ANNUS SACERDOTALIS

ANNUS SACERDOTALIS
2009 - 2010

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AO CLERO ROMANO

Quinta-feira, 9 de Novembro de 1978

Não nos iludamos julgando servir o Evangelho se tentamos "diluir" o nosso carisma sacerdotal mediante um interesse exagerado pelo vasto campo dos problemas temporais, se desejamos "laicizar" o nosso modo de viver e de proceder, se apagamos até os sinais exteriores da nossa vocação sacerdotal. Devemos conservar o sentido da nossa singular vocação, e tal "singularidade" deve exprimir-se também no nosso vestuário exterior. Não nos envergonhemos! Sim, estejamos no mundo! Mas não sejamos do mundo!

http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1978/documents/hf_jp-ii_spe_19781109_clero-roma_po.html

"O oficio a que vos destinou a sagrada ordenação é o de continuar e completar a obra da redenção"

"O oficio a que vos destinou a sagrada ordenação é o de continuar e completar a obra da redenção"
"tão excelsa dignidade exige dos sacerdotes que correspondam com a máxima fidelidade ao seu altíssimo ofício. Destinados a promover a glória de Deus na terra, a alimentar e engrandecer o corpo místico de Cristo, é absolutamente necessário que se elevem tanto pela santidade dos costumes, que por meio deles por toda parte se difunda o "bom odor de Cristo" (2Cor 2,15)" Pio XII

16 de novembro de 2009

A santidade do sacerdote, à luz de São Tomás de Aquino

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

1. Do que depende a eficácia do sacerdócio

Considerando com profundidade a essência da ordenação sacerdotal e do próprio ministério sagrado, São Tomás nos ensina que o presbítero deve tender à perfeição mais ainda que um religioso ou uma freira. E de fato, para se entender tal ensinamento, basta ter bem presente o alto grau de santidade que a Celebração Eucarística e a santificação das almas exigem de um ministro,[1] como nos adverte o Divino Mestre: "Vós sois o sal da terra; mas, se o sal se torna insosso, com que se salgará? Não servirá para nada senão para jogá-lo fora a fim de que os homens o pisem. Vós sois a luz do mundo" (Mt 5, 13-14a). Diante dessa enorme responsabilidade, compreende-se o motivo pelo qual não poucos santos tiveram receio da ordenação sacerdotal.

No mesmo sentido, afirma o famoso Pe. Garrigou-Lagrange: "É necessário que o sacerdote se santifique para que a graça sacramental da Ordem frutifique dia a dia".[2]

Esta questão é de candente atualidade, pois o sucesso maior ou menor de seu ministério em favor dos fiéis pode depender, de modo particular, do próprio sacerdote. Sabemos que os Sacramentos operam com eficácia pelo poder de Cristo, produzindo a graça por si mesmos. No entanto, sua penetração será maior ou menor conforme as disposições interiores de quem os recebe. E aqui entra um elemento subjetivo no qual tem importante papel a ação pastoral do ministro ordenado, pois sua virtude, seu fervor, seu empenho em pregar o Evangelho, em última análise, a santidade de sua vida — a qual é, por sua vez, uma forma excelente e insubstituível de pregação —, podem influenciar os fiéis a receberem os Sacramentos com melhores disposições, beneficiando-se, assim, mais de seus frutos.

Será este o fator de maior relevância no bom desempenho do ministério sacerdotal?

A propósito, na Carta para a Proclamação do Ano Sacerdotal, de 16 de junho p.p., o Santo Padre Bento XVI ressalta que o sacerdote deve aprender de São João Maria Vianney "a sua total identificação com o próprio ministério", e acrescenta:

Em Jesus, tendem a coincidir Pessoa e Missão: toda a Sua ação salvífica era e é expressão do Seu "Eu filial" que, desde toda a eternidade, está diante do Pai em atitude de amorosa submissão à Sua vontade. Com modesta mas verdadeira analogia, também o sacerdote deve ansiar por esta identificação. Não se trata, certamente, de esquecer que a eficácia substancial do ministério permanece independentemente da santidade do ministro; mas também não se pode deixar de ter em conta a extraordinária frutificação gerada do encontro entre a santidade objetiva do ministério e a subjetiva do ministro.

Por essa razão, deseja o Papa, neste Ano Sacerdotal, "favorecer esta tensão dos sacerdotes para a perfeição espiritual da qual, sobretudo, depende a eficácia de seu ministério".[3]

É este ponto — de máxima importância para a vida da Igreja, mormente para a missão de anunciar o Evangelho e de santificar os fiéis — que pretendemos abordar nestas páginas: a relação entre eficácia do ministério sacerdotal e santidade pessoal de quem o exerce.

Recorreremos primordialmente ao ensinamento perene de São Tomás de Aquino, cuja importância e atualidade têm sido sublinhadas pelos Papas mais recentes, entre os quais Paulo VI. "É a primeira vez que um Concílio Ecumênico [o Vaticano II] recomenda um teólogo, e este é São Tomás", afirma ele na Carta Lumen Ecclesiæ.[4] E mais adiante, continua:

É tão poderoso o talento do Doutor Angélico, tão sincero seu amor à verdade e tão grande sua sabedoria ao indagar as verdades mais elevadas, ao explicá-las e relacioná-las com profunda coerência, que sua doutrina é instrumento eficacíssimo, não só para salvaguardar os fundamentos da fé, mas também para dela extrair, de modo útil e seguro, frutos de sadio progresso.[5]

2. A santidade do sacerdote, uma exigência

Desde a Antiga Lei, a pessoa do sacerdote é cercada de uma dignidade que requer vida exemplar. Assim, no Livro do Levítico, encontramos duplo apelo à santidade. De um lado, a mando de Deus, Moisés exorta o povo de Israel a buscar a perfeição: "Fala a toda a comunidade dos israelitas e dize-lhes: Sede santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo" (Lv 19, 1). Mas aos sacerdotes a santidade é exigida com mais razão, porque são eles a oferecer os sacrifícios, fazendo o papel de intermediários entre Deus e o povo. Apresentar-se manchado pelo pecado diante do Altíssimo, para exercer o múnus sacerdotal, seria uma afronta ao Criador. "Os sacerdotes [...] serão santos para o seu Deus e não profanarão o seu nome, porque oferecem ao Senhor os sacrifícios consumidos pelo fogo, o pão de seu Deus. Serão santos" (Lv 21, 5-6).

E dado que o Antigo Testamento é figura do Novo, compreende-se a necessidade de, na Nova Aliança, a santidade atingir um grau muito maior. Isto transparece da teologia tomista, a qual nos apresenta o ministro ordenado como tendo sido elevado a uma dignidade régia, no meio dos outros fiéis de Cristo, pois O representa e, em diversas ocasiões, age in persona Christi. Impossível, portanto, imaginar-se título superior. E como ele é chamado a ser mediador entre Deus e os homens, além de guia destes para as coisas divinas, deve necessariamente ser-lhes superior em santidade, embora todos os batizados sejam também chamados à perfeição.

Santo Afonso de Ligório, em sua obra A Selva, fundamentando-se na autoridade de São Tomás, esboça a figura do sacerdote como aquele que, por seu ministério, supera em dignidade os próprios Anjos, e por isso está obrigado a uma maior santidade, dado o seu poder sobre o Corpo de Cristo. De onde, conclui o fundador dos Redentoristas, a necessidade de uma dedicação integral do sacerdote à glória de Deus, de tal sorte que brilhe aos olhos do Senhor em razão da sua boa consciência e aos olhos do povo por sua boa reputação.[6]

Sobre isso ainda, recorda a doutrina tomista a necessidade de os ministros do Senhor terem uma vida santa: "In omnibus ordinibus requiritur sanctitas vitæ".[7] Devem, portanto, sobretudo eles, serem o mais possível semelhantes ao próprio Deus: "Sede perfeitos assim como o vosso Pai Celeste é perfeito" (Mt 5, 48). E prossegue:

Diz Dionísio: "Assim como as mais sutis e mais puras essências, penetradas pelo influxo dos esplendores solares, derramam sobre os outros corpos, à semelhança do Sol, sua luz supereminente, assim também, em todo ministério divino, ninguém pretenda ser guia dos outros sem ser, em toda a sua maneira de comportar-se, muito semelhante a Deus". […] Por isso, a santidade de vida é requerida na Ordem como necessidade de preceito. Mas não para a validade do sacramento.[8]

