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A Função da Analogia em Teologia Dogmática – Pe. Maurílio Teixeira-Leite


A Função da Analogia em Teologia Dogmática – Pe. Maurílio Teixeira-Leite

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Igreja Santa e pecadora?

*O título do texto é nosso. 




 Uma das causas comuns de apostasia [da fé] é o horror provocado pelos desfalecimentos humanos no seio da Igreja. A religião pa­rece fonte de imoralidade, ou, pelo menos, não corresponder, na prática, ao que ensina em teoria. E se o escândalo provoca apostasias, maior ainda o número de conversões que ele faz abortar: "Eu, agregar-me aos católi­cos? Por que, se eles não valem mais do que os outros - muitos deles até valem menos? Eu, ajoelhar-me aos pés de um padre, pecador ele também, talvez mais do que eu?" Tanto mais ferinas as críticas quanto maiores as pretensões da Igreja: ela se diz di­vina, santa, imaculada? Pois mostre-nos o que vai de tudo isso na vida cotidiana! Escândalo ilógico, digamo-lo imediatamente. Jamais foi pro­metido por Cristo que a graça supriria o esforço pessoal. Os ta­lentos que o Mestre nos dá, ele exige que os façamos frutificar; não se substituirá jamais a nosso livre arbítrio. Deveria até confirmar a fé, o fato de que uma sociedade com­posta de homens fracos, falíveis, sujeitos às mesmas paixões que os demais, não haja todavia descambado na mais absoluta cor­rupção, mas antes mantenha rígidos os princípios de moral purís­sima e os pratique, em que pesem os numerosos e indisfarçáveis desfalecimentos individuais. A Igreja produziu até um tipo novo, original, de homem: o Santo. Tão novo, tão original que Bergson se abalançou a atribuir ao Santo uma essência diversa da nossa. Porém somos assim feitos que menos nos impressionam as vir­tudes do que os desfalecimentos. E por isso vemos tantos e tan­tos abandonarem a fé, porque encontraram um padre cúpido ou devasso, ou simplesmente malcriado; porque tal carola não passa de grandíssimo patife; porque tal senhora misseira, e até beata, é a pior língua da localidade. Em nossa época este escândalo revestiu forma peculiar; apresenta-se corno reivindicação de justiça social. Embora os Papas hajam condenado não apenas o comunismo senão ainda os abusos do capitalismo, é infelizmente verdade que aquele que não se con­tenta de louvores teóricos às encíclicas, mas procura aplicá-las na prática, incorre muitas vezes na ira dos chamados bem-pen­santes que lhe assacam as pechas de socialista, comunista, etc. Donde ser o catolicismo acusado de querer perpetuar as injus­tiças sociais, de ser o derradeiro baluarte do capitalismo burguês. Apostasias ilógicas, repetimos, pois não distinguem entre a mensagens divina que merece nossa crença e seus portadores hu­manos, talvez menos dignos. Por ser portador desta mensagem, o mau padre merece ainda ser ouvido e obedecido, embora não faça o que prega. Porventura recusaríeis precioso tesouro, sob pre­texto que vos é trazido por um homem esfarrapado e imundo? pergunta Catarina de Sena. Nem deixa de ser verdadeira a re­ligião porque muitos dos seus adeptos não a praticam. Tão me­díocre a humanidade, apesar da religião, que seria sem religião? Ademais, com suma injustiça olvidaríamos o que de sublime houve e há na Igreja: aquela plêiade de mártires, de confesso­res, de virgens, que nos causa justo orgulho; a multiplicidade de obras e instituições; as miríades de almas tiradas do lodo; os incontáveis atos