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A simulação “artística” do mal



Dizer que a cultura contemporânea é difusora de incontáveis anomalias anímicas, mutilações espirituais e traumas psicológicos em escala jamais vista é fazer referência indireta a um princípio aceito por qualquer antropologia digna deste nome: há, no homem, uma aptidão radical a realizar em si mesmo o bem, a começar pelos bens a que tende a vida, os quais, no seu caso, abarcam todas as potências e apetites sensitivos que possui e culminam na esfera volitiva e intelectiva.[1] Do prazer da comida e do sexo ao êxtase místico ou à compreensão de elevadas verdades da ciência e da filosofia; do desejo ou avidez pelas coisas sensíveis, de per si boas, à fruição do inteligível, cujo ápice é o verdadeiro amor, que aguça a inteligência e abrasa a vontade.

Na cultura, passamos de um estágio de maldade a outro, nas últimas décadas: transitamos da hipocrisia ao escracho total, dos malefícios ocultos ou com aparência de bem às maldades escancaradas. Lembremos aqui que o hipócrita ainda possui certa preocupação de parecer bom, sinal de que ainda resta alguma medida moral no seu horizonte de cogitações, resquício de pudor natural que o impede de revelar-se completamente. Já o imoralista escrachado perdeu o vínculo com princípios e valores humanos universais, tal é a inversão das tendências constitutivas de sua psique.

No caso do rock and roll, objeto deste brevíssimo texto, já vai muito longe o tempo em que a adesão ao mal era simulada. Já vai longe a época em que as mensagens satânicas eram mais ou menos cifradas, em músicas como Hotel California, da banda The Eagles, referência à sede da Church of Satan, ou entãoSympathy for the Devil, dos Stones. E muitíssimas outras mais! De lá para cá, chegou-se a Marylin Manson, a Lady Gaga e a outros representantes de correntes satanistas absolutamente explícitas.

Pois muito bem: na noite de hoje, no Rock in Rio, foi a vez do grupo Ghost fazer as honras dos devotos da maldade. O show da banda sueca foi a literal simulação de uma missa negra, ou seja, de um culto a Lúcifer — que, na vida real, pode chegar a incluir sacrifícios humanos, embora na maior parte das vezes consista em blasfemar contra Deus e reafirmar ritualisticamente um compromisso com os piores tipos de maldade.

Ver as imagens destes literais pobres-diabos, com cruzes invertidas, máscaras sinistras, cálices, símbolos esotéricos satânicos, etc., não foi o pior. O mais triste foi constatar, uma vez mais, como o jornalismo degradou-se a ponto de abordar a coisa com reportagens em tom de cobertura “cultural”, sem nem sequer perceber o significado macabro de uma pretensa arte que se volta para o mal não mais simulando um bem, mas simulando o próprio mal, o que requer requintes de perversão.

O genial Aristóteles, muito antes de Cristo, já nos ensinava que o homem é um animal que imita, por isso não convém à arte dar destaque a maldades nem caricaturar o bem. Que diria então o grande filósofo grego de uma representação como esta senão que se trata duma espécie de loucura voluntária altamente culpável, signo gritante da mais profunda depravação psicológica?

Pobres jovens, que, se estão ali adorando esta monstruosidade, já é sinal de não terem tido a providencial fortuna de encontrar quem lhes apresentasse outro caminho.

Pobres vidas que se voltam contra a vida! O seu futuro é a agonia, a angústia existencial, o desespero, o ódio. 

A menos que se dê um milagre .

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1- O tomista argentino Martín Echavarría, psicólogo e filósofo, possui alguns trabalhos em que aponta com grande acerto para o caráter patógeno da cultura contemporânea.

Psicólogo não cura absolutamente nada


Psicologia não cura nada. Não há um único transtorno psicológico que seja passível de cura total, e sim tratamento. TOC não tem cura. Transtorno do pânico não tem cura. Assim, o transtorno conhecido como homossexualismo ou homossexualidade também não. Mas isso não impede que o homossexual não possa controlar seus desvios e até ter um matrimônio feliz com uma pessoa de sexo diferente, o que seria uma vitória heroica da razão e graça divina contra as deficiências e as impurezas da carne.

Quando a mídia ataca aqueles que propõem que o homossexual tenha o direito de viver como heterossexual e receber algum auxílio especializado, está, na verdade, desviando o foco ao dizer que se está propondo cura, quando se sabe que nenhum dos males da alma pode ser tratado dessa maneira, sequer o alcoolismo ou a mania de arrumação.

Eu tenho claro para mim que não se pode falar em cura para transtornos psíquicos. No entanto, alguns hábitos podem fortemente repudiados pelo indivíduo. Esses são só aqueles que não estão profundamente arraigados. Assim, um tratamento com um psicólogo pode obter relativo sucesso, e, inclusive, ter início, meio e fim, mas eu sustento que nunca se poderá falar em cura nesses casos, até porque o mal psíquico, ao contrário do corporal, é invisível. Não há como averiguar em que medida ele ainda se encontra presente.