São conhecidas as invectivas de Nosso Senhor contra os escribas e fariseus. O que Jesus recriminava a estes homens, tão conhecedores da Lei, era justamente o fato de não viverem aquilo que ensinavam. Pretendendo aparecer aos olhos dos outros como exímios cumpridores dos preceitos mosaicos, não tinham reta intenção, nem verdadeiro amor a Deus. Seus ritos externos não eram acompanhados pela compunção de coração. Para que os sacerdotes da Nova Aliança não caiam no mesmo desvio, convém lembrar o comentário às Sentenças de Pedro Lombardo, onde São Tomás afirma: "Aqueles que se entregam aos ministérios divinos obtêm uma dignidade régia e devem ser perfeitos na virtude, conforme se lê no Pontifical".[9]

Daí que na homilia sugerida no rito de ordenação presbiteral esteja incluída esta tocante exortação:

Tomai consciência do que fazeis, e ponde em prática o que celebrais, de modo que, ao celebrar o mistério da morte e ressurreição do Senhor, vos esforceis por mortificar o vosso corpo, fugindo aos vícios, para viver uma vida nova.[10]

A caridade de Cristo O levou a oferecer a vida em holocausto no patíbulo da Cruz, pela redenção da humanidade. Também aqueles que são chamados a ser mediadores entre Deus e os homens, devem exercer o seu ministério por amor, como ensina o Aquinate:

Compete aos prelados da Igreja desejar, no governo dos seus subalternos, servir somente a Cristo, por cujo amor apascentam Suas ovelhas, como diz São João: "Se Me amas, apascenta as Minhas ovelhas" (21, 15). Cabe-lhes também dispensar ao povo as coisas divinas, conforme lê-se em I Cor 9, 17: "É uma missão que me foi imposta"; sob este ponto de vista, são mediadores entre Cristo e o povo.[11]

O sacerdote, portanto, é chamado a um grau de santidade especial: "Pela Ordem sacra, o clérigo é consagrado aos ministérios mais dignos que existem, nos quais ele serve o Cristo no Sacramento do altar, o que exige uma santidade interior muito maior do que a exigida no estado religioso".[12]

Também no Concílio Vaticano II se adverte que os sacerdotes, "imitando as realidades com que lidam, longe de serem impedidos pelos cuidados, perigos e tribulações do apostolado, devem antes por eles elevar-se a uma santidade mais alta".[13] O exercício de seu múnus sacerdotal será, pois, o melhor instrumento de santificação: "cresçam no amor de Deus e do próximo com o exercício do seu dever cotidiano".[14]

Para a santificação e eficácia do sacerdote, a graça sacramental tem um papel determinante, pois dá-lhe oportunidade de receber auxílios sobrenaturais mais intensos para cumprir sua função de santificar as almas e, ao mesmo tempo, unir-se de forma mais íntima a Cristo Sacerdote, não só instrumentalmente, em decorrência do caráter sacramental, mas configurando-se a Cristo pela caridade, de modo a poder dizer com S. Paulo: "Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim" (Gl 2, 20).

3. O sacerdote é modelo para os fiéis

Sendo visto pelos fiéis como alguém escolhido por Deus para guiá-los, o ministro ordenado deve ser sempre exemplo preclaro de virtude, como recomenda o Apóstolo a seu discípulo Tito: "Mostra-te em tudo modelo de bom comportamento: pela integridade na doutrina, gravidade, linguagem sã e irrepreensível, para que o adversário seja confundido, não tendo a dizer de nós mal algum" (Tit 2, 7-8).

Com efeito, uma conduta irrepreensível, inflamada de caridade, dando testemunho da beleza da Igreja e da veracidade da mensagem evangélica, falará muito mais profunda e eficazmente às almas do que o mais lógico e eloquente dos discursos: "O ornato do mestre é a vida virtuosa do discípulo, como a saúde do enfermo redunda em louvor do médico. [...] Se apresentarmos nossas boas obras,
será louvada a doutrina de Cristo".[15]

Por vezes, se interpreta a obrigação de dar exemplo, de ser modelo, num sentido minimalista: o de apenas cumprir mais ou menos os próprios deveres, no mesmo nível de todos os outros. E assim, pelo critério da mediania, procura-se contentar a própria consciência. Ora, quem é chamado a servir de exemplo para os outros não deve se comparar com os que lhe são iguais, mas com aqueles que alcançaram o mais alto grau de perfeição. Cristo, sim, é o verdadeiro modelo do ministro consagrado. É com Ele que o sacerdote deve configurar-se, não só pelo caráter sacramental, mas também pela imitação de Suas perfeições, de forma que nele os fiéis possam ver outro Cristo. Só assim estes se sentirão atraídos pelo bom exemplo de seu pastor e guia.

Dada a natureza social do homem, a boa reputação decorrente da prática da virtude leva os outros à imitação. Assim, quanto mais semelhança com Cristo encontrarem os fiéis nos ministros de Deus, tanto mais facilmente se deixarão guiar por eles. E, portanto, mais eficaz será o seu ministério, conforme comenta São Tomás:

Ora, essa estima aos prelados da Igreja é necessária para a salvação dos fiéis; se estes não os reconhecerem como ministros de Cristo, não lhes obedecerão como a Cristo, segundo lê-se na epístola aos Gálatas (4, 14): "Recebestes-me como um Anjo de Deus, como o próprio Cristo Jesus". Ainda mais, se não os reconhecerem como dispensadores, se recusarão a receber deles os dons, contrariamente ao que diz o mesmo Apóstolo: "O que eu dei, se alguma coisa dei, foi por amor a vós, na pessoa de Cristo" (II Cor 2, 10).[16]

Essa estima pelos sacerdotes, tão importante para a plena eficácia de seu múnus, depende também da veneração que os fiéis tenham pelo sacerdócio enquanto tal. S. Francisco de Assis, por exemplo, que nunca quis receber a ordenação presbiteral, por considerá-la uma dignidade excessiva para si, tinha pelo sacerdócio tal respeito que chegava a oscular o lugar por onde passava um sacerdote.

4. A sacralidade do sacerdote

Um elemento conexo ao bom exemplo é a proporcionada respeitabilidade da qual deve cercar-se o ministro de Deus — não só pelo comportamento inatacável, mas também pela postura, pelo modo de ser e pelo traje — para que sua atuação exerça mais influência na alma dos fiéis.

Com efeito, mesmo em nossos dias, a experiência cotidiana nos revela como é impressionante a admiração devotada ao religioso ou sacerdote que se apresenta como tal. Essa respeitabilidade, que a uns pode parecer artificialidade, acaba sendo um valioso auxílio para o próprio ministro, pois contribui para ele ter sempre presente em seu espírito a alta dignidade de que foi investido, a qual imprimiu caráter em sua alma, por toda a eternidade. Além de ser, ao mesmo tempo, uma salutar proteção contra incontáveis seduções do mundo.

Não obstante serem necessárias essas atitudes externas, assim como os cuidados razoáveis para preservar a imagem venerável do sacerdote aos olhos dos fiéis, nada contribui tanto para tal como a autêntica santidade de vida. Santidade cuja fonte o sacerdote encontra principalmente na Celebração Eucarística.

5. A Santa Missa, fonte da santidade sacerdotal

Neste Ano Sacerdotal, iniciado por ocasião dos 150 anos da morte do Santo Cura d'Ars, modelo de sacerdote, vem a propósito lembrar sua entranhada e ardorosa devoção pela Santa Missa:

Se conhecêssemos o valor da Missa, morreríamos. Para celebrá-la dignamente, o sacerdote deveria ser santo. Quando estivermos no Céu, então veremos o que é a Missa, e como tantas vezes a celebramos sem a devida reverência, adoração, recolhimento.[17]

No decreto Presbyterorum ordinis, o Concílio Vaticano II, em perfeita harmonia com a doutrina tomista, resume de forma admirável a centralidade da Eucaristia na vida espiritual do sacerdote, como seu principal meio de santificação. Logo no início, afirma que a Ordem dos presbíteros foi constituída por Deus "para oferecer o Sacrifício, perdoar os pecados e exercer oficialmente o ofício sacerdotal em nome de Cristo a favor dos homens".[18] Recorda, em seguida, que é através do ministério ordenado que o sacrifício espiritual dos fiéis se consuma em união com o sacrifício de Cristo, oferecido na Eucaristia de modo incruento e sacramental. E afirma que "para isto tende e nisto se consuma o ministério dos presbíteros. Com efeito, o seu ministério, que começa pela pregação evangélica, tira do sacrifício de Cristo a sua força e a sua virtude".[19] O que equivale a dizer que o sacerdote vive para a Celebração Eucarística e é dela que deve haurir a força para progredir na prática da virtude.

