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Compêndio de Teologia Ascética e Mística

Agora você pode ter o Compêndio de Teologia Ascética e Mística, A. Tanquerey! O caráter sistemático, a profundidade de conceitos, o enraizamento nos mestres da espiritualidade cristã e as bases escriturísticas e teológicas sólidas fazem desta obra um clássico imprescindível.

Você pode baixar o livro numa versão em Português AQUI, ou em Espanhol podendo copiar o texto como esta abaixo, a qual igualmente pode ser baixada AQUI.

O discernimento de espíritos


Por GARRIGOU-LAGRANGE

1. Que significa espírito nesta expressão ? Significa uma maneira especial de julgar, amar, querer, agir; uma tendência ou mentalidade particular da alma, por exemplo, uma inclinação à oração, à penitência ou, ao invés, à contradição; é desse modo que falamos de um espírito de contradição ou ainda, de insubordinação.

2. Como classificamos na espiritualidade os diversos espíritos? Classificamos geralmente em três tipos de espíritos: o divino, o diabólico e o humano.


Que é o espírito divino? É a inclinação interior da alma para julgar, amar, querer, agir de modo sobrenatural; por isso, nos inclina a fugir do pecado pela mortificação da carne, pela humildade, e a tender para Deus pela obediência, piedade, fé, confiança e caridade, afetiva e efetiva. O espírito divino verifica-se particularmente nas inspirações do Espírito Santo segundo os sete dons.

O espírito divino se encontra em estado latente nos principiantes e de modo mais manifesto nos aproveitados e nos perfeitos, mais dóceis ao Espirito Santo. Pela inspiração divina, há unidade numa grande variedade de virtudes, de dons, de vocações contemplativas, ativas e apostólicas. É conforme esta variedade que distinguimos o espírito de cada família religiosa, que declina na medida que dele se afasta e se renova, ao contrário, quando a ele retorna.

Que é o espírito humano, ou espírito de natureza? É a inclinação para julgar, querer e agir de modo demasiado humano, segundo a natureza decaída, que tende para sua vantagem pessoal, para sua própria utilidade; é o espírito do egoísmo e do individualismo. Então, a prudência é vista mais como uma virtude necessária para evitar os inconvenientes, que como uma virtude positiva que tende ao bem honesto e dirige retamente as virtudes morais. Por esta prudência da carne, coloca-se a mediocridade, no sentido pejorativo do termo, no lugar do justo meio da virtude.

Esta mediocridade é um meio termo entre o bem e o mal e, inspirando-se no utilitarismo, ela permanece no centro da base do triângulo para fugir aos inconvenientes do vício, mas não por amor a virtude. Ao contrário, o justo meio termo da virtude é como o cume do triângulo formado entre dois vícios opostos um ao outro. Assim, o justo meio-termo da virtude da força está entre a covardia e a audácia temerária. Este justo meio-termo eleva-se mais e mais com o progresso das virtudes. É mais alto na temperança infusa que na temperança adquirida. Do mesmo modo, a mediocridade sempre diminui a elevação das virtudes teologais, como se existissem « por si sós, em um meio-termo », como se o homem pudesse ter demasiada fé em Deus, demasiada esperança em Deus, demasiado amor a Deus, assim como pode amar demasiadamente a própria pátria, amando-a mais que a Deus. O falso meio-termo da mediocridade permanece na base e não busca jamais o cume da perfeição.

Este espírito de natureza engendra a tibieza e, enfim, o desgosto. Predispõe ao pecado mortal pelos pecados veniais cada vez mais deliberados. No entanto, o espírito de natureza tem, por vezes, um lirismo próprio, que se manifesta no sentimentalismo, na afetação na sensibilidade de um amor que não existe o bastante na vontade. Mas decai rapidamente do lirismo romântico à prudência da carne e à « loucura » da qual falava São Paulo, que julga de todas as coisas, mesmas as mais elevadas, pelo que há de mais baixo, segundo as satisfações da sensualidade ou do orgulho (cf. S. Tomás sobre a prudência da carne e a loucura, IIa-IIae, q. 55, q. 46)1.

Que é o espírito demoníaco? É uma tendência para julgar, querer e agir conforme uma inspiração perversa e diabólica. Este espírito manifesta-se claramente nos ímpios, em seu orgulho, luxúria e arrebatamento, mas, no momento da tentação, aparece em estado latente nos outros.

Em toda alma predomina um destes três espíritos: nos ímpios, o espírito demoníaco, nos tíbios, o espírito de natureza; nos iniciantes que se mostram generosos na via do Senhor, domina já o espírito de Deus, ainda que neles, por vezes, o espírito de natureza ou mesmo o demoníaco se introduza.

Que significa, enfim, discernimento, quando falamos em discernimento dos espíritos? É o julgamento que consiste em discernir exatamente por qual espírito é normalmente movida tal pessoa. Ora, o discernimento pode ser adquirido ou infuso :

Se é adquirido, tem sua origem no influxo da teologia moral e na prudência adquirida unida à prudência infusa, e é mais ou menos aperfeiçoado pela inspiração do dom do conselho.

Se é infuso, é a graça gratis data, chamada por São Paulo (1 Cor 12, 10) « discernimento dos espíritos ». Ela é muito rara. No entanto, um bom diretor espiritual, piedoso, virtuoso e prudente, recebe, mui freqüentemente, graças de estado que podem, de algum modo, pelo fato de serem de utilidade ao próximo, conduzir a uma graça gratis data; elas aperfeiçoam sua prudência e as inspirações do dom de conselho.

* * *

Qual é o princípio fundamental do discernimento dos espíritos ?

É o princípio formulado por Nosso Senhor, a saber: «toda a árvore boa dá bons frutos, e toda a árvore má dá maus frutos. Não pode uma árvore boa dar maus frutos, nem uma árvore má dar bons frutos. Toda a árvore, que não dá bom fruto, será cortada e lançada no fogo. Vós os conhecereis pois pelos seus frutos» (Mt 7, 17-20).

Ora, os frutos são as virtudes, os dons do Espírito Santo e seus atos. É preciso, pois, julgar pelas principais virtudes, ou seja, em ordem ascendente, pela castidade e mortificação, pela humilde obediência; pela fé, esperança e caridade. É fácil aplicá-las aos três espíritos que distingüimos acima.

DESCRIÇÃO DOS SINAIS DO ESPÍRITO DE NATUREZA

Esta descrição se faz com facilidade por contraste com o espírito divino, observando-se algumas diferenças com relação ao espírito demoníaco. Este espírito natural é, como dissemos acima, uma tendencia para julgar, querer e agir de modo natural e não sobrenatural. De que « natureza » se trata? Não se trata absolutamente da natureza considerada em si mesma, que pode se elevar à ordem da graça, mas se trata quer da natureza decaída e ainda não regenerada pela graça, quer da natureza ainda manchada, que, apesar da presença da graça, conserva as quatro manchas conseqüentes ao pecado original, que se agravam pelos pecados pessoais. Estas manchas nos batizados que vivem em estado de graça estão em via de cicatrização ou cura, mas não há cura perfeita nesta vida. 2.

Infligida à toda natureza humana pelo pecado dos primeiros pais, estas manchas são curadas imperfeitamente no batismo, pois a concupiscência permanece após este novo nascimento, o que nos obriga a um combate espiritual. Assim, com a ajuda de Deus, o homem supera a concupiscência de um modo meritório, como diz S. Tomás (III, q. 69, a. 3). E isto também era conveniente, como está dito no mesmo lugar, para que os homens não viessem ao batismo com o intuito de escapar às penas da vida presente antes que pela glória da vida eterna. Nós somos co-herdeiros do Cristo, « mas isto, se sofrermos com ele, para sermos com ele glorificados ». Ora, estas quatro manchas são agravadas pelo pecado atual que diminui a inclinação natural para a virtude ao trazer um obstáculo: a inclinação para o mal; assim, « pelo pecado (mesmo venial, nos justos) a razão é embotada, sobretudo na ordem da ação, a vontade se enrigesse contra o bem, cresce a dificuldade de bem agir e a concupiscência arde com mais força » (I-II, q. 85, a. 3).

É por isto que o espírito da natureza decaída ou manchada inclina à concupiscência, que é o lar do pecado e, em seguida, à preguiça, à frouxidão no irascível e, por conseqüência, à injustiça na vontade, à negligência, à imprudência ou à astúcia na inteligência. Em resumo, é o espírito do amor próprio, do amor desordenado de si-mesmo ou do egoismo. E este espírito de amor-próprio, como o demonstra S. Tomás, conduz às três concupiscências, isto é, à concupiscência da carne, à concupiscência dos olhos e ao orgulho de vida3.

Estas três concupiscências inclinam enfim aos sete pecados capitais, que estão na origem de outros pecados, freqüentemente mais graves (Ia-IIae, q. 84, a. 4); os sete pecados são: a vã glória, a inveja, a cólera, a avareza, a preguiça ou a tibieza, a gula e a luxúria. Conforme observa S. João da Cruz (Noite escura, 1. I, início), estes sete pecados existem mesmo em relação aos bens espirituais, por exemplo, a gula espiritual, que é o desejo imoderado da consolação espiritual, amada por si mesma e não por Deus, e o orgulho espiritual. Ora, os pecados capitais, aos quais o espirito da natureza inclina primeiramente, leva a pecados mais graves, como a incredulidade, o desespero, o ódio de Deus e do próximo. Assim considerada, a natureza manchada da qual fala S. Tomás, não difere da que fala o livro da Imitação de Cristo (1. III, c. 54).

