Papa: sinal da cruz reflete Trindade que habita em nós


Por ocasião da oração dominical do Ângelus

CIDADE DO VATICANO, domingo, 30 de maio de 2010 (ZENIT.org). - Por meio do sinal da cruz, lembramos a Trindade divina que "passa a habitar em nós" a partir do dia do Batismo. Foi o que disse Bento XVI neste domingo, antes da oração do Ângelus, recitada na presença de cerca de 50 mil fiéis reunidos na Praça São Pedro, no Vaticano.

Refletindo sobre o mistério da Trindade, celebrado na liturgia de hoje, o Papa evidenciou a importância do sinal da cruz, que, "em certo sentido, recapitula a revelação de Deus advinda dos mistérios pascais: morte e ressurreição de Cristo, sua ascensão à direita do Pai e a efusão do Espírito Santo."

"Nós o fazemos antes da oração - disse, citando o teólogo Romano Guardini - para que permaneça em nós aquilo que nos foi doado por Deus... Este abraça todo o ser, corpo e alma... e tudo se torna consagrado em nome do Deus uno e trino."

No sinal da cruz, acrescentou o Pontífice, "está contido, portanto, o anúncio que gera a fé e inspira a oração", sublinhando a importância central do sacerdócio na difusão das verdades de fé que decorrem da Trindade.

"Também Santo Cura d' Ars lembrava aos seus fiéis: ‘Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do ingresso na vida? O sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua peregrinação? O sacerdote. Quem a há de preparar para comparecer diante de Deus, lavando-a pela última vez no sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote'."

E, citando uma oração de Santo Hilário de Poitiers, concluiu: "Conservai imaculada esta fé reta que habita em mim e, até meu último suspiro, dai-me igualmente esta voz em minha consciência, para que assim permaneça sempre fiel àquilo que professei em minha regeneração, quando fui batizado no Pai, no Filho e no Espírito Santo".

Em seguida, ao saudar os peregrinos de língua polonesa, Bento XVI dedicou um pensamento especial às vítimas das enchentes no Polônia, que nas últimas duas semanas deixaram ao menos 20 mortos.

"Confiemos hoje à Santíssima Trindade nossas dificuldades. Que Maria, que intercede por nós, nos ajude a ler os desígnios da Providência de Deus - disse. Se de Deus aceitamos o bem, por que não deveríamos aceitar o mal? (cf. Jó 2,10). Tudo está contido no plano divino de salvação", concluiu.

8 de Setembro de 1894?


Os últimos excessos da impiedade

16. E, pois que a insensata perversidade dos ímpios a tudo já agora recorre - com o dolo e com a audácia - para provocar a cólera divina e atrair sobre a pátria o peso de um justo castigo, necessário é que a piedosa prática do Rosário seja seguida com sempre maior empenho.

Além disto, todos os bons sofrem conosco, porque no próprio seio dos povos católicos há muitos que, satisfeitos de se regozijar com as ofensas de qualquer modo feitas à religião, eles mesmos, fortes de uma incrível licença de propaganda, mostram não ter em mira outra coisa senão expor ao desprezo e ao escárnio do povo as coisas mais santas da religião e sua experimentada confiança na intercessão da Virgem.

Nestes últimos meses, pois, não se tem poupado nem sequer a augustíssima pessoa de Jesus Cristo Salvador. Não se tem tido pejo de apoderar-se dela para os atrativos do palco, já agora sobejamente contaminado de infâmias, e de representarmo-la despojada da majestade da sua natureza divina; sem a qual necessariamente rui o próprio fundamento da redenção do gênero humano. E levou-se ao cúmulo a afronta quando se quis reabilitar da infâmia dos séculos o homem réu da criminosa perfídia que a história tem estigmatizado como a mais abominável e a mais monstruosa: o traidor de Cristo.

17. Ante tais excessos, cometidos ou em via de sê-lo pelas cidades da Itália, tem-se levantado um brado geral de indignação e um enérgico protesto pela violação dos sacrossantos direitos da religião, naquela nação que justamente considera sua precípua ufania o ser católica.

Ante tais excessos, como era natural [então estou vivendo numa crise sobrenatural], levantou-se a vigilante solicitude dos bispos, que apresentaram justíssimas recriminações àqueles que têm o inalienável dever de tutelar a honra da religião pátria; e não só têm avisado os seus rebanhos da gravidade do perigo, mas os têm exortado também a especiais atos de reparação da ímpia ofensa lançada contra o amorosíssimo Autor da nossa salvação.

Nós temos apreciado imensamente as múltiplas e notáveis demonstrações de zelo dadas pelos bons nestas circunstâncias, e delas temos haurido um vivo conforto para a Nossa alma, profundamente ferida. Mas, dado que temos ocasião de falar, não podemos abafar a voz do Nosso altíssimo ministério. E por isto falamos, para ajuntar o Nosso mais enérgico protesto aos já levantados pelos bispos e pelos fiéis.

18. Mas, enquanto lamentamos e detestamos esse sacrílego crime, com o mesmo ardor do Nosso ânimo apostólico dirigimos uma cálida exortação a todos os cristãos, mas particularmente aos Italianos, para que guardem intacta, defendem estrenuamente e continuem a alimentar com obras honestas e piedosas essa fé avoenga que constitui a sua herança mais preciosa.

Bento XVI: “Não há Pentecostes sem a Virgem Maria”

Queridos irmãos e irmãs!

Cinqüenta dias após a Páscoa, celebramos a solenidade de Pentecostes, na qual recordamos a manifestação do poder do Espírito Santo, o qual - como vento e como fogo - desceu sobre os Apóstolos reunidos no Cenáculo e lhes fez capaz de pregar com coragem o Evangelho a todas as pessoas. O mistério de Pentecostes, que justamente identificamos com este acontecimento, verdadeiro "batismo" da Igreja não acaba, porém, nisso. A Igreja, na realidade, vive constantemente da presença do Espírito Santo, sem o qual esgotaria suas próprias forças, como um barco à vela para o qual faltara vento. Pentecostes é renovado de um modo particular em alguns momentos fortes, tanto no âmbito local como no universal, tanto em assembleias pequenas como em grandes convocações. Os concílios, por exemplo, tiveram sessões gratificantemente especiais com o Espírito Santo, e dentre essas certamente está o Concílio Ecumênico Vaticano II. Podemos recordar, também, o célebre encontro dos movimentos eclesiásticos com o venerável João Paulo II, aqui na Praça de São Pedro, precisamente no Pentecostes de 1998. Mas a Igreja experimenta inúmeros "Pentecostes" que vivificam as comunidades locais: pensemos nas Liturgias, particularmente naquelas vividas em momentos especiais para a vida da comunidade, nas quais a força de Deus é percebida de maneira evidente, preenchendo as almas de alegria e entusiasmo. Pensemos em tantos congressos de oração, nos quais os jovens percebem claramente o chamado de Deus a sustentar sua vida em seu amor, também se consagrando eternamente n'Ele.

Não há, portanto, Igreja sem Pentecostes. E gostaria de acrescentar: não há Pentecostes sem a Virgem Maria. Assim foi no início, no Cenáculo, onde os discípulos "perseveraram na oração, com um mesmo espírito na companhia de algumas mulheres, de Maria, a mãe de Jesus, e de seus irmãos" - como nos Como nos refere o livro dos Atos dos Apóstolos (1,14). E assim é sempre, em todo o tempo e lugar. Também fui testemunha disto há poucos dias, em Fátima. Na realidade, o que viveu aquela imensa multidão, na esplanada do Santuário, onde todos éramos um único coração e uma única alma, não é um renovado Pentecostes? Em nosso meio estava Maria, a Mãe de Jesus. É esta a típica experiência dos grandes Santuários marianos - Lourdes, Guadalupe, Pompeia, Loreto - ou também do menor: lá onde os cristãos se reúnem em oração com Maria, o Senhor dá seu Espírito.

Queridos amigos, nesta festa de Pentecostes, nós também queremos estar espiritualmente unidos à Mãe de Cristo e à Igreja, invocando com fé uma renovada efusão do Paráclito divino. Nós a invocamos para a Igreja inteira, em particular, neste Ano Sacerdotal, para todos os ministros do Evangelho, de forma que a mensagem de salvação seja anunciada a todas as pessoas.

[Após o Regina Caeli, disse em italiano:]

Ontem, em Benevento, foi proclamada Beata Teresa Manganiello, fiel leiga, pertencente à Terceira Ordem Franciscana. Nascida em Montefusco, décima primeira filha de uma família de camponeses, teve uma vida simples e humilde, entre as tarefas de casa e o compromisso espiritual na Igreja dos Cappuccinnos. Como São Francisco de Assis, procurou imitar Jesus Cristo oferecendo sofrimentos e penitências para reparar os pecados, e era repleta de amor ao próximo: se desdobrava por todos, especialmente para os pobres e às pessoas doentes. Sempre sorridente e doce, com apenas 27 anos partiu para o Céu, onde tem habitado seu coração. Demos graças a Deus por esta testemunha iluminada do Evangelho!

A memória litúrgica da bem-aventurada Virgem Maria, Auxílio dos Cristãos, nos oferece - amanhã, 24 de maio - a possibilidade de celebrar o dia de oração pela Igreja na China. Enquanto os fiéis que estão na China rezam para que a unidade entre eles e com a Igreja universal se aprofunde cada vez mais, os católicos no mundo todo - especialmente de origem chinesa - se unem a eles na oração e na caridade, que o Espírito Santo coloca em nossos corações, particularmente na solenidade de hoje.

Encontro sacerdotal sobre a Forma Extraordinária do Rito Romano

ENCONTRO SACERDOTAL SOBRE O MOTU PROPRIO "SUMMORUM PONTIFICUM" DE S.S. O PAPA BENTO XVI "UM GRANDE DOM ESPIRITUAL E LITÚRGICO PARA TODA A IGREJA
17, 18 e 19 de Junho de 2010
Seminário São José - Av. Rui Barbosa, 200 - Garanhuns - PE - CEP 55296-300
 
Promoção:
Diocese de Garanhuns 
Pontifícia Comissão Ecclesia Dei da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé  
  
Nosso Bispo Diocesano de Garanhuns, Dom Fernando Guimarães, que por muitos anos colaborou em Roma com a Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, acolheu um pedido a ele dirigido por alguns Padres brasileiros que, de acordo com o próprio Bispo Diocesano, atendem pastoralmente grupos de fiéis ligados à forma extraordinária do Rito Romano, para um encontro informal de formação que os ajude a desempenhar bem este ministério. Este encontro informal é reservado àqueles Sacerdotes que já atendem pastoralmente tais grupos.

PROGRAMAÇÃO
Dia 17 de Junho

19:30h Santa Missa de abertura do encontro celebrada na Forma Extraordinária, por S. Exc. Rev.ma Dom Fernando Guimarães, C.SS.R. na Capela do Seminário São José, seguida pela apresentação geral dos participantes e palavras de boas-vindas do Bispo Diocesano.