Prosseguindo, ressalta o decreto conciliar: "Os restantes sacramentos, porém, assim como todos os ministérios eclesiásticos e obras de apostolado, estão vinculados com a sagrada Eucaristia e a ela se ordenam.[20] Com efeito, na santíssima Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja,[21] isto é, o próprio Cristo".[22] E mesmo quem é chamado a uma vocação missionária, não pode esquecer que a própria evangelização deve ter como meta o Sacramento do altar e dele nutrir-se: "A Eucaristia aparece como fonte e coroa de toda a evangelização".[23] Pois no Sacrifício Eucarístico se exerce a própria obra da Redenção.[24]

Garrigou-Lagrange sintetiza com precisão esta doutrina:

O sacerdote deve considerar-se ordenado principalmente para oferecer o Sacrifício da Missa. Em sua vida, este Sacrifício é mais importante que o estudo e as obras exteriores de apostolado. Com efeito, o seu estudo deve ordenar-se ao conhecimento cada vez mais profundo do mistério de Cristo, supremo Sacerdote, e o seu apostolado deve derivar da união com Cristo, Sacerdote principal.[25]

Royo Marín, ao comentar a exortação do Pontifical Romano, feita pelo Bispo aos ordenandos, afirma com ênfase que a Santa Missa é "a função mais alta e augusta do sacerdote de Cristo".[26] E, conhecedor das múltiplas ocupações pastorais de um sacerdote, que podem facilmente desviá-lo do cerne da sua vocação de mediador entre Deus e os homens, reforça a mesma ideia, logo em seguida, com inflamadas palavras de zelo sacerdotal:

Esta é a função sacerdotal por excelência, a primeira e mais sublime de todas, a mais essencial e indispensável para toda a Igreja, e ao mesmo tempo fonte e manancial mais puro de sua própria santidade sacerdotal. É-se sacerdote, antes de tudo e sobretudo, para glorificar a Deus mediante o oferecimento do Santo Sacrifício da Missa.[27]

Talvez receoso de que suas palavras não penetrem suficientemente o espírito de seus leitores, irmãos no sacerdócio, Royo Marín enumera algumas ocupações legítimas que poderiam servir de pretexto a uma diminuição do zelo eucarístico, insistindo de novo na centralidade do Sacrifício da Missa:

Por cima de todas as demais atividades sacerdotais, por cima inclusive de seu trabalho pastoral voltado para as almas, deverá colocar sempre em primeiro plano a digna e fervorosa celebração do Santo Sacrifício do Altar. Tudo quanto o distraia e estorve nesta função augusta deverá ser afastado pelo sacerdote com energia, lançando-o para longe de si. Sua função primária, ante a qual devem ceder todas as demais atividades, consiste — repetimos — na celebração do Santo Sacrifício da Missa, através do qual recebe Deus uma glorificação infinita.[28]

Cabe salientar ainda que a Eucaristia não só confere a graça, como também a aumenta naquele que a recebe com as devidas disposições:

O Sacramento da Eucaristia tem por si mesmo o poder de conferir a graça. [...] A graça cresce e a vida espiritual aumenta, toda vez que se recebe realmente este Sacramento [...] para que o homem seja perfeito em si mesmo pela união com Deus.[29]

Bento XVI, ao tratar da vocação e espiritualidade sacerdotais, sob uma perspectiva pastoral, afirma que é por meio da oração que o sacerdote apascenta suas ovelhas. Os presbíteros, diz ele, têm "uma vocação particular para a oração, em sentido fortemente cristocêntrico: isto é, somos chamados a 'permanecer' em Cristo". E, continua:

O nosso ministério é totalmente ligado a este "permanecer" que equivale a rezar, e deriva dele a sua eficiência. [...] A Celebração Eucarística é o maior e mais nobre ato de oração, e constitui o centro e a fonte da qual também as outras formas recebem a "linfa": a Liturgia das Horas, a adoração eucarística, a lectio divina, o santo Rosário, a meditação.[30]

Novamente, encontramos a Eucaristia no centro da vida sacerdotal.

6. A eficácia do ministério sacerdotal

Como vimos anteriormente, a santidade de vida do sacerdote, como exemplo para os fiéis de Cristo, é possante elemento para conduzi-los à perfeição. Bem ressalta Dom Chautard que a um sacerdote santo corresponde um povo fervoroso; a um sacerdote fervoroso, um povo piedoso; a um sacerdote piedoso, um povo honesto; a um sacerdote honesto, um povo ímpio.[31] Grande é, pois, o papel da virtude do ministro, para o êxito de seu ministério.

No que respeita à aplicação do valor da Santa Missa, com finalidade propiciatória, é que se pode falar de sua eficácia subjetiva, dependente das disposições de quem a celebra e daqueles aos quais ela é aplicada, como explica São Tomás:

Na satisfação atende-se mais à disposição de quem oferece do que à quantidade da oferenda. Por isso, o Senhor observou, a respeito da viúva que oferecia duas moedinhas, que ela "depositou mais que todos os outros". Ainda que a oferenda da Eucaristia, quanto à sua quantidade, seja suficiente para satisfazer por toda a pena, contudo ela tem valor de satisfação para quem ela é oferecida ou para quem a oferece, conforme a medida de sua devoção, e não pela pena inteira.[32]

A respeito deste trecho do Doutor Angélico, Robert Raulin faz o seguinte comentário: "Seria perniciosa ilusão acreditar que o ofertante está dispensado do fervor, sob pretexto de que Cristo, oferecendo-Se na Missa, satisfez plenamente por todos os pecados do mundo".[33]

Outro argumento, ainda, apresenta o Aquinate, para vincular a eficácia da Eucaristia à devoção dos que se beneficiam do valor infinito deste augusto Sacramento:

A Paixão de Cristo traz proveito a todos para a remissão da culpa, a obtenção da graça e da glória, mas o efeito só é produzido naqueles que se unem à Paixão de Cristo pela fé e caridade. Assim, também este Sacrifício, que é o memorial da Paixão do Senhor, só produz efeito naqueles que se unem a este Sacramento pela fé e caridade. [...] Aproveitam, no entanto, mais ou menos, segundo a medida de sua devoção.[34]

A especial obrigação dos sacerdotes em trilhar o caminho da santidade é reafirmada no decreto Presbyterorum ordinis. "Estão, porém, obrigados por especial razão a buscar essa mesma perfeição visto que, consagrados de modo particular a Deus pela recepção da Ordem, se tornaram instrumentos vivos do sacerdócio eterno de Cristo".[35] E de seu aperfeiçoamento pessoal, ensina o mencionado documento conciliar, decorrerá maior ou menor abundância de frutos de sua ação pastoral:

A santidade dos presbíteros muito concorre para o desempenho frutuoso do seu ministério; ainda que a graça de Deus possa realizar a obra da salvação por ministros indignos, todavia, por lei ordinária, prefere Deus manifestar as suas maravilhas por meio daqueles que, dóceis ao impulso e direção do Espírito Santo, pela sua íntima união com Cristo e santidade de vida, podem dizer com o Apóstolo: "se vivo, já não sou eu, é Cristo que vive em mim" (Gl 2, 20).[36]

Ante esta realidade, o sacerdote tem dois grandes deveres. Um para consigo mesmo e outro para com o povo, pois ambos se beneficiam dos frutos da Santa Missa, especialmente o celebrante, conforme o grau de fervor ou devoção.[37]

Segundo alguns teólogos, este fruto especialíssimo da Santa Missa, destinado ao sacerdote, é maior do que o destinado aos demais participantes do Sacrifício Eucarístico, ou àqueles aos quais se aplica o seu valor. É neste manancial inesgotável da misericórdia de Deus que cada ministro ordenado deve ir buscar as melhores graças para a sua santificação, assim como a daqueles que lhe estão confiados:

Por causa do poder do Espírito Santo, que pela unidade da caridade comunica os bens dos membros de Cristo entre si, acontece que o bem particular presente na Missa de um bom sacerdote se torna frutuoso para outras pessoas.[38]

Dessa maneira, corresponderá ele à altíssima dignidade de seu ministério, segundo dizia o Santo Cura d'Ars:

Sem o sacramento da Ordem, não teríamos o Senhor. Quem O colocou ali naquele sacrário? O sacerdote. Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do ingresso na vida? O sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua peregrinação? O sacerdote. Quem há de prepará-la para comparecer diante de Deus, lavando-a pela última vez no sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote. E se esta alma chega a morrer [pelo pecado], quem a ressuscitará, quem lhe restituirá a serenidade e a paz? Ainda o sacerdote. […] Depois de Deus, o sacerdote é tudo! […] Ele próprio não se entenderá bem a si mesmo, senão no Céu.[39]

7. Conclusão

Chegados ao termo deste trabalho, em vez de recapitular a matéria tratada, como seria de praxe no melhor estilo acadêmico, parece-nos mais filial para com a Cátedra de Pedro recordar aqui, a título de conclusão, alguns pontos importantes de documentos recentes do Magistério Pontifício sobre o sacerdócio.