Se quisermos discrever o espírito de natureza quanto à mortificação, à humildade, às virtudes teologais, digamos que a ele é preciso aplicar a primeira regra do discernimento, « Vós os conhecereis pois pelos seus frutos » :

1. O espírito de natureza não inclina jamais à mortificação, nem exterior, nem interior, nem a aceitar as humilhações. Como dizem os espirituais : a natureza não quer morrer, mas procura o deleite nas coisas da piedade, com uma gula espiritual que se opõe ao espírito de fé e ao verdadeiro amor de Deus. Após as primeiras dificuldades ou asperezas, aquele que se move por este espírito de natureza não progride mais e abandona a vida interior. Sob pretexto de apostolado, lança-se numa atividade natural exterior, vive na superfície de sua alma; nele, nada há de profundo, confunde caridade com filantropia, humanitarismo e liberalismo. Esta atividade natural se manifesta de três maneiras, em ordem decrescente: 1.) o arrebatamento, o ardor natural; 2.) a precipitação natural; 3.) o movimento natural, ou atividade natural não santificada, em nada inspirada pelo espírito da fé ou pelo amor de Deus.

Sobrevém a contradição ou a provação, então a natureza geme, recusa carregar a cruz e cai, pouco a pouco, no desespero. O fervor inicial não era senão um fogo de palha subitamente extinto.

Este espírito é propriamente o egoísmo, com uma perfeita indiferença pela glória de Deus e a salvação das almas. Não é o amor de Deus ou do próximo que detêm o primeiro lugar na alma, mas o amor desordenado de si-mesmo.

Mas, para se justificar, este espírito de natureza tem sua teoria; o princípio é o seguinte: não se deve exagerar em nada, devemos evitar os excessos seja na austeridade, seja na piedade; nós não estamos obrigados a tender à perfeição mística, isto seria misticismo. Segundo este espírito, se alguém lê reservadamente um capítulo da Imitação de Jesus Cristo diariamente para seu progresso espiritual, já é um místico. É preciso, como se diz, avançar pela via comum, posto que a virtude se encontra num meio-termo.

Mas eles falseiam este princípio : o sentido verdadeiro é que a virtude moral se encontra num meio-termo e é um cume entre dois vícios, um por excesso, outro por falta, como a fortaleza está entre a covardia e a audácia temerária. É evidente que este meio-termo é, igualmente, um cume que se eleva entre e acima dos dois vícios opostos, um ao outro. Ao contrário, o meio-termo de que fala a teoria dita acima está na base do triângulo que figura o caminho da perfeição. Pois o meio-termo da tibieza não está entre e acima de dois vícios opostos um ao outro, mas entre o vício e a verdadeira virtude, é o meio-termo instável da mediocridade, entre o bem eo mal, e mais perto do mal do que do bem, nem mesmo no meio do caminho entre os dois, como na enumeração das notas escolares que se costuma dar às crianças : muito bom, bom, razoável, mediocre, mal, muito mal. Esta teoria é, pois, a da mediocridade sob as aparências da virtude ; pois, se ela foge dos vícios opostos entre si, é por causa de seus inconvenientes e em razão da comodidade ou utilidade pessoal, não por amor do bem honesto e da virtude. Assim era para o utilitarismo de Epicuro e de Horácio. Assim como se diz « vinho mediocre, nem bom, nem mal », podemos dizer: espírito mediocre, obra mediocre.

Ademais, esta teoria da mediocridade recusa admitir, ao menos na prática, que as virtudes teologais não estão, por si mesmas, num meio-termo ; ela rejeita, portanto, as palavras de S. Tomás: « Nós não podemos amar a Deus tanto quanto Ele deve ser amado, nem crer ou esperar nele o bastante » (Ia-IIae, q. 64, a. 4). Devemos, pois, aspirar a uma fé, a uma confiança e a uma caridade sempre maior.  

Por mais forte razão, nesta categoria, negligencia-se na prática a necessidade da docilidade às inspirações do Santo Espírito conforme os sete dons.

* * *
  
Na carta do Revmo. Pe. de Paredès, Geral da ordem dos Irmãos Pregadores, publicada em 1926, no início da nova edição das Constituições, o espírito natural está descrito assim (pág. 20): « Ainda que a santidade seja, para o homem, o efeito da graça de Deus agindo em nós, ela supõe, no entanto, de nossa parte, um longo e laborioso progresso de purificação e de transformação de tudo o que há em nós, até alcançarmos o total abandono do velho homem, que se perverte nos desejos da carne, e nos revestirmos do homem novo « criado segundo Deus na justiça e na santidade da verdade ». Daí, o espírito de obediência, de abnegação e de sacrifício com o qual devemos todos guardar estas observações com exatidão e perseverança... ».

Contudo, « Toda indulgência humana, todo espírito de pusilanimidade, toda condescendência feita a este ponto por considerações terrestres, toda dispensa ilegítima, sem fundamento nas próprias Constituições, podem ser consideradas como uma prevaricação por parte dos superiores... e, por parte dos sujeitos, como uma renúncia à obrigação de se santificar e de fazer de si instrumentos úteis para cumprir o santo ministério. Ceder a nossa fraqueza, conforme a maneira dita acima, seria mostrar que professamos o estado religioso, não para alcançar o fim que Deus e a Igreja nos impuseram, mas para encontrar uma solução agradável para o problema da vida presente, isto é, para encontrar com mais segurança no estado religioso todos os bens necessário para a vida e ainda nos propiciar mais facilmente vantagens que talvez não gozassemos no século.

« Mas, para que as observâncias regulares produzam em nós todos os frutos de santidade visados pelas Constituições, não basta observá-las de modo meramente material ou literal, nem apenas para evitar a sanção prevista pela lei ou que pode ser imposta pelos superiores, nem para mostrar-se irrepreensível perante os superiores. Para que nossas observâncias sejam para nós meio de santificação... (e de preparação para o santo ministério), é preciso que sejam sobrenaturais em seu princípio e sejam causadas pela graça divina que lhes infunde o ser sobrenatural.

« Na falta deste espírito interior, que é o centro e a fonte da vida sobrenatural... não sobra nada em nós senão o mecânico e o material, nossa piedade pessoal carece de energia vital « como um bronze que soa, ou como um címbalo que tine », ela se enfraquece e perde todo o mérito e nossa ação comum fica, ela mesma, privada de verdadeira orientação e eficácia. Trabalhamos e nos inquietamos talvez demais em nossas atividades; mas nossa atividade não exprime a verdadeira vida interior de fé, esperança e caridade... Ela parece apenas um esforço provocado pela necessidade exterior de agir ou que obedecesse a razões puramente naturais que nos guiam, conscientemente ou não, pelo fato único de favorecerem as inclinações de nossa natureza. Na falta do espírito interior que nos permite triunfar fobre nós mesmos e dá a nosso ministério a vitória sobre os inimigos da salvação das almas, quanto tempo perdido e passado em vão, quantos esforços, quantos sacrifícios estéreis, quantas atividades gastas inutilmente! »  

Ao contrário, onde prospera e florece o espírito interior, produz-se os frutos de uma santidade sólida... Então, o valor e a virtude da vocação religiosa se mostra mais claramente... « Este espírito interior se forma em nós pela prática dos meios que a ascese religiosa nos sugere ; ele se fortalece e se aperfeiçoa pelo progresso espiritual nas diversas etapas da mística cristã, como ensina o Doutor angélico. A mística é, com efeito, o complemento da ascese na ascensão das almas a Deus pelos graus da perfeição da vida cristã. Se houve, por vezes, erros a este sujeito, se aberrações práticas prejudicaram largamente nesse ponto a verdadeira piedade, assistimos hoje uma restauração da verdadeira doutrina tradicional que dá às almas sedentas de vida sobrenatural meios de conhecer as realidades místicas ». É nessa vida perfeita que se encontra verdadeiramente o espírito de Deus que renova as almas.

O espírito natural releva-se sobretudo na maneira tíbia de celebrar a Missa, no modo de dizer o ofício, com precipitação e como que mecanicamente, de ocupar-se dos estudos com curiosidade e, em seguida, com preguiça, ou ainda de observar ou antes de não observar o silêncio e outras práticas regulares, e na maneira imperfeita de obedecer, quer incompleta, quer servilmente, como se faria para uma pessoa humana e não para Deus, ou por desejo de obter honras e dignidades.

Notamos, em conformidade com muitos autores, que a celebração da Missa pode ser celebrada dignamente com espírito de fé ou piedade ; também pode ser mais lida que celebrada, como que para cumprir um dever, ao modo de um funcionário ou de um magistrado que cumpre regularmente sua função civil ; por fim, pode ser despachada com precipitação, em vinte minutos, por exemplo, ou mesmo em menos tempo, sem nenhuma piedade e, por vezes, para escândalo dos fiéis. Na primeira maneira, há o espírito de Deus ; nas duas outras, trata-se evidentemente do espírito da natureza. É preciso pregar sobre esse assunto nos exercícios espirituais para o clero.