Dia 18 de Junho

7:30h Laudes
8:00h Café
8:30h Conferência Introdutória: "O Motu Proprio "Summorum Pontificum", um grande dom para o crescimento espiritual e litúrgico de toda a Igreja"
Conferencista: Dom Fernando Guimarães, Bispo Diocesano de Garanhuns
10:00h Intervalo
10:30h Conferência: "Considerações sobre os aspectos teológicos da Forma Extraordinária do Rito Romano, o pensamento litúrgico de Bento XVI e a hermenêutica da continuidade"
Conferencista: Dom Fernando Rifan, Administrador Apostólico da Administração Apostólica São João Maria Vianney
12:30h Almoço
14:00h Conferência: "A História do Rito Romano na sua forma clássica".
Conferencista: Pe. Claudiomar Silva Souza, Liturgista - Administração Apostólica São João Maria Vianney
15:30h Intervalo
15:45h Ensaio litúrgico para o aperfeiçoamento da celebração da Santa Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano - Pe. Claudiomar Silva Souza, Liturgista - Administração Apostólica São João Maria Vianney
17:30h Adoração Eucarística, Vésperas e Benção do Santíssimo
19:30h Santa Missa Pontifical celebrada na Forma Extraordinária por S. Exc. Rev.ma Dom Fernando Rifan com Assistência Pontifical de S. Exc. Rev.ma Dom Fernando Guimarães, na Catedral Diocesana de Santo Antônio


Dia 19 de junho  

7:30h Laudes
8:00h Café
8:30h Conferência: "O Motu Proprio "Summorum Pontificum" e suas consequências concretas para o Direito Litúrgico do Rito Latino".
Conferencistas: Dom Fernando Guimarães e Pe. José Edilson de Lima, Canonista - Administração Apostólica São João Maria Vianney
10:00h Intervalo
10:15h Momento de encontro entre os participantes
11:00h Santa Missa de encerramento do encontro no Santuário Diocesano da Mãe Rainha

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Dom Fernando Guimarães Bispo de Garanhuns enviou a seguinte carta aos Exmos. Bispos Diocesanos em cujas Dioceses acontecem celebrações de Santas Missas segundo a Forma Extraordinária do Rito Romano:
Prot. N. xxxx∕10
Garanhuns, 10 de março de 2010
         Caríssimo Irmão Dom NN.,
Alguns sacerdotes que, em comunhão com os próprios Ordinários diocesanos, acompanham grupos ligados à Forma Extraordinária do Rito Romano, pediram-me um encontro de formação, cientes de que, em Roma, trabalhei também com a Pontifícia Comissão Ecclesia Dei nesta área. Aceitei de bom grado, com o desejo de fortalecer sempre mais – como é o desejo do Santo Padre Bento XVI – os laços eclesiais daqueles que se sentem ligados à forma anterior da Liturgia Romana.
         De comum acordo com nosso Irmão Dom Fernando Rifan, Bispo da Administração Apostólica São João Maria Vianney, de Campos, e referencial no Brasil para a Forma Extraordinária do Rito Romano, preparei um encontro informal para os dias 17 a 19 de junho próximos, aqui em Garanhuns. O encontro conta também com o apoio da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei. Envio-lhe em anexo o programa.
         Segundo informações que me foram transmitidas, em sua (Arqui)diocese, os Padres NN. (Paróquias N. e N.) celebram na Forma Extraordinária, com o apoio do seu Bispo. Caso V.Excia. esteja de acordo, eles poderiam participar de nosso encontro.
         Com a expressão da minha cordial estima, desejo-lhe uma santa e feliz Páscoa.
         Em Cristo e Maria, seu
                                               + Fernando Guimarães
                                         Bispo Diocesano de Garanhuns

O que está acontecendo na Igreja?

Allan Lopes

Em primeiro lugar, é necessário compreendermos que não estamos em tempos tranqüilos, de paz, como se o mundo vivesse sob o jugo da Lei de DEUS. Não. Os estados se deixaram levar pelo espírito moderno, subjetivista, onde o egoísmo é o centro, fundamento e princípio de toda ação humana, seja na lei, na ética, moral, ou mesmo dentro dos lares.

Nesta postagem não pretendo me estender no diagnóstico da sociedade hodierna, visto que os trágicos problemas que assolam as famílias são evidentes para qualquer coração que busca a santidade; o pecado é lei, enquanto a santidade, como já em vigor em alguns lugares, é crime.

Ora, a Igreja de Nosso Senhor, a única, é composta por homens que provém desta sociedade enferma, que às vezes parece que em 'fase terminal'. Contudo, além da Igreja ser divina, o que já seria o suficiente para trazer paz aos ânimos perturbados, as 'doenças', como mal de pena que são, nos comunicam uma boa notícia: falta algo, o bem não se encontra plenamente aí. Esta é a função do mal de pena, diferentemente do mal de culpa, que é em si mesmo abominável.

O mal de pena, criado por DEUS, como nos ensina os Doutores Agostinho e Tomás, é um presente para nós; pois do contrário, não poderíamos jamais encontrar a cura se não soubéssemos que estamos enfermos. Grande é o bem que o mal de pena nos concede. Imagine assim, se não tivéssemos dores no corpo, este seria mutilado já na primeira semana de vida, pois não haveria nada que pudesse remetê-lo ao bem perdido, neste caso a saúde. Algo análogo ocorre com a alma, e mesmo com a Santa Igreja de DEUS, Santa e Católica; ocorre que o Senhor quer purificar-nos todos, pois sem esta purificação, perecemos. Bendita dor! Bendita cruz! Bendito sofrer!

Mas, o mal de pena não consegue chegar a ato, ou seja ao fim de seu movimento, se nossa vontade não estiver submetida aos desígnios de DEUS. Portanto, a dor e a angústia, boas em si mesmas para nos advertir a ausência de bem, tornam-se más quando não sabemos lidar com elas, ou no dizer do Doutor Angélico, 'quando não são ordenadas pela razão'.

Além da concupiscência da carne, que tanto assola os pequeninos de DEUS, temos o mundo e os espíritos que estão sob seu jugo, os anjos decaídos. Entendamos um pouco mais como é este que este espírito imundo age nos eleitos.

Ora, este espírito moderno é um espírito de retrocesso e apostasia. É o espírito da mulher de Lot, que se vira para trás (Gn XIX, 26), o dos murmuradores de Israel que, tendo o maná, tinham saudade das cebolas do Egito (Num XI). E não seria exagero dizer que a vida da sociedade atual, germinada no século XIV, quando a Cristandade acaba de alcançar o auge no século XIII, é semelhante a do cão que volta a seu vômito (Pr XXVI, 11; II Pd 2). Desta maneira, nos parece esclarecido que a modernidade não é propriamente um processo de decadência, se entendermos por decadência o processo de envelhecimento natural de qualquer organismo corruptível. E este espírito moderno, que mostra sua força com muita clareza no século XIV, como dito acima, é uma reação da carne às exigências da santidade, pois ninguém pode morrer de velhice na plenitude da idade.

Escuso-me de citar aqui várias passagens do livro de cabeceira de santos e de papas, A Imitação de CRISTO, a este respeito, por serem conhecidos de muitos dos meus leitores. Penso que todos compreendemos esta rebelião da carne às exigências da santidade que o DEUS Revelador nos trouxe plenamente em CRISTO JESUS. Mas, permitam-me citar um trecho dos sermões de Santo Antônio de Lisboa:
Quando se completaram os dias do Pentecostes, estavam todos os discípulos juntos no mesmo lugar etc.
 
Diz Ezequiel: O espírito de vida estava nas rodas. As rodas volúveis foram os Apóstolos, que levaram o FILHO de DEUS por todo o mundo. Estas rodas, como o mesmo profeta ajunta, tinham aspecto como duma visão de pedra de crisólito. O crisólito refulge como o ouro. E daqui é que lhe vem o nome, pois chrysós, em grego, quer dizer ouro. Esta pedra parece irradiar centelhas de fogo e afugenta todo o gênero de serpentes. Simboliza os Apóstolos, que irradiaram com o ouro da graça semptiforme as centelhas da pregação, incendiando os outros. Com elas afugentaram todo gênero de demônios. Nestas rodas, como se lê no mesmo profeta, havia uma grandeza, uma altura e uma aspecto horrível. De fato, nos Apóstolos houve grandeza na retidão da doutrina, altura na elevação da superna promessa, mas aspecto horrível nas ameaças e terrores do suplício vindouro.

Daí a fala do penitente nos Cânticos: A minha alma ficou toda perturbada por causa dos carros de Aminadab. Aminadab interpreta-se ‘espontâneo’, e significa JESUS CRISTO, que espontaneamente se ofereceu por nós na cruz. Os seus carros foram os Apóstolos. Deles refere Habacuc: Os teus carros são a salvação, isto é, por sua causa dás a salvação; por sua causa, ou seja, pela pregação de convite à penitência, a minha alma, diz o penitente, ficou perturbada. Donde Habacuc: Enviaste para o mar os teus cavalos, que perturbaram as muitas águas; eu ouvi e as minhas entranhas comoveram-se. O Senhor enviou para o mar os seus cavalos, isto é, enviou ao mundo os seus Apóstolos, que perturbaram as muitas águas, isto é, muitos povos, com a sua pregação penitencial. Eu ouvi a pregação deles, diz o penitente, e as minhas entranhas, isto é, a minha carnalidade, comoveram-se”.

Alguns teólogos, conscientes de que o organismo social é regido por leis análogas às do indivíduo, tanto na ordem natural como na da graça, comparam a Cristandade do final do século XIII como a alma que sai da quinta morada, para usar a linguagem da Doutora de Ávila e da do Doutor da Noite Escura (Cf. Pe. María-Eugenio del Niño Jesús): já passou a noite dos sentidos, e a alma se encontra purificada, iluminada pela sabedoria divina e gozando de grande paz; mas DEUS a chama a uma altíssima união, e ainda resta nela a radical inépcia e impureza do homem velho. A altura da vocação divina à santidade e a profundidade das raízes do mal na natureza humana são as causas do drama da noite do espírito que leva à união transformante da sétima morada. O espírito moderno é, assim, o espírito que combate os santos na terrível noite purificadora; que se arraiga nos defeitos mais espirituais da carne e do mundo: a prudência carnal diante dos exageros da santidade, uma falsa misericórdia diante dos rigores da justiça divina, o horror diante da exigência do martírio (fortaleza), a nostalgia das alegrias lícitas (temperança); mas que consiste sobretudo no poder que o maligno recebe para peneirar como trigo os eleitos: "Disse, pois o Senhor a Satanás: Eis que ele está em tua mão; conserva, porém, a sua vida". (Jó II, 6).

A diferença dos organismos, ditos acima, é a seguinte: a santidade pode dar-se em poucos de modo extraordinário, mas não em toda a sociedade, porque o batismo não elimina as feridas do pecado original, e porque a natureza do homem tende na maioria ao mal; por isso os santos não reinarão senão depois da ressurreição geral, e, enquanto durar esta noite, não se deve esperar da ordem política senão que sirva de instrumento a Satanás ¹. Esta última luta da carne contra o espírito purificador da alma que chega à santidade traduz-se na ordem social numa rebelião dos Estados contra a Igreja:

1° DEUS, sim, CRISTO, sim, Igreja não;
2° DEUS, sim, CRISTO, não, Igreja, não;
3° DEUS, não, CRISTO, não, Igreja, não;
 
Traduzindo:
1° O grito diabólico da Alemanha luterana.
2° O grito diabólico da França iluminista.
3° O grito diabólico da Rússia comunista.

Daí o papel fundamental das Aparições do Santo Anjo e da Virgem em Fátima: "(...) a Rússia espalhará seus erros pelo mundo (...)". As súplicas do Santo Anjo e da Virgem parecem urgir sempre mais: penitência, penitência, penitência; muitas almas vão para o inferno por não ter quem se ofereça por elas. Eis o que considero como a maior colaboração que podemos oferecer para a reforma da Igreja, sem a qual, penso, não há como ter frutos qualquer atividade apostólica: sermos vítimas de amor em reparação pelos ultrajes cometidos contra o Senhor e contra o Imaculado Coração de MARIA.

A vida interior é mais importante que a vida intelectual, a vida comunitária, a vida familiar etc. Sem a vida interior não teremos reforma alguma, se nem de nós mesmos, que dirá da Igreja, que passa dias difíceis (muito antes destes escândalos sexuais virem à mídia).

Voltemos para o diagnóstico que acusa a ação deste espírito que rege a modernidade. Para entregá-la a Satanás, DEUS espera que alma amadureça, sobretudo quanto à sabedoria e à caridade, porque o demônio combate principalmente com o egoísmo e a mentira. E os teólogos tradicionais afirmam ser este o motivo pelo qual Nosso Senhor esperou sua Igreja contar com a sabedoria de São Domingos e a caridade de São Francisco para permitir que se abrissem as portas do inferno: "Abriu o poço do abismo, e subiu uma fumaça do poço" (Ap IX, 2). Essa fumaça de Satanás que "escureceu o sol e o ar" (ibid.), ou seja, a fé e a razão, é um sutil sistema de sofismas que tem como primeiro princípio de egoísmo e mentira - princípio de ordem prática - a exigência de liberdade: "O fim do diabo é separar de DEUS a criatura racional; razão por que desde o princípio ele tentou separar o homem da obediência ao divino preceito. E a mesma aversão a DEUS tem razão de fim quanto é apetecida sob pretexto de liberdade, segundo o que se lê em Jeremias (II, 20): 'Tu, desde o princípio, quebrastes o meu jugo, rompeste os meus laços, e dissestes: Não servirei'. Quando, pois, alguns são conduzidos a esse fim pecando, caem sob o governo e direção do diabo" (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q. 8, a. 7). E estes teólogos concluem dizendo ser muito acertado dar ao mal chamado espírito "moderno" o nome de "liberalismo".