Toda doença é, sob o ponto de vista filosófico, um hábito. Um hábito é uma qualidade inerente a um ser. Até a graça é um hábito, diz a teologia. Assim, temos hábitos bons e maus. Os bons chamam-se virtudes, e os maus, vícios. O conhecimento científico ou os dons artísticos são hábitos. Contudo, o termo hábito vai muito além do mero comportamento ou das tendências. A maneira como um ser se apresenta é o que se chama hábito. Por isso, as doenças são também hábitos.

Alguns hábitos podem ser repudiados pelo indivíduo, pela aquisição de um hábito contrário. Contudo, como eu expliquei acima, o homem não tem um controle absoluto sobre um hábito adquirido. Se ele tem o hábito científico, não pode simplesmente deixar de tê-lo. Ele pode diminuir a influência desse hábito, mas nunca poderá dizer que nada resta dele. É por isso, por exemplo, que pessoas que levam anos sem beber podem ter recaídas. Assim, nenhum paciente ou psicólogo, por mais sucesso que tenha o tratamento, pode estar assegurado do fim de um hábito, do qual se queira se livrar.

Sobre o homossexualismo ser um hábito que necessite ser modificado, ou doença no dizer psicológico, quero dizer que classificar um hábito como nocivo (doença nada mais é do que um hábito nocivo) decorre do prejuízo que esse hábito pode causar à pessoa individualmente ou em grupo. Que o hábito homossexual cause algum prejuízo à pessoa individualmente, é fora de questão, posto ser também um pecado ou uma violação da ordem natural. Que ele cause prejuízo à pessoa em grupo, decorre da não aceitação do homossexualismo. Esse segundo aspecto pode ser mudado, embora não seja inteiramente mau, pois a sociedade deve realmente repudiar as práticas contrárias à lei natural, embora sem cometer injustiças anexas a esse repúdio, no entanto, é inegável que só pelo primeiro aspecto se poderia considerar a homossexualidade como nociva. Quem argumenta o contrário não poderia, por exemplo, classificar o TOC como doença, dado que quem sofre desse mal pode alegar conviver felizmente com ele e apenas sofrer preconceito por parte de pessoas de seu convívio.

Neste link (http://estudostomistas.blogspot.com.br/2012/08/principios-filosoficos-para-una-teoria.html), está uma página que remete a um artigo sobre enfermidades psíquicas e psicoterapia do ponto de vista filosófico tomista, que complementa, de certa forma, minhas observações neste tópico.


La fe catolica y la psicología

Indicado por nosso grande amigo o Dr. Martín Federico Echavarría, apresentamos uma excelente palestra do Dr. Verdier, autor de  Psicología y psiquiatría. Textos del Magisterio Pontificio”, excelente livro publicado pela BAC. Aguardamos a bondade de nossos leitores que possam traduzir do espanhol para o nosso amado português.

A matéria original e em espanhol se encontra abaixo:

El jueves 23 de mayo 2013 tuvimos la oportunidad y la gran suerte de asistir a la exposición que dio el Doctor Pablo Verdier, docente de la Pontificia Universidad Católica, acerca de las relaciones existentes entre la fe y la ciencia psicológica.
La exposición comenzó con una interrogante acuciante ¿se puede hablar de relación entre la Fe Católica y la Psicología? Es decir, se puso en tela de juicio el mismo nombre de la ponencia.
En seguida, se reconocieron dos situaciones de hecho:
 Relación debe existir porque ambas, la Fe y la Psicología, se dan en el ser humano. Es decir, conviven en el ser racional, por lo que la unidad en la diversidad de temas se da en el intelecto de éste.
 La relación, que presupone la inter-comunicación entre dos ciencias, de la fe con la Psicología no existe. Afirmación fuerte, pero que contundentemente el Doctor Pablo demuestra en el desarrollo su exposición.
Así las cosas, tomando en cuenta estos dos datos, se procedió a leer el N° 76 de la Encíclica “Fides et Ratio”, pero en clave apócrifa, como jovialmente diría el Doctor Pablo, por el sentido equívoco que le dio al término, sustituyendo en donde dice el original del texto “Filosofía Cristiana” por “Psicología Cristiana”. Veamos cómo quedó entonces:
“(…) Psicología (filosofía) cristiana. La denominación es en sí misma legítima, pero no debe ser mal interpretada: con ella no se pretende aludir a una Psicología (filosofía) oficial de la Iglesia, puesto que la fe como tal no es una Psicología (filosofía). Con este apelativo se quiere indicar más bien un modo de hacer Psicología (filosofar) cristiano, una especulación Psicológica (filosófica) concebida en unión vital con la fe. No se hace referencia simplemente, pues, a una Psicología (filosofía) hecha por Psicólogos (filósofos) cristianos, que en su investigación no han querido contradecir su fe. Hablando de Psicología (filosofía) cristiana se pretende abarcar todos los progresos importantes del pensamiento Psicológico (filosófico) que no se hubieran realizado sin la aportación, directa o indirecta, de la fe cristiana.
Dos son, por tanto, los aspectos de la Psicología (filosofía) cristiana: uno subjetivo que consiste en la purificación de la razón por parte de la fe. Como virtud teologal la fe libera a la razón de la presunción, tentación típica a la que los Psicólogos (filósofos) están fácilmente sometidos (…). Con la humildad, el Psicólogo (filósofo) adquiere también el valor de afrontar algunas cuestiones que difícilmente podría resolver sin considerar los datos recibidos de la Revelación (…).
Además está el aspecto objetivo, que afecta a los contenidos. La Revelación propone claramente que, aun no siendo por naturaleza inaccesibles a la razón, tal vez no hubieran sido nunca descubiertas por ella, si se la hubiera dejado sola (…)”
Esta fue la llave que se utilizó para plantear la idea eje del ponente: el diálogo entre la fe y la Psicología tiene estas dos perspectivas: objetiva y subjetiva.
La subjetiva, es cómo la fe viene en ayuda del Sujeto. Es decir, la Revelación ayuda al Psicólogo a librarlo de la tentación de la presunción. Y le facilita el camino a la virtud de la humildad, con la cual podrá escudriñar más, y con menos riesgo de desviarse.
El aporte subjetivo de la Revelación también se expresa a través del Magisterio de la Iglesia para el cristiano. Éste constituirá una guía a la vez que un límite en sus investigaciones. Y qué ha dicho la Iglesia respecto la Psicología y la Psiquiatría, el mismo Doctor Verdier lo ha recopilado en un texto llamado “Psicología y psiquiatría. Textos del Magisterio Pontificio”, que recoge todas las referencias que se han hecho acerca de la Psicología desde Pio XII hasta Benedicto XVI, editado por la B.A.C.
En la dimensión objetiva, se señaló, que la Revelación aporta conocimientos naturales, que no son estrictamente sobrenaturales, y que ayudarán al contenido de la Psicología. El Doctor Pablo se detuvo en 3 conceptos que forman parte del contenido, y que dan una visión integral del ser humano: alma espiritual, naturaleza, libertad.
Para que suceda la integración entre la fe y la Psicología tendrá que darse una convergencia en estos conceptos. Se trata de hablar del mismo ser humano objeto de la Revelación y objeto de la ciencia Psicológica.
El Doctor, ahí expuso cómo cree que la integración no está hecha, en vistas que los conceptos que la Psicología maneja de, por ejemplo, alma espiritual, libertad, naturaleza, no son los mismos que maneja la filosofía cristiana. De donde se saca la abismante conclusión, que la Psicología ofrece, por tanto, una cosmovisión completa en disonancia con la fe, por tener en la base y principios, concepciones distintas respecto la persona humana.
Por eso, diría el Doctor Pablo al final: “Queda todo por hacer”. La integración no está hecha. Hay que hacerla. El mismo abismo que surge en la conclusión de arriba, es la misión que tenemos los cristianos de relacionar correctamente fe y Psicología. Y para eso ya contamos con la contundente recopilación que hizo el Doctor Pablo Verdier respecto lo que ha dicho el Magisterio en estos temas.
Si no ha tenido la oportunidad de asistir, compartimos a continuación el video de la conferencia.
En el marco del año de la fe, continuamos con los Cursos de Cultura Católica, el próximo Curso tendrá lugar el jueves 27 de junio y una vez mas estará a cargo del Cardenal Jorge Medina Estévez, con la segunda virtud teologal "La Esperanza".

Psicanálise e religião


Rudolf Allers — ou o "Anti-Freud", como o chamou Louis Jugnet — foi psicólogo eminente: discípulo direto de Freud, trabalhou mais de 13 anos com Alfred Adler, e exerceu considerável influência em figuras tais como Victor Frankl, que foi seu aluno. Católico, vienense, desde cedo manifestou oposição às idéias de Sigmund Freud, que considerava anticientíficas. Em 1940 publicou seu famoso trabalho "The Successful Error— A Critical Study of Freudian Psychanalysis", de onde tiramos o capítulo que se vai ler, e que constitui um pungente libelo contra os erros da psicanálise.

O naturalismo e o materialismo são, necessariamente antagônicos da religião. Uma atitude mental que introduz fatores imateriais e trans-mundanos, que sustenta uma noção como a de uma alma espiritual e que acredita na revelação, torna-se, para o espírito materialista, ininteligível, estranha e perigosa. Tal mentalidade é, verdadeiramente, o oposto do materialismo e, ao passo que as atitudes religiosas existem e permanecem eficazes na vida humana, o materialismo sente a sua posição ameaçada. Os defensores de uma explicação "científica" da realidade vêem na religião, ou um inimigo, ou, pelo menos, um estádio rudimentar da evolução, que tem de acabar por triunfar para assegurar o "progresso" definitivo da raça humana.


