Fratres in unum

Um post no Forum Catholique traz algumas lições de civilidade e caridade cristã: com a morte da mãe do Padre Cottard, da Fraternidade São Pio X, a Fraternidade São Pedro abriu as portas de sua capela, na diocese de Dax, para que o mesmo padre celebrasse missa por sua alma. Curiosamente, além de mãe do Padre Cottard (um dos sacerdotes mais antigos da FSSPX), seu filho mais novo está no seminário de Witzgradbad, na Alemanha, da Fraternidade São Pedro.
Por sua vez, o bispo de Nice, Dom Louis Sankale, em visita pastoral a uma de suas paróquias, não deixou de visitar também a Fraternidade São Pio X. O site da própria diocese de Nice descreve a foto ao lado: “O sr. padre Moulin, da Fraternidade São Pio X, nos abre as portas da capela Santa Clara. Nós ali entramos pela primeira vez”.

SEMPRE TRABALHEI COM AMOR

Antes de mais nada, se queremos ser amigos do verdadeiro bem dos nossos alunos e levá-los ao cumprimento de seus deveres, é indispensável jamais vos esquecerdes de que representais os pais desta querida juventude. Ela sempre foi o terno objeto dos meus trabalhos, dos meus estudos e do meu ministério sacerdotal; não apenas meu, mas da cara congregação salesiana.

Quantas vezes, meus filhinhos, no decurso de toda a minha vida, tive de me convencer desta grande verdade! É mais fácil encolerizar-se do que ter paciência, ameaçar uma criança do que persuadi-la. Direi mesmo que é mais cômodo, para nossa impaciência e nossa soberba, castigar os que resistem do que corrigi-los, suportando os com firmeza e suavidade.

Tomai cuidado para que ninguém vos julgue dominados por um ímpeto de violenta indignação. É muito difícil, quando se castiga, conservar aquela calma tão necessária para afastar qualquer dúvida de que agimos para demonstrar a nossa autoridade ou descarregar o próprio mal humor.

Consideremos como nossos filhos aqueles sobre os quais exercemos certo poder. Ponhamo-nos a seu seviço, assim como Jesus, que veio para obedecer e não para dar ordens; envergonhemo-nos de tudo o que nos possa dar aparência de dominadores; e se algum domínio exercemos sobre eles, é para melhor servirmos.

Assim procedia Jesus com seus apóstolos; tolerava-os na sua ignorância e rudeza, e até mesmo na sua pouca fidelidade. A afeição e a familiaridade com que tratava os pecadores eram tais que em alguns causava espanto, em outros escândalo, mas em muitos infundia a esperança de receber o perdão de Deus. Por isso nos ordenou que aprendêssemos dele a ser mansos e humildes de coração.

Uma vez que são nossos filhos, afastemos toda cólera quando devemos corrigir-lhes as faltas ou, pelo menos, a moderemos de tal modo que pareça totalmente dominada.

Nada de agitação de ânimo, nada de desprezo no olhar, nada de injúrias nos lábios; então sereis verdadeiros pais se conseguirem uma verdadeira correção.

Em determinados momentos muito graves, vale mais uma recomendação a Deus, um ato de humildade perante ele, do que uma tempestade de palavras que só fazem mal a quem as ouve e não e não tem proveito algum para quem as merece.

São João Bosco – Dom Bosco (1815-1888), citado em: "Liturgia das Horas-vol III", págs.1225-1226, Ed.Vozes/Paulinas/Paulus/Ave-Maria, 1996.

Exemplo de colaboração entre bispos diocesanos e… a Fraternidade São Pio X.

Via FRATRES IN UNUM

(Summorum Pontificum Observatus) O distrito da Ásia da Fraternidade São Pio X organizou uma grande cruzada de Rosários pela defesa da vida nas Filipinas.
Para este objetivo, que ultrapassa em muito as disputas intra-eclesiais, ela buscou o apoio dos bispos diocesanos. Alguns deles aceitaram se associar e até mesmo se apresentaram diante das câmeras ao lado dos padres da FSSPX. Assim, vemos nos vídeos abaixo Dom Paciano Aniceto, presidente da Comissão Episcopal para a Família, intervindo ao lado do Padre Thomas Onoda, da FSSPX. Do mesmo modo, o Cardeal Ricardo Vidal, arcebispo de Cebu, promove esta cruzada ao lado do Padre Albert Ghella, da Fraternidade São Pio X.


Bento XVI: bem-aventuranças, programa de vida


Intervenção por ocasião do Ângelus
CIDADE DO VATICANO, domingo, 30 de janeiro de 2011 (ZENIT.org) - Apresentamos as palavras que Bento XVI dirigiu hoje, ao rezar a oração mariana do Ângelus junto a milhares de peregrinos reunidos na Praça de São Pedro.
* * *
Queridos irmãos e irmãs:

Neste quarto domingo do Tempo Comum, o Evangelho apresenta o primeiro grande discurso que o Senhor dirige ao povo, sobre as doces colinas ao redor do lago da Galileia. "Vendo as multidões - escreve São Mateus -, Jesus subiu à montanha e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se. E Ele começou a ensinar" (Mt 5, 1-2). Jesus, o novo Moisés, "assume a ‘cátedra da montanha" (Jesus de Nazaré, 2007) e proclama "bem-aventurados" os pobres de espírito, os que choram, os misericordiosos, os que têm fome e sede de justiça, os limpos de coração, os perseguidos (cf.  Mt 5, 3-10). Não se trata de uma nova ideologia, mas de ensinamento que procede do alto e que diz respeito à condição humana, que o Senhor, ao encarnar-se, quis assumir para salvar. Por esta razão, "o Sermão da Montanha é dirigido a todos, no presente e no futuro... e só pode ser compreendido e vivido no seguimento de Jesus, caminhando com Ele" (Jesus de Nazaré). As bem-aventuranças são um novo programa de vida para se livrar dos falsos valores do mundo e abrir-se aos verdadeiros bens presentes e futuros. Quando Deus conforta, sacia a fome de justiça, enxuga as lágrimas dos que choram, isso significa que, além de recompensar cada um de forma sensível, abre o Reino do Céu. "As bem-aventuranças são a transposição da cruz e da ressurreição na existência dos discípulos" (ibid.). Refletem a vida do Filho de Deus, que se deixa perseguir, desprezar até a sentença de morte para dar a salvação aos homens.

