Seria a Igreja Ortodoxa anterior à Igreja Católica?
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Resposta de um blog Católico americano sobre um e-mail de um cristão ortodoxo que dizia:
Resposta de um blog Católico americano sobre um e-mail de um cristão ortodoxo que dizia:
Além disso, você fala da Igreja Ortodoxa
como “quase tão antiga quanto a Igreja Católica.” Uma vez que a Cristandade
começou no Oriente, e os patriarcados de Jerusalém, Antioquia, e Alexandria
foram estabelecidos antes de Roma (o apóstolo Pedro até mesmo serviu, segundo
algumas fontes, como bispo auxiliar em Antioquia) e já que estes patriarcados defendiam
as visões teológicas de Constantinopla nas contendas que surgiram entre a Nova
e a Antiga Roma, não seria simplesmente mais justo ver a Igreja Ortodoxa como a
mais antiga? [...] E como o cisma dos
pré-calcedonianos antecede o cisma entre os quatro antigos Patriarcados e a Sé
de Roma, tecnicamente não seriam também eles [pré-calcedonianos] mais antigos que a Igreja Romana?
Embora
seja na Igreja de Jerusalém que o Cristianismo começou, aquela igreja (uma
igreja judaico-cristã) deixou de existir entre 70 d.C. e 130 d.C. Depois de 130
d.C., todos os judeus (inclusive judeus cristãos) foram proibidos de entrar na
cidade de Jerusalém, que foi renomeada como Élia Capitolina pelo Império
Romano. Neste tempo, a Igreja de Jerusalém consistia em um corpo simbólico de
cristãos gentios, que estava submetido à Sé metropolitana de Cesareia. Foi só no
tempo de Constantino (dois séculos depois) que, novamente, foi dado a Jerusalém
um lugar de importância honorífica. Entretanto, isso se deu por ser aquele um
lugar de peregrinação. O reconhecimento como Patriarcado só aconteceu no
Concílio da Calcedônia (451 d.C.), mas ela continuou sob a autoridade do
metropolitano de Cesareia, que por sua vez respondia ao Patriarca de Antioquia.
É por isto que o Concílio de Niceia (325 d.C.) declarou, no Cânon 7:
“Já que mandam o costume e a antiga Tradição
que o Bispo de Élia (i.e., Jerusalém) seja honrado, que ele tenha a sucessão de
honra, no entanto SEM o direito interno da metrópole (i.e., Cesareia).”
Isto
está de acordo com o Cânone anterior (Cânone 6), que define os direitos
patriarcais de Alexandria e Antioquia BASEANDO-SE no reconhecimento destes
direitos pelo Bispo de Roma. Diz o Cânone 6:
“Prevaleçam os antigos costumes de que, no
Egito, Líbia, e Pentápolis, o Bispo de Alexandria
tenha jurisdição sobre todas estas, já
que este também é o costume do Bispo de Roma. Igualmente, na Antioquia e nas outras províncias, que
as igrejas retenham seus privilégios.” (Concílio de Niceia, Cânone 6)
Então,
a autoridade patriarcal de Jerusalém é uma invenção do Concílio da Calcedônia.
Não existia antes de 451.
O
mesmo vale para a chamada autoridade patriarcal de Constantinopla. Apesar de
lendas medievais, oriundas do Estado (e que não possuem nenhuma base
histórica), Bizâncio não tinha nenhuma ligação com André ou qualquer Apóstolo,
mas na verdade era uma igreja menor sob a jurisdição da Sé metropolitana de Hercúlea,
na Trácia, que por sua vez era diretamente submetida a Roma. Foi com o I
Concílio de Constantinopla que primeiramente tentou-se dar a autoridade
patriarcal a Bizâncio (somente por ser a cidade imperial). Todavia, tanto Roma
quanto Alexandria rejeitaram este decreto, e ele foi retirado. De acordo com a
Tradição Apostólica, Roma tinha a primazia na Igreja universal, e Alexandria
era a segunda após ela, esta última tendo a primazia no Oriente. Isto é
afirmado por todos os padres que abordam o assunto, e mais claramente pelo Papa
São Dâmaso I, que expediu o seguinte decreto em 382 – a fim de defender a
posição de Alexandria como primaz no Oriente, que fora usurpada pelos
bizantinos no Concílio de Constantinopla no ano anterior.
“Embora todas as igrejas católicas espalhadas
pelo mundo formam uma só câmara nupcial do Cristo, não obstante, a santa Igreja
romana foi colocada à frente não por
decisões conciliares das igrejas, mas recebeu o seu primado pela voz evangélica
de nosso Senhor e Salvador, o Qual diz: “Tu és Pedro...” (Mat 16:18-19).
Além disto, tem também dentre sua companhia na barca dos eleitos, o beatíssimo
Apóstolo Paulo que, junto com Pedro na cidade de Roma no tempo do César Nero,
igualmente consagrou a sobredita santa Igreja Romana a Cristo Senhor; e por sua
própria presença e por seu venerável triunfo, eles colocaram-na à frente de
todas as outras de todas as cidades do mundo. A primeira Sé, portanto, é aquela do Apóstolo Pedro, a Igreja de
Roma, que não tem mancha ou defeito, nem nada similar. A segunda Sé é a de
Alexandria, consagrada em nome do apóstolo Pedro por Marcos, seu discípulo e
Evangelista, o qual foi mandado ao Egito pelo Apóstolo Pedro, onde ele pregou a
Palavra da Verdade e consumou seu glorioso martírio. A terceira Sé é a de
Antioquia, a qual pertenceu ao beatíssimo Pedro, onde ele primeiro habitou
antes de ir a Roma, e onde o nome de “cristãos” foi primeiro usado, como a
um novo povo.” (Decreto de Dâmaso#3, 382 d.C.)
Essa é a antiga ordem – Roma, Alexandria e Antioquia, na ordem de
primazia e autoridade. Foi somente em 700 d.C. – depois que Alexandria e
Antioquia caíram nas mãos dos muçulmanos –, que Roma reconheceu o primado de
Constantinopla no Oriente. Antes disso, a reivindicação era consistentemente
negada, tanto por Roma quanto pelos outros patriarcas (embora Antioquia ocasionalmente
aceitasse). Nada é tão contundente para mostrar isto quanto a condenação do
Papa São Leão Magno ao Cânone 28 de Calcedônia, na qual diz:
“... nós também
ordenamos e decretamos o mesmo em relação aos privilégios da santíssima Igreja
de Constantinopla, a Nova Roma. Pois os Padres acertadamente garantiram
privilégios ao trono da antiga Roma, porque esta era a cidade real. E os cento
e cinquenta piíssimos Bispos deram iguais privilégios ao santíssimo trono da
Nova Roma, julgando justamente que a cidade é honrada pela Autoridade Soberana
e o Senado e goza de iguais privilégios como a antiga Roma imperial...” (Cânone
28, Calcedônia).
No entanto, o Papa Leão se recusou a concordar com este Cânone; e fazendo
uso de um tipo de “veto parcial”, excluiu-o dos documentos conciliares. Aqui, o
Bispo Anatólio de Constantinopla escreve ao Papa Leão, desculpando-se e
explicando como o cânone veio a ser, dizendo...
“Quanto àquilo que o
Concílio Ecumênico da Calcedônia recentemente ordenou em favor da igreja de Constantinopla,
Sua Santidade esteja assegurada de que não tive culpa nisso, eu que desde a
minha juventude sempre amei a paz e a quietude, mantendo-me na humildade. Foi o
reverendíssimo clero da igreja de Constantinopla que estava ansioso por isto, e
eles eram igualmente amparados pelos reverendíssimos sacerdotes daquelas
partes, que concordavam com eles. Mesmo assim, toda a força de
confirmação dos atos foi reservada à autoridade de Sua Beatitude. Portanto, que
Sua Santidade tenha por certo de que eu não fiz nada que contribuísse no
assunto, sabendo sempre que eu deveria evitar os luxos do orgulho e da cobiça.” – Patriarca
Anatólio de Constantinopla ao Papa Leão, Ep 132 (sobre o Cânone 28 de
Calcedônia).
Deste modo, o assunto estava encerrado; e, pelos próximos seis séculos,
todas as Igrejas do Oriente falavam somente em 27 cânones de Calcedônia – o 28º Cânone foi anulado e invalidado
pelo “veto parcial” de Roma. Isto é embasado por todos os historiadores gregos,
como Teodoro o Leitor (escreve em 551 d.C.), João Escolástico (escreve em 550 d.C.),
Dionísio Exíguo (também por volta de 550 d.C.); e por Papas como São Gelásio
(c. 495) e Símaco (c. 500) – todos os quais falam somente em 27 cânones da
Calcedônia.
Quanto à igreja de Antioquia, é
verdade que a comunidade gentia de Antioquia é mais antiga que a comunidade
gentia de Roma. Porém, a igreja de Roma em si (que começou como igreja judia) foi estabelecida por judeus
peregrinos que se converteram ao Cristianismo no dia de Pentecostes (ver Atos
2:9-10), e tinha ministros judeus que lhe pertenciam e que se converteram muito
antes de São Paulo (ver Romanos 16:7). Além disso, a primeira estadia de São
Pedro em Roma teve lugar entre 42 d.C. (quando ele fugiu da Judeia – Atos
12:17) e 49 d.C., quando o Imperador Cláudio expulsou todos os judeus de Roma
por causa de um tumulto acerca de alguém que o historiador romano Suetônio
chama de “Chrestus” – claro mal-entendido de “Christus” (“Cristo”). Foi por
isso que Pedro voltou a Jerusalém em Atos 15 para o Concílio de Jerusalém, que
ocorreu em 49 d.C. Foi somente DEPOIS do Concílio de Jerusalém (ver Gálatas 2)
que Pedro estabeleceu-se em Antioquia e tornou-se o primeiro Bispo de Antioquia
(ele não era algum tipo de bispo “auxiliar”, como foi dito acima). Porém, uma
vez que os judeus são readmitidos em Roma, Pedro volta para lá, e é aqui que
ele e São Paulo confrontam o arqui-herege Simão o Mago, e onde eles juntos
constroem a Igreja de Roma, síntese da igreja judia com a igreja gentia, e onde
eles terminaram suas vidas como mártires. No entanto, só Pedro era a autoridade
primacial ali – isto é, o bispo de Roma de
facto. Assim, seu episcopado em Roma foi mais longo do que (e anterior) ao
seu episcopado em Antioquia. Todos os Padres (Hipólito, Eusébio, Jerônimo, etc)
o dizem. E, como diz Dâmaso acima, é daqui que os três originais patriarcados
(Apostólicos) provêm. Por volta de 60 d.C., Pedro deixa Antioquia e volta para
Roma. Fazendo isto, ele deixa seu discípulo Santo Evódio na Sé de Antioquia.