A psicanálise é profundamente materialista e não pode mesmo professar outra filosofia. A sua base é o materialismo. Se os sequazes de Freud abandonassem o seu credo materialista, ver-se-iam obrigados a deixar de ser psicanalistas. Há alguns que estão convencidos de que podem acreditar, ao mesmo tempo, na verdade da religião e na verdade da psicanálise, sem incorrerem em auto-contradição. Esses homens imaginam isso, ou porque não conhecem suficientemente uma coisa e outra, ou porque o seu espírito é de tal natureza que se acomoda às contradições, ou ainda talvez porque não são bastante críticos para se aperceberem de tais contradições.

Ninguém que penetre no espírito da psicanálise e, ao mesmo tempo, seja inteiramente conhecedor da essência da fé sobrenatural, pode acreditar que estas duas coisas sejam compatíveis. Já varias vezes foi declarado, tanto por autores católicos como protestantes, que a psicanálise é, basicamente anti-cristã. Não há maneira de se sair deste dilema: ou se acredita em Cristo ou na psicanálise. Os próprios sequazes de Freud não têm dúvidas a tal respeito. Para eles, a religião não significa mais do que uma manifestação particular do espírito humano, da mesma categoria que as práticas da magia, do totemismo ou da bruxaria. Sempre os psicanalistas procuraram provar que a religião é um produto de forças instintivas e da reação contra as mesmas.

Freud fala da religião como de uma "ilusão". Os ritos religiosos são assemelhados a práticas devidas à obsessão, ou identificados com as mesmas práticas. A religião é uma neurose dos grupos. Não vale a pena entrar em pormenores, porque todas as obras dos psicanalistas estão cheias de observações no mesmo sentido. Não há dúvida alguma de que a sua convicção é que a religião é um fato puramente psicológico, que é nociva e condicionada pelos mesmos fatores que condicionam a neurose nos indivíduos, e que, finalmente, para bem da humanidade, tem de ser abolida e substituída pelo reino da ciência. Era isso que Freud esperava; a "ilusão" devanecer-se-ia perante a luz da razão; a ciência substituiria a religião na cultura e na vida, e uma nova época de prosperidade reinaria, quando a ciência reinasse como senhor supremo.

Esta é a mentalidade dum homem que nasceu pouco depois dos meados do século passado, que se educou na era do materialismo, do "liberalismo" e das entusiásticas esperanças no futuro, e que foi incapaz de se libertar da escravatura daquelas impressões que lhe haviam ficado da sua adolescência. Hoje verificamos que a ciência faliu, não porque não seja uma das mais admiráveis realizações do homem ou porque se mostrasse incapaz de promover o progresso, mas unicamente porque lhe atribuíram a capacidade de realizar aquilo que, de fato, nunca poderá levar a cabo. Mas a fé otimista de Freud na ciência permaneceu inquebrantável durante mais de oito décadas de sua vida. E nós poderemos compreender a sua imutável atitude; mas o que não podemos compreender é como pessoas de uma geração posterior, que tinham obrigação de ver as coisas como elas são, podem ainda defender um credo como o cientificismo. Para pessoas desta mentalidade, a religião é apenas um fato, como muitos outros, na história da cultura humana. E essas pessoas não estão também preparadas para admitir qualquer diferença entre as religiões. O último livro de Freud é um exemplo frisante desta incapacidade de discernir certos pontos que são decisivos. Assim, ele não conhece absolutamente nada das enormes diferenças entre o monoteísmo judaico-cristão e a idéia pagã de um deus supremo. A sua concepção sobre o monoteísmo dos judeus, devida à sua aceitação da religião de Athon, a divindade do sol do Egito, mostra que não conhece a essência do verdadeiro monoteísmo, e também que não procura informar-se sobre coisas que ele mesmo era incapaz de conhecer devidamente [1].

Basta um conhecimento superficial da psicanálise para que qualquer pessoa possa ver o enorme golfo que separa a mentalidade cristã daquela que se encontra implicada na concepção freudiana acerca do homem. E é verdadeiramente impressionante ler num artigo de O. Pfister que os ensinamentos de Jesus Cristo nos Evangelhos apresentam grandes analogias com a teoria da psicanálise. Mas mesmo este autor, que, segundo parece, é protestante, reconhece que há também grandes dessemelhanças. E nós só temos a dizer que, de fato, as há. Outros teólogos protestantes, como, por exemplo, o Dr. Runestam, da Universidade de Upsala, pensam diferentemente; para esses, a psicanálise é profundamente contrária ao espírito do Cristianismo.


Uma filosofia que nega o livre arbítrio; que ignora a espiritualidade da alma; que, com um oco materialismo e sem qualquer tentativa de prova, identifica os fenômenos mentais e corporais; que não conhece outro fim senão o prazer; que se entrega a um confuso e obstinado subjetivismo e que se mostrou cega à verdadeira natureza da pessoa humana — não pode ter qualquer ponto comum com o pensamento cristão. É-lhe completamente oposta.