de bondade, de misericórdia, de justiça; as inú­meras tentações vencidas. Quantos e quantos atestam que na re­ligião e nela só, encontram força para não resvalar, para cumprir o dever a todo custo? Além dos grandes santos, há os incontá­veis "pequenos" santos, que vivem de cotidiano heroísmo cristão. Na Encíclica "Mit brennender Sorge", o Papa Pio XI fez valer uma outra consideração, ao aludir à exploração pelos na­zistas, dos escândalos da Igreja: "A divina missão que a Igreja cumpre entre os homens e deve cumprir por meio de homens, pode ser dolorosamente obscurecida pelo que de humano, talvez de demasiadamente humano, desponta por vezes qual cizânia en­tre o trigo do reino de Deus. Quem conhece a frase do Salva­dor acerca dos escândalos e dos que os dão, sabe como a Igreja e cada indivíduo deve julgar sobre o que foi e é pecado. Todavia, quem, fundando-se sobre esses lamentáveis contrastes en­tre fé e vida, palavra e ação, atitude externa e sentir interior de alguns ou mesmo de muitos, esquece ou passa sob silêncio o imenso cabedal de esforço genuíno em prol da virtude, o es­pírito de sacrifício, o amor fraterno, o heroísmo de santidade de tantos membros da Igreja, este manifesta injusta e reprovável cegueira". De fato, maior direito nos assistira de gemer sobre a inépcia de alguns hierarcas e a mediocridade da maioria dos católicos, se começássemos por gemer sinceramente sobre nossa própria inépcia e mediocridade, muito maiores ainda... Todavia, não se nos aquieta inteiramente o espírito. Afigura-­se-nos a Igreja qual realidade híbrida, plasmada de crimes he­diondos e de virtudes inigualáveis - e não já, como afirma o Apóstolo: "Sem mácula, sem ruga, mas santa e irrepreensível". Como resolver a antinomia? Os membros pecadores da Igreja. Uma primeira resposta - tão fácil quanto errônea - con­siste em afirmar que a Igreja só compreende os justos. Por con­seguinte, a massa de pecadores que encontramos na cristandade faz tão pouco parte da Igreja quanto os apóstatas ou os pagãos endurecidos. A Santa Igreja é aquele puro ser de glória que contemplava o Vidente de Patmos. E por isso mesmo se esconde a nossos olhos de carne. Tal foi, no século IV, a solução dos Donatistas; na Idade Média, dos Valdenses e dos Hussitas; nos tempos modernos de Lutero, Calvino, Quesnel e do Sínodo de Pistóia. — No fundo, esta opinião identifica Igreja militante e Igreja triunfante. Porém, como sabiamente adverte Leão XIII, quando inqui­rimos da natureza da Igreja, não nos devemos perder em deva­neios sobre o que poderia ter Cristo feito, senão procurar o que ele de fato quis fazer, e que fez na realidade. Ora, as próprias palavras de Jesus nos revelam o mistério da presença de pecado­res dentro do Corpo Místico. Na alegoria da videira, Jesus nos diz, logo a princípio: "Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o lavrador; toda a vara em mim que não dá fruto, ele a tira, e poda aquela que dá fruto para que dê mais fruto" (Jo 15, 1-2). Temos aqui claramente indica­do que tanto o justo como o pecador estão no Corpo Místico de Cristo. Em condições bem diversas, por certo. Um como membro fecundo, destinado à fecundidade maior; outro como membro es­téril, destinado a ser cortado, a secar, e mais tarde a ser lançado ao fogo (15, 6). Só se corta fora o que faz parte de um con­junto, não o que lhe não pertence. (PENIDO, Pe. Dr. Maurílio Teixeira-Leite: “O Mistério da Igreja”, Editora Vozes, Petrópolis, 2 ed., 1956, pp.243-245).

