[FSSP] Missa Tridentina é celebrada de muitos anos na Costa Rica

Sem muito tempo para organizar a Missa, pouco mais de uma senana, o Pe. Fryar, FSSP, celebrou a Santa Missa Tridentina na Costa Rica para centenas de pessoas, depois de tantos anos sem tê-la.
DEO gratias!



Índole pastoral do Vaticano II: uma avaliação

Via Fratres in Unum

Apresentamos a tradução da preleção de Monsenhor Brunero Gherardini no Congresso sobre o Vaticano II realizado em Roma, em dezembro de 2010, pelos Franciscanos da Imaculada.

Por Monsenhor Brunero Gherardini

Fratres in Unum.com | Com a generosa contribuição de Gederson Falcometa - Era uma vez a ave Fênix. Todo mundo falava dela, mas nunca ninguém a havia visto. E hoje há uma versão suaaggiornata, da qual todos também falam e ninguém sabe dizer do que se trata: chama-se Pastoral.

1 - A Palavra – Sejamos bem claros: a palavra em si não é um problema, sendo evidente a sua derivação de pascere:verbo que vem do latim pabulum (pasto, alimento), da qual surge uma família não muito numerosa, mas bem identificável em seus componentes: pascere, precisamente, no sentido de conduzir à pastagem e dar de comer; pastum, do qual uma clara tradução é o italiano pasto [alimento, comida], mas que também pode se traduzir com cibo [pasto, comida] ; pastor, indicando que conduz ao pabulum, dá alimento e mantém rebanhos e manadas. Pastor se torna, por sua vez, o pai de pastoricia ars, em italiano pastorizia, ou a arte de quem cria animais; de pastura, com o significado de pasto aberto, e de pastu -- ou pastoral, já presente no latim tardio para descrever o "vestuário, os alimentos, os costumes, a linguagem do pastor. Não descende, todavia, a pasteurização, ou procedimento de conservação de elementos líquidos, como o leite, porque a palavra vem do francês pastoriser, derivando por sua vez de L. Pasteur (1822-1895), seu inventor.

[...] [O termo] Pastoral entrou cedo no jargão eclesiástico, para qualificar três das cartas paulinas, ou a atividade dos evangelistas e de seu ensino, ou as insígnias episcopais, como o anel, o báculo, as cartas. Mais recente, mas não moderno, é o uso de pastoral em referência à teologia e com abordagem não-dogmática; originalmente, de fato, foi anti-dogmático. Aos que desconhecem o jargão eclesiástico, no entanto, um homem da média cultura muito facilmente associará pastoral à mocinha da poesia arcádica, à composição poética de origem provençal e de conteúdo amoroso, à écloga virgiliana, à tragédia "Aminta" de T. Tasso e à música de caráter simples e terno, com específica tipificação na "sexta" de Beethoven.

2 - O termo no Vaticano II - Depois de um espectro semântico de tal amplitude, a alusão à desconhecida e invisível ave fênix poderia parecer insustentável por evidente contradição. A não ser que o condicional "poderia" esteja neutralizado pela ausência, nos documentos conciliares, de uma razão suficiente que o justifique. Digo "razão suficiente", porque se dissesse que nos documentos conciliares está ausente a "palavra", daria demonstração de uma ignorância crassa e imperdoável do Vaticano II. A "palavra" não só existe, mas é abundante; na realidade, caracteriza o Vaticano II em sua especificidade de Concílio ecumênico diante dos vinte Concílios que o precedem. O Vaticano II fala, de fato, de ação pastoral em gênero, e mais diretamente deatividades pastorais;  identifica várias necessidades pastorais e, diante delas, pede a instituição e a recíproca colaboração de vários subsídios pastorais, não deixando de assinalar entre estes o planejamento e organização de "cursos, congressos, centros com bibliotecas conexas destinadas aos estudos pastorais, a serem confiados a pessoas altamente capazes". A fim de expandir no mais amplo raio possível asensibilidade pastoral e os conhecimentos conveninentes, o Vaticano II obriga os bispos a "estudar isoladamente ou em nível interdiocesano o melhor sistema" que assegure aos presbíteros, "sobretudo alguns anos após sua ordenação", o adequado aprofundamento dos métodos pastorais. Dado que uma forte contribuição para a ação apostólica da Igreja pode vir também dos leigos, o Concílio convida aos bispos a escolher "sacerdotes dotados das qualidades necessárias e convenientemente formados", que, por sua vez, dêem uma formação adequada aos leigos para então confiar suas especiais tarefas de ação pastoral. E porque "a unidade de propósito entre padres e Bispo torna sempre mais fecunda sua atividade pastoral", encoraja-se uma periódica reunião do clero, estendida também a outros membros do organismo eclesial, "para tratar de questões pastorais".

Às Conferências Episcopais de cada nação, recomenda-se calorosamente a atenção e promoção da formação pastoral do clero mediante "institutos pastorais em colaboração com paróquias oportunamente escolhidas, congressos periódicos, exercícios apropriados". Não se podia evitar um chamado à "competente autoridade eclesiástica territorial" para o estabelecimento de um instituto "de pastoral litúrgica" que se valha de "especialistas em liturgia, música, arte sacra e pastoral".

Estes dados demostram que a ave fênix está em casa no Vaticano II, mas o Vaticano II não disse o que é ou quem ela é.

Aquele que "governa e apascenta o povo de Deus" é, ademais, instigado a encarnar o Bom Pastor "que dá a vida por suas ovelhas (Jo 10:11)" e a seguir "o exemplo daqueles padres que também em nosso tempo não hesitaram a sacrificar-se a si mesmos pelo próprio rebanho". Em suma, ao exortar o clero a se fazer dia após dia instrumento de um serviço sempre mais idôneo para o povo de Deus, o Vaticano II declara explicitamente que a sua finalidade pastoral se compromete com "uma renovação interna da Igreja, a difusão do evangelho em todo o mundo e no estabelecimento de uma relação dialógica com este". Uma tal finalidade corresponde, evidentemente, a uma ideia de fundo, a uma noção de pastoral ao menos rudimentar e tão logo ofuscada: relação dialógica com o mundo da parte de uma Igreja renovada em seus métodos de evangelização e de apostolado. Aqui, um pouco vagamente, a ave fênix começa a se fazer conhecida.

