Por Paulo Faitanin
3.4. As potências
da alma: Uma vez relatadas as potências gerais da alma racional,
analisemos as potências intelectivas. São cinco as potências
da alma intelectiva, pelas quais a alma humana opera e atualiza as suas
perfeições: a potência vegetativa, a potência
sensitiva, a potência apetitiva, a potência
locomotiva e a potência intelectiva [STh I,q78,a1,c].
Desta cinco tratemos das três fundamentais: a vegetativa,
a sensitiva e a intelectiva, já que a locomotiva
inclui-se na sensitiva e intelectiva e a apetitiva na intelectiva.
(a)
Potência vegetativa: A potência vegetativa
afirma-se propriamente das espécies vegetais [STh.I,q78,proêmio].
Mas diz-se no homem ser uma função, uma capacidade vegetativa.
Por que ela existe no homem? Toda potência superior contém
em si mesma a potência inferior, que dela emana. Já vimos que
a potência superior é a intelectiva. Ora, a intelectiva que
é potência própria do homem, possui como perfeição
sua a potência vegetativa. Por isso, a potência vegetativa é
uma potência natural que pertence ao vegetal e ao animal [STh.III,q33,a1,obj4;I,q78,a2,c],
na qual se inclui a espécie humana. Segue-se do anterior que se afirma
a potência vegetativa de todo corpo animado que possui, como partes
vegetativas, a nutrição, o crescimento e
a geração [STh I,q78,a2,c].
(b)
Potência sensitiva: a potência sensitiva,
é uma potência passiva cuja natureza é ser modificada
por um objeto sensível exterior; como vimos acima, a potência
sensitiva, embora seja potência da alma racional, ela tem por sujeito
o composto de corpo e alma racional e, para tanto, exige, para a sua operação,
órgãos dos sentidos externos, pelos quais opere, pois tais
órgãos existem em função da potência e
não o contrário; por tudo isso, se fazem necessários
- os cinco sentidos externos
- ou seja, a visão, a audição, o
tato, o olfato e a gustação [STh
I,q78,a3,c] e os seus respectivos órgãos dos sentidos externos:
os olhos, o ouvido, a pele, o nariz e a boca, seus respectivos sensíveis
próprios: luz -cor-, som -agudo-, superfície
-áspera-, odor -suave- e sabor -doce-.
Estes órgãos dos sentidos externos produzem, pelos cinco sentidos,
algo que a potência sensitiva percebe externamente pelos próprios
órgãos e, também, internamente, pelos sentidos internos.
O homem deve, portanto, em sua potência sensitiva, não só
receber as espécies das coisas sensíveis, no momento em que
os órgãos dos senstido são modificados por elas, mas
ainda imaginá-las, percebê-las, retê-las e conservá-las.
Para tanto, para perceber e guardá-las internamente, a potência
sensitiva dispõe também de - quatro sentidos internos
- o sentido comum, pelo qual recebe a forma sensível
das coisas sensíveis, a imaginação que retêm
estas formas sensíveis, a cogitativa, que permite associá-las
e a memória sensitiva, para conservá-las [STh I,q78,a4,c].
3.5. Potência
intelectiva:
(a)
o intelecto: a palavra intelecto provém
de intus legere, 'ler por dentro'; trata-se de uma potência
cognitiva da alma humana, por meio da qual a alma conhece algo de si, algo
do que lhe rodeia e algo do que lhe transcende. O intelecto é a mais
nobre potência da alma, mas não a própria natureza da
alma [STh I,q79,a1,c]. Difere
dos sentidos [In I Met.lec2,n45; In II Met.lec1,n282-286]; seu objeto é
a verdade [In VI Met.lec4,n.1230-1240]; possui duas operações,
uma indivisível e outra de composição [In VI Met.lec4,n.1232];
está ordenado ao inteligível [In XII Met.lec8,n.2540]; humano
é imaterial [In IX Met.lec11,n2624]; divino inteligi-se a si mesmo
[In XII Met.lec11,n2611-2626].