O mistério da Igreja: FÉ E TEOLOGIA

Por Padre Murilo Teixeira Leite-Penido

A cultura religiosa

Só faz o mal quem ignora, sentenciava Sócrates, pelo que o sébio deveria ter por principal cuidado espancar as trevas intelectuais; com a luz a refulgir, reinaria, por via de consequência, a virtude. Ideal racionalista, que atravessou os séculos e anima ainda o sonho pueril e perigoso do cientificismo; sob forma aliás decaída, pois que Sócrates pelo menos ensinava moral, enquanto ao ingênuo cientificista se lhe afigura regenerar o mundo espargindo cultura - como se a barbárie científica não fosse uma realidade!

A quem não vive perdido na utopia, mostram os fatos a possibilidade de percebermos claramente a verdade moral, desobedecendo-lhe todavia. Não apenas inteligência, senão ainda vontade livre, tal é o homem. Conheça embora os preceitos da ética e lhes admita a validez, pode ainda contraí-los, pecar. Para não falar em Ovídio, já o experimentava S. Paulo: "O querer está em mim, mas não consigo realizar o bem; porque não faço o bem que desejo, mas o mal qu enão quero, esse faço" (Rm 7, 18-19).

Afagaria pois perigosa ilusão, quem cuidasse que a instrução religiosa por si só haveria de gerar católicos sem jaça. Aí está a triste e cotidiana experiência a patentear como profundo conhecimento do dogma e da moral é compatível com medíocre vida cristã. Todos nós já encontramos católicos esclarecidos que prevaricam quanto podem. De ordinário, culpam-se os métodos catequéticos, a pedagogia cristã. Revela esta crítica profunda ilusão. A força de agir sobre a matéria bruta com resultados infalíveis, imaginamos poder atingir igual "eficiência" no trato com os homens. Esquecemos que estes não são máquinas, mas sim pessoas livres. O  pedagogo, ainda quando logra - rara vez - penetrar além da superfície do eu, vê escapar-lhe a região tenebrosa onde se entricheira, inviolável, o livre arbítrio, com seu terrível poder de resistir ao mesmo DEUS. Porventura não era JESUS o Sumo Pedagogo? Não formou os Doze com zelo clarividente e indefesso, ensinando-lhes as mais sublimes doutrinas, obrando diante deles os mais estupendos milagres, arrastando-os pelos mais comovedores exemplos, seduzindo-os pela magia de Sua personalidade? Não obstante, houve entre os Doze um traidor. Judas deveria ter exterminado para sempre o socratismo.

Poderíamos, é verdade, tentar enfraquecer ou mesmo destruir o poder do livre arbítrio, à semelhança dos totalitários, procurando transformar os homens em autômatos. Mas seria a negação mesma do cristianismo. Cristo não quer escravos, mas ser livremente servido. Para este serviço, não basta a instrução religiosa; deve haver escolha pessoalíssima.

Sem embargo, ilusão pior ainda seria enveredar pelo caminho oposto, e imaginar que a ignorância religiosa faria brotar santos. De novo, vem a experiência mostrar que homens sem conta se afastam da religião, por não a conhecerem ou conhecerem-na mal. Ignoram que verdades a Igreja propõe à nossa crença, ou tomam por dogma o que jamais foi definido, ou não são incapazes de responder à mais comezinha objeção dos incrédulos, ou ainda parece-lhes o Credo, repelente amontoado de asserções ininteligíveis e sem relação com a vida real.

Incontáveis formas pode revestir a ignorância religiosa. Todas são danosas. E para nos restringir ao problema brasileiro, é fato que o desconhecimento da religião se nos antolha como fonte de deploráveis superstições populares. Descobrimo-lo também - pelo menos em parte - ao investigarmos a origem do pior perigo espiritual que nos ameaça: o espiritismo.

Chegada a hora de passar deste mundo ao PAI, CRISTO JESUS ordenou aos apóstolos: "Ide, ensinai a todas as gentes" (Mt 28, 19). "E eles, tendo partido, pregaram por toda a parte" (Mc 16, 20). Fiel ao preceito do Senhor e ao exemplo dos apóstolos, a Igreja sempre considerou a doutrinação como uma das suas missões essenciais. Tem presentes as interrogações de S. Paulo: " Todo aquele que invocar o Nome do Senhor será salvo. Como pois invocarão Aquele em quem não creram? E como crerão n'Aquele de quem não ouviram? E como ouvirão se não há quem lhes pregue?" (Rm 10, 13-15).

Se em todos os tempos, a Igreja considerou a ignorância religiosa com um grande mal, que será em nossa época de indiferentismo generalizado e do ateísmo militante? Dir-se-ia que a humanidade forceja como nunca para esquecer-se de DEUS, a fim de poder pecar sem remorsos.