Tal e tamanha insistência não surpreende. É, antes, um sinal de docilidade e fidelidade às linhas mestras que o Papa Roncalli, em 11 de outubro de 1962, apresentou aos Padres abrindo oficialmente a grande Assembléia conciliar: ao colocar a doutrina em primeiro lugar nos trabalhos conciliares, diversificou sua metodologia com relação ao passado. Antes, a Igreja não evitava a condenação, severa e firme. Hoje, à severidade prefere o remédio da misericórdia. Para o Papa Roncalli, então, especialmente diante de uma humanidade presa a tantas dificuldades, a Igreja deveria mostrar o rosto bom, benévolo, paciente da Mãe, fomentar a promoção humana expandindo os espaços da caridade, difundir a serenidade, paz, harmonia e amor. Desta forma, as características da ave fênix, embora permanencendo ainda indefinidas, se confundem com as da mãe paciente e boa.

Confirmando a orientação de Roncalli, o Papa Paulo VI, na homilia de 07 de dezembro de 1965, por ocasião da nona sessão do Concílio, declarou que a Igreja traz em seu coração, junto com o reino dos céus, o homem e o mundo, e mais, está toda a serviço do homem e do mundo, sendo íntima a ligação entre a religião católica e a vida humana, a ponto que a religião católica pode se dizer a própria vida do homem e do gênero humano graças à sua sublimedoutrina, ao cuidado materno com que acompanha o homem ao seu fim último e aos meios que lhes dá para que possam alcançá-lo.Enésima declaração de propósitos pastorais que, mantendo-se dentro dos limites do genérico, ainda não revelam o rosto ou as feições da ave fênix. 

No entanto, não há nenhuma dúvida e nenhuma discussão sobre a pastoralidade do Concílio. O Vaticano II não foi, apenas porque não deveria sê-lo, um Concílio dogmático e, considerando tudo, nem mesmo disciplinar. Quis apenas ser pastoral. E mesmo assim, apesar das muitas intervenções internas e externas, o verdadeiro significado de sua declarada pastoralidade ainda está debaixo de um nevoeiro.

3 – Um conceito não definido – Pouco acima, indiquei as facetas da pastoralidade conciliar. A pastoral como adjetivo qualificativo ou como adjetivo substantivado dá, na verdade, dezenas e dezenas de voltas. Nenhuma, porém, para lhes dar, senão a definição, ao menos um indício de explicação. Reconheço que, analisando criticamente as diversas declarações, é possível ter uma vaga idéia; mas, no entanto, não seria uma expressão direta do ensinamento conciliar.

O exemplo mais probatório é dado pela Gaudium et Spes, qualificada como "Constituição Pastoral", sendo inteiramente um fermento intelectual e proativo em favor do homem, da sua liberdade e dignidade, da sua presença na família, na sociedade, na cultura e no mundo, com o objetivo de conferir à vida privada e pública um sopro e uma dimensão à medida do homem. A união das duas palavras-chaves – Constituição Pastoral – é a mais recente novidade de todo o Vaticano II; o foi para os próprios Padres conciliares que, antes de aprová-la, discutiram várias outras denominações. A única justificativa para a união está na nota que acompanha o incomum documento, definido como "pastoral" seja porque, "baseado em princípios doutrinais, pretende apresentar a atitude da Igreja em relação ao "mundo e aos homens de hoje", ou porque atitude e princípios doutrinais permeiam um ao outro. Se deveria inferir que a atitude em questão é sempre a aplicação e a tradução prática dos princípios doutrinários. Mas permanece um problema, a descobrir a origem: talvez dos princípios sociológicos, políticos, econômicos, mas, pelo menos diretamente, não dos princípios evangélicos.

A referência ao homem e ao mundo recorda de ambos a finitude original, a condição de criaturas, a temporalidade, o dinamismo, o constante evoluir, sobre o quais paira a espada de Dâmocles de uma sempre possível involução. Isto evidencia suas condições variáveis e contingentes, mas também a problematicidade da aplicação prática desses princípios doutrinais que são em grande parte absolutos irreformáveis.

Também a nota adverte uma tal aporia e a assinala; mas não a resolve. Antes, a complica no exato momento no qual estabelece que "a Constituição deverá ser interpretada segundo as normas gerais da hermenêutica teológica, tendo em conta... as circunstâncias mutáveis intrinsecamente conexas às matérias tratadas". Na realidade, se a pastoral devesse consistir nesse balé de dizer sim-e-não, uma definição sua seria impossível. Diz-se que ao contingente vai aplicada a indiscutibilidade da doutrina; mas se essa aplicação reduzisse a doutrina à contingência, ou tornasse indiscutível e absoluto o contingente, perverteria um e outro elemento: o sim de mãos dadas com o não. Compreendo porque, já na Aula conciliar, Gaudium et Spes foi o texto mais discutido e mais obstaculizado, para o qual pouco valeu a sua designação a comissões e subcomissões, como também a passagem por bem quatro reformulações: a dificuldade, para chegarmos no limite da presunção, está na afirmação simultânea do sim e do não.

E talvez dependesse desta aporia não resolvida a problemática que ainda acompanha, após cerca de meio século de pós-concílio, todo discurso sobre a pastoral. Na prática, ela serve para legitimar um pouco de tudo e o seu próprio contrário. As duas hermenêuticas conciliares, as quais frequentemente se referiu a análise do Santo Padre, aquela que faz do Vaticano II o início de um novo modo de ser Igreja e aquela que, pelo contrário, o conecta à Tradição eclesial vivente, são ambas legitimadas pela aporia não resolvida. Nas duas hermenêuticas, na realidade, o Vaticano II:

  1. assume, no âmbito doutrinário, a aparência e o valor de um Concílio dogmático: uma [corrente] faz dele um super Concílio, enquanto a outra faz dele a síntese doutrinal de todos os concílios precedentes;
  2. no âmbito pastoral, ele surge como um recipiente sem diferenciação pela sua própria qualidade de pastoral, uma espécie de "franco atirador" ao qual, por razões pastorais, é concedido dizer simultaneamente o sim e o não.

Se impõe, sobre este ponto, um juízo sereno e objetivo sobre a qualidade geral do Vaticano II, que apressada e ingenuamente foi encerrado na área pastoral.

