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EVENTO: O Concílio Vaticano II - Uma história nunca escrita


Prezados Amigos

Temos a grata satisfação de convidá-lo(a), bem como a seus familiares e amigos, a participar da conferência do renomado historiador italiano, Prof. Roberto de Mattei, na segunda semana de dezembro de 2013, entre os dias 8 e 15, sobre os bastidores do Concílio Vaticano II.

O evento realizar-se-á nas seguintes cidades:

8 de dezembro – Rio de Janeiro - no Windsor Flórida Hotel, na Rua Ferreira Viana, 81 – bairro Flamengo. Faça já sua inscrição


9 de dezembro – Recife – Pernambuco, no auditório do Círculo Católico de Recife – Rua Riachuelo, 105 – 10 º andar. Faça já sua inscrição


10 de dezembro – Brasília – Lançamento do livro, na Livraria Cultura. Clique aqui e faça sua reserva


12 de dezembro – São Paulo – Conferência no Club Homs, Av. Paulista, 735 . Clique aqui e faça sua inscrição.


Escolha sua cidade e Faça já sua inscrição. No dia da conferência haverá, para os participantes, sorteio dos livros: O Concílio Vaticano II – uma história nunca escrita e Apologia da Tradição. 

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Desde sua convocação até os dias presentes, o Concílio Vaticano II suscitou inúmeras controvérsias que certamente darão margem a discussões futuras.

Para que possamos conhecer os bastidores desse marcante evento na História da Igreja, onde conservadores e progressistas travaram uma grande luta, o prof. de Mattei, como historiador, oferece um contributo ímpar em sua obra “O Concílio Vaticano II – uma história nunca escrita”, através de uma rigorosa reconstrução do Concílio em suas raízes e consequências, baseada sobretudo em documentos, arquivos, diários, correspondências e testemunhos daqueles que foram os seus protagonistas. 

No Brasil, o tema vem tomando corpo, e merece de nossa parte uma singular atenção. Para compreender seu desenrolar até o presente momento será de grande valia ouvirmos a abordagem objetiva e clara do renomado historiador italiano, nesta oportunidade única e inédita que se realizará na nossa Terra de Santa Cruz.

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O historiador e jornalista italiano Roberto de Mattei, nascido em 1948, é um dos mais destacados líderes católicos contemporâneos. É professor de História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma, na qual é o coordenador da Escola de Ciências Históricas. Entre 2004 e 2011 foi por duas vezes vice-presidente do principal organismo estatal italiano de apoio às ciências, o Conselho Nacional de Pesquisa. Membro do Conselho de Administração do Instituto Histórico para a Idade Moderna e Contemporânea e da Sociedade Geográfica Italiana, ele colabora com o Comitê Pontifício de Ciências Históricas. Foi agraciado com a insígnia da Ordem da Santa Sé de São Gregório Magno, em reconhecimento pelos seus serviços prestados à Igreja.


Em 2010, Roberto de Mattei publicou o livro O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita, o qual lhe valeu o mais prestigioso prêmio italiano para livros históricos: o Acqui Storia/2011. Recentemente traduzido para o português, e difundido no Brasil pela Petrus Livraria, pode ser adquirido por meio do site:http://www.livrariapetrus.com.br.

Inscreva-se nos links abaixo:


Roberto De Mattei: “É estranho o silêncio do Vaticano II sobre o comunismo"


(Renascença ) O historiador italiano Roberto de Mattei está em Portugal para apresentar o seu livro “O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita”.  O historiador italiano Roberto De Mattei é professor de História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma. Em 2008 foi condecorado pelo Papa em reconhecimento dos serviços prestados à Igreja. É ainda colaborador do Pontifício Conselho das Ciências Históricas. Nesta entrevista fala do seu mais recente livro: “O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita”.

Em que sentido é que o seu livro é uma “história nunca escrita” do Concílio?
Nunca até hoje foi escrita uma história compreensiva sobre os três anos do Concílio. A única que está escrita, por Giussepe Alberigo, é apenas uma colecção de textos.

Falta-lhe o aspecto de interpretação dos factos?
Exactamente, a ideia é também uma nova interpretação dos factos. Só depois da reconstrução histórica dos factos é que os pastores, os teólogos, podem intervir para formular os seus juízos teológicos e morais. O meu nível é o histórico.

Por exemplo, hoje em dia toda a gente se apercebe do alcance revolucionário do Maio de 68, uma revolução cultural profunda e incisiva. Contudo, antes de 68 houve o Concílio, uma revolução que modificou profundamente a história dos anos seguintes, a começar pelo próprio Maio de 68, que tem uma componente católica que devemos reconhecer para melhor resolver os problemas contemporâneos.
À medida que investigou o Concílio, o que é que o surpreendeu mais?
Talvez o silêncio do Concílio sobre o comunismo. Quando o Concílio se reúne, o Muro de Berlim acabara de desferir uma profunda ferida na Europa. O Comunismo estendia a sua sombra ameaçadora sobre todos os continentes.Porque é que os padres conciliares, reunidos em Roma para tratar das relações entre a Igreja e o mundo moderno, ignoram o fenómeno mais macroscópico da sua era, o imperialismo comunista? Esse é talvez o mistério mais profundo do Concílio Vaticano II.

É cedo para fazer já um balanço do efeito do Concílio na Igreja?
É o momento de se fazer este balanço. O Vaticano II não foi o primeiro nem o último concílio, foi um momento da longa história da Igreja. Ao longo da história houve 21 concílios. Alguns deles, Niceia, Trento, Vaticano I, são inesquecíveis, por causa do alcance teológico dos documentos que deles emanaram. Outros foram esquecidos. Um concílio entra na história pela qualidade dos seus documentos. Nesse sentido temos uma grande liberdade crítica para analisar e fazer um balanço do Concílio Vaticano II.

Daqui a 400 anos as pessoas vão-se lembrar do Concílio Vaticano II?
Não posso dizer isso, mas posso dizer que o Vaticano II foi um concílio diferente de todos os que o precederam, neste a característica mais importante foi a pastoral. Claro que nem o Concílio de Trento nem o Vaticano I tinham sido privados do elemento pastoral, mas no Vaticano II a dimensão pastoral acabou por se tornar prioritária, introduzindo uma revolução na linguagem e na mentalidade. Essa seria a característica principal, essa revolução não no conteúdo, não dogmática, mas na linguagem, na mentalidade, na maneira de apresentar a doutrina da Igreja.