Um velho ermitão disse: "As bem-aventuranças são dons de Deus e devemos realmente agradecer por tê-las recebido e pelas recompensas que delas derivam, ou seja, o Reino do Céu na vida futura, o consolo aqui, a plenitude de todo bem e a misericórdia de Deus (...), quando a pessoa se converteu em imagem de Cristo sobre a terra" (Pedro de Damasco, emFilocalia, volumen 3, Turim 1985, p. 79). O Evangelho das bem-aventuranças é comentado na própria história da Igreja, a história da santidade cristã, porque - como escreve São Paulo - "o que para o mundo é loucura, Deus o escolheu para envergonhar os sábios, e o que para o mundo é fraqueza, Deus o escolheu para envergonhar o que é forte. Deus escolheu o que no mundo não tem nome nem prestígio, aquilo que é nada, para assim mostrar a nulidade dos que são alguma coisa" (1 Coríntios 1, 27-28). Por esta razão, a Igreja não tem medo da pobreza, do desprezo, da perseguição em uma sociedade frequentemente atraída pelo bem-estar material e pelo poder mundano. Santo Agostinho nos lembra que "o que ajuda não é sofrer desses males, mas suportá-los pelo nome de Jesus, não só com espírito sereno, mas inclusive com alegria" (De sermone Domini in monte, I, 5,13: CCL 35, 13).

Queridos irmãos e irmãs: invoquemos a Virgem Maria, a bem-aventurada por excelência, pedindo a força de buscar o Senhor (cf. Sofonias 2, 3) e de segui-lo sempre, com alegria, pelo caminho das bem-aventuranças.

[Tradução: Aline Banchieri.
© Libreria Editrice Vaticana]

Diurnale Romanum

Prezados amigos,
Salve MARIA!

Temos alguns Diurnale Romanum para os leitores que quiserem adquirir, uma forma reduzida do Breviarium Romanum, apenas em um volume e sem a oração da Matinas. Única língua: latim; segundo o Rito Extraordinário, com as principais orações: Laudes, Prima, Tértia, Sexta, Nona, Vésperas e Completas, esse nova edição em um volume foi preparada de acordo com as rúbricas do Motu Proprio "Rubricarum Instructum" do Bem-Aventurado João XXIII.


Abaixo algumas fotos do Diurnale Romanum, as fotos são somente ilustrativas, pois os que tenho estão selados:







Livros de capa dura costurado e de boa qualidade.

Esse volume apresenta os salmos no latim tradicional da Vulgata.

Quem estiver interessado favor entrar em contato neste email:

eric.ipsepaxnostra@hotmail.com

A verdadeira importância do Latim



Por Napoleão Mendes de Almeida, na sua Gramática Latina

1 - É de todo falso pensar que a primeira finalidade do estudo do Latim está no benefício que traz no aprendizado do Português. Vejamos, através de fatos e de pessoas, onde reside a primeira importância do estudo desse idioma.

Chegados ao Brasil, três eminentes matemáticos, de renome internacional - Gleb Wataghin, professor de Mecânica Racional e de Mecânica Celeste; Giácomo Albanese, professor de Matemática; e Luigi Fontapie, professor de Análise Matemática -, que vieram contratados para lecionar na Faculdade de Filosofia de S. Paulo (o professor Wataghin é considerado, no mundo inteiro, um dos maiores pesquisadores de raios cósmicos), cuidaram, logo após os primeiros meses de aula, de enviar um ofício ao então ministro da Educação, que na época cogitava de reformar o ensino secundário. Vejamos o que, mais de esperança que de desânimo, continha esse oficio.

"Chegados ao Brasil, ficamos admirados com o cabedal de fórmulas decoradas de Matemática com que os estudantes brasileiros deixam o curso secundário, fórmulas que na Itália (os três professores eram catedráticos de diferentes faculdades italianas) são ensinadas só no segundo ano de faculdade: ficamos, porém, chocados com a pobreza de raciocínio, com a falta de ilação dos estudantes brasileiros; pedimos a V. Excelência que, na reforma que se projeta, se dê menos Matemática e MAIS LATIM no curso secundário, para que possamos ensinar Matemática no curso superior."

2 - O professor Albanese costumava dizer - e muitas pessoas são disto prova - "Dêem-me um bom aluno de Latim, que farei dele um grande matemático".

3 - Outra prova de que é falso pensar que a primeira finalidade do Latim está no proveito que traz ao conhecimento do Português, posso aduzir com este fato comigo ocorrido.
Indo a visitar um amigo, encontrei-o a conversar com um senhor, de forte sotaque estrangeiro, que explicava as razões de certa modificação na planta de um prédio por construir; como, no decorrer da troca de idéias, tivesse por duas vezes proferido sentenças latinas, perguntei-lhe se havia feito algum curso especial de Latim.
- Curso especial de Latim? Não fiz, senhor.
- Mas o senhor esteve em algum seminário?
- Não, senhor; sou engenheiro.
- Percebo que o senhor é engenheiro; mas onde estudou Latim?
- Na Áustria.
- Quantos anos?
- Sete anos.
- Sete anos?! Todo o engenheiro austríaco tem sete anos de Latim?
- Sim, senhor; quem se destina a estudos superiores na Áustria estuda sete anos o Latim.

4 - É também inteiramente falso educadores, assim chamados porque dentro das lutas e ambições políticas ocuparam pastas de Educação ou, quando muito, escreveram livros de Psicologia Infantil - dizerem que - estas palavras foram proferidas numa sessão da Comissao de "Diretrizes e Bases do Ensino", comissão nomeada para cumprimento do artigo 5º, inciso XV, d, da Constituição Federal - "nos Estados Unidos da América do Norte, país que ninguém nega estar na vanguarda do progresso, não se estuda Latim".
Felizmente, nessa mesma reunião, a desastrada afirmação não ficou sem resposta; um dos membros da comissao não se fez esperar: "Como não se estuda? É facil provar; peçamos de diversos estabelecimentos norte-americanos - de diversos, porque a programação do ensino secundário aí nao é a única como no Brasil - o programa, que veremos a verdade". Dias e dias decorreram, e nada de programas; interrogado, o "educador" respondeu que não tinham chegado; um dia, porém - não sei de quem foi maior a distração - o defensor do Latim examina uma gaveta, esquecida aberta, e aí vê, guardados ou escondidos, os programas solicitados, e em todos eles o Latim rigorosamente exigido.

Esse "educador" é... presidente de uma seção estadual de partido político.

5 - Não encontra o pobre ginasiano brasileiro quem lhe prove ser o Latim, dentre todas as disciplinas, a que mais favorece o desenvolvimento da inteligência. Talvez nem mesmo compreenda o significado de "desenvolver a inteligência", tal a rudeza de sua mente, preocupada com outras coisas que não o estudo.