4 – Os quatro níveis do Vaticano II – Quem tem familiaridade não só com a Gaudium et Spes, mas com todos os dezesseis documentos conciliares, tem consciência de que a variedade temática e a co-respectiva metodologia colocam o Vaticano II sobre quatro níveis, qualitativamente distintos:

  1. o genérico, do Concílio ecumênico enquanto Concílio ecumênico;
  2. o específico, do âmbito pastoral;
  3. o nível do evocar outros Concílios;
  4. e os das inovações.

No âmbito genérico, o Vaticano II satisfaz todas as condições para ser um autêntico Concílio da Igreja Católica; o 21º da série. Provém dele um magistério conciliar, isto é, supremo e solene. O que, por si mesmo, não depõe pela dogmaticidade e infalibilidade de suas assertivas; antes, nem mesmo a comporta, tendo, de início, afastado-a de seu próprio horizonte.

No âmbito especifico, a qualificação de pastoral lhe justifica os vastíssimos interesses, dos quais não poucos excedem o âmbito da Fé e da teologia: por exemplo, a comunicação social, a tecnologia, o eficientismo da sociedade contemporânea, a política, a paz, a guerra, a vida econômico-social. Mesmo este nível pertence ao ensinamento conciliar e é, então, supremo e solene, mas não pode reivindicar, pela matéria tratada e pelo modo não dogmático de tratá-la, uma validade por si infalível e irreformável.

A evocação de alguns ensinamentos dos Concílios precedentes constituem o terceiro nível. É uma evocação por vezes direta e explícita (LG 1: "praecedentium Conciliorum argumento instans"; LG 18: "Concili Vaticani primi vestigia premens"; DV 1: "Conciliorum Tridentini et Vaticani I inhaerens vestigis"), por vezes indireta e implícita, que recorda a verdade já definida: por exemplo, a natureza da Igreja, a sua estrutura hierárquica, a sucessão apostólica, a jurisdição universal do Papa, a encarnação do Verbo, a redenção, a infalibilidade da Igreja e do magistério eclesiástico, a vida eterna dos bons e a eterna condenação dos maus. Sob este aspecto, o Vaticano II goza de uma incontestável validade dogmática, sem ser por isso um Concílio dogmático, sendo sua uma dogmaticidade de reflexo, própria dos textos conciliares citados.

As inovações constituem o quarto nível. Se olharmos para o espírito que guiou o Concílio, seria possível afirmar que o Vaticano II foi todo ele um quarto nível, animado como era de um espírito radicalmente inovador, mesmo onde buscava o seu enraizamento na Tradição. Algumas inovações são, porém, específicas: a colegialidade dos bispos, o absorvimento da Tradição na Sagrada Escritura, a limitação da inspiração e inerrância bíblica, as estranhas relações com o mundo hebraico e islâmico, o irromper da assim chamada liberdade religiosa. Por fim, é muito claro que, se existe um nível ao qual a qualidade dogmática absolutamente não é reconhecível, é propriamente este das novidades conciliares.

5 – Conclusão – A adesão ao Vaticano II é, pelo acima exposto, qualitativamente distinta. Enquanto todos os quatro descritos níveis exprimem um magistério conciliar, todos os quatro colocam ao individuo e à comunidade cristã-católica o dever de uma adesão que não necessariamente será sempre "de Fé". Esta só vale para as verdades do terceiro nível e apenas enquanto provêm de outros Concílios, seguramente dogmáticos. Aos outros três níveis, é necessário reservar uma religiosa e respeitosa acolhida, até que qualquer uma de suas assertivas não se choque contra a perene atualidade da Tradição por evidente ruptura com o "eodem sensu eademque sententia" de qualquer variante formal sua. O dissenso neste caso, particularmente quando sereno e fundamentado, não caracteriza nem heresia, nem erro. Quanto ao segundo nível, aquele pastoral, como observei na nota n.19, é necessário pensar que os Padres conciliares não conheceram a hipoteca iluminista paga por eles mesmos com a abertura do Concílio a uma pastoral que, desde o começo, segundo a lógica iluminista da qual dependia, havia expulsado a Deus para substituí-lo pelo homem e por vezes para identificar no homem o próprio Deus. Foi, de fato, a pastoral do século XVIII quem deu as costas para as motivações, as fontes, os conteúdos e o método da teologia dogmática. E para abrir as portas da fortaleza teológica ao primado do natural, do racional, do temporal e do sociológico.

Com isto não digo, absolutamente, que a pastoral do Vaticano II seja a mesma pastoral do século XVIII. Mas seria ingênuo ou desinformado quem, para não afirmar-lhe a identidade, negasse todo o seu parentesco. Também no Vaticano II a matriz da pastoral permaneceu aquela iluminista, embora diversamente expressa e motivada. Coube a Paulo VI retirá-la da areia movediça do iluminismo e, na abertura do segundo período conciliar, transferí-la para uma esfera romântica, para fazer dela "uma ponte para o mundo contemporâneo", comunicando a ele "a sua vitalidade interior... como fenômeno vivificante e instrumento de salvação do próprio mundo". A ave fênix tornava-se assim uma ponte, um coeficiente de vida, um instrumento de salvação. Sem perder, porém, o seu parentesco com a matriz iluminista, através da inspiração neomodernista dos seus apoiadores. Não à toa, a partir de uma teologia pastoral assim entendida tem origem a secularização que, mais tarde, triunfará na presente fase pós-conciliar. E se da ignorância dos seus precedentes depende a indecisa noção de pastoralidade, de seu originário parentesco com eles dependeria o absurdo da dogmática de um concílio que se auto-definiu simplesmente pastoral. A ave fênix, dessa forma, revela o seu rosto. Somando tudo isto, teria sido melhor se ela tivesse continuado a escondê-lo.

Brunero Gherardini

Machado de Assis "QUINZE ANOS"


QUINZE ANOS

Oh! la fleur de l'Eden, pourquoi l'as-tu fannée,
Insouciant enfant, belle Eve aux blonds cheveux!