Não deixa de ser comovedor que em sua última Carta aos Sacerdotes, no ano 2005, o Papa João Paulo II ― podendo já dizer como S. Paulo, pouco antes de consumar sua carreira terrena: "Quanto a mim, estou a ponto de ser imolado e o instante da minha libertação se aproxima" (II Tim 4, 6) — tenha desejado centrar esse documento sobre as palavras da Consagração, como querendo ressaltar que o ápice de sua vida sacerdotal se aproximava, com o oferecimento de seu próprio sacrifício, pela doação total da vida unida ao sacrifício de Cristo. Oferecimento recomendado pelo atual Pontífice na Carta para Proclamação do Ano Sacerdotal, citando estas palavras do Santo Cura d'Ars: "Como faz bem um padre oferecer-se em sacrifício a Deus, todas as manhãs!".

Com efeito, iniciava João Paulo II essa sua última Carta lembrando que "se toda a Igreja vive da Eucaristia, a existência sacerdotal deve a título especial tomar 'forma eucarística'. Por isso, as palavras da instituição devem ser, para nós, não apenas uma fórmula de consagração, mas uma 'fórmula de vida'".[40]

De suas profundas e comoventes considerações sobre a espiritualidade sacerdotal, convém ressaltar a que deriva do caráter salvífico do Sacrifício Eucarístico:

"Hoc est enim corpus meum quod pro vobis tradetur". O Corpo e o Sangue de Cristo são entregues para a salvação do homem, do homem todo e de todos os homens. É uma salvação integral e simultaneamente universal, porque não há homem — salvo livre ato de recusa — que esteja excluído da força salvadora do Sangue de Cristo.[41]

Mas, sublinha João Paulo II, o sacerdote é o primeiro a beneficiar-se desse poder salvífico, e isso impõe-lhe a obrigação de progredir nas vias da santidade:

Ao repetirmos, num silencioso recolhimento da assembléia litúrgica, as venerandas palavras de Cristo, nós, sacerdotes, tornamo-nos arautos privilegiados deste mistério de salvação. Mas como podemos sê-lo eficazmente, sem nos sentirmos nós mesmos salvados? Nós somos os primeiros cujo íntimo é alcançado pela graça [...] E isso obriga-nos a avançar no caminho da perfeição. De fato, a santidade é a manifestação plena da salvação. Só vivendo como salvados é que nos tornamos arautos credíveis da salvação.[42]

É indispensável, contudo, que o sacerdote, para salvar aqueles que lhe estão confiados, ofereça o seu próprio sacrifício, unido ao de Cristo, a exemplo de São Paulo: "Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por Seu corpo que é a Igreja" (Cl 1, 24). É dessa maneira que as palavras da Consagração se transformam em "fórmula de vida", como deu exemplo o Servo de Deus João Paulo II. Ensinamento este lembrado também por seu sucessor, Bento XVI: "As almas custam o Sangue de Cristo, e o sacerdote não pode dedicar-se à sua salvação se se recusa a contribuir com a sua parte para o 'alto preço' da Redenção".[43]

Antes de encerrar, não podemos deixar de evocar o papel insubstituível da Mãe de Deus na vida sacerdotal. "Quem pode, melhor do que Maria, fazer-nos saborear a grandeza do mistério eucarístico? Ninguém pode, como Ela, ensinar-nos com quanto fervor devemos celebrar os santos Mistérios e determo-nos em companhia do Seu Filho escondido sob as espécies eucarísticas".[44]

Ensina-nos este Papa tão mariano, na sua Encíclica Ecclesia de Eucaristia:

No "memorial" do Calvário, está presente tudo o que Cristo realizou na Sua Paixão e Morte. Por isso, não pode faltar o que Cristo fez para com Sua Mãe em nosso favor. De fato, entrega-Lhe o discípulo predileto e, nele, cada um de nós: "Eis aí o Teu filho". E de igual modo diz a cada um de nós também: "Eis aí a tua mãe" (cf. Jo 19, 26-27).

Neste Ano Sacerdotal, procuremos especialmente estar unidos ao sacrifício de Cristo com o espírito de Maria, Ele que fez de toda a Sua existência uma Eucaristia antecipada, preparando-Se dia a dia para a entrega suprema no Calvário.

 
 

 
 

Referências bibliográficas

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________. Homilia no Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2009/documents/hf_ben-xvi_hom_20090503_ordinazioni-sacerdotali_po.html > Acesso em: 14/7/2009.

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CHAUTARD, OCSO, Jean-Baptiste. A Alma de todo o apostolado. Porto: Civilização, 2001.

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LIGÓRIO, Santo Afonso Maria de. A Selva. Porto: Fonseca, 1928.

RAULIN, Robert. In: AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2006.

ROYO MARÍN, OP, Antonio. Teología de la Perfección Cristiana. 11. ed. Madrid: BAC, 2001.


 


 

22 de outubro de 2009

Procurando Padre Jean Nicolas Grou

Estou procurando Padre Grou, mestre de espiritualidade.
Como nosso blog destina-se à espiritualidade peço ajuda de todos se encontrarem livros dele em espanhol ou em português, avise-nos.

Laus DEO

29 de agosto de 2009

El secretario de la Pontificia Academia de Teología considera necesario que el Papa aclare los puntos oscuros del Vaticano II


El secretario de la Pontificia Academia de Teología y director de la revista de Teología Divinitas, monseñor Brunero Gherardini (en la foto), ha pedido recientemente al Santo Padre Benedicto XVI que clarifique definitivamente los aspectos oscuros del Sínodo Vaticano II. La tesis la desarrolla en su último libro Concilio Vaticano II: Una discusión abierta, prologado por el arzobispo Malcom Ranjith, antiguo secretario de la Congregación para el Culto Divino. En él afirma que el Santo Padre debería hacer uso del ejercicio vigilante y responsable de su ministerio como Sucesor de Pedro. Gherardini afirma que el espíritu sobrenatural está presente en el Concilio Vaticano II, gracias a su profesión de Fe de las grandes verdades teológicas; no obstante aboga por una clarificación definitiva de todos los contenidos del Concilio. La voz del que es uno de los canónigos de la Basílica del Vaticano en Roma, se une a otras de reconocido prestigio que pululan por el orbe católico y que se están levantado cada vez con más fuerza en este sentido.De hecho, monseñor Gherardini propone una acción papal que iría en la línea del omnia reparare (repararlo todo) y que podría ser realizada "por medio de un gran documento magisterial que sería recordado por la Historia como un signo y un testimonio del ejercicio vigilante y responsable de su ministerio como sucesor de Pedro".