E mais claro ainda percebe-se em que mal se encontra a sociedade liberal e suas apetências quando, por exemplo, vemos suas produções em massa de produtos promíscuos, pérfidos, sujos e com o odioso fedor de enxofre que trazem aos que nelas se encerram drasticamente. E toda analogia destes gritos liberais com o de Lúcifer, Adão, Caim (...), Judas, Lutero, e todos os que se submetem a este esquadrão, longe de parecer um devaneio pueril, é a mais pura claridade diante destes problemas tão difíceis de resolver, ou mesmo impossível, somente sob a luz da razão. O que não é difícil de constatar é a natureza e causa das atrocidades, guerras e crimes impensáveis que se surgiram depois do ‘cogito ego sum’ cartesiano, do agnosticismo kantiano, do niilismo nietizchiano, do materialismo marxista e tantos sofismas que se ergueram da negação, seja parcial ou total, da metafísica.

A urgência do pedido de Fátima, ou seja, a reparação pelos pecadores, onde somos os primeiros, para a glória de DEUS e por meio de MARIA Santíssima, é para nós a única solução dos problemas, sejam os de nossos lares, sejam os de nossa nação, sejam os da Igreja de Nosso Senhor.

Infelizmente, a mentalidade liberal incentivou as almas a uma pastoral, uma vida apostólica, sem estarem sob o julgo dos dogmas cristãos, sem estarem solidificados na vida espiritual, a vida da alma. Entregues aos apetites da carne, não mais submetidas à razão, os cristãos mais desejosos de viver a santidade, se viram diante de limites intransponíveis, caindo muitas vezes, e alguns, para tristeza de qualquer fiel católico, jamais levantaram, apostatando a fé, caindo em heresias, e perdendo assim o maior tesouro de suas vidas: JESUS Sacramentado, que em toda Santa Missa quer ardorosamente o nosso coração, mesmo sendo um presépio inóspito, muito pior que o dos animais, como que Seu Céu, onde ELE possa Reinar e dar assim a este coração, proporcionalmente, claro, a mesma alegria que tem na TRINDADE Santíssima.

Muitos católicos, levados por este espírito liberal subjetivista, ainda que ardentes da glória extrínseca de Nosso Senhor, venderam a glória do Senhor pela 'liberdade' do homem sem DEUS, 'livrando-o' de dogmas, condenações e definições, estas que eram a máxima manifestação da misericórdia de DEUS, no dizer de São Paulo: que pai não corrige e mesmo açoita seu filho? Mas, cegos, os cristãos assim foram navegar em direção as trevas por estarem ofuscados pela luz da verdade que exige daqueles que a amam, a renúncia e o último lugar, a humildade de reconhecer que suas obras são feitas em DEUS, e não por usas próprias forças: "E a causa desta condenação é: a luz veio ao Mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; pois eram más as suas obras. Porquanto todo aquele, que pratica o mal, aborrece a luz, e não se chega para a luz, para que não sejam argüidas as suas obras; mas aquele, que (obra) pratica a verdade, chega-se para a luz, para que suas obras sejam manifestas, porque são feitas em DEUS" Jo III, 19-21.

Já me alonguei demais. E o que quero afirmar veementemente não é outra coisa senão assumir a nossa vocação de povoar não só a terra, mas principalmente o céu, reparando e oferecendo-nos como vítimas de amor.

Imaculado Coração de MARIA Santíssima, sede nossa salvação!
Salve MARIA!
 
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¹Certamente houve muitas comunidades santas, como a dos primeiros cristãos, houve não poucos reis santos; entretanto, nunca houve nem pode haver uma sociedade política completa, com autoridades e leis, em que a santidade seja o comum. E, como só a virtude heróica pode resistir a Satanás solto, poderão resistir a ele pessoas, famílias e grupos, mas - se não se abreviam os tempos - os Estados terminam por cair nas mãos dele. Os raros justos que chegam a chefes dos Estados modernos terminam mártires, como García Moreno.

Postado por mim originalmente no Orkut.

Exemplos de amor ao Papa!

“Na Igreja há joio, mas Deus continua presente”, afirma Papa

Convida os cristãos de todas as confissões à esperança
CIDADE DE VATICANO, quinta-feira, 20 de maio de 2010 (ZENIT.org). "O joio também existe dentro da Igreja e entre aqueles que Deus trouxe para seu serviço de modo particular. Mas a luz de Deus não diminuiu, o grão bom não foi sufocado pela semeadura da injustiça."

Com esta mensagem, Bento XVI quis mostrar sua proximidade e apoio ao segundo Kirchentag ecumênico que se celebrou até domingo, na cidade de Munique, e que juntou os cristãos católicos, ortodoxos e luteranos.

O Pontífice enviou uma saudação cordial "a todos os reunidos na Theresienwiese em Munique", especialmente a Dom Reinhard Marx, arcebispo de Munique (diocese que o próprio Joseph Ratzinger presidiu antes de ser cardeal), e ao bispo luterano regional, Johannes Friedrich.

"Em um momento difícil, quereis enviar um sinal de esperança à Igreja e à sociedade. Por isso, vos agradeço muito. Na realidade, nosso mundo necessita de esperança, nosso tempo necessita de esperança", afirmou o Papa.

Porém, as notícias dos últimos escândalos relacionados com o clero, reconheceu "querem acabar com a alegria na Igreja, a obscurecerem como lugar de esperança".

Perante esta realidade, o Papa convidou os presentes a admitirem que o joio "existe também dentro da Igreja e entre aqueles que Deus trouxe para seu serviço de modo particular".

Mas, observou, "a luz de Deus não diminuiu, o grão bom não foi sufocado pela semeadura da injustiça".

"A Igreja é então um lugar de esperança? Sim, por causa dela nós recebemos sempre e novamente a Palavra de Deus, que nos purifica e nos mostra o caminho da fé. O é, porque nela o Senhor continua nos doando a si mesmo, na graça dos sacramentos, na palavra da reconciliação, nos múltiplos dons de sua consolação. Nada pode escurecer ou destruir tudo isso."

Consequentemente, convidou os participantes da Kirchentag de Munique a "não perder de vista o bem e os bons", essas "pessoas comuns, que não são mencionadas no jornal nem citadas em nenhuma crônica, mas que a partir da fé vão amadurecendo, alcançando uma grande humanidade e bondade".

"Graças a Deus, em nossas cidades há muito mais que dez justos! Se hoje nós estamos um pouco atentos, se nós não percebemos somente a escuridão, mas também o que é claro e bom em nosso tempo, vemos como a fé torna os homens puros e generosos e os educa no amor."


Vida eterna

O Papa convidou todos a perguntar-se "o que é verdadeiramente a esperança".
"As coisas que podemos fazer por nós mesmos não são objeto da esperança, mas mais uma tarefa que devemos realizar" afirmou. Mas "não podemos fazer as coisas maiores, as quais nos chegam como dom: a amizade, o amor, a alegria, a felicidade".

A boa notícia da fé "consiste precisamente nisto: existe aquele que nos pode dá-la. Não fomos abandonados. Deus vive. Deus nos ama. Em Jesus Cristo, Ele se transformou em um de nós".
O maior objeto da esperança, continuou, é a vida eterna e, porém, "quase ninguém fala hoje da vida eterna, que no passado era o verdadeiro objeto da esperança. Considerando que a pessoa não ousa acreditar nela, é necessário esperar obter tudo da vida presente".

"Desprezar a esperança na vida eterna leva à avidez por uma vida aqui e agora, que se converte, quase inevitavelmente, em egoísmo e que, ao final, permanece irrealizável. Exatamente quando queremos nos apoderar da vida como um tipo de bem, ela nos escapa", complementou.

Por isso, convidou todos, "na confusão de nossos tempos, que nos persuadem, a crer em tantos outros caminhos", como disse Pedro a Jesus: "Senhor, para onde iremos? Tu tens palavras de vida eterna e nós acreditamos e sabemos que és o Santo de Deus".

"Desejo-vos que sejais novamente transbordados da alegria de poder conhecer a Deus, de conhecer a Cristo e de que Ele nos conheça. Esta é nossa esperança e nossa alegria em meio às confusões do tempo presente", concluiu.

Mamãe Margarida a um futuro sacerdote


Transcrevo aqui um trecho do livro "Memórias", São João Bosco. São João Bosco às vésperas de entrar no seminário.


A 30 de outubro daquele ano, 1835, devia estar no seminário. O pequeno enxoval estava preparado. Todos os parentes estavam contentes, e eu mais do que eles. Somente minha mãe se mostrava preocupada e não desviava os olhos de mim, como se quisesse dizer alguma coisa. Na tarde anterior à partida, chomou-me e disse estas memoráveis palavras:

- "Meu Joãozinho, acabas de vestir a batina. Sinto toda a consolação que uma mãe pode sentir pela alegria do seu filho. Lembra-te, porém, que não é o hábito que honra o teu estado, mas as virtudes que praticares. Se por desgraça vieres um dia a duvidar de tua vocação, ah! por caridade! não desonres a batina. Larga-a imediatamente. Prefiro ter como filho um pobre camponês a um padre nelgigente nos seus deveres. Quando nacestes eu te consagrei a Nossa Senhora; quando começaste os estudos, eu te recomendei a devoção a nossa Mãe. Pois agora também recomendo-te que sejas todo dela. Ama os companheiros devotos de Maria. E se chegares a ser sacerdote, recomenda e propaga sempre a devoção a Nossa Senhora".


O grande Sonho

Para edificar as almas.

“Dom Bosco encontrava-se em Lanzo Torinese, no colégio Salesiano.
Era noite de 6 de dezembro. Eis o que ele próprio narrou:

“Pareceu-me em dado momento encontrar-me sobre uma pequena elevação de terra, à borda de imensa planície, cujos limites a vista não podia atingir. Era toda azul, como o mar em calmaria. Mas não era o mar. Parecia imenso cristal reluzente e muito terso. A planície dividia-se em vastíssimos jardins de inenarrável beleza... No meio do jardim elevavam-se edifícios magníficos, vastos, harmoniosos e em perfeita ordem. Pensava comigo mesmo: Oh, se possuísse uma só dessas casas para meus jovens!...

Eis que se difunde pelos ares uma música extremamente suave... Pareciam-me cem mil instrumentos de uma orquestra paradisíaca... E um coro infinito de pessoas cantava: ‘Honra e Glória a Deus, Pai Onipotente, Criador do Mundo...’.

Enquanto ouvia aquela melodia divina, meus olhos descortinaram uma numerosa turba de jovens. Conhecia alguns: eram os meus alunos do Oratório. Mas os outros, numerosos como as estrelas do céu, não os vira nunca. O imenso cortejo vinha em minha direção, tendo à frente de todos Domingos Sávio.

O cortejo para, cessa a música. Brilhou um raio de luz muito viva. Domingos aproximou-se tanto que se houvesse estendido uma das mãos poderia tocá-lo. Olhava-me em silêncio e sorria.

Como estava bonito! Uma túnica candidíssima descia-lhe até os pés, toda entretecida de ouro e de diamantes. Ampla faixa vermelha cingia-lhe os flancos. No pescoço, uma jóia de valor inestimável: um ramalhete de flores formado de pedras preciosas. As flores resplandeciam de luz tão viva que rivalizavam com uma manhã de primavera. Seu rosto estava tão iluminado que era difícil fixá-lo. Parecia um anjo.

Pensava com meus botões: que significa tudo isso? Como é que vim parar neste lugar? Mas Domingos sorriu e me disse:

- Por que está tão calado?... Por que não fala?

Balbuciei:

- Não sei o que dizer... Você é Domingos Sávio?

- Sim, sou eu. Não me reconheces mais?

- E como é que você está aqui?

- Vim para falar-lhe – respondeu afetuosamente Domingos – Lembra quantas vezes conversamos na terra? Quantos sinais de amizade e bondade o senhor me deu! E eu, também, quanta confiança depositava no senhor! Por que está assim tão assustado? Por que treme? Vamos, pergunte alguma coisa.

Criei coragem e perguntei:

-Onde estamos?

- Estamos no lugar da felicidade.

- Então isto é o paraíso?

- Oh, não! – sorriu Domingos. – Aqui não se gozam os bens eternos, mas somente os bens naturais amplificados pelo poder de Deus.

- E o que é que vocês gozam no céu?