Que é preciso dizer contra o espírito natural na celebração da Missa 4?

A celebração quotidiana é útil para todos os padres : 1) em razão do sacrifício que por quatro fins oferecemos a Deus : adoração, súplica, reparação, ação de graças pelos benefícios de cada dia ; 2) em razão da comunhão sacramental, em que recebemos o pão supersubstancial de cada dia ; 3) por causa do grande proveito que daí resulta para a Igreja universal e todos fiéis vivos ou mortos.

Ademais, se o padre celebra raramente, falta com seu dever e enterra seu talento na terra. A celebração quotidiana da Missa requer uma preparação digna.

Que fazer, em caso de dúvida, quando ignoramos se tal pessoa que devemos dirigir é normalmente dirigida por um espírito bom ou mal ?

1. É preciso sobretudo examinar sua humildade.
2. Sua mortificação.
3. Sua obediência ao diretor.
4. Ele mesmo deve rezar para receber a luz de Deus.

DESCRIÇÃO SUMÁRIA DOS SINAIS DO ESPÍRITO MAU.

Ao contrário do espírito divino, o espírito diabólico conduz à exaltação do orgulho e, em seguida, lança a alma na confusão e no desespero, assim como ocorreu ao demônio, que pecou por orgulho e segue no desespero eterno e no ódio de Deus.

Para conhecer este espírito mal, é preciso portanto considerar sua influência no que diz respeito à mortificação, à humildade e à obediência e, em seguida, no que diz respeito às virtudes teologais. O espírito demoníaco não nos afasta sempre da mortificação; ele difere, assim, do espírito de natureza e, por vezes, até o contraria e conduz a uma mortificação exterior exagerada, visível a todos, que entretém o orgulho espiritual e enfraquece a saúde. Mas não inclina à mortificação interior da imaginação, do coração, da vontade própria e do julgamento próprio, ainda que estimule, por vezes, inspirando escrúpulos quanto à pequenos detalhes e laxismo quanto às coisas de maior importância, como os principais deveres de estado, por exemplo. Ele inspira assim a hipocrisia : « Jejuo duas vezes na semana » (Lc 18, 12).

Este espírito não nos conduz à humildade, mas nos engana pouco a pouco, para que nós nos estimemos mais do que devíamos, mais do que aos outros, com o objetivo de nos fazer rezar ao modo do fariseu: « Graças te dou, ó Deus, porque não sou como os outros homens : ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano » (Lc 18, 11). Este orgulho espiritual é acompanhado de uma falsa humildade, do fato de confessarmos um pecado pessoal, para que os outros não nos acusem de uma falta ainda mais grave e nos considerem humildes. O espírito mal faz ainda com que confundamos a humildade com a timidez, que é filha do orgulho e teme o desprezo. Do mesmo modo, não engendra a obediência, mas a desobediência ou o espírito servil, conforme as circunstâncias.

Quanto à fé, o espírito mau não inclina nosso espírito a considerar no Evangelho o que é ao mesmo tempo mais simples e mais profundo, por exemplo, não nos faz dizer com atenção e devoção a oração dominical, meditar os mistérios do santo rosário, mas apenas nos interessa ao que é extraordinário e favorece a ostentação, como quando disse ao Salvador : « Se és filho de Deus, lança-te daqui abaixo ; porque está escrito que Deus mandou aos seus anjos que te guardem, e que te sustenham em suas mãos, para não magoares o teu pé em nenhuma pedra. ». Ao que Jesus respondeu :« Também foi dito : Não tentarás o Senhor teu Deus ».

O espírito mau, do mesmo modo, nos incita ao que é contrário à nossa vocação ; por exemplo, leva um monge cartuxo a querer evangelizar os infiéis ou um missionário à vida solitária dos cartuxos. Ou ainda, no que diz respeito à devoção, inspira a rezar à revelia da liturgia, por exemplo, rezar a sexta-feira santa como se fosse Natal ou vice-versa. Do mesmo modo, nas coisas da fé, conduz a novidades dogmáticas, como, por exemplo, no tempo do modernismo, a ler os livros dos protestantes liberais sob pretexto de adaptar nossa fé ao pensamento moderno. Ou, ao contrário, se nossa inclinação natural está em sentido oposto, nos incita a um arcaísmo imoderado, para provocar o conflito entre católicos ; assim, levava os israelistas recém convertidos ao Cristianismo a voltar à lei mosaica ; é contra esta tentação que foi escrita a Epístola aos Hebreus, onde está dito (3, 13)  « Exortai-vos uns aos outros todos os dias, para que nenhum de vós se endureça, seduzido pelo pecado. ». Do mesmo modo, o espírito mau altera os dogmas : por exemplo, o da predestinação quandosurge no calvinismo; então se realiza o adágio : corruptio optimi pessima. A corrupção do melhor é a pior das coisas. O demônio conhece muito bem este provérbio e trabalha para a perversão da fé sobrenatural. Ele sabe, com efeito, que não há nada pior, nada de mais perigoso que o cristianismo falseado, que conserva uma certa aparência de verdade, e ele age, por vezes, como um falso Cristo antes de aparecer como Anticristo. Tal como existiu no pensamento de Lutéro e Calvino (não nos protestantes de boa fé), o protestantismo é então alguma coisa de pior e de mais perigoso que o naturalismo, pois é mais sedutor e abusa ainda mais da sagrada Escritura. É verdade que aceita a Escritura, mas para um uso depravado.

O naturalismo prático e, em seguida, teórico, provém muitas vezes do espírito da natureza decaído, mas a perversíssima corrupção dos dogmas sobrenaturais, como no calvinismo, vem do espírito do demônio. Alterar a fé divina é, portanto, podemos dizê-lo, utilizar-se de uma arma de grande precisão, não contra os inimigos, mas contra os próprios irmãos e contra si próprio – é um fratricídio e um suicidio. Assim se explica, em grande parte, a história da pseudo-Reforma quanto ao seu espírito, ainda que muitos protestantes estejam de boa fé, pelo fato de ignorarem o verdadeiro espírito do protestantismo.

Quanto à esperança, o espírito mau trabalha para fazer com que nossa esperança degenere em presunção ; por exemplo, quer-se chegar rapido demais à santidade, e não pouco a pouco, subindo os degraus necessários, nem pela via da humildade e da abnegação. Ele inspira igualmente uma certa impaciência quanto à nós mesmos, uma vez que nossos defeitos parecem grandes demais. Por conseqüência, produz em nós a indignação no lugar da contrição, uma indignação que é filha do orgulho e contrária à contrição. Ora, a presunção conduz ao desespero, quando se verifica a impossibilidade de chegar por suas próprias forças ao fim visado : o bem árduo parece então quase inacessível – é a desesperança.

Quanto à caridade, o espírito mau favorece os simulacros que são como um falso diamante ; assim, conforme as inclinações variadas e opostas de nossa natureza, ele inclina algumas a esta falsa caridade para com o próximo que é o sentimentalismo, com uma indulgência excessiva sob pretexto de misericórdia e de generosidade. Em outros engendra um falso zelo : queremos sempre corrigir os outros, mas não a nós mesmos e, vendo a aresta no olho de nosso irmão, não vemos a trave no nosso olho.

De tudo isto resulta o contrário da paz, ou seja, a discórdia. O homem conduzido por este espírito não pode suportar a contradição, não vê senão a si mesmo em sua ofuscante personalidade, e se coloca, inconscientemente, acima de todos os demais, como uma estátua sobre o seu pedestal.

Se este homem cai em um pecado grave e manifesto que não pode esconder, ele se deixará vencer pela confusão, indignação, desespero e, enfim, pela cegueira do espírito e pelo endurecimento do coração. Antes desta falta, o demônio escondia as conseqüências desencorajantes do pecado e inspirava o relachamento ; agora, após a falta, fala da justiça inexorável de Deus, para nos conduzir ao desespero. É assim que forma as almas à sua imagem : após o arrebatamento do orgulho, vem o desespero.

Portanto, se alguém tem uma grande devoção sensível na oração, mas sai dela com maior amor próprio, julgando-se acima dos outros, sem obediência aos superiores, desprovido de simplicidade no que toca seu diretor espiritual, isto é sinal da presença do espirito mau na sua devoção sensível. A falta de humildade, obediência e caridade fraterna é o indício de que se está privado do espírito de Deus.

Vamos agora aos sinais deste último.

DESCRIÇÃO DOS SINAIS DO ESPÍRITO DE DEUS

Estes sinais opõem-se aos do espírito da natureza e do espírito demoníaco. O espírito de Deus inclina à mortificação exterior, no que difere do espírito de natureza, mas à mortificação exterior regrada pela prudência cristã e pela obediência, e que não atrai a atenção para nós nem enfraquece a saúde. Este espírito nos ensina, por outro lado, que a mortificação exterior é coisa pequena, se não há, ao mesmo tempo, a mortificação da imaginação, da memória (lembrança dos erros que cometemos), do coração, da vontade própria e do julgamento próprio. Inspira igualmente a verdadeira humildade, que dispõe à perfeita obediência, nos impede preferirmos a nós mesmos que aos outros, não teme o menosprezo, guarda silêncio sobre nossas qualidades ; no entanto, ela não os nega, se existem, mas rende glória a Deus por elas.