ALFRED DE MUSSET

Era uma pobre criança...
— Pobre criança, se o eras! —
Entre as quinze primaveras
De sua vida cansada
Nem uma flor de esperança
Abria a medo. Eram rosas
Que a doida da esperdiçada
Tão festivas, tão formosas,
Desfolhava pelo chão.
— Pobre criança, se o eras! —
Os carinhos mal gozados
Eram por todos comprados,
Que os afetos de sua alma
Havia-os levado à feira,
Onde vendera sem pena
Até a ilusão primeira
Do seu doido coração!

Pouco antes, a candura,
Coas brancas asas abertas,
Em um berço de ventura
A criança acalentava
Na santa paz do Senhor;
Para acordá-la era cedo,
E a pobre ainda dormia
Naquele mudo segredo
Que só abre o seio um dia
Para dar entrada a amor.

Mas, por teu mal, acordaste!
Junto do berço passou-te
A festiva melodia
Da sedução... e acordou-te!
Colhendo as límpidas asas,
O anjo que te velava
Nas mãos trêmulas e frias
Fechou o rosto... chorava!

Tu, na sede dos amores,
Colheste todas as flores
Que nas orlas do caminho
Foste encontrando ao passar;
Por elas, um só espinho
Não te feriu... vais andando...
Corre, criança, até quando
Fores forçada a parar!

Então, desflorada a alma
De tanta ilusão, perdida
Aquela primeira calma
Do teu sono de pureza;
Esfolhadas, uma a uma,
Essas rosas de beleza
Que se esvaem como a escuma
Que a vaga cospe na praia
E que por si se desfaz;

Então, quando nos teus olhos
Uma lágrima buscares,
E secos, secos de febre,
Uma só não encontrares
Das que em meio das angústias
São um consolo e uma paz;

Então, quando o frio 'spectro
Do abandono e da penúria
Vier aos teus sofrimentos
Juntar a última injúria:
E que não vires ao lado
Um rosto, um olhar amigo
Daqueles que são agora
Os desvelados contigo;

Criança, verás o engano
E o erro dos sonhos teus;
E dirás, — então já tarde, —
Que por tais gozos não vale
Deixar os braços de Deus.

__________________________
Machado de Assis, Poesias, Crisálidas, 1894

Trecho do filme: "O céu desviados" pelo Papa Pio XII

Ausschnitt aus dem Film: "Der veruntreute Himmel" mit Papst Pius XII

 

É impossível ver este vídeo e não compreender os dogmas da Igreja acerca do Romano Pontífice, de Pedro, a Rocha visível da Igreja de CRISTO! É impossível não compreender a glória de CRISTO em Sua Esposa Única, sem rugas nem manchas!

VIVA CRISTO REI!
VIVA A SANTA IGREJA CATÓLICA!

ENTREVISTA COM O PROF. DR. RICARDO COSTA


Via Poesia Diversa


(Professor efetivo da Ufes e Acadêmico correspondente no exterior da Reial Acadèmia de Bones Lletres de Barcelona. Sua produção acadêmica encontra-se disponível em www.ricardocosta.com/novosite)

1) A Igreja Católica como instituição encontra-se nas raízes culturais do Ocidente, visto ter feito do cristianismo como religião um processo civilizatório de assimilação e transmissão da cultura Greco-Romana. Assim, durante séculos a cultura tornou-se a principal dimensão do cristianismo como manifestação teológico-estética, o que pode ser visto em diversos campos da arte. Com o advento do secularismo esse processo tornou-se praticamente nulo. Quais as conseqüências desse entrave secular para o cristianismo e para a Igreja Católica como instituição?

Ricardo da Costa – Cultura e Cristianismo, de fato, formaram, moldaram o Ocidente, como tentei recentemente mostrar em uma conferência no Rio, ao tratar da relação entre o ideal monárquico e o Cristianismo (“A Gênese da Monarquia no Ocidente Cristão, sécs. IV-VI”). O mundo se secularizou a partir do século XVIII – na Filosofia antes – e o século XIX foi o momento de ruptura, com a disseminação dos ideais revolucionários franceses. Presenciamos hoje as consequências mais dramáticas desse processo: atualmente, à medida que o mundo rapidamente se descristianiza, cresce a violência, não só a mais extrema, mas tambem nas relações sociais mais corriqueiras. As pessoas hoje estão incrivelmente agressivas. Não é preciso ser historiador para perceber isso. Qualquer pessoa minimamente sensata e com mais de cinquenta anos percebe isso. O mundo era inacreditavelmente mais pacífico antes da década de 60 – refiro-me aqui à vida cotidiana, naturalmente.

De fato, a década de 60 foi um dos momentos de maior ruptura histórica que a Humanidade vivenciou. O começo foi oConcílio Vaticano II (1962-1965), com a prostração teológica da Igreja ao mundo. A seguir, a explosão do rockn’roll (iniciada em meados dos anos 50). O próprio John Lennon (1940-1980), em uma entrevista bombástica concedida em 1966, afirmou que o Cristianismo encolheria até morrer, e que eles (os Beatles) já eram então mais populares que Jesus Cristo. Se estivesse vivo, considerar-se-ia profético...

A Revolução cultural na China (1966) promovida por Mao-Tsé-Tung (1893-1976), com sua destruição do passado (inclusive das obras de arte do período Ming), Maio de 68 em Paris, Woodstock (1969), a explosão das drogas (a partir do verão psicodélico-californiano de 1966). Tudo foi rompido, subvertido, alterado. O mundo nunca mais foi o mesmo.
A eliminação dos Quatro velhos na Revolução Cultural da China: velhos costumes, velha cultura, velhos hábitos, velhas idéias [1].

Editorial: Missa Tridentina na Canção Nova, anestésico para consciências ingênuas?

Via Fratres in Unum

No último dia 15, o Padre Demétrio Gomes, da Arquidiocese de Niterói, celebrou a Santa Missa no Rito Tradicional para alguns membros da comunidade Canção Nova. Infelizmente, nenhum dos dirigentes e artistas estiveram presentes (ao menos é o que se pode depreender pelas fotos divulgadas).

Evidentemente, o episódio só ganhou enormes proporções nas redes sociais devido ao histórico negro da comunidade, tão extenso em práticas bizarras atentatórias ao culto divino e à doutrina Católica que sequer enumeraremos aqui.

"Extra! Extra! Missa Tridentina na Canção Nova!", ecoavam alguns fiéis ligados à Missa Tradicional. "A Canção Nova agora é — ou está se tornando — tradicional", poderiam inferir alguns em um silogismo equivocado.