Ruptura ou continuidade?
Em sua opinião o Concílio apresentou uma ruptura com a Igreja anterior, ou não?
O Papa Bento XVI declarou que existe uma hermenêutica da reforma cuja verdadeira natureza consiste numa conjugação de continuidade e descontinuidade a níveis diferentes. Parece-me que é justamente daí que devemos partir e essa continuidade e descontinuidade do Vaticano II, nos confrontos com a Igreja anterior, pode ser considerada sobre dois aspectos: a dimensão histórica-humana da Igreja e a dimensão ontológica. Acho que houve continuação na dimensão ontológica que corresponde à dimensão divina da Igreja, porém houve descontinuidade na dimensão humana que corresponde à natureza humana da Igreja.

O erro é concentrar a atenção sobre os documentos do Concílio, ou seja do conteúdo dogmático. O Concílio, antes de ser uma série de documentos, foi um evento histórico. Nesse sentido podemos dizer, acho, que houve uma ruptura, mas uma ruptura histórica não é necessariamente uma ruptura doutrinal e dogmática.
Qual era o clima na Igreja antes do Concílio?
Houve uma crise na Igreja antes do Vaticano II, mas o clima do Concílio favoreceu a explosão dessa crise. Hoje temos de perguntar se a voz profética que se fez ouvir na aula conciliar foi a do Cardeal Suenens, [da ala liberal], ou a voz dos conservadores que no Concílio combateram o Cardeal Suenens. A minoria conservadora do Concílio é hoje apresentada como a parte derrotada e os liberais são apresentados como profetas. O que faço no meu livro é ser a voz dos vencidos do Concílio, a voz da tradição.

Acredita que essa voz poderá ser reabilitada?
Acho que sim, porque hoje temos necessidade da tradição. A tradição não é o passado, esse acabou, não pode voltar, são os elementos do passado que vivem no presente e que têm de viver para que o nosso presente tenha futuro.

Houve uma grande expectativa à volta do Concílio. Passados 50 anos como vê a situação?
Recentemente Bento XVI falou de como esteve, enquanto jovem teólogo, na Praça de São Pedro quando João XXIII abriu o Concílio e em todo o mundo havia um clima de entusiasmo, parecia haver um clima de aurora, de Pentecostes para toda a Igreja.

Veja-se o contraste entre o clima entusiástico, um pouco utópico e a situação da Igreja que se apresenta nos discursos dos bispos reunidos em Roma para o sínodo da Nova Evangelização. A voz dos padres sinodais é uma voz dolente, pessimista, descrevem nas próprias dioceses uma situação de profundo sofrimento da Igreja, uma Igreja que é perseguida em todos os continentes, incluindo na Europa. Essa é a situação actual.

O CONCEITO DE LIBERDADE RELIGIOSA NA "DIGNITATIS HUMANAE" DO CONCÍLIO VATICANO II


Por Antônio de Castro Mayer, Bispo de Campos

Em matéria de liberdade religiosa na ordem civil, três pontos capitais, entre outros, são absolutamente claros na tradição católica:


1. Ninguém pode ser obrigado pela força a abraçar a fé;
2. O erro não tem direitos;
3. O culto público das religiões falsas pode, eventualmente, ser tolerado pelos poderes civis, em vista de um maior bem a obter, ou de um maior mal a evitar, mas de si deve ser reprimido, mesmo pela força, se necessário.

É o que se depreende, por exemplo, dos seguintes documentos:

PIO IX, Encíclica "Quanta Cura":

"E contra a doutrina da Sagrada Escritura e dos Santos Padres, (os seguidores do naturalismo) não temem afirmar que "o melhor governo é aquele no qual não se reconhece ao poder político a obrigação de reprimir com sanções penais os violadores da religião católica, a não ser quando a tranqüilidade pública o exija". Desta idéia absolutamente falsa do regime social não receiam passar a fomentar aquela opinião errônea e mortal para a Igreja Católica e a salvação das almas, chamada por nosso predecessor de feliz memória, Gregório XVI, loucura, a saber que "a liberdade de consciência e de cultos é um direito próprio de cada homem, que deve ser proclamado e garantido em toda sociedade retamente constituída (BAC, Doutrina Pontifícia, II documentos políticos, 1958, p. 8)".

"Syllabus" de PIO IX:

"77. Na nossa época não é mais necessário que a religião católica seja considerada como a única religião do Estado, excluídos os outros cultos.
"78. Por isso é de louvar que em regiões católicas, se tenha providenciado por lei, que aos imigrantes naquelas regiões se permita o culto público próprio deles." (BAC, ib. p. 37).

LEÃO XIII, Encíclica "Libertas":

"Portanto, na sociedade humana, a verdadeira liberdade não consiste nisto que faças o que te agrada, de onde surgiria uma grande confusão e perturbações que terminariam na destruição do próprio Estado; e sim nisto que, através das leis civis possas mais facilmente viver de acordo com as prescrições da lei eterna (BAC, ib. p. 234).
"Essa mesma liberdade, se considerada nos Estados, isto precisamente deseja, que o Estado não preste a Deus culto algum, ou queira que publicamente seja ele prestado; nenhum deve ao outro ser preferido, mas todos devem ser considerados em igualdade de direito, sem mesmo se tomar em conta o povo, caso se trate de povo católico (BAC. p. 244)".
"Deus é que fez os homens sociáveis e os colocou num grupo de seus semelhantes, para que o que sua natureza precisasse, e eles sozinhos não pudessem obter, encontrassem no convívio social. De onde, é preciso reconhecer a Deus como criador da sociedade civil, enquanto é sociedade, e, em conseqüência reconheça ela e lhe cultue o poder e domínio. Condena, pois, a justiça, condena a razão, que o Estado seja ateu, ou, o que termina no ateísmo, se mostre indiferente para as várias, como se diz, religiões, e a todas promiscuamente conceda os mesmos direitos.
"Como, pois, é necessário que haja na Sociedade Civil a profissão de uma religião, deve professar-se a única que é verdadeira, e que, sem dificuldade, especialmente nas sociedades católicas, se reconhece porquanto nela são visíveis os caracteres de sua verdade (BAC. ib. p. 244/5)".
"É, realmente, o direito uma faculdade moral que, como já dissemos e convém repetir com insistência, não podemos supor concedida pela natureza, de igual modo, à verdade e ao erro, à virtude e ao vício. Existe o direito de propagar na sociedade, com liberdade e prudência, tudo o que é verdadeiro e tudo o que é virtuoso, para que o maior número de cidadãos possa participar da verdade e do bem. As opiniões falsas, porém, a pior espécie de mal do entendimento, e os vícios corruptores do espírito e da moral pública devem ser reprimidos pelo poder público para impedir sua paulatina propagação, sumamente nociva para a mesma sociedade. Os extravios de um espírito silencioso que, para a multidão ignorante, se convertem facilmente em verdadeira opressão, devem ser punidos pela autoridade das leis não menos que os atentados da violência cometidos pelos fracos. tanto mais quanto é impossível, ou dificílimo, à parte, sem dúvida, mais numerosa da população, precaver-se contra os artifícios de estilo e as sutilezas da dialética, principalmente quando tudo isso lisonjeia as paixões (BAC. ib. p.246-7).
"Por estes motivos, não concedendo direito senão àquilo que é verdadeiro e honesto (a Igreja) não condena que a autoridade pública permita alguma coisa que se distancie da verdade e da justiça, em vista de um mal a evitar ou de conseguir manter um bem". (BAC. ib. p.253)

