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“Sobre a Usura”, por Hilaire Belloc


Hilaire Belloc

[Tradução: Nina Batista]

Usura não significa juros altos, e sim qualquer cobrança de juros, mesmo baixos, sobre um empréstimo improdutivo. Não é apenas imoral (tendo sido, em decorrência disso, condenada por todos os códigos morais – pagãos, maometanos ou católicos), mas também, em última análise, destrutiva da sociedade. Somente tornou-se prática usual do nosso comércio após o colapso europeu que se seguiu à Reforma Protestante. A Usura destruirá nossa sociedade, mas não há como escapar-lhe nesse meio-tempo. Aproximamo-nos do final de sua ação maléfica, não devido à conscientização sobre seus males, mas sim por ela beirar o esgotamento de seus recursos. Os empréstimos da Grande Guerra, usurários em sua quase totalidade, aceleraram intensamente esse processo.
O mundo moderno se organiza segundo o princípio de que o dinheiro, por sua própria natureza, gera dinheiro. Uma soma em dinheiro emprestada, segundo nosso sistema atual, tem o direito intrínseco à cobrança de juros. Trata-se de um falso princípio, tanto em termos econômicos quanto morais. Após arruinar Roma, vem-nos conduzindo ao nosso fim.
Suponhamos que um homem o procure e diga: “Há um terreno junto ao meu excelente para construção. Se eu construir ali uma boa casa, conseguirei alugá-la com lucro líquido de 100 libras esterlinas ao ano, já considerado o pagamento de todas as taxas, impostos e reparos. Só que não disponho de capital para construir a casa. O terreno custará 50 libras e a casa, 950. O senhor me emprestará mil libras, de forma que eu compre o terreno, construa a casa e desfrute dessa pequena renda?” Sua provável resposta seria: “E o que receberei em troca? Certo, o senhor ficará com suas 100 libras ao ano. Mas só as conseguirá graças ao meu auxílio, o que me confere o direito à participação nos lucros. Havemos de dividi-los meio a meio. O senhor retira sua parte de 50 libras ao ano pelo conhecimento da oportunidade e por seu trabalho e me repassa as outras 50. Elas representam 5% do meu investimento, e ficarei satisfeito”.

Pensamentos: Hilaire Belloc - As heresias sobrevivem pelas verdades que guardam

Hilaire Belloc no centro ao lado de seu amigo Gilbert Keith Chersterton.
"A negação completa de um sistema não é uma heresia e não tem o poder de uma heresia. É da existência da heresia deixar intacta uma grande parte da estrutura que ataca. Por isso, ela pode seguir dirigindo-se aos fiéis e continuar a afetar suas vidas os desviando das suas características originais. É por isso que se diz das heresias que"elas sobrevivem pelas verdades que guardam"."

As grandes heresias, Ed. Permanência, 2009.