O espírito de Deus alimenta nossa fé com o que há de mais simples e profundo no Evangelho, como, por exemplo, o Pai Nosso, fazendo-nos fugir às novidades pela fidelidade à tradição. Esta verdadeira fé sobrenatural nos revela a presença de Deus nos nossos superiores ; assim, aperfeiçoa-se o espírito de fé, porque tudo julgamos à luz dessa virtude.

O espírito de Deus torna a esperança firme, preservando-a da presunção ; diz-nos, por exemplo : é preciso desejar ardentemente a água viva da oração, que conseguimos pela via da humildade, da abnegação e da cruz. Por consegüinte, dá-nos uma santa indiferença pelo sucesso humano.

O espírito de Deus aumenta o fervor da caridade, dá o zelo pela glória de Deus e pela salvação das almas, o esquecimento de si mesmo. Assim, pensamos antes de tudo em Deus, depois em nosso benefício. Inclina igualmente ao amor eficaz ao próximo ; nos ensina que a caridade fraterna é o principal indício do progresso no amor de Deus. Impede o julgamento temerário, o escândalo sem motivo. Inspira o zelo, certamente, mas um zelo paciente, doce e prudente, que edifica pela oração e pelo exemplo e não se irrita pelas repreensões intempestivas. Produz uma grande paciência nas adversidades, o amor pela cruz, o amor pelos inimigos. Propicia a paz com Deus, com os outros, com nós mesmos e, freqüentemente, a paz interior.

Se ocorre uma queda acidental, então o espírito de Deus nos fala em misericórdia. S. Paulo diz  (Gl 5, 22-23): « O fruto do Espírito é a caridade, o gozo, a paz, a paciência, a benignidade, a bondade, a longanimidade, a mansidão, a fidelidade, a modéstia, a continência, a castidade. », com a humildade e a obediência.

Se se trata de um ato particular, é mais difícil discernir se provém ou não de Deus. No entanto, se, encontrando-se antes na tristeza, a alma reza e recebe uma consolação profunda, é o sinal da visita de Deus, se esta consolação incita à obediência humilde e à caridade fraterna.

Mas é preciso distinguir o primeiro momento da consolação do tempo seguinte, onde, por vezes, a alma julga por si mesma sobre esta consolação e o pode fazer conforme seu amor próprio.

Haverá presunção se desejar graças propriamente extraordinárias, como visões ou palavras interiores ; mas se a alma vive e persevera na humildade, abnegação e recolhimento quase contínuo, não é raro que, em virtude dos sete dons do Espírito Santo, ela receba inspirações pelas quais se conciliam a simplicidade e a prudência, a humildade e o zelo, a firmeza e a doçura. Esta conciliação e esta harmonia constituem sinal claríssimo do espírito de Deus.

O segredo, o silêncio e a cruz são absolutamente necessários àqueles a quem Deus conduz verdadeiramente por vias extraordinárias e estes não as devem manifestar senão ao seu pai espiritual ; caso contrário, há grande perigo de orgulho espiritual.

Particularmente perigosa é a disposição de se comprazer nas revelações, de forma dogmática ou profética ; pois elas se acompanham facilmente de ilusões, e mesmo se a primeira inspiração vêm de Deus, freqüentemente vêm a ela se acrescentar uma interpretação humana, mais ou menos errônea, geralmente compreendida de modo extramamente material. Enfim, o espírito que procura êxtases e revelações, se não aperfeiçoa os costumes e a vida, e não faz o homem desconfiar-se de si mesmo, é um espírito de ilusão, sobretudo se todo isto impede a realização do dever de estado e engendra discórdias. Os sinais do espírito de Deus são, portanto, a obediência humilde, a caridade fraterna, a paz e a alegria espiritual radiantes.

PRINCÍPIOS SECUNDÁRIOS DO DISCERNIMENTO DOS ESPÍRITOS

1. No que se apresentaprontamente para ser feito, o espírito que anima alguém se manifestará se, após deliberação, desconfiar-se de si mesmo. No entanto, nesta regra, não se trata do movimento primo primus, nem do pecado de fragilidade, mas de um ato suficientemente deliberado e grave que o hipócrita não pode esconder ; assim se revelou o coração dos fariseus após a cura imprevista do cego de nascimento.

2. Os segredos do coração se revelam nas tribulações. Assim, os verdadeiros amigos permanecem nos dias de tribuação, mas não os demais, como está escrito no Eclesiastico (4, 8). Do mesmo modo, a tribulação é como uma fornalha onde Deus prova seus eleitos, conforme outra passado do Eclesiástico (27, 6) : « O forno prova os vasos do oleiro e a prova da tribulação, os homens justos » . Lê-se no livro da Sabedoria (3, 5- 8) : « Deus, que os provou, achou-os dignos de si. Ele os provou como ouro na fornalha, e aceitou-os como um holocausto. Os justos resplandecerão no tempo da recompensa, propagar-se-ão como centelhas sobre o colmo. Julgarão as nações, dominarão os povos, e o Senhor reinará sobre eles para sempre. » Mas, para isso, a tribulação era necessária ; « Numerosas são as tribulações dos justos » ; sua longanimidade, sua humildade, sua mansidão, sua indefectível perseverança então se manifestam.

3. O poder revela o homem ; pois, quando adquirimos poder e honras, devemos corrigir e governar os outrros, o que importa bem mais dificuldades do que antes fazíamos em nossa vida privada. Com efeito, é preciso mostrar sabedoria, prudência, sem oportunismo e utilitarismo mesquinhos, caridade para com todos e justiça, igualmente, uma firmeza que não teme corrigir os maus, enfim, bem-querer pelos bons servidores que devem ser ajudados. Ver o Diálogo de santa Catarina de Sena, no lugar em que trata dos bons e dos maus pastores.

REGRAS PARA CIRCUNSTÂNCIAS DIVERSAS

1. Nos momentos de desolação, não se deve fazer nenhuma alteração, mas manter com firmeza e confiança as resoluções que já tomamos diante de Deus. Isto é sobretudo verdadeiro caso se trate de uma desolação acachapante, que leva à uma tristeza má onde o espírito perverso será nosso guia.

2. Nos momentos de desolação, é preciso dedicar-se ainda mais à oração, ao exame de consciência e à penitência. Por que ? Porque a desolação, gerada pelo desgosto nos afasta da oração, do exame de consciência e da penitência. Cura-se, portanto, os contrários pelos contrários. Qualquer que seja a causa de que provenha, esta desolação deve ser, para nós, ocasião de uma reação virtuosa ou de um ardor da alma para o serviço de Deus. Ver A Imitação de Cristo, livro I, c. 12 : Vantagens da adversidades ; lê-se o seguinte : « A adversidade lembra o homem de seu próprio coração, de modo que se conheça em exílio e não ponha sua esperança em nenhuma coisa desse mundo ». Assim, pouco a pouco, graças à oração, a tristeza, de maléfica que era, torna-se boa.

3. O espírito mal nos engana atraíndo nossa alma a um bem aparente e, em seguida, nos induz e incita ao mal. Trata-se, propriamente falando, de uma sedução, pior ainda, o demônio se transfigura por vezes em anjo de luz : sob o pretexto de melhorar as coisas inferiores, nos tira da via de Deus, para nos fazer desejar a comodidade antes que a santidade. Provoca, assim, divisões, perturba a paz e semeia a discórdia. 

4. Se nos entristecemos por ser menosprezados, é sinal, senão do espírito mal, ao menos de um espírito imperfeito ; portanto, se nos descorajamos quando somos menosprezados, é um mau sinal, sobretudo nos que passam por ser gratificados com os maiores dons de Deus. Pois os que são verdadeiramente tais não se rejubilam apenas destes dons e favores, mas também das adversidades e desprezos, conforme as palavras de S. Paulo (2 Cor 12, 5, 10) : « Quanto a mim, de nada me gloriarei, senão das minhas fraquezas... para que habite em mim o poder de Cristo. Por isso, sinto complacência nas minhas enfermidades, nas afrontes, nas necessidades, nas perseguições, nas angústicas por amor de Cristo ». Assim, como diz Santo Agostinho « o Apóstolo encontrou um tesouro no menosprezo do qual corava o filósofo » (Sermão 160).

Conseqüentemente, o espírito que se recusa a ser menosprezado não é um espírito perfeito ; do mesmo modo, aquele que deixa de renunciar a si mesmo não é de sólida virtude. Pois, do fato de serem conexas, todas as virtudes devem aumentar ao mesmo tempo.

COROLÁRIOS:

1. O espírito que abunda em penitências e é pobre em obediência é imperfeito e tende ao mal de algum modo, porque está demasiado preso à vontade própria ; realiza muitas boas obras, mas não por amor de Deus ; a prova é que não crê nesta humilde obediência que manifesta conformidade com a vontade de Deus.

2. Também não é um bom espírito aquele que é dado ao paradoxo, isto é, que julga habitualmente de modo excepcional ou que vai de encontro à apreciação comum das pessoas prudentes, que tem algo de estranho e artificial : contém mais grandiloqüência que virtude.