PIO XII, Alocução "Ci Riesce":

"Uma outra questão essencialmente diversa é: se numa comunidade de Estados possa, ao menos em determinadas circunstâncias, estabelecer-se como norma que o livre exercício de uma crença e de uma prática religiosa ou moral, as quais têm valor em um dos Estados-membros, não seja impedido em todo o território da comunidade por meio de leis ou providências coercitivas estatais. Em outros termos, pergunta-se se o "não impedir" ou seja, a tolerância, seja permitida nestas circunstâncias, e, portanto, a positiva repressão não seja sempre obrigatória.
"Há pouco aduzimos a autoridade de Deus. Pode Deus, se bem que lhe seria possível e fácil reprimir o erro e os desvios morais em alguns casos, escolher o "não impedir", sem entrar em contradição com sua perfeição infinita? Pode acontecer que, em determinadas circunstâncias, Ele não dê aos homens ordem nenhuma, não imponha dever nenhum, não conceda sequer direito algum de impedir e de reprimir o que é errôneo e falso? Um exame da realidade dá uma resposta afirmativa. Ela mostra que o que é errôneo e pecado se encontram no mundo em larga medida. Deus os reprova; não obstante os deixa existir. Daí a afirmação: o desvio moral e religioso deve ser sempre impedido, quando é possível, porque a tolerância é em si mesma imoral — não pode ter direito na sua totalidade incondicional. Por outro lado, Deus não deu nem sequer à autoridade humana um tal preceito absoluto e universal, nem no campo da fé nem da moral. Não conhecem tal preceito nem a convicção comum dos homens, nem a consciência cristã, nem as fontes da Revelação, nem a prática da Igreja. Para omitir aqui outros textos da Sagrada Escritura que se referem a esse assunto, Cristo na parábola da cizânia deu a seguinte advertência: Deixai que no campo do mundo a cizânia cresça junto com a boa semente por causa do bom grão. O dever de reprimir os desvios morais e religiosos não pode, portanto, ser uma última norma de ação. Ele deve estar subordinado a normas mais altas e mais gerais, as quais em algumas circunstâncias permitem, e mesmo fazem talvez aparecer como partido melhor o não impedir o erro, para promover um bem maior.
"Assim, se esclarecem os dois princípios, dos quais é preciso deduzir, nos casos concretos, a resposta à gravíssima questão do jurista, do homem político e do Estado soberano católico, com relação a uma fórmula de tolerância religiosa e moral do conteúdo supra indicado, a tomar-se em consideração para a Comunidade dos Estados.
"Primeiro: o que não corresponde à verdade e à norma moral, não tem objetivamente nenhum direito nem à existência, nem à propaganda, nem à ação. Segundo: o não impedi-lo por meio de leis estatais e de disposições coercitivas pode, não obstante, ser justificado no interesse de um bem superior e mais vasto" (AAS. 1953, p. 798-9. BAC, ib. p. 1013).
"Quanto à segunda proposição, isto é, à tolerância, em determinadas circunstâncias, a suportar mesmo nos casos em que se poderia proceder à repreensão, a Igreja já em atenção àqueles que em boa fé (embora errônea mas invencível) são de opinião diversa — viu-se induzida a agir e agiu de acordo com a tolerância, depois que, sob Constantino Magno e os outros imperadores cristãos, se tornou Igreja e Estado, sempre à vista de mais altos e superiores motivos; assim faz hoje e também no futuro encontrar-se-á diante da mesma necessidade. Nesses casos singulares a atitude da Igreja é determinada pela tutela e pela consideração do bem comum da Igreja e do Estado em cada Estado, de um lado, e, de outro, do bem comum da Igreja universal, do reino de Deus sobre o mundo todo" (AAS. ib. p. 801. BAC. ib. p. 1015) [1].

*

Não se coaduna com os documentos que acabamos de citar, a doutrina da "Dignitatis Humanae" sobre esta matéria. Com efeito, no no.2, lemos:

"Este Concílio Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa. Esta liberdade consiste nisto que todos os homens devem estar imunes de coação, tanto da parte de pessoas particulares como de grupos sociais e de qualquer poder humano, e isto de maneira que, em matéria religiosa, nem se obrigue a ninguém a agir contra sua consciência, nem se impeça que proceda de acordo com ela em privado como em público, sozinho ou associado a outros, dentro dos limites devidos."

O texto é claro, e, a rigor, dispensa comentários. Há, segundo a declaração, um verdadeiro direito de todos em relação a todos: indivíduos, grupos e Estado.

Note-se, portanto, que a Declaração não considera situações concretas — ainda que muito freqüentes — que aconselhariam a permissão, a tolerância do culto falso. Pelo contrário, o texto prescinde de fatos concretos, e estabelece como princípio QUE TODO HOMEM TEM O DIREITO DE AGIR DE ACORDO COM A PRÓPRIA CONSCIÊNCIA, em particular ou em público, em matéria religiosa.[2]

Os limites à liberdade religiosa estabelecidos pela Declaração ("dentro dos devidos limites") não são suficientes, à luz do ensinamento tradicional dos Papas, para escoimá-la dos defeitos apontados[3].

Logo adiante, o texto continua:

"Este direito da pessoa humana à liberdade religiosa deve ser reconhecido na ordenação jurídica da sociedade, de maneira a que chegue a converter-se em direito civil (Dec. Lib. Hum., no. 2).

O texto é claro. O motivo pelo qual a Declaração almeja que a liberdade religiosa, nos termos indicados, se converta em direito civil, consiste em que já antes de qualquer disposição legal teria o homem esse direito. Tratar-se-ia, portanto, de verdadeiro direito natural [4]. Ora, esse princípio opõe-se ao ensinamento dos Papas anteriores.

O que causa perplexidade é o fato de que a "Dignitatis Humanae" não apenas defende a liberdade religiosa em termos que destoam da Tradição, mas afirma "ex professo" — embora sem aduzir provas — que sua posição não se choca com os ensinamentos tradicionais:

"Pois bem, como a liberdade religiosa, que exigem os homens para o cumprimento de sua obrigação de prestar culto a Deus, se refere à imunidade de coação na sociedade civil, deixa íntegra a tradicional doutrina católica sobre a obrigação moral dos homens e das Sociedades, quanto à verdadeira religião e a única Igreja de Cristo" (no. 1).