Santo Evódio foi sucedido por Santo Inácio de Antioquia. Então, enquanto em
Roma, Pedro enviou seu maior discípulo São Marcos para Alexandria, para ser o
primeiro bispo (e seu próprio “legado”) lá. Ao fazer isto, Pedro, em essência,
“triangula” o mundo conhecido. Sua própria Sé de Roma tinha a primazia e era a
corte final de apelação, ao passo que administrava a Europa (e o Norte da
África) diretamente. Alexandria teria o segundo lugar e o primado no Oriente,
enquanto administraria a África Oriental, a Etiópia, a Arábia, e parte da atual
Palestina. Antioquia, por fim, teria o terceiro lugar depois de Alexandria, e
administraria diretamente a Ásia e o Oriente mais longínquo. Todavia, toda a
relação dependia do quão eficientemente uma mensagem poderia ser mandada de
Roma para o Oriente; isto porque, como pode ser facilmente visto num mapa
romano, o caminho mais rápido de despachar uma mensagem para o Oriente era
mandando-a de barco de Roma para Alexandria, e de Alexandria para a costa da Palestina
até Antioquia. Este era o arranjo original, e como a Igreja primitiva operava.
Os bizantinos perturbaram esta ordem original tentando equiparar a autoridade eclesiástica
com a autoridade imperial.
Aqui, deve-se lembrar do fato de que a
Cristandade bizantina não é a quintessência da Cristandade Oriental. Na Igreja
Ortodoxa, não há representação da tradição copta, ou siríaca, ou maronita
(libanesa), ou etíope, ou malankar (índia), ou armênia, ou caldeia (persa). A
Igreja Católica, no entanto, possui todas estas tradições, bem como as tradições
bizantina e antioquena, junto com as do Ocidente (romana e gálica). Além do
mais, a presente teologia Ortodoxa nem sequer representa a totalidade da
Cristandade grega, mas subordina a tradição greco-alexandrina à antioquena e à
greco-capadócia. Se você aceitasse a sua herança alexandrina, não teria
problema com a teologia do Filioque (propriamente dita). Logo, em suma, sua
Ortodoxia não fala pelo Oriente inteiro, mas tão somente pela tradição antioquena-bizantina
– isto é, uma parte do Oriente. E
essa parte do Oriente pela qual você fala não é tão antiga quanto a herança
apostólica de Roma.
>>>>>>E já que os Armênios também romperam a
comunhão com a Igreja (com isso eu quero dizer a antiga grande Igreja) antes da
separação de Roma, não seriam eles também mais antigos?
É verdade que, depois de 1054, Roma
(e o resto da Europa Ocidental) deixaram de fazer parte do legado cultural do
Império Bizantino, que era o herdeiro cultural direto do Império Romano. Porém,
isto tem pouco, quase nada, a ver com a herança cristã e a Tradição Apostólica
de Roma, que não depende das inovações de Constantino no século IV ou de seu
estabelecimento de um Império cristão, mas antecede consideravelmente esta
construção. Foi Bizâncio que rompeu com Roma, e não o contrário. Foi Fócio e
seus planos imperiais que fizeram com que os bizantinos ignorassem e
distorcessem seu prévio reconhecimento do primado romano, etc. Tente o quanto
quiser, é simplesmente impossível reconciliar sua visão moderna, “Fócia”, com
aquela dos padres bizantinos mais antigos como São Máximo Confessor, Teodoro Estudita,
e outros que eram claramente “papistas” e que reconheciam a completa e total
ortodoxia de Roma (ex. Filioque,
etc.)
Aparentemente,
Tertuliano serviu como sacerdote lá, e Jerônimo também visitou e serviu o Papa
de Roma; mas o primeiro era originalmente de Cartago, onde ele também morreu; e
o segundo era um monge de Belém, sob a jurisdição de Élia (Jerusalém) e
Cesareia.
Como foi dito acima, Tertuliano tornou-se
um herege montanista, e então rejeitou TODA autoridade episcopal. Então, não
seria surpreendente que ele não defendesse o primado de Roma. No entanto, ele
ainda testemunha para todos o primado Romano, através de seus protestos
montanistas. Se o primado de Roma não fosse reconhecido, por que Tertuliano
escarneceria do Papa Calisto chamando-o de “Pontifex
Maximus” (isto é, a cabeça da religião estatal romana) e de “bispo dos
bispos”? Além disso, por que eu e você podemos, hoje, receber o Sacramento da
Confissão repetidamente, se Roma não tem a reconhecida autoridade de “ligar e
desligar”?
Quanto
a São Jerônimo, ele não estava sob a autoridade de Élia (Jerusalém), mas sim de
Cesareia, que era o metropolitano para a atual Palestina. Cesareia respondia ao
Patriarca de Antioquia, que por sua vez reconhecia o primado de Roma. No
entanto, nos tempos de Jerônimo, o patriarcado de Antioquia estava dividido
pelo cisma interno entre dois aspirantes a Patriarca. Jerônimo não tinha
certeza a qual deveria se submeter. Então, ele escreveu o seguinte ao Papa São
Dâmaso, em Roma:
“Já que o Oriente, estilhaçado como está
pelas longas contendas entre seu povo, está aos poucos rasgando em pedaços a
veste inconsútil do Senhor, ‘tecida de cima a baixo’, já que as raposas estão
destruindo a vinha de Cristo, e já que entre vasos rachados que não guardam
água alguma está difícil encontrar ‘a fonte selada’ e ‘o jardim fechado’, acredito que seja meu dever consultar a
Cátedra de Pedro, e voltar-me à igreja cuja Fé fora enaltecida por Paulo. [...] Minhas
palavras são dirigidas ao sucessor do Pescador, ao discípulo do Crucificado. Assim
como eu não sigo nenhum líder além de Cristo, assim eu não comungo com ninguém
além de Sua Beatitude, que se assenta na Sé de Pedro. Pois eu sei que esta é a
Pedra sobre a qual a Igreja foi construída! Esta é a casa onde só o Cordeiro
Pascal pode ser corretamente comido. Esta é a Arca de Noé, e aquele que não se
encontra nela vai perecer quando o dilúvio vier.” (Jerônimo, Epístola 15 –
dirigida ao Papa Dâmaso I, c. 375 d.C.)
Nosso amigo ortodoxo continua:
>>>>>>Além
disso, Cipriano de Cartago brigou com o Papa Estevão de Roma. Cipriano foi
apoiado por toda a Ásia Menor, toda a África, toda a Grécia, toda a Arábia, e
em geral todo lugar fora da diocese de Roma (embora ele também encontrasse
apoio ali). O Papa Estevão, por sua vez, ameaçou essas igrejas com a
excomunhão. Firmiliano de Cesareia, porém, passou a frente dele e o excomungou em
favor de toda a Igreja. Cipriano foi martirizado, como você sabe, mas não
estava em comunhão com Roma no momento.
É verdade que Cipriano teve um conflito
amargo com o Papa Estevão sobre a questão do Batismo dos hereges – isto é, se
os hereges que procuravam a comunhão com a Igreja Católica precisavam ser rebatizados
ou não. Cipriano dizia que sim; Estevão dizia que não. Mais que isso, Estevão
ensinava que havia “um só Batismo para a remissão dos pecados”; assim como a
posição de Estevão (isto é, de Roma) fora adotada pelos padres
niceno-constantinopolitanos no Credo! É a isso que esta afirmação do Símbolo de
Fé se refere.
Entretanto, embora Cipriano acreditasse que
o Papa Estevão estava errado, ele nunca
excomungou o Papa Estevão, nem
o bispo Firmiliano de Cesareia, na Capadócia. Durante toda a controvérsia, a
posição de Cipriano era a de que todos os bispos eram livres para discordar
neste ponto. Então, para Cipriano, o desacordo era sobre a soberania local de
cada bispo. Em outras palavras, Cipriano via isso como um problema de oikonomia
(literalmente, “administração da casa”) e disciplina local, e não como assunto
formal da doutrina. É por isso que ele estava tão transtornado com as
delcarações do Papa Estevão de que quem rebatizasse seria condenado. Porém,
novamente, Cipriano NUNCA chamou Estevão de herege, e NUNCA rompe a comunhão
com Roma. Ele apenas acreditava que Roma estava sendo injusta neste ponto, e
que o Papa Estevão estava se intrometendo nos direitos próprios de Cipriano
como bispo.
Quanto aos apoiadores de Cipriano, nem entre
os bispos africanos ele tinha completo apoio. Na verdade, os bispos da
Mauritânia que participaram do Concílio de Cartago seguiam o mesmo costume de Roma
e não rebatizavam os hereges. É por isso que o concílio formalmente diz que os
bispos são “livres para discordar” nesta matéria. E não só isso. Na conclusão
do Concílio de Cartago, Cipriano manda legados ao Papa Estevão em Roma,
pedindo-lhe para ratificar a
decisão Africana. Por que faria isso se ele e seus colegas Africanos não
reconheciam a autoridade romana? O Papa Estevão, no entanto, em um ato
admitidamente pouco caridoso, recusou-se a receber a delegação africana. E é
por ISSO que Cipriano voltou-se ao Oriente, tentando encontrar algum apoio ali.
No entanto, Cipriano não conseguiu encontrar
ninguém no Oriente para apoia-lo, isto é, além de Firmiliano na Capadócia. Os
dois patriarcados orientais de Alexandria e Antioquia ficaram do lado de Roma!
Nós sabemos com certeza que Alexandria (na pessoa de São Dionísio) aceitou a
ordem romana, pois, um ano depois da morte do Papa Estevão, o Patriarca
Dionísio de Alexandria mandou uma carta para o seu sucessor, o Papa Sixto II,
pedindo-lhe sua decisão acerca do caso de um egípcio, que era formalmente um
herege, mas que procurara a comunhão com a Igreja, e que pedia para ser
rebatizado porque acreditava que o batismo dos hereges não fora feito
corretamente. Dionísio perguntou a Sixto se seria correto rebatizar este homem.
Então, Firmiliano na Capadócia era o único
bispo oriental que tomou o partido de Cipriano contra o Papa Estevão. E ambos Cipriano e Firmiliano
estavam errados! Depois os bispos de Cartago não mais rebatizaram hereges, e
São Basílio Magno, sucessor de Firmiliano na Cesareia de Capadócia, também não
rebatizou os hereges.
Quanto a Cipriano e Firmiliano, nenhum deles
negou o primado de Roma. Por exemplo, mesmo criticando o Papa Estevão,
Firmiliano escreveu:
“Mas quão grande é seu erro [do Papa
Estevão], quão grande a sua cegueira, que diz que a remissão dos pecados
pode ser conseguida nas sinagogas dos hereges, não perpetuando assim a fundação da única Igreja, que fora
primeiramente estabelecida por Cristo sobre a Pedra [...] E aqui,
sobre este assunto, estou justamente
indignado com esta insensatez aberta e manifesta de Estevão, logo ele que se
orgulha tanto de seu lugar entre o episcopado, e sustenta que ele guarda a
sucessão de Pedro, sobre quem as fundações da Igreja foram colocadas,
introduz muitas outras pedras (os hereges), e constrói o novo prédio de muitas
igrejas, ao manter por sua própria
autoridade ele que há Batismo entre eles. Estevão, que se proclama ocupante da
sucessão da Cátedra de Pedro, não é movido pelo zelo contra os
hereges.” (Epístola de Firmiliano a São Cipriano, LXXV)
Em suma, Firmiliano não discute a dignidade
que Estevão possui. Ele somente pensa que Estevão pessoalmente é indigno dela.