É inegável que existe um forte lobby travestido de "tradicional" que, sutil e exitosamente, vem procurando moldar o pensamento Católico no Brasil e, com isso, afastar para longe qualquer indício do que considera "radicalismo". Seus promotores ficam chocados quando simplesmente são apresentados fatos e textos, ainda que saídos da pena de autores de boa reputação, sobre a revolução na Igreja brasileira alimentada em parte pela suposta TV Católica. Trata-se — dizem — de expor as "mazelas da Igreja", ao passo em que não se dá a devida ênfase ao que de bom está sendo feito.

Ninguém nega o valor infinito desta Santa Missa e o bem que certamente fez na Canção Nova.

No entanto, é preciso afastar uma visão ingênua e distorcida da realidade, que quer analisar apenas fatos isolados — uma Santa Missa Tradicional aqui, um ou outro lampejo de ortodoxia ali — e se esquecer do que está sendo promovido como um todo. Um sistema danoso só pode ser avaliado como aquilo que efetivamente é, ou seja, um organismo que comporta, seguramente, também aspectos positivos, mas onde o mal e o erro predominam e têm a palavra final.

Considerando de maneira geral o que defende e difunde, independentemente da boa-vontade de parte de seus membros e de um ou outro espasmo de Catolicismo, é necessário reconhecer que a Canção Nova contribui enormemente para, nos dizeres de Paulo VI, a "autodemolição da Igreja". E somente mediante coerência e constância na promoção do bem e da integridade da Fé este juízo poderá ser revisto.

Domingo, 22 de julho de 2012: Gabriel Chalita e o ministro da Saúde do governo Dilma, Alexandre Padilha, na Canção Nova.

Domingo, 22 de julho de 2012: Gabriel Chalita e o ministro da Saúde do governo Dilma, Alexandre Padilha, na Canção Nova.

De nossa parte, rezamos e fazemos votos de que, pelo contato com a Santa Missa verdadeiramente Católica, a Canção Nova reconheça a discrepância abissal entre o verdadeiro culto prestado a Deus e as pantomimas não só protestantizantes, mas frequentemente protestantes, que ela promove, transmite e com as quais contamina a Igreja do Brasil.

Que esta Santa Missa – cujo fim propiciatório, tão odiado pelos protestantes, é enormemente atenuado na Missa de Paulo VI e quase sempre esquecido nas Missas da Canção Nova – possa aplacar a ira divina e reparar os incontáveis ultrajes cometidos na e pela Canção Nova.

E que ela, a Santa Missa, não seja um mero instrumento nas mãos de revolucionários; um anestésico dado, em um domingo, a fim de apaziguar os ânimos "conservadores", para abrir as portas da Canção Nova, no domingo seguinte, a pregadores modernistas e promotores da cultura de morte, inimigos de Deus e da Igreja.

Biografias para crianças

Via Ensino Católico Tradicional


O Espelho de Reis de Frei Álvaro Pais (c. 1275-1349) e seu conceito de tirania

Certa vez, indicamos um excelente livro de São Boaventura aqui no A VIDA SACERDOTAL. Hoje, temos a alegria de indicar um excelente artigo do Prof. Dr. Ricardo da Costa (Facebook: perfil, página oficial do site), que muito pode auxiliar quem busca aprimorar a leitura que outrora indicamos.
_____________________________________________________





O Espelho de Reis de Frei Álvaro Pais (c. 1275-1349) e seu conceito de tirania

Resumo: O artigo inicia com uma breve biografia de Frei Álvaro Pais, enfocando com maior ênfase sua atuação política. A seguir, para poder tratar do conceito de tirania exposto pelo autor na obra Espelho dos Reis, é analisado o sentido medieval do Espelho na Idade Média, a partir da tradição bíblica, passando por Plotino e Gregório de Nissa até chegar ao sentido de espelho na tradição franciscana, que também trata do Espelho como um lugar de contemplação das virtudes. A seguir, o conceito de tirania na obra Espelho dos Reis é analisado comparativamente com a obra de Santo Tomás de Aquino, De Regimine Principum. Em ambos os autores, a tirania é definida basicamente como o exercício privado do bem público e o uso da justiça de maneira indevida, isto é, a obra é uma apologia do sistema monárquico através da execração de sua degeneração: como o rei é o representante mais perfeito dos anseios do povo, o tirano é sua corrupção mais lamentável.

