380. B) É, aliás, o que se resulta dos ensinamentos do divino Mestre. Durante os três da vida pública, a sua obra capital é a formação dos Doze: é a sua ocupação habitual. A pregação às turbas não é mais que um acessório, e, por assim dizer, um modelo da maneira como os discípulos deverão pregar. Daqui fluem as conclusões seguintes:
a) Os ensinamentos tão elevados sobre a bem-aventurança, a santidade interior, a abnegação, o amor de Deus e do próximo, a prática da obediência, humildade, mansidão e todas as demais virtudes, tantas vezes inculcadas no Evangelho, dirigem-se incontestavelmente a todos os cristãos que aspiram à perfeição, mas antes de tudo aos Apóstolos e seus sucessores: são eles, com efeito, os encarregados de ensinar aos simples fiéis estes graves deveres, pelo exemplo, mais ainda que pela palavra: é o que o Pontifical recorda aos diáconos: “Curate ut quibus Evangelium ore annuntiatis, vivis operibus exponatis”. Ora, não há ninguém que não reconheça que estes ensinamentos formam um código de perfeição, e de altíssima perfeição. Os sacerdotes são, pois, obrigados, por dever de estado, a aproximar-se da santidade.
381. b) É muito particularmente aos Apóstolos e sacerdotes que se dirigem estas exortações a mais elevada perfeição, contidas em muitas páginas do Evangelho: “Vós sois o sal da terra... vós sois a luz do mundo: Vos estis sal terrae... Vos estis lux mundi [Mt 15, 13-14]. A luz. De que se trata aqui, não é somente a ciência, é também e sobretudo o exemplo que ilumina e arrasta mais que a ciência: “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras, e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus: Sic luceat vestra coram hominibus, ut videant opera vestra bona, et glorificent Patrem vestrum qui in coelis est [Mt 5, 16]". É a eles também, e de modo especial, que se dirigem os conselhos, sobre a pobreza e a continência, porque, em virtude da sua vocação, são obrigados a seguir a Jesus Cristo mais de perto e até o fim.
382. c) Enfim, há uma série de ensinamentos que direta e explicitamente são reservados aos apóstolos e a seus sucessores [1]: são os que Ele ministra aos Doze e aos Setenta e dois, ao enviá-los a pregar na Judéia, e os que pronunciou na Última Ceia. Ora, estes discursos contêm um código de perfeição sacerdotal tão elevada que daí resulta para os sacerdotes um dever absoluto de tender incessantemente à perfeição. E, com efeito, eles deverão praticar o desinteresse absoluto, o espírito de pobreza e a pobreza efetiva, contentando-se do necessário, o zelo, a caridade, a dedicação completa, a paciência, a humildade no meio das perseguições que o esperam, a fortaleza para confessar a Cristo e pregar o Evangelho a todos e contra todos, o desapego do mundo e da família, o amor prático da Cruz, a abnegação completa.
383. Na Última Ceia dá-lhes aquele mandamento novo que consiste em amar os seus irmãos como Ele os amou, isto é, até à imolação completa; recomenda-lhes uma fé viva, uma confiança absoluta na oração feita em Seu nome; o amor de Deus manifestado no cumprimento dos preceitos; a paz da alma para receberem e gostarem dos ensinamentos do Espírito Santo; a união íntima e habitual com o próprio Jesus, condição essencial de santificação e apostolado; a paciência no meio das perseguições do mundo, que os odiará como odiou o Divino Mestre; a docilidade para com o Espírito Santo que os virá consolar nas tribulações; a firmeza na fé e o recurso à oração no meio das provações; numa palavra, as condições essenciais do que nós chamamos hoje a vida interior ou a vida perfeita. E termina por aquela oração sacerdotal, tão cheia ternura, em que pede ao seu Pai que guarde os seus discípulos como Ele próprio os guardou durante a sua vida mortal; que os preserve do mal, no meio desse mundo que eles devem evangelizar, e que os santifique em toda a verdade. Esta oração ele fez não somente pelos Apóstolos em pessoa, mas também por todos os que nele haviam de crer, afim de que eles sejam sempre unidos pelos laços da caridade fraterna, como são unidas as três Divinas pessoas, e sejam todos unidos a Deus e todos unidos a Cristo, para que o amor com que Vós me amastes esteja neles e eu também esteja neles.
Não é isto um programa completo da perfeição, traçado de antemão pelo Sumo Sacerdote, de quem somos representantes na terra? E não é consolador ver que Ele orou para que nós o possamos realizar?
384. 2º. É por isso que São Paulo se inspira deste ensino de Jesus, quando por seu turno descreve as virtudes apostólicas. Depois de haver advertido que os sacerdotes são dispensadores dos mistérios de Deus e seus ministros, embaixadores de Cristo, mediadores ente Deus e os homens, enumera nas Epístolas Pastorais as virtudes de que devem ser adornados os diáconos, os presbíteros e os bispos. Não lhes basta haverem recebido a graça da ordenação; devem ressuscitá-la, fazê-la reviver não seja caso que ela diminua: “Admoneo te ut resuscites gratiam quae est in te per impositionem manuum mearum” [2 Tm 1,6]. Os diáconos devem ser castos e púdicos, sóbrios, desinteressados, discretos e leais; devem saber governar a sua casa com prudência e dignidade. Mas perfeitos ainda devem ser os presbíteros e os bispos: a sua vida deve ser tal modo pura que sejam irrepreensíveis; devem, pois, combater com cuidado o orgulho, a ira, a intemperança, a cobiça, e cultivar as virtudes morais e teologais, a humildade, a sobriedade, a continência, a santidade, a bondade, a hospitalidade, a paciência, a doçura, e sobretudo a piedade, que é útil a tudo a fé e a caridade. É necessário até dar exemplo destas virtudes, e por conseqüência praticá-las em grau elevado: “In hominibus teipsum praebe exemplum bonorum operum” [Tt 2,7]. Todas estas virtudes supõem não somente certo grau de perfeição já adquirida, mas alem disso um esforço generoso e constante para a perfeição.