Quanto a Cipriano, claramente também era um “papista”. Muito antes do conflito
com Estevão, Cipriano escreveu o seguinte ao Papa Cornélio, em Roma:
“Com
falsos bispos nomeados para si, eles (hereges novacianos) ousam mesmo viajar e
levar suas cartas de cismáticos e blasfemos à Sé de Pedro e à principal igreja, na qual a unidade
sacerdotal tem a sua origem; eles também não se lembram de que estes
são Romanos, aqueles cuja fé fora enaltecida pelo Apóstolo, e a quem a fé herética não pode atingir.”
(Cyp. ad Cornelius).
Para Cipriano, a Igreja de Roma era a
“principal igreja” e a FONTE de unidade entre os bispos. Ele tinha como
primacial a “Sé de Pedro” – porque seu bispo sucedia o próprio Pedro. De fato, em
outros momentos, Cipriano chama Roma de “útero e a raiz da Igreja Católica”, e
mesmo durante seu conflito com Estevão, Cipriano nunca abandonou esta visão.
Por exemplo, na época da contenda, Cipriano mandou um informe a Estevão,
dizendo-lhe que o bispo Marciano de Arles juntara-se ao partido do antipapa
Novaciano. O Papa certamente já havia sido informado disso pelo bispo Faustino
de Lyon e por outros bispos da Gália. Ainda assim, Cipriano (mesmo claramente
não sendo nenhum fã de Estevão a essa altura) avisa o Papa, dizendo:
“Você deveria mandar muitas cartas
íntegras aos nossos irmãos bispos da Gália, não permitindo mais que o obstinado
e orgulhoso Marciano insulte nossa sociedade. [...] Portanto mande
cartas à província e ao povo de Arles, para que, excomungando Marciano, outro possa ser colocado em seu lugar [...],
pois todo o copioso episcopado é unido pela cola da concórdia mútua e pelo laço
da unidade, para que se algum de nossos
irmãos ameace cair em heresia e assim lacerar e devastar o rebanho de
Cristo, os outros possam prestar socorro [...] Pois embora haja muitos
pastores, todos alimentamos um só rebanho.” (Cipriano, Ep. LXVIII)
Aqui, Cipriano está explicando ao
Papa porque ele tomou a liberdade de interferir, e ele atribui ao
Papa o poder de depor Marciano e ordenar uma nova eleição. Então,
Cipriano NUNCA acreditou que Roma carecia de autoridade primacial ou que ele
estivesse fora da comunhão com Roma.
>>>>>>O
outro Africano, Agostinho, também não estava em comunhão com Roma quando
morreu. Nem Tertuliano (embora se possa argumentar que ele era um herege, de
qualquer forma).
Você está dizendo que Santo Agostinho de
Hipona não estava em comunhão com Roma quando morreu? Me desculpe, Sr. Lawhorn,
mas esta é uma afirmação ridícula, e você não tem absolutamente nenhuma razão
para fazê-la. Você deve estar se referindo ao conflito de Agostinho com o Papa
Zózimo, que ordenou a reabertura do caso contra Pelágio (inimigo de Agostinho)
depois que o Papa Inocêncio condenara o pelagianismo. Porém, Zózimo também
terminou condenando o pelagianismo. E ao passo que Agostinho claramente não
estava satisfeito com Zózimo rever o caso, ele e seus irmãos africanos nunca romperam
a comunhão com Roma por isso. Além disso, o Papa Zózimo morreu em 418 d.C., e
Agostinho morreu em 430 d.C., 12 anos depois, e MUITO depois que a controvérsia
já estava resolvida.
>>>>>>>E
como a maioria dos primeiros Padres da Igreja escreveu em Grego e eram ou da
Europa Oriental, ou da Ásia, ou da África, a Igreja Ortodoxa – que também
considera estes Padres como santos, e descendentes diretos de si, e possui uma
teologia idêntica à deles – parece ser a mais velha entre as duas [Igrejas].
Bem, como eu ilustrei acima, “aparências”
podem enganar. Você não está vendo a história completa, nem avalia maduramente
sua própria herança bizantina, que não representa integralmente a tradição
Grega.
>>>>>>Quero
dizer, sua teologia não é idêntica àquela dos Padres do Oriente ou mesmo dos
primeiros Padres de sua próprio localidade, e parece mais ser um produto da
Ortodoxia revisada e expandida por inovações.
É verdade que a Igreja do Ocidente usa algumas construções teológicas
que não eram usadas pelos Padres de língua grega. Mas, e daí? Os Padres de
língua grega baseavam sua linguagem filosófica na de Platão – um pagão. A
Igreja do Ocidente (depois do Cisma) começou a pegar emprestada a linguagem
filosófica de Aristóteles – outro pagão. É por isso que as Igrejas do Oriente e
do Ocidente tem sido incapazes de comunicar-se entre si por tanto tempo. No
entanto, não é a linguagem teológica que é importante, mas o conteúdo por detrás dela. E o conteúdo da Teologia
Católica é completamente Apostólico. As “inovações” que você percebe são na
forma, e não no conteúdo.
>>>Acredito
que escrever qualquer coisa em defesa da idade dos Coptas e dos Armênios é
injustificável, já que a Igreja Ortodoxa os antecede de qualquer modo.
Existem cristãos no
Egito e na Armênia muito antes de Bizâncio. Além disso, como eu disse acima,
nós católicos temos Coptas e Armênios em comunhão conosco. É atualmente uma
Igreja composta de gregos aqueus, gregos antioquenos, e eslavos. O resto do
Oriente está fora da nossa comunhão, mas está representado na Unidade Católica.
Fonte: Catholicism Pure & Simple
Carta do Cardeal Siri na Páscoa de 1972
CARTA DE S.E. CARDEAL ARCEBISPO
Arcebispado de Gênova
Páscoa
Para os RR. Professores de Liturgia e Rubricas,
bem como aos professores de Canto de nossos Seminários
e também aos outros Superiores e Professores
2 de Abril 1972
+ Giuseppe Card. Siri
Tradução por Paulo Sério Vieira.
Arcebispado de Gênova
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| Cardeal Siri |
Páscoa
Para os RR. Professores de Liturgia e Rubricas,
bem como aos professores de Canto de nossos Seminários
e também aos outros Superiores e Professores
OBJETIVO DESTA CARTA
Deve-se observar que no mundo criou-se uma onda coletiva de esvaziamento [do belo]. Às vezes falamos de simplificação, mas este termo não corresponde à realidade. Atingiu-nos, como geralmente ocorre nos movimentos humanos, com uma infiltração no senso comum. Esta onda de esvaziamento também atingiu os Seminários e já há jovens que julgam que os símbolos externos da Igreja em sua Liturgia são supérfluos, inúteis e enfadonhos. Este juízo em que estou fazendo minhas observações é certamente prejudicial para a vida espiritual daqueles que acolho e convivo, porque muitos criticam o que não está sob sua competência.
Os atos de orgulho sempre são ruinosos para a reta maturação dos jovens.
Chegamos ao «fato», ou seja, a Igreja faz uso de variados elementos externos. O vento que sopra contra estes elementos, que pode ter justificação em poucas situações, é certamente um vento de protestantização, que fundamentam as mesmas razões que um dia apoiaram as nações e povos católicos quando abandonaram a primitiva Fé. Esta presente carta destina-se a estabelecer a verdade acerca dos «elementos externos e simbólicos» da Tradição Apostólica e Eclesiástica.
A RESPOSTA DO ANTIGO TESTAMENTO
Da antiga Aliança não sobreviveram certas regras rituais. Isto é bem conhecido. Sobrevive, porém, as regras e diretrizes «morais». Essas, como afirmou o Cristo no Sermão do Monte, permanecem intactas e por Ele concluídas.
A solenidade do culto do Senhor, o respeito que deve ser demonstrado nos gestos e nas coisas, a distinção que é necessária para os ministros sagrados, não são simplesmente leis rituais, mas regras morais. Para provar-lhes: no Êxodo cap. XII e nos capítulos XXV-XXX; Levítico caps. VIII-IX; Números caps. VII-VIII e o discurso legislativo proferido por Moisés é relatado em Deuteronômio.
Tudo isso é reiterado e reforçado pelas revelações feitas por Deus a Davi e a seu filho Salomão, sobre o grande Templo de Jerusalém (II Sm VII; Reis III, 10 segs.; V, 15 segs. VI; VII, 13 segs.; VIII; IX, 1-9, etc.).
Não é difícil entender a íntima razão das disposições e consentimentos divinos favoráveis aos elementos externos: eles tiveram que «simbolizar», ou seja, foram usados às pessoas como verdades sacrossantas com a sujeição a Deus, com o respeito pelas coisas de Deus, etc. Todos servindo, além da razão prática imediata, como função de «sinal».
A RESPOSTA DO NOVO TESTAMENTO
Cristo instituiu os sete sacramentos (Concílio de Trento., Dz. 1.601). Ora, os sacramentos são constituídos de «sinais» sensíveis. O Salvador quis que cada fato sobrenatural interno fosse notificado ao exterior pelos elementos sensíveis. Ele aceitou e aplicou tal princípio. Os três [Evangelhos] Sinóticos nos dão à instituição da Eucaristia e do Sacrifício Eucarístico (Concílio de Trento. Dz. 1751 segs), nos quais evidentemente ocorrem elementos externos, aplicando o princípio dito acima.
O próprio Salvador enquanto pobre nunca rejeitou as honras externas que Lhe foram concedidas, principalmente na casa de seus amigos, antes disso, elogiou-os (Mt XXVI, 6 segs, Mc XIV, 3 segs, etc.). Para a instituição da Eucaristia quis um lugar confortável e espaçoso, bonito, todo coberto com tapetes e almofadas (Mc XIV, 15). Entregaram-lhe um túmulo novo e ilustre; foi circundado de prodigiosas maravilhas quando da primeira descida do Espírito Santo. Estes fenômenos duraram toda a era Apostólica.
Também no Novo Testamento Deus deu um lugar de destaque à essência humana, «ou seja», para ajudar o homem material a ver as realidades sobrenaturais, invisíveis aos olhos humanos.
O Evangelho não nos deixou realmente uma lei de «esvaziamento» e de «desnuda miséria».
A NECESSIDADE PERMANENTE E IMEDIATA DO «SINAL»
Somos obrigados por disposição de natureza a atingir a realidade externa à nossa inteligência através dos sentidos, isto é, através das coisas matérias que, somente, se apreende pelos sentidos. Trata-se de um direito que não se derroga.