Palavras-chave: História Medieval - Álvaro Pais - Tomás de Aquino - Tirania - Espelho.
*
Álvaro Pais (ou Pelágio) nasceu em Salnés, na Galiza, diocese de Compostela, entre 1275 e 1280. Como João de Salisbury e Santo Tomás, sua formação foi a de um acadêmico: tendo como mestre Guido de Baisio, doutorou-se em Cânones na Universidade de Bolonha, onde lecionou posteriormente. Ingressou na Ordem dos Frades Menores através de Frei Gonçalo — ministro-geral da Ordem em 1304 — doando então todos os seus bens aos pobres (BARBOSA, 1992).
Como franciscano pertenceu inicialmente à corrente dos espirituais — que defendiam uma interpretação rigorista da ordem (FALBEL, 1995). Por fidelidade ao papa João XXII, afastou-se depois desta corrente. Apesar disso, continuou a demonstrar grande simpatia pela tese da pobreza.
Sua ação política foi sempre a de um papista. Na questão da luta entre João XXII e Pedro de Corbara, tomou o partido do primeiro. Após a coroação de Luís da Baviera em Roma e a eleição de Pedro de Corbara como papa (Nicolau V), Álvaro Pais — que residia no Convento de Araceli, em Roma — refugiou-se em Monte Compatri (próximo de Roma). Em 1328, com a entrada de Luís da Baviera em Roma, Pais teve que abandonar a cidade.
Antes de 1330, Frei Álvaro exerceu o ofício de penitenciário do papa em Avignon, o que demonstra seu grau de proximidade com a corte. Assim, em 1332, João XXII dispensou Álvaro do impedimento de ilegitimidade paterna, o que possibilitou a obtenção das dignidades eclesiásticas. No mesmo ano Frei Álvaro foi sagrado bispo de Corona — cargo que nunca exerceu.
No dia 09 de junho de 1332, foi transferido para a diocese de Silves (atualmente Faro, ou Algarve). Lá teve graves discórdias com Afonso IV de Portugal. Frei Álvaro colocava-se contra a guerra movida pelo rei de Portugal contra Afonso XI de Castela e os impostos cobrados sobre os bens eclesiásticos para mantê-la. Chegou mesmo a sofrer ataques físicos quando celebrava uma missa. Fugiu para Sevilha e lá veio a falecer, em meados de dezembro de 1349.
Álvaro Pais escreveu três obras, consideradas seu tríptico principal:
1De statu et planctu Ecclesiae (Sobre o Estado e Pranto da Igreja) — nos anos 1332-1335. No Livro I, defende a legitimidade do papa João XXII como chefe da Igreja e combate Pedro de Corbara e o imperador Luís da Baviera. No Livro II repreende os vícios da Igreja de seu tempo;
2Speculum regum (Espelho dos Reis) — 1341-1344. É considerado uma espécie de resumo das teses políticas expostas no De statu..., além de instruir o rei sobre as virtudes que deve cultivar em grau elevado;
3Collyrium fidei adversus haereses (Colírio da Fé contra as Heresias).
Além disso, manteve uma correspondência com Afonso IV de Portugal escrita nos anos 1336-1337, e, provavelmente, também escreveu as seguintes obras:
1Comentário ao Evangelho de São Mateus;
2Comentário aos Quatro Livros de Sentenças;
3Sermão sobre a Visão Beatífica;
4) Pequeno tratado intitulado De potestate Ecclesiae (Sobre o Poder da Igreja) (COSTA, 1966; BARBOSA, 1992).
Mas qual o sentido medieval do conceito de Espelho? Devemos tentar responder esta pergunta antes de passarmos à análise do conceito de tirania na obra Espelho dos Reis, fundamental na construção de sua imagem ideal de rei.
*
Espelho, do latim, speculu: reprodução fiel da imagem, representação, reflexo. Em seu sentido figurado, um modelo, exemplo a ser seguido, imitado. Deriva do verbo depoente latino speculor, cuja primeira acepção é observar. Essas palavras, por sua vez, derivam da raiz indo-européia scop. Por exemplo, o termo episcopos significa “aquele que olha sobre, vela (SOUZA, 1999).
Mas como os pensadores da Idade Média entendiam esta alegoria? A tradição veterotestamentária traz a idéia do Espelho como um lugar que o homem, ou melhor, os reis, podem vislumbrar a ação de Deus. No Livro da Sabedoria, obra que se insere na tradição literária parenética que este artigo trata, encontra-se uma passagem em que o autor se vale desta metáfora reino terrestre-reino celeste: "A Sabedoria é mais móvel que qualquer movimento (...) Ela é um aflúvio do poder de Deus, uma emanação puríssima da gloria do Onipotente, pelo que nada de impuro nela se introduz. Pois ela é um reflexo da luz eterna, um espelho nítido da atividade de Deus e uma imagem de sua bondade" (Sb, 7, 24-26) (A Bíblia de Jerusalém, 1991: 1217-1218.)
Assim, desde a tradição deuterocanônica, o Espelho é o lugar da contemplação, a porta por onde os soberanos podem receber a iluminação que reflete a luz divina da Sabedoria. Com ela, através do Espelho, os reis podem exercer sabiamente o ofício da Justiça à maneira de Salomão. O Espelho representa a Sabedoria e faz parte da simbologia do poder monárquico e da educação do príncipe.
Por sua vez, na tradição filosófica ocidental, o Espelho também representa, desde Platão (c. 429-347 a.C.) até Plotino (204/205 - 270 d. C.), a alma. Segundo este último, a imagem de uma pessoa está sujeita a receber a influência de seu modelo, como um Espelho (PLOTINO, Ennéades, Paris, IV, 3); a alma possui duas faces: um lado inferior, voltado para o corpo, e um lado superior, voltado para a inteligência (PLOTINO, Ennéades, III, 43; IV, 88).
O cerne da filosofia de Plotino era a prática do retorno da alma através da contemplação interior. Neste sentido, o Espelho é uma metáfora do “olhar para dentro”, um reflexo, uma materialização da alma. Este tema foi desenvolvido por Santo Atanásio (328-373, bispo de Alexandria) e São Gregório de Nissa (371-395, bispo de Nissa - Capadócia). São Gregório afirmava que "...como um espelho quando é bem feito, recebe em sua superfície polida os traços daquele que lhe é apresentado, assim também a alma, purificada de todas as manchas terrestres, recebe em sua pureza a imagem da beleza incorruptível.” (BERNARD, 1952, p. 75)
Platonista da escola de Orígenes, Gregório acreditava que para qualquer método ser eficaz deveria ser como um Espelho. Assim como uma virgem, espécie de corpo-espelho onde as pessoas poderiam ter um vislumbre da pureza, da imagem de Deus. Segundo ele, uma virgem era um Espelho da pureza da alma e uma imagem física do Jardim do Éden, também terra virgem (BROWN, 1990, p. 249). A imagem refletida é então uma participação, interação: quando a alma se torna um Espelho perfeito, participa da imagem (CHEVALIER, 1995, p. 393).
Momento de integração cristã, o rei que contempla é contemplado pela imagem que vê. Pode então refletir sobre as marcas do pecado e expiá-los com a educação ética. Purificando a si, purifica também o reino que dirige, pois rei e reino são como um só. O rei é o elo de salvação dos súditos e elevação do reino terrestre à categoria de reino celeste.
Estas noções neoplatônicas estão fortemente presentes na mensagem de Álvaro Pais. A idéia de Espelho como um lugar de contemplação de virtudes é cara ao franciscanismo quatrocentista: data de 1318 a confecção da obra Espelho da Perfeição, obra de um franciscano desconhecido e influenciada pelos escritos de Frei Leão, companheiro íntimo de São Francisco de Assis (O Espelho da Perfeição, 1997, pp. 847-986).
Nela, espécie de “nova regra franciscana”, a idéia principal é a do Espelho como o lugar do reflexo da perfeição da vocação do estado de Frade Menor. Da pobreza perfeita, a perfeita maneira de obedecer, a perfeita obediência a um cadáver, a perfeita humildade partindo de si mesmo, a perfeição evangélica, a descrição do frade perfeito, a imagem do bom religioso, a obra é um manual das perfeitas virtudes cristãs. Um perfeito Espelho de contemplação e guia ético.
A respeito da função do saber, este autor desconhecido afirma que o “dom da ciência” deverá ser um guia para o modo de agir. Através de seus atos, o cristão que possui a educação científica deve ser um "...modelo de piedade, simplicidade, paciência e humildade. Cultivará a virtude tanto em si mesmo como nos outros; exercitar-se-á praticando-a continuamente e estimulará os outros, mais com exemplos do que com palavras, a praticá-la.” (O Espelho da Perfeição, cap. 80, p. 933)
Não é este o paradigma pelagiano para educar seu rei cristão? Também para Álvaro Pais, ver-se no Espelho é um ato de contemplação da alma, do eu interior. Álvaro Pais reporta o sentido do Espelho ao universo semântico que dá origem à palavra speculum (Espelho): spectare (olhar, contemplar, observar), specto (olhar, estar voltado para), specula (lugar de observação, lugar elevado), specularia (vidro), speculatione (especulação).