Ora, a tradição doutrinária católica sobre o dever moral dos homens e das sociedades em relação à Igreja Católica, sempre ensinou que a religião verdadeira deve ser favorecida e amparada pelo Estado, enquanto o culto público e o proselitismo das religiões falsas devem ser impedidos, se necessário pela força (embora possam, eventualmente, ser toleradas em atenção a determinadas circunstâncias concretas). E isso, a tradição doutrinária católica sempre ensinou que é um dever moral, no sentido exato do termo. É algo que as sociedades, como criaturas de Deus, devem, de maneira absoluta, à religião verdadeira.

No número 2 da "Dignitatis Humanae", lemos:

"De acordo com sua dignidade [5] todos os homens, porque são pessoas, a saber, dotados de razão e vontade livre, e, portanto, elevados pela responsabilidade pessoal, são impelidos por sua própria natureza e também por uma obrigação moral a buscar a verdade, em primeiro lugar, a que diz respeito à Religião. Estão igualmente obrigados a aderir à verdade conhecida e a ordenar toda sua vida de acordo com as exigências da verdade. Não podem, no entanto, satisfazer a esta obrigação, de maneira consentânea à sua própria natureza a não ser que gozem da liberdade psicológica e ao mesmo tempo da imunidade de coação externa. O direito à liberdade religiosa não se funda, pois, numa subjetiva disposição da pessoa, e sim na sua própria natureza. De onde, o direito a esta imunidade persevera mesmo naqueles que não satisfazem à obrigação de buscar a verdade e de a ela aderir; e seu exercício não pode ser impedido, desde que se ressalve a justa ordem pública".

Vê-se, pois, que a Declaração não reivindica a liberdade religiosa apenas para os adeptos de outras religiões, mas para todos os homens. Portanto, mesmo para os que não abraçam religião nenhuma e para os que negam a existência de Deus. Também estes, segundo a "Dignitatis Humanae", podem professar publicamente os seus erros e fazer propaganda de sua irreligiosidade. Não vemos como possa a Declaração achar que não se opõe à tradição católica esse estranho "direito" de proselitismo ateísta.

Em abono de seu conceito de liberdade religiosa, a Declaração conciliar alega alguns textos pontifícios. São eles: a Encíclica "Pacem in Terris" de João XXIII, AAS. 1963, p. 260-1; a Radiomensagem de Natal de 1942, de Pio XII, AAS. 1943, p. 19; a Encíclica "Mit Brennender Sorge" de Pio XI, AAS. 1937, p. 150; e a Encíclica "Libertas" de Leão XIII, 8, 1888, p. 237-8.

Analisemos brevemente esses quatro textos pontifícios.

O da Encíclica "Libertas" de Leão XIII, assim reza:

"Também se inculca muito a liberdade que chamam de consciência: a qual se se entender no sentido de que a cada um seja lícito, segundo seu alvedrio cultuar a Deus ou não cultuá-lo, os argumentos arrolados acima são bastantes para convencer. — Mas, pode também entender-se neste sentido de que seja ao homem lícito na sociedade seguir e executar, sem impedimento algum, a vontade de Deus e seus mandamentos. Esta é a verdadeira, a liberdade digna dos filhos de Deus que defende honestissimamente a dignidade da pessoa e isenta de qualquer violência ou injúria: ela foi sempre desejada e muito estimada pela Igreja (o.c. p. 202)".

Pode este sentido constituir uma genuína defesa da liberdade religiosa no sentido de imunidade de coação externa para o seguidor de qualquer religião? A expressão "nulla re impediente" dá a esse texto o significado de uma liberdade religiosa no sentido indicado?

O sentido real do texto não abona semelhante interpretação. Com efeito, falando da liberdade para seguir a vontade de Deus e executar suas ordens, o texto coloca frente à frente o homem de um lado, e do outro a vontade de Deus e suas ordens. E pede para o homem a faculdade de, sem impedimentos, atender a esta vontade e a estas ordens. Entende-se desde logo que o texto está tratando da vontade de Deus e de suas ordens como oficial e objetivamente se apresentam. Aliás, a interpretação favorável ao texto da "Dignitatis Humanae" seria de tal modo oposta a todo o conjunto da Encíclica, que é difícil compreender como possa ter prevalecido no texto conciliar. Leão XIII, que acabara de defender a "repressão" contra os que oralmente ou por escrito divulgam o erro (o.c. p. 196) não poderia agora contradizer-se!

O sentido da liberdade que Leão XIII aí defende é claro: como o texto mesmo diz, trata-se do direito de "seguir a vontade de Deus e de cumprir seus preceitos", de acordo com a "consciência do dever". Essa liberdade, segundo a mesma Encíclica, tem "por objetivo um bem conforme à razão (n.6; cfr. nn. 6.9); não se opõe ao princípio de que a Igreja só concede direitos "àquilo que é verdadeiro e honesto" (n.41); e é qualificada como "legítima e honesta" (n.16), por oposição à dos liberais radicais ou moderados.

Ademais, o contexto próximo do tópico da "Libertas" que estamos analisando realça ainda mais o seu verdadeiro sentido, que não é aquele que a "Dignitatis Humanae" lhe atribui.

Com efeito, a Comissão do Secretariado para a União dos Cristãos, citando o texto em análise (ver opúsculo "Schema Declarationis de Libertate Religiosa", 1965, p. 19) transcreveu apenas o tópico que reproduzimos acima. Se essa citação se tivesse estendido por mais umas poucas linhas, logo se veria que o tópico não diz respeito à liberdade religiosa no sentido de imunidade de coação externa contra a difusão das religiões falsas. Pois, a seguir, a "Libertas" diz:

"Este gênero de liberdade os Apóstolos reivindicaram constantemente, os Apologistas sancionaram em escritos, os Mártires, em ingente número consagraram com seu sangue (o.c. p. 202)".

Ora, a liberdade religiosa, no sentido de imunidade de coação externa para as religiões falsas, a própria "Dignitatis Humanae" não a defende como ensinada expressamente pelos Apóstolos, mas declara apenas que "tem raízes na revelação divina". Como poderia, pois, Leão XIII dizer que os Apóstolos constantemente reivindicaram para si essa liberdade?

E, sobretudo, como poderia Leão XIII dizer que "uma multidão inumerável de mártires" consagraram essa liberdade com seu sangue? Não temos notícia de nenhum mártir que tenha morrido para defender o "direito" dos nicolaítas, dos gnósticos, dos arianos, dos protestantes ou dos ateus, de propagarem seus erros. E, sobretudo, seria singular falar numa "multidão de mártires" que tenham derramado o seu sangue com tal intenção. Torna-se, pois, evidente que a referida passagem da "Libertas" não diz respeito à liberdade religiosa no sentido de imunidade de coação externa para os difusores de erro.