Y se despacha a gusto en relación al Sínodo ecuménico: "Si alguien me preguntase si el modernismo finalmente entró en la misma estructura de los documentos del Concilio, al punto de que los mismos padres estuvieran infectados por él, mi respuesta sería sí y no. No, porque el espíritu sobrenatural no está ausente del Concilio, gracias a su abierta profesión de fe en la Trinidad, en la Encarnación, en la redención universal del Logos, junto con la profunda convicción del llamado universal a la santidad, la aceptación y la fe en el efecto santificador de los sacramentos, su consideración particularmente elevada del culto litúrgico y eucarístico, el rol santificador de la Iglesia y una devoción teológicamente nutrida a María. Pero mi respuesta es también sí, porque pueden encontrarse ideas modernistas en varios documentos del Concilio, notablemente en Gaudium et Spes, y porque un grupo de pocos pero prominentes padres conciliares eran abiertamente favorables a los antiguos y a los nuevos modernistas. Ellos deseaban tener una Iglesia en peregrinación hacia la Verdad, como cualquier otro peregrino, un amigo y un aliado de todo investigador, aprobando incluso en el área de los estudios sacros, la misma metodología crítica aplicable a las demás ciencias. En breve, su Iglesia era un tipo de laboratorio de investigación, en lugar de ser una dispensadora de Verdades de lo alto".


fonte:sector católico

Carta aberta a Dom Fellay

Excelência Reverendíssima,

Não sei se esta “carta aberta” algum dia chegará a suas mãos. Eu a confio aos anjos, a fim de que eles a entreguem pessoalmente. Em outra ocasião eu já havia escrito um artigo tendo em mente a vossa Fraternidade; publiquei-o neste blog (foi meu primeiro post), e ele chegou milagrosamente ao destino: foi resumido pelos seus sites e definido “muito interessante”.
Desta vez me dirijo a V. Exa. porque sei que estão em curso os preparativos dos colóquios doutrinais com a Santa Sé, há muito solicitado por vós e finalmente, com a remissão da excomunhão, estabelecidos pelo Papa Bento XVI. Ao que me parece, V. Exa. já esteve em Roma para travar os primeiros contatos com a Congregação para a Doutrina da Fé.

Pessoalmente, sempre fui do parecer que não há necessidade de “colóquios” para a readmissão na comunhão da Igreja católica. A única coisa necessária, a meu ver, deveria ser a profissão de fé prevista pelos sagrados cânones. Uma vez que condividimos a mesma fé, deveremos estar em plena comunhão. Sobre o resto, que não está contido na profissão de fé, sustento que seja sempre possível discutir livremente, mas estando dentro, não fora da Igreja. A aceitação do Concílio, que se autodefiniu “pastoral”, não deveria, julgo eu, ser uma condição para a readmissão na comunhão eclesiástica. Estou de acordo que seja urgentíssima uma reflexão sobre o valor e a interpretação do Vaticano II; mas não me parece que isto deva ser objeto de uma tratativa entre a Santa Sé e a Fraternidade de São Pio X; parece-me sobretudo um problema que diz respeito à Igreja inteira. É por este motivo que propus muitas vezes neste blog que o próximo Sínodo dos Bispos seja dedicado à interpretação do Concílio.

Mas assim o é: ao que parece, seja da vossa parte, seja da parte da Sé Apostólica um esclarecimento sobre o Vaticano II é considerado como uma condição prévia para qualquer outro tipo de acordo. Daí a necessidade de “colóquios doutrinais”. Assim, visto que tais colóquios se darão, permita-me dar-lhe uns conselhos. Não porque presuma saber mais que V. Exa., mas somente para exprimir-lhe, em espírito de fraterna caridade, o que sinto neste momento delicado.

Antes de qualquer coisa, quando vier a Roma para discutir com a CDF, não venha nas vestes daquele que contesta tudo ou, pior, refuta o Concílio. Isto significaria a falência imediata de qualquer diálogo. Venha sobretudo como alguém que aceita o Vaticano II por aquilo que ele quis ser, e efetivamente foi, isto é, um concílio pastoral. Diga ao Cardeal Levada que a única coisa que vós rejeitais – e sobre isto estamos de acordo – é a absolutização e a ideologização do Concílio, não o Concílio enquanto tal. Diga-lhe que vós encontrais nos documentos do Vaticano II alguns textos ambíguos. Também neste ponto, o Cardeal Levada deverá concordar com V. Exa. O próprio Paulo VI achou ambíguo o tratamento da colegialidade episcopal feito pela Lumen gentium, tanto é verdade que sentiu necessidade de incluir naquela constituição uma “nota praevia”. Acrescente que, havendo ambiguidades nos textos conciliares, faz-se necessária uma obra de interpretação. Mas, por favor, não se apresente com a pretensão de ser V. Exa. a dar uma interpretação autêntica das passagens mais obscuras. Algo já foi feito (a mencionada “nota praevia”;a explicação do significado da expressão “subsistit in”), mas muito ainda resta a se fazer. O critério geral de tal interpretação já foi indicado por Bento XVI no discurso à Cúria Romana em 22 de dezembro de 2005: a hermenêutica da reforma em contraposição à hermenêutica da descontinuidade e da ruptura. E diga-lhe que vós, sobre isto, não apenas estais plenamente de acordo com o Santo Padre, mas desejais colocar-vos à sua completa disposição para ajudá-lo nesta obra de releitura do Concílio na corrente da ininterrupta tradição da Igreja.
Excelência Reverendíssima, estou seguro de que sobre o que escrevi até agora V. Exa. esteja de acordo até certa medida. Assim me parece pelo que percebo do tom de suas últimas intervenções, muito mais conciliadoras e abertas do que as de um tempo atrás. Mas sei também que se deve contar, no seio da Fraternidade, com posições mais maximalistas, que o advertem contra ser muito acessível nas relações com a Santa Sé. No meu modesto parecer, V. Exa. deveria fazer estes seus confrades perceberem que nada há a ganhar, neste momento, com o endurecimento sobre posições intransigentes. O Santo Padre já deu muitos passos em vossa direção; agora cabe a vós dar alguns passos em direção a ele.

Isto não significa ceder em vossos princípios; porque, se verdadeiramente tendes no coração o bem da Igreja, não há melhor lugar, para fazer valer estes princípios, que a própria Igreja. Permanecendo fora dela, vós deixaríeis a Igreja à mercê daquelas forças destrutivas que pouco a pouco estão levando-a ao colapso. Uma vez que vós continueis a refutar o Concílio, estas forças terão um bom pretexto para dizer: “Vedes? Eles estão fora da Igreja, porque rejeitam o Concílio; nós somos a verdadeira Igreja, porque aceitamos, defendemos e implementamos o Concílio”. Se também vós aceitásseis o Concílio, seriam surpreendidos; e num certo ponto se revelará quem é verdadeiramente católico e que não o é; quem interpreta o Concílio à luz da tradição e quem o interpreta ideologicamente, apelando a um pretenso “espírito” dele.

Isto não significaria de forma alguma trair a herança do Arcebispo Lefebvre. V. Exa. sabe melhor do que eu que o vosso Fundador participou do Concílio, dando uma notável contribuição para as discussões e para a elaboração dos seus documentos, que aprovou e assinou na sua totalidade. Como pode? Não se dava conta das ambiguidades neles contidas? Evidentemente esperava que se lhe pudesse dar uma interpretação ortodoxa. Foi somente quando viu que a interpretação e a aplicação do Concílio tornara-se monopólio dos modernistas que endureceu suas posições. Estou convencido de que, se tivesse visto que havia espaço na Igreja para continuar as suas batalhas no interior, não teria jamais chegado à ruptura com a Sé Apostólica. Agora que este espaço existe, e é o próprio Sumo Pontífice a oferecê-lo, me pareceria obtuso não desfrutar desta ocasião irrepetível. Trata-se de escolher permanecer no seio da Igreja e a partir dali desempenhar um papel, certamente difícil, mas precioso para a salvaguarda da tradição e para revitalização da própria Igreja; ou então preferir permanecer à margem ou ainda fora da Igreja, com o risco de transformar-se no ramo separado da videira, destinado a secar.

Excelência, perdoe-me se me permiti intervir sobre estas delicadas questões. Posso assegurar-lhe que, de minha parte, não há qualquer pretensão ou interesse, há apenas o desejo de ver o restabelecimento da plena comunhão na Igreja. A Igreja tem necessidade de vós e vós tendes necessidade da Igreja.

Aproveito a ocasião para confirmar-me, com sentimentos de distintos obséquios, de Vossa Excelência Reverendíssima

dev.mo

Pe. Giovanni Scalese, CRSP

Missionário Barnabita na Ásia

Fonte: Querculanus (blog do Padre Scalese)

Tradução: OBLATVS

28 de agosto de 2009

Ano Sacerdotal se dirige também aos sacerdotes que abandonaram ministério

Assegura o cardeal Tarcisio Bertone

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 27 de agosto de 2009 (ZENIT.org).- O Ano Sacerdotal é uma iniciativa com a qual Bento XVI quer que a Igreja volte a entrar em contato também com sacerdotes que abandonaram o ministério. Assim confirma o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado, em uma entrevista publicada esta semana pela edição italiana de L’Osservatore Romano, na qual o prelado revela inclusive como surgiu a ideia de convocar esta iniciativa.

“Lembro que, após o sínodo sobre a Palavra de Deus, na mesa do Papa havia uma proposta, já apresentada antes, de convocar o ano da oração, que em si estava bem unida à reflexão sobre a Palavra de Deus”, comenta.