- Impossível dizer! Ninguém pode saber antes de unir-se a Deus na vida futura. Goza-se Deus! Eis tudo!

Sentia-me agora mais encorajado, e perguntei a Domingos:

-Por que tem uma veste tão branca e bonita?

Domingos não respondeu, mas o coro recomeçou a cantar estas palavras:

‘Estes são os que cingiram os flancos com a mortificação e lavaram sua veste no Sangue do Cordeiro... ’.

E por que – perguntei, ao findar o canto – por que você está cingido com essa faixa vermelha?

Também desta feita Domingos não respondeu, mas ouvi cantar:

‘São os que conservaram a pureza e acompanham o Cordeiro divino aonde quer que Ele vá!’.

Compreendi então que aquela faixa vermelha, cor de sangue, era o símbolo dos enormes sacrifícios, dos violentos esforços e como que do martírio sofrido para conservar a virtude da pureza. Significava que para manter-se casto à presença de Deus, Domingos estava disposto a dar a própria vida. Era também o símbolo das penitências que purificam a alma dos pecados...

- Diga-me, Domingos – continuei -, por que você está à frente deste grande cortejo?

- Porque sou embaixador de Deus.

- Então vamos falar de coisas importantes. Que me diz do passado?

- Sua Congregação já fez muito bem no passado. Muitíssimas almas foram salvas. Mas seriam muito mais se o senhor tivesse tido mais fé e mais confiança em Deus.

Gemi suspirando... e disse:

- E do presente, que me diz?

Domingos mostrou-me o magnífico ramalhete de flores que trazia nas mãos. Era feito de rosas, violetas, espigas de trigo, gencianas, lírios e semprevivas. Ofereceu-mo e disse:

- Apresente-o a seus filhos, para que possam oferecer a Nosso Senhor. Faça com que todos o tenham que ninguém fique sem ele!

- Mas, que significa essas flores?

- Não sabe? Entretanto devia saber! A rosa é símbolo da caridade, a violeta da humildade, a genciana da penitência e mortificação, as espigas de trigo da Comunhão freqüente, o lírio da bela virtude, da qual está escrito: serão como Anjos de Deus no céu, a castidade. E a sempreviva significa que todas essas virtudes devem durar sempre: a perseverança.

- Diga-me, Domingos. Você que praticou essas virtudes na terra, que é que mais o consolou na hora da morte?

- O que mais me confortou na hora da morte foi a assistência da poderosa e amável Mãe de Deus! Diga isso a seus filhos. Que não se esqueçam de invocar Nossa Senhora durante toda a vida!...

- E para mim, o que é que você tem a dizer?

- Oh, se soubesse quantas lutas deve ainda travar por Deus!

- E meus jovens? Estão no bom caminho? Diga-me algo para que eu possa ajudá-los.

- Seus jovens podem dividir-se em três categorias. Veja estas três listas.

Olhei. A primeira tinha como título a palavras: invulnerati. Eram os que o demônio não tinha podido ferir, e conservavam ainda intacta a inocência. Eram em grande número, e os vi a todos, presentes e futuros. Caminhavam firmes por um mesmo caminho, apesar de alvejados por setas e golpes de espadas e de lanças provindos de todos os lados. Tais armas, que formavam como uma sebe ao longo dos dois lados da rua, combatiam e molestavam esses jovens, sem entretanto os ferir.

Domingos apresentou-me em seguida a segunda lista. Trazia escrito: vulnerati. Eram os que se achavam na desgraça de Deus, mas agora, novamente de pé, tinham curado as feridas pelo arrependimento e pela confissão. Formavam um número maior que os primeiros. Li a lista e os vi a todos. Muitos caminhavam recurvos e desanimados.

Domingos tinha nas mãos uma terceira lista. Trazia escrito: Lassati in via iniquitatis. Estavam relacionados os nomes de todos os que se encontravam na desgraça de Deus. Queria ler a lista, e estendi a mão. Mas Domingos me disse com energia:

- Não! Aguarde um instante. Se abrir esta folha se exalará um mau cheiro tão forte que nem o senhor nem eu poderíamos suportar. Os Anjos devem retirar-se horrorizados. O Espírito Santo sente asco do cheiro horrível do pecado... Agora tome-a, abra-a, e saiba tirar proveito para seus jovens. Ditas essas palavras, retirou-se, como se quisesse fugir.

Abri a lista. Não li nome algum, mas à simples vista tive presentes todos os indivíduos que nela constavam. Vi-os a todos, e com grande amargura... Vim muitos que são considerados pelos colegas como jovens bons, ótimos até, mas que infelizmente não são tais...

Mas no ato de abrir a olha espalhou-se um mau cheiro insuportável. Assaltou-me logo agudíssima dor de cabeça e uma ânsia de vômito que receava morrer.

Tudo à volta escureceu. Desfez-se a visão celeste. De contínuo um raio cintilou e ribombou um trovão tão forte e terrível que acordei todo assustado. Corri os olhos ao redor e vi apenas meu quarto.

Tudo havia desaparecido”.

Consulte o Denzinger - Hünermann em nosso site


No fim do site está disponível o Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. Aproveitem!

O homem “transformado” em anjo (I)

Sidney Silveira
 
Como ensina Santo Tomás, a essência das coisas materiais abstraída de suas notas individuantes (quidditas rei materialis abstracta a notis individuantibus) é o objeto formal próprio da inteligência humana, ou seja, aquilo a que esta primeiramente se dirige. E essa abstração é o nosso modo específico de conhecer, que, como o demonstra eloqüentemente a experiência, não é por intuição direta das essências das coisas, como supusera Edmund Husserl — num erro gnosiológico fundamental que traria dramáticas conseqüências para a filosofia do século XX, a começar por Heidegger e, depois, por Sartre*.

Se, de fato, a nossa inteligência chega à verdade por uma espécie de atalho intuitivo, isto significa que não precisamos disciplinar-nos, estudar com afinco, para a obtenção do conhecimento; não precisamos combater paixões que obliterem os atos próprios da inteligência; não precisamos dos signos sensíveis da religião (Magistério, sacramentos e Escritura), já que o nosso relacionamento com Deus será intuitivo e, portanto, direto, sem intermediários de qualquer ordem; não precisamos de mestres que nos encaminhem às verdades mais altas; etc. Ou, melhor dizendo, não precisaríamos de tudo isso se, de fato, conhecêssemos as coisas por intuição direta de suas essências. E este é o caso não dos homens, e sim dos anjos — de acordo com a teologia católica tradicional.

Vejamos:

1- Justamente por terem o conhecimento por intuição direta, os anjos não precisam de um mestre para chegar às verdades que estão aptos a conhecer, as quais são captadas por eles no ato, ao contemplar qualquer ente (daí Tomás de Aquino dizer que o anjo vive entendendo). Aqui, no entanto, é preciso fazer uma ressalva: para o Angélico Doutor, um anjo pode ensinar a outro de espécie inferior, iluminando-lhe** a inteligência com a manifestação de uma verdade mais universal a que tem acesso naturalmente, dada a sua superioridade (observe-se que estamos ainda no plano da natura, ou seja: não nos referimos ao conhecimento de algo sobrenatural, mas ao conhecimento de uma verdade sob um conceito mais universal de um anjo em relação ao outro que lhe seja inferior quando à espécie. Uma verdade acerca de algo que está, portanto, além das possibilidades do anjo inferior. Isto é muito diferente do caso do homem, que precisa do mestre até mesmo para conhecer as coisas a que está naturalmente capacitado).
2- Os anjos não precisam ordenar paixões que impeçam o conhecimento pelo simples fato de que não as têm — porque lhes falta o apetite sensitivo, raiz de todas as paixões***.
3- Os anjos não precisam de disciplina nem de nenhum tipo de ascese para conhecer, pois as formas inteligíveis lhes são absolutamente conaturais e, por isso, sequer pode haver erro ou falsidade em seu conhecimento natural (obviamente, isto não se aplica ao conhecimento que os anjos têm das coisas sobrenaturais, para as quais precisam do auxílio divino).
4- Os anjos não precisam da Escritura, porque Deus lhes faz revelações diretas (cf. Suma Teológica, I, q. 58, a.1, resp.), nem de sacramentos (que são signos sensíveis da Graça, e o anjo, não possuindo sensibilidade, não precisa de sinais sensíveis para ter acesso à realidade), nem do Magistério eclesiástico, em sentido próprio, o que decorre de tudo o que foi dito acima.

Voltemos agora a nós, míseros humanos. Quais teriam sido as principais conseqüências do intuicionismo husserliano e de seu método fenomenológico, que ainda hoje deixam ressonâncias para várias correntes filosóficas? É o que veremos no próximo texto sobre o tema.

* A Sartre e a Heidegger nos referiremos noutra ocasião.
** Explica o Aquinate o sentido de "iluminação", no caso específico de que nos ocupamos (ou seja: que não diz respeito à teoria agostiniana da iluminação): “A luz, no que se refere ao entendimento, não é outra coisa senão a manifestação da verdade. (...) Iluminar, pois, não é mais do que dar a outro a manifestação de uma verdade conhecida”. (Suma Teológica, I, q. 106, a.1, resp).
*** A paixão, ensina-nos Santo Tomás seguindo a São João Damasceno, é o movimento do apetite sensitivo pela imaginação de um bem ou de um mal. A paixão é, portanto, sempre psicofísica, abrange corpo e alma.

EL SANTO ROSARIO, PRENDA DILECTA DEL INMACULADO CORAZÓN DE MARÍA

ANTONIO ROYO MARÍN, O.P.

La meditación de los principales misterios de la vida de Jesús y de Mana constituye como el alma del Rosario, así como el rezo vocal de los Padrenuestros y Avemarías constituye como su cuerpo material. Ambas cosas son absolutamente necesarias para que exista el Rosario. Quien se limitare a rezar los Padrenuestros y Avemarías, pero sin meditar en los misterios, haría, sin duda, una excelente oración, pero no rezaría el Rosario. Y el que meditara atentamente los misterios, pero sin rezar los Padrenuestros y Avemarías, haría una excelente meditación, pero es claro que tampoco habría rezado  el Rosario. Para que exista el Rosarios preciso, imprescindiblemente, juntar las dos cosas: rezo de las oraciones y meditación de los misterios.
 
¿De qué modo se puede rezar eficazmente el Rosario?
 
Para obtener del santo Rosario toda su eficacia impetratoria y santificadora, es evidente que no basta rezarlo de una manera mecánica y distraída, como podría hacerlo una cinta magnetofónica. Es preciso rezarlo digna, atenta y devotamente, como cualquier otra oración vocal.
 
En teoría hay que reconocer que es difícil rezar bien el Rosario, precisamente porque hay que juntar la oración vocal con la mental, so pena de invalidarlo en cuanto Rosario. Pero en la práctica es fácil encontrar algunos procedimientos que ayudan eficazmente al rezo correcto y piadoso de la gran devoción mariana.
 
El Rosario debe rezarse dignamente. Esta primera condición exige, como programa mínimo, que el rezo del Rosario se haga de una manera decorosa, como corresponde a la majestad de Dios, a quien principalmente dirigimos nuestra oración.
 
El mejor procedimiento es rezarlo de rodillas ante el Sagrario o ante una devota imagen de María, pero en general puede rezarse en cualquier otra postura digna modestamente sentado, paseando por el campo, etc. Sería indecoroso rezarlo en la cama- salvo por razón de enfermedad, o interrumpiéndolo constantemente para contestar a preguntas ajenas al rezo, o en un lugar público y concurrido que hiciera poco menos que imposible la atención.
 
El Rosario debe rezarse atentamente. La atención es necesaria para evitar la irreverencia que supondría si fuera plenamente voluntaria. ¿Cómo queremos que Dios nos escuche, si empezamos por no escucharnos a nosotros mismos?
 
Sin embargo, no toda distracción es culpable. No tenemos el control despótico sobre nuestra imaginación, sino únicamente político, y no podemos evitar que se nos escape sin permiso, como un siervo desobediente e indómito, que tal es "la loca de la casa" (la imaginación). Las distracciones involuntarias no invalidan el efecto meritorio e impetratorio de la oración, con tal que se haga lo posible por contenerlas y evitarlas. Escuchemos a Santo Tomás explicando admirablemente este punto interesantísimo al preguntarse "si la oración debe ser atenta":
 
"Esta cuestión afecta principalmente a la oración vocal. Y para resolverla con acierto hay que distinguir, en primer lugar, lo que es mejor y lo que es absolutamente necesario. Es evidente que para obtener el fin de la oración es mejor que sea atenta. Sin embargo, si nos fijamos en lo que es absolutamente necesario, hay que distinguir en la oración un triple efecto: meritorio, impetratorio y cierto espiritual deleite que produce en el alma del que ora.
 