Logo no início do parágrafo seguinte, Leão XIII declara:

"Nada tem de comum esta (liberdade cristã) com o espírito sedicioso e de desobediência: nem pretende derrogar o respeito da autoridade pública, porque o poder humano tem o poder de mandar e exigir obediência na medida em que não se aparte do poder divino e se mantenha dentro da ordem estabelecida por Deus. Porém, quando o poder humano manda algo claramente contrário à vontade divina, ultrapassa os limites fixados e entra em conflito com a autoridade divina: donde é justo não obedecer (BAC, ib. p. 252)".

Ora, seria de todo em todo absurdo dizer que os liberais são contrários à liberdade religiosa no sentido de imunidade de coação externa para a difusão das religiões falsas. Torna-se, pois, claro que Leão XIII propõe aí aquela liberdade "legítima e honesta" por ele mesmo descrita e defendida anteriormente na mesma encíclica, em nome da qual podemos e em princípio devemos opor-nos às leis injustas.

*

Essas considerações sobre o texto da "Libertas" alegado pela "Dignitatis Humanae" tornam fácil compreender também o verdadeiro sentido das demais passagens que a Declaração conciliar cita no mesmo lugar.

Quando a "Mit Brennender Sorge" reivindica, contra o nazismo, o direito do fiel de conhecer e praticar a religião [6] o texto de fato não afirma que o erro goza de imunidade na ordem civil. Aliás, seria inconcebível que, em quatro breve linhas, pretendesse Pio XI defender uma noção católica nova de liberdade, em oposição aos Papas anteriores. É evidente que aí se defende a liberdade "legítima e honesta" de que fala Leão XIII. E é evidente que, da mesma forma como Leão XIII proclamou, em nome dessa liberdade, o direito de resistir às leis injustas e opressoras dos governos liberais, assim também Pio XI proclamou, em nome dessa mesma liberdade, o direito de resistir ao nazismo.

E quando Pio XII, durante a Segunda Guerra, numa simples frase reivindicou, entre os direitos fundamentais da pessoa, "o direito ao culto de Deus, privado e público, compreendendo também a ação religiosa da caridade [7]", o texto de sua Radiomensagem não firmava — como já observamos a propósito da "Mit Brennender Sorge" — o direito ao culto falso prestado a Deus numa religião não verdadeira. Pelo contrário, seu sentido natural é de que ao homem se reconheça o direito de prestar a Deus o culto verdadeiro, uma vez que esse é o culto devido a Deus.

Além disso, é evidente que Pio XII não pretendia modificar a doutrina católica sobre a matéria, mas defendia apenas a liberdade "legítima e honesta" tão claramente explanada por Leão XIII. Tanto mais que o mesmo Pio XII, na alocução "Ci Riesce", onde tratou "ex professo" da questão, nega qualquer direito ao que não corresponde à verdade e à norma moral.

*

O mesmo se diga da passagem de João XXIII citada pela "Dignitatis Humanae". Diz ela:

"Entre os direitos do homem este também deve ser enumerado, que possa cultuar a Deus segundo a reta norma de sua consciência, e professar a religião privada e publicamente (AAS, 1963, p. 260)."

Como o texto diz "de acordo com os retos ditames da própria consciência", e não "de acordo com os ditames da própria consciência reta" (como quiseram alguns), torna-se patente que João XXIII fala aí no mesmo sentido de Leão XIII na "Libertas". Esta interpretação se impõe ainda mais claramente, se consideramos que, esclarecendo o sentido do tópico indicado, João XXIII transcreve, no próprio texto principal da "Pacem in Terris", uma página de Lactâncio e uma de Leão XIII. A de Lactâncio se refere a "prestar justas e devidas honras a Deus" [8], enquanto a de Leão XIII é exatamente a mesma que comentamos acima ("Haec quidem vera, haec digna filiis Dei libertas...")

*

Ao terminar este estudo, julgamos oportuno desfazer uma objeção que se poderia formular da seguinte maneira:

A Declaração "Dignitatis Humanae" foi aprovada pela maioria do Episcopado. Não estaria assim garantida pelo carisma de infalibilidade, ou ao menos, como documento do Magistério Ordinário, não obrigaria a todos os fiéis?

Respondemos com as observações seguintes:

1. Como se declarou oficialmente, o Concílio Vaticano II não teve intenção de fazer novas definições solenes. Portanto, também a Declaração "Dignitatis Humanae" não está chancelada com o carisma da infalibilidade inerente às definições solenes;

2. Não obstante, uma resolução tomada pela maioria do Episcopado reunido em Concílio e aprovada pelo Sumo Pontífice obriga a todos os fiéis, embora não venha com a chancela da infalibilidade;

3. Essa obrigação, no entanto, cessa, como acontece com a "Dignitatis Humanae", quando se verificam, no mesmo caso, as duas condições seguintes:

a) é manifesto que o Episcopado universal não teve a intenção de vincular de maneira definitiva às consciências, e, ademais,

b) é também claro que semelhante documento do Episcopado universal está em desacordo com uma doutrina já imposta como certa pelo magistério ordinário de uma longa série de Papas.

(Transcrito de "Heri et Hodie" no. 6 — Campos. Republicado em PERMANÊNCIA no. 182-183)



Notas:

[1] No mesmo sentido, veja-se ainda: Pio VI, Carta "Quod aliquantum", in "La Paix intérieure des Nations", Solesmes, p. 4-5; Enc. "Adeo Nota", ib. p. 7; Pio VII, Carta Apost. "Post tam diuturnas", ib. p. 18/9; Gregório XVI, Enc. "Mirari Vos", DS. 2731ss.; Pio IX, Enc. "Singulari Nos" in La Paix Int. des Nat. p. 29; Leão XIII, Enc. "Humanum Genus", in BAC, Doct. Pont. II, p. 168; Enc. "Immortale Dei", ib. p. 193/4, 204/5, 207/8; S. Pio X, Carta "Vehementer Nos", ib. p. 384/5; Pio XI, Enc. "Quas Primas", ib. p.504; Carta "Ci é domandato", ib. vol. V, p. 125; Enc. "Non abbiano bisogno", ib. II, p. 594; Pio XII, Carta ao Episc. Bras. AAS. 1950, p. 841.

Como se vê os Papas ensinaram taxativamente que a propaganda das religiões falsas deve ser "impedida", "reprimida" ("Ci Riesce"), se necessáio portanto com coação externa. Assim sendo, não é apenas o erro, abstratamente considerado, que carece de direitos ("Libertas", BAC, p. 196; "Ci Riesce"), mas também as pessoas concretas que propagam o erro em matéria religiosa ("Syllabus", prop. 78; Enc. "Libertas", BAC, p. 196). Por outro lado, os Papas não condenaram apenas a liberdade religiosa absoluta e ilimitada, que ofende a moralidade e a ordem pública (Enc. "Libertas"). Mas declararam expressamente que é a difusão do erro, enquanto tal, que deve ser impedida, mesmo nos casos em que não prejudique a chamada ordem pública (Enc. "Quanta Cura" e "Libertas"; e "Ci Riesce"). 