A conseqüência é clara: tudo o que se quer atingir pelo intelecto (que significa, consciência, raciocínio, etc) deve ser expresso com elementos materiais. A palavra não é o meio primário.
Isto é: as coisas que não podem ser apreendidas imediatamente pela alma inteligente, de forma a manter em sua danosa escuridão, devem ser «entendidas» através de elementos sensíveis, materiais. Além de qualquer abstracionismo, velho e interdito, esta é a realidade com a qual aqueles que ainda pensam devem considerar.
A Igreja traz consigo grandes coisas, que são por si objetos da alma e de sua inteligência. Toda a realidade do Reino de Deus, todo seu tesouro (Mt. XIII), todo o fato da Encarnação e Redenção, por si só preferidos e pertencentes como elementos implementados nos acontecimentos humanos, assim como o passado mesmo que divinamente presente, o sacramento do Sacrifício, os sacramentais: eis o que se deve fazer presente aos sentidos primeiro que ao intelecto.
Ainda há mais. Há uma Hierarquia. Esta é, por vontade divina, necessária para a Igreja e a salvação da alma. Ela se constitui em Jurisdição e Ordem. Os poderes que o Salvador entregou a esta dupla Hierarquia são incompreensíveis. Para a Hierarquia de Jurisdição (Papa e Bispos) há um poder de magistério que é autêntico, isto é, feito em nome de Cristo e sob certas condições infalíveis: por isso a verdade está ligada à condição da realidade terrestre. Por isto o Magistério se faz audível, e seus valores e a sua comunhão com a ação divina não podem ser visíveis. Se a Hierarquia têm poder de jurisdição, logo pode legislar e estas são sanções de Deus (Mat. XVIII); pode, portanto criar a obrigação grave no íntimo da consciência. Pela capacidade de Ordem dispõe dos Sacramentos. Isto significa: transforma as almas e as enriquece da graça de Deus. Trata-se de ações Divinas.
A Hierarquia da Ordem, que, através de um serviço e não de uma direção, deve ser necessariamente mais numerosa, enquanto permanece reduzida em número de pessoas que dirigem, incluindo os Bispos, os Párocos, os Ministros Sagrados e os Diáconos. Os poderes dos diáconos ampliados no último Concílio não alcançaram as coisas substanciais e necessárias. É suficiente para os Padres invocar o único poder de consagrar o pão e o vinho.
Tudo o que procede da Hierarquia de Jurisdição e de Ordem em seu nível é divino e sobrenatural, ultrapassa a possibilidade humana e abstrata. Tudo isto sabemos pela Fé. Para os que não a possuem e estão excluídos, o discurso deve se ater em outros [pontos], mas com a mesma conclusão.
Tentemos refletir o que está por detrás de uma absolvição dada por meio de um sacerdote, ou antes, o que está por detrás de uma simples bênção. A Igreja carrega consigo o «tesouro escondido no campo» (Mt. XIII, 44) de qual falava Jesus. O que não faz tudo unicamente um modesto e simplista comentário externo. Eis a necessidade dos «sinais», que é tudo o que é capaz de tornar perceptível ao povo, por sua eterna salvação, os «tesouros escondidos no campo». A redução ou, pior, a abolição dos elementos expressivos externos, significa tolher o ORDINÁRIO, o HABITUAL, o INSUBSTITUÍVEL conhecimento das coisas que devemos manter vivas, penetrantes, expressivas, operantes através de determinações externas. Talvez fosse melhor dizer que [a redução/abolição] é a opção do Protestantismo.
Cremos que ficou claro porque necessitas dos «sinais».
Aplica-se. A liturgia, o estado eclesiástico, as funções sacerdotais, os locais sagrados, precisam de «sinais» inconfundíveis, imediatos, sempre operantes, fáceis e de seguro entendimento.
Eis porque a Liturgia precisa de paramentos, de sinais, de objetos litúrgicos e tanto quanto impacte e torne presente o «mistério», assim como [precisa] da ação e da palavra e das coisas que são unidas harmonicamente no rito.
Eis porque o padre precisa de paramentos que os qualifique. «Ai do dia em que os padres estiverem irreconhecíveis!»
Eis porque os ofícios diversos necessitam de fatores externos que indiquem a realidade Jurídica e a Sobrenatural.
Na realidade, quando temos que significar as coisas divinas é «difícil exagerar». No entanto, assume-se que as coisas externas devam ter por critério significar o suficiente, sem chegar aos efeitos negativos da finalidade para a qual ele atua. Quando é certa a necessidade do sinal, entretanto se leva em conta a possibilidade de uma adequação às circunstâncias. E esta melhor adequação à circunstância atira a Santa Madre Igreja ao cume da fúria iconoclasta, anticristã, cheio de amargura contra tudo o que é transcendente, belo e solene.
Historicamente a Igreja ao construir-se como «SINAL EXTERNO» do tesouro que porta consigo, pode ter sido influenciada por situações externas à ela. Porém, isto explica o critério de uma maior simplicidade essencial, a qual é inspirada nos documentos dos últimos dez anos, e não autoriza a volta ao passado por conta da preguiça dos homens, que estão esgotados das várias experiências políticas e sociais.
A Igreja é outra coisa. Querer privá-la de seus «SINAIS ADEQUADOS» é querer negá-la. «Escutem a inteligência e o coração, não a paixão do instinto.»
2 de Abril 1972
+ Giuseppe Card. Siri
Tradução por Paulo Sério Vieira.
NOTRE CHARGE APOSTOLIQUE, São Pio X
NOTRE CHARGE APOSTOLIQUE
sobre os erros do Sillon
1. Nosso encargo apostólico Nos impõe o dever de vigiar sobre a pureza da fé e a integridade da disciplina católica, de preservar os fiéis dos perigos do erro e do mal, sobretudo quando o erro e o mal lhes são apresentados numa linguagem atraente, que, encobrindo o vago das idéias e o equívoco das expressões sob o ardor do sentimento e a sonoridade das palavras, pode inflamar os corações por causas sedutoras mas funestas. Tais foram, outrora, as doutrinas dos pretensos filósofos do século XVIII, as da Revolução e as do Liberalismo, tantas vezes condenadas; tais são ainda hoje as teorias do Sillon, que, sob aparências brilhantes e generosas, muitas vezes carecem de clareza, de lógica e de verdade, e, por este aspecto, não exprimem o gênio católico e francês.
Ao "Sillon" não faltavam relevantes qualidades
2. Durante muito tempo hesitamos, Veneráveis Irmãos, em dizer pública e solenemente Nosso pensamento sobre o Sillon. Foi necessário que vossas preocupações se viessem somar às Nossas para que Nos decidíssemos a fazê-lo. Porque amamos a valente juventude alistada sob a bandeira do Sillon, e a julgamos digna, por muitos aspectos, de elogio e de admiração. Amamos seus chefes, em que Nos é grato reconhecer almas elevadas, superiores às paixões vulgares e animadas do mais nobre entusiasmo pelo bem. Vós os vistes, Veneráveis Irmãos, penetrados de um sentimento muito vivo de fraternidade humana, ir ao encontro daqueles que trabalham e sofrem para os levantar, animados no seu devotamento pelo amor a Jesus Cristo e pela prática exemplar da religião.
3. Foi nos dias seguintes à memorável Encíclica de Nosso predecessor, de feliz memória, Leão XIII, sobre a condição dos operários. A Igreja, pela boca de seu Chefe supremo, havia derramado sobre os humildes e os pequenos todas as ternuras do seu coração materno, e parecia convocar, por seus anelos, campeões sempre mais numerosos da restauração da ordem e da justiça em nossa sociedade perturbada. Os fundadores do Sillon não vinham, no momento oportuno, colocar a seu serviço esquadrões jovens e crentes para a realização de seus desejos e de suas esperanças? E, de fato, o Sillon levantou, entre as classes operárias, o estandarte de Jesus Cristo, o sinal da salvação para os indivíduos e as nações, alimentando sua atividade social nas fontes da graça, impondo o respeito da religião nos ambientes menos favoráveis, habituando os ignorantes e os ímpios a ouvir falar de Deus, e, muitas vezes, em conferências contraditórias, em face de um auditório hostil, levantando-se, espiaçados por uma questão ou por um sarcasmo, para proclamar alta e briosamente a sua fé. Eram os bons tempos do Sillon; era o seu lado bom, que explica os encorajamentos e as aprovações que não lhe regatearam o episcopado e a Santa Sé, enquanto este fervor religioso pode encobrir o verdadeiro caráter do movimento sillonista.
Mas era ainda maior a gravidade de seus defeitos
4. Porque, é necessário dizê-lo, Veneráveis Irmãos, nossas esperanças, em grande parte, foram ludibriadas. Houve um dia em que o Sillon começou a manifestar, para olhares clarividentes, tendências inquietantes. O Sillon se desorientava. Podia ser de outra forma? Seus fundadores, jovens, entusiastas e cheios de confiança em si mesmos, não estavam suficientemente armados de ciência histórica, de sã filosofia e de forte teologia para afrontar, sem perigo, os difíceis problemas sociais, para os quais tinham sido arrastados por sua atividade e por seu coração, e para se premunir, no terreno da doutrina e da obediência, contra as infiltrações liberais e protestantes.
Que forçaram o Papa a condená-lo
5. Os conselhos não lhes faltaram, e, após os conselhos, vieram as admoestações. Mas tivemos a dor de ver que tanto uns como outras deslizavam sobre suas almas fugitivas, e ficavam sem resultado. As coisas vieram assim a tal ponto que Nós trairíamos Nosso dever, se, por mais tempo, guardássemos silêncio. Devemos a verdade a nossos caros filhos do Sillon, que um ardor generoso arrebatou para um caminho tão falso quanto perigoso. Devemo-la a um grande número de seminaristas e de padres que o Sillon subtraiu, senão à autoridade, pelo menos à direção e à influência de seus Bispos. Devemo-la, enfim, à Igreja, onde o Sillon semeia a divisão, e cujos interesses compromete.
I. ERROS DO SILLON
O "Sillon" procura furtar-se à Autoridade da Igreja
6. Em primeiro lugar, convém censurar severamente a pretensão do Sillon de escapar à direção da Autoridade Eclesiástica. Os chefes do Sillon, com efeito, alegam que se movem num terreno que não é o da Igreja; que só têm em vista interesses de ordem temporal e não de ordem espiritual; que o sillonista é simplesmente um católico dedicado à causa das classes trabalhadoras, às obras democráticas, e que haure nas práticas de sua fé a energia de seu devotamento; que nem mais nem menos que os artífices, os trabalhadores, os economistas e os políticos católicos, ele se acha submetido às regras de moral comuns a todos, sem estar subordinado, nem mais nem menos do que aqueles, de uma forma especial à autoridade eclesiástica.