No entanto, “os 150 anos da morte do Cura de Ars e a emergência dos problemas que afetaram tantos sacerdotes levaram Bento XVI a promulgar o Ano Sacerdotal”, revela.

Com esta iniciativa, afirma seu colaborador mais próximo, o Papa quer mostrar “uma atenção especial aos sacerdotes, às vocações sacerdotais” e promover “em todo o povo de Deus um movimento de crescente afeto e proximidade dos ministros ordenados”.

“O Ano Sacerdotal está suscitando um grande entusiasmo em todas as igrejas locais e um movimento extraordinário de oração, de fraternidade para com os sacerdotes e entre eles mesmos, além de promover a pastoral vocacional.”

“Além disso, está se robustecendo o tecido do diálogo, às vezes difícil, entre bispos e sacerdotes, e está crescendo uma especial atenção a favor de sacerdotes que foram reduzidos a uma condição marginal na ação pastoral.”

O cardeal Bertone afirma que este ano procura também “uma retomada de contato, de ajuda fraterna e, se possível, de voltar a unir-se com os sacerdotes que, por diferentes motivos, abandonaram o exercício do ministério”.

“Os santos sacerdotes que povoaram a história da Igreja não deixarão de proteger e de apoiar o caminho de renovação proposto por Bento XVI”, conclui.

4 de agosto de 2009

Expiação e Reparação

Diante de um tempo de tantos sacrilégios e profanações, nós católicos devemos nos erguer em reparação e expiação pelos pecadores.
Salvar Almas! Salvar almas! Salvar Almas!

Devemos sempre, antes de gritar os erros e lamentá-los, reparar, expiar.
Rezar mais que murmurar. Ensinar os simples mais que debater com quem não quer ouvir.

Que a Virgem nos ensine a silenciar e amar.

Laus DEO!

31 de julho de 2009

“Como bispo não posso me calar”. Excertos do livro “Dominus Est”, de Dom Athanasius Schneider

Consciente da grandeza e importância do momento da sagrada comunhão, a Igreja em sua bimilenária tradição procurou encontrar uma expressão ritual que pudesse testemunhar do modo mais perfeito sua fé, seu amor e seu respeito. Isto verificou-se quando, na esteira de um desenvolvimento orgânico, no Ocidente, a partir dos séc. VIII-IX, e no Oriente, já alguns séculos antes, a Igreja em todas as suas tradições litúrgicas começou a adotar o modo de distribuir as sagradas espécies eucarísticas diretamente na boca. Na tradição dos ritos latinos se ajuntou ainda o gesto de ajoelhar-se, uma expressão ritual própria do cristianismo ocidental. Este desenvolvimento se pode considerar como um fruto da espiritualidade e da devoção eucarística do tempo dos Padres da Igreja. Existem várias exortações ardentes dos Padres da Igreja sobre a máxima veneração, delicadeza e cuidado para com o Corpo eucarístico do Senhor, em particular a respeito dos fragmentos do pão consagrado. Quando se começou a notar que não existiam mais as condições que garantiam o cumprimento das exigências de máximo respeito e do caráter altamente sagrado do pão eucarístico, a Igreja, seja no Ocidente, seja no Oriente, com um admirável consenso e quase instintivamente percebeu a urgência de modificar o rito então vigente, isto é, passando da distribuição da comunhão na mão à distribuição na boca. A este desenvolvimento contribuiu igualmente um crescente aprofundamento da fé na presença real, que se expressou no Ocidente na praxe da adoração do SS. Sacramento solenemente exposto.

[...] Nos últimos decênios se difundiu em várias Igrejas locais do Rito latino (sobretudo no Ocidente) o uso de distribuir a comunhão na mão. A partir de uma análise serena e imparcial deste uso em muitíssimos lugares, se deve necessariamente constatar o que se segue: um dos momentos mais importantes e, portanto, mais sagrados e solenes da liturgia eucarística, como é a sagrada comunhão, torna-se sempre menos sacral e fonte de contínua profanação involuntária e até voluntária. Onde hoje mais se evidenciam as sombras na celebração eucarística e uma alteração do sentido do sagrado é precisamente o modo de distribuir a comunhão.

O modo da distribuição da comunhão na mão é realizado nos nossos dias infelizmente em condições históricas bastante desfavoráveis, quer dizer: notável diminuição da fé na presença real, do respeito e da sensibilidade pelo sagrado, mentalidade consumista, aproximação indiscriminada e incontrolável à sagrada comunhão, muitas vezes de todos os presentes na liturgia, também das pessoas não bem dispostas, não católicas e até não batizadas (um fenômeno que se verifica de maneira mais marcante nas celebrações de massa), e, enfim, um crescente fenômeno de profanações de hóstias consagradas por parte de grupos esotéricos e satânicos.

O próprio rito de distribuição na mão contribui, no hodierno contexto histórico, a uma progressiva e bastante difundida negligência com relação aos fragmentos, o que, juntamente com o não-uso da patena de comunhão, faz com que os fragmentos caiam por terra e se percam com grande facilidade. Assim acontece com freqüência, e sempre mais vem aumentando, que os fragmentos eucarísticos, as pérolas mais preciosas que existem sobre esta terra, são literalmente pisoteados nas igrejas católicas, sem os fiéis disso se aperceberem.

Como contrasta este fenômeno, minimizado ou silenciado por não poucos pastores da Igreja nos nossos dias, com a preocupação dos Padres da Igreja para que não se perdesse nem mesmo o mínimo fragmento do pão eucarístico!

[...]

Num tempo em que se dava a comunhão somente na boca e era prescrito até o uso da patena de comunhão, o Papa Pio XI ordenou a publicação da seguinte premente exortação:

“Na administração do sacramento eucarístico se deve mostrar um particular zelo, a fim de que não se percam os fragmentos das hóstias consagradas, já que em cada uma delas está presente o Corpo inteiro de Cristo. Por isso, tome-se o máximo cuidado para que os fragmentos não se separem fácilmente da hóstia e não caiam por terra, onde – horribile dictu! – se poderiam misturar com a sujeira e ser pisoteados com os pés”.

O grande Papa João Paulo II, já há 25 anos, falando exatamente do uso da comunhão na mão, constatou deploráveis faltas de respeito para com as Espécies eucarísticas, faltas que pesam… também sobre os Pastores da Igreja, que terão sido pouco vigilantes quanto à compostura dos fiéis em relação à Eucaristia.

[...]

São numerosos os exemplos das Igrejas locais, onde já se pratica há algum tempo a comunhão na mão, comprovando o fato inegável que este modo de distribuir o Corpo do Senhor produziu, em larga escala, um dano à vida espiritual da Igreja. Nos seus gestos, o rito hodierno não corresponde à praxe da Idade patrística, mas evoca mais facilmente a mentalidade consumista e anti-sacral do fim da década de 60, exatamente quando foi introduzido em alguns países da Europa setentrional, em desobediência às normas da Igreja, e em seguida, obtida a legitimação com uma maciça pressão sobre o Papa Paulo VI.

Prevendo realisticamente os danos espirituais desse uso, o Papa Paulo VI e a maioria do episcopado católico (do qual a grandíssima maioria participou do Concílio Vaticano II) julgaram não introduzí-lo. Pensando que não se poderia fazer parar este uso já difundido, o Papa Paulo VI o concedeu contra sua vontade.

Os prognosticados danos espirituais de um novo generalizado rito da comunhão na mão, indicados pela maioria dos bispos no ano de1968 e da Santa Sé na Instrução Memoriale Domini do ano de 1969, foram os seguintes:

• grande perigo de profanações e sacrilégios,

• negligência para com os fragmentos do pão consagrado,

• o fato que cada um toma o Corpo do Senhor com as suas mãos e dedos contribuirá a igualar o pão eucarístico ao pão comum,

• perda do caráter sagrado do gesto,

• falta de respeito,

• falsas opiniões sobre o sacramento eucarístico,

• dano à fé das crianças e das pessoas simples.

O Papa Paulo VI e a maioria do episcopado do ano de 1968 expressaram o juízo de que a comunhão na boca assegura e garante mais eficazmente o respeito, o caráter sagrado, o decoro, a fé na presença real e a devoção dos fiéis. O documento Memoriale Domini de 29 de maio de 1969, expressando o pensamento do Papa Paulo VI, fazia esta observação acertada:

“Uma mudança em coisa de tamanha importância, baseada numa tradição antiquíssima e venerável, não se refere somente à disciplina; poder-se-ia demonstrar fundado o receio de eventuais perigos derivados desta nova maneira de distribuir a Comunhão: o perigo, por exemplo, de diminuir o reverência para com o SS. Sacramento do altar, ou o perigo de uma sua profanação ou também de uma alteração da sã doutrina.”