[2] Por ocasião dos debates conciliares sobre a liberdade religiosa, certos autores tradicionalistas, desejosos de dar uma explicação ortodoxa ao esquema, tentaram defender que, num sentido ou noutro, os adeptos das religiões falsas gozam de verdadeiro direito de praticar publicamente e de difundir sua religião. Registramos aqui duas dessas tentativas.

O Pe. Marcelino Zalba, S.J. defendeu que a consciência invencivelmente errônea gera direitos verdadeiros, embora secundários, isto é, que cedem ante o direito superior do católico, que possui a verdade objetiva e inteira (cfr. "Gregorianum", 1964, p. 94-102; "Periodica", 1964, p. 31-67). Essa tese não nos parece condizente com os princípios do direito natural, nem com os ensinamentos dos Papas anteriores. O erro, como tal, não pode gerar verdadeiros direitos de categoria alguma, mas apenas direitos putativos.

Mons. Temiño propôs a teoria segundo a qual quem não conhece o catolicismo ou não está persuadido de sua verdade, tem o direito de professar sua religião, na medida em que esta contém o direito natural ou a ele não se opõe. Mas tal direito cede diante da religião católica ("La Conciencia y la Libertad Religiosa", Burgos, 1965, p.72). — Uma análise aprofundada dessa posição excederia os limites que nos propusemos neste estudo. Basta aqui observar que a teoria de Mons. Temiño não justificaria, de modo algum, aquilo que é o ponto central da "Dignitatis Humanae": a afirmação de um verdadeiro direito de imunidade de coação externa para todas as religiões, em paridade de condições com a religião católica. 

[3] — Quais são os "devidos limites" dentro dos quais há o "direito" de imunidade de coação externa em matéria religiosa?

O assunto é tratado "ex professo" no no. 7 da "Dignitatis Humanae"; o exercício da liberdade religiosa não pode prejudicar a composição pacífica dos direitos de todos os cidadãos, nem a honesta paz pública baseada na verdadeira justiça, nem a moralidade pública.

De acordo com documentos de uma série de Papas, vê-se que as religiões falsas não têm direito à existência nem à propaganda. Não se pode, pois, falar de um direito verdadeiro à imunidade de coação na ordem civil. Sendo assim, o problema dos limites de semelhante direito é ocioso. Onde não há direito, não se põe a questão de seus limites.

Seja-nos lícito, no entanto, observar que a "Dignitatis Humanae" propõe para a liberdade em matéria religiosa os mesmos limites que a Declaração dos Direitos do Homem na ONU estabelece para o exercício da liberdade de consciência e de religião, e que se notam, mais ou menos, nas Constituições liberais das nações modernas, inspiradas nos postulados da Revolução Francesa.

Ademais, merece aqui uma referência especial a impostação pluralista da "Dignitatis Humanae", que por sua natureza não se dirige apenas a católicos, mas orientará também não católicos (governantes ou particulares) em matéria de liberdade religiosa. — Assim sendo, quando ela fala em "composição pacífica de direitos", a que direitos se refere? Pretende a "Dignitatis Humanae" pressupor admitidos por todos, como norma do convívio, os postulados do direito natural? A Declaração conciliar ganharia muito em dizê-lo claramente. Com efeito, dada a amplidão com que a "Dignitatis Humanae" define a liberdade civil em matéria religiosa, porque excluiria ela, por exemplo, a concepção que têm os marxistas da religião? Em sentido contrário, porque excluiria a concepção de "honesta paz pública", "verdadeira justiça", que pregam por exemplo os governos liberais ou os governos totalitários?

A indefinição da "Dignitatis Humanae" quanto aos limites do "direito" de imunidade de coação externa em matéria religiosa (direito esse que, ademais, não existe), é um elemento que, na prática, vem favorecer certos movimentos heterodoxos em sua luta contra a Santa Igreja. 

[4] — Em aula conciliar, falando em nome da Comissão do Secretariado para a União dos Cristão, Mons. de Smedt declarou: "Libertas seu immunitas a coercitione, de qua agitur in Declarationne non (...) agit de relationibus inter fideles et auctoritates in Ecclesia" — A liberdade ou imunidade de coação, de que trata a Declaração, não (...) trata das relação entre os fiéis e as autoridades na Igreja — ("Schema Declarationis de Libertate Religiosa", 1965, p. 25). Bem sabemos a grande importância que têm essas palavras para a interpretação do documento conciliar. No entanto, não podemos deixar de lamentar aqui a grande confusão que certas expressões da "Dignitate Humanae" introduzem na doutrina referente ao poder coercitivo da Igreja sobre seus súditos.

Por que o pensamento de Mons. de Smedt não foi incluído no texto conciliar? Essa omissão, só de si, num texto que visa tratar "ex professo" da imunidade de coação externa em matéria religiosa e que analisa pormenorizadamente as conseqüências de tal imunidade, leva o leitor naturalmente a pensar que também a Igreja não pode exercer coação externa sobre seus súditos.

Ademais, a Declaração defende a "liberdade social e civil" em matéria religiosa (subtítulo e passim). Ora, a palavra "social", no seu sentido comum e mesmo técnico, compreende a Igreja.

O texto conciliar propõe em termos taxativos e universais o chamado "direito" à imunidade de coação externa em matéria religiosa, que em sã lógica não se vê como coaduná-los com o direito da Igreja de exercer coação sobre seus súditos (impor penas, etc.). Pois, como poderia a Igreja contrariar um direito que é apresentado com todas as características de um direito natural.

No número 1 de "Dignitatis Humanae" lemos:

"Pariter vero profitetur Sacra Synodus officia haec (religiosa) hominum conscientiam tangere ac vincire, nec aliter veritatem sese imponere nisi vi ipsius veritatis, quae suaviter simul ac fortiter mentivus illabitur" — "Professa igualmente o Sagrado Sínodo que estes deveres (religiosos) tocam e ligam a consciência dos homens, e que a verdade não se impõe de outra maneira que não por força da mesma verdade, que penetra suave e fortemente nas almas".

No contexto, torna-se claro o sentido: esses deveres tocam e vinculam apenas a consciência. Como pode, pois, a Igreja, logicamente impor penas? E, se tomarmos as palavras em seu sentido natural, como conciliar, por exemplo, as penas medicinais impostas pela Igreja, com o princípio de que "a verdade não se impõe senão por força da própria verdade"? 