7. A resposta a estes subterfúgios não é senão demasiado fácil. A quem se fará crer, com efeito, que os sillonistas católico, que os padres e os seminaristas alistados em suas fileiras só têm em vista, em sua atividade social, o interesse temporal das classes trabalhadoras? Sustentar tal coisa, pensamos, seria fazer-lhes injúria. A verdade é que os chefes do Sillon se proclamam idealistas irredutíveis, que pretendem reerguer as classes operárias, reerguendo, antes de mais nada, a consciência humana; que têm uma doutrina social e princípios filosóficos e religiosos para reconstruir a sociedade sobre um novo plano; que têm uma concepção especial sobre a dignidade humana, a liberdade, a justiça e a fraternidade, e que, para justificar seus sonhos sociais, apelam para o Evangelho, interpretando à sua maneira, e, o que é ainda mais grave, para um Cristo desfigurado e diminuído. Além disso, estas idéias eles as ensinam em seus círculos de estudo, eles as inculcam a seus companheiros, eles as fazem penetrar em suas obras. São, pois, verdadeiramente, professores de moral social, cívica e religiosa, e, quaisquer que sejam as modificações que possam introduzir na organização do movimento sillonista, temos o direito de dizer que a finalidade do Sillon, seu caráter, sua ação pertencem ao domínio moral, que é o domínio próprio da Igreja, e que, em conseqüência, os sillonistas se iludem quando crêem mover-se num terreno em cujos confins expiram os direitos do poder doutrinário e diretivo da Autoridade Eclesiástica.
8. Se suas doutrinas fossem isentas de erro, já teria sido uma falta muito grave à disciplina católica o subtrair-se obstinadamente à direção daqueles que receberam do céu a missão de guiar os indivíduos e as sociedades no reto caminho da verdade e do bem. Mas o mal é mais profundo, já o dissemos: o Sillon, arrastado por um mal compreendido amor dos fracos, descambou para o erro.
As tendências igualitárias do "Sillon"
9. Com efeito, o Sillon se propõe o reerguimento e a regeneração das classes operárias. Ora, sobre esta matéria os princípios da doutrina católica são fixos, e a história da civilização cristã aí está para atestar sua fecundidade benfazeja. Nosso Predecessor, de feliz memória, recordou-os em páginas magistrais, que os católicos ocupados em questões sociais devem estudar e ter sempre sob os olhos. Ensinou, de modo especial, que a democracia cristã deve "manter a diversidade das classes, que é seguramente o próprio da cidade bem constituída, e querer para a sociedade humana a forma e o caráter de Deus, seu autor, lhe imprimiu". Censurou "uma certa democracia que vai até aquele grau de perversidade de atribuir, na sociedade, a soberania ao povo e de pretender a supressão e o nivelamento das classes". Ao mesmo tempo, Leão XIII impunha aos católicos um programa de ação, o único programa capaz de recolocar e de manter a sociedade sobre suas bases cristãs seculares. Ora, que fizeram os chefes do Sillon? Não somente adotaram um programa e um ensinamento diferentes dos de Leão XIII (o que já seria singularmente audacioso da parte de leigos, que se colocam, assim, em concorrência com o Soberano Pontífice, como diretores da atividade social da Igreja); mas rejeitaram abertamente o programa traçado por Leão XIII, e adotaram um outro, que lhe é diametralmente oposto; além disso, rejeitam a doutrina relembrada por Leão XIII sobre os princípios essenciais da sociedade, colocam a autoridade no povo ou quase a suprimem, e toma, como ideal por realizar, o nivelamento das classes. Caminham, pois, ao revés da doutrina católica, para um ideal condenado.
10. Bem sabemos que se gabam de reerguer a dignidade humana e a condição demasiado desprezada das classes trabalhadoras, de tornar justas e perfeitas as leis do trabalho e as relações entre capital e os assalariados, enfim, de fazer reinar sobre a terra uma justiça melhor, e mais caridade, e de, por movimentos sociais profundos e fecundos, promover na humanidade um progresso inesperado. E, certamente, não condenamos estes esforços, que seriam excelentes, sob todos os aspectos, se os sillonistas não esquecessem que o progresso de um ser consiste em fortificar suas faculdades naturais por novas energias e facilitar o jogo de sua atividade no quadro e de acordo com as leis de sua constituição; e que, pelo contrário, ferindo seus órgãos essenciais, quebrando o quadro de suas atividades, impele-se o ser não para o progresso, mas para a morte. Entretanto, é isto que eles querem fazer com a sociedade humana; seu sonho consiste em trocar-lhe as bases naturais e tradicionais e prometer uma cidade futura edificada sobre outros princípios, que ousam declarar mais fecundos, mais benfazejos do que os princípios sobre os quais repousa a atual cidade cristã.
11. Não, Veneráveis Irmãos – e é preciso lembrá-lo energicamente nestes tempos de anarquia social e intelectual, - a cidade não será contruída de outra forma senão aquela pela qual Deus a construiu; a sociedade não será edificada se a Igreja não lhe lançar as bases e não dirigir os trabalhos; não, a civilização não mais está para ser inventada nem a cidade nova para ser construída nas nuvens. Ela existiu, ela existe; é a civilização cristã, é a cidade católica. Trata-se apenas de instaurá-la e restaurá-la sem cessar sobre seus fundamentos naturais e divinos contra os ataques sempre renascentes da utopia malsã, da revolta e da impiedade: omnia instaurare in Christo. E para que não Nos acusem de julgar muito sumariamente e com rigor não justificado as teorias sociais do Sillon, queremos rememorar-lhe os pontos essenciais.
As doutrinas subversivas e revolucionárias do "Sillon"
12. O Sillon tem a nobre preocupação da dignidade humana. Mas esta dignidade é compreendida ao modo de certos filósofos, que a Igreja está longe de poder aprovar. O primeiro elemento desta dignidade é a liberdade, entendida neste sentido que, salvo em matéria de religião, cada homem é autônomo. Deste princípio fundamental tira as seguintes conclusões: Hoje em dia, o povo está sob tutela, debaixo de uma autoridade que é distinta dele, e da qual se deve libertar: emancipação política. Está sob a dependência de patrões que, detendo seus instrumentos de trabalho, o exploram, o oprimem e o rebaixam; deve sacudir seu jugo: emancipação econômica. Enfim, é dominado por uma casta chamada dirigente, à qual o desenvolvimento intelectual assegura uma preponderância indevida na direção dos negócios; deve subtrair-se à sua dominação: emancipação intelectual. O nivelamento das condições, deste tríplice ponto de vista, estabelecerá entre os homens a igualdade, e esta igualdade é a verdadeira justiça humana. Uma organização política e social fundada sobre esta dupla base, liberdade e igualdade (às quais logo virá acrescentar-se a fraternidade), eis o que eles chamam Democracia.
13. No entanto, a liberdade e a igualdade não constituem senão o lado, por assim dizer, negativo. O que faz, própria e positivamente, a Democracia é a participação maior possível de cada um no governo da coisa pública. E isto compreende um tríplice elemento, político, econômico e moral.
14. Em primeiro lugar, em política, o Sillon não abole a autoridade; pelo contrário, considera-a necessária; mas a quer partilhar, ou para melhor dizer, a quer multiplicar de tal modo que cada cidadão se tornará uma espécie de rei. A autoridade, é certo, emana de Deus, mas reside primordialmente no povo e daí deriva por via de eleição ou, melhor, ainda, de seleção, sem por isto deixar o povo e se tornar independente dele; ela será exterior, mas somente na aparência; na realidade, ela será interior, porque será uma autoridade consentida.
15. Guardadas as proporções, acontecerá o mesmo na ordemeconômica. Subtraído a uma classe particular, o patronato será multiplicado de tal modo que cada operário se tornará uma espécie de patrão. A forma invocada para realizar este ideal econômico não é, afirma-se, a do socialismo, é um sistema de cooperativa suficientemente multiplicadas para provocar uma concorrência fecunda e para salvaguardar a independência dos operários, que não ficariam adstritos a nenhuma delas.
16. Eis agora o elemento capital, o elemento moral. Como a autoridade, já se viu, é muito reduzida, é necessária uma outra força para completá-la e opor uma reação permanente ao egoísmo individual. Este novo princípio, esta força, é o amor do interesse profissional e do interesse público, quer dizer, da finalidade mesma da profissão e da sociedade. Imaginai uma sociedade onde, na alma de cada um, com o amor inato do bem individual e do bem familiar, reinasse o amor do bem profissional e do bem público, onde, na consciência de cada um, estes amores, se subordinassem de tal modo, que o bem superior dominasse sempre o bem inferior; uma sociedade não poderia quase dispensar a autoridade e não ofereceria o ideal da dignidade humana, cada cidadão tendo uma alma de rei, cada operário uma alma de patrão? Arrancado à estreiteza de seus interesses privados e elevado até os interesses de sua profissão e, mais alto, até os da nação inteira e, mais alto, até os da humanidade (porque o horizonte do Sillon não se detém nas fronteiras da pátria, mas se estende a todos os homens até os confins do mundo), o coração humano, alargado pelo amor do bem comum, abraçaria todos os companheiros da mesma profissão, todos os compatriotas, todos os homens. E eis aí a grandeza e a nobreza humana ideal, realizada pela célebre trilogia: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.
17. Ora, estes três elementos, político, econômico e moral, estão subordinados um a outro, e é o elemento moral, como dissemos, que é o principal. Com efeito, nenhuma democracia política é viável se não tem profundos pontos de contato com a democracia econômica. Por sua vez, nem uma nem outra são possíveis se não se radicam num estado de espírito em que a consciência se acha investida de responsabilidades e de energias morais proporcionadas. Mas, supondo este estado de espírito, assim feito de responsabilidade consciente e de forças morais, a democracia econômica daí decorrerá naturalmente por tradução em atos, desta consciência e destas energias; e, igualmente, e pela mesma via, do regime corporativo sairá a democracia política e econômica, esta trazendo aquela, se acharão fixadas na própria consciência do povo sobre bases inabaláveis.
18. Tal é, em resumo, a teoria, poder-se-ia dizer o sonho, do Sillon, e é para isto que tende seu ensinamento e aquilo que chama a educação democrática do povo, quer dizer, levar ao máximo a consciência e a responsabilidade cívicas de cada qual, donde decorrerá a democracia econômica e política, e o reino da justiça, da liberdade, da igualdade e da fraternidade.
19. Esta rápida exposição, Veneráveis Irmãos, já vos mostra claramente quanto tínhamos razão em dizer que o Sillon opõe doutrina a doutrina, que edifica sua cidade sobre uma teoria contrária à verdade católica e que falseia as noções essenciais e fundamentais que regulam as relações sociais em toda a sociedade humana. Esta oposição aparecerá com maior clareza ainda nas seguintes considerações.