"Para los efectos meritorio e impetratorio, no es necesario que la oración sea atenta de una manera constantemente actual (o sea, todos y cada uno de los momentos) sino que basta y es suficiente la atención virtual, que es aquella que se puso al principio de la oración y perdura a todo lo largo de ella aunque se produzcan distracciones involuntarias. Desde luego, si faltara la primera intención, la oración no sería meritoria ni impetratoria. En cambio, la atención actual es absolutamente necesaria para obtener aquel espiritual deleite que lleva consigo la oración fervorosa, que es incompatible con la distracción, aunque sea involuntaria.
 
"Téngase en cuenta, además, que en la oración vocal puede ponerse una triple atención. La primera y más imperfecta se refiere a la correcta pronunciación de las palabras de que consta. La segunda se fija en el sentido de esas palabras. La tercera, finalmente, pone todo su empeño en el fin de la oración, o sea, en Dios y en la cosa por la que se ora. Esta última es la más importante y necesaria y pueden tenerla incluso las personas de cortos alcances o que no entienden el sentido de las palabras que pronuncian (por ejemplo, por rezar en latín). Esta última atención puede ser tan intensa que arrebate la mente a Dios, hasta `el punto de hacernos perder de vista todas las demás cosas".
 
Teniendo en cuenta estos principios del Doctor Angélico y con el fin de facilitar la atención en el rezo del santo Rosario y extraer de él su máxima eficacia santificadora, puede seguirse el siguiente método, que ha sido ensayado con éxito por muchas personas que sufrían distracciones en el rezo del mismo:
 
1°. Durante el rezo del Padrenuestro, fijarse únicamente en el sentido maravilloso de cada una de las palabras, sin pensar para nada en el misterio correspondiente del Rosario, ya que es psicológicamente imposible atender eficazmente a dos cosas a la vez.
 
2°. Durante el rezo de las tres primeras Avemarías, fijarse exclusivamente en el sentido de esas Avemarías, saludando a la Virgen con ellas y sin tener para nada en cuenta el misterio a que pertenecen, por la razón ya indicada.
 
3°. Durante el rezo de las tres siguientes Avemarías, pensar solamente en el misterio correspondiente que se está rezando, sin pensar para nada en las Avemarías que se recitan.
 
4°. Durante las tres o cuatro Avemarías finales, pensar sólo en las consecuencias prácticas que se desprenden del misterio correspondiente (ej.: humildad de María, su amor a la cruz, etc.)
 
5°. Durante el Gloria, pensar únicamente en glorificar con él a la Santísima Trinidad.
 
En segundo término, el Rosario ha de rezarse devotamente. La devoción consiste en una prontitud del ánimo para las cosas tocantes al servicio de Dios. Es imposible que el alma no se sienta llena de devoción si reza tan perfectamente como le es posible el Rosario.
 
Una cosa importantísima hemos de advertir aquí. El fin principal de toda oración vocal o mental es unir el alma con Dios de la manera más íntima realizable. Todo lo demás, incluso la impetración de las gracias que pedimos, es secundario en relación a esta finalidad suprema. De donde hay que concluir que, si durante el rezo del Rosario o de cualquier otra oración vocal no obligatoria se sintiera el alma llena de un amor de Dios tan intenso que el rezo le resultara muy penoso o poco menos que imposible, habría que suspender inmediatamente el rezo sin escrúpulo alguno, para "dejarse abrasar en silencio" por aquella llama de amor viva "que sabe a vida eterna y paga toda deuda" como dice San Juan de la Cruz.
 
El rezo del Rosario en las condiciones que acabamos de indicar constituye una de las más grandes y claras señales de predestinación que podemos alcanzar en este mundo, al reunir la eficacia infalible de la oración impetratoria de la perseverancia final y la poderosísima intercesión de María como mediadora universal de todas las gracias. Quiera Dios conceder a cada uno de los lectores el deseo ardiente de un gran devoto de la Virgen en su doble advocación del Carmen y del Rosario:
Cuando con blanco sudario
cubran los despojos míos,
¡sálveme tu escapulario
y tengan mis dedos fríos
las cuentas de tu Rosario!

AGNOSTICISMO KANTISTA, Criticismo transcendental - Leonel Franca

Pe. Leonel Franca S.J.

Do agnosticismo empírico nas suas diferentes modalidades passamos ao agnosticismo subjetivista que reconhece em KANT o seu iniciador nos tempos modernos. Com esta transição variam as razões fundamentais da atitude agnóstica, atenua-se notavelmente a rigidez das primeiras exclusões do positivismo ortodoxo, mas permanece ainda substancialmente idêntico o resultado final, a essência de todo o agnosticismo, constante em afirmar a impossibilidade insanável de chegarmos por via racional a uma certeza da existência de Deus.
 
Para o empirismo nominalista, os nossos conceitos não passam de simples imagens compósitas; os princípios racionais – e entre eles, o de causalidade – de meras associações de imagens formadas pela experiência dos indivíduos e organizadas biologicamente pela experiência da espécie (SPENCER). Axiomas de valor necessário e universal que nos permitam a certeza de conclusões transcendentes à ordem empírica, não as possuímos. A inteligência não é uma faculdade que pode elevar-se ao conhecimento do ser; seu alcance não ultrapassa o domínio dos fenômenos. Qualquer esforço para altear-nos acima do dado experimental é um querer voar no vazio: tentativa de movimento sem apoio. Esta teoria do conhecimento tolhe-nos pela raiz, com a liberdade soberana dos grandes vôos, a possibilidade de uma demonstração da existência de Deus; não chega, porém, a este resultado fatal sem haver antes destruído a própria razão e comprometido para sempre a possibilidade da própria ciência.
 
Bem o viu KANT, A ciência, observou ele, não pode viver sem princípios universais e necessários. É antes de tudo um fato: “é fácil mostrar que no conhecimento humano existem semelhantes juízos, necessários e universais, no sentido mais rigoroso”[1]. É ainda uma exigência a que nos não pudemos furtar sem aluir pela base a certeza dos próprios conhecimentos experimentais: “sem recorrer a exemplos poder-se-ia ainda ... demonstrar que estes (princípios) são indispensáveis à possibilidade da própria experiência”[2]. Uma teoria como a de HUME que reduzisse esta necessidade a uma simples aparência ilusória, fruto do hábito, seria no dizer textual de KANT  “destrutiva de toda filosofia”[3].

E eis nitidamente delineada a primeira fronteira que separa o empirismo do kantismo. Não há princípios rigorosamente universais e necessários – proclama o positivismo de todos os matizes de HUME a SPENCER, de COMTE a MILL ou TAINE. Sem estes princípios, revida KANT, não pode haver conhecimento científico; a sua existência é tão certa quanto a da própria ciência.
 
Até aqui de acordo. A divergência começa na explicação da possibilidade, da natureza e do alcance objetivo destes princípios. A teoria do criticismo transcendental resolve-se, em última análise, no agnosticismo e, também ela, acaba destruindo a própria ciência, ou melhor ainda a razão como faculdade do conhecimento do ser. Para demonstrá-lo, não podemos prescindir de nossa exposição sumária do sistema de KANT. Omitiremos tudo quanto não se refere diretamente ao nosso assunto, e este mesmo, reduzi-lo-emos ao essencial, aliando, quanto possível, a exatidão à clareza.
 
A razão de ser fundamental da Crítica da Razão Pura é resolver o grande problema que acabamos de propor; a possibilidade e os limites do nosso conhecimento científico. E como não há nem pode haver ciência sem princípios universais e necessários, o fim que se propõe KANT é a explicação destes juízos que o empirismo inconsiderado de HUME comprometera com a sua teoria superficial do associacionismo. De modo geral podemos distinguir duas espécies de juízos: analíticos e sintéticos.
 
Os juízos analíticos são juízos de identidade; neles o predicado não exprime outra  coisa mais do que a essência do próprio sujeito. Basta analisar a idéia do sujeito para nele encontrar o predicado. Assim, por exemplo, os corpos são extensos; o atributo – extenso – nada mais acrescenta ao sujeito – o corpo – que, na sua natureza, já inclui a extensão. Estes juízos são, por isso mesmo, recíprocos; os seus termos podem inverter-se como os de uma identidade. São necessários e universais, imediatamente baseados no princípio de contradição; enquanto uma coisa é o que é não pode deixar de ser o que é; enquanto o corpo for corpo não poderá deixar de ser extenso. No ponto de vista científico, sua importância é somenos; estas preposições são apenas explicativas não extensivas do conhecimento; podem esclarecer uma idéia apresentando-a sob vários aspectos mas não ampliam nem enriquecem o tesouro do saber.
 
Outra é a natureza dos juízos sintéticos.. Aqui, o predicado acrescenta ao sujeito algo de novo; nenhuma análise é capaz de encontrar um termo no outro. A inteligência realiza uma verdadeira síntese dos dois. Qual a lei que explica e justifica esta síntese? Por que motivos atribuímos a um determinado sujeito um predicado que é estranho à sua natureza. Nos juízos analíticos o princípio de identidade é uma garantia de sua certeza absoluta; e, por isso, um juízo deste gênero não pode ser falso sem ser, ao mesmo tempo, contraditório. Qual a razão que justifica a síntese intelectual nos outros que podem ser falsos e não contraditórios? 

Examinemo-los mais de perto.
 
Alguns destes juízos são particulares e contingentes; esta pedra, exposta ao sol, está quente; doe-me a cabeça. Nestes casos, a experiência, a percepção externa ou interna, Wahrnehmung, constitui um motivo suficiente da afirmação. A síntese faz-se aqui em virtude de um motivo a posteriori; chamemo-los, por isto, juízos sintéticos a posteriori; Seu valor científico, porém, é nulo; não é de semelhantes afirmações particulares que só se verificam num determinado ponto do espaço e do tempo que se constitui a ciência.
 
Os princípios científicos apresentam outros caracteres; são necessários e universais, por um lado, e, por outro, não são analíticos, não são explicativos mas extensivos do saber. Porque neles o predicado se acrescenta por uma verdadeira justaposição ou composição de uma idéia que não se encontra na análise do sujeito, chamemo-los sintéticos; porque, universais e necessários, não podem ter, na experiência, particular e contigente, a razão desta síntese, denominemo-los sintéticos a priori.
 
Dificilmente poderia exagerar-se a importância capital destes juízos, que, pelos caracteres acima indicados, são os que constituem verdadeiramente a ciência. E, percorrendo as diferentes ciências, físicas e matemáticas, julga KANT haver demonstrado que todos os seus princípios são juízos sintéticos a priori.
 
Explicar-lhes a possibilidade é, pois, explicar a possibilidade da própria ciência. Para tão momentosa tarefa, o filósofo de Koenigsberg não julga demasiada a constituição de uma nova ciência, que ele fundou e a que deu por título: Crítica da Razão Pura[4].
 
Já é conhecida a resposta dada pelo fundador do criticismo a esta questão fundamental. Conhecimento a priori, diz ele, é todo aquele que é necessário e universal, e, por isso, não tem sua explicação adequada na experiência que só nos oferece casos singulares. Estes caracteres, porém, que não têm sua origem no objeto conhecido, advêm-lhe do sujeito que conhece. Anterior a qualquer experiência, existem em nós umas tantas disposições que condicionam a experiência e a tornam possíveis e, por isso mesmo, se podem afirmar necessária e universalmente de todo o objeto experimentado, como de modo necessário e universal podemos afirmar que se acha na trajetória da bala a caça abatida, qualquer que seja, de pena ou de montaria. Estas condições KANT chamou-as formas a priori do conhecimento e num esforço ingente de sistematização deu-se ao trabalho de inventariar-lhes um catálogo completo, onde se estadeia todo o seu gosto pelas simetrias arquitetônicas. Duas formas na sensibilidade: o espaço e o tempo, a primeira da sensibilidade externa, a outra da sensibilidade interna; Doze no entendimento, as categorias, simetricamente dispostas em grupos de três segundo as diversas formas do juízo da tabela leibniziana; Três da Razão pura, as idéias de Deus, do Mundo e do Eu; Duas ainda na faculdade do juízo: a do belo e da finalidade.
 