O antagonismo existente entre a mentalidade do freudismo, de um lado, e o espírito do Cristianismo de outro, é claramente percebido por aqueles que acreditam que a religião no mundo moderno deve ser suplantada pela psicologia, que o analista deve ocupar o lugar do sacerdote e que o homem encontrará alívio para os seus sofrimentos morais e respostas às suas dificuldades pessoais no consultório do psicanalista, em vez de encontrar esse mesmo alívio na confissão que faz a um padre católico. Tal idéia assenta sobre um errado conhecimento da religião e da psicanálise; ambas estas idéias estão deturpadas. Não há qualquer similaridade entre a confissão e a análise. A confissão é um sacramento. Os espíritos modernos não atentam senão aos fatores psicológicos que nela se encontram envolvidos, mas é preciso notar-se que mesmo esses fatores não são comparáveis. O penitente diz, na confissão, as coisas que sabe, narra os fatos de que se julga culpado e, eventualmente, expõe as dificuldades que o assaltam; tudo aquilo de que ele trata é "material consciente". O confessor nunca faz qualquer tentativa de explorar o inconsciente. A esperança e a boa vontade, um profundo conhecimento e, finalmente, a graça de Deus irão ajudar o penitente a dominar os seus hábitos pecaminosos, a evitar as recaídas, a fugir às tentações e a progredir no caminho da perfeição.

Não sucede assim com o analista e o seu paciente. Neste caso, aquilo de que o paciente tem conhecimento pouco interessa; o que importa é o inconsciente. Nem um nem outro confiam na boa vontade, porque a vontade não passa de um epifenômeno, e o que é real está escondido nas profundezas do inconsciente. Não há qualquer sentimento de culpa pela infração de uma ou outra lei moral objetiva, ou pela rejeição de um valor moral, mas apenas uma constelação de tendências instintivas, o conflito entre o super-ego e o id, e assim por diante. o analista nunca poderá ocupar o lugar do sacerdote. A missão deste tem de ser desempenhada por ele e mais ninguém [2].


Não há necessidade de estarmos a pôr à prova a paciência do leitor, trazendo para aqui as idéias que os psicanalistas têm defendido pelo que diz respeito à religião.

Todos ele têm falado muito sobre um assunto que apenas superficialmente conhecem e, além disso, confiam largamente nas suas concepções etnológicas que, como já vimos3, estão muito longe de ser dignas de crédito. As suas conclusões relativamente a práticas religiosas, aos ritos, à psicologia da fé e a outros assuntos semelhantes, muito dificilmente poderão ser tomadas a sério. Muitas dessas idéias são positivamente ridículas e mostram uma ignorância crassa.

Temos, porém, de enfrentar uma questão. Por que é que os psicanalistas têm um tão notável interesse pela religião? Há mais obras e artigos na literatura psicanalítica que tratam de problemas mais ou menos relacionados com a religião do que se pode imaginar. Parece que o espírito analítico está possuído de uma curiosa obsessão, e que se sente incapaz de se libertar dela. Não há dúvida de que a religião tem desempenhado um importante papel na história, e continua a influenciar mais a atitude geral da humanidade do que a própria ciência. a ciência, considerada como tal, dificilmente exercer qualquer influência; não é a própria ciência, mas a crença popular nela, que tem contribuído muito para formar a mentalidade de hoje. Ora, os psicanalistas não tratam de saber as razões por que o homem chega a acreditar na ciência de forma tão exagerada. Consideram como um postulado o homem ter de acreditar na ciência, mas procuram mostrar que qualquer outra crença, especialmente no sobrenatural, tem de ser explicada por razões psicológicas. A sua atitude é inegavelmente dúbia, devido à sua crença na ciência. Esses homens estão presos ao "cientificismo". Acreditam fervorosamente na ciência, como a panacéia por meio da qual a humanidade se há de erguer a um nível muito mais elevado.


Esta atitude tem certas raízes na história dos últimos sessenta ou cem anos. No próximo capítulo diremos algumas palavras sobre este fenômeno. Mas o fenômeno não explica a curiosa fascinação que a religião, e os problemas que lhe andam ligados, exercem aparentemente sobre o espírito psicanalítico. Deve haver algum fator mais diretamente ligado com a psicanálise e com a situação presente da civilização em geral. Fazer luz sobre este ponto é coisa que se torna ainda mais desejável, porque podemos assim alimentar a esperança de penetrarmos mais na natureza da psicologia freudiana, ou antes na antropologia freudiana, e, conseqüentemente, definirmos mais claramente a política que tem de ser observada por um católico no que diz respeito à psicanálise. Todo aquele que examine conscienciosamente a psicanálise e considere os fatos fornecidos por esta psicologia, no que diz respeito à sua própria natureza, só poderá chegar a uma conclusão. E tal conclusão há de ser expressa em termos muito breves: a psicanálise é uma heresia.

Esta afirmação parecerá, talvez, surpreendente. Os cristãos podem ver-se tentados a rejeitá-la, porque não vêem nenhuma relação, ou qualquer terreno comum, entre a psicanálise e a sua fé. Uma heresia — dirão eles — é uma forma deturpada da verdadeira fé, que resulta de se desrespeitar ou desvirtuar qualquer dos artigos fundamentais. Mas, seguramente, a psicanálise nada tem de comum com a fé cristã.