O mesmo documento diz que se deve excluir qualquer impressão de que a consciência da Igreja cedeu no que diz respeito à fé na presença eucarística, como também qualquer perigo ou simplesmente aparência de perigo de profanação.

E numa carta da Secretaria de Estado ao episcopado católico, do dia 28/10/1968, se dizia que o novo rito de comunhão representava uma coisa grave em si mesma e nas suas conseqüências.

Os temores do Papa Paulo VI e da maior parte do episcopado católico dos anos 1968-1969 foram mais que fundados e encontraram plena confirmação na praxe do modo hodierno de distribuir a comunhão na mão. Este rito, visto sobre larga escala, produziu e continua infelizmente a produzir um dano espiritual não insignificante para a Igreja. E assim se dá uma situação contraditória e espiritualmente dolorosa na vida eucarística de muitas Igrejas locais: no momento da sagrada comunhão, que exige por sua natureza o máximo respeito, decoro, caráter sagrado, delicadeza, máxima vigilância, se verifica uma preocupante banalização do Santo dos Santos.

As tentativas de harmonizar ou minimizar este estado das coisas equivaleriam a fechar os olhos sobre a realidade. Já há mais de 20 anos, o Cardeal J. Ratzinger fez a seguinte constatação preocupante a respeito do momento da comunhão em vários lugares: “Nós não nos elevamos mais à grandeza do evento da comunhão, mas arrastamos o dom do Senhor para baixo, ao ordinário da livre disposição, à cotidianidade”.

Conseqüentemente, existe uma verdadeira urgência pastoral que exige uma modificação na situação atual da distribuição da sagrada comunhão. Levando em conta a dinâmica inata das coisas novas e mais cômodas a impor-se em proporções gerais e da pressão psicológica da “moda”, a comunhão na mão está suprimindo de fato sempre mais a comunhão na boca. Para que um fiel continue, em tais circunstâncias, a receber a comunhão na boca e ajoelhado, é verdadeiramente necessária uma grande maturidade espiritual e uma coragem não comum. A liberdade de escolha é, de fato, reduzida ao mínimo, como comprovam tantos testemunhos de fiéis. Não se deve negligenciar a intenção do Papa Paulo VI, expressa tão nitidamente no documento Memoriale Domini: “O Sumo Pontífice não julgou oportuno mudar o modo tradicional de distribuir a sagrada Comunhão aos fiéis. Portanto, a Sé Apostólica exorta ardentemente aos bispos, sacerdotes e fiéis a observar com amorosa fidelidade a disciplina em vigor”. Diante da milenar tradição de distribuir a comunhão na boca – fruto feliz de um desenvolvimento orgânico da fé e da piedade eucarística do primeiro milênio – essa inovação não trouxe uma verdadeira utilidade para a Igreja.

Dom Athanasius Schneider, ‘Dominus Est’

28 de julho de 2009

"Será que vou ver os padres de batina antes de morrer?"

Atravesando a rua em Copacabana, no Rio de Janeiro, um senhor de mais de oitenta anos de idade me disse comovido: "Por favor, não deixe de usar a batina! Peço a DEUS que o Papa Bento XVI faça algo para os padres usarem batina. Desculpe te parar assim, meu filho, mas é um colírio para os olhos ver seminarista e padres de batina!"
E mais uma vez disse: "É um colírio para os meus olhos! Será que vou ver os padres de batina antes de morrer? Já tenho mais de oitenta anos, sou Católico Apostólico Romano, gostaria muito que isso acontecesse...". Despediu-se e prometeu-me rezar pela minha vocação.

Não quero aqui sentimentalizar o uso do hábito eclesiástico. Não pretendo discutir a obrigação do mesmo. Apenas não pude conter o pedido comovido de um senhor de mais de oitenta anos.

No início do mês de Julho fui em missão para Barretos - SP (interior de SP), lá Padre André um sacerdote muito experimentado, conhecido por sua santidade, disse-me o mesmo; as palavras eram idênticas.

Acontece que S.S. Bento XVI nada precisa pedir. O Código já diz, as Cartas do Servo de DEUS João Paulo II e Bento XVI já nos dizem.

"Não nos iludamos julgando servir o Evangelho se tentamos "diluir" o nosso carisma sacerdotal mediante um interesse exagerado pelo vasto campo dos problemas temporais, se desejamos "laicizar" o nosso modo de viver e de proceder, se apagamos até os sinais exteriores da nossa vocação sacerdotal. Devemos conservar o sentido da nossa singular vocação, e tal "singularidade" deve exprimir-se também no nosso vestuário exterior. Não nos envergonhemos! Sim, estejamos no mundo! Mas não sejamos do mundo!"

Rezemos para que os Padres e Seminaristas voltem a usar o hábito eclesiástico.

Laus DEO!

11 de julho de 2009

A ABERTURA DO ANO SACERDOTAL

Caros Sacerdotes,

Um acontecimento extraordinário, assinalado pelo sopro do Espírito Santo, cheio de esperança, de alegria e de caridade pastoral. Assim foi a abertura do Ano Sacerdotal com o Santo Padre Bento XVI, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, durante a celebração das segundas Vésperas da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, no dia 19 de junho último. A Basílica estava repleta: participaram 32 Cardeais, muitos Bispos, Prelados, mas, sobretudo, uma multidão de sacerdotes, muitos religiosos e leigos. O clima era de intensa devoção, piedade e escuta do Senhor. Ao final das Vésperas, houve a Bênção Eucarística, precedida por uma expressiva adoração silenciosa. Realmente, um silêncio absoluto e orante difundiu-se em meio àquela multidão ajoelhada: era impossível não se comover profundamente e não sentir a forte presença de Jesus Cristo, o Bom Pastor, que confirma os seus sacerdotes e toda a Igreja.

Pouco antes da Oração das Vésperas, entrou em procissão na Basílica de São Pedro, a relíquia do coração de São João Maria Vianney, trazida de Ars. O Santo Padre, logo após o seu ingresso para iniciar a cerimônia, foi até a relíquia, fazendo uma significativa oração ao Santo Cura d’Ars, em favor dos sacerdotes.

Na homilia das Vésperas, o Papa falou da profunda relação existente entre o Sagrado Coração de Jesus, os sacerdotes e o Santo Cura d’Ars, apresentando-o como “modelo e protetor de todos nós sacerdotes, e, de modo particular, dos párocos”. Era evidente a alegria do Papa e como o seu rosto resplandecia. Todos os seus gestos eram muito acolhedores para com a assembléia, mas, ao mesmo tempo, transparecia a centralidade do grande mistério de Deus. Comentando um texto do profeta Oséias, disse: O coração de Deus estremece de compaixão! Na solenidade do Sagrado Coração de Jesus, a Igreja apresenta este mistério à nossa contemplação, o mistério do coração de um Deus que se comove e derrama todo o seu amor sobre a humanidade”. De maneira similar, o coração de cada sacerdote deve ser um coração que se comove diante das chagas e dos sofrimentos espirituais, morais e corporais dos seres humanos e de cada homem e mulher, e, por isso, um coração que versa todo o seu amor sobre a humanidade, a exemplo do Bom Pastor, Jesus. O Santo Cura d’Ars, durante a sua vida sacerdotal, era impulsionado por esta comoção e amor. Acrescenta o Papa: “Seu Coração divino apela então ao nosso coração; convida-nos a sair de nós mesmos e a abandonar nossas seguranças humanas para confiarmos Nele e, seguindo seu exemplo, a fazer de nós mesmos um dom de amor sem reservas”.

Dessa forma, o Papa nos impele, a nós sacerdotes, a não duvidarmos e a sermos fortes nesta doação “sem reservas”, no seguimento de Jesus como discípulos muito próximos a Ele, confiantes e prontos a segui-Lo para onde quer que nos conduza, desejosos de sermos semelhantes ao Senhor. Neste “sem reservas”, situa-se também a vida celibatária. Neste contexto, disse o Papa: “Se é verdade que o convite de Jesus a ‘permanecer em seu amor’ (cf. João 15, 9) dirige-se a todo batizado, na festa do Sagrado Coração de Jesus, Dia de Santificação Sacerdotal, este convite ressoa com maior força para nós, sacerdotes, em particular nesta tarde, solene início do Ano Sacerdotal, que convoquei por ocasião do 150º aniversário da morte do Santo Cura de Ars”.