Eis agora como se explica o mecanismo do conhecimento. A realidade externa, cuja natureza, em si, permanecerá sempre para nós uma incógnita impenetrável, impressiona a nossa sensibilidade que a esta matéria informe aplica a forma do espaço – não há objeto de experiência senão localizado no espaço – e a forma do tempo – toda a percepção para ser consciente vem inserir-se na continuidade sucessiva dos estados psíquicos. Desta primeira síntese resultam as intuições da sensibilidade, que legitimam a existência das matemáticas. Delas se ocupa a Estética transcendental.                             
 
As instituições da sensibilidade são, por sua vez, submetidas ao entendimento, Verstand, onde se encontram as doze formas a priori, chamadas categorias, não no sentido aristotélico de “subdivisões do ser”, mas na acepção etimológica de “modos de afirmar”. Graças às categorias, realizam-se as novas sínteses de causalidade, possibilidade, unidade, pluralidade, etc. A sua existência explica a possibilidade da física, no sentido amplo de ciências da natureza. O seu estudo constitui objeto da Analítica transcendental.
 
Com esta explicação, inverte-se completamente a noção de conhecimento que, de uma representação passa a ser uma construção do objeto. As coisas, não as conhecemos como são em si, mas através das formas que lhes aplicamos. A natureza é parcialmente criação do espírito. Pelo uso pré-consciente ou, na linguagem de KANT, transcendental das formas de conhecimento nós construímos o objeto, só assim construído, o tornamos suscetível de experiência. A necessidade e universalidade das afirmações científicas não resultam da realidade, mas apenas das condições subjetivas inseparáveis da nossa natureza. 2 + 2 = 4 não representa uma verdade objetiva, mas, tão-somente, para nós, uma impossibilidade física de pensarmos diversamente.
 
Quanto ao alcance do nosso saber são óbvias também as conseqüências. O mundo que nos é acessível é unicamente o dos fenômenos enquanto fenômeno diz o real na medida que se adaptou às nossas condições subjetivas de percepção. A realidade em si, o noumenon é e permanece sempre impérvio às possibilidades do conhecimento. Tudo o que não estiver no tempo e no espaço acha-se “fora das condições de uma experiência possível”. O princípio de causalidade é, para KANT, sintético a priori; vale, como necessário e universal no domínio da física; qualquer esforço para com este princípio, transcender a ordem dos fenômenos, está de antemão condenado à impotência sem remédio.
 
No entretanto, no trabalho ascendente de unificação do saber não descansamos ainda nos juízos condicionados pelas categorias do entendimento. A razão tende naturalmente a ir além e a procurar a explicação derradeira do relativo no absoluto, do condicionado no incondicionado. A esta função sintética superior servem as “idéias” da razão, Vernumft. Assim, a idéia cosmológica do universo é a condição incondicionada dos fenômenos externos; a idéia psicológica da alma, a condição incondicionada dos fenômenos internos; a idéia teológica de Deus, o absoluto onímodo, condição incondicionada de toda a existência. O movimento do espontâneo da nossa razão leva-nos a conceber Deus como o primeiro dos seres, um ideal sem defeitos que vem dar o todo o edifício do conhecimento o seu remate natural e a sua suprema unidade. Esta demonstração metafísica, porém, é ilusória, não passa de um puro jogo dialético a que nenhuma realidade corresponde. As “idéias” da razão são, conceitos vazios, Begriffe, uma pura essência, sem existência, são como focos imaginários para os quais tendem todos os raios do pensamento, mas sem nenhuma realidade. Elas não se aplicam, como as categorias do entendimento, a intuições da sensibilidade. Onde, por hipótese, como precisamente no caso da razão, o objeto do saber se acha fora do espaço e do tempo, aí já não é possível nenhuma experiência e portanto as formas a priori ficam sendo puras formas do pensamento, sem nenhum conteúdo de realidade. As idéias do “mundo”, da “alma”, de “Deus” permanecem como supremos “princípios reguladores” que estimulam o espírito à unificação do saber. Sua função é reduzir à unidade sistemática a variedade dos nossos conhecimentos. Tudo de fato se passa para a nossa razão como se (als ob) atrás dos fatos de consciência existisse um eu, como se os fenômenos externos fossem parte de um todo determinado, como se acima dos seres finitos e contingentes existisse um Ser supremo e necessário. Esta, porém, é uma função puramente ideal. A razão não é faculdade capaz de atingir o absoluto. A suas “idéias”, formas puras, não podemos afirmar corresponda alguma realidade objetiva[5]. Assim Deus, realidade, se acha fora do alcance da razão pura, tão incapaz de provar-lhe, quanto de negar-lhe a existência. Como o teísmo racional, o ateísmo é uma tentativa ilusória.
 
Se, ultrapassando os seus limites naturais, a razão quiser atribuir às “idéias” uma realidade extramental, incorrerá em antinomias insolúveis. Achar-se-á diante de proposições contraditórias, acerca de um mesmo objeto, provadas com igual peso de razões. E KANT desenvolve aqui estas antinomias – teses e antíteses – nas quais vê mais uma confirmação dos resultados de sua crítica, mais uma prova da impossibilidade de atingir a Deus com a razão demonstrativa, impotente para as ressalvas[6].
 
Conclusão da Dialética Transcendental: não é possível uma metafísica do futuro, cujos prolegômenos escreveu KANT será exclusivamente uma metafísica crítica, tendo por objeto determinar os limites naturais e intransponíveis das nossas possibilidades de saber.
Um agnosticismo sem esperanças no domínio especulativo, eis a conclusão da Crítica da Razão Pura.        
 
A obra de KANT, porém, ainda não está completa. Ao agnosticismo especulativo vai suceder o dogmatismo moral. O que os olhos da razão pura não se afigurava senão como ideal, como hipótese inverificável e inafirmável, passa para a razão prática a ter uma existência real. É, na construção do mundo das realidades transcendentes, a afirmação do Primado da Vontade sobre a Inteligência.
 
O dever é a grande realidade da nossa vida moral. O imperativo categórico impõe-se à consciência como um absoluto. Faze o teu dever. Um imperativo hipotético ou condicionado – faze isto se queres aquilo – destruiria o dever, substituindo-o ao meu bel-prazer. Tudo, portanto, o que condiciona a existência do dever, constitui um postulado indispensável da vida moral. Ora, não podemos conceber a virtude senão como unida indissoluvelmente à felicidade. O justo, o santo definitivamente infeliz repugna à nossa justiça. Por outro lado, porém, moralidade e felicidade são heterogêneas, pertencem a ordens distintas e irredutíveis. Agir em vista de uma recompensa, ser virtuoso para ser feliz, é imoral. A felicidade visada como fim de uma ação destrói-lhe a moralidade. O dever pelo dever: eis a fórmula austera da obrigação moral. Destarte, porém, como a ordem da virtude não pode, sem negar a si mesma, levar à ordem da felicidade, é mister que exista um Ser inteligente e onipotente, capaz de realizar a união definitiva da virtude e da felicidade. Este Ser não pode ser outro senão o Criador do homem: Deus. Éportanto necessária e legítima a afirmação da existência de Deus[7].
 
Por um processo análogo chega KANT a estabelecer também a liberdade e a imortalidade da alma. Existência de Deus, liberdade e imortalidade da alma constituem assim os três requisitos indispensáveis à nossa vida moral. A razão pura chegava apenas a conceber estas realidades metafísicas, como possíveis, sem as conhecer; a razão prática afirma-as não como objeto de ciência mas como exigência prática. A ordem das realidades transcendentes que para a razão especulativa ficava no domínio do problemático, passa a ter um valor objetivo, em face do uso prático da razão. O processo ético precisa destas realidades metafísicas e pede sua afirmação à razão especulativa que só as havia podido conceber[8]. Afirmar sem saber, eis o que para KANT se chama crer. Estas verdades fundamentais não são, pois, objeto de ciência mas de crença, e as proposições teóricas em que se enunciam estas afirmações chamam-se postulados[9].
 
“Tive assim que destruir a ciência para substituir-lhe a fé”[10]. Nesta frase onde revê a doutrina luterana da oposição entre a razão e a fé resume-se todo o trabalho das duas Críticas. Tive que destruir a ciência – é o resumo da Crítica da Razão Pura. Deus não pode ser objeto de ciência: o conhecimento humano de sua natureza circunscreve-se à esfera da experiência atual ou possível. A metafísica, que por definição se priva de toda a intuição sensível, não é uma ciência, um conhecimento objetivo. As “idéias” de que se ocupa são puras formas sem matéria real. A razão especulativa julga atingir o ser, de fato, manipula apenas as suas “idéias” ou formas vazias num jogo dialético de perpétuas ilusões. “Para substituir-lhe a fé” – eis a função da Razão prática. O agnosticismo especulativo deve ser completado com o dogmatismo moral[11]. Aqui a existência de Deus é afirmada como uma exigência prática da ação. Esta adesão subjetiva reconduz-nos ao mundo do absoluto e das realidades transcendentes inacessíveis à razão pura.
 
Como se vê, o agnosticismo moderno no seu duplo aspecto: desconfiança dos argumentos racionais, supervalorização dos motivos alógicos e práticos – reconhece em KANT o seu verdadeiro indicador.
 
Não nos é possível fazer aqui uma crítica pormenorizada de toda esta grande sistematização filosófica. Uma discussão analítica cerrada mostraria facilmente como os noumenous e fenômenos, as categorias e as idéias, os a priori e os transcendentais – todas estas ilustres personalidades do kantismo não podem dar um passo sem tropeçar em contradições imanentes inelutáveis.
 
Em vez de uma ofensiva em todos os setores, limitar-nos-emos, para os fins que levamos em mira, a uma crítica de princípios e de fundamentos. Ver uma dificuldade até à raiz e resolvê-la integralmente, que prazer para a inteligência!  Que paz interior para a alma!
 
O ponto de partida da Crítica é a existência dos juízos sintéticos a priori. Daí inicia ele o exame das condições do conhecimento a priori em geral, para explicar-lhe a possibilidade por meio das formas subjetivas. KANT não desconheceu esta importância capital. “O que de mais desastroso poderia suceder a estas investigações é que alguém fizesse a descoberta inesperada que não existe nenhum conhecimento a priori. Mas deste lado não há nenhum perigo”[12]. Em outra obra confessa que se alguém demonstrasse a falsidade de sua concepção relativa aos juízos que ele chamou sintéticos a priori, com isto “poria fim a toda a sua crítica e o obrigaria a voltar aos antigos métodos”[13].
 
Ora, estes juízos sintéticos a priori não existem. A descoberta inesperada que seria fatal ao sistema é uma realidade. A razão alegada pelo kantismo em seu favor é a existência de proposições que, por um lado, não são analíticas, não se podem explicar pela conexão interna entre o sujeito e o predicado e, por outro, por serem universais e sucessivas não têm ou não podem ter na experiência o motivo do assentimento do intelectual. Ora, se a experiência enquanto objeto apenas da sensibilidade não nos oferece mais que a sucessão de fatos particulares, submetida à abstração intelectual é capaz de fundar um juízo universal e necessário. A inteligência é dotada do poder de abstrair, isto é, de considerar num objeto alguns dos seus aspectos e omitir outros ou prescindir deles. Ante os objetos concretos e singulares podemos abstrair daquilo que os concretiza e individua e considera apenas o que os especifica, isto é, a sua natureza, prescindindo do modo por que ela aqui ou ali se realiza. Em face de vários triângulos, os sentidos percebem um e outro e outro, cada um com as suas características próprias pelas quais se distingue dos demais; a inteligência abstrai daquilo que é próprio de cada um e considera só o que pertence ao triângulo, como tal, a uma superfície limitada por três retas que se cortam. Nesta noção geral do triângulo vê, por exemplo, que equivale à metade de um paralelogramo da mesma base e da mesma altura e que, portanto, a sua área é dada pelo semiproduto da base pela altura. Este resultado é universal e necessário, verifica-se em todos os triângulos, atuais ou possíveis, porque é uma conseqüência que decorre da própria natureza do triângulo: verificar-se-á necessariamente onde quer que haja triângulos. Para elevar-se a este conhecimento necessário e universal bastou à inteligência abstrair a idéia, a noção de um objeto das condições de espaço e de tempo que a singularizam nos diferentes indivíduos. Destarte explicam-se perfeitamente os caracteres de universalidade e de objetividade do conhecimento científico. A objetividade resulta dos elementos sensíveis da realidade experimentada ou atingida em si mesma, a universalidade da purificação destes dados sensíveis pela inteligência que, prescindindo dos caracteres individuantes conserva a noção em sua pureza e generalidade específica.
 