(b)
objeto próprio do intelecto:
o ente é o que primeiro considera e conhece o intelecto [In I Met.
lec.2, n.46]; o intelecto ordena-se ou orienta-se primeira e naturalmente
à consideração do ente. O ente diz-se do que tem ser.
Portanto, tudo que tem ser é ente e a isso odena-se o intelecto.
É o sujeito da Metafísica [In IV Met. lec.1, n.529-531]. Não
é gênero, pois não possui diferença [In I Met.
lec.9, n.139]. É o que tem ser [In XII Met. lec.1, n.2419]. É
tomado do ato de ser [In IV Met. lec.2, n.556-558]. Se diz da substância
[In III Met. lec.12, n.488-493]. É considerado de quatro modos: do
acidente, da verdade da proposição, dos predicamentos e se
divide em ato e potência [In VI Met. lec.2, n.1171]. Pode ser essencial,
acidental, real e de razão, dos predicamentos e do ato e da potência
[In V Met. lec.9, n.885]. Ente por acidente não é propriamente
ser [In XI Met. lec.8, n.2272]. Não há ciência acerca
do ente por acidente [In VI Met. lec.2, n.1172-1176]. Ente de razão
é próprio da Lógica [In IV Met. lec.4, n.574]. É
o que primeiro capta o intelecto [In I Met. lec.2, n.46].
(c)
ação própria do intelecto:
conhecer a realidade e dela apreender a verdade; esta é a ação
própria do intelecto; a verdade é o que visa o intelecto,
quando ele considera o ente; por isso, a verdade é a adequação
do intelecto com a coisa, que é um ente. O
conhecimento da verdade é por dupla via: por resolução
e por composição [In II Met. lect. 1, n.278]; o seu conhecimento
implica dupla dificuldade: uma da parte das coisas e outra da parte de nosso
intelecto [In II Met. lect. 1, n.279-286]; para o seu conhecimento os homens
se ajudam duplamente: direta e indiretamente [In II Met.lect. 1, n.287-288;
lect. 5, n.334]; é conveniente buscá-la [In II Met. lect.
5, n.335-336]; dos primeiros princípios é previamente determinada,
e resolvem muitas dificuldades em sua aplicação [In III Met.
lect. 1, n.338]; o verdadeiro e o falso nas coisas não são
senão afirmar e negar [In IX Met. lect. 11, n.1896-1901; In VI, lect.
4, n.1230-1240]; está mais no ato que na potência e mais nas
simples que nas compostas [In IX Met. lect. 11, n.1910-1913]
(d)
o processo de conhecimento pelo intelecto:
a abstração é o processo
próprio do modo como o intelecto conhece o ente; o intelecto não
conhece as coisas nele mesmo, senão, pela abstração,
depois da recepção das formas sensíveis impressas que,
impregnadas de materialidade e individualidade, são depositadas,
pela potência sensitiva, nos sentidos internos, cuja separação
da materialidade e individualidade é feita pelo processo de abstração.
Designa em Tomás uma atividade do intelecto pela qual considera a
forma comum de um objeto separada (abstraída) de sua matéria
e de suas condições individuais. Ela é tríplice:
da matéria, dos inferiores e dos sentido [In I Met. lec. 10, n. 158;
In III Met. lec. 7, n. 404-405; In VIII Met. lec. 1, n. 1683 e In XII Met.
lec. 2, n. 2426]. A abstração da matéria é de
quatro modos: matéria sensível, inteligível, comum
e individual [In VI Met. lec. 1; In XI Met. lec. 7, n. 2259-2264].
(e)
a passividade do intelecto: no
primeiro momento do ato de conhecimento, o intelecto é passivo, porque
recebe as informações que as potências sensitivas, tanto
interna, quanto externa, fornecem para a alma; por isso, conhecer é
padecer, enquanto isso significa receber aquilo para o qual estava em potência,
sem que nada lhe fosse tirado [STh I,q79,a2,c].