Como essa questão vai além dos objetivos que nos propusemos no presente estudo, queremos aqui apenas indicá-la brevemente, ressaltando o perigo que haveria em extenuar a doutrina sobre o poder coercitivo da Igreja. A esse respeito, escreveu Leão XIII na Encíclica "Libertas": 

"Outros, como a Igreja existe, não a negam, aliás não o poderiam, negam-lhe a natureza e os direitos próprios de uma sociedade perfeita e afirmam que a Igreja não tem o poder legislativo, judicial e coativo e que somente lhe compete uma função exortativa, persuasiva, regendo os súditos levando-os a agir por persuasão espontaneamente. Por esta opinião, esses tais falseiam a natureza desta sociedade divina, extenuam e restringem sua autoridade, magistério e eficácia" (BAC. ib. 256/7). 

[5] — Sem dúvida, vários Papas relacionaram a liberdade religiosa legítima e honesta com a dignidade humana (cfr. Leão XIII, Enc. "Libertas"; Carta Apost. "Praeclara Gratulationis", in "La Paix Int. des Nat." Solesmes, p. 215/216; S. Pio X, Carta Apost. "Notre charge" contra Le Sillon. Pio XI, Enc. "Quas Primas"; Pio XII, Radiomensagem do Natal de 1944, item de 1949, aloc. ao "Katholikentag" de Viena ("Catolicismo", no. 24, dez. 1952).

No entanto, esses Papas nunca deduziram da dignidade humana qualquer direito para o mal ou para o erro; pelo contrário, sempre ensinaram que a dignidade humana não é negada nem violentada quando, nos casos devidos, se reprime o mal. Mais ainda: ensinaram que tal repressão ao mal só contribui para o aperfeiçoamento dos indivíduos e das sociedades — e, portanto, é até um postulado da dignidade humana entendida no seu sentido autêntico.

Ao deduzir da dignidade humana um verdadeiro direito de professar publicamente o erro em matéria religiosa, a Declaração do Vaticano II situa-se em posição diversa da dos Papas anteriores. E, doutrinariamente, situa-se em posição insustentável em sã lógica, pois, só se conceberia que a dignidade humana fundamentasse um direito para o mal caso esta de algum modo se encontrasse fora ou acima da própria ordem moral. 

[6] — É o seguinte o texto da Encíclica:

"Der glaubige Mensch hat ein unverlierbares Recht, seinem Glauben zu bekennen und in den ihm gemussen Formen zu betatigen. Gesetze, die das Bekenntnis un die Betagigund dieses Glaubens unterdruken oder erschwerenn stehen in Widerspru mit einem Naturgesetz" (AAS. 1937, p. 160) — "O crente tem um direito inalienável de professar a sua fé e de praticá-la na forma que lhe convém. Estas leis, que suprimem ou tornam difícil a profissão e a prática desta fé, estão em oposição ao direito natural (em ital. AAS. 1937, p. 182). 

[7] — São estas as palavras da Radiomensagem de Pio XII que figuram na documentação apresentada ao Concílio: ver opúsculo "Schema Declarationis de Libertate Religiosa", 1965, p. 19. 

[8] — "Haec condicione gignimur, ut generanti nos Deo justa et debita obsequia praebeamus, hunc solum noverimus, hunc sequamur. Hoc vinculo pietatis obstriciti Deo et religati sumus, unde ipsa religio nomen accepit". "Somos criados nesta condição de prestar a Deus que nos cria justos e devidos obséquios, só a Ele reconheçamos e o sigamos. Presos por este vínculo de piedade a Deus estamos ligados, de onde a própria religião toma o nome". (AAS. 1963 p. 260/1). 

Kasper admite ambiguidade intencional


Por Unam Sanctam Catholicam | Tradução: Fratres in Unum.com - O Cardeal Walter Kasper fez uma declaração impressionante nas páginas do L'Osservatore Romano na última sexta-feira. Ao apresentar algumas reflexões sobre os desafios enfrentados pela Igreja e o problema (perpétuo) contínuo da “verdadeira interpretação do Vaticano II”, Kasper, falando sobre os documentos do Concílio, afirmou:
Em muitos lugares, [os Padres Conciliares] tiveram que encontrar fórmulas de concessões, em que, frequentemente, as posições da maioria estão localizadas imediatamente próximas àquelas da minoria, projetadas para limitá-las. Assim, os textos conciliares em si têm um enorme potencial de conflito, sendo uma porta abeta àrecepção seletiva em uma ou outra direção." (Cardeal Walter Kasper, L'Osservatore Romano, 12 de abril de 2013)
Nas declarações do Cardeal, temos basicamente uma afirmação de uma tese fundamental de Michael Davies e da maioria dos tradicionalistas: de que os próprios documentos conciliares têm ambiguidades em si e estão sujeitos a uma multiplicidade de interpretações. Este conceito de ambiguidade conciliar tem sido negado por muitos apologistas conservadores/populares, que insistem em dizer que os documentos conciliares são claros como o dia e que somente a malícia dos dissidentes é que está impelindo uma falsa interpretação que é responsável pela nossa atual confusão.
Entretanto, os tradicionalistas e,  ironicamente, também Kasper, têm insistido que a destruição que seguiu o Concílio pode ser remetida aos próprios documentos. Mesmo se os Padres Conciliares não planejaram o desastre que se seguiu ao Concílio (e a maioria concorda que não o fizeram), os próprios documentos foram construídos de tal modo a permitir interpretações progressistas ao serem colocados em mãos de teólogos e bispos progressistas. Contra o mantra conservador de "documentos perfeitos – implementação imperfeita”, Kasper sustenta a crítica tradicionalista de que “documentos imperfeitos levam à implementação imperfeita.” Bento XVI tinha apresentado o mesmo argumento. Existe uma relação íntima entre os documentos e sua implementação. Porém, Kasper faz mais do que apenas admitir que “os textos conciliares em si têm um enorme potencial de conflito”; ele chega ao ponto de afirmar que essas ambiguidades, esses conflitos em potencial, foram parte de um programai intencional. Ele não diz simplesmente que os textos suportarão diversas interpretações, mas que essas passagens ambíguas foram “fórmulas de concessões” produzidas para aplacar dois lados opostos, de tal modo que elas podem ser interpretadas de uma maneira ortodoxa, porém, podem ser facilmente distorcidas pelos progressistas para apoiar a sua malícia.
Essas são o que o finado Michael Davis chamou de “bombas-relógio” nos textos conciliares. Davies escreveu, “Essas 'bombas-relógio' foram passagens ambíguas inseridas nos documentos oficiais pelos periti ou peritos liberais – passagens que seriam interpretadas em um sentido não tradicional, progressista após o encerramento do Concílio". (Michael Davies, Liturgical Timebombs, Rockford, Ill: Tan Books, 2004, página 23). Davies tomou emprestado a expressão "bombas-relógio” do livro do Arcebispo Lefebvre, Um bispo fala, que basicamente havia apresentado o mesmo argumento. Na entrevista de Kasper, não temos nada menos do que uma admissão de que não havia apenas bombas-relógio, mas que elas foram colocadas lá intencionalmente, e nesse ponto ele e Lefebvre estão de acordo. Esta é uma admissão impressionante. Kasper fez muitas outras afirmações interessantes que minam outros aspectos da narrativa conservadora do Concílio. Por exemplo:
Para muitos católicos, os desenvolvimentos colocados em movimento pelo concílio fazem parte da vida diária da Igreja. Porém, o que eles estão experimentando não é o novo grande começo nem a primavera da Igreja, que foram esperados naquela época, mas sim uma Igreja que tem uma aparência invernal e mostra sinais claros de crise.
Isso contraria o mantra prevalecente da era João Paulo II de que estamos experimentando uma “nova primavera” e uma admissão cândida de que existe efetivamente uma crise, a despeito do fato de que alguns, como, por exemplo, o Cardeal Timothy Dolan, continuem negando essa verdade clara. Esta simples admissão de fato, de que a Igreja está em crise e não está experimentando a prometida primavera pós-conciliar, é de importância considerável para avançarmos. E seja lá o que possamos pensar mais de Kasper, gosto de sua sinceridade neste caso.
Falando da confusão que surgiu depois do Concílio, Kasper disse: "Para aqueles que conhecem a história dos vinte concílios reconhecidos como ecumênicos , este [estado de confusão] não será uma surpresa. Os tempos pós-conciliares foram quase sempre turbulentos. O Vaticano [Segundo], entretanto, é um caso especial."
Esta admissão importante, que também afirmei em outro lugar, realmente desmascara o chavão de católicos conservadores de que aquilo que estamos experimentando na Igreja moderna é normal, uma vez que há sempre confusão após um Concílio. Isso pode ser verdadeiro, mas Kasper observa que a confusão que se seguiu ao Vaticano II é "um caso especial”, diferente da turbulência dos períodos anteriores. Esse também é um argumento frequentemente apresentado pelos tradicionalistas, que enxergam no Concílio Vaticano Segundo não apenas outro evento eclesial com o nível padrão de confusão após a sua realização, mas sim um novo tipo de evento eclesial que não pode ser facilmente classificado ao lado dos Concílios do passado. O Cardeal Kasper afirma as posições de Michael Davies, Lefebvre e dos tradicionalistas? Esses são tempos estranhos, sem dúvida.
* * *
Nota do Fratres: Ainda não há uma tradução portuguesa do artigo; o artigo original encontra-se aqui, na página 4. Se algum leitor puder traduzi-lo, publicaremos com muito gosto.