Assim, liga-se à tradição filosófica medieval que interpretou a especulação (speculatione) como “modo de refletir”, isto é, refletir contemplativamente, fielmente, como um EspelhoSpeculumspeculerisEspelho, contemplação. O Espelho alvarinoé instrumento contemplativo. Exalta a figura do sábio e oferece ao governante o que de melhor existe no mundo terreno: a possibilidade de contemplação.
O rei alvarino deveria ser um Espelho de virtudes cristãs. Somente através deste exercício de consciência o monarca poderia conduzir seus súditos à salvação, ao reino celeste — finalidade última de sua função régia. Para isso, os súditos deveriam contemplar aquele modelo real perfeito de virtudes. A partir de seu corpo, o rei propagava a boa nova: de sua corte irradiaria-se a salvação para todo o restante do corpo social.
Portanto, o objetivo pedagógico é o rei, a alma régia, a perfeita monarquia. A educação parenética é um ato de unção régia, colírio que limpa e purifica a alma do rei e do reino. Feitas estas considerações preliminares, passemos à análise de suas idéias sobre a tirania no Espelho dos Reis. * Neste livrinho por dedicatória te envio o colírio com que possas ungir teus reais olhos interiores (...) e o espelho em que assìduamente te contemples, confessando que a ti, meu Senhor natural e afectuosìssimo dilecto, nada de mais precioso e mais durável posso oferecer. (Espelho dos reis, vol. I, p. 05)
Com esta dedicatória a Afonso XI de Castela (1312-1350) Álvaro Pais inicia o Espelho dos Reis. A obra foi escrita para comemorar a vitória cristã na batalha do Salado. A vitória do rei de Castela no Salado foi a confirmação da superioridade cristã contra os “filhos espúrios de Maomé, pseudo-profeta, mago e condutor de camelos” (Espelho dos reis, vol. I. p. 07).
Para comprovar a força das armas cristãs vencedoras, o autor criou uma simbolização cristã das armas do cavaleiro:
Arma
Escudo - O triângulo da fé em Cristo
Elmo - A esperança
Espada - O amor de Cristo
A vitória confirma a eficácia da fé em Cristo. O rei que vence é não só o rei-guerreiro, mas também o rei re-ungido pela virtude. Mas qual a importância daquilo que Álvaro Pais chama de unção interior (e que nós chamaremos de educação cristã virtuosa)? No século XII, João de Salisbury já tinha ressaltado a importância da educação dos príncipes na boa condução do reino por ele governado. A respeito do rei de Roma, Conrado III João afirmava: “quia rex illiteratus esta quasi asinus coronatus” (“porque o rei inculto é como um asno coroado”) (CURTIUS, 1996, p. 235).
O ideal do imperator literatus que se desenvolveu no Ocidente desde o período de Augusto metamorfoseou-se na forma do soberano erudito (el sabio, le sage, der Weise). Considero o Espelho de Príncipes um prolongamento desta extensão, um registro escrito em forma de tratado ético-político sistematizado.
A tradição ibérica em relação ao tema da tirania remonta, pelo menos, ao código de leis intitulado Las Siete Partidas, de Afonso X, o Sábio (1221-1284), rei de Castela e Leão (Las Siete Partidas, 1974). A obra assinala dois tipos de tirania:
1) O tirano que usurpa o trono por traição;
2) O tirano que utiliza seu poder indevidamente (SORIA, 1988, p. 184).
Outro documento ibérico onde se encontra o conceito de tirano é a obra intitulada Castigos e documentos del rey don Sancho (SORIA, Ibid.). Nela a distinção entre o rei e o tirano é que o verdadeiro rei ama o bem comum; o tirano coloca seu próprio bem acima de qualquer outro. O bem do reino só interessa ao tirano na medida que convém ao seu próprio interesse.
No Espelho dos Reis, Álvaro Pais segue pari passu o desenvolvimento do tema por Santo Tomás na obra De Regimine principum. Seria mesmo um tomismo político com ligeiros acréscimos. É interessante notar que esta adesão não é explícita: nas dezenas de passagens das auctoritas que respaldam o texto pelagiano, não há nenhuma referência à obra de Santo Tomás, muito menos ao autor.
Para Álvaro Pais, todo poder emana de Deus. Como Santo Tomás, o autor afirma que o homem é um animal social e comunicativo. No entanto, o poder procedeu da corrupta intenção (corrupta intentione): no princípio do mundo, as pessoas que assumiram o domínio (dominium) assim o conseguiram através da soberba e da tirania.
A ambição de dominar é odiosa a Deus; no entanto Ele permitiu o domínio para refrear o governo dos senhores ambiciosos e a malícia dos homens desordenados, para a concórdia dos bons e a punição dos maus (Espelho dos reis, vol. I, p. 51). Assim, não há poder que não venha de Deus: ou mandado, ou consentido.
Convém que alguns governem outros para:
1) Dirigirem os ignorantes;
2) Coibirem e punirem os pecadores;
3) Defenderem os inocentes;
4) Cuidarem do bem comum;
5) Conservarem a sociedade.
Alguns governantes conseguiram o governo por reto caminho; outros por perverso caminho:
Por reto caminho
1) Por comum consenso da multidão
2) Por especial mandado de Deus
3) Por instituição daqueles que fazem as vezes de Deus
Por perverso caminho
1) Usurpação por paixão de dominar
2) Usurpação pela força
3) Usurpação por dolo ou suborno
É de fundamental importância compreender estes pontos para a análise do posterior desenvolvimento pelagiano do conceito de tirano e suas conseqüências. A causa da tirania é o excesso de poder concedido ao rei. A perfeita precaução contra a tirania é incutir a perfeita virtude naquele a quem tamanho poder é concedido, espaço aberto para a educação parenética.
Quanto ao juízo, os príncipes tiranos devem ser julgados somente pelo papa, “vigário superior de Deus na Igreja”. Mas porque alguns reis são tiranos se todo poder vem de Deus? Para o autor, nem o mal se faz sem a Sua permissão: como no tomismo, tolerar o tirano é um exemplo de provação. A dialética rei-bomrei-mau é assim desenvolvida:
Rei bom
1) Deus ordena
2) Deus ordena de boa vontade
3) O rei-bom é uma dádiva de Deus
Rei mau (tirano)
1) Deus ordena
2) Deus ordena irado
3) O rei-mau é o castigo pelos crimes do povo
O reino é reto ou perverso quanto ao modo de aquisição e uso do poder. Também como Santo Tomás, em Álvaro Pais o governo injusto acontece quando o rei governa para seu bem privado. O tirano possui asseclas (leõezinhos, leunculos suos) que “...chupam o sangue dos pobres e o vomitam no seio de seus senhores” (Espelho dos reis, vol. I, p. 157-159).
Mas qual a definição de tirano dada por Álvaro Pais? O tirano é:
1) O dono da força;
2) O que oprime;
3) O que não rege pela justiça;
4) Aquele que não possui justamente o poder, mas o usurpa;
5) Aquele que quer ser temido e busca os interesses pessoais;
6) Aquele que domina com a paixão da ambição;
7) Aquele que rouba os bens dos súditos.
O rei representa a unidade e sua conservação, isto é, a paz. Aquele que pode realizar mais plenamente a unidade é o uno em si. Portanto, deve-se trabalhar para que o rei não se transforme em tirano. Como? Temperando seu poder.
Ora, este é o desenvolvimento ipse litteris de Santo Tomás em sua obra De Regimine principum. Como o Aquinense, Frei Álvaro também defende a graça de suportar o tirano, com os mesmos exemplos históricos de Tarqüínio Soberbo e Domiciano. Procurando forças humanas para recorrer do tirano, Frei Álvaro acrescenta uma importante instância temporal: a Igreja. Somente após recorrer a ela o homem deve pedir a Deus que “...humilhe o coração do tirano” (Espelho dos reis, vol. I, p. 177).
Em outra obra, Álvaro Pais retorna à definição de tirano, em relação direta com Deus. Tirano, aquele que é:
1) Fugitivo da face do Senhor;
2) Não governou segundo a vontade do Senhor;
3) Edificou uma torre que o Senhor também detestou;
4) Transgrediu a lei da natureza;
5) Fez aos outros opressões e mortes;
6) Um apóstata daquilo que devia fazer a seus irmãos (Estado e Pranto da Igreja, vol. I, § 36, p. 407-409).
Por isso, os homens fogem e se escondem do tirano como das feras cruéis (Espelho dos reis, p. 169). Mas o povo merece o tirano, pois peca: deve então abster-se de culpa, “...para se libertar da praga dos tiranos” (BARBOSA, 1992, p. 30).
Assim, a imagem do rei é edificada e reforçada conceitualmente a partir da oposição filosófica ao tirano. Trata-se de uma apologia do sistema monárquico através da execração de sua degeneração: como o rei é o representante mais perfeito dos anseios do povo, o tirano é sua corrupção mais lamentável. Mas, para Álvaro Pais, isto só possui real valor se o governante tiver em conta a suprema finalidade de sua missão: a espiritualização da monarquia, a elevação do reino e dos súditos ao reino celeste. Isto só será possível se o rei for virtuoso e ético, se consagrar seu reinado à comunidade que representa. Para isso, deve ter em mente o perigo da tirania, refutá-la através de suas ações cristãs.