(f) a
atividade do intelecto: num segundo momento
do ato de conhecer, o intelecto é agente, pois é necessário
que o próprio intelecto, depois de recebidas as formas sensíveis,
- as espécies impressas ou imagens - opere e as
coloque em ato, pela abstração das formas inteligíveis,
formando novas espécies - as espécies expressas ou
conceitos -, na medida em que as conhece em ato e as torna semelhantes
a ele e subsistentes nele [STh I,q79,a3,c]. O intelecto agente é
potência intelectiva, ou seja, existe na alma humana como sua potência
de entender as coisas em ato. Cada homem possui o seu intelecto individualmente;
e este se assemelha, por natureza e perfeição, aos dos demais
homens. Portanto, ele não existe separado da alma, embora não
dependa de algum órgão do corpo para operar no que lhe é
próprio [STh I,q79,a4,c], nem é único ou um só
para todos os homens [STh I,q79,a5,c].
(g) partes
da potência intelectiva: São
seis as partes da potência intelectiva, com as quais o intelecto concebe
um conceito verdadeiro, certo, abstrato, universal ou comum de muitos: a
memória, a razão, a razão superior e inferior, a inteligência,
o intelecto especulativo e prático, a sindérese, a consciência.
- a memória - é parte da potência
intelectiva da alma humana responsável por reter, conservar
e recordar as imagens inteligíveis das coisas que são
apreendidas [STh I,q79,a6,c]. Como tal, a memória não é
uma outra potência distinta da potência intelectiva, senão
que é da mesma potência intelectiva, pela qual além
de ser potência passiva é conservativa [STh I,q79,a7,c]. -
a razão - é parte da potência
intelectiva da alma humana responsável pelo raciocinar,
ou seja, ir de um objeto conhecido a outro; mas isso não difere a
razão do intelecto, senão por causa das funções
e não da natureza, pois uma coisa é o conhecer, que é
simplesmente apreender a verdade inteligível, e outra coisa é
raciocinar, como foi dito acima [STh I,q79,a8,c]. - a razão
superior e a razão inferior
- não são também duas potências distintas da
potência intelectiva, senão que são dois nomes distintos
dados a duas funções distintas de uma mesma natureza: a razão
superior é a sabedoria, conhecimento conseqüente dos
hábitos dos primeiros princípios indemonstráveis e
a razão inferior é a ciência, conseqüente
da aplicação dos hábitos dos primeiros princípios
na demonstração das coisas temporais [STh I,q79,a9,c]. - a
inteligência - é propriamente o ato
mesmo do intelecto, que é o inteligir e não é uma outra
potência, senão o ato da potência intelectiva [STh I,q79,a10,c].
- o intelecto especulativo e o prático
- não são duas potências ademais da intelectiva, senão
que são a consideração da mesma potência intelectiva,
segundo os seus fins: especulativo, que não ordena o que
apreende para a ação e o prático, que ordena
para a ação aquilo que apreende [STh I,q79,a11,c]. - a sindérese
- não é parte da potência intelectiva, nem mesmo é
uma outra potência do intelecto, não é senão
um hábito natural do intelecto que entende e concebe os princípios
da ordem da ação que incita ao bem e condena o mal, na medida
em que julga o que encontramos, mediante os primeiros princípios
[STh I,q79,a12,c]. - a consciência - significa
aquilo que implica a relação do conhecimento com alguma coisa,
não é uma potência, mas um ato que atesta,
obriga ou incita ou ainda acusa, reprova
ou repreende, mas tudo isso resulta da aplicação
de algum conhecimento ou ciência que temos do que fazemos, por isso,
consciência é conhecimento com um outro. Neste sentido, a consciência
forma parte da potência intelectiva, não como uma outra potência,
senão como um ato pelo qual se aplica o conhecimento de alguma coisa
[STh I,q79,a13,c].