Não altera um artigo fundamental, como faz o Arianismo em relação à pessoa de Jesus Cristo, ou como faz o Protestantismo, em relação à natureza da Igreja, ou como faz ainda o Pelagianismo, no que se refere ao papel da graça na salvação do homem. O analista, por sua vez, não levará a sério aquela afirmação. Entende ele que nada tem de ver com o Cristianismo, que as suas atividades são científicas e que a ciência é independente de toda a fé. Dirá que estuda religião apenas como um fato entre tantos outros que a história da humanidade apresenta. E acabará por afirmar que não pensa em negar ou alterar qualquer dos artigos da fé, porque, para ele, tais fatos nada significam senão uma forma particular da ignorância, uma superstição ou uma ilusão — e não se nega uma ilusão ou uma alucinação, mas apenas se trata de estudar a sua origem e curar o paciente.

Não esperemos poder convencer o psicanalista, nem nunca ele se considerará um herético. Nenhum herético, através dos séculos que conta o Cristianismo, se considerou alguma vez como tal. O herético, ou pretende estar dentro da Igreja, mesmo que defenda opiniões que divergem largamente dos seus ensinamentos, ou declara que é ele o único representante da verdade e da fé inalterada, e que a Igreja abandonou o caminho do seu Fundador, caminho esse que ele procura descobrir de novo.

Mas esperamos poder convencer os católicos e, sem dúvida, todos aqueles que acreditam em Cristo como Salvador e Redentor da humanidade. Muito desejaríamos poder conseguir isso, não só porque a atitude dos cristãos, no que se refere à psicanálise, ficaria melhor definida e fundamentar-se-ia melhor do que num vago sentimento de relutância e de ofensa moral, mas também porque a psicanálise é apenas um exemplo, ou ilustração, embora bastante notável, de uma atitude mental que se desenvolveu a ponto de dominar a mentalidade geral no decorrer do último século. Essa atitude tornou-se então muito influente, embora as suas raízes remontem ao passado da cultura ocidental. Um melhor entendimento daquilo que a psicanálise é, e um melhor conhecimento da natureza do espírito que ela cria, habilitar-nos-ão a seguirmos com mais clareza os rastos desse mesmo espírito em outras manifestações do nosso mundo moderno.

O caráter herético da psicanálise tornar-se-á claramente visível quando tivermos posto a descoberto as suas raízes e inspecionado os seus antecedentes. Será isso a nossa tarefa no próximo capítulo. Aqui, apenas nos referimos ao bem conhecido fato de que as heresias, através dos séculos do Cristianismo, sempre sentiram a necessidade de afirmar, cada vez mais, os seus direitos. É como se os hereges sentissem a consciência culpada e, com o fim de a fazerem calar, se sentissem forçados a apregoar as suas supostas razões difamando a Igreja, contra a qual se levantavam. [...]




Os católicos sabem também, não obstante se sentirem alarmados com a idéia de não serem modernos, que tudo aquilo que realmente contradiz os ensinamentos da sua fé não pode ser verdadeiro. Sabem, como coisa certa, que uma filosofia ou uma ciência que desrespeita concepções fundamentais do Catolicismo há-de acabar por desaparecer, por muito grande que seja o seu sucesso na hora presente. Sustento que a psicanálise é um enorme e perigoso erro. E o meu interesse é evitar que o maior número de pessoas possível — e, em primeiro lugar, tantos cristãos quanto possível — caiam nas garras de tal erro.

Há uma concepção fundamental na religião cristão que não é apenas desprezada mas, simplesmente, negada pela psicanálise. É a concepção do pecado. Em psicanálise não há pecado. A sua filosofia é decididamente determinista e a noção do pecado pressupõe o livre arbítrio. Também não há lugar para a noção de pecado neste sistema, porque o comportamento humano, de acordo com os princípios da antropologia freudiana, não depende das forças conscientes, mas sim de forças inconscientes. Isto é apenas uma conseqüência lógica do fato de que a psicanálise interpreta a consciência, não como o reconhecimento da conformidade ou não conformidade com as leis eternas da moral ou dos valores, mas como a expressão de um equilíbrio restabelecido, ou perturbado, de forças instintivas. A psicanálise vê necessariamente na consciência um mero fenômeno psicológico. Tal concepção da natureza humana não poderá exercer qualquer coisa que se assemelhe a responsabilidade.

Desnecessário será dizer que a psicanálise nada tem de ver com quaisquer noções que se refiram ao sobrenatural. Esta negativa completa do sobrenatural não é própria duma ciência empírica que, prudentemente, limita as suas investigações aos campos acessíveis à razão humana. O verdadeiro cientista tem grande respeito pelos fatos, não se pronuncia sobre as coisas, unicamente porque as não pode alcançar pelos seus métodos, e evita emitir juízos sobre assuntos cuja compreensão não está dentro dos poderes da fraca razão do homem. Mas o psicanalista vem dizer-nos que toda a crença no sobrenatural, seja na graça de Deus, como no próprio Deus, na eficácia dos sacramentos ou na imortalidade da alma, são tudo idéias que dimanam de fatores instintivos, que esta psicologia se orgulha de ter descoberto e privado assim da sua força impressiva. A psicanálise não vê diferença alguma entre a religião católica, os seus usos, ritos e sacramentos por um lado, e os mais primitivos e fantásticos costumes dos aborígines da Austrália ou da África central pelo outro.