II. REFUTAÇÃO DOS ERROS
Sobre a autoridade, a liberdade e a obediência
20. O Sillon coloca a autoridade pública primordialmente no povo, do qual deriva em seguida aos governantes, de tal modo, entretanto, que continua a residir nele. Ora, Leão XIII condenou formalmente esta doutrina em sua encíclica Diuturnum Illud (DP 12) sobre o Principado Político, onde diz: "Grande número de modernos seguindo as pegadas daqueles que, no século passado, se deram o nome de filósofos, declaram que todo o poder vem do povo; que em conseqüência aqueles que exercem o poder na sociedade não a exercem como sua própria autoridade, mas como uma autoridade a eles delegada pelo povo e sob a condição de poder ser revogada pela vontade do povo, de quem eles a têm. Inteiramente contrário é o pensamento dos católicos, que fazem derivar de Deus o direito de mandar, como de seu princípio natural e necessário". Sem dúvida, o Sillon faz descer de Deus esta autoridade, que coloca em primeiro lugar no povo, mas de tal forma que "sobe de baixo para ir ao alto, enquanto na organização da Igreja, o poder desce do alto para ir até em baixo" (Marc Sangnier, discurso de Rouen, 1907). Mas, além de ser anormal que a delegação suba, pois é próprio à sua natureza descer, Leão XIII refutou de antemão esta tentativa de conciliação entre a doutrina católica e o erro do filosofismo. Pois prossegue: "É necessário observá-lo daqui: aqueles que presidem ao governo da coisa pública podem bem, em certos casos, ser eleitos pela vontade e o julgamento da multidão, sem repugnância nem oposição com a doutrina católica. Mas, se esta escolha designa o governante, não lhe confere a autoridade de governar, não lhe delega o poder, apenas designa a pessoa que dele será investido".
21. De resto, se o povo continua a ser o detentor do poder, que vem a ser da autoridade? Uma sombra, um mito; não há mais lei propriamente dita, não há mais obediência. O Sillon o reconheceu; desde que, com efeito, reclama, em nome da dignidade humana, a tríplice emancipação política, econômica e intelectual, a cidade futura, para a qual trabalha, não mais terá mestres nem servidores; os cidadãos aí serão todos livres, todos camaradas, todos reis. Uma ordem, um preceito, seria um atentado à liberdade; a subordinação a uma qualquer superioridade seria uma diminuição do homem, a obediência, uma degradação. É assim, Veneráveis Irmãos, que a doutrina tradicional da Igreja nos representa as relações sociais, mesmo na cidade mais perfeita possível? Não é verdade que toda sociedade de criaturas dependentes e desiguais por natureza tem necessidade de uma autoridade que dirija sua atividade para o bem comum e imponha sua lei? E se, na sociedade, se encontram seres perversos (e sempre os haverá), a autoridade não deverá ser tanto mais forte quanto o egoísmo dos maus for mais ameaçador? Além disso, pode-se dizer, com uma aparência de razão sequer, que haja incompatibilidade entre a autoridade e a liberdade, sem que se cometa um erro grosseiro sobre o conceito da liberdade? Pode-se ensinar que a obediência é contrária à dignidade humana e o ideal seria substituí-la pela "autoridade consentida"? Será que o apóstolo S. Paulo não tinha em vista a sociedade humana, em todas as suas etapas possíveis, quando prescrevia aos fiéis a submissão a toda autoridade? Será verdade que a obediência aos homens, enquanto representantes legítimos de Deus, quer dizer afinal de contas a obediência a Deus, rebaixa o homem e o avilta abaixo de si mesmo? Será que o estado religioso, fundado sobre a obediência, é contrário ao ideal da natureza humana? Será que os santos, que foram os mais obedientes dos homens, foram escravos e degenerados? Enfim, poder-se-ia imaginar um estado em que Jesus Cristo, de novo sobre a terra, não mais desse o exemplo de obediência e não mais dissesse: Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus?
Sobre a justiça e a igualdade
22. O Sillon, que ensina semelhantes doutrinas e as põe em prática em sua vida interna, semeia portanto entre a vossa juventude católica noções erradas e funestas sobre a autoridade, a liberdade e a obediência. Outra coisa não acontece quanto à justiça e à igualdade. Trabalha, como afirma, para realizar uma era de melhor justiça. Assim, para ele, toda desigualdade de condição é uma injustiça ou, pelo menos, uma justiça menor! Princípio soberanamente contrário à natureza das coisas, gerador de inveja e de injustiça, subversivo de toda a ordem social. Assim, só na democracia inaugurará o reino da perfeita justiça! Não é isto uma injúria às outras formas de governo que são rebaixadas, por este modo, à categoria de governos impotentes, apenas toleráveis! De resto o Sillon, ainda sobre este ponto, vai de encontro ao ensinamento de Leão XIII. Poderia Ter lido na Encíclica já citada sobre o Principado Político que, "salvaguardada a justiça, aos povos não é interdito escolher o governo que melhor responda a seu caráter ou às instituições e costumes que receberam dos antepassados", e a Encíclica faz alusão à tríplice forma de governo bem conhecida. Supõe, portanto, que a justiça é comparável com cada uma delas. E a Encíclica sobre a condição dos operários não afirma claramente a possibilidade de restaurar-se a justiça nas organizações atuais da sociedade, pois que indica os meios para isso? Ora, sem dúvida alguma, Leão XIII queria falar não de uma justiça qualquer, mas da justiça perfeita. Ensinando, pois, que a justiça é compatível com as três formas de governo em questão, ensinava que, sob este aspecto, a Democracia não goza de um privilégio especial. Os "sillonistas", que pretendem o contrário, ou recusam ouvir a Igreja ou têm da justiça e da igualdade um conceito que não é católico.
Sobre a fraternidade
23. O mesmo acontece com a noção da fraternidade, cuja base colocam no amor dos interesses comuns, ou, além de todas as filosofias e de todas as religiões, na simples noção de humanidade, englobando assim no mesmo amor e numa igual tolerância todos os homens com todas as suas misérias, tanto as intelectuais e morais como as físicas e temporais. Ora, a doutrina católica nos ensina que o primeiro dever da caridade não está na tolerância das convicções errôneas, por sinceras que sejam , nem da indiferença teórica e prática pelo erro ou o vício, em que vemos mergulhados nossos irmãos, mas no zelo pela sua restauração intelectual e moral, não menos que por seu bem-estar material. Esta mesma doutrina católica nos ensina também que a fonte do amor do próximo se acha no amor de Deus, Pai comum e fim comum de toda a família humana, no amor de Jesus Cristo, do qual somos membros a tal ponto que consolar um infeliz é fazer o bem ao próprio Jesus Cristo. Qualquer outro amor é ilusão ou sentimento estéril e passageiro. Certamente, a experiência humana aí está, nas sociedades pagãs iy leigas de todos os tempos, para provar que, em certos momentos, a consideração dos interesses comuns ou da semelhança de natureza pesa muito pouco diante das paixões e concupiscências do coração. Não, Veneráveis Irmãos, não existe verdadeira fraternidade fora da caridade cristã, que, pelo amor de Deus e de seu Filho Jesus Cristo nosso Salvador, abrange todos os homens, para consolar todos, e para os conduzir todos à mesma fé e à mesma felicidade do céu. Separando a fraternidade da caridade cristã assim entendida, a democracia, longe de ser um progresso, constituiria um desastroso recuo para a civilização. Porque, se se chegar, e Nós o desejamos de toda a nossa alma, à maior soma possível de bem-estar para a sociedade e para cada um de seus membros pela fraternidade, ou, como se diz ainda, pela soliedaridade universal, é necessária a união dos espíritos na verdade, a união das vontades na moral, a união dos corações no amor de Deus e de seu filho Jesus Cristo. Ora, esta união só poderá ser realizada pela caridade católica, que é a única, por conseqüência, que pode conduzir os povos no caminho do progresso, para o ideal da civilização.
Sobre a dignidade humana
24. Enfim, na base de todas as falsificações das noções sociais fundamentais, o Sillon coloca uma falsa idéia da dignidade humana. Segundo ele, o homem só será verdadeiramente homem, digno desse nome, no dia em que adquirir uma consciência esclarecida, forte, independente, autônoma, podendo dispensar os mestres, só obedecendo a si própria, e capaz de assumir e desempenhar, sem falhas, as mais graves responsabilidades. Eis algumas destas grandes palavras com as quais se exalta o sentimento do orgulho humano; tal como um sonho, que arrasta o homem, sem luz, sem guia e sem auxílio, pelo caminho da ilusão, em que, esperando o grande dia da plena consciência, será devorado pelo erro e pelas paixões. E este grande dia, quando virá? A menos que se mude a natureza humana (o que não está no poder do Sillon), virá ele alguma vez? Será que os santos, que levaram ao apogeu a dignidade humana, tiveram esta dignidade? E os humildes da terra, que não podem subir tão alto e se contentam com traçar modestamente seu sulco (tracer modestement son sillon) na classe social que lhes designou a Providência, cumprindo energicamente seus deveres na humildade, na obediência e na paciência cristãs, não seriam eles dignos do nome de homens, aos quais o Senhor há de tirar um dia de sua condição obscura para colocar no céu, entre os príncipes de seu povo?
Suspendemos aqui nossas reflexões sobre os erros do Sillon. Não pretendemos esgotar o assunto, pois que ainda poderíamos chamar vossa atenção sobre outros pontos igualmente falsos e perigosos, por exemplo, sobre a maneira de compreender o poder coercitivo da Igreja. Importa, contudo, examinar agora a influência destes erros sobre a conduta prática do Sillon e sobre a sua ação social.
III. CONDUTA PRÁTICA DO SILLON E SUA AÇÃO SOCIAL
A estrutura igualitária da organização do "Sillon"
25. As doutrinas do Sillon não ficam apenas nos domínios da abstração filosófica. Elas são ensinadas à juventude católica, e, bem mais do que isso, procurasse vivê-las. O Sillon se considera como o núcleo da cidade futura; reflete-a, pois, tão fielmente quanto possível. Com efeito, não existe hierarquia no Sillon. A elite que o dirige separa-se da massa por seleção, quer dizer, impondo-se por sua autoridade moral e por suas virtudes. Nele se entra livremente, como livremente dele se sai. Os estudos aí se fazem sem mestre, quando muito com um conselheiro. Os círculos de estudos são verdadeiras cooperativas intelectuais, onde cada um é ao mesmo tempo aluno e mestre. A camaradagem mais absoluta reina entre os membros, e põe em total contato suas almas: daí a alma comum do Sillon. Definiram-na "uma amizade". Mesmo o padre, quando nele ingressa, abaixa a eminente dignidade de seu sacerdócio e, pela mais estranha inversão de papéis, se faz aluno, se põe no nível de seus jovens amigos e não é mais do que um camarada.
O espírito anárquico que incute
26. Nestes hábitos democráticos, e nas doutrinas sobre a cidade ideal que os inspiram, reconhecereis, Veneráveis Irmãos, a causa secreta das faltas disciplinares que, tantas vezes, tiverdes de recriminar ao Sillon. Não é de espantar que não tenhais encontrado nos chefes e nos seus companheiros assim formados, fossem seminaristas ou padres, o respeito, a docilidade e a obediência que são devidos às vossas pessoas e à vossa autoridade; que tenhais experimentado da parte deles uma surda oposição, e que tenhais tido o pesar de os ver subtrair-se totalmente, ou, quando a isto forçados pela obediência, entregar-se com desgosto às obras não sillonistas. Vós sois o passado, eles são os pioneiros da civilização futura. Vós representais a hierarquia, as desigualdades sociais, a autoridade e a obediência: instituições envelhecidas, ante as quais suas almas, embevecidas por um outro ideal, não mais se podem dobrar. Temos sobre este estado de espírito o testemunho de fatos dolorosos, capazes de arrancar lágrimas, e não podemos, apesar de nossa longanimidade, reprimir um justo sentimento de indignação. Pois há quem inspire à vossa juventude católica a desconfiança para com a Igreja sua mãe; ensina-se-lhe que, decorridos 19 séculos, ela ainda não conseguiu no mundo constituir a sociedade sobre suas verdadeiras bases; que ela não compreendeu as noções sociais da autoridade, da liberdade, da igualdade, da fraternidade e da dignidade humana; que os grandes bispos e os grandes monarcas, que criaram e tão gloriosamente governaram a França, não souberam dar ao seu povo nem a verdadeira justiça, nem a verdadeira felicidade, porque eles não tinham o ideal do Sillon!
O sopro da Revolução passou por aí, e podemos concluir que, se as doutrinas sociais do Sillon são erradas, seu espírito é perigoso e sua educação funesta.
O "Sillon" é de uma intolerância odiosa
27. Mas então, que devemos pensar de sua ação na Igreja, se seu catolicismo é tão melindroso que, por mais um pouco, quem não abraçasse a sua causa seria a seus olhos um inimigo interior do catolicismo, e nada teria compreendido do Evangelho e de Jesus Cristo? Julgamos conveniente insistir sobre esta questão, porque foi precisamente seu ardor católico que valeu ao Sillon, até estes últimos tempos, preciosos encorajamentos e ilustres sufrágios. Pois bem! Perante as palavras e os fatos, somos obrigados a dizer que, em sua ação como em sua doutrina, o Sillon não dá satisfação à Igreja.
28. Em primeiro lugar, seu catolicismo só se acomoda com a forma democrática de governo, que julga ser a mais favorável à Igreja, e como que se confundindo com ela; portanto, entenda sua religião a um partido político, Não precisamos demonstrar que o advento da democracia universal não tem importância para a ação da Igreja no mundo; já temos lembrado que a Igreja sempre deixou às nações o cuidado de se dar o governo que consideram mais vantajoso para seus interesses. O que Nós queremos afirmar ainda uma vez após nosso predecessor, é que há erro e perigo em enfeudar, por princípio, o catolicismo a uma forma de governo; erro e perigo que são tanto maiores quando se sintetiza a religião com um gênero de democracia cujas doutrinas são erradas. Ora, é o caso do Sillon, o qual, de fato, e em favor de uma forma política especial, comprometendo a Igreja, divide os católicos, arranca a juventude e mesmo padres e seminaristas à ação simplesmente católica, e esbanja, em pura perda, as forças vivas de uma parte da nação.
Exceto quando se trata dos princípios da Igreja
29. E reparai, Veneráveis Irmãos, numa estranha contradição. É precisamente porque a religião deve dominar todos os partidos, é invocando este princípio que o Sillon se abstém de defender a Igreja atacada. Certamente não foi a Igreja que desceu à arena política; arrastaram-na para aí, e para a mutilar, e para a despojar. O dever de todo o católico não consiste, então, em usar das armas políticas, que tem à mão, para defendê-la e também para forçar a política a ficar em seu domínio e a não se ocupar da Igreja, a não ser para lhe dar o que é devido? Pois bem! Em face da Igreja assim violentada, muitas vezes se tem a dor de ver os sillonistas cruzar os braços, a não ser que eles achem vantajoso defendê-la; vemo-los ditar ou sustentar um programa que em nenhum lugar nem no menor grau revela o espírito católico. O que não impede que estes mesmos homens, em plena luta política, sob o golpe de uma provocação, façam pública ostentação de sua fé. Isto que quer dizer senão que há dois homens nos sillonistas: o indivíduo que é católico; o sillonista, homem de ação, que é neutro.
Um dos graves erros do "Sillon" é o interconfessionalismo.
30. Houve um tempo em que o Sillon, como tal, era formalmente católico. Em matéria de força moral, só conhecia uma, a força católica, e ia proclamando que a democracia havia de ser católica, ou não seria democracia. Em dado momento, entretanto, mudou de parecer. Deixou a cada um em sua religião ou sua filosofia. Ele próprio deixou de se qualificar de "católico", e a fórmula "A democracia há de ser católica" substitui-a por esta "A democracia não há de ser anticatólica", tanto quanto, aliás, antijudaica ou antibudista. Foi a época do "maior Sillon". Todos os operários de todas as religiões e de todas as seitas foram convocados para a construção da cidade futura. Outra coisa não se lhes pediu a não ser que abraçassem o mesmo ideal social, que respeitassem todas as crenças e que trouxessem um saldo das forças morais. Certamente, proclamava-se, "os chefes do Sillon põem sua fé religiosa acima de tudo. Mas podem recusar aos outros o direito de hauri-la na fé católica. Pedem, pois, a todos aqueles que querem transformar a sociedade presente no sentido da democracia, que não se repilam mutuamente por causa de convicções filosóficas ou religiosas que os possam separar mas que marchem de mãos dadas, não renunciando a suas convicções, mas experimentando fazer, sobre o terreno das realidades práticas, a prova da excelência de suas convicções pessoais. Talvez que neste terreno de emulação entre almas ligadas a diferentes convicções religiosas ou filosóficas a união se possa realizar" (Marc Sangnier, Discurso de Rouen, 1907). E ao mesmo tempo se declarou (de que modo isto se poderia realizar?) que o pequeno Sillon católico seria a alma do grande Sillon cosmopolita.
31. Recentemente, desapareceu o nome do grande "maior Sillon", e houve a intervenção de uma nova organização que em nada modificou, bem pelo contrário, o espírito e o fundo das coisas "para por ordem no trabalho, e organizar as diversas formas de atividade. O Sillon continua sempre a ser uma alma, um espírito, que se misturará aos grupos e inspirará sua atividade". E a todos os novos agrupamentos, tornados autônomos na aparência: católicos, protestantes, livres-pensadores, se pede que se ponham a trabalhar. "Os camaradas católicos se esforçarão entre si próprios, numa organização especial, por se instruir e se educar. Os democratas protestantes e livres-pensadores farão o mesmo de seu lado. Todos, católicos, protestantes e livres-pensadores terão em mira armar a juventude não para uma luta fratricida, mas para uma generosa emulação no terreno das virtudes sociais e cívicas" (Marc Sangnier, Paris, Maio de 1910).
32. Estas declarações e esta nova organização da ação sillonista provocam bem graves reflexões. Eis uma associação interconfessional, fundada por católicos, para trabalhar na reforma da civilização moral sem a verdadeira religião: é uma verdade demonstrada, é um fato histórico. E os novos sillonistas não poderão pretextar que só trabalharão "no terreno das realidades práticas" onde a diversidade das crenças não importa. Seu chefe tão bem percebe esta influência das convicções do espírito sobre o resultado da ação, que os convida, qualquer que seja a religião a que pertençam, a "fazer no terreno das realidades práticas a prova da excelência de suas convicções pessoais". E com razão, porque as realizações práticas revestem o caráter das convicções religiosas, como os membros de um corpo, até as últimas extremidades, recebem sua forma do princípio vital que o anima.
33. Isto posto, que se deve pensar da promiscuidade em que se acharão agrupados os jovens católicos com heterodoxos e incrédulos de todas as espécies, numa obra desta natureza? Esta não será mil vezes mais perigosa para eles do que uma associação neutra? Que se deve pensar deste apelo a todos os heterodoxos e a todos os incrédulos para virem provar a excelência de suas convicções no terreno social, numa espécie de concurso apologético, como se este concurso já não durasse há 19 séculos, em condições menos perigosas para a fé dos fiéis e sempre favorável à Igreja Católica? Que se deve pensar deste respeito a todos os erros e deste estranho convite, feito por um católico a todos os dissidentes, fortificarem suas convicções pelo estudo e delas fazer as fontes sempre mais abundantes de novas forças? Que se deve pensar de uma associação em que todas as religiões, e mesmo o livre-pensamento, podem manifestar-se altamente à vontade? Porque os sillonistas que, nas conferências públicas e em outras ocasiões proclamam altivamente sua fé individual, não pretendem certamente fechar a boca aos outros e impedir que o protestante afirme seu protestantismo e o cético, seu ceticismo. Que pensar, enfim, de um católico que, ao entrar em seu círculo de estudos, deixa na porta seu catolicismo, para não assustar seus camaradas que, "sonhando com uma ação social desinteressada, têm repugnância de a fazer servir ao triunfo de interesses, de facções, ou mesmo de convicções, quaisquer que sejam"? Tal é a profissão de fé na nova Comissão Democrática de Ação Social, que herdou a maior tarefa da antiga organização, e que, assim afirma, "desfazendo o equívoco em torno do maior Sillon, tanto nos meios reacionários como nos meios anticlericais", está aberta a todos os homens "respeitadores das forças morais e religiosas e convencidos de que nenhuma emancipação social verdadeira será possível sem o fermento de um generoso idealismo".
34. Ah, sim! O equívoco está desfeito; a ação social do Sillon não é mais católica; o sillonista, como tal não trabalha para uma facção, e "a Igreja, ele o diz, não deveriam por nenhum título, ser a beneficiária das simpatias que sua ação possa suscitar". Insinuação estranha, em verdade! Teme-se que a Igreja se aproveite, com objetivo egoísta e interesseiro, da ação social do Sillon, como se tudo o que aproveita à Igreja não aproveitasse à humanidade! Estranha inversão de idéias: a Igreja é que seria beneficiária da ação social, como se os maiores economistas já não houvessem reconhecido e demonstrado que a ação social é que, para ser real e fecunda, deve beneficiar-se da Igreja. Porém, mais estranhas ainda, ao mesmo tempo inquietantes e acabrunhadoras, são a audácia e a ligeireza de espírito de homens que se dizem católicos, e que sonham refundir a sociedade em tais condições, e estabelecer sobre a terra, por cima da Igreja Católica, "o reino da justiça e do amor", com operários vindos de toda parte, de todas as religiões ou sem religião, com ou sem crenças, contando que se esqueçam do que os divide: suas convicções religiosas e filosóficas, e ponham em comum aquilo que os une: um generoso idealismo e forças morais adquiridas "onde possam", Quando se pensa em tudo que foi preciso de forças, de ciência, de virtudes sobrenaturais para estabelecer a cidade cristã, e nos sofrimentos de milhões de mártires, e nas luzes dos Padres e Doutores da Igreja, e no devotamento de todos os heróis da caridade, e numa poderosa Hierarquia nascida no céu, e nas torrentes da graça divina, e tudo isto edificado, travado, compenetrado pela Vida e pelo Espírito de Jesus Cristo, a Sabedoria de Deus, o Verbo feito homem; quando se pensa, dizíamos, em tudo isto edificado, fica-se atemorizado ao ver novos apóstolos se encarniçarem por fazer melhor, através da atuação dum vago idealismo e de virtudes cívicas. Que é que sairá desta colaboração? Uma construção puramente verbal e quimérica, em que se verão coruscar promiscuamente, e numa confusão sedutora, as palavras liberdade, justiça, fraternidade e amor, igualdade e exaltação humana, e tudo baseado numa dignidade humana mal compreendida. Será uma agitação tumultuosa, estéril para o fim proposto, e que aproveitará aos agitadores de massas, menos utopistas. Sim, na realidade, pode-se dizer que o Sillon escolta o socialismo, o olhar fixo numa quimera.