O enigmático silêncio do Vaticano II sobre o Comunismo (II)

“Silêncio enigmático, desconcertante, espantoso e apocalipticamente trágico”
O texto da Gaudium et Spes foi aprovado sem uma condenação ao comunismo e, em violação aberta ao regulamento do Concílio, sem que a emenda dos 435 padres conciliares fosse submetida à votação.
Esses fatos, tornados gradualmente públicos e fartamente historiados e analisados no livro do Prof. Roberto de Mattei, dão nova atualidade à reação lúcida de Plinio Corrêa de Oliveira que, numa atualização em 1976 de sua obra-mestra Revolução e Contra-Revolução, escreveu:
"Dentro da perspectiva de Revolução e Contra-Revolução, o êxito dos êxitos alcançado pelo comunismo pós-staliniano sorridente foi o silêncio enigmático, desconcertante, espantoso e apocalipticamente trágico do Concílio Vaticano II a respeito do comunismo.
"Este Concílio se quis pastoral e não dogmático. Alcance dogmático ele realmente não o teve. Além disto, sua omissão sobre o comunismo pode fazê-lo passar para a História como o Concílio a-pastoral [...].
"Atuaram como verdadeiros Pastores aqueles que, no Concílio Vaticano II, quiseram espantar os adversários minores, e impuseram livre curso — pelo silêncio — a favor do adversário maior?
"Com táticas aggiornate — das quais, aliás, o mínimo que se pode dizer é que são contestáveis no plano teórico e se vêm mostrando ruinosas na prática — o Concílio Vaticano II tentou afugentar, digamos, abelhas, vespas e aves de rapina. Seu silêncio sobre o comunismo deixou aos lobos toda a liberdade. A obra desse Concílio não pode estar inscrita, enquanto efetivamente pastoral, nem na História, nem no Livro da Vida.
"É penoso dizê-lo. Mas a evidência dos fatos aponta, neste sentido, o Concílio Vaticano II como uma das maiores calamidades, se não a maior, da História da Igreja”.
O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita
O Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) procurou adaptar a Igreja Católica ao homem moderno. Porém, em lugar de uma nova primavera da fé, o que se lhe seguiu foi um misterioso processo de “autodemolição” da Igreja, acompanhado da apostasia silenciosa de milhões de fiéis.
Por ocasião do 50° aniversário de sua inauguração, abriu-se um vivo debate nos meios católicos sobre o papel do Vaticano II nessa crise e sobre a interpretação a ser dada aos seus documentos: estão eles na continuidade ou em ruptura com os ensinamentos perenes da Igreja?
Para esse debate, o Prof. Roberto de Mattei oferece o contributo do historiador. Baseado em documentos de arquivos, diários, correspondências e testemunhos daqueles que foram os seus principais protagonistas, ele faz uma rigorosa reconstrução dos antecedentes do Concílio, de suas raízes e consequências.
Merecido destaque é dado no livro ao papel desempenhado por bispos brasileiros como articuladores da ofensiva progressista e da reação conservadora.
Os relatos contidos nas 544 páginas de que se compõe esta apaixonante história nunca escritaforam objeto em 2011 do Acqui Storia— o mais prestigioso prêmio italiano para livros históricos.
Autor de mais de 20 livros, o Prof. Roberto de Mattei é titular da cátedra de História Moderna na Faculdade de Letras da Universidade de Cassino (Itália), presidente da Fundação Lepanto e dirige as revistas Radici Cristiane eNova Historica.
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[FSSP] O Vaticano II e ano da Fé em uma conversa informal

O sacerdote americano Pe. Jonathan Romanoski, FSSP, fala informalmente com seus fiéis mexicanos onde exerce seu apostolado sobre o Concílio Vaticano II e o Ano da Fé.
Pe. Jonathan Romanoski, FSSP, celebrando a Missa num encontro da TFP Americana.
Mesmo que você tenha dificuldade de compreender a língua espanhola, esforce-se para assistir estes vídeos tão acalentadores.

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4, Final.