Mais uma paróquia muda para o leste

 
 
 
St. Mary of Pine Bluff têm feito oficialmente a mudança. Leste.
 
É oficial. St. Mary of Pine Bluff tornou-se uma paróquia que celebra todas as missa Novus Ordo ad orientem.
 
Após 1 ano celebrando as missas durante a semana ad orientem, nos pensamos quando e se algum dia iríamos celebrar todas as missas desta maneira - incluindo as missas dos finais de semana.
 
Ai tivémos a homilia de 6 de dezembro do nosso Bispo Robert Morlino. Em sua homilia, nosso Bispo na verdade estava encorajando a missa em ad orientem. É claro que isso era todo o incentivo que precisávamos, ou não? 
 
 
 
 
Nós não nos fizemos um cometimento total. Ao invés, nós celebramos as missas dos finais de semana ad orientem logo na semada após. Porém, nós vimos isso como um tipo de teste, já que estavamos inclinado a voltar versus populum se a oposição fosse muito severa.
 
A reação foi predominantemente positiva (pelo menos entre os que deram opinião). Então, eu decidi fazer uso da grande Festa da Epifânia, onde vêmos os Reis viajando em direção a estrela que eles viram surgir (no Leste), para ensinar - ad orientem.
 
Novamente, a reação foi extremamente positiva. Nós somos hoje, oficialmente, uma paróquia que celebra todas as nossas missas  Novus Ordo - ad orientem.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


A alma do liberalismo

Por Sidney Silveira




Vimos um camelo a dançar.
(Camelum vidimus saltitantem.)

São Jerônimo
Contra Helvídio, XVIII, 226

O liberal militante, em seu vertiginoso afã de liberdade, é como um louco que, valendo-se dos argumentos da mímica circense, pretendesse convencer ao seu psiquiatra de que os cachorros são livres para miar, e os gatos para latir. O fato de que isto jamais se dê na realidade é mero detalhe; um tanto incômodo, decerto, porém sem maior relevância perante a omnímoda liberdade de consciência que o liberal crê existir, a qual o induz a discorrer sobre várias idéias sem jamais remontar aos fundamentos das premissas implicadas.
A comparação acima nos serve para apontar o fato de que o liberalismo, em qualquer de suas correntes — e estamos falando de uma hidra multicéfala — não é propriamente uma teoria, mas o espírito engendrador de mil teorias. Um espírito de negação dos princípios da ordem do ser, que, apelando a uma maliciosa profilaxia, fecha culpavelmente os olhos para o arcabouço metafísico que impugnaria as suas teses religiosas e políticas, assim como parte das econômicas.

Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil


Via MSM
Os intelectuais de esquerda que escrevem a história brasileira têm mais um livro para se incomodar: o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, do jornalista Leandro Narloch.
Lancei recentemente pela editora Leya o livro Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, uma reunião informações esquecidas e episódios irritantes e desagradáveis a quem se considera vítimas de "grandes potências", "exploradores" e "imperialistas". Deixo para os leitores do MSM alguns exemplos.
Zumbi tinha escravos
Nos anos 70, os historiadores marxistas projetaram no Quilombo de Palmares tudo o que imaginavam de sagrado para uma sociedade comunista: igualdade, relações de trabalho pacíficas e comida para todos. Sabe-se hoje que o quilombo do século 17 estava mais para um reino africano daquela época que para uma sociedade de moldes que surgiram mais de um século depois. Zumbi provavelmente descendia de imbangalas, os "senhores da guerra" da África Centro-Ocidental. Guerreiros temidos, eles habitavam vilarejos fortificados, de onde partiam para saques e sequestros dos camponeses de regiões próximas. Durante o ataque a comunidades vizinhas, recrutavam garotos, que depois transformariam em guerreiros, e adultos para trocar por ferramentas e armas. Esse modo de vida é bem parecido ao descrito por quem conheceu o Quilombo dos Palmares. "Quando alguns negros fugiam, mandava-lhes crioulos no encalço e uma vez pegados, eram mortos, de sorte que entre eles reinava o temor", afirma o capitão holandês João Blaer.
Décio Freitas inventou dados sobre Zumbi
Os historiadores marxistas que engrandeceram Zumbi tinham um problema: não há sequer um documento dando detalhes da personalidade ou da biografia do líder negro. Para resolver esse obstáculo, Décio Freitas mentiu sem culpa. No livro Palmares: A Guerra dos Escravos, Décio afirma ter encontrado cartas mostrando que o herói cresceu num convento de Alagoas, onde recebeu o nome de Francisco e aprendeu a falar latim e português. Aos 15 anos, atendendo ao chamado do seu povo, teria partido para o quilombo. As cartas sobre a infância de Zumbi teriam sido enviadas pelo padre Antônio Melo, da vila alagoana de Porto Calvo, para um padre de Portugal, onde Décio as teria encontrado. Ele nunca mostrou as mensagens para os historiadores que insistiram em ver o material. A mesma suspeita recai sobre outro livro seu, O Maior Crime da Terra. O historiador gaúcho Claudio Pereira Elmir procurou por cinco anos algum vestígio dos registros policiais que Décio cita. Não encontrou nenhum.
Quem mais matou índios foram os índios
Nas bandeiras ao interior do Brasil, geralmente apontadas como a maior causa de morte da população indígena depois das epidemias, havia no mínimo duas vezes mais índios - normalmente dez vezes mais. Sobre a mais mortífera delas, a que o bandeirante Raposo Tavares empreendeu até as aldeias jesuíticas de Guaíra, os relatos apontam para uma bandeira formada por 900 paulistas e 2 mil índios tupis. "No entanto, nestas versões, o total de paulistas parece exagerado, uma vez que é possível identificar apenas 119 participantes em outras fontes", escreveu o historiador John Manuel Monteiro no livro Negros da Terra. Cogita-se até que o modelo militar das bandeiras seja resultado mais da influência indígena que europeia. "É difícil evitar a impressão, por exemplo, de que as bandeiras representavam uma predileção tupi por aventuras militares", afirma o historiador Warren Dean.
Os portugueses ensinaram os índios a preservar a floresta
Apesar de muitos líderes indígenas de hoje afirmarem que o "homem branco" destruiu a floresta enquanto eles tentavam protegê-la, esse discurso politicamente correto não nasceu com eles. Nasceu com os europeus logo nas primeiras décadas após a conquista. Os portugueses criaram leis ambientais para o território brasileiro já no século 16. As ordenações do rei Manuel I (1469-1521) proibiam o corte de árvores frutíferas em Portugal e em todas as colônias. No Brasil, essa lei protegeu centenas de espécies nativas. Em 1605, o Regimento do Pau-Brasil estabeleceu punições para os madeireiros que derrubassem mais árvores do que o previsto na licença. Conforme a quantidade de madeira cortada ilegalmente, o explorador poderia ser condenado à pena de morte.
João Goulart favorecia empreiteiras
A informação vem do próprio Samuel Wainer, no livro Minha Razão de Viver. De acordo com o jornalista, então diretor do Última Hora e um dos principais aliados do presidente, o esquema da época era aquele famoso tipo de corrupção que hoje motiva escândalos. "Quando se anunciava alguma obra pública, o que valia não era a concorrência - todas as concorrências vinham com cartas marcadas, funcionavam como mera fachada", escreveu Wainer. O que tinha valor era a combinação feita entre homens do governo e das empresas por trás das cortinas. "Naturalmente, as empresas beneficiadas retribuíam com generosas doações, sempre clandestinas, à boa vontade do governo."
Os guerrilheiros comunistas não lutavam por liberdade
De dezoito estatutos e documentos escritos por organizações de luta armada nos anos 1960 e 1970, catorze descrevem o objetivo de criar um sistema de partido único e erguer uma ditadura similar aos regimes comunistas que existiam na China e em Cuba. A Ação Popular, por exemplo, defendia com todas as letras "substituir a ditadura da burguesia pela ditadura do proletariado".

Leandro Narloch é jornalista.

O fim, os meios e a execução

Por Garrigou-Lagrange, O.P.

Muitos erros práticos na vida espiritual provêm do fato de esquecermos de considerar que em tudo é reciso primeiramente querer o fim e que este fim só se realiza ou se obtém em último lugar. Como diz muitas vezes Santo Tomás: “o fim é o primeiro na ordem da intenção e último na ordem da execução” (Ia. IIae., q. 1, a. 4). O doente quer a saúde mais do que os remédios mas só após empregar os remédios é que recobra a saúde desejada. O arquiteto concebe a Igreja que quer construir em toda sua altura mas ele tem, evidentemente, que começar pelas fundações e não pelas abóbadas. Na ordem material, só os loucos é que se afastam deste bom senso elementar. Mas na ordem espiritual é fácil se afastar dele sem se notar. Muitos parecem querer começar pelas abóbadas e flechas e não pelos alicerces, a construção do edifício espiritual ou, para empregar outra imagem, parecem querer voar sem ter asas.

Desejaríamos recordar neste artigo qual é o alcance do princípio que acabamos de lembrar, para o itinerário espiritual. Será este um modo de completar praticamente o que muitas vezes dissemos sobre o caminho normal da santidade onde é preciso, contrariamente aos quietistas, evitar tanto a presunção como a preguiça espiritual, não avançando nem muito cedo nem muito tarde mas, como deseja o Senhor, fortiter e suaviter.

* * *
A intenção do fim deve preceder, é claro, a consideração e a escolha dos meios e por mais forte razão a execução deles.

Quais devem ser desde o começo da vida espiritual as qualidades desta intenção?

A intenção do fim deve ser reta, pura, elevada e eficaz e isto desde o começo de nossa viagem até o fim; sem o que os atos que devem ser praticados não teriam nem retidão nem eficácia.

Deve ser reta, segundo a direção da reta razão, esclarecida pela fé. Em outros termos, ela deve-se voltar com toda pureza para o fim que o próprio Senhor nos assinala. Jesus nos diz no Sermão da Montanha (Mt 6, 22): “Se teus olhos são simples, todo o teu coração será luminoso; mas se teus olhos forem maus, todo teu corpo será tenebroso”. Da mesma maneira, se nossa intenção é reta e pura, toda nossa vida, inspirada nela, terá luz.

A intenção deve ser elevada: “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça e tudo mais vos será dado por acréscimo” (Mt 6, 33). Nós devemos desejar primeiro nosso fim sobrenatural, a vida da eternidade, a possessão inamissível de Deus pela visão beatífica e a glória que deve vir dele. Nossa intenção deve ser pois muitíssimo elevada; por meio dela devemos constantemente tender para Deus sem limitar nossa aspiração a um determinado grau da glória pois não sabemos qual nos foi reservado. Devemos tender também para a plena perfeição cristã, que é realizável aqui na terra, como para o prelúdio normal da vida eterna. É por isto que Nosso Senhor começou seu primeiro sermão da montanha falando aos homens a respeito das bem-aventuranças. Não há objeto mais elevado e mais oposto às máximas da sabedoria humana. “Bem-aventurados os pobres, os mansos, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os de coração puro, bem-aventurados os pacíficos, os que sofrem perseguição pela justiça”. Estas bem-aventuranças, diz Santo Tomás depois de Santo Agostinho, são os atos mais elevados das virtudes e dos dons[1], e no entanto Nosso Senhor fala delas desde o início de sua pregação, para mostrar às almas o fim para o qual elas devem tender, o ideal a que elas devem aspirar. Pela mesma razão Santo Tomás começa a exposição da teologia moral pelas questões do fim último e da bem-aventurança no Céu. O fim, que é o último na ordem da execução deve ser, com efeito, o primeiro na ordem da intenção.

Em terceiro lugar a intenção deve ser eficaz e deve até se tornar cada vez mais eficaz sem o que não empregaremos os meios, algumas vezes penosos, que são necessários para obter esse fim; recuaremos diante da cruz. Muitos se contentam com um amor de admiração pelo fim entrevisto, amor que não passa de uma veleidade. Nosso Senhor nos diz sobre isto (Mt 7, 21): Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Não basta um idealismo belo que nada realiza.

Mas também se enganaria no sentido inverso quem, querendo ser muito prático, dissesse: “A via purgativa me basta” e não quisesse aspirar mais alto. A via purgativa, como a mortificação, não passa de um meio em vista à união com Deus, que é preciso primeiramente desejar eficazmente; sem o que não teríamos a coragem de praticar efetivamente as virtudes da via purgativa, a renúncia, com a qual pretenderíamos contentar-nos.

O fim sendo o primeiro na ordem da intenção, a perfeição cristã não diminuída deve ser, desde o começo da vida espiritual, vivamente desejada, querida por uma vontade reta, pura, elevada e eficaz e à medida que avançamos, estas qualidades de intenção devem aumentar com a caridade que deve sempre crescer aqui na terra em nossas almas pelos nossos méritos e pela freqüente comunhão.

* * *

Após a intenção do fim, é preciso passar à consideração e à escolha dos meios, e depois à execução. Esta consideração deve descer da apreciação do fim desejado para a apreciação dos meios que lhe são subordinados, até aos meios mais ínfimos porém indispensáveis, que devemos empregar todos os dias na prática de nossos deveres de estado, alguns às vezes muito modestos segundo o lugar onde a Providência nos colocou. É preciso, aqui, não negligenciar a consideração do que São Francisco de Sales chama as pequenas virtudes que são como flores da caridade sem as quais as relações com o próximo se tornam tensas e quase impossíveis: doçura, afabilidade, prontidão no prestar serviço, em interpretar acontecimentos com bons olhos, etc... É preciso não se contentar com vagas generalidades sobre o fim proposto; não é suficiente dizer: “É preciso fazer tudo pelo amor de Deus”; é preciso ver, cada dia, em que consistem nossos deveres de estado, que são um dos grandes meios de santificação para nós, de conformidade com a vontade de Deus. É preciso não negligenciar os deveres de estado por uma piedade idealista e sentimental, mal entendida, que não passará de uma fantasia piedosa. É preciso descer portanto até o detalhe dos meios a empregar para se santificar na vida quotidiana, pois os atos humanos são atos contingentes e particulares, postos hic et nunc, em circunstâncias muito determinadas. Aqui, é preciso estar atento a todas as direções da obediência, e a prudência deve aproveitar tudo que pode assegurar a retidão de nossa marcha para frente, no meio em que nos encontramos, no relacionamento com nossos superiores e com nossos iguais. Deste ponto de vista não há nada de pequeno na vida cristã: os atos mais simples, necessários para a prática dos deveres de estado mais elementares, têm alguma coisa de grandioso em relação ao fim último sobrenatural e à caridade que nos deve inspirar em vista deste fim. Compreende-se assim que a perfeição não consiste em fazer coisas brilhantes, extraordinárias, mas em fazer extraordinariamente bem as coisas ordinárias da vida cristã: assistir bem à santa missa, preparar-se seriamente para a santa comunhão, fazer bem a ação de graças, e viver deste tesouro da vida divina, praticando nossos deveres com uma intenção sempre mais pura e mais firme, apesar das dificuldades e atropelos, com o que Nosso Senhor chama “fome e sede de justiça de Deus”.

* * *

Enfim, assim como a consideração dos meios deve descer até os meios mais ínfimos, a execução deve-se elevar destes meios até o fim a conquistar. A execução deve ser uma ascensão contínua que começa pelos meios inferiores indispensáveis, que se deve ensinar aos principiantes, sob pena de comprometer-lhes o futuro espiritual, do mesmo modo como, para ir fazer uma visita a um personagem importante, veste-se uma roupa conveniente para a ocasião ou para reparar um doutorado na Universidade, é preciso fazer a inscrição e seguir os cursos.

Aqui, nesta ascensão, é preciso não se precipitar e querer chegar ao termo mais rápido do que convém. Em nossa época de vida efervescente é muito comum levar as inteligências e as vontades à maturidade antes da hora, como que pondo numa estufa frutos que amadureceriam antes da estação. Mas um fruto amadurecido à força não se conserva por muito tempo e logo estará passado.

* * *

Que nos diz Nosso Senhor para nos curar de tal defeito? Notemos que ele começou sua pregação pelas bem-aventuranças para nos mostrar o altíssimo fim ao qual devemos tender: “Procurai primeiro o reino de Deus e sua justiça e todo o resto vos será dado por acréscimo”. (Mt 6, 33) Mas quando se trata de passar a execução, de começar a caminhada em direção a tão alto fim, entrevisto e desejado, Nosso Senhor, sobretudo formando os Apóstolos, insiste na humildade. Nosso Senhor, que não cessa de elevar seus corações, lhes diz também: “Se não vos tornardes semelhantes a uma criancinha, não entrareis no reino dos céus” (Mt 18, 3) Lembremo-nos em que ocasião estas palavras foram pronunciadas. São Marcos nos conta que Jesus, caminhando com os apóstolos pela Galiléia, lhes anunciava uma Paixão mas os apóstolos não compreendiam suas palavras e temiam interrogá-lo. “E chegaram a Cafarnaum”, diz São Marcos (9, 32). Quando estavam já em casa, perguntou-lhes Jesus: “De que faláveis vós outros pelo caminho?”. Mas eles se calaram porque pelo caminho haviam discutido entre si qual deles seria o maior. Sentando-se, pois, ele chamou os doze e lhes disse: “Se alguém quer ser o primeiro seja o último de todos e o servo de todos”. Está bem clara, na linguagem simples e elevada de Jesus, a oposição entre a ordem da intenção e a da execução: para atingir este fim tão alto que é a santidade é preciso começar pela humildade. Quanto mais algo for o edifício espiritual, mais profundos devem ser os alicerces. E além disso não basta cavar os alicerces de uma vez por todas no começo da obra mas será preciso cavar mais profundamente, aqui e ali à medida que cresce o edifício, para a humildade crescer com a caridade. É isto que Jesus quer dizer aos Apóstolos: “E tomando um menino, diz São Marcos, pô-lo no meio deles; depois de o abraçar, disse-lhes:— Todo aquele que recebe um desses meninos em meu nome, a mim é que recebe; todo o que me recebe, não recebe a mim mas Àquele que me enviou”.

São Lucas (9, 46) conta também que os Apóstolos não compreenderam então que Jesus lhe anunciava sua Paixão: “Veio-lhes então o pensamento de qual deles seria o maior. Mas Jesus, conhecendo os pensamentos de seus corações, tomou um menino, pô-lo junto de si e lhes disse: — Todo o que recebe esse menino em meu nome, a mim recebe; e quem recebe a mim recebe Aquele que me enviou; pois quem dentre vós todos é o menor, esse é o maior”. São Mateus (18, 4) dá-nos a explicação dessas últimas palavras: “Todo aquele pois que se humilha como esse menino, esse será o maior no reino dos céus”. A criancinha está isenta de orgulho, de malícia, de concupiscência, de rancor, esquece logo o mal que lhe fazem; depois, é simples e consciente de sua fraqueza, pede socorro a seu pai e a sua mãe.

Assim deve ser o cristão diante de Deus para entrar no reino dos céus; isento de orgulho, simples, consciente de sua fraqueza. É aos humildes que Deus dá a sua graça. Assim também nós somos levados a nos inclinar para a criancinha, a ajudá-la e dar-lhe tudo que podemos, enquanto que nos afastamos da criança pretensiosa que perdeu sua graça e a simplicidade da infância em troca de uma vaidade ridícula.

O cristão quando é verdadeiramente humilde, começa e continua como deve sua viagem para a eternidade; sem precipitação alguma, ele chegará muito alto. Ele não deseja de modo desregrado sua própria excelência, não se estima como digno de grandes coisas; mais ele é humilde, mais ele ama a Deus e deseja glorificá-lo, desprezando sua própria excelência, cuja procura diminuiria em si o esplendor da glória divina.

Este princípio de infância espiritual foi ensinado por todos os santos, especialmente os fundadores da Ordem, na formação de seus discípulos. O Senhor, nos últimos tempos, nos lembrou de uma maneira singularmente eloqüente e persuasiva este espírito na pessoa de Santa Teresa do Menino Jesus. Esta necessidade se fazia sentir. Nossa época não conhecia mais, por causa de sua presunção e de seu frenesi, estas qualidades da verdadeira infância sem as quais não se terá nunca as qualidades da adolescência nem as de uma idade mais avançada. Ao mesmo tempo em que ela nos lembra a humildade, Santa Teresa do Menino Jesus nos diz toda a confiança filial que devemos ter em Deus e tudo o que Ele está pronto a nos dar para nos prender mais intimamente a Ele. Ela nos mostra admiravelmente as graças sempre novas de luz e de amor que se encontram no caminho normal da santidade.

Para isso não se trata de receber a verdade somente do modo intelectual assim como se escuta com atenção uma conferência interessante. É preciso que a alma inteira, inteligência e vontade, receba a verdade e o bem que lhe são propostos em uma doutrina que, como o dom da sabedoria, [3] é ao mesmo tempo especulativa e prática, doutrina de vida.

É preciso recebê-la humildemente, pelos intermediários que Deus quis que fossem os nossos e que têm a graça de estado para nos esclarecer. Receber “como uma criancinha”, diz Nosso Senhor, com simplicidade, pondo em seguida em prática o que nos foi dito; pois, nesse caso, é pela prática que se vai à teoria, no sentido de que é pela prática das virtudes que nos preparamos para receber a contemplação verdadeiramente viva e saborosa dos mistérios da salvação.

Assim recebe aquele que entrou nesta infância espiritual da qual falava Jesus aos seus discípulos e que é o antípoda das criancices de uma vã e tola pretensão. A presunção, querendo-se elevar muito depressa, não atinge nem mesmo os degraus inferiores da escala espiritual. O espírito de infância de que fala Jesus, ao contrário, predispõe a chegar em tempo normal à verdadeira maturidade que só virá na hora marcada por Deus.

Há, pois, uma grande diferença entre um intelectual apressado em se instruir e um contemplativo. Nosso Senhor alude a isto dizendo: “Eu vos dou graças, Pai, porque escondestes estas coisas aos prudentes e sábios e as revelastes aos pequeninos”.

São José, que não era um intelectual foi certamente um dos maiores contemplativos de todos os tempos; quem pode descrever o aumento de caridade, de inteligência e de sabedoria que ele recebia do Verbo de Deus feito homem, quando, no silêncio da casa de Nazaré, ele o contemplava com amor! O Santo Cura d’Ars que tampouco era um intelectual, também foi, em sua aldeia, um grande contemplativo. Nada via do imenso bem que realizava todos os dias mas via se elevar cada vez mais o ideal do sacerdócio, e dele se julgava sempre mais afastado.

Para ser contemplativo, é preciso não ter a alma inflada de orgulho, é preciso ser simples e humilde em relação a Deus, como uma criança. “Deus superbis resistit humilibus autem dat gratiam” (Tg 4, 6). É aos humildes que Deus dá sua graça e os faz humildes para os cumular de graça. Então seu reino se estabelece verdadeiramente nestas almas, nestas inteligências, nestas vontades, nestes corações.

* * *

Finalmente se realiza o ideal entrevisto e desejado no primeiro dia, segundo o princípio que citamos no começo: em tudo é preciso primeiramente considerar e querer o fim, que só se realizará em último lugar. É preciso não negligenciar os meios inferiores, indispensáveis para a prática cotidiana de nossos deveres de estado, às vezes muito modestos; é preciso não saltar por cima dos degraus mas acelerar lentamente e finalmente se chega ao fim. Com dizia um santo diretor: “Quando trabalhamos assim para o bom Deus chegamos a fazer mais e menos do que tínhamos sonhado”; menos porque sobram sempre lacunas que esperávamos preencher mais ligeiro, e que o Senhor deixa para nos manter humildes; mas também avançando seriamente, fazemos mais do que havíamos sonhado, pois o bom Deus, por sua graça, fecunda nossos esforços além de nossas esperanças. “Deus, qui dives est in misericordia... convivificavit nos in Christo, et conresuscitavit et conculis supervenientibus abundantes divitias gratiæ suæ in bonitate super nos in Christo Jesu” (Ef 2, 4). “Deus que é rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, mesmo quando estávamos mortos pelos pecados, nos convivificou em Cristo (por cuja graças fostes salvos); e com ele nos ressuscitou e fez sentar nos céus com Cristo Jesus, para mostrar, nos séculos futuros, a infinita riqueza da sua graça, por sua bondade para conosco em Jesus Cristo”.

Uma vida bela, diz-se, é um pensamento da juventude realizado na idade madura, e realizado muitas vezes sem que saibamos, porque a alma voltada para Deus, não se volta mais para si mesma.

Evitamos assim dois tropeços: o dos idealistas que nada realizam, ou fazem só a aparência do bem, e o daqueles que se dizem práticos e perdem de vista a altura do fim a atingir.

Os idealistas no mais das vezes, se contentam em conceber o ideal e admirá-lo; quando procuram realizá-lo não pensam, como deviam, nos meios inferiores e no entanto indispensáveis. Esquecem que para fazer uma bela estátua de Cristo, não é suficiente se ter um belo modelo, é preciso também ver se a argila que se vai usar não é nem muito úmida nem muito seca. Estando atentos apenas à forma e não à matéria, podem muitas vezes fazer monstros, aplicando uma forma belíssima a um objeto que está longe de ter a disposição necessária para recebe-la. Ou ainda fazem uma imitação no campo da espiritualidade, dando aos iniciantes uma direção que convém aos adiantados.

Por outro lado a atenção dada aos meios às vezes ínfimos, porém necessários, não deve nos deixar cair em minúcias, como acontece com o espírito esmiuçador que, sob o pretexto de ser muito prático, perde de vista a elevação do fim a atingir. Falando desses meios ínfimos, o tom e o acento devem lembrar a grandeza do fim; é preciso sentir, na prática das virtudes morais, o sopro e o élan das virtudes teologais que devem inspirá-las, o espírito de fé, de confiança e de amor de Deus.

É por isso que convém ler livros ascéticos escritos por espirituais que, como o autor da Imitação, não esquecem que a ascese é ordenada à mística, como coroamento normal, que as almas generosas alcançarão na hora querida pelo Senhor.

Assim são resolvidas muitas dificuldades e evitam-se muitos erros práticos em espiritualidade. Não nos intrometemos, como os quietistas, nas vias místicas nem simulamos, antes da hora, o repouso da contemplação. Esta é infusa e só Deus pode dá-la. Mas Ele tem o hábito de concedê-la às almas verdadeiramente humildes e generosas que, fazendo cada coisa a seu tempo, não negligenciaram as virtudes pequenas, a prática exata de seus deveres de estado, e que, pela comunhão quotidiana, cada dia mais fervorosa, pela aceitação sobrenatural da cruz, se encaminham para a intimidade da união divina.

Então, no crepúsculo da vida, a realização se encontra com a intenção primeira. Esta, desde o começo, devia ser reta, pura, elevada e eficaz; essas qualidades não cessaram de aumentar nela; ultrapassou-se o idealismo e chegou-se a um santo realismo que não foi obtido pela diminuição do ideal mas pela fidelidade constante Àquele único que pode, como Ele o disse, dar a vida e a dar com abundância: Veni ut vitam habeant, et abundantius habeant (Jo 10, 10).

(Trad: Anna Luiz Fleichman. "Perfection Chretienne et Contemplation", págs. 779ss, vol. II. Revista Permanência, Set.-Out. 77) 

Latim volta a ser popular nas escolas e universidades da Alemanha


DW.DE - A "língua morta" é o terceiro idioma estrangeiro mais estudado nas escolas alemãs, atrás do inglês e do francês. Defensores dizem que o latim estimula o pensamento lógico e facilita o aprendizado de novas línguas.

O Johanneum é a mais antiga e tradicional escola de Hamburgo. Atrás das grossas paredes de tijolo do prédio construído no século 19, as línguas antigas sempre tiveram uma grande importância. Já a partir do quinto ano os alunos da escola de tradição humanista aprendem latim.

[Livro] Quando o nosso mundo se tornou cristão


Sob a indicação e comentários de amigos historiadores, descobri o livro Quando o nosso mundo se tornou cristão [312-394]. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010  de VEYNE, Paul; é livro imperdível, e que por sua vez, está sendo solenemente ignorado nas universidades, em que pese a comprovada seriedade e erudição de seu autor. Acredita-se que uma das recusas ao livro seja pelo fato de o autor defender a sinceridade das convicções cristãs do Imperador Constantino e rejeitar a interpretação do dito imperador como um mero calculista.

O historiador e professor da UFES, Dr. Ricardo da Costa disse:
Após lê-lo (e ter sido convidado para proferir palestra no Rio em um evento monarquista) escrevi o texto da apresentação tendo-o como inspiração: http://www.ricardocosta.com/artigo/genese-da-monarquia-no-ocidente.

O prefácio está disponível em PDF na internet (link do prefácio AQUI).

Boa leitura!

[Livro] Maquiavel Pedagogo

Por Pascal Bernardin


Preço Unitário (Un): R$29,00
COMPRE O LIVRO CLICANDO AQUI

Descrição: Quais são as razões da profunda crise na escola? É possível encontrar uma espécie de vírus no gene de nossa sociedade e de nosso sistema educativo? Podemos concluir que é urgente uma redefinição do papel da escola e de suas prioridades?

Inúmeros pais e educadores, testemunham, estupefatos, a revolução em curso. Interrogam-se sobre as profundas mutações que de forma acelerada vêm ocorrendo em nosso sistema educativo. Porém, nenhum governo, seja de direita ou de esquerda, vem à público esclarecer os fundamentos ideológicos dessas constantes reformas no ensino e tampouco se preocupam em apresentar, de forma clara, as coerências e os objetivos dos métodos adotados.

Mas ainda que tudo nos pareça muito obscuro, podemos encontrar todas as respostas na filosofia da revolução pedagógica que se expõe, em termos explícitos, nas publicações dos organismos internacionais como a Unesco, a OCDE, o Conselho da Europa, a Comissão de Bruxelas e tantas outras. Apoiando-se sobre textos oficiais desses organismos, Pascal Bernardin mostra detalhadamente que o objetivo prioritário da escola atual não é mais possibilitar aos alunos uma formação intelectual e muito menos fazê-los adquirir conhecimentos elementares. O que se pretende com a redefinição do papel da escola é torná-la nada mais do que
o instrumento de uma revolução cultural e ética destinada a modificar os valores, as atitudes e os comportamentos das pessoas em escala mundial. As técnicas de manipulação psicológica, que não se distinguem muito das técnicas de lavagem cerebral, estão sendo utilizadas de forma maciça. Naturalmente, os alunos são as primeiras vítimas porém, os educadores e também o pessoal administrativo – diretores, pedagogos e até mesmo inspetores – não estão sendo poupados.

Essa revolução silenciosa, antidemocrática e totalitária, quer fazer dos povos meras massas ignorantes e totalmente submissas à classe governante. Ela ilustra, de maneira exemplar, a filosofia manipuladora e ditatorial que tem abrigo na chamada Nova Ordem Mundial. Tal filosofia é imposta por meio de ações sutis e indiretas, porém poderosíssimas, gerando resultados catastróficos à inteligência humana.

Portanto, o que o leitor verá exposto neste livro é alto terrivelmente sério. Trata-se de uma análise minuciosa de tudo aquilo que está exposto nos documentos oficiais dos mais célebres organismos internacionais. E, embora documentos públicos, causa estranhamento o silêncio mortal que paira sobre eles. Certamente porque quando lidos, revelam-se uma verdadeira síntese do que é a escravidão.

[Olavo de Carvalho] A censura da família tradicional, o gayzismo e a ONU

Por Olavo de Carbvalho




A “família tradicional” que os cristãos e conservadores defendem ardorosamente contra o assédio feminista, gayzista, pansexualista etc., bem como contra a usurpação do pátrio poder pelo Estado, é essencialmente a família nuclear constituída de pai, mãe e filhos (poucos). O cinema consagrou essa imagem como símbolo vivente dos valores fundamentais da cultura americana, e a transmitiu a todos os países da órbita cultural dos EUA.

        Mas esse modelo de família nada tem de tradicional. É um subproduto da Revolução Industrial e da Revolução Francesa. A primeira desmantelou as culturas regionais e as unidades de trabalho familiar em que habilidades agrícolas ou artesanais se transmitiam de pai a filho ao longo das gerações; as famílias tradicionais desmembraram-se em pequenas unidades desarraigadas, que vieram para as cidades em busca de emprego. A Revolução Francesa completou o serviço, abolindo os laços tradicionais de lealdade territorial, familiar, pessoal e grupal e instaurando em lugar deles um novo sistema de liames legais e burocráticos em que a obrigação de cada indivíduo vai para o Estado em primeiro lugar e só secundariamente – por permissão do Estado – a seus familiares e amigos. A sociedade “natural”, formada ao longo dos séculos sem nenhum planejamento, por experiência e erro, foi enfim substituída pela sociedade planejada, racional-burocrática, em que os átomos humanos, amputados de qualquer ligação profunda de ordem pessoal e orgânica, só têm uns com os outros relações mecânicas fundadas nos regulamentos do Estado ou afinidades de superfície nascidas de encontros casuais nos ambientes de trabalho e lazer. Tal é a base e origem da moderna família nuclear.

Max Weber descreve esse processo como um capítulo essencial do “desencantamento do mundo”, em que a perda de um sentido maior da existência é mal compensada por sucedâneos ideológicos, pela indústria das diversões públicas e por uma “religião” cada vez mais despojada da sua função essencial de moldar a cultura como um todo. Nessas condições, assinala Weber, é natural que a busca de uma ligação com o sentido profundo da existência reflua para a intimidade de ambientes cada vez mais restritos, entre os quais, evidentemente, a família nuclear. Mas, na medida mesma em que esta é uma entidade jurídica altamente regulamentada e cada vez mais exposta às intrusões da autoridade estatal, ela deixa de ser aos poucos o abrigo ideal da intimidade e é substituída, nessa função, pelas relações extramatrimoniais.

        Separada da proteção patriarcal, solta no espaço, dependente inteiramente da burocracia estatal que a esmaga, a família nuclear moderna é por sua estrutura mesma  uma entidade muito frágil, incapaz de resistir ao impacto das mudanças sociais aceleradas e a cada “crise de gerações” que as acompanha necessariamente. Longe de ser a morada dos valores tradicionais, ela é uma etapa de um processo histórico-social abrangente que vai em direção à total erradicação da autoridade familiar e à sua substituição pelo poder impessoal da burocracia.

        Não por coincidência, o esfarelamento da sociedade em unidades familiares pequenas permanentemente ameaçadas de autodestruição veio acompanhada do fortalecimento inaudito de umas poucas famílias patriarcais, justamente aquelas que estavam e estão na liderança do mesmo processo. Refiro-me às dinastias nobiliárquicas e financeiras que hoje constituem o núcleo da elite globalista. Quanto mais uma “ciência social” subsidiada por essas grandes fortunas persuade a população de que a dissolução do patriarcalismo foi um grande progresso da liberdade e dos direitos humanos, mais fortemente a elite mandante se apega à continuidade patriarcalista que garante a perpetuação e ampliação do seu poder ao longo das gerações. Com toda a evidência, a família patriarcal é uma fonte de poder: a história social dos dois últimos séculos é a da transformação do poder patriarcal num privilégio dos muito ricos, negado simultaneamente a milhões de bocós cujos filhos aprendem, na universidade, a festejar o fim do patriarcado como o advento de uma era de liberdade quase paradisíaca. O desenvolvimento inevitável desse processo é a destruição – ou autodestruição -- das próprias famílias nucleares, ou do que delas reste após cada nova “crise de gerações”.

        A “defesa da família” torna-se, nesse contexto, a defesa de uma entidade abstrata cujo correspondente no mundo concreto só veio à existência com a finalidade de extinguir-se. A ameaça feminista, gayzista ou pansexualista existe, mas só se torna temível graças à fragilidade intrínseca da entidade contra a qual se volta.

        Ou as famílias se agrupam em unidades maiores fundadas em laços pessoais profundos e duradouros, ou sua erradicação é apenas questão de tempo. As comunidades religiosas funcionam às vezes como abrigos temporários onde as famílias encontram proteção e solidariedade. Mas essas comunidades baseiam-se numa uniformidade moral estrita, que exclui os divergentes, motivo pelo qual se tornam vítimas fáceis da drenagem de fiéis pela “crise de gerações”. A família patriarcal não é uma unidade ético-dogmática: é uma unidade biológica e funcional forjada em torno de interesses objetivos permanentes, onde os maus e desajustados sempre acabam sendo aproveitados em alguma função útil ao conjunto.

        Em últimas contas, se o patriarcalismo fosse coisa ruim os ricos não o guardariam ciumentamente para si mesmos, mas o distribuiriam aos pobres, preferindo, por seu lado, esfarelar-se em pequenas famílias nucleares. Se fazem precisamente o oposto, é porque sabem o que estão fazendo.
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Link com a notícia:
http://www.dailymail.co.uk/news/article-2229022/Now-Brussels-takes-aim-Famous-Five-Books-portraying-traditional-families-barred.html

Tradição, vida e morte.

Por Pe. João Batista de Almeida Prado Ferraz Costa

Mata-pau.
Mata-pau.
Sabe-se que a chamada filosofia vitalista do princípio do século XX (Bergson e Blondel), apresentando-se como uma reação a erros filosóficos então predominantes, exerceu uma notável influência sobre o pensamento católico. Contra uma concepção mecanicista e racionalista própria do positivismo e do neo-kantismo que pretendia esquematizar toda a realidade, a filosofia da vida insurgiu-se fazendo ver como era superficial semelhante pensamento que se atinha apenas ao elemento exterior, ao espaço, à extensão, e, por isso mesmo, incapaz de compreender o mundo em toda sua riqueza de vida e dinamismo. O vitalismo apresentava-se como um pensamento espiritualista que valorizava a vida interior do homem, salvaguardava sua liberdade e afirmava a sua consciência capaz de inovação criadora. As belas reflexões de Bergson sobre o mistério do tempo marcaram profundamente a grande obra literária do século passado “À la recherche du temps perdu” de Marcel Proust (Cf. Edmund Wilson, O castelo de Axel, Cultrix, São Paulo).
Contudo, a filosofia vitalista tinha um grave erro: ao mesmo tempo que valorizava a vida, não a explicava e tampouco esclarecia o seu verdadeiro sentido. Interpretava o ser como impulso vital e dizia que a vida não pode ser captada pela inteligência mas por uma suposta intuição. E o pior é que tal intuição é um conceito tão obscuro quanto a intuição da fenomenologia. A filosofia vitalista, pode-se dizer, limitava-se a dizer que a vida flui, que nela nada se perde, mas, ao contrário, nela agregam-se novas aquisições. De maneira que a inteligência só aprisiona a realidade em esquemas uniformes, fixos, mas não a conhece. Só os conceitos “fluidos” que acompanham o rio da vida são capazes de conhecê-la. Esses conceitos fluidos seriam as intuições. (Cf. Hirschberger, Historia de la filosofia, Barcelona, 1956)
Pois bem, a falta de precisão do conceito de vida (que não pode ser objeto do entendimento, ressalte-se) induziu os principais representantes do vitalismo a graves equívocos. Por exemplo, Bergson chegou a conceber Deus como um ser em devir. Blondel, por sua vez, em sua filosofia da ação, entende a ação como a vida do espírito em sua fonte e na totalidade do seu desenvolvimento. Diz que não há no mundo nenhum momento de pausa, porque nada no mundo é perfeito. O espírito nunca se adequa a uma realidade, mas sempre aspira a algo superior. Por conseguinte, cai por terra a noção de verdade elaborada pela metafísica tomista: adaequatio intellectus et rei.
Na primeira parte da Suma Teológica, Santo Tomás formula algumas questões importantes sobre a vida de Deus. As soluções do Santo Doutor refutam cabalmente os erros da filosofia vitalista. No artigo 1º da q. 18 pergunta se todas as coisas naturais vivem ou não vivem e assinala as diferenças entre os seres vivos e brutos. As razões aduzidas por Santo Tomás são muito úteis porque em nossos dias os modernistas gostam de relacionar os conceitos de vida e de tradição. O papa João Paulo II, no motu proprio Ecclesia Dei Adflicta, disse que o suposto gesto cismático de Mons. Marcel Lefèbvre (as consagrações episcopais sem mandato pontifício mas em virtude do estado de necessidade) se devia a uma incompleta noção de tradição que não leva em conta o caráter “vivo” da tradição.
É claro que João Paulo II aplicava à tradição a noção de vida em sentido analógico. Não entendia a tradição como aninal ou vegetal, mas como um conjunto de verdades ou como um tesouro que se enriquece e cresce com o passar das gerações sob a custódia da Igreja. De qualquer modo, cumpre examinar, à luz da doutrina de Santo Tomás, como se dá o processo vital.
No referido artigo diz que a vida se manifesta quando o animal tem movimento ex se, mas, ao contrário, quando o animal já não tem movimento ex se, mas é movido por outro, então se diz que o animal está morto. Em seguida, no artigo 2º, pergunta se a vida é ação – essa questão é importantíssima para compreender e refutar o erro do modernista Maurice Blondel – e responde, com base em Aristóteles, dizendo que o viver é o ser dos vivos. E afirmando o valor do conhecimento intelectivo do homem que alcança a essência da coisa como seu objeto próprio a partir dos sentidos que apreendem as aparências exteriores, Santo Tomás explica que geralmente, a partir das aparências exteriores, se impõem às coisas nomes que expressam sua essência. Mas às vezes os nomes derivam das propriedades em função das quais se impõem. Assim, por exemplo, o nome corpo é imposto para designar um gênero de substâncias em que se encontram três dimensões. Quanto à vida, diz Santo Tomás, o nome é tomado das aparências exteriores em vista da própria coisa que se move a si mesma; entretanto, o nome não é imposto para significar o movimento e sim a substância à qual convém em sua natureza mover-se a si própria ou agir de algum modo. Portanto, ser vivo não é predicado acidental, mas substancial. Esclarece que com menos propriedade se toma o vocábulo vida a partir das operações vitais. E cita Aristóteles, para o qual a vida é principalmenteintelligere.
Ora, a filosofia vitalista é uma filosofia que rebaixa a inteligência, despreza a razão, a qual considera uma força destruidora. De modo que é lícito realmente questionar se a tal filosofia convém o nome de filosofia da vida, uma vez que a vida é sobretudo intelligere. Que vida do espírito é a ação do sr. Blondel? Uma ação que é mais frustração do que plenitude, porquanto a realidade das coisas sempre lhe escapa.
Finalmente, quanto à relação estabelecida pelos modernistas entre os conceitos de tradição e vida, importa dizer que, à luz da sã teologia de Santo Tomás, resulta muito dificultoso para os sequazes da nova teologia provar que efetivamente os desdobramentos, acréscimos e “enriquecimentos” doutrinários verificados na Igreja sobretudo a partir do Vaticano II derivam de um processo vital de uma Igreja que se move a si mesma alicerçada em seus próprios fundamentos.Examinadas as raízes ideológicas de tais inovações pos-conciliares, percebe-se que se trata de um movimento de origem estranha à Igreja. Com efeito, a reforma litúrgica, o ecumenismo, a liberdade religiosa, a abertura ao mundo moderno são inovações que se impuseram de fora à Igreja. Isto é próprio de ser um morto. Na hipótese, porém, de se tratar de um processo vital, a imagem mais adequada para explicá-lo seria a do “mata-pau”.
Pe. João Batista de Almeida Prado Ferraz Costa
Anápolis, 27 de dezembro de 2012
Festa de São João Evangelista

Multidão francesa vão às ruas de Paris contra o casamento gay

O Globo - Multidão toma as ruas de Paris para protestar contra o casamento gay (http://migre.me/cNfg4). Mais cedo, o Vaticano criticou a adoção de crianças por casais homossexuais: http://migre.me/cNfqN



Leiam também:
Jornal do Vaticano critica adoção por homossexuais após decisão da Justiça

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/jornal-do-vaticano-critica-adocao-por-homossexuais-apos-decisao-da-justica-7281780#ixzz2HtXxUaqA
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LIBERDADE em prol da VERDADE é sempre CRIME: assim mataram os profetas hebreus, os filósofos gregos, os cristãos e etc.

TOLERÂNCIA: liberdade para dizer o que quer um grupo que controla a massa.

FANATISMO: discurso de um grupo que sob a égide da razão e da verdade (em suma, da realidade) não querem ficar escondidos.

*estão vendo padres, religiosos ou bispos na manifestação? Viva o Sensus Fidei! Grande ou quase a totalidade deste trabalho é fruto dos grupos tradicionalistas: SSPXFraternitas Sacerdotalis Sancti Petri (FSSP)Institute of Christ the King Sovereign PriestInstitut du Bon Pasteur e outros.


O cristianismo não é um humanismo

Por Rafael Gonçalves
Cristo sendo julgado pelo povo judeu.Como antes fora rejeitado como salvador em face de um revolucionario chamado Barrabás, Cristo sera novamente rejeitado na História por um processo revolucionario que buscará fazer do homem Senhor de si mesmo: não podemos reconhecer isso no movimento histórico da modernidade com a revolução francesa, a russa e agora a revolução cultural ?

A religião cristã consiste na subordinação de tudo que é humano e frágil para exaltar tudo que é divino e eterno.Entretanto um novo cristianismo apareceu depois  do Concílio Vaticano II (1962-1965) no interior da Igreja Católica e tambem dentro do movimento pentecostal de origem protestante: ambos tendem a exaltar o humano ao ponto de torná-lo divino: a ultima tentação , a prova final da Igreja será decidir-se entre um humanismo ou a luta encarniçada contra ele, para a Glória de Deus.Porém o que vejo é que a maior parte dos cristãos deste triste século sem Deus já escolheu ficar do lado do humanismo. E não é este humanismo que entronizará o Homem feito Deus no Lugar do Deus feito Homem ?Este homem divinizado é o que a Tradição Apostólica chama de Anticristo. 
Quando falo do humano não falo dele tomado abstratamente mas realmente na sua condição de queda e de pecado.Ignorar essa condição e olhar para o humano como os iluministas olham , com otimismo , como pensava Rosseau quando dizia que " o homem nasce bom , a sociedade é que o corrompe", trata-se de gnose que consiste em negar o dogma do pecado original e a consequente depravação do gênero humano e com efeito a necessidade de um salvador.A gnose tem como um de seus traços a ideia de autosalvação , a ideia de que o humano pelas próprias forças possa redimir-se do mal visceral que o atinge. Alguns filósofos e teólogos argumentam que a encarnação do Verbo Divino foi a realização do último degrau da evolução humana( Entre eles Kant, Scheleirmacher , Renan , Teilhard de Chardin , etc).Assim Jesus seria um puro homem que elevou sua consciencia a tal nível que tornou-se "filho de Deus" não por natureza mas por um processo evolutivo.E a encarnação apenas uma metáfora : não foi Deus que se fez homem mas um homem que se elevou a Deus por colocar sua consciencia totalmente voltada para ele.A encarnação do Verbo não foi no entanto a evolução da carne e do humano enquanto tal: Ao tornar-se carne ele divinizou a natureza humana , elevando-a a participação na vida de Deus.Deus se fez homem para elevar a si aquilo que em si mesmo [ a natureza humana ] jamais poderia fazê-lo por si.A salvação da carne e do humano está aí e se dá assim : não pela sua afirmação mas pela sua transformação e elevação.O evangelho de São João mais teológico foi escrito exatamente com esse papel : refutar a heresia gnóstica de Cerinto que via Jesus apenas como um homem elevado.João visou em seu Evangelho mostrar que o Verbo é Deus e que esse Deus encarnou-se historicamente e que pode ser identificado como uma figura humana real : Jesus.A sobrenaturalidade é a chave para entender o que seja cristianismo - ela não é uma filosofia naturalista , um discurso sobre a evolução da consciência humana até Deus na pessoa de Jesus mas a revelação que Deus tenha se feito homem por uma intervenção miraculosa.O amor cristão que é sobrenatural é isso : está muito acima do amor humano , o eros ou a filia , únicas formas que a natureza humana tem de amar.O amor ágape  não nasce de um crescimento natural do eros ou da filia mas de sua superação resultante de um dom do alto qual seja a virtude teologal da caridade comunicada pelo batismo.
 O problema é quando hoje vastos setores do clero falam do homem tomam-no numa chave abstracionista: o homem como saído das mãos de Deus , bom e sem mácula , o homem com todas as suas faculdades íntegras ...era esse exatamente o foco da Gaudium et Spes ( constituição pastoral do Concílio Vaticano II): um otimismo que tende a não enfocar suficientemente o homem na sua historicidade marcado profundamente pelo pecado ainda que não totalmente corrompido em sua natureza , profundamente ferido nela.Esse humanismo hoje arrisca naufragar o catolicismo em vastas áreas do mundo.É esse humanismo que fez Paulo VI crer ser possível dialogar até com marxistas , é esse humanismo que faz um sacerdote como Fábio de Melo adotar os modos naturais de nosso tempo, é esse humanismo que promove as cristotecas , é esse humanismo que promove o irenismo ecumênico ,fundado na crença de que tudo que é religião é bom por que é humano,   que faz confundir psicologia com espiritualidade , que faz coincidir cristianismo com filantropia e engajamento social , que defende a separação estado - igreja , a liberdade de consciencia , a valorização do que há de positivo nas religiões pagãs ( como se pudesse haver algo de positivo na idolatria - ainda que houvesse seria tão só para levar a mentira multidões misturando-a com algumas verdades para torná-la mais razoável : afinal a mentira absoluta não convence , ela precisa da aparencia da verdade para se suster).
Pode ser que alguem entenda errado o termo  "consiste na depreciação" : ora este termo tem vários sentidos.Não o utilizo no sentido de aviltamento mas no sentido de que em face do divino o humano é colocado em segundo plano na hierarquia da realidade diante da revelação cristã.Platão já ensinava em seu mito da caverna que esta realidade cá de baixo era participação na ideia divina.O que o humanismo tende a fazer é olhar para este mundo cá de baixo a partir dele mesmo : é o que em filosofia chamamos de imanência.O humanismo nega toda a transcendência.Ele rejeita toda valor que possa vir de fora ou que esteja acima do homem.Para o humanismo toda a cultura , civilização , arte, religião, moral deve ser extraída do homem e apenas dele.O humanismo é negação da fé cristã  que afirma que este mundo e o homem só podem ser entendidos por uma ordem divina e eterna que está acima deles.No entanto desde os primórdios da renascença não faltou quem tentasse conciliar cristianismo com humanismo tendendo a ver o homem como um ser igual a Deus , tendendo a ver a razão humana como o Verbo(Logos Divino). 
A grande apostasia da qual São Paulo fala em sua 2ª carta aos Tessalonicensses é o humanismo pelo qual será "revelado o homem do pecado , o filho da perdição, aquele que se opõe e se levanta contra tudo o que se chama Deus ou é objeto de adoração, de sorte que se assenta no santuário de Deus, apresentando-se como Deus."

Psicanálise e religião


Rudolf Allers — ou o "Anti-Freud", como o chamou Louis Jugnet — foi psicólogo eminente: discípulo direto de Freud, trabalhou mais de 13 anos com Alfred Adler, e exerceu considerável influência em figuras tais como Victor Frankl, que foi seu aluno. Católico, vienense, desde cedo manifestou oposição às idéias de Sigmund Freud, que considerava anticientíficas. Em 1940 publicou seu famoso trabalho "The Successful Error— A Critical Study of Freudian Psychanalysis", de onde tiramos o capítulo que se vai ler, e que constitui um pungente libelo contra os erros da psicanálise.

O naturalismo e o materialismo são, necessariamente antagônicos da religião. Uma atitude mental que introduz fatores imateriais e trans-mundanos, que sustenta uma noção como a de uma alma espiritual e que acredita na revelação, torna-se, para o espírito materialista, ininteligível, estranha e perigosa. Tal mentalidade é, verdadeiramente, o oposto do materialismo e, ao passo que as atitudes religiosas existem e permanecem eficazes na vida humana, o materialismo sente a sua posição ameaçada. Os defensores de uma explicação "científica" da realidade vêem na religião, ou um inimigo, ou, pelo menos, um estádio rudimentar da evolução, que tem de acabar por triunfar para assegurar o "progresso" definitivo da raça humana.


A psicanálise é profundamente materialista e não pode mesmo professar outra filosofia. A sua base é o materialismo. Se os sequazes de Freud abandonassem o seu credo materialista, ver-se-iam obrigados a deixar de ser psicanalistas. Há alguns que estão convencidos de que podem acreditar, ao mesmo tempo, na verdade da religião e na verdade da psicanálise, sem incorrerem em auto-contradição. Esses homens imaginam isso, ou porque não conhecem suficientemente uma coisa e outra, ou porque o seu espírito é de tal natureza que se acomoda às contradições, ou ainda talvez porque não são bastante críticos para se aperceberem de tais contradições.

Ninguém que penetre no espírito da psicanálise e, ao mesmo tempo, seja inteiramente conhecedor da essência da fé sobrenatural, pode acreditar que estas duas coisas sejam compatíveis. Já varias vezes foi declarado, tanto por autores católicos como protestantes, que a psicanálise é, basicamente anti-cristã. Não há maneira de se sair deste dilema: ou se acredita em Cristo ou na psicanálise. Os próprios sequazes de Freud não têm dúvidas a tal respeito. Para eles, a religião não significa mais do que uma manifestação particular do espírito humano, da mesma categoria que as práticas da magia, do totemismo ou da bruxaria. Sempre os psicanalistas procuraram provar que a religião é um produto de forças instintivas e da reação contra as mesmas.

Freud fala da religião como de uma "ilusão". Os ritos religiosos são assemelhados a práticas devidas à obsessão, ou identificados com as mesmas práticas. A religião é uma neurose dos grupos. Não vale a pena entrar em pormenores, porque todas as obras dos psicanalistas estão cheias de observações no mesmo sentido. Não há dúvida alguma de que a sua convicção é que a religião é um fato puramente psicológico, que é nociva e condicionada pelos mesmos fatores que condicionam a neurose nos indivíduos, e que, finalmente, para bem da humanidade, tem de ser abolida e substituída pelo reino da ciência. Era isso que Freud esperava; a "ilusão" devanecer-se-ia perante a luz da razão; a ciência substituiria a religião na cultura e na vida, e uma nova época de prosperidade reinaria, quando a ciência reinasse como senhor supremo.

Esta é a mentalidade dum homem que nasceu pouco depois dos meados do século passado, que se educou na era do materialismo, do "liberalismo" e das entusiásticas esperanças no futuro, e que foi incapaz de se libertar da escravatura daquelas impressões que lhe haviam ficado da sua adolescência. Hoje verificamos que a ciência faliu, não porque não seja uma das mais admiráveis realizações do homem ou porque se mostrasse incapaz de promover o progresso, mas unicamente porque lhe atribuíram a capacidade de realizar aquilo que, de fato, nunca poderá levar a cabo. Mas a fé otimista de Freud na ciência permaneceu inquebrantável durante mais de oito décadas de sua vida. E nós poderemos compreender a sua imutável atitude; mas o que não podemos compreender é como pessoas de uma geração posterior, que tinham obrigação de ver as coisas como elas são, podem ainda defender um credo como o cientificismo. Para pessoas desta mentalidade, a religião é apenas um fato, como muitos outros, na história da cultura humana. E essas pessoas não estão também preparadas para admitir qualquer diferença entre as religiões. O último livro de Freud é um exemplo frisante desta incapacidade de discernir certos pontos que são decisivos. Assim, ele não conhece absolutamente nada das enormes diferenças entre o monoteísmo judaico-cristão e a idéia pagã de um deus supremo. A sua concepção sobre o monoteísmo dos judeus, devida à sua aceitação da religião de Athon, a divindade do sol do Egito, mostra que não conhece a essência do verdadeiro monoteísmo, e também que não procura informar-se sobre coisas que ele mesmo era incapaz de conhecer devidamente [1].

Basta um conhecimento superficial da psicanálise para que qualquer pessoa possa ver o enorme golfo que separa a mentalidade cristã daquela que se encontra implicada na concepção freudiana acerca do homem. E é verdadeiramente impressionante ler num artigo de O. Pfister que os ensinamentos de Jesus Cristo nos Evangelhos apresentam grandes analogias com a teoria da psicanálise. Mas mesmo este autor, que, segundo parece, é protestante, reconhece que há também grandes dessemelhanças. E nós só temos a dizer que, de fato, as há. Outros teólogos protestantes, como, por exemplo, o Dr. Runestam, da Universidade de Upsala, pensam diferentemente; para esses, a psicanálise é profundamente contrária ao espírito do Cristianismo.


Uma filosofia que nega o livre arbítrio; que ignora a espiritualidade da alma; que, com um oco materialismo e sem qualquer tentativa de prova, identifica os fenômenos mentais e corporais; que não conhece outro fim senão o prazer; que se entrega a um confuso e obstinado subjetivismo e que se mostrou cega à verdadeira natureza da pessoa humana — não pode ter qualquer ponto comum com o pensamento cristão. É-lhe completamente oposta.

O antagonismo existente entre a mentalidade do freudismo, de um lado, e o espírito do Cristianismo de outro, é claramente percebido por aqueles que acreditam que a religião no mundo moderno deve ser suplantada pela psicologia, que o analista deve ocupar o lugar do sacerdote e que o homem encontrará alívio para os seus sofrimentos morais e respostas às suas dificuldades pessoais no consultório do psicanalista, em vez de encontrar esse mesmo alívio na confissão que faz a um padre católico. Tal idéia assenta sobre um errado conhecimento da religião e da psicanálise; ambas estas idéias estão deturpadas. Não há qualquer similaridade entre a confissão e a análise. A confissão é um sacramento. Os espíritos modernos não atentam senão aos fatores psicológicos que nela se encontram envolvidos, mas é preciso notar-se que mesmo esses fatores não são comparáveis. O penitente diz, na confissão, as coisas que sabe, narra os fatos de que se julga culpado e, eventualmente, expõe as dificuldades que o assaltam; tudo aquilo de que ele trata é "material consciente". O confessor nunca faz qualquer tentativa de explorar o inconsciente. A esperança e a boa vontade, um profundo conhecimento e, finalmente, a graça de Deus irão ajudar o penitente a dominar os seus hábitos pecaminosos, a evitar as recaídas, a fugir às tentações e a progredir no caminho da perfeição.

Não sucede assim com o analista e o seu paciente. Neste caso, aquilo de que o paciente tem conhecimento pouco interessa; o que importa é o inconsciente. Nem um nem outro confiam na boa vontade, porque a vontade não passa de um epifenômeno, e o que é real está escondido nas profundezas do inconsciente. Não há qualquer sentimento de culpa pela infração de uma ou outra lei moral objetiva, ou pela rejeição de um valor moral, mas apenas uma constelação de tendências instintivas, o conflito entre o super-ego e o id, e assim por diante. o analista nunca poderá ocupar o lugar do sacerdote. A missão deste tem de ser desempenhada por ele e mais ninguém [2].


Não há necessidade de estarmos a pôr à prova a paciência do leitor, trazendo para aqui as idéias que os psicanalistas têm defendido pelo que diz respeito à religião.

Todos ele têm falado muito sobre um assunto que apenas superficialmente conhecem e, além disso, confiam largamente nas suas concepções etnológicas que, como já vimos3, estão muito longe de ser dignas de crédito. As suas conclusões relativamente a práticas religiosas, aos ritos, à psicologia da fé e a outros assuntos semelhantes, muito dificilmente poderão ser tomadas a sério. Muitas dessas idéias são positivamente ridículas e mostram uma ignorância crassa.

Temos, porém, de enfrentar uma questão. Por que é que os psicanalistas têm um tão notável interesse pela religião? Há mais obras e artigos na literatura psicanalítica que tratam de problemas mais ou menos relacionados com a religião do que se pode imaginar. Parece que o espírito analítico está possuído de uma curiosa obsessão, e que se sente incapaz de se libertar dela. Não há dúvida de que a religião tem desempenhado um importante papel na história, e continua a influenciar mais a atitude geral da humanidade do que a própria ciência. a ciência, considerada como tal, dificilmente exercer qualquer influência; não é a própria ciência, mas a crença popular nela, que tem contribuído muito para formar a mentalidade de hoje. Ora, os psicanalistas não tratam de saber as razões por que o homem chega a acreditar na ciência de forma tão exagerada. Consideram como um postulado o homem ter de acreditar na ciência, mas procuram mostrar que qualquer outra crença, especialmente no sobrenatural, tem de ser explicada por razões psicológicas. A sua atitude é inegavelmente dúbia, devido à sua crença na ciência. Esses homens estão presos ao "cientificismo". Acreditam fervorosamente na ciência, como a panacéia por meio da qual a humanidade se há de erguer a um nível muito mais elevado.


Esta atitude tem certas raízes na história dos últimos sessenta ou cem anos. No próximo capítulo diremos algumas palavras sobre este fenômeno. Mas o fenômeno não explica a curiosa fascinação que a religião, e os problemas que lhe andam ligados, exercem aparentemente sobre o espírito psicanalítico. Deve haver algum fator mais diretamente ligado com a psicanálise e com a situação presente da civilização em geral. Fazer luz sobre este ponto é coisa que se torna ainda mais desejável, porque podemos assim alimentar a esperança de penetrarmos mais na natureza da psicologia freudiana, ou antes na antropologia freudiana, e, conseqüentemente, definirmos mais claramente a política que tem de ser observada por um católico no que diz respeito à psicanálise. Todo aquele que examine conscienciosamente a psicanálise e considere os fatos fornecidos por esta psicologia, no que diz respeito à sua própria natureza, só poderá chegar a uma conclusão. E tal conclusão há de ser expressa em termos muito breves: a psicanálise é uma heresia.

Esta afirmação parecerá, talvez, surpreendente. Os cristãos podem ver-se tentados a rejeitá-la, porque não vêem nenhuma relação, ou qualquer terreno comum, entre a psicanálise e a sua fé. Uma heresia — dirão eles — é uma forma deturpada da verdadeira fé, que resulta de se desrespeitar ou desvirtuar qualquer dos artigos fundamentais. Mas, seguramente, a psicanálise nada tem de comum com a fé cristã.

Não altera um artigo fundamental, como faz o Arianismo em relação à pessoa de Jesus Cristo, ou como faz o Protestantismo, em relação à natureza da Igreja, ou como faz ainda o Pelagianismo, no que se refere ao papel da graça na salvação do homem. O analista, por sua vez, não levará a sério aquela afirmação. Entende ele que nada tem de ver com o Cristianismo, que as suas atividades são científicas e que a ciência é independente de toda a fé. Dirá que estuda religião apenas como um fato entre tantos outros que a história da humanidade apresenta. E acabará por afirmar que não pensa em negar ou alterar qualquer dos artigos da fé, porque, para ele, tais fatos nada significam senão uma forma particular da ignorância, uma superstição ou uma ilusão — e não se nega uma ilusão ou uma alucinação, mas apenas se trata de estudar a sua origem e curar o paciente.

Não esperemos poder convencer o psicanalista, nem nunca ele se considerará um herético. Nenhum herético, através dos séculos que conta o Cristianismo, se considerou alguma vez como tal. O herético, ou pretende estar dentro da Igreja, mesmo que defenda opiniões que divergem largamente dos seus ensinamentos, ou declara que é ele o único representante da verdade e da fé inalterada, e que a Igreja abandonou o caminho do seu Fundador, caminho esse que ele procura descobrir de novo.

Mas esperamos poder convencer os católicos e, sem dúvida, todos aqueles que acreditam em Cristo como Salvador e Redentor da humanidade. Muito desejaríamos poder conseguir isso, não só porque a atitude dos cristãos, no que se refere à psicanálise, ficaria melhor definida e fundamentar-se-ia melhor do que num vago sentimento de relutância e de ofensa moral, mas também porque a psicanálise é apenas um exemplo, ou ilustração, embora bastante notável, de uma atitude mental que se desenvolveu a ponto de dominar a mentalidade geral no decorrer do último século. Essa atitude tornou-se então muito influente, embora as suas raízes remontem ao passado da cultura ocidental. Um melhor entendimento daquilo que a psicanálise é, e um melhor conhecimento da natureza do espírito que ela cria, habilitar-nos-ão a seguirmos com mais clareza os rastos desse mesmo espírito em outras manifestações do nosso mundo moderno.

O caráter herético da psicanálise tornar-se-á claramente visível quando tivermos posto a descoberto as suas raízes e inspecionado os seus antecedentes. Será isso a nossa tarefa no próximo capítulo. Aqui, apenas nos referimos ao bem conhecido fato de que as heresias, através dos séculos do Cristianismo, sempre sentiram a necessidade de afirmar, cada vez mais, os seus direitos. É como se os hereges sentissem a consciência culpada e, com o fim de a fazerem calar, se sentissem forçados a apregoar as suas supostas razões difamando a Igreja, contra a qual se levantavam. [...]




Os católicos sabem também, não obstante se sentirem alarmados com a idéia de não serem modernos, que tudo aquilo que realmente contradiz os ensinamentos da sua fé não pode ser verdadeiro. Sabem, como coisa certa, que uma filosofia ou uma ciência que desrespeita concepções fundamentais do Catolicismo há-de acabar por desaparecer, por muito grande que seja o seu sucesso na hora presente. Sustento que a psicanálise é um enorme e perigoso erro. E o meu interesse é evitar que o maior número de pessoas possível — e, em primeiro lugar, tantos cristãos quanto possível — caiam nas garras de tal erro.

Há uma concepção fundamental na religião cristão que não é apenas desprezada mas, simplesmente, negada pela psicanálise. É a concepção do pecado. Em psicanálise não há pecado. A sua filosofia é decididamente determinista e a noção do pecado pressupõe o livre arbítrio. Também não há lugar para a noção de pecado neste sistema, porque o comportamento humano, de acordo com os princípios da antropologia freudiana, não depende das forças conscientes, mas sim de forças inconscientes. Isto é apenas uma conseqüência lógica do fato de que a psicanálise interpreta a consciência, não como o reconhecimento da conformidade ou não conformidade com as leis eternas da moral ou dos valores, mas como a expressão de um equilíbrio restabelecido, ou perturbado, de forças instintivas. A psicanálise vê necessariamente na consciência um mero fenômeno psicológico. Tal concepção da natureza humana não poderá exercer qualquer coisa que se assemelhe a responsabilidade.

Desnecessário será dizer que a psicanálise nada tem de ver com quaisquer noções que se refiram ao sobrenatural. Esta negativa completa do sobrenatural não é própria duma ciência empírica que, prudentemente, limita as suas investigações aos campos acessíveis à razão humana. O verdadeiro cientista tem grande respeito pelos fatos, não se pronuncia sobre as coisas, unicamente porque as não pode alcançar pelos seus métodos, e evita emitir juízos sobre assuntos cuja compreensão não está dentro dos poderes da fraca razão do homem. Mas o psicanalista vem dizer-nos que toda a crença no sobrenatural, seja na graça de Deus, como no próprio Deus, na eficácia dos sacramentos ou na imortalidade da alma, são tudo idéias que dimanam de fatores instintivos, que esta psicologia se orgulha de ter descoberto e privado assim da sua força impressiva. A psicanálise não vê diferença alguma entre a religião católica, os seus usos, ritos e sacramentos por um lado, e os mais primitivos e fantásticos costumes dos aborígines da Austrália ou da África central pelo outro.

Dificilmente se encontrará um artigo de fé que não tenha sido submetido à análise, e que não tenha sido objeto de uma "explicação" psicanalítica. Estas chamadas explicações causariam abalo num espírito católico, se não fossem manifestamente baseadas numa absoluta incapacidade para compreender a doutrina que se pretende explicar.

Nos parágrafos anteriores apenas nos referimos às relações da psicanálise com a fé católica sem nada termos dito a respeito da moral católica. Vamos agora dizer alguma coisa sobre tal assunto.

A psicanálise, considerada como tal, nada tem a dizer sobre moral. Quer-se uma ciência, e as ciências podem fazer afirmações apenas sobre o que é, nunca sobre aquilo que devia ser. Esta é que é a verdadeira ciência. Mas não é próprio de verdadeiros cientistas o uso que eles atualmente fazem da ciência para propagar qualquer "reforma" da moral, ou para declararem que esta ou aquela atitude está, ou deixa de estar, de acordo com a moral. Tais afirmações feitas em nome da ciência são, sem dúvida, não a expressão de conclusões que os fatos impusessem ao espírito, mas a expressão de convicções que tem uma origem completamente diferente. A ciência apenas nos pode dizer os meios de que nos podemos servir para atingir algum fim, mas nada conhece acerca desses fins. A medicina não decreta que a saúde tem de ser conservada; apenas nos ensina como devemos proceder para a conservar. A expressão, tantas vezes ouvida, de "educação científica", ou significa que devemos aprender na ciência a melhor forma para realizarmos os nossos fins, ou não significa coisa alguma.

Todo aquele que acreditar que a ciência é capaz de fazer qualquer afirmação sobre a razão por que as pessoas têm de ser educadas não conhece coisa alguma sobre a verdadeira natureza da educação. E o mesmo sucede com a moral: "ética científica" é uma expressão sem sentido algum.

Mas mesmo o cientista é um ser humano e, como tal, não pode deixar de ter as suas convicções, os seus ideais e os seus desejos. É apenas natural, embora não seja justo, que ele procure, ainda que "inconscientemente", apresentar as suas idéias e ideais pessoais como se derivassem das ciências. As ciências que têm por objeto o homem não são as que estão especialmente arriscadas a estenderem-se para um campo onde não têm competência. Pelo fato de que a saúde é um bem naturalmente desejado pelo homem, a medicina facilmente chega a acreditar que os seus ensinamentos sobre medidas higiênicas são da mesma natureza dos preceitos morais. Pelo fato de que a psicologia conhece que um espírito funcionando normalmente é um valor desejado, o psicólogo julga-se autorizado a enunciar regras sobre educação. A psicologia médica está inda mais propensa a cometer este erro do que qualquer outra espécie de psicologia. O médico psicólogo observou muitíssimas vezes as desastrosas conseqüências que uma educação errada pode ter no desenvolvimento do caráter e da personalidade. Portanto, vem simplesmente declarar que este ou aquele método de educação "tem" de ser adotado. assim, mais necessário se torna examinar cuidadosamente o espírito de uma psicologia que se julga com o direito de impor à educação os seus métodos e alvos.


Educação é mais do que instrução; é, primariamente, a construção de uma personalidade moral. A ética e a educação estão, portanto, intimamente correlacionadas. E a educação não termina depois de se ter freqüentado uma escola superior ou um colégio: praticamente, a educação nunca termina. Somos educados pelos fatos, pelas influências do meio ambiente e pelas idéias, de forma que temos de nos educar a nós mesmos.

Uma psicologia nascida dum espírito decididamente anti-cristão não pode ser senão excessivamente perigosa. Mesmo que o psicanalista se esforce por evitar qualquer ofensa às idéias e sentimentos religiosos ou morais do paciente, não o poderá conseguir. O seu método, as suas interpretações, e toda a sua mentalidade são de uma natureza manifestamente hostil ao espírito cristão. Essa mentalidade dá-se a conhecer a todo o momento, e encontra-se implícita em cada uma das mais triviais observações. Ainda que o analista esteja resolvido a abster-se de toda a influência sobre a fé ou moral do paciente, a sua resolução será ineficaz, e ele não poderá deixar de transmitir a esse paciente o contágio de um espírito anti-cristão.

Há alguma coisa profundamente errada neste espírito, e o que está errado melhor se aperceberá, se considerarmos as idéias que a psicanálise professa a respeito do homem normal. A teoria de Freud era, e ainda o é em grande extensão, um processo para a cura de doentes nervosos. Todo o tratamento tem de ter como ponto de referência alguma idéia de normalidade, porque a obtenção dessa normalidade é o sinal característico de que o tratamento foi bem sucedido. Freud disse, mais do que uma vez, que um homem é normal quando está apto a trabalhar e a gozar a vida.

Não há nada mais na concepção psicanalítica sobre a natureza normal do homem. Gozar implica, sem dúvida, a adaptação à realidade, desde que, não sendo assim, o desprazer seria maior do que o prazer.

Esta concepção foi estabelecida de novo, por exemplo, por Hendriks, que declara que a culminação do desenvolvido ego consiste em o indivíduo se tornar capaz de manter a sua existência, e assegurar uma satisfação adequada dos instintos libidinais e agressivos, num ambiente socializado de adultos. Estas definições são, como se está a ver, muito incompletas; os fatores morais são absolutamente ignorados ou, antes, estão incluídos na noção de ajustamento ao meio social. É um erro largamente divulgado o acreditar-se que a moral está limitada às relações com os nossos vizinhos: desprezam os deveres para com a própria pessoa, como desprezam os deveres para com Deus.


Daqui se segue que a psicanálise se mostra incapaz de avaliar devidamente certos fenômenos, como o sentimento de culpa ou a consciência. A consciência tem origem — observa um autor — numa identificação hostil. Vê-se que este autor não teve, no seu espírito, a mais rápida visão do fenômeno a que se refere. Outro diz-nos que o desejo de confessar o pecado cometido — não precisa de ser no confessionário, porque este desejo pertence à natureza humana — resulta de um impulso de revelação, que está relacionado com o "instinto parcial" do exibicionismo. E há ainda um terceiro autor que nos vem dizer que a necessidade da confissão está relacionada com o erotismo oral. Não será preciso multiplicar os exemplos. Os três já mencionados revelam uma ignorância de tudo quanto se refere a religião e a psicologia geral.


A concepção naturalista da natureza humana vem colorir todas as afirmações feitas sobre moral. Os verdadeiros mandamentos, as leis eternas, são coisas que não existem, de acordo com este ponto de vista. E tal mentalidade não pode senão ter uma influência altamente destrutiva sobre qualquer pessoa que esteja possuída de convicções diferentes. É possível que o tratamento psicanalítico de uma pessoa nessas condições venha a ser mal sucedido, se as convicções são suficientemente fortes, e se a diferença entre elas e as do analista se nota com clareza, ou poderá ainda suceder que esse tratamento tenha como resultado um gradual desmoronamento de tais convicções, devido à pressão contínua do espírito hostil do psicanalista.

O perigo de a moral não naturalista ser destruída pela análise, mesmo que o psicanalista não tenha intenção de o fazer, é sempre muito grande, porque a moralidade — ou amoralidade — do freudismo pode tornar-se uma forte tentação. O psicoterapeuta logo é encarado pelo paciente como pessoa de autoridade; chamem a isso transferência, se assim o quiserem, porque o nome pouco importa. Uma concepção da vida que apela para o lado instintivo do homem exerce sempre uma sedução natural e, quando tal sedução é fortalecida pela autoridade, poderá tornarse irresistível.


Não se pode dizer com verdade que os psicanalistas preconizem um relaxamento de costumes, mas é certo que eles concebem a moral por uma forma que é exatamente o oposto daquilo que um católico sabe que a lei moral implica. Isto refere-se em primeiro lugar à sexualidade, mas o mesmo sucede com qualquer outro aspecto do comportamento. E temos de chegar à conclusão de que o católico se deve abster de qualquer íntimo contato com as idéias freudianas. Se ele tiver dessas idéias inteiro conhecimento, será o primeiro a evitar tal contato; no caso contrário, é necessário pô-lo se sobreaviso.

Alguns adversários da psicanálise têm procurado acentuar a "imoralidade" da teoria e da sua atitude prática, no que diz respeito a certos problemas morais. o analista, dizem eles, é obrigado a defender pontos de vista incompatíveis com a moralidade cristã e, portanto, não pode deixar de ter uma influência destrutiva sobre o comportamento moral dos indivíduos e sobre as idéias morais do público. Este ponto precisa de uma elucidação.

A concepção que Freud e a sua escola formaram da natureza humana é, sem dúvida, muito diferente da concepção formada pela moral cristã e, principalmente, pela moral católica. O "princípio do prazer", mesmo depois da sua transformação em "princípio de realidade" não é a espécie de força motriz que a moral cristã supõe estar no fundamento do comportamento moral. A idéia de que a natureza humana está em ordem e "normal", desde que o indivíduo esteja apto para trabalhar e para gozar, não é idéia que possa ser aceitada pela ética católica. Estes aspectos da psicanálise são mais importantes, para responder à questão, do que a insistência de Freud sobre a sexualidade. Por muito errada que seja a noção de uma libido estendendo-se a tudo, não precisa de ser imoral.


O fato de que a psicanálise seja um sistema puramente naturalista e incapaz de avaliar a religião e o comportamento religioso em seu verdadeiro valor, é, sem dúvida, um sério inconveniente. Alguns analistas sustentam que não há necessidade de pôr em perigo as crenças religiosas de um indivíduo, desde que tais crenças não sejam o resultado de fatores patológicos ou um obstáculo para a recuperação da saúde mental. No entanto, será difícil ver como o analista, por muito que queira, evitará pôr em risco a atitude religiosa. Qualquer paciente, mesmo de inteligência média, não pode deixar de compreender que o espírito geral daquela teoria com a qual se relacionou durante o tratamento é completamente hostil às suas crenças religiosas. E pouco importa o fato de o paciente refletir ou deixar de refletir nisso.


O antagonismo entre a psicanálise e a moral católica, na medida em que tal
antagonismo está implicado no sistema da filosofia e da psicologia de Freud, é uma
coisa; o consciente eventual e a influência direta, aconselhando o paciente a agir
contra os princípios da moral católica, é outra. Se se soubesse que muitos ou alguns
psicanalistas aconselhavam os seus pacientes de forma que lhe sugerissem um
comportamento contrário à moral, o perigo deste sistema tornar-se-ia, sem dúvida,
muitíssimo grande.
Algumas das idéias sustentadas pelos psicanalistas são contrárias às concepções
católicas, sem que sejam, no entanto, exclusivamente características do freudismo.

Desnecessário será dizer que um analista, encontrando uma pessoa a braços com dificuldades domésticas, sem qualquer esperança e incapaz de continuar a vida com o marido ou com a esposa, acabará por lhe aconselhar a separação. Tal conselho poderá não ser mau, mas implica, na mente do analista, a idéia de que, depois da separação, essa pessoa poderá voltar a casar-se com alguém que lhe dê melhor vida.

Esse conselho podia ter sido dado por qualquer médico não católico; as convicções que o originaram não são especificamente freudianas, pois pertencem a um conjunto de idéias comuns a todas aquelas pessoas que julgam possuir "um espírito liberal". O mesmo se pode dizer da sugestão para se procurar a satisfação sexual prématrimonial. Seria diferente, se se sugerisse a uma pessoa casada que, por qualquer motivo, procurasse relações sexuais extra-matrimoniais.

É muito difícil saber qual é a atitude normal dos analistas no que se refere a tais problemas, bem como é também muito difícil ter a certeza de que certos relatos publicados são inteiramente dignos de crédito. O tratamento psicanalítico pode, em alguns casos, principalmente se não foi bem sucedido, deixar um ressentimento definido no ânimo do paciente, e esse estado mental poderá muito bem deturpar, mesmo sem qualquer intenção consciente de calúnia ou de prevaricação, a memória de coisas mencionadas durante as horas de análise. É corrente, em alguns tipos da personalidade nevrótica, um certo desrespeito pela verdade objetiva; por isso, os relatos que nos são fornecidos por doentes nervosos têm de ser olhados com muita precaução. Alguns psicanalistas podem ter professado uma atitude demasiadamente "liberal", no que diz respeito a certas leis morais, mas há ainda razão para perguntar se tal atitude resulta do fato de serem sequazes de Freud, ou se resulta da sua mentalidade geral. Não nos devemos esquecer de que muitas idéias, definidamente anti-católicas, no que se refere a moral, têm partido de pessoas que não eram psicanalistas. As opiniões defendidas pelos bolchevistas sobre o casamento, sobre relações sexuais etc., pelo menos na primeira fase do seu domínio, não dependem de qualquer influência exercida pelos psicanalistas. Não há dúvida de que os pontos de vista de Freud contribuíram para propagar as discussões sobre assuntos sexuais. A insistência com que ele se referiu à sexualidade, e as suas provas, aparentemente científicas, da importância fundamental dos fatores sexuais na natureza humana, fortaleceram a posição daqueles que dirigiam os seus ataques contra a moral cristã.

Mas não se pode dizer que o próprio Freud pregasse diretamente uma moral anticatólica. No entanto, pregou-a implicitamente.

Tanto quanto os relatórios podem ser acreditados, fica-se, sem dúvida, com a impressão de que alguns psicanalistas não sentem qualquer relutância em aconselhar atos decididamente imorais, especialmente — e até exclusivamente — no que se refere ao comportamento sexual. Num congresso de psiquiatras franceses realizado há anos, o Dr. Genil-Perrin referiu-se a numerosos casos em que ele e outros intervieram, e em que era freqüente darem-se conselhos de tal natureza. Mas é impossível lançar mão de cifras dignas de crédito. Não podemos saber quantos psicanalistas teriam, eventualmente, procedido dessa forma, nem tampouco podemos saber quantas vezes eles se viram obrigados a fazê-lo. A única coisa de que podemos estar certos é que o sistema da psicanálise não contém fator algum que iniba o analista de se servir de tal expediente. E sabemos também que existe um grande número de relatórios que mencionam essa atitude por parte de alguns psicanalistas, mas sendo de presumir que nem todos eles são falsos ou exagerados.

No entanto, a justiça pede que limitemos o nosso juízo a fatos que podem ser provados, e a única coisa que se pode provar é o antagonismo essencial que existe entre o espírito geral do freudismo e a mentalidade católica. Isto, contudo, seria suficiente para obrigar os católicos a evitarem, tanto quanto pudessem, o contato com a psicologia psicanalítica, e a evitarem qualquer situação que pudesse dar ao analista, mesmo contra a vontade da pessoa, ocasião de influir sobre as suas idéias.


A enumeração das proposições da escola de Freud que brigam incontestavelmente com a fé cristão podia ainda continuar por algum tempo. Julgamos, porém, que dissemos já o bastante. Nenhum católico poderá professar tais idéias — a idéia da religião como uma neurose obrigatória, a idéia de Deus como sendo a imagem do pai, e a idéia da comunhão remontar à refeição totemística etc. — idéias essas que não podem ser consideradas senão como falsas, para não dizermos sacrílegas. Mas há sempre uma objeção. Não será possível separar o método da sua inaceitável filosofia? Não poderemos nós, embora sejamos cristãos, usar o instrumento fornecido pela psicanálise? Não poderemos pôr de parte a concepção naturalista, as idéias descabidas sobre religião, a negação da liberdade, o papel exagerado atribuído aos instintos, e "batizar", digamos assim, a psicanálise, mais ou menos como se diz que Santo Agostinho "cristianizou" o Neo-Platonismo e S. Tomás "batizou" Aristóteles? Estes filósofos pagãos também ensinaram coisas que a filosofia cristã nunca pôde aceitar, mas ensinaram outras coisas que eram verdadeiras, ou que, pelo menos, com alguma modificação, podiam ser verdadeiras. Se a filosofia cristã tivesse procedido com a filosofia pagã como se deseja que o católico proceda para com a psicanálise, isso representaria uma enorme perda para a humanidade, e teria talvez obstado o desenvolvimento da verdadeira filosofia cristã. Que razão há, portanto, para tal radicalismo perante a psicanálise, radicalismo esse de que a Igreja nunca se sentiu possuída no passado?

A resposta é, simplesmente, que tal analogia não pode existir. Tentamos mostrar, no capítulo oitavo, que se não pode separar a filosofia do método, e que aquele que adota o segundo tem, necessariamente, de perfilhar a primeira. Mas há outra razão para a intransigência que aqui consignamos. A psicanálise não está para o católico na mesma relação em que a filosofia pagã estava, nos primeiros séculos da cristandade, para com a filosofia católica. A psicanálise é mais semelhante ao Maniqueísmo, ou a qualquer outra das grandes heresias, do que à filosofia de Plotino ou de Aristóteles. E a Igreja nunca transigiu, por pouco que fosse, com qualquer heresia.

O espírito da psicanálise pode-se chamar, e com muita razão, espírito pagão, mas não é o paganismo dos tempos pré-cristãos; é o paganismo que surgiu quando a Cristandade já existia há séculos. E é um espírito completamente diferente. O paganismo dos velhos tempos morreu, pelo menos nos países de civilização ocidental, e não há possibilidade de o fazer reviver. Tal espírito não pode tornar a aparecer, porque as alterações que o pensamento humano sofreu, debaixo da influência de dois mil anos de Cristianismo, não podem voltar atrás. O neopaganismo não é um regresso aos tempos de Platão ou de Sêneca: é, simplesmente, uma revolta.

Para compreender a natureza desse espírito, é necessário examinar a origem da psicanálise e as forças que contribuíram para o seu aparecimento. E teremos também de investigar as condições que tornaram possível o surpreendente sucesso das concepções freudianas. Desta maneira chegaremos — ao menos é essa a nossa esperança — a um melhor conhecimento da verdadeira natureza desta teoria.
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1. Freud adota, pelo que diz respeito à história da religião, o mesmo método que segue pelo que se refere à etnologia. Limita-se a escolher, numa abundante literatura, apenas algumas palavras que se adaptam às suas idéias preconcebidas.


Assim, presta grande crédito a um livro, no qual se aventa a hipótese de que Moisés foi assassinado pelos judeus. Este trabalho foi rejeitado pelas autoridades no assunto, mas isso não impede que Freud se apoie sobre ele para os seus raciocínios.
A sua teoria, de acordo com a sua maneira de pensar, não precisa de provas, pois é já de per si uma prova de todas as asserções nela contidas. Ora, isto não é maneira de proceder para um homem de ciência.Seria necessário que os psicanalistas prestassem atenção ao fato de as referências, ou testemunhos de Freud, serem tão infelizes. Sempre que escolhe um autor, trata-se de um indivíduo que não merece a consideração das autoridades do assunto em questão.
2. Para melhor elucidação sobre essas questões, veja-se o meu artigo "Confessor e Alienista", Revista Eclesiástica, 1938, 99, 401.
3. Allers refere-se ao capítulo 9 do livro em questão, chamado "A Psicanálise e a etnologia". [Nota da Editora]