Esta explicação tão simples e tão compreensiva, tão coerente e tão em harmonia com os dados da consciência, clássica na história da filosofia, KANT desconhece-a por completo. Todas as vezes que se lhe oferece o ensejo de confrontar a sua tese com outras doutrinas filosóficas só lhe ocorrem na pena o empirismo, de LOCKE ou de HUME, o inatismo de LEIBNIZ, ou o ontologismo de MALEBRANCHE. Aos seus olhos, num esquematismo excessivamente simplificador, PLATÃO personifica o apriorismo, ARISTÓTELES o empirismo. Esta ignorância quase completa da história do pensamento humano foi uma das lacunas mais sensíveis e mais prejudiciais na formação do solitário de Königsberg. Reconhecem-no os seus melhores biógrafos e mais entusiastas admiradores[14]. Consolam-se, porém, com a idéia de que esta ignorância salvou a sua originalidade.
 
Deste desconhecimento, porém, do estado a que já chegara historicamente a questão resultou o não levar ele em consideração mais que as duas teorias extremadas e insuficientes do empirismo e do idealismo, uma, pedindo unicamente aos dados sensíveis a chave de toda a vida do espírito, outra, vendo na atividade da inteligência a fonte única de todos os conhecimentos. A doutrina verdadeira, que recorre ao concurso harmonioso do espírito e da realidade, da inteligência e dos sentidos e explica assim a possibilidade de uma ciência real, sem lhe sacrificar nem a objetividade   com o idealismo, nem a necessidade e universalidade com o empirismo, esta, KANT nem a descobriu por um esforço pessoal nem a conheceu já descoberta por outrem.
 
A diferença de envergadura filosófica entre ARISTÓTELES e KANT ressalta aqui evidente. No século XVIII o pensador de Königsberg achava-se em face do problema da possibilidade do saber científico, comprometida pelo inatismo cartésio-leibniziano e pelo empirismo locke-humiano, em condições muito semelhantes às em que se achara, no século IV antes da nossa era, o filósofo de Estagira, entre o idealismo de PLATÃO e o empirismo fenomenista de HERÁCLITO. O grego, com o vigor de sua genialidade, pela primeira vez, na história do pensamento, deu a solução do problema, definitiva na suas linhas gerais; o alemão, não só não a encontrou por si – falta de originalidade criadora – ma nem sequer a conheceu já existente – lacuna imperdoável de erudição. Enveredou por um caminho novo que não devia nem podia levá-lo ao termo desejado.
 
Ora enquanto se não demonstrar a ineficácia da explicação por meio da abstração intelectual, evidentemente atestada pela nossa experiência psicológica, fica suspensa no ar, como construção sem alicerce, toda a teoria do criticismo transcendental. A impossibilidade de explicar por outra via a existência do conhecimento científico – título capital por ele apresentado à adesão da inteligência – é um falso suposto. Damos mais um passo e para rigor de metodologia científica observamos ainda quando se demonstrasse a insuficiência da teoria da abstração, nem por isso se seguiria a necessidade imediata de admitir a solução das formas a priori do criticismo. Semelhante solução não se imporia senão depois de demonstrada a impossibilidade de qualquer outra teoria explicativa. Esta demonstração imprescindível não só não a deu KANT, mas nem sequer tentou dá-la, nem mesmo suspeitou a necessidade lógica de dá-la. Toda a sistematização arquitetônica da Crítica da Razão Pura, é, pois, uma construção sem fundamento. O que ela supõe ou assume – a impossibilidade de explicar de outro modo os caracteres de necessidade e universalidade do conhecimento científico – é simplesmente falso; todo o esforço intelectual provocado por esta falsa suposição não tem razão de ser.
 
KANT continua a sua tarefa e procura mostrar em concreto a existência dos juízos sintéticos a priori nas diferentes ciências. Tais são, diz ele, todas as proposições da matemática, da física e da metafísica.
 
Ora, nenhuma destas afirmações resiste à crítica. Ao caráter analítico do princípio de causalidade que mais de perto nos interessa consagraremos o parágrafo seguinte. Os princípios da física newtoniana são hoje universalmente reconhecidos como princípios sintéticos, obtidos por indução como as outras leis das ciências positivas. Os princípios matemáticos são simplesmente analíticos. Tomemos o exemplo e examinemos as considerações de KANT. 7 + 5 = 12, diz ele, não é um juízo analítico; não se baseia no princípio de contradição nem é possível obter-se o predicado pela simples análise do sujeito. Do sujeito encontramos apenas a idéia de uma soma 7 + 5, não a natureza desta soma; para obtê-la é mister recorrer a uma intuição no espaço[15]. Nada mais falso; analisemos o sujeito. 7 = 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1 + 1; 5 = 1 + 1 + 1 + 1 + 1. Desta simples análise da definição do sujeito resulta a idéia do predicado 12. A identidade é perfeita, e a inteligência a vê não mediante uma demonstração que compare os extremos com um termo médio distinto, mas pela simples análise imediata da noção dos termos. Enquanto o princípio de identidade A = A for a expressão fulgurante da evidência; enquanto o princípio de contradição “A não pode ser e não ser A ao mesmo tempo”, for a condição lógica de inteligibilidade das coisas e ontológica de sua existência, 7 + 5 = 12 [15a]. Estamos em presença de um princípio evidentemente analítico. KANT não conseguiu demonstrar a existência de um só juízo sintético a priori, existência que, por confissão sua, deveria constituir o objeto da nova ciência.
 
Não existem, pois, juízos sintéticos a priori; nem poderiam existir sem destruir pela raiz a própria natureza do conhecimento. O juízo é uma afirmação de identidade expressa pelo verbo ser; em ver uma coisa idêntica a si mesma sob dois aspectos diferentes consiste essencialmente o conhecimento. Conhecer um triângulo é saber que é esta determinada figura de três lados. Ora esta identidade não a pode afirmar a inteligência, sem vê-la – ou na análise das noções – juízos analíticos – ou na experiência das coisas existentes – juízos sintéticos. Afirmar uma identidade que se não vê, pela aplicação de formas subjetivas a priori, por uma síntese preconsciente ou inconsciente entre elementos que se não conhecem é destruir todo o conhecimento, fazendo de afirmações sem razão suficiente a própria condição da ciência. Instala-se assim o irracional na estrutura mais íntima da nossa vida racional. O juízo que se não legitimasse por uma das duas evidências objetivas – evidência analítica ou experimental – seria um ato inexplicável sem motivo suficiente, nem justificação crítica. Fazer destes juízos a condição da ciência não é explicar, é destruir a ciência. E este é na realidade o resultado final da Crítica da Razão Pura[16].
 
A estrutura do conhecimento humano tal qual foi arquitetada pelo solitário de Königsberg não suporta a cúpula de uma demonstração racional da existência de Deus, mas não chega a esta conclusão agnóstica sem arruinar pela base toda a nossa vida intelectual. Ruiu a teodicéia racional, mas com ela, todo o edifício científico. Não conhecemos a Deus, mas também não conhecemos a nenhuma outra realidade. O mundo e o homem serão para sempre incógnitas indecifráveis; nega-se a inteligibilidade radical do ser, nega-se a inteligibilidade dos mesmos fenômenos. A própria existência de uma realidade extramental KANT não a pode afirmar senão a preço de uma contradição imanente. JACOBI, contemporâneo de KANT e um dos primeiros e mais atilados críticos de sua obra, escreveu com acerto: “Sem a suposição das coisas em si, não posso entrar no sistema; com esta suposição, nele não posso ficar”[17]. FICHTE, entre os contemporâneos do filósofo, COHEN em nossos dias, viram esta impossibilidade e, por isto, enveredaram para o idealismo absoluto como conseqüência lógica do kantismo. O solipsismo mais desesperador, que isolaria cada inteligência em si mesma sem possibilidade de entrar em contato com o mundo das coisas e no convívio com as outras inteligências, seria o paradeiro fatal desta filosofia destruidora. Um imenso polvo a bracejar no vazio os longos tentáculos em esforço eternamente estéril de aferrar uma consistência; eis a imagem da inteligência humana na filosofia nevoenta deste filho das nórdicas brumas.
 
Desta concepção da inteligência nascem todas as lutas e antinomias, todas as incompatibilidades e divórcios que desvirtuam a síntese kantista. A unidade harmoniosa, filha da sabedoria que sabe ordenar, sucedem os contrastes de dualismo inconciliáveis. Dualismo entre os sentidos e a inteligência; entre a razão teórica e a razão prática; entre o mundo interior do espírito e o mundo externo da matéria; entre a liberdade noumênica e o determinismo dos fenômenos; entre a virtude e a tendência à felicidade; entre a moralidade e a religião; entre a filosofia e a vida.
 
As antíteses vão por vezes a dilaceração da ruptura ao que há em nós de mais profundo e inextirpável. Aspiramos irresistivelmente à felicidade que reside na perfeição da natureza, mas não podemos agir em vista da perfeição que felicita porque ofendemos a moral que é a lei do homem. As questões metafísicas impõem-se à razão com uma necessidade natural inevitável, mas resolve-las é emaranhar-se em contradições insolúveis. Deus é indispensável para a coroa da ordem moral mas agir por amor de Deus é uma heteronomia que torna imoral a ação e desvirtua a autonomia da vontade. Sem Deus, sem liberdade, sem imortalidade não podem viver as consciências, mas a razão pura declara que a afirmação objetiva destas realidades implica antinomias inextricáveis.
 
Nunca se fez à unidade, à harmonia, ao equilíbrio sadio da personalidade humana violência mais dolorosa nem mais funesta.
 
Pela sua teoria gnoseológica, pela separação entre a esfera do pensamento especulativo e as exigências da vida moral, KANT é talvez o filósofo que mais contribuiu para a difusão moderna do agnosticismo. Não é difícil estabelecer as transições dialéticas e o itinerário histórico entre o kantismo de um lado e de outro o protestantismo liberal, o pragmatismo e o modernismo. SCHLEIERMACHER e RITSCHL sentiram poderosamente a influência de KANT, SPENCER, LITTRÉ e os agnósticos ingleses mais recentes reportam-se às suas críticas da teodicéia racional como a resultados definitivamente adquiridos pela filosofia[18]. A desconfiança nas forças nativas da inteligência, a supervalorização dos motivos alógicos, sentimentais e pragmatistas – que encontramos como características de uma parte do moderno pensamento religioso – prendem as suas raízes mais profundas nas duas Críticas de E.KANT. “É absolutamente necessário que nos compenetremos da existência de Deus, mas não é tão necessário que a demonstremos”[19].

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[1] Crítica da Razão Pura, Introdução, II, p. 40 (trad.ital.).
[2] Crítica da Razão Pura, Introdução, II, pp. 40 (trad. ital.).
[3] Crítica da Razão Pura, Introdução, IV, p. 52.
[4] “O problema próprio da razão está contido nesta pergunta: Como são possíveis os juízos sintéticos a priori?” “De tudo isto nasce a idéia de uma ciência especial que se pode chamar Crítica da Razão Pura.” Crítica da Razão Pura, Introdução, VI e VII, pp. 51 e 55.
[5] BRÉHIER resume com clareza o pensamento de KANT. “Un objet peut répondre à un concept, à condition qu’il soit construit dans l’intuition sensible a priori de l’espace et du temps, comme la figure et le nombre; c’est le cas des objets mathématiques, et c’est pourquoi les jugements synthètiques à priori dês mathématiques sont possibles. Le concept peut encore avoir um objet quand il donne une régle a priori, selon laquelle est lié le divers de l’intuition sensible pour qu’un objet d’expérience soit possible; tels sont les concepts de substance, de cause, et ainsi sont possibles a priori les jugements synthètiques de la physique. Mais les jugements synthétiques a priori de la métaphysique ne rentrent ni dans l’un ni dans l’autre cas: leurs objets, l’âme, le monde ou Dieu, ne peuvent s’exposer dans une intuition sensible, et ils ne sont pas des conditions d’une experience possible; ce qui revient à dire qu’ils ne peuvent prétendre à aucune valeur objective”. E. BRÉHIER, Histoire de la Philosophie, t. II, II, P. 545.
[6] Das quatro antonomias propostas na Crítica, citemos as três, 1a , 3a, 4a , que interessam de perto a teodicéia: 1a – Tese: O mundo teve começo no tempo e é limitado no espaço; Antítese: o mundo não teve começo no tempo nem limite no espaço. 3a – Tese: Para explicar o mundo deve admitir-se uma causalidade livre; Antítese: a causalidade livre é inadmissível; 4a – Tese: Ao mundo sensível refere-se ou como parte, ou como causa um ser necessário; Antítese: em parte alguma existe um Ser absolutamente necessário. KANT julga que estas teses e antíteses se possam provar com argumentos de igual valor sem que a razão se possa desembaraçar das antinomias. E desta prova da importância da razão faz grande cabedal. (Cfr. Dialectica Transcendental, cap. II, sect. II. ) É realmente para lamentar que o autor da Crítica se deixasse assim emaranhar por paralogismos visíveis e ignorasse os resultados adquiridos na história do pensamento. Para uma solução breve das antonomias, cfr.  A. VALENSIN, A Travers la Métaphysique, Paris, 1925, pp. 15-17; 38-39.
[7] “O postulado da possibilidade do soberano bem derivado é ao mesmo tempo o postulado da realidade de um soberano bem primitivo, a saber da existência de Deus. Ora, é um dever para nós realizar o soberano bem e portanto não só um direito senão ainda uma necessidade, ligada como exigência com o dever, supor a possibilidade deste soberano bem que, uma vez não sendo possível senão sob a condição da existência de Deus, liga inseparavelmente a suposição desta experiência com o dever; por outra é moralmente necessária admitir a existência de Deus. “KANT, Gesammette Schriften, hsg. v. der Koeniglisch-Prussischen Akademie, Berlin, t. V, pp. 124 e sgs.Para uma exposição mais minuciosa deste dogmatismo moral, que, no texto, indicamos apenas em suas grandes linhas, cfr. B. JANSSEN, La Philosophie Religieuse de Kant, Paris, 1934, pp. 81-130.
[8]  Numa fórmula feliz V. DELBOS resume o pensamento de KANT. A afirmação de Deus é “uma exigência ou um direito, ou uma fé, indicando aqui estes termos diferentes a necessidade de um ato que funda para o sujeito a necessidade de um objeto”.V. DELBOS, La Philosophie Pratique de Kant, Paris, 1905, p. 489.
[9] O postulado “é uma proposição teórica (mas que não pode, como tal, ser provada) enquanto necessariamente depende de uma lei prática tendo a priori um valor incondicionado”. “Estes postulados não são dogmas teóricos, mas hipóteses num ponto de vista necessariamente prático; por isso não ampliam o conhecimento especulativo mas dão às idéias da razão especulativa em geral uma realidade objetiva.” KANT, Gesammette Schriften, t. V, pp. 122, 132.
[10] Crítica da Razão Pura, Pref. à 2a edição, p. 28. Deux mondes s’unissent et se complètent en quelque sorte, que la pensée de philosophe s’efforce d’embrasser dans l’unité d’un système total, le monde sensible et le monde intelligible.D’un cote c’est le monde de la nature suivant Newton, ou le déterminisme de la causalité mécanique ordonne les phénomènes, Cosmos réglé par des lois immanentes, c’est l’ordre de l’experience, le domaine de la science, le monde de l’entendement; de l’autre c’est le monde de la croyance,  le monde spirituel, le système des noumènes, le domaine de la liberté, dans lequel les ètres raisonnables se vouent de toute leur âme à la loi morale, le règne des fins, dont Dieu est le principe suprême, le souverain législateur et le plus haut achèvement. “Le ciel étoilé au dessus de moi, la loi morale en moi”. B. JANSEN, La Philosophie Religieuse de Kant, Paris, 1934, pp. 129-130.
[11] Alguns historiadores, influenciados pelo sarcástico H. HEINE, quiseram ver nas reconstruções da Crítica da Razão Prática, uma correção tardia às destruições da 1a Crítica. A obra de KANT não teria assim obedecido a uma unidade de plano e ter-se-ia desenvolvido um pouco à ventura. Um exame mais imparcial e objetivo permite estabelecer entre as duas Críticas relações mais harmoniosas e ligá-las na unidade de um pensamento que se desenvolve em continuidade consigo mesmo. Cfr. E.BOUTROUX, La Morale de Kant et les Temps Présents, em Etudes d’Histoire de la Philosophie Allemande, Paris, 1926, pp. 79-93. V. DELBOS, Les Harmonies de la Pensée Kantienne d’après la Critique de la Faculté de Juger, na Revue de Métaphysique et de Moral, XII, 1904; F. PICAVET, no Prefácio à trad. da Critique de la Raison Pratique; B. JANSEN, La Philosophie Religieuse de Kant, Paris, 1934, pp. 112-117.
[12] Critique de la Raison Pratique, tr. Picavet, p. 16.
[13] Critique de la Raison Pure, tr. Tremesaygues, p. 334.
[14] KUNO FISCHER, HAMANN, RINK, NICOLAI, etc. DE PLATÃO e ARISTÓTELES possuía algumas idéias muito vagas, esquematizadas pelos compêndios escolares. LEIBNIZ conhecia S. TOMÁS e lera SUÁREZ. Para KANT toda a filosofia cristã era um livro fechado com 7 sigilos. Nem mesmo ESPINOSA ele estudara.
[15] Crítica da Razão Pura, Intr. V, p. 8 (italiano).
[15a] “Il n’y a pas non plus de construction dans l’intuition pure au sens kantien, car s’il est bien vrai que les mathématiques sont telles par nature que les jugements doivent y être vérifiables par l’imagination (deducibilia ad imaginationem, cf. In Boet. de Tim., p. 6. a 2), et que par suite elles supposent une construction dans l’espace, cependant cette construction n’est que pour l’établissement des concepts eux-mêmes: ce n’est pas à raison de cette construction, c’est à raison des exigences des concepts, et par une véritable déduction syllogistique, qu’on y lie progressivement les concepts les uns aux autres”. J. MARITAIN, Réflexions sur l’Inteligence, Paris, 1926, p. 72.
[16] Com sua ponta de humorismo habitual, a amenizar a expressão de um pensamento profundo disse PAPINI: KANT “si è perduto in quella vana selva del contradittorio e dell’inconcepibile ove tanti filosofi hanno trovato la morte e KANT è stato una guida che s’è smarrita, um confusionario fornito de metodo che s’è ingannato com gravità e s’è suicidato per vivere ... Sulla sua tomba perduta tra le nebbie prussiane un ironico epigrafista potrebe screvere: qui dorme un architetto senza fortuna, che uccise coloro che doveva difendere.” G. PAPINI, Il crepuscolo dei filosofi, Milano, 1906, p. 44.
[17] JACOBI, Werke, Leipzig, 1812, II, p. 303. Para demonstrar a existência da coisa em si, a agir sobre os sentidos, KANT admite o valor objetivo do princípio de causalidade, que depois declara sintético a priori, isto é, sem valor objetivo e extramental.
[18] Assim, o apelo para a autoridade de KANT dispensa a muitos modernos de um exame direto e sereno dos argumentos racionais. LITTRÉ: “Kant et les nominalistes ont fait table rase des arguments metaphysiques”. Philosophie Positive, I, p. 238. “ The fatal defects all these (das provas tradicionais) have, it is almost universally concedet, been clearly expressed once for all by KANT”. J. WARD, Pluralism and Theism, 1920, p. 406. “The bare fact that all idealists since KANT felt entitled to scant or neglect them, shows they are not solid enough to serve as religion’s: all sufficient fondation.” W. JAMES, Varieties of Religious Experience, p. 437.
[19] L’Unique Fondement Possible d’une Dèmonstration de l’Existence de Dieu, tr. FESTUGIÈRE, p. 136.
          A questão da existência de Deus conservou sempre um lugar central nas preocupações de KANT. Costumam os historiadores distinguir 3 períodos na evolução de seu pensamento: o 1o, em que se acha ainda sob influência do racionalismo wolfiano, estende-se de 1740 a 1760; o 2o compreende o decênio seguinte (1760 – 1770) em que se fazem sentir mais poderosas as influências do empirismo inglês (LOCKE e HUME); o 3o abrange a elaboração e o desenvolvimento do seu sistema pessoal do criticismo. Em todas estas fases KANT tratou da existência de Deus. Na tese para obter a licença de ensinar: Principiorum cognitionis metaphysicae nova dilucidatio (1855), o jovem filósofo defende o valor dos primeiros princípios da metafísica, com todas as conseqüências. Em 1763 publica um estudo sobre o “único fundamento possível de uma demonstração da existência de Deus” (Der enizig mögliche Berveisgrund zu einer Demonstration des Daseins Gottes), em que rejeita outras provas e conserva como eficaz a baseada na exigência de um fundamento para a possibilidade das coisas. No ano seguinte, 1764, volta sobre o assunto num “Estudo sobre a evidência dos princípios da teologia natural e da moral” (Unterruchungen ueber die Deutlichkeit der Grundrätze der natürlichen Theologie und der Moral), onde afirma no § 1o da 4a consideração “os primeiros princípios da teodicéia natural são suscetíveis da maior evidência filosófica”. (Träume eines geistersehers, erläntert durch Träume des Metaphysik). Nos “Sonhos de um visionário esclarecidos pelos sonhos da metafísica (1766) já se anunciam mais acentuadas as tendências críticas, mas ainda na dissertação tese de 1770: “De mundi sensibilis atque intelligibilis forma et principiis” que é um prefácio remoto da Crítica ainda se afirma a possibilidade de atingir realmente o mundo inteligível. Com as duas Críticas (1781, 1788) a existência de Deus passa definitivamente do domínio especulativo para o prático: cessa de ser uma verdade demonstrada ou demonstrável para impor-se à crença, como postulado indispensável. Esta representa a atitude definitiva de KANT: agnosticismo especulativo, dogmatismo moral. Ainda em 1791 ele voltava a insistir no Fracasso de todas as tentativas filosóficas em teodicéia (Ueber das Misslingen aller philosophischen Versuche in der Theodicee). Nos último anos observa-se uma mudança sensível na apreciação do cristianismo. O racionalista frio e o estóico austero sente-se subjugado pelo seu poder de atração. Num opúsculo sobre o fim do mundo (Dans Ende aller Dnige), publicado em 1794, lêem-se expressões como estas: “Além do profundo respeito que lhe atrai irresistivelmente a santidade de seus preceitos, o Cristianismo tem ainda em si algo de amável. O amor, como livre aceitação da vontade de outrem a título de preceito, aparece, apesar de tudo, como auxiliar indispensável da imperfeição humana para obrigá-lo a cumprir o que a razão prescreve como lei ...  O Cristianismo empreende de modo geral fazer amar o cumprimento do dever e o consegue”. Ainda hoje, continua KANT, “no século mais iluminado que a humanidade conheceu”, o Cristianismo “conserva sempre o seu prestígio”. Mas se o anticristo viesse a prevalecer, implantando o seu reino sobre o medo e o egoísmo, o “Cristianismo ao qual estava reservado tornar a religião universal, seria abandonado pelo destino: no ponto de vista moral, assistir-se-ia a um fim absurdo de todas as coisas”. La Fin de Toutes Choses, tr. FESTUGIÈRE, Paris, 1931, pp. 174-177.

BIBLIOGRAFIA – A. VALENSIN, S. J. , A travers la Métaphysique, Paris, 1925, kantiana, pp. 1-76; J. GEYSER, Einige Hauptprobleme der Metaphysik mit besunderer Bezugnahme auf die Kritik Kants, Freiburg i. B., 1923; J.MARECHAL, Le point de depart de la métaphysique, Cahier III, La critique de Kant, Paris, 1923; C. SENTROUL, L’Objet de la métaphysique selon Kant et selon Aristote, Louvain, 1905; B. JANSSEN, Le Philosophie religieuse de Kant, tr. Chaillet, Paris, 1934; KNULPE, Immanuel Kant, Leipzig, 1927; E. BOUTROUX, La Philosophie de Kant, Paris, 1926. Uma bibliografia copiosa sobre KANT em Ueberweg, Grundriss der Geschichte der Philosophie, III, Berlin, 1924, 709-758.