*

Fontes 

ÁLVARO PAIS. Espelho dos reis (Speculum regum). Lisboa: Instituto de Alta Cultura, 1963.
ÁLVARO PAIS. Estado e Pranto da Igreja (Status et Planctus Ecclesiae). Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1988.
GREGÓRIO DE NISSA. De Virginitate (org. M. Aubineau), Grégoire de Nysse: Traité de la Virginité, Sources Chrétiennes 119, Paris: Éditions du Cerf, 1961.
PLOTINO. Ennéades (coord. e trad. René Bréhier). Paris, 1924-1931.
A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Edições Paulinas, 1991.
Las Siete Partidas (ed. de Gregório López de 1555). Madrid: fac-símile, 1974.
São Francisco de Assis. Escritos e biografias de São Francisco de Assis — Crônicas e outros testemunhos do primeiro século franciscano. Petrópolis: Editora Vozes/FFB, 1997.

Bibliografia 

BARBOSA, João Morais. Álvaro Pais. Lisboa: Editorial Verbo, 1992.
BERNARD, Régis. L’image de Dieu d’après saint Athanase. Paris: 1952.
BROWN, Peter. Corpo e Sociedade — o homem, a mulher e a renúncia sexual no início do cristianismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990.
CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT. Dicionário de Símbolos — mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1995.
COSTA, António Domingues de Sousa. Estudos sobre Álvaro Pais. Lisboa: Instituto de Alta Cultura, Centro de Estudos de Psicologia e de História da Filosofia anexo à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1966.
CURTIUS, Ernst Robert. Literatura Européia e Idade Média Latina. São Paulo: Editora HUCITEC, 1996.
FALBEL, Nachman. Os espirituais franciscanos. São Paulo: Editora Perspectiva, 1995.
SORIA, José Manuel Nieto. Fundamentos ideológicos del poder real en Castilla. Madrid: Eudema, 1988.
SOUZA, José Antônio de C. R. de. Entrevista concedida no dia 02.07.1999 via INTERNET.

Aprenda mais