3. Também é mau espírito o que inclina a coisas extraordinárias e fala delas abertamente, sem discrição. A razão disso é que todas as virtudes aumentam ao mesmo tempo, pelo fato de serem conexas ; conseqüentemente, Deus não incita a grandes coisas sem inspirar, ao mesmo tempo, uma grande humildade. Assim, a verdadeira magnanimidade difere da impetuosidade da presunção. Ao contrário, é próprio do demônio incitar empresas novas, curiosas, singulares, prodigiosas, inusitadas, provocando a admiração e o estupor para obter as honras da santidade.

O mesmo se passa com alguém que, sem estar solidamente firmado na humildade e obediência, inclina-se a uma vida extraordinária de oração e penitência, sob pretexto de imitar os santos nas suas ações mais admiráveis e menos imitáveis.

A construção do edifício espiritual não pode começar pelo telhado, e o pássaro não pode voar antes de possuir asas. Assim ocorre com a alma: se alguém se encaixa nessa descrição e parece voar, não se trata senão de um simulacro de vôo ou de elevação, uma vã e perigosa exaltação.

CONCLUSÃO

De tudo isto resulta claramente que o espírito de Deus manifesta-se sobretudo na humilde obediência e na caridade fraterna, que ama o próximo por Deus com abnegação. Pois a humilde obediência não provém do espírito da natureza que não inclina à humildade, nem do espírito perverso, que é um espírito de orgulho e de desobediência ; ao contrário, a humilde obediência, mesmo nos mais pequenos detalhes, manifesta a progressiva conformidade com a vontade divina.

Por outro lado, a caridade fraterna é o maior sinal do amor de Deus, conforme as palavras do Senhor (Jo 13, 35) : « Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros ». A caridade fraterna é o termômetro sensível da nossa união com Deus ; pois é de modo bem sensível que aparece nossa caridade quando se trata de ajudar o próximo, sobretudo se é difícil e exigente ; então, se o amamos apesar desta dificuldade, é sinal de que nós lhes fazemos o bem por causa de Deus e que, por conseqüência, aumenta nossa caridade para Deus mesmo. Não há duas virtudes de caridade, uma para Deus, outra para o próximo. Não há senão uma só caridade, cujo objeto principal é Deus e cujo objeto segundo é o próximo. O amor visível do próximo manifesta assim o amor invisível de Deus, na medida em que se distingue do sentimentalismo.

Portanto, se a humilde obediência e a caridade fraterna se conservam e progridem numa alma ou numa comunidade, é, pois, sinal de que um verdadeiro amor de Deus aí progride. Por consegüinte, se esta alma carece um pouco de inteligência natural e de energia física, Deus o suplantará pelas inspirações de seus dons de conselho e de força.


(Traduzido por Permanência a partir de site da FSSP)

1. Ver também : Imitação de Cristo, 1, III, cap. 4 : Os diversos movimentos da natureza e da graça.
2. Manchas [do pecado original] (Cf. Ia-IIae, q. 85, a. 3): - na razão decaída de sua orientação para a verdade, ignorância no lugar de prudência; na vontade, quanto ao bem em geral, malícia no lugar de justiça; no irascível, quanto ao bem árduo, fraqueza no lugar de força; no concupiscível, quanto ao bem deleitável regrado pela razão, concupiscência no lugar de temperança.
3. Ia-IIae, q. 77, a. 4 e 5; cf. Bossuet, Tratado da concupiscência.
4. Cf. Imitação de Cristo, 1, 4, c. 5: Excelência do sacramento e do estado sacerdotal.

O Grande Milagre

O grande milagre é uma história inspiradora que revela a esperança e a fé. A história gira em torno de três personagens em crise: Monica uma viúva e mãe de uma criança de 9 anos faz todos os esforços para manter a sua casa. Don Chema, um motorista de transporte público que recebe a notícia de uma doença que pode levar a morte de seu filho e Dona Cata, uma velha que sente que sua missão na vida é longa. As histórias se entrelaçam quando sentem uma grande necessidade de estar na igreja. E o que não se pode imaginar é que eles estão prestes a mudar suas vidas para sempre. Com a ajuda de anjos da guarda, vai testemunhar o verdadeiro significado da Missa, uma luta constante entre o bem e o mal, o triunfo da fé.


Sermões da FSSP em espanhol.



Disponibilizamos para os nossos leitores os excelentes sermões do Pe. J.  Romanoski, FSSP (em espanhol).

Para acessar os sermões, clique AQUI. Acesse também os seguintes links:

Site da FSSP no México e a página deles no Facebook.

Popule meus, quid feci tibi?



Eu flagelei por ti o Egito e os primogênitos:
E tu, flagelado, me entregaste.

Meu povo, que te fiz eu ou em que te contristei?
Responde-me!

Eu te tirei do Egito, afogando o Faraó no Mar Vermelho:
E tu me entregaste aos príncipes dos sacerdotes.

Meu povo, que te fiz eu ou em que te contristei?
Responde-me!

Eu abri o mar diante de ti:
E tu me abriste o lado com uma lança.

Meu povo, que te fiz eu ou em que te contristei?
Responde-me!

Eu te guiei na coluna de fogo:
E tu me conduziste ao pretório de Pilatos.

Meu povo, que te fiz eu ou em que te contristei?
Responde-me!

Eu te alimentei com o maná no deserto:
E tu me alquebraste de tapas e de açoites.

Meu povo, que te fiz eu ou em que te contristei?
Responde-me!

Eu te dei a beber a boa água da pedra:
E tu me deste a beber fel e vinagre.

Meu povo, que te fiz eu ou em que te contristei?
Responde-me!

Eu bati por ti os reis de Canaan:
E tu me bateste a cabeça com uma cana.

Meu povo, que te fiz eu ou em que te contristei?
Responde-me!

Eu te dei o cetro da realeza:
E tu me deste uma coroa de espinhos.

Meu povo, que te fiz eu ou em que te contristei?
Responde-me!

Eu te exaltei com grande poder:
E tu me suspendeste no patíbulo da Cruz

Meu povo, que te fiz eu ou em que te contristei?
Responde-me!

Sermões para os Domingos do Ano por Santo Afonso

Apresentamos o excelente livro "Sermões abrevoados para os Domingos do Ano de Santo Afonso":

 Maria de Ligório".

Os ideais de São Francisco de Assis



O ideal de São Francisco de Assis no atinente a Santíssima Eucaristia, podemos ver pela carta que escreveu aos Clérigos. Ei-la:

    "Consideremos todos nós clérigos o grande pecado e ignorância que alguns manifestam com relação ao Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo e seu santíssimo nome e palavras escritas que tornam santamente presente o Corpo (de Cristo). Sabemos que o Corpo não pode estar presente se antes não for tornado presente pela palavra. Pois nada temos nem vemos corporalmente dele, do próprio Altíssimo, neste mundo, senão o Corpo e Sangue, os nomes e as palavras pela quais fomos criados e remidos da morte para a vida. 

   Logo, todos aqueles que administram tão sacrossantos mistérios e especialmente aqueles que os ministram sem a reta discrição, considerem no seu íntimo com são vulgares os cálices, corporais e panos de linho sobre as quais é oferecido em sacrifício em lugares bem comuns e o levam de modo lamentável (pela rua) e o recebem indignamente e o ministram indiscriminadamente. Igualmente os seus nomes e palavras escritas são às vezes calcadas aos pés; pois "o homem animal não percebe as coisas de Deus" (1Cor. 2, 14).

   Não excitam porventura tais fatos a nossa piedade e devoção por esse bom Senhor quando se digna de vir colocar-se ele próprio em nossas mãos e nós o tocamos e o recebemos todos os dias em nossa boca? Ou ignoramos que um dia havemos de cair em suas mãos?

   Emendemo-nos pois depressa e firmemente dessas e de outras faltas. Onde quer que o Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo for conservado de modo inconveniente ou simplesmente deixado em alguma parte, que o tirem dali para colocá-lo e encerrá-lo num lugar RICAMENTE ADORNADO.(Destaque meu).  De modo igual sejam recolhidos e colocados em lugar decente os nomes e palavras escritas do Senhor sempre que forem encontradas em lugares imundos. Sabemos perfeitamente que estamos estritamente obrigados a observar tudo isto, em virtude dos mandamentos do Senhor e dos preceitos da santa Mãe Igreja; e os que o não fazem saibam que deverão prestar contas perante Nosso Senhor Jesus Cristo no dia do Juízo. 

   E os que mandarem copiar esta carta a fim de que seja mais amplamente observada saibam que serão abençoados por Deus, Nosso Senhor. 

Sobre Francisco e o meu "VIVA O PAPA"!




Muitos  me perguntaram sobre  o meu pensamento  diante da inesperada eleição do Papa Francisco. Por isso achei necessário colocar , aqui, as minhas impressões.

Bento XVI, o conhecia bem: seu estilo, seu pensamento teológico no Concílio Vaticano II e depois dele, sua eclesiologia e sua forma de agir diante das situações. Tinha meus 20 anos, quando recebi, de um irmão meu, o livro do cardeal Ratzinger,  “ A Fé em Crise?"; livro polêmico que, naquela época de teologia da libertação na América Latina, foi duramente rechaçado pelos bispos, teólogos e leigos. Aliás, contam que nenhuma livraria católica, no Brasil, quis editar o livro, e isso, incluiria, também as Edições Paulinas. A obra do Cardeal Ratzinger foi acolhida por uma editora leiga.