Dificilmente se encontrará um artigo de fé que não tenha sido submetido à análise, e que não tenha sido objeto de uma "explicação" psicanalítica. Estas chamadas explicações causariam abalo num espírito católico, se não fossem manifestamente baseadas numa absoluta incapacidade para compreender a doutrina que se pretende explicar.

Nos parágrafos anteriores apenas nos referimos às relações da psicanálise com a fé católica sem nada termos dito a respeito da moral católica. Vamos agora dizer alguma coisa sobre tal assunto.

A psicanálise, considerada como tal, nada tem a dizer sobre moral. Quer-se uma ciência, e as ciências podem fazer afirmações apenas sobre o que é, nunca sobre aquilo que devia ser. Esta é que é a verdadeira ciência. Mas não é próprio de verdadeiros cientistas o uso que eles atualmente fazem da ciência para propagar qualquer "reforma" da moral, ou para declararem que esta ou aquela atitude está, ou deixa de estar, de acordo com a moral. Tais afirmações feitas em nome da ciência são, sem dúvida, não a expressão de conclusões que os fatos impusessem ao espírito, mas a expressão de convicções que tem uma origem completamente diferente. A ciência apenas nos pode dizer os meios de que nos podemos servir para atingir algum fim, mas nada conhece acerca desses fins. A medicina não decreta que a saúde tem de ser conservada; apenas nos ensina como devemos proceder para a conservar. A expressão, tantas vezes ouvida, de "educação científica", ou significa que devemos aprender na ciência a melhor forma para realizarmos os nossos fins, ou não significa coisa alguma.

Todo aquele que acreditar que a ciência é capaz de fazer qualquer afirmação sobre a razão por que as pessoas têm de ser educadas não conhece coisa alguma sobre a verdadeira natureza da educação. E o mesmo sucede com a moral: "ética científica" é uma expressão sem sentido algum.

Mas mesmo o cientista é um ser humano e, como tal, não pode deixar de ter as suas convicções, os seus ideais e os seus desejos. É apenas natural, embora não seja justo, que ele procure, ainda que "inconscientemente", apresentar as suas idéias e ideais pessoais como se derivassem das ciências. As ciências que têm por objeto o homem não são as que estão especialmente arriscadas a estenderem-se para um campo onde não têm competência. Pelo fato de que a saúde é um bem naturalmente desejado pelo homem, a medicina facilmente chega a acreditar que os seus ensinamentos sobre medidas higiênicas são da mesma natureza dos preceitos morais. Pelo fato de que a psicologia conhece que um espírito funcionando normalmente é um valor desejado, o psicólogo julga-se autorizado a enunciar regras sobre educação. A psicologia médica está inda mais propensa a cometer este erro do que qualquer outra espécie de psicologia. O médico psicólogo observou muitíssimas vezes as desastrosas conseqüências que uma educação errada pode ter no desenvolvimento do caráter e da personalidade. Portanto, vem simplesmente declarar que este ou aquele método de educação "tem" de ser adotado. assim, mais necessário se torna examinar cuidadosamente o espírito de uma psicologia que se julga com o direito de impor à educação os seus métodos e alvos.


Educação é mais do que instrução; é, primariamente, a construção de uma personalidade moral. A ética e a educação estão, portanto, intimamente correlacionadas. E a educação não termina depois de se ter freqüentado uma escola superior ou um colégio: praticamente, a educação nunca termina. Somos educados pelos fatos, pelas influências do meio ambiente e pelas idéias, de forma que temos de nos educar a nós mesmos.

Uma psicologia nascida dum espírito decididamente anti-cristão não pode ser senão excessivamente perigosa. Mesmo que o psicanalista se esforce por evitar qualquer ofensa às idéias e sentimentos religiosos ou morais do paciente, não o poderá conseguir. O seu método, as suas interpretações, e toda a sua mentalidade são de uma natureza manifestamente hostil ao espírito cristão. Essa mentalidade dá-se a conhecer a todo o momento, e encontra-se implícita em cada uma das mais triviais observações. Ainda que o analista esteja resolvido a abster-se de toda a influência sobre a fé ou moral do paciente, a sua resolução será ineficaz, e ele não poderá deixar de transmitir a esse paciente o contágio de um espírito anti-cristão.

Há alguma coisa profundamente errada neste espírito, e o que está errado melhor se aperceberá, se considerarmos as idéias que a psicanálise professa a respeito do homem normal. A teoria de Freud era, e ainda o é em grande extensão, um processo para a cura de doentes nervosos. Todo o tratamento tem de ter como ponto de referência alguma idéia de normalidade, porque a obtenção dessa normalidade é o sinal característico de que o tratamento foi bem sucedido. Freud disse, mais do que uma vez, que um homem é normal quando está apto a trabalhar e a gozar a vida.

Não há nada mais na concepção psicanalítica sobre a natureza normal do homem. Gozar implica, sem dúvida, a adaptação à realidade, desde que, não sendo assim, o desprazer seria maior do que o prazer.

Esta concepção foi estabelecida de novo, por exemplo, por Hendriks, que declara que a culminação do desenvolvido ego consiste em o indivíduo se tornar capaz de manter a sua existência, e assegurar uma satisfação adequada dos instintos libidinais e agressivos, num ambiente socializado de adultos. Estas definições são, como se está a ver, muito incompletas; os fatores morais são absolutamente ignorados ou, antes, estão incluídos na noção de ajustamento ao meio social. É um erro largamente divulgado o acreditar-se que a moral está limitada às relações com os nossos vizinhos: desprezam os deveres para com a própria pessoa, como desprezam os deveres para com Deus.


Daqui se segue que a psicanálise se mostra incapaz de avaliar devidamente certos fenômenos, como o sentimento de culpa ou a consciência. A consciência tem origem — observa um autor — numa identificação hostil. Vê-se que este autor não teve, no seu espírito, a mais rápida visão do fenômeno a que se refere. Outro diz-nos que o desejo de confessar o pecado cometido — não precisa de ser no confessionário, porque este desejo pertence à natureza humana — resulta de um impulso de revelação, que está relacionado com o "instinto parcial" do exibicionismo. E há ainda um terceiro autor que nos vem dizer que a necessidade da confissão está relacionada com o erotismo oral. Não será preciso multiplicar os exemplos. Os três já mencionados revelam uma ignorância de tudo quanto se refere a religião e a psicologia geral.


A concepção naturalista da natureza humana vem colorir todas as afirmações feitas sobre moral. Os verdadeiros mandamentos, as leis eternas, são coisas que não existem, de acordo com este ponto de vista. E tal mentalidade não pode senão ter uma influência altamente destrutiva sobre qualquer pessoa que esteja possuída de convicções diferentes. É possível que o tratamento psicanalítico de uma pessoa nessas condições venha a ser mal sucedido, se as convicções são suficientemente fortes, e se a diferença entre elas e as do analista se nota com clareza, ou poderá ainda suceder que esse tratamento tenha como resultado um gradual desmoronamento de tais convicções, devido à pressão contínua do espírito hostil do psicanalista.

O perigo de a moral não naturalista ser destruída pela análise, mesmo que o psicanalista não tenha intenção de o fazer, é sempre muito grande, porque a moralidade — ou amoralidade — do freudismo pode tornar-se uma forte tentação. O psicoterapeuta logo é encarado pelo paciente como pessoa de autoridade; chamem a isso transferência, se assim o quiserem, porque o nome pouco importa. Uma concepção da vida que apela para o lado instintivo do homem exerce sempre uma sedução natural e, quando tal sedução é fortalecida pela autoridade, poderá tornarse irresistível.


Não se pode dizer com verdade que os psicanalistas preconizem um relaxamento de costumes, mas é certo que eles concebem a moral por uma forma que é exatamente o oposto daquilo que um católico sabe que a lei moral implica. Isto refere-se em primeiro lugar à sexualidade, mas o mesmo sucede com qualquer outro aspecto do comportamento. E temos de chegar à conclusão de que o católico se deve abster de qualquer íntimo contato com as idéias freudianas. Se ele tiver dessas idéias inteiro conhecimento, será o primeiro a evitar tal contato; no caso contrário, é necessário pô-lo se sobreaviso.

Alguns adversários da psicanálise têm procurado acentuar a "imoralidade" da teoria e da sua atitude prática, no que diz respeito a certos problemas morais. o analista, dizem eles, é obrigado a defender pontos de vista incompatíveis com a moralidade cristã e, portanto, não pode deixar de ter uma influência destrutiva sobre o comportamento moral dos indivíduos e sobre as idéias morais do público. Este ponto precisa de uma elucidação.

A concepção que Freud e a sua escola formaram da natureza humana é, sem dúvida, muito diferente da concepção formada pela moral cristã e, principalmente, pela moral católica. O "princípio do prazer", mesmo depois da sua transformação em "princípio de realidade" não é a espécie de força motriz que a moral cristã supõe estar no fundamento do comportamento moral. A idéia de que a natureza humana está em ordem e "normal", desde que o indivíduo esteja apto para trabalhar e para gozar, não é idéia que possa ser aceitada pela ética católica. Estes aspectos da psicanálise são mais importantes, para responder à questão, do que a insistência de Freud sobre a sexualidade. Por muito errada que seja a noção de uma libido estendendo-se a tudo, não precisa de ser imoral.


O fato de que a psicanálise seja um sistema puramente naturalista e incapaz de avaliar a religião e o comportamento religioso em seu verdadeiro valor, é, sem dúvida, um sério inconveniente. Alguns analistas sustentam que não há necessidade de pôr em perigo as crenças religiosas de um indