [In I Met. lec.3, n.53]. Mas, sendo o estudo da filosofia uma ciência humana, isso não significa que ela seja uma ciência estritamente acerca das coisas que o homem sente, senão que tende, sobretudo, à verdade delas [In I De caelo, lec.22]. Ora, sendo Deus a Verdade última das verdades, toda a filosofia verte-se à consideração dela e a ela se ordena [CG.I,4].

Nenhum comentário:
Postar um comentário
DIVULGUE nosso blog: sacerdotibus.blogspot.com/
www.facebook.com/avidasacerdotal