O hábito da análise, o espírito de observação, a educação do raciocínio dificilmente podemos, pobres professores, ou melhor, ditadores de pontos de exame, conseguir de um menino preocupado tão só com médias, com férias, com bolas, com revistas.

Muita gente há, alheia a assuntos de Educação, que se admira ver o Latim adotado em todas as séries ginasiais, mal sabendo que ensinar não é ditar e que educar não é ensinar. É ensinar dar independência de pensamento ao aluno, fazendo com que de per si progrida: o professor é guia. É educar incutir no menino o espírito de análise, de observação, de raciocínio, capacitando-o a ir além da simples letra do texto, de simples conteúdo de um livro, incentivando-o, animando-o. No fazer do menino de hoje o homem de amanhã está o trabalho educacional do professor.

6 - Quando o aluno compreender quanta atenção exige o Latim, quanto lhe prendem o inteleto e lhe deleitam o espírito as várias formas flexionais latinas, a diversidade de ordem dos termos, a variedade de construções de um período, terá de sobejo visto a excelente cooperação, a real e insubstituível utilidade do Latim na formação do seu espírito e a razão de ser o Latim obrigatório nos países civilizados.

Ser culto nao é conhecer idiomas diversos. Nao é o conhecimento do Inglês nem do Francês que vem comprovar cultura no individuo. Tanto marinheiro, tanto mascate, tanto cigano há a quem meia dúzia de idiomas são familiares sem que, no entanto, possuam cultura.

Não é para falar o Latim que o ginasiano estuda esse idioma. Para aguçar seu intelecto, para tornar-se mais observador, para aperfeiçoar-se no poder de concentração de espírito, para obrigar-se à atenção, para desenvolver o espírito de análise, para acostumar-se à calma e à ponderação, qualidades imprescindíveis ao homem de ciência, é que o ginasiano estuda esse idioma.

7 - Muita gente indaga a razão da fatuidade, da leviandade, da aridez intelectual da geração moça de hoje. É que, tendo aprendido a ler pelo método analítico, tão prático e fácil, julga o menino que a disciplina que prática e facilidade no aprendizado não contiver não lhe trará proveito, senão tédio e perda de tempo. Acostumado a tudo assimilar com facilidade no curso primário, esbarra o aluno no ginásio com a obrigação de pensar, e ele estranha, e ele se abate, e ele se rebela.

O menino que no curso primário era o primeiro da classe passa para lugar inferior no ginásio; perda de inteligência, difererença de idade? Não: falta de hábito de pensar. O que no curso primário estava em quinto, em décimo lugar, passa no ginásio às primeiras colocações; aquisição de inteligência? Também não: pensamento mais demorado, mais firme por isso mesmo, sobrepuja agora os colegas de intelecto mais vivo, vivo porém tão só para as coisas objetivas e de evidência.

Raciocinar é, partindo de idéias conhecidas, diferentes, chegar a uma terceira, desconhecida, e é o Latim, quando estudado com método, calma e ponderação, o maior fator para aguçar o poder de raciocínio do estudante, tonando-lhe mais claras e mais firmes as conclusões.

8 - O que é certo, inteiramente certo, é não conhecerem os homens que nos representam no Congresso o que é educação, o que é cultura. Fato ocorrido muito recentemente vem prová-lo:

Discorrendo sobre a necessidade de nova reforma de ensino, um deputado citava as disciplinas inúteis nos diversos anos do curso secundário, quando é apoiado por um colega, que acrescenta: "O Latim para as meninas".

Para este herói, o Latim é inútil para as meninas, porque elas não vão rezar missa: é a única justificação que até agora pude entrever nesse tão infeliz aparte. Às meninas, pobrezinhas, porque ensinar-lhes Latim se não vão ler breviários?

Por quê esse "para as meninas"? E porquê, pergunto, não é também inútil para os meninos? Que distinção cultural faz esse deputado entre menino e menina? Que quer ele para elas? Aulas de arte culinária? Aulas de corte e costura? Pretende dizer que as suas meninas não devem cursar o ginásio ou quer com isso afirmar que o Latim só interessa a padres?

Por que é o Latim repudiado

9 - A quem conhece o regime de estudos de um seminário torna-se dispensável toda e qualquer crítica ao atual programa de Latim. A quem não conhece não será demais dizer que nos seminários não existe programa de Latim... Existe é estudo de Latim, com seis horas semanais, existe é consciência do que se faz. Em que seminário já se ouviu falar em "sintaxe do verbo?" Pois assim está no atual programa, no último ano clássico. Procure-se, agora, em todo o programa, verba timendi, verba declarandi, verba voluntatis, verba impediendi, orações infinitivas, orações condicionais etc.; nada disso se encontra. Porquê então programa?

Ou se divide a matéria, ou seja, ou ela é realmente programada pelas séries ou então programa não se faz. Se o programa na lexeologia pede qui, quae, quod, descendo a uma discriminacão quase cômica, partilhando dessa forma a matéria, como falar depois, retumbantemente, em "periodo composto", em "discurso indireto", em "emprego dos modos e dos tempos nas orações subordinadas"?

10 - Com todos os erros de que está eivado o programa de Latim, o descalabro se torna ainda maior quando se considera que uma portaria, faz isso alguns anos, reduziu o número de aulas semanais de três para duas; modificaram o programa? Não: continua o mesmo, com todas as incongruências, deficiências e disparates.

É de tal forma pedida a parte gramatical e tão poucas as horas de aula exigidas que não vejo possibilidade de traduzirem nossos alunos os autores exigidos nas diversas séries, a menos deseje o professor provar ao seus discípulos que o Latim é intraduzível.

Considere-se ainda que pessoas existem a lecionar Latim mais acanhadas de equilíbrio mental do que de capacidade didática, pessoas que, na primeira aula, isto dizem: "Eu sei que vocês não vão aprender Latim" - "Eu sou contra o Latim na primeira série". "Eu sou cego", "Eu não sei porque os meus alunos não aprendem", "Eu não sei ensinar Latim" - é que deveriam confessar aos alunos esses traões.

11 - Preocupação nefasta para o ensino do Latim é a da tradução de autores latinos. Dar a alunos sem conhecimento de princípios essenciais do Latim trechos para traduzir é dar-lhes pedradas, é dar-lhes cacetadas. Nem Eutrópio, Nem Fedro, nem César previram portarias ministeriais; nem Ovídio, nem Vigílio, nem Horácio escreveram em Latim para ginasianos brasileiros que nem sequer sabem o que é complemento agente, o que é ablativo absoluto, o que é sujeito acusativo; nem Publílio Siro, nem Valério Máximo escreveram em Latim para estudantes brasileiros, quer meninos quer meninas, que nem do idioma pátrio têm aulas diárias, para meninos ou para meninas que nem sabem o que é objeto direto, o que é complemento circunstancial, o que é predicado nominal, o que é aposto.

Consequência dessa impossibilidade é darem certos professores irresponsáveis a tradução já pronta para que os alunos a decorem, fato por si bastante para provar ou a incompetência do professor, ou o erro do programador, ou a convivência de ambos no desbarato do ensino em nossa terra.

Como dar autores se nem o essencial de gramática é possível ministrar? Desafiando qualquer colega a dar toda a matéria, que se exige no atual programa, em quatro anos de duas minguadas aulas semanais, penso apoiá-lo no seu desânimo com o deprimente espetáculo de decadência e de despautério educacionais a que em nossa pátria vimos assistindo.

12 - Com lacunas de toda a sorte, o Latim tornou-se ainda mais antipatizado, seu ensino passou a ser ainda mais dificultado com a introdução, mormente em estados do Sul, e de maneira especial em S. Paulo, da pronúncia restabelecida, galicamente chamada pronúncia restaurada. Apedrejados e vergastados como se já não bastasse, nossos pirralhos ginasianos passaram a ser torturados por ex-alunos universitários que de faculdades de Filosofia saem cientes de Latim mas incientes de didática, rapazes e moças que, tão preocupados em mostrar sabença, passam os quatro anos de ginasio a ensinar a tal pronúncia e se esquecem de ensinar Latim.

"Para nós - são palavras de eminente educador, padre Augusto Magne - o que interessa no Latim é sua literatura, sua virtude formadora do espírito. Desviar o estudo do Latim, para a especialização em questiúnculas de pronúncia reconstituída é desvirtuar aquela disciplina e tirar-lhe seu poder formador para recair no eruditismo balofo, pretensioso e estéril."

Por que não ensinam na faculdade de Filosofia de S. Paulo a pronunciar o português à lusitana, se a pronúncia de um idioma deve ser a dos seus clássicos? Precisamente aií está a explicação da pronúncia novidadeira do Latim; quem a introduziu em S. Paulo foi um professor lusitano que, achando mais fácil ensinar o Latim pela pronúncia da Alemanha que pela de Portugal, impingiu-a aos alunos da faculdade, que agora teimam em pretender passá-la às nossas crianças.

Se nao é para falar Latim que um ginasiano vai aprendê-lo, muito menos deve estudá-lo para pronunciar mais à alemã que à portuguesa, tirando do Latim até a propria utilidade para o vernáculo.

Método

13 - Se não há ginasiano que estude com gosto o Latim, professor de Latim tampouco há que deixe de lastimar a pobreza de conhecimentos do vernaculo em seus discípulos. Vendo na deficiência de conhecimento dos principios fundamentais de análise lógica do período português a causa principal desse desajustamente é que me pus a redigir este curso, mostrando ao aluno o que realmente dificulta o aprendizado do Latim e fazendo com que, através de questionários e de exercícios muito graduados, demonstre conhecimento do essencial e suficientemente necessário ao estudo desse idioma.

Como obrigar um aluno a decorar a conjugação total de um verbo se ele não sabe o que é particípio presente, o que é gerúndio, o que é supino? Como dar-lhe a voz passiva se ele não sabe o que é complemento agente? De que lhe adianta saber muito bem de cor o qui, quae, quod se não sabe analisar um relativo em frase portuguesa?

Asas de um pássaro, o Latim e o Português devem voar juntos: tal é a minha convicção, tal a minha preocupação em todas as lições.

(*) O gramático Napoleão Mendes de Almeida assinou este texto como prefácio do livro Noções Fundamentais da Língua Latina - Curso completo de Latim para as 4 séries ginasiais (edição Saraiva, São Paulo/SP, 1959 - 9ª edição). O texto foi transposto para a forma digital pela internauta Loire Rodrigues de Lima, que o apresentou na lista de debates do MNDLP.

Catequese do Papa: Joana d’Arc e o “doce nome” de Jesus

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 26 de janeiro de 2011 (ZENIT.org) - Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Sala Paulo VI para a audiência geral.

***

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje, eu gostaria de falar de Joana d'Arc, uma jovem santa do final da Idade Média, morta aos 19 anos, em 1431. Esta santa francesa, citada muitas vezes no Catecismo da Igreja Católica, é particularmente próxima de Santa Catarina de Sena, padroeira da Itália e da Europa, de quem falei em uma recente catequese. São, de fato, duas jovens mulheres do povo, leigas e consagradas na virgindade, duas místicas comprometidas, não no claustro, mas em meio às realidades mais dramáticas da Igreja e do mundo na sua época. São, talvez, as figuras mais características dessas "mulheres fortes" que, no final da Idade Média, carregaram sem medo a grande luz do Evangelho nas complexas vicissitudes da história. Poderíamos colocá-la ao lado das santas mulheres que permaneceram no Calvário, perto de Jesus crucificado e de Maria, sua Mãe, enquanto os apóstolos tinham fugido, e o próprio Pedro havia negado Jesus três vezes. A Igreja, nesse período, vivia a profunda crise do Grande Cisma do Ocidente, que durou quase 40 anos. Quando Catarina de Sena morreu, em 1380, havia um Papa e um antipapa; quando Joana nasceu, em 1412, havia um Papa e dois antipapas. Junto a esta laceração no seio da Igreja, havia contínuas guerras fratricidas entre os povos cristãos da Europa, a mais dramática das quais foi a interminável "Guerra dos Cem Anos", entre a França e a Inglaterra.

Joana d'Arc não sabia ler nem escrever, mas pode ser conhecida no fundo de sua alma graças a duas fontes de valor histórico excepcional: os dois Processos a que foi submetida. O primeiro, Processo de Condenação (PCon) contém a transcrição de numerosos e longos interrogatórios a Joana durante os últimos meses de sua vida (fevereiro-maio de 1431) e inclui as palavras da santa. O segundo, Processo de Nulidade da Condenação, ou de "reabilitação" (PNul), contém o depoimento de cerca de 120 testemunhas oculares de todos os períodos da sua vida (cf. Procès de Condamnation de Jeanne d'Arc, 3 vol. e Procès en Nullité de la Condamnation de Jeanne d'Arc, 5 vol., ed. Klincksieck, Paris l960-1989).

Joana nasceu em Domrémy, uma pequena cidade situada na fronteira entre a França e Lorena. Seus pais eram camponeses prósperos, conhecidos por todos como cristãos muito bons. Deles, ela recebeu uma boa educação religiosa, com uma influência notável da espiritualidade do Nome de Jesus, ensinada por São Bernardino de Sena e difundida na Europa pelos franciscanos. Ao Nome de Jesus sempre se une o Nome de Maria e, assim, no contexto da religiosidade popular, a espiritualidade de Joana é profundamente cristocêntrica e mariana. Desde a infância, ela demonstra uma grande caridade e compaixão para com os pobres, doentes e todos os que sofrem, no contexto dramático da guerra.