O  Magistério de Bento XVI foi um magistério claro, preciso, tendo como fundamento a Verdade sobre Deus, sobre a Igreja e sobre o Homem. Preocupou-se profundamente com a questão da Sagrada Liturgia, por entender que a Fé que se crer é a mesma que se celebra. Condenou severamente o relativismo que se impõe como dogma, tanto no campo social, como no teológico.

Busquei viver esses dois dias  com intensidade na oração e na união à Catedra de Pedro.
O fato é que o resultado do Conclave foi uma enorme surpresa para todos. Quando o cardeal francês anunciou o novo papa, fiquei sem entender muita coisa: não conhecia o cardeal eleito, e o nome adotado por ele me parecia inusitado.

Não posso negar minha surpresa ao vê-lo surgir no balcão da Basílica: Lembrei-me de alguém conhecido: um Pio XII, mais gordo; e que alguém depois dizia-me ser ele mais parecido com Pio XI.

Também não posso negar que fiquei confuso diante de seus primeiros gestos, desde as vestes, como também o uso da Estola Petrina ( que indica a autoridade do Vigário de Cristo), como uma simples estola para bênção, concluindo com sua inclinação diante do povo, além de se colocar, várias, vezes, apenas como “o bispo de Roma”.

Não deixa dúvidas que é um papa diferente, a começar pelo nome, e com posturas também  diferentes. Após sua eleição, ainda na Sistina, recusou sentar-se no Trono para receber a “obediência” dos cardeais , mas preferiu de pé, abraçar a cada um. Depois de tudo não quis ir à Casa Santa Marta no carro oficial, mas no ônibus, com os cardeais. Hoje, segundo dia de seu pontificado, foi até  Santa Maria Maior, em carro comum, visto que também, mais uma vez, dispensou seu carro oficial...

Em sua primeira missa,  na Capela Sistina, notamos o retorno de um pequeno altar voltado para o povo, abolido por Bento XVI, que celebrava no altar mor da capela, voltado para o crucifixo. O Santo Padre não fez a homilia sentado no Sólio, como é comum ao Papa, como Mestre Supremo, mas do lado direito da capela, no ambão. E, depois de concluída sua palavra, atravessou a igreja, enquanto todos permaneceram sentados diante do Papa que passava...

Algumas atitudes de Jorge Bergoglio, quando cardeal, e conhecidas agora, assustaram a muitos, como quando do encontro ecumênico, onde estavam presentes protestantes, católicos e até o Fr. Raniero Cantalamessa, no qual o cardeal pediu oração aos protestantes, e ajoelhado diante deles, recebeu a imposição de mãos, como nos fala a matéria da época. 

o momento mais emocionante foi a recepção dada ao cardeal Jorge Bergoglio, que liderou uma breve saudação e perguntou, como de costume, se poderiam orar por ele. Os pastores o levaram a sério, e o cardeal se ajoelhou e pediu a todos os presentes que orassem para que ‘uma das vozes proféticas da Nação’ tivesse abundância de sabedoria”. ( La Nacion, 2006)

É verdade que o nome de S. Francisco  sempre esteve ligado às correntes de teologias liberais, relativistas , panteônicas e humanistas. Isso deve-se a uma má interpretação do “Poverello di Assisi, que longe de ter sido um homem romântico e ecumênico, foi um destemido defensor do evangelho de Cristo e da sua Igreja.

S. Francisco era uma pessoa de extrema humildade e, sendo a humildade uma grandiosa virtude e condição primeira para se chegar a Deus, é algo que todos nós devemos desejar. Esta humildade é bem mais interior e expressa-se, claro, nas formas exteriores dos gestos humanos.

Muito já se fala da humildade do  nosso novo Papa e esta deve ser imitada por todos nós, seus súditos. O que não se pode é começar agora as comparações como se o ato de se fazer uso do temporal por um papa, fosse ,em si, um grande erro  contra a santa humildade. Humildade é  antes um ato interior. Do alto de seu apogeu Inocêncio III foi extremamente humilde ao ajoelhar-se diante de Francisco, o de Assis..Pio XII, em seu glorioso reinado, foi o papa do povo. Quem não se lembra dele de braços abertos como que abraçando o mundo inteiro? E Bento XVI, que em gestos e atitudes tornou-se, para nós, o Magno na humildade?..

O que esperamos de Francisco, o papa? Que ele seja o que Nosso Senhor o chamou a ser: Pedro! Rocha! Fundamento de Fé e de Verdade. Todo o resto é acidental. A forma de ser não faz um Papa, mas a Verdade da Fé que ele acredita, vive e defende.

Em sua primeira aparição pública, o Santo Padre pediu que rezássemos por ele.
Respondamos ao Santo Padre com as nossas orações filiais. Que o amemos como aquele que “vem em nome do Senhor,” a fim de ser ele  sempre a Rocha imperecível  que nos confirma  na Fé imutável da Igreja de todos os séculos.

 Não sabemos como será seu Pontificado. O que sabemos é que Deus mesmo o constituiu nosso Pastor Universal e o nosso coração deve estar unido ao Papa. Esperemos, na oração e não o deixemos sozinhos. 

Ter devoção ao Papa é um dever de todos nós, mas também do próprio Papa que deve ser o primeiro a ter devoção por aquilo que Deus o tornou: Papa, Rocha, Príncipe entre os príncipes.
 O papa é inequivocamente Pedro no meio de nós, o “ Doce Cristo  na terra, como bem definia Santa Catarina de Sena.

Não foi fácil o início de Pontificado de Pio IX. Ele favoreceu sobremaneira  aos liberais a tal ponto de ratificar uma Constituição Liberal para os Estados da Igreja, colocando à frente um primeiro ministro também liberal. Anistiou os terroristas e carbonários e as consequências foram terríveis para os Estados Pontifícios de maneira que Roma se tornou um refúgio dos revolucionários e anarquistas de todas as formas. A maçonaria satisfeita com a ação do Papa, levava o povo a sair na rua gritando: “ Viva Pio IX! Viva Pio IX”! Em Turim, Dom Bosco proibiu seus meninos de gritarem “ Viva Pio IX”,e ao invés , ensinou-os a gritar “ Viva o Papa”. Assim não comungava de nenhuma tendência ou ideologia da época.

Sabemos que houve uma grande mudança em Pio IX, tanto que se tornou um dos maiores papas da Igreja. Foi ele o papa das proclamações dogmáticas da Imaculada Conceição e Infalibilidade Papal e do incomparável Syllabus.

Como D. Bosco, devemos sempre gritar “Viva o Papa” independente de quem seja: santo ou pecador, nobre ou plebeu. Não importa seu nome, de onde vem nem como se expressa. O que importa é que seja  Pedro. A ele devemos nossa devoção filial e adesão a tudo o quanto ensina como Pastor Universal da Igreja enquanto se faz o eco das tradições apostólicas.

No momento em que esperávamos o resultado do conclave, uma imagem correu o mundo: um peregrino, vestido de sacos, rezando na chuva e no frio, inclinado diante da Basílica...Era um franciscano e de Assis.

Deus está a nos dizer algo.

De uma renúncia misteriosa de um Bento à ascensão  também misteriosa de um Francisco.

Tempos que chegam de gaudio ou de pesar?...


Os teólogos da libertação e escravidão das consciências, os boffes heréticos e baderneiros,os liberais, modernistas e positivitas  apressadamente já se juntam para gritar " Viva Francisco!"

Contra eles e pela Igreja gritamos também nós, junto de Dom Bosco:

VIVA O PAPA!

___________

Recomendamos:

Cf. Orlando Fedeli

Alberto Zucchi

Não tratemos os lobos como ovelhas perdidas


A doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo está cheia de verdades aparentemente antagônicas que, entretanto, examinadas com atenção, longe de reciprocamente se desmentirem, reciprocamente se completam formando uma harmonia verdadeiramente maravilhosa. É este o caso, por exemplo, da aparente contradição entre a justiça e a bondade divinas. Deus é ao mesmo tempo infinitamente justo e infinitamente misericordioso. Sempre que para compreendermos bem uma destas perfeições fecharmos os olhos a outra, teremos caído em grave erro. Nosso Senhor Jesus Cristo deu, em Sua vida terrena, admiráveis provas de Sua doçura e de Sua severidade. Não pretendamos “corrigir” a personalidade de Nosso Senhor segundo a pequenez de nossas vistas, e fechar os olhos à suavidade para melhor nos edificarmos com a justiça do Salvador; ou pelo contrário fazermos abstração de Sua justiça para melhor compreendermos Sua infinita compaixão para com os pecadores. Nosso Senhor se mostrou perfeito e adorável tanto quando acolhia com perdão inefavelmente doce Maria Madalena, quanto quando castigava com linguagem violenta os fariseus. Não arranquemos do Santo Evangelho quaisquer destas páginas. Saibamos compreender e adorar as perfeições de Nosso Senhor como elas se revelam em um e outro episódio. E compreendamos enfim que a imitação de Nosso Senhor Jesus Cristo por nós só será perfeita no dia em que soubermos, não apenas perdoar, consolar e afagar, mas ainda no dia em que soubermos flagelar, denunciar e fulminar como Nosso Senhor.
Há muitos católicos que consideram os episódios do Evangelho em que aparece o santo furor do Messias contra a ignomínia e a perfídia dos fariseus como coisas indignas de imitação. É ao menos o que se depreende do modo de que eles consideram o apostolado. Falam sempre em doçura, e procuram sempre imitar essa virtude de Nosso Senhor. Que Deus os abençoe por isto. Mas por que não procuram eles imitar as outras virtudes de Nosso Senhor?
Muito freqüentemente, quando se propõe em matéria de apostolado um ato de energia qualquer, a resposta invariável é de que é preciso proceder com muita brandura “a fim de não afastar ainda mais os transviados”. Poder-se-á sustentar que os atos de energia têm sempre o invariável efeito de “afastar ainda mais os transviados”? Poder-se-ia sustentar que Nosso Senhor, quando dirigiu aos fariseus suas invectivas candentes, fê-lo com a intenção de “afastar ainda mais aqueles transviados”? Ou porventura se deveria supor que Nosso Senhor não sabia ou não se preocupava com o efeito “catastrófico” que suas palavras causariam aos fariseus? Quem ousaria admitir tal blasfêmia contra a Sabedoria Encarnada, que foi Nosso Senhor?
Deus nos livre de preconizar o uso de energia e dos processos violentos como único remédio para as almas. Deus nos livre também, entretanto, de proscrever estes remédios heróicos de nossos processos de apostolado. Há circunstâncias em que se deve ser suave e circunstâncias em que se deve ser santamente violento. Ser suave quando as circunstâncias exigem violência, ou ser violento quando as circunstâncias exigem suavidade, há nisto sempre um grave mal.
* * *
Toda esta ordem de idéias unilateral que vimos denunciando, decorre de uma consideração também unilateral das Parábolas. Há muita gente que faz da parábola da ovelha perdida a única do Evangelho. Ora, há nisto um erro gravíssimo que não queremos deixar de denunciar.
Nosso Senhor não nos fala somente em ovelhas perdidas que o Pastor vai buscar pacientemente no fundo dos abismos, ensangüentadas pelos espinhos em que lamentavelmente se feriram. Nosso Senhor nos fala também em lobos rapaces, que circundam constantemente o redil, à espreita de uma ocasião para nele se introduzirem disfarçados com peles de ovelhas. Ora, se é admirável o Pastor que sabe carregar aos ombros com ternura a ovelha perdida, que dizer-se do Pastor que abandona suas ovelhas fiéis para ir buscar ao longe um lobo disfarçado em ovelha, que toma o lobo aos ombros amorosamente, abre ele próprios as portas do redil, e com suas mãos pastorais coloca entre as ovelhas o lobo voraz?
Quanto católico, entretanto, se desse aplicação efetiva aos princípios de apostolado unilateral que professa, agiria exatamente assim!
* * *
Para que se compreenda melhor que a imitação perfeita de Nosso Senhor não consiste apenas na doçura e na suavidade, mas ainda na energia, citaremos alguns episódios ou algumas frases de certos Santos. O Santo é aquele que a Igreja declarou, com autoridade infalível, ser um imitador perfeito de Nosso Senhor. Como imitaram os Santos a Nosso Senhor? Vejamos.
Santo Inácio de Antioquia, mártir do século segundo, escreveu várias cartas a diversas Igrejas, antes de ser martirizado. Nestas cartas, ocorrem sobre os hereges expressões como estas: “bestas ferozes (Eph. 7); lobos rapaces (Phil. 2,2); cães danados que atacam traiçoeiramente (Eph. 7); bestas com rosto de homens (Smyrn. 4,1); ervas do diabo (Eph. 10,1); plantas parasitas que o Pai não plantou (Tral. 11); plantas destinadas ao fogo eterno (Eph. 16,2)”.
Este modo de tratar os hereges, como se vê, seguia de perto os exemplos de São João Batista que aos escribas e fariseus chamava de “raça de víboras”, e de Nosso Senhor Jesus Cristo que aos mesmos apelidava de “hipócritas” e “sepulcros caiados”.
Assim também procederam os Apóstolos. Refere Santo Irineu, mártir do século segundo e discípulo de São Policarpo, o qual por sua vez fora discípulo de São João Evangelista, que certa vez indo o apóstolo aos banhos, retirou-se sem se lavar pois aí vira Corinto, herege que negava a divindade de Jesus Cristo, com receio, dizia, que o prédio viesse abaixo, pois nele se encontrava Corinto, inimigo da verdade. O mesmo São Policarpo, encontrando-se um dia com Marcião, herege docetista, e perguntando-lhe este se o conhecia, respondeu o santo: “Sem dúvida, és o primogênito de Satanás”.
Aliás, nisto se seguiam o conselho de São Paulo: “Ao herege, depois de uma e duas advertências, evita, pois que já é perverso e condena-se por si mesmo”(Tit. 3,10).
O mesmo São Policarpo se casualmente se encontrasse com herege, tapava os ouvidos e exclamava: “Deus de bondade, porque me conservaste na terra a fim de que eu suportasse tais coisas?” E fugia imediatamente para evitar semelhante companhia.
No século IV narra Santo Atanásio que Santo Antônio eremita chamava aos discursos dos hereges venenos piores do que o das serpentes.
E, em geral, este é o modo como os Santos Padres tratavam os hereges, como se pode ver de um artigo publicado na “Civiltà Cattolica”, periódico fundado por S. S. Pio IX, e confiado aos padres jesuítas de Roma. Nesse artigo citam-se vários exemplos que transcreverei:
Santo Tomás de Aquino, que apresentado às vezes como invariavelmente pacífico para com seus inimigos, numa das suas primeiras polêmicas com Guilherme de Santo Amor, que ainda não estava condenado pela Igreja, assim o trata e aos seus sequazes: “inimigos de Deus, ministros do diabo, membros do Anticristo, inimigos da salvação do gênero humano, difamadores, semeadores de blasfêmias, réprobos, perversos, ignorantes, iguais ao Faraó, piores que Joviniano e Vigilâncio (hereges que negavam a Virgindade de Nossa Senhora)”. São Boaventura a um seu contemporâneo Geraldo chamava: “protervo, caluniador, louco, envenenador, ignorante, embusteiro, malvado, insensato, pérfido”.
O melífluo São Bernardo, a respeito de Arnaldo de Brescia que levantou cisma contra o clero e os bens eclesiásticos disse: “desordenado, vagabundo, impostor, vaso de ignomínia, escorpião vomitado de Brescia, visto com horror em Roma, com abominação na Alemanha, desdenhado pelo Romano Pontífice, louvado pelo diabo, obrador deiniqüidades, devorador do povo, boca cheia de maldição, semeador de discórdias, fabricador de cismas, lobo feroz”.
Mais antigamente, São Gregório Magno, repreendendo a João, Bispo de Constantinopla, lança-lhe em rosto seu profano e nefando orgulho, sua soberba de Lúcifer, suas palavras néscias, sua vaidade, a escassez de sua inteligência.
Nem de outra maneira falaram os Santos Fulgêncio, Próspero, JerônimoSirício Papa, João Crisóstomo, AmbrósioGregório NazianzenoBasílio, Hilário, Atanásio, Alexandre, Bispo de Alexandria, os santos mártires Cornélio e CiprianoAntenagorasIrineuPolicarpo, Inácio Mártir, Clemente, todos os Padres enfim da Igreja que se distinguiram por sua heróica virtude.
Se se quiser saber quais as normas que dão os Doutores e Teólogos da Igreja para as polêmicas com os hereges leia-se o que traz São Francisco de Sales, o suave São Francisco de Sales, na Filotea, cap. XX da parte II: “Os inimigos declarados de Deus e da Igreja devem ser difamados tanto quanto se possa (desde que não se falte à verdade), sendo obra de caridade gritar: Eis o lobo!, quando está entre o rebanho, ou em qualquer lugar onde seja encontrado.”
Até aqui citações do artigo da “Civiltà Cattolica”, vol, I, ser. V, pag. 27).
Se o “Legionário” publicasse contra os modernos inimigos da Igreja apenas a metade do que ficou dito, que protestos entretanto teria de ouvir!

Pela fé somente?


Caríssimos, venho aqui expor uma doutrina relativamente complicada, mas essencial para a vivência cristã. Tentarei ser o mais breve possível, de modo a mostrar por que nós católicos consideramos a doutrina da justificação pela fé somente como uma heresia que, no fundo, nega-nos a filiação e amizade divina.
Será apresentado em pontos: a) pelo batismo, a Trindade habita em nós, sendo tal habitação atribuída à Pessoa do Espírito Santo; b) a habitação nos faz filhos adotivos de Deus e partícipes de sua divindade; c) tal graça inicial, imerecida, nos faz possível de méritos sobrenaturais; e d) justificação enquanto recebimento da graça santificante e santificação enquanto processo contínuo de desenvolvimento.

a) A habitação da Trindade atribuída ao Espírito Santo pelo Batismo

Nós sabemos que pelas Sagradas Escrituras, o Pai gera o Filho no Espírito Santo, conforme diz o Salmo 2,7: "Vou publicar o decreto do Senhor. Disse-me o Senhor: Tu és meu filho, eu hoje te gerei.". Nós não conseguimos entender o "hoje" expresso, já que pelo caráter de geração eterna, não nos entra na mente, senão em analogia de proporção da geração das coisas corpóreas. Sabemos também que essa geração é feita pelo amor, no qual o Pai põe toda sua afeição no Filho, como demonstra S. Lucas 3,22: "e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como uma pomba; e veio do céu uma voz: Tu és o meu Filho bem-amado; em ti ponho minha afeição." , e que o caráter desse amor é dar tudo que é do Pai ao Filho, conforme S. João 16, 15:  "Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse: Há de receber do que é meu, e vo-lo anunciará. " Daqui podemos entender então que o Pai gera o Filho no Espírito Santo, sendo a este atribuído o amor. 