O Santo Padre não poderia deixar de fazer referência ao triste fato dos sacerdotes que não são fiéis e, em alguns casos particulares, envolvidos em delitos muito graves. Assim afirmou: “Como esquecer que nada faz sofrer mais a Igreja, Corpo de Cristo, do que os pecados dos seus pastores, sobretudo daqueles que se convertem em “ladrões de ovelhas” (João 10, 1ss), seja porque as desviam com suas doutrinas privadas, seja porque as atam com laços de pecado e de morte? Também a nós, queridos sacerdotes, aplica-se o chamado à conversão e a recorrer à Misericórdia Divina, e igualmente devemos dirigir com humildade incessante a súplica ao Coração de Jesus para que nos preserve do terrível risco de causar dano àqueles a quem devemos salvar”.

Na conclusão de sua homilia, o Santo Padre nos estimula a buscar o caminho da santidade: “A Igreja tem necessidade de sacerdotes santos, de ministros que ajudem os fiéis a experimentar o amor misericordioso do Senhor e sejam suas testemunhas convictas”, e uma vez mais, volta a falar com grande amor ao nosso coração sacerdotal, da comoção que faz o coração de Deus estremecer. Um Deus que nos ama e quer nos salvar, uma comoção que também deve encher o coração de cada sacerdote: “Cultivemos, caros irmãos, esta mesma comoção”, “peçamos ao Senhor que inflame o coração de cada presbítero com aquela ‘caridade pastoral’ capaz de fundir seu “eu” pessoal no de Jesus sacerdote, para assim poder imitá-lo na mais completa auto-doação”.

Caros irmãos Sacerdotes, acolhamos com alegria e com determinação este Ano Sacerdotal e agradeçamos ao Senhor, que nos oferece este especial tempo de graça. A todos vós, as minhas mais sinceras felicitações e que Deus vos abençoe muito e sempre! Durante este ano especial, proponho-me de escrever-vos todos os meses. Muito obrigado!

Cardeal Cláudio Hummes

Arcebispo Emérito de São Paulo

Prefeito da Congregação para o Clero

Apóstolos por vocação - Do Ano Paulino ao Ano Sacerdotal: o fio condutor da missão

V. Ex.ª Rev.ma Dom Mauro Piacenza

Secretário da Congregação para o Clero

Na audiência concedida aos participantes da Assembléia Plenária da Congregação para o Clero, no dia 16 de março último, o Santo Padre Bento XVI proclamou um especial Ano Sacerdotal, que vai da próxima Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, no dia 19 de junho, à mesma celebração no ano de 2010. A Plenária da Congregação para o Clero teve como tema: “A identidade missionária do presbítero na Igreja, como dimensão intrínseca do exercício dos tria munera”. Naquele contexto, o Papa recordou o caráter indispensável da “tensão para a perfeição moral, que deve habitar cada coração autenticamente sacerdotal”.

Justamente pensando em “favorecer esta tensão dos sacerdotes para a perfeição espiritual da qual sobretudo depende a eficácia do seu ministério”, foi proclamado o especial Ano dedicado aos sacerdotes. O Ano Paulino, que se encerrará no próximo dia 29 de junho, passará ao Ano Sacerdotal o seu testemunho, em um providencial itinerário marcado pelo sinal da continuidade e do necessário aprofundamento de uma das “urgências” do nosso tempo: a missão.

No 150º aniversário do dies natalis de São João Maria Vianney, o Cura d’Ars, a Igreja se reúne em torno aos seus sacerdotes para redescobrir a sua presença fecunda e para proclamar, uma vez mais, com a alegria cristã, o seu essencial e ontologicamente distinto ministério, dentro da missão universal da Igreja, da qual todos os batizados fazem parte.

O Ano Sacerdotal, como querido pelo Santo Padre, não será um ano “reservado aos sacerdotes”, mas para toda a Igreja. Em cada um dos seus membros, ela é chamada a descobrir, à luz da tensão missionária que lhe é própria, a grandeza do dom que o Senhor quis deixar com o ministério sacerdotal. Recordou o Papa: “Se a inteira Igreja é missionária e se todo cristão, pela força do Batismo e da Confirmação, quase ex officio (cfr. CCC, 1305) recebe o mandato de professar publicamente a fé, o sacerdócio ministerial, também a partir deste ponto de vista, distingue-se ontologicamente, e não só de grau, do sacerdócio batismal, também chamado de sacerdócio comum” (Bento XVI, Discurso aos participantes da Plenária do Clero, 16-III-2009).

A força da missão nasce unicamente de um coração renovado pelo encontro com Cristo ressuscitado, como ocorreu com São Paulo. Um encontro no qual o Senhor Jesus não seja só conhecido de maneira entusiástica ou recebido intelectualmente, mas seja realmente acolhido como a extraordinária e fascinante “resposta do Pai” às aspirações do coração ferido do homem, do qual provém, na extraordinária presença humana e divina do Redentor, a única e adequada correspondência ao próprio eu, ao próprio humano e misterioso desígnio de salvação.

O coração de São Paulo, atingido pela beleza de Cristo, bem como o coração de São João Maria Vianney –, que no próximo dia 19 de junho será trazido à Basílica papal de São Pedro no Vaticano e exposto à veneração dos sacerdotes e fiéis leigos – são testemunhas da força arrasadora, da origem da missão eclesial.

O Ano Sacerdotal, celebrado em todas as Dioceses do mundo, deverá ser uma ocasião fecunda para redescobrir a identidade dos ministros sagrados que, por sua vez, encontra suas raízes no mandato apostólico e que “impele os sacerdotes a estar presentes e ser identificáveis e reconhecíveis quer pelo juízo de fé, quer pelas virtudes pessoais, quer também pelo hábito, nos âmbitos da cultura e da caridade, desde sempre no coração da missão da Igreja” (Id.).

Na fidelidade à ininterrupta tradição eclesial e na atenta escuta das profundas exigências do coração do homem, é preciso corresponder concretamente ao chamado bíblico – “Fortificai as mãos desfalecidas, robustecei os joelhos vacilantes” (Is. 35,3) – para que se possa continuar a afirmar, com verdade e convicção cheia de confiança “àqueles que têm o coração perturbado: Tomai ânimo, não temais! Eis o vosso Deus!” (Is. 35,4). Mostrar Deus ao mundo: esta foi a missão do Apóstolo Paulo, esta é a missão e o sentido mais profundo do ministério sacerdotal na Igreja para o mundo.

A missão – como bem sabia São Paulo, e foi vivida por São João Maria Vianney no seu próprio ministério de “participação” vicária – encontra o seu “conteúdo” e “método” em Cristo e na sua encarnação salvífica. A este propósito afirmou o Santo Padre: “No mistério da Encarnação do Verbo, no fato que Deus se fez homem como nós, encontra-se o conteúdo e o método do anúncio cristão”. Neste sentido, é urgente – com a contribuição da preciosa herança deixada pelo Ano Paulino, com aquela do próximo Ano Sacerdotal e com o aprofundamento constante da formação inicial e permanente do clero – afastar toda tentação de “descontinuidade”, redescobrindo a beleza e a harmonia da única história sagrada e salvífica de Deus com os homens, através do seu Corpo que é a Igreja e da unidade do ministério sacerdotal e apostólico que, ontem, hoje e sempre, na mesma Igreja, consiste em anunciar a Palavra de verdade, celebrar quotidianamente e com devoção a Eucaristia, em obediência ao mandamento do Senhor (Lc. 22,19), e de administrar o tesouro inestimável de graça da Divina Misericórdia.

A feliz e providencial iniciativa do Santo Padre de proclamar um Ano Sacerdotal, encontra a mais ampla, convicta e generosa adesão, primeiramente da Congregação para o Clero e, certamente, de todo o Episcopado mundial que vê, também nesta iniciativa, a ocasião propícia para realmente imprimir um novo vigor na mais urgente de todas as missões: a solicitude pelas vocações sacerdotais.

Portanto, será um Ano a ser vivido sob a insígnia da continuidade e do aprofundamento: continuidade em olhar com grande entusiasmo o chamado apostólico e a missão, e aprofundamento em especificar a missão, tendo como objetivo o ministério sacerdotal.