De suas próprias palavras, sabemos que a vida religiosa de Joana amadurece como experiência a partir da idade de 13 anos (PCon, I, p. 47-48).Através da "voz" do arcanjo São Miguel, Joana sente-se chamada pelo Senhor a intensificar sua vida cristã e também a comprometer-se, em primeira pessoa, na libertação do seu povo. Sua resposta imediata, o seu "sim", é o voto de virgindade, com um novo empenho na vida sacramental e na oração: participação diária na Missa, Confissão e Comunhão frequentes, longos momentos de oração silenciosa diante do Crucificado ou diante da imagem de Nossa Senhora. A compaixão e o compromisso da camponesa francesa diante o sofrimento de seu povo tornaram-se mais intensos devido à sua relação mística com Deus. Um dos aspectos mais originais da santidade desta jovem é precisamente este vínculo entre experiência mística e missão política. Depois dos anos de vida oculta e de amadurecimento interior, chega o biênio breve, mas intenso, da sua vida pública: um ano de ação e um ano de paixão.

No início de 1429, Joana começa a sua obra de libertação. Vários depoimentos mostram a jovem, de apenas 17 anos, como uma pessoa muito forte e determinada, capaz de convencer homens inseguros e desanimados. Superando todos os obstáculos, encontra o Delfim da França, futuro rei Charles VII, que em Poitiers a submete a um exame por parte de alguns teólogos da Universidade. Seu julgamento é positivo: não veem nela nada de errado, apenas uma boa cristã.

Em 22 de março de 1429, Joana dita uma carta importante ao rei da Inglaterra e aos seus homens, que assediam a cidade de Orléans (Ibid., p. 221-222). Sua proposta é de verdadeira paz, na justiça entre os dois povos cristãos, à luz dos nomes de Jesus e Maria, mas esta proposta é rejeitada e Joana deve se engajar na luta pela libertação da cidade, que acontece em 8 de maio. O outro destaque de sua ação política é a coroação do rei Charles VII em Reims, em 17 de julho de 1429. Durante um ano inteiro, Joana vive com os soldados, realizando entre eles uma verdadeira missão de evangelização. Há muitos testemunhos de sua bondade, sua coragem e extraordinária pureza. É chamada por todos - e ela mesma se define - como "a donzela", ou seja, a virgem.

A paixão de Joana começa em 23 de maio de 1430, quando é presa pelos seus inimigos. Em 23 de dezembro, é conduzida à cidade de Rouen. Lá, leva-se a cabo o longo e dramático Processo de Condenação, que começa em fevereiro de 1431 e termina em 30 de maio, com a fogueira. É um processo grande e solene, presidido por dois juízes da igreja, o bispo Pierre Cauchon e o inquisidor Jean Le Maistre, mas, na verdade, foi totalmente conduzido por um grande grupo de teólogos da famosa Universidade de Paris, envolvidos no processo como conselheiros. Eles são eclesiásticos franceses que, tendo tomado a decisão política oposta à de Joana, têm a priori uma opinião negativa sobre sua pessoa e sobre sua missão. Este processo é uma página comovente da história da santidade e também uma página iluminadora sobre o mistério da Igreja, que, nas palavras do Concílio Vaticano II, é "ao mesmo tempo santa e sempre necessitada de purificação" (LG, 8). É o encontro dramático entre esta santa e seus juízes, que são eclesiásticos. Joana é acusada e julgada por eles, até chegar a ser condenada como herege e enviada à morte horrível da fogueira. Ao contrário dos santos teólogos que haviam iluminado a Universidade de Paris, como São Boaventura, São Tomás de Aquino e o Beato Duns Scotus, de quem já falei em algumas catequeses, esses juízes são teólogos a quem falta a caridade e a humildade necessárias para ver nessa jovem a ação de Deus. Vêm à mente as palavras de Jesus segundo as quais os mistérios de Deus se revelam a que tem o coração das crianças, enquanto permanecem ocultos aos estudiosos e sábios que não têm humildade (cf. Lc 10, 21). Assim, os juízes de Joana são radicalmente incapazes de compreendê-la, de ver a beleza de sua alma: não sabiam que estavam condenando uma santa.

A apelação de Joana à decisão do Papa, em 24 de maio, foi rejeitada pelo tribunal. Na manhã do dia 30 de maio, ela recebeu pela última vez a Santa Comunhão na prisão e logo depois foi levada ao suplício na praça do mercado velho. Pediu a um dos sacerdotes que colocasse na frente da fogueira uma cruz da procissão. Assim morre Joana, vendo Jesus Crucificado e pronunciando muitas vezes e em voz alta o Nome de Jesus (PNul, I, p. 457, cf. Catecismo da Igreja Católica, 435). Quase 25 anos depois, o Processo de Nulidade, aberto sob a autoridade do Papa Calisto III, termina com uma sentença solene que declara a condenação nula (7 julho de 1456; PNul, II, p 604-610). Este longo processo, que inclui o depoimento de testemunhas e juízos de muitos teólogos, todos favoráveis à Joana, destaca a sua inocência e perfeita fidelidade à Igreja. Joana d'Arc foi canonizada em 1920, por Bento XV.

Queridos irmãos e irmãs, o Nome de Jesus, invocado pela nossa santa até os últimos momentos da sua vida terrena, foi como a respiração da sua alma, como o bater do seu coração, o centro de toda a sua vida. O "mistério da caridade de Joana d'Arc", que tanto fascinou o poeta Charles Péguy, é esse amor total a Jesus e aos demais, em Jesus e por Jesus. Esta santa compreendeu que o Amor abraça toda a realidade de Deus e do homem, do céu e da terra, da Igreja e do mundo. Jesus esteve sempre em primeiro lugar durante toda a sua vida, segundo sua belíssima afirmação: "Nosso Senhor é o primeiro a ser servido" (PCon, I, p. 288, cf. Catecismo da Igreja Católica, 223).