35. Tememos que ainda haja pior. O resultado desta promiscuidade em trabalho, o beneficiário desta ação social cosmopolita só poderá ser uma democracia, que não será nem católica, nem protestante, nem judaica; uma religião (porque o sillonismo, os chefes o afirmaram, é uma religião) mais universal do que a Igreja Católica, reunindo todos os homens tornados enfim irmãos e camaradas "no reino de Deus". – "Não se trabalha pela Igreja, trabalha-se pela humanidade".
E por isto o "Sillon" deixou de ser católico
36. E agora, penetrado da mais viva tristeza, perguntamo-Nos, Veneráveis Irmãos, aonde foi parar o catolicismo do Sillon. Ah! Ele, que dava outrora tão belas esperanças esta torrente límpida e impetuosa foi captada em sua marcha pelos inimigos modernos da Igreja, e agora já não é mais do que um miserável afluente do grande movimento de apostasia organizada, em todos os países, para o estabelecimento de uma Igreja universal que não terá nem dogmas, nem hierarquia, nem regra para o espírito, nem freio para as paixões, e que sob o pretexto de liberdade e de dignidade humana, restauraria no mundo, se pudesse triunfar, o reino legal da fraude e da violência, e a opressão dos fracos, daqueles que sofrem e que trabalham.
O "Sillon" e as tramas dos inimigos da Igreja
37. Conhecemos demasiado bem os sombrios laboratórios, em que se elaboram estas doutrinas deletérias, que não deveriam seduzir espíritos clarividentes. Os chefes do Sillon nãou souberam evitá-las: a exaltação de seus sentimentos, a cega bondade de seu coração, seu misticismo filosófico misturado com um tanto de iluminismo os impeliram para um novo Evangelho do Salvador, a tal ponto que ousam tratar Nosso Senhor Jesus Cristo com uma familiaridade soberanamente desresepitosa, e que, sendo o seu ideal aparentado com o da Revolução, não temem fazer entre o Evangelho e a Revolução aproximações blasfematórias, que não têm a escusa de haverem escapado a alguma improvisação tumultuosa.
O "Sillon" dá uma idéia desfigurada do divino Redentor.
38. Queremos chamar vossa atenção, Veneráveis Irmãos, sobre esta deformação do Evangelho e do caráter sagrado de Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus e Homem, praticada no Sillon e algures. Desde que se aborda a questão social, está na moda, em certos meios, afastar primeiro a divindade de Jesus Cristo, e depois só falar de sua soberana mansidão, de sua compaixão por todas as misérias humanas, de suas instantes exortações ao amor do próximo e fraternidade. Certamente, Jesus nos amou com um amor imenso, infinito, e veio à terra sofrer e morrer, a fim de que, reunidos em redor dele na justiça e no amor, animados dos mesmos sentimentos de mútua caridade, todos os homens vivam na paz e na felicidade. Mas para a realização desta felicidade temporal e eterna, Ele impôs, com autoridade soberana, a condição de se fazer parte de seu rebanho, de se aceitar sua doutrina, de se praticar a virtude e de se deixar ensinar e guiar por Pedro e seus sucessores. Ademais se Jesus foi bom para os transviados e os pecadores, não respeitou suas convicções errôneas por sinceras que parecessem; amou-os a todos para os instruir, converter e salvar. Se chamou junto de si, para os consolar, os aflitos e os sofredores, não foi para lhes pregar o anseio de uma igualdade quimérica. Se levantou os humildes, não foi para lhes inspirar o sentimento de uma dignidade independente e rebelde à obediência. Se seu coração transbordava de mansidão pelas almas de boa vontade, soube igualmente armar-se de uma santa indignação contra os miseráveis que escandalizam os pequenos, contra as autoridades que acabrunham o povo sob a carga de pesados fardos, sem aliviá-la sequer com o dedo. Foi tão forte quão doce; repreendeu, ameaçou, castigou, sabendo e nos ensinando que, muitas vezes, o temor é o começo da sabedoria, e que, às vezes, convém cortar um membro para salvar o corpo. Enfim, não anunciou para a sociedade futura o reinado de uma felicidade ideal, de onde o sofrimento fosse banido; mas, por lições e exemplos, traçou o caminho da felicidade possível na terra e da felicidade perfeita no céu: a estrada real da cruz. Estes são ensinamentos eminentemente sociais, e nos mostram em Nosso Senhor Jesus Cristo outra coisa que não um humanitarismo sem consciência e sem autoridade.
CONCLUSÃO
Exortação ao Episcopado
39. No que se refere a vós, Veneráveis Irmãos, continuai ativamente a obra do Salvador dos homens pela imitação de sua doçura e de sua força. Inclinai-vos para todas as misérias; que nenhuma dor escape à vossa solicitude pastoral; que nenhum gemido vos encontre indiferentes. Mas, também, pregai ousadamente os deveres aos grandes e aos pequenos; a vós compete formar a consciência do povo e dos poderes públicos. A questão social está bem perto de ser resolvida quando uns e outros, menos exigentes a respeito de seus direitos recíprocos, cumprirem mais exatamente seus deveres. Além disso, como no conflito dos interesses, e principalmente na luta com as forças pouco honestas, a virtude de um homem, e mesmo sua santidade, não é sempre suficiente para lhe assegurar o pão cotidiano, e como as engrenagens sociais deveriam estar organizadas de tal forma que, por seu jogo natural, paralisassem os esforços dos maus e tornassem acessível a toda boa vontade sua parte legítima de felicidade temporal, desejamos vivamente que tomeis uma parte ativa na organização da sociedade, neste sentido. E, para isto, enquanto vossos padres se entregarem com ardor ao trabalho da santificação das almas, da defesa da Igreja, e às obras de caridade propriamente ditas, escolhereis alguns dentre eles, ativos e de espírito ponderado, munidos dos graus de doutor em filosofia e teologia, e dominando perfeitamente a história da civilização antiga e moderna, e os aplicareis aos estudos menos elevados e mais práticos da ciência social, para, no tempo oportuno, colocá-los à testa de vossas obras de ação católica. Contudo, que estes padres não se deixem transviar no dédalo das opiniões contemporâneas, pela miragem de uma falsa democracia; que não emprestem à retórica dos piores inimigos da Igreja e do povo uma linguagem enfática, cheia de promessas tão sonoras quanto irrealizáveis. Estejam eles persuadidos de que a questão social e a ciência social não nasceram ontem; que, de todos os tempos, a Igreja e o Estado, em feliz acordo, suscitaram para isto organizações fecundas; que a Igreja, que jamais traiu a felicidade do povo em alianças comprometedoras, não precisa livrar-se do passado, bastando-lhe retomar, com o auxílio de verdadeiros operários da restauração social, os organismos quebrados pela Revolução, adaptando-os, com o mesmo espírito cristão que os inspirou, ao novo ambiente criado pela evolução material da sociedade contemporânea; porque os verdadeiros amigos do povo não são revolucionários, nem inovadores, mas tradicionalistas.
Os membros do "Sillon" devem submeter-se
40. A esta obra, eminentemente digna de vosso zelo pastoral, desejamos que, longe de a embaraçar, a juventude do Sillon, purificada de seus erros, traga, na ordem e na submissão convenientes, um concurso leal e eficaz.
41. Voltando-nos, pois, para os chefes do Sillon, com a confiança de um pai que fala a seus filhos, pedimo-lhes para o seu bem, para o bem da Igreja e da França, vos cedam o lugar. Medimos, certamente, a extensão do sacrifício que lhes solicitamos, mas os sabemos assaz generosos para o realizar, e, antecipadamente, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, de quem somos o indigno representante, os abençoamos . Quanto aos membros do Sillon, queremos que se agrupem por dioceses para trabalhar, sob a direção de seus bispos respectivos, pela regeneração cristã e católica do povo, ao mesmo tempo pela melhoria de sua sorte. Estes grupos diocesanos serão, por ora, independentes uns dos outros; e, a fim de tornar bem claro que romperam com os erros do passado, tomarão o nome de Sillons Católicos, e cada um de seus membros acrescentará a seu título de sillonista o mesmo qualificativo de católico. Não será preciso dizer que todo sillonista católico ficará livre, aliás, de guardar suas preferências políticas, depuradas de tudo o que não esteja inteiramente conforme, nesta matéria, com a doutrina da Igreja. E assim, Veneráveis Irmãos, se houver grupos que se recusem a submeter-se a estas condições, devereis considerá-los por isso mesmo como se recusassem a submeter-se à vossa direção; e, então, dever-se-á examinar se eles se confinam na política ou na economia pura, ou se perseveram nos antigos erros. No primeiro caso, está claro que já não vos devereis ocupar mais deles do que do comum dos fiéis; no segundo, devereis agir em conseqüência, com prudência mas com firmeza. Os padres deverão manter-se totalmente alheios aos grupos dissidentes e se contentarão com prestar o socorro do santo ministério individualmente a seus membros, aplicando-lhes, no tribunal da Penitência, as regras comuns de moral relativamente à doutrina e à conduta. Quanto aos grupos católicos, os padres e os seminaristas, sempre favorecendo-os e os secundando, abster-se-ão de se inscreverem como membros, porque é conveniente que a milícia sacerdotal fique acima das associações leigas, mesmo as mais úteis e animadas do melhor espírito.
42. Tais são as medidas práticas pelas quais julgamos necessário sancionar esta carta sobre o Sillon e os sillonistas.Que o Senhor haja por bem, nós o rogamos no fundo da alma, fazer com que estes homens e estes jovens compreendam as graves razões que a ditaram, e lhes dê a docilidade de coração, com a coragem de provar, em face da Igreja, a sinceridade de seu fervor católico; e a vós, Veneráveis Irmãos, que vos inspire para com eles, pois que eles são doravante vossos, os sentimentos de uma afeição toda paternal.
É com esta esperança, e para obter estes resultados tão desejáveis, que vos concedemos, de todo o coração, assim como a vosso clero e a vosso povo, a Benção Apostólica.
- Dado em Roma, junto a S. Pedro, em 25 de Agosto de 1910, oitavo ano de Nosso Pontificado.
Pio X, papa.
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