Leiamos primeiramente tais versos: 

"Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um: eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que me enviaste e os amaste, como amaste a mim." (S. João 17, 21 ss)

Como a glória do Pai para o Filho é nos dada, então nós passamos a fazer parte, não por natureza, mas acidentalmente da geração do Filho pelo Pai no Espírito Santo. Tal glória é completamente superior a tudo que nós temos de natural, e, por isso, é analogicamente tomada como substância de nossa vida sobrenatural.  Se nós a perdêssemos, voltaríamos ao nada anterior, na miséria anterior. Quando a recebemos, nós passamos a ser chamados filhos de Deus e amigos de Deus. Tal como Jesus, ao instaurar o sacramento do batismo recebeu o Consolador, segundo a afeição do amor eterno do Pai no Espírito Santo, nós também recebemos tal amor, de uma maneira não igual ao Filho, mas semelhante.

b) A habitação da Trindade nos faz filhos adotivos de Deus e partícipes de sua divindade.

Somos partícipes de sua divindade, tal como diz na Santa Missa o Prefácio da Ascensão, “ut nos divinitatis suae tribueret esse participes”, segundo o que S. Paulo escreve aos Colossenses: "Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade. Tendes tudo plenamente nele, que é a cabeça de todo principado e potestade." (Colossenses 2, 9s).  

O Pai nos chama de filhos, não porque somos que nem o seu Filho gerado eternamente, que é Deus, tal como o Pai, mas porque nós passamos a dividir algo que é próprio do Pai. Quando nós fazemos uma escultura, não a chamamos de "filha", porque não transmitimos nada que nos é próprio de ser enquanto seres humanos, tal como fazemos com nossos filhos. Quando nós recebemos a presença do Espírito Santo pelo batismo, nós passamos a ser filhos, já que recebemos acidentalmente a sua divindade. Não nos tornamos Deus, mas como Deus. S. Agostinho já interpretava "Deus dos deuses", em sua Cidade de Deus, como Deus dos santos, já que por sua graça somos divinizados.

Mistério profundo é esse. A teologia católica firmou o nome de graça santificante o fundamento de tal divindade. Chamamo-la de habitual, pois reside em nós como um hábito. É estática, porque de tão superior a tudo, abre-nos à vida espiritual, que antes, pelo pecado original, era-nos negada. Com o batismo recebemos a graça santificante, as virtudes infusas (morais e teologais), e os dons do Espírito Santo.

c) Os méritos sobrenaturais são possíveis mediante a graça santificante

Como somos divinizados pelo batismo, na presença do Espírito Santo, nós passamos a ser passíveis de méritos. Tais méritos não são iguais aos méritos naturais, porque a existência de tal fé depende da misericórdia divina, e não de ações humanas naturais, conforme diz S. Paulo: "Porque é gratuitamente que fostes salvos mediante a fé. Isto não provém de vossos méritos, mas é puro dom de Deus." (Éfesos 2, 8). Mas passamos a ter méritos sobrenaturais, fundamentados na graça, conforme diz S. Pedro: "Que mérito teria alguém se suportasse pacientemente os açoites por ter praticado o mal? Ao contrário, se é por ter feito o bem que sois maltratados, e se o suportardes pacientemente, isto é coisa agradável aos olhos de Deus." (1 Pedro 2,20).

Nosso mérito enquanto cristão é um mérito de amor, tal como o da Trindade. O Pai dá tudo ao Filho, e aquele ama este. Mas o Filho também ama o Pai, em eterna gratidão. Ama o Pai até quando o sofrimento enquanto homem é vindouro e certo, tal como ocorre quando pede para afastar-lhe, se possível, o cálice. Quando nós agimos meritoriamente, direcionados pela virtude teologal da caridade, com auxílio das graças atuais que Deus nos dá, nós estamos amando-o livremente de volta, pelo qual passa a nos amar ainda com mais intensidade, mandando-nos mais graças atuais. Não é que nós merecemos algo daquele que é superior a nós enquanto humanos, mas enquanto amigos, enquanto amados. 

Tal é o fundamento porque nós consideramos o calvinismo uma heresia. Ela nega a possibilidade de sermos amigos e filhos de Deus, que amam livremente. Eis a Confissão de Westminster, na sessão sobre a Justificação: "Os que Deus chama eficazmente, também livremente justifica. Esta justificação não consiste em Deus infundir neles a justiça, mas em perdoar os seus pecados e em considerar e aceitar as suas pessoas como justas.". São perdoados os pecados e são aceitas como justas. Mas não amigos de Deus, não livres amantes de Deus.

Em sua noção de santificação, é ainda pior: "Os que são eficazmente chamados e regenerados, tendo criado em si um novo coração e um novo espírito, são além disso santificados real e pessoalmente, pela virtude da morte e ressurreição de Cristo, pela sua palavra e pelo seu Espírito, que neles habita; o domínio do corpo do pecado é neles todo destruído, as suas várias concupiscências são mais é mais enfraquecidas e mortificadas, e eles são mais e mais vivificados e fortalecidos em todas as graças salvadores, para a prática da verdadeira santidade, sem a qual ninguém verá a Deus." 

Perceba que no crescimento na santificação não há fundamento nenhum no amor de Cristo, no qual é meritório exatamente por Deus nos ter dado a sua divindade. É absolutamente necessário para qualquer mérito sobrenatural termos a sustentação na graça santificante. Ora, então não recebemos a graça pelas obras, mas a graça santificante diretamente de Deus, sendo ele o fundamento, o sustentáculo de toda nossa vida espiritual. 

Somos mantidos na graça santificante por graças atuais que recebemos decorrentes desses méritos. Por isso elas são importantes. O justo não vive só da fé, mas necessita de fé e obras, senão tal fé será morta, ou seja, será travada, estagnada no seu crescimento espiritual, a qual irá invariavelmente levar à perda da graça justificante por algum pecado mortal. Se não agimos em amizade com Deus, ele nos retira a graça eficaz que nos mantém em estado de graça. Podemos pecar mortalmente porque Deus quer ser amado em realidade, e tal só é possível em liberdade. E só em liberdade podemos ter méritos. Se a manutenção da graça fosse uma determinação absoluta, não sustentada na liberdade, jamais poderíamos ser tomados como divinos. 

d) Justificados por receber a graça santificante, santificados ao desenvolver tal graça

Nós somos justificados ao receber a graça santificante, mas no início de nosso vida espiritual ela é ainda pouca enraizada. Como é um acidente, já que não altera a nossa substância, possui caráter de qualidade, que não pode ser aumentada em nível, mas em enraizamento. A santificação seria tornar aquilo que recebemos como parte de nossa pele em nossos ossos.

A santificação envolveria também a remoção de nossas imperfeições, seja por via de atos naturais pelas virtudes infusas (via ascética), seja pelos dons do Espírito Santo, por atos sobrenaturais (via mística). Ora, nós sabemos que a via mística se dá quando as moções do Espírito Santo são mais frequentes que os da vida ascética. Tal é completamente impossível com os reformados, já que a noite escura do espírito, situação essencial de uma purgação negativa das imperfeições mais profunda, é impossível.

Segundo a Confissão de Westminster, "os que verdadeiramente creem no Senhor Jesus e o amam com sinceridade, procurando andar diante dele em toda a boa consciência, podem, nesta vida, certificar-se de se acharem em estado de graça e podem regozijar-se na esperança da glória de Deus, nessa esperança que nunca os envergonhará.". 

Ora, tal situação evidentemente impede que haja a noite escura da alma, que é necessária para uma purgação sutil dos defeitos menores. Se não se ama a Deus até mesmo com a condenação do mundo e de si próprio, em sinceridade, não se pode chegar à santificação mais perfeita, de modo que a graça santificante possa agir sem entraves. Fica evidente tal fato por não haver santos de grande renome entre os reformados, sendo sinal de sua falta de catolicidade. Como poderia o Espírito Santo mover seus dons, se uma soberba espiritual trava-lhe o crescimento, por razão de um entendimento teológico herético e perigoso para a salvação?

Nós declaramos que a doutrina de justificação pela fé somente é considerada heresia por misericórdia a nossos irmãos separados, para que sejam mais perfeitos e possam atingir mais plenamente a santificação. Nós desejamos que sejam plenamente protestantes, como diz Peter Kreeft, e isso só é possível sendo inteiramente católicos.

Por isso só se pode manter-se justo por fé e obras, pois só se é justo buscando-se ser  cada vez mais santo, para melhor nos doarmos em amor a Deus, em cujos bens vivemos a plenitude.