Amá-lo significa obedecer sempre à sua vontade. Ela afirmou com total confiança e abandono: "Eu me confio ao meu Deus Criador, eu o amo com todo meu coração" (ibid., p. 337). Com o voto de virgindade, Joana consagra de forma exclusiva toda a sua pessoa ao único amor de Jesus: é a sua "promessa feita ao nosso Senhor de proteger bem a sua virgindade de corpo e de alma" (ibid., p. 149-150). A virgindade da alma é o estado de graça, valor supremo, para ela mais precioso que a vida: é um dom de Deus que ela recebeu e protegeu com humildade e confiança. Um dos textos mais conhecidos do primeiro processo tem a ver com isso: "Interrogada sobre se sabe se está na graça de Deus, responde: ‘Se não estou, Deus nela me ponha: se estou, Deus nela me guarde'" (ibid., p. 62, cf. Catecismo da Igreja Católica, 2005).

Nossa santa viveu a oração como uma forma de diálogo contínuo com o Senhor, que ilumina também seu diálogo com os juízes e lhe confere paz e segurança. Ela pediu com fé: "Dulcíssimo Deus, em honra à vossa santa Paixão, eu vos peço, se me amais, que me reveleis como devo responder a estes homens da Igreja" (ibid., p. 252). Joana vê Jesus como o "Rei do céu e da terra". Assim, em seu estandarte, Joana pintou a imagem de "Nosso Senhor, que sustenta o mundo" (ibid., p. 172), um ícone de sua missão política. A libertação do seu povo é uma obra de justiça humana, que Joana cumpre na caridade, por amor a Jesus. Sua vida é um belo exemplo de santidade para os leigos que trabalham na política, especialmente nas situações mais difíceis. A fé é a luz que guia cada escolha, como testemunhará, um século depois, outro grande santo, o inglês Thomas More. Em Jesus, Joana contempla também a realidade da Igreja, a "Igreja triunfante" do céu e a "Igreja militante" da terra. Em suas palavras, "de Jesus Cristo e da Igreja eu penso que são um só" (ibid., p. 166). Esta afirmação, citada no Catecismo da Igreja Católica (n. 795), tem um caráter verdadeiramente heroico no contexto do Processo de Condenação, na frente de seus juízes, homens da Igreja, que a perseguiram e condenaram. No amor de Jesus, Joana encontrou a força para amar a Igreja até o fim, mesmo no momento da condenação.

Lembro-me com carinho de como Santa Joana d'Arc teve uma profunda influência sobre uma jovem santa dos tempos modernos: Teresinha do Menino Jesus. Em uma vida completamente diferente, transcorrida na clausura, a carmelita de Lisieux se sentiu muito perto de Joana, vivendo no coração da Igreja e participando dos sofrimentos de Jesus para a salvação do mundo. A Igreja as reuniu como padroeiras da França, depois de Nossa Senhora. Santa Teresa expressou seu desejo de morrer como Joana, pronunciando o nome de Jesus (Manoscritto B, 3r); motivava-a o mesmo amor a Jesus e ao próximo, vivendo na virgindade consagrada.

Queridos irmãos e irmãs, com seu luminoso testemunho, Santa Joana d'Arc nos convida a um alto nível da vida cristã: fazer da oração o fio condutor dos nossos dias; ter plena confiança no cumprimento da vontade de Deus, seja ela qual for; viver na caridade sem favoritismos, sem limites; e ter, como ela, no amor a Jesus, um profundo amor à Igreja. Obrigado.

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:

Falo-vos hoje duma "mulher forte", que levou sem medo a luz do Evangelho às complexas vicissitudes da história: Santa Joana d'Arc. Desde a infância, mostra grande compaixão pelos pobres e atribulados no contexto duma guerra sem fim entre a França e a Inglaterra. A compaixão e o empenho dela em favor do seu povo intensificaram-se ainda mais com sua maturação mística, que teve lugar aos treze anos. Esta ligação entre experiência mística e missão política é um dos aspectos mais originais da santidade desta jovem. Tinha apenas dezenove anos quando - julgada por eclesiásticos, a quem faltava a caridade e a humildade para ver em Joana a ação de Deus - foi condenada como herética, em 1430. Vinte e cinco anos depois, sob a autoridade do Papa Calisto III, abre-se um processo de reabilitação que pôs em evidência a sua inocência e perfeita fidelidade à Igreja, sendo declarada santa pelo Papa Bento XV.

Saúdo, com afeto, a todos vós, amados peregrinos de língua portuguesa, desejando que esta peregrinação a Roma vos encha de luz e fortaleza no vosso testemunho cristão, para confessardes Jesus Cristo como único Salvador e Senhor da vossa vida: fora d'Ele, não há vida nem esperança de a ter. Com Cristo, ganha sentido a vida que Deus vos confiou. Para cada um de vós e família, a minha bênção!

[Tradução: Aline Banchieri.

Posições contraditórias e ambíguas na Fraternidade São Pio X

Reflexões teológicas sobre algumas declarações recentes.