De certo, conhecer o catolicismo longe está de ser tudo, porém é o indispensável pré-requisito à prática da religião. Por sermos cristãos, não deixamos de ser homens, ora, comportamento cristão será tão somente aquele que for norteado por uma inteligência iluminada pela verdade cristã.

Aliás, o dogma não é apenas preâmbulo da moral evangélica. Se nossa vontade deve ser servir a DEUS, obedecendo à lei promulgada por CRISTO, nossa inteligência deve por igual servi-LO conhecendo e assimilando a verdade Revelada pelo Senhor.

Membros vivos de CRISTO, como não desejaríamos nos aprofundar no conhecimento dos mistérios de nossa Cabeça? Como fecharíamos os olhos ao afluxo de luz que dimana d'Aquele que é Luz? Pensamento Eterno do PAI, o VERBO não se Incarna para apagar em nós o pensamento, mas para aguçá-lo, fortificá-lo, elevá-lo a um nível que por si só jamais atingiria. Nossa vida cristã não pode ser vida de embotados, senão vida de seres pensantes, divinamente pensantes.

Ensina S.Paulo que pela fé CRISTO habita em nós (Ef 3, 17). Dando-nos a Sua verdade, dá-Se a nós; faz-nos partícipes de Seu divino saber: "DEUS nunca foi visto por pessoa alguma, mas o FILHO Unigênito que está no seio do PAI, esse O fez conhecer" (Jo 1, 18). É um raio do conhecimento recebido pelo FILHO, do PAI, que veio iluminar nossas tenebrosas inteligências.

Seria, pois, desprezar tamanha luz, professar nossa fé como fonógrafos, não nós esforçamos por assimmilá-la através de nossos conceitos humanos. Devemos fazê-lo humildade, porém com santa avidez.

Ora, provoca a um tempo dó e inquietação o desinteresse da maioria dos fiéis por coisas de doutrina, enquanto manifestam insaciável curiosidade por ninharias: a última fita de cinema, o último jogo de futebol, o último conluio político, etc. Se, porventura, essa curiosidade se volta para o campo religioso, irá preocupar-se com as atividades de tal sacerdote, ou as revelações de tal pretensa mística, quando não é por imagens que choram ...

Fascinam as bolhas de sabão, e deixam indiferentes as verdades que o mesmo DEUS nos revelou!

Entretanto, se DEUS se dignou de falar, não foi, por certo, para que nos desinteressássemos dessa Sua palavra, ou nos contentássemos de repeti-la sem a entender, mas ao contrário para que a abraçássemos, nela nos aprofundando de sorte que a Verdade, longe de nos quedar inerte e morta na inteligência, nela vivesse.

Quando os Magos chegaram a Jerusalém anunciando o nascimento do Messias, ninguém se preocupou de averiguar o fato - salvo Herodes para eliminar o possível rival. O mesmo ódio parece animar hoje os "sem-DEUS"; será também que o mesmo torpor paraliza nossos corações?

Cabe a uma instrução religiosa bem feita, despertar interesse pela Revelação ou Palavra de DEUS. Por outro lado supérfluo acentuar que instrução, como qualquer outra, se deve adaptar ao desenvolvimento intelectual do discente, a seu grau de adiantamento cultural. Se já temos no Brasil excelentes livros catequéticos de nível primário e secundário, faltam ainda, ao que parece, obras mais alentadas, destinadas a adultos esclarecidos. Donde, entre os espíritos cultos que permaneceram fiéis à religião da infância e adolescência, um ou outro há que sente penoso desequilíbrio entre um saber profano aprofundado, e um saber sagrado que muita vez não vai além do catecismo. A estes foi desejo nosso prestar serviço aferecendo-lhes, com sadio otimismo, uma Iniciação Teológica, em vários volumes.

Mas que vem a ser Teologia? Com latina brevidade responde S. Anselmo: "Fides quarens intellectum", fé à procura de compreenssão. A resposta, por sua vez, suscita duas novas perguntas: que é a fé? que é a compreenssão da fé?