Posições contraditórias e ambíguas na Fraternidade São Pio X

pela redação de Disputationes Theologicae
Fonte: São Pio V
Os votos do abbé de Cacqueray para 2011: “Não vão à Missa do motu proprio”
Com um certo escândalo, lemos as recentíssimas proposições do abbé Régis de Cacqueray (o superior do distrito da França, o maior e mais prestigioso da Fraternidade São Pio X), sobre a assistência à Missa de São Pio V, celebrada por sacerdotes canonicamente reconhecidos pela Santa Sé ]ndr: o site da FSSPX no Brasil veicula também artigo semelhante]. O influente sacerdote, muito estimado pelos seus superiores, ao ponto de ser encarregado de um dos papéis mais importantes da instituição, exprime-se, no seu texto de votos para o ano novo de 2011, com os termos que se seguem: “Para sermos completos sobre esse assunto (falava sobre a importância de assistir à Missa tradicional, mesmo se for difícil encontrá-la), devemos ainda citar as outras Missas de São Pio V, celebradas com o favor dos indultos sucessivos, e por último com o motu proprio. É verdade que nós desaconselhamos a sua frequentação” [1]. Não se deveria, segundo ele, frequentar os sacramentos distribuídos por aqueles que estão em posições diferentes daquelas da Fraternidade, mas, neste aparente clima de acordos canônicos, se afirma até que seria oportuno que os padres diocesanos se aproximassem do rito tradicional, sem, porém, poder contar – haja vista a severa admoestação – com a presença dos fiéis da Fraternidade.
É difícil dizer o quanto há de “teológico” nessas afirmações, e quanto de “ideológico” ou de “partidarismo”. Qualquer que seja a intenção do abbé de Cacqueray, o problema é aquele mesmo, como afirmado concomitantemente ao anúncio da reunião de Assis em outubro próximo, “o perigo que resultaria para as almas”. Note-se que a frase do abbé de Caqueray, ainda que gravemente escandalosa, não vem acompanhada de nenhuma justificação teológica, e muito menos de uma rigorosa exposição dos pressupostos de tal afirmação, nem das suas consequências. Todavia, os contornos da “Pétite Eglise” não são ignorados pelo leitor atento.
Uma argumentação bem estruturada
Por outro lado, o pensamento de um outro teólogo da Fraternidade, o abbé Mérel (já professor em Ecône, e com cargos no distrito da França) é mais profundo especulativamente, e mais estruturado teologicamente. Num artigo [2] que ficou célebre – foi publicado em muitas ocasiões em revistas locais da Fraternidade a partir de 2008 -, e que possivelmente tenha inspirado as declarações mais vagas do seu superior, exprime-se ele em termos teológicos acessíveis, mas estritamente bem construídos. O discurso é simples: a missa de São Pio V, em si, é boa. Entretanto, assistir à Missa de São Pio V nem sempre é bom, depende das circunstâncias. Até aqui, ainda se poderia estar de acordo. Todavia, o abbé Mérel prossegue afirmando que, onde a Missa tradicional fosse celebrada por um sacerdote da Ecclesia Dei, não seria bom participar dela. De fato, pode-se fazer mal uso de uma coisa boa, diz o autor. Com o rum – o exemplo é do texto -, que é uma coisa boa em si, pode-se embriagar-se e pecar. Quais seriam, portanto, as circunstâncias que tornariam má a participação da Missa? Continua o abbé Mérel: “Não é necessário assistir à Missa dos ‘ralliés’ (com esse termo, entendam-se os “traidores”, que dependem da Ecclesia Dei e não da Fraternidade – alusão ao “ralliement” de Leão XIII) [3], porque eles se submetem à hierarquia conciliar”. Continua: “a missa de um padre ‘rallié’ (traduz-se “alienado” / “traidor”) é a Missa de um padre que, ao menos oficialmente, obedece o bispo local e o Papa (…), um padre que, obedecendo as autoridades liberais e modernistas, tornar-se-á, necessariamente, um padre que, no fim das contas, trai tudo o que fez Mons. Lefebvre, trai as almas, engana-as”.
O autor não esquece as questões pastorais, embora secundárias na economia do discurso: diz, por exemplo, que o fiel encontrará, nas igrejas dos “ralliés”, publicações cheias de erros, que poderiam perturbá-lo, ou ouvirá pregações pouco ortodoxas, feitas, durante a Missa tradicional, por um padre que tradicional não é, ou conviverá com “fiéis menos formados na fé”, arriscando, em contato com eles, “deixar-se arrastar”. O abbé Mérel, porém, com o talento especulativo que o distingue, dá a verdadeira razão teológica, radicada num terreno mais “universal”, e não numa variante ligada às circunstâncias, e fala, de modo absoluto, de todos os padres “ralliés”, não apenas daqueles que pregam “mal”. Sustenta que o padre “rallié”, o padre canonicamente submetido a Roma, “não está numa posição justa na Igreja. Não está em regra com Deus”. E conclui: “não se pode nunca desagradar a Deus, estas missas não são para nós!”. Ainda que às vezes, por razões excepcionais, se devesse assistir às Missas dos Institutos “Ecclesia Dei”, dever-se-ia “abster-se de comungar”, diz ainda o autor, porque seria necessário permanecer em uma resistência ostensivamente passiva. Fala-se, neste caso, da mesma assistência, prevista pelos moralistas, a um rito protestante ou greco-cismático. Em resumo, comungar nas Missas ditas por um sacerdote que não adere às posições da Fraternidade é um pecado, é algo que “desagrada a Deus”, e isso em razão do ministro. Não se deve, pois, participar, não apenas por causa das homilias heterodoxas, fator variável e secundário, mas em razão do fato de o celebrante estar submetido a uma autoridade à qual não se deve senão resistir, sob pena de pecado. Destaquemos que o autor não assume o risco de declarar lícita a assistência às Missas sem homilia; seria obrigado a admitir que o sacramento é válido e lícito, e não oferece perigo de contaminar a fé dos fiéis; por outro lado, não quer proibir a participação das Missas dos padres da Fraternidade que sustentam teses perigosas para a fé. É a submissão a Roma que, sozinha, faz com que não se possa receber a eucaristia.
Uma magistral declaração de cisma
O artigo do abbé Mérel é uma magistral declaração de cisma, ainda que, do ponto de vista do autor, o pecado de cisma (ou de heresia, ou ambos, o texto não o especifica) parece ser mais imputável ao Papa e àqueles que se Lhe submetem. A hierarquia católica teria, no seu conjunto, cometido o pecado de afastar-se da verdade, e, portanto, não se poderia entrar em comunhão com ela nos sacramentos, mesmo se o rito é tradicional. Esse texto foi escrito no verão de 2008, para indicar aos fiéis como comportar-se depois do motu proprio. O mesmo Motu proprio que fora pedido ao Papa pelas autoridades da Fraternidade, que ofereceram, para isso, a cruzada de um milhão de rosários.
Para sermos completos, digamos que não é completamente falso o que disse o abbé de Cacqueray, que às vezes pode ser desaconselhado assistir a uma Missa. Poderia ser o caso, ainda em missas tradicionais, quando o significado teológico da Missa de sempre é gravemente deformado ou até reduzido – como, infelizmente, às vezes acontece – a um puro fenômeno teatral, que acaba por juntar incenso, sedas preciosas e homilias heterodoxas. Mas é insustentável que o princípio deva aplicar-se universalmente a todas as Missas dos que estão canonicamente submetidos ao Papa: uma tal ruptura da communicatio in sacris, com todos aqueles que subscrevem as posições da Fraternidade, não é nada mais que a aplicação prática de uma teoria cismática. Quando São Tomás de Aquino fala de cisma, distingue dois modos de cometer esse pecado. O primeiro é a separação da autoridade eclesiástica, o segundo é a recusa de comungar “in sacris” com outras partes da Igreja submissas ao Papa [4]. Esse último também é um modo de despedaçar o Corpo Místico de Cristo.
Como se fosse necessário, afirmamos que estar submetidos a uma autoridade de direta instituição divina, como a do Papa, não significa, de modo algum, submeter publicamente a inteligência a tudo aquilo que tal autoridade sustenta, ou dá a entender, ou parece aprovar, quando fala como teólogo privado, ou age como pessoa privada. Essa não é a doutrina católica do Primado, nem o Pontífice reinante jamais reclamou semelhante submissão. De fato, ainda que se possa conceder que uma certa fatia do tradicionalismo costuma, com servilismo e escarso senso teológico, dogmatizar até às vírgular as afirmações de qualquer autoridade eclesiástica, ainda que somente local, deve-se reconhecer honestamente que esse fenômeno não é, de modo algum, universal. Pelo contrário, afirmar que, necessáriamente, em todos os casos de obediência canônica, peca-se contra a fé, por omissão de defesa da verdade revelada, é não apenas uma mentira e um engano aos fiéis, mas até um absurdo teológico. Afirmaríamos, então, ridiculamente, que a autoridade suprema tornou-se formalmente herética, e, com ela, todos os que se lhe submetem visivelmente, pelo próprio fato de submeter-se.
A Fraternidade, se não quiser ser cismática, deve reconhecer que ela já está submetida visivelmente ao Papa, tanto quanto qualquer padre diocesano. Ontologicamente, a submissão da Fraternidade à autoridade eclesiástica não difere daquela de todos os outros Institutos, tradicionais ou não. Permanece, todavia, um problema canônico, que deve ser resolvido o mais breve possível, por que, de fato, no perdurar desse estado anormal há o perigo de conduzir alguns dos seus membros a posições teológicas gravemente errôneas. Os artigos citados o confirmam.
As incoerências de uma política dupla
Acrescentemos que, se é natural e compreensível que os sacerdotes da Fraternidade queiram continuar fiéis aos princípios do próprio fundador, também é bom e moralmente necessário ser coerentes com o que se propõe nas próprias declarações públicas. Ora, a tese discutida acima, como notamos, teologicamente insustentável, denuncia um obstáculo insuperável à conclusão de um acordo canônico entre a Fraternidade e a Santa Sé, mas também uma clara vontade de continuar em dois vagões paralelos, que não comungam nem mesmo nos sacrementos celebrados em rito tradicional. De fato, se, para comungar in sacris com o Papa – como é implicitamente afirmado – será necessário atingir o acordo doutrinal, com o qual a Santa Sé fará própria a posição da Fraternidade, então será necessário ter a coerência de afirmar que, atualmente, a hierarquia católica está ao menos próxima da heresia e do cisma, tanto que se justifique uma escolha tão grave. Tertium non datur.
Mas se, pelo contrário, o acordo fosse possível e, talvez, iminente, segundo os termos do próprio Mons. Fellay, e se o Superior Geral da Fraternidade procedesse efetivamente a um acordo canônico – permanecendo as reservas expressas sobre o projeto da reunião interreligiosa de Assis e o desacordo com certas escolhas do Papa – o que fará o abbé de Cacqueray? Desaconselhará os “seus” fiéis a ir nas Missas na Fraternidade? Dir-lhes-á que não recebam a comunhão das mãos de Mons. Fellay, porque afirmou, porque assinou com as autoridades que organizam os encontros de Assis? A coerência entre os propósitos desses dois importantes responsáveis pela obra fundada por Mons. Lefebvre é muito menos difícil de compreender: parece mais o reflexo de uma política ambígua. Por isso e por outros motivos, sempre foi expressa, nestas páginas, a firmar convicção da oportunidade de um acordo canônico, que não pretenda ser “doutrinal”. Do ponto de vista dogmático, de fato, é absurda a ideia de um acordo “doutrinal” que o Vigário de Cristo deveria assinar. Do ponto de vista prático, os fatos demonstram que é uma presunção querer resolver em poucas linhas – com algum episódico encontro entre especialistas – a complexidade da atual situação eclesiástica, e, com ela, os problemas levantados por alguns textos magisteriais. Não é, porém, absurdo – nem teologicamente, nem prudencialmente – reconhecer canonicamente a autoridade de Pedro, salvaguardando uma autonomia de debate teológico sobre alguns pontos de perplexidade.
Estamos prontos para publicar aqui, se necessário, qualquer correção ou precisamento que, sobre a questão, provier dos legítimos superiores da Fraternidade São Pio X, e a tornar pública uma eventual retificação, assim que, publicamente, eles quiserem dissociar-se dos conteúdos aqui expressos. Esperamos ainda, e sobretudo, um clara resposta à pergunta se se pode comprir o preceito dominical assistindo a uma Missa da Fraternidade São Pedro, e receber a eucaristia de um sacerdote do Bom Pastor, do Cristo-Rei, ou de uma diocese qualquer.
A Fraternidade São Pio X, que não pode ser acusada de laxismo, sempre precisou, e às vezes puniu com firmeza, quando as opiniões de um membro contrastavam com as gerais. Se as opiniões da “Petite Eglise”, hoje abertamente sustentadas por alguns dos seus sacerdotes, não são compartilhadas pelo Superior Geral, com a mesma firmeza deveria desmenti-las publicamente. Caso contrário, dir-se-á que o discurso é voluntariamente ambíguo.
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[1] Le texte intégral peut être consulté sur La porte latine, site officiel de la Fraternité saint Pie X en France, à l’adresse suivante : voeux de M. l’abbé de Cacqueray pour 2011
[2] Abbé Jacques Mérel, « Discussion de parvis sur la messe des ralliés », in Le Pélican, juillet-août 2008 ; publié intégralement dans Le Sel de la Terre, n°70, Automne 2009, pp. 188-193.
[3] Com o termo “rallié” designa-se, na França, o católico “amigo do poder”, “traidor”. A palavra difundiu-se notavelmente sob o pontificado de Leão XIII, com o sentido de “católico alienado” e designa, nos ambientes da Fraternidade São Pio X, os institutos que dizem a Missa tradicional dependentes da Ecclesia Dei.
[4] Saint Thomas d’Aquin, Summa Theologiae, IIa-IIae, qu. 39, a. 1, corpus : “Ecclesiae autem unitas in duobus attenditur, scilicet in connexione membrorum Ecclesiae ad invicem, seu communicatione; et iterum in ordine omnium membrorum Ecclesiae ad unum caput (…). Et ideo schismatici dicuntur qui subesse renuunt summo pontifici, et qui membris Ecclesiae ei subiectis communicare recusant”.
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Don Stefano Carusi, coordinateur de la rédaction
Abbé Matthieu Raffray, coordinateur de l’édition française

Para onde caminha a Europa secularizada


Cerca de 5.200 britânicos convertem-se ao Islã a cada ano, e 62% são mulheres, segundo uma pesquisa encomendada por Faith Matters.
O típico britânico convertido torna-se muçulmano aos 27 anos e, segundo a pesquisa, não é motivado à conversão pelo casamento. 55% dos convertidos, entretanto, são casados com um muçulmano de nascimento e 12% são casados com outro convertido.
A pesquisa descobriu que a vasta maioria das mulheres convertidas adotam a hijab (véu) depois da conversão. Citam-se os livros como influência primordial sobre os convertidos, seguidos de amigos muçulmanos e internet.
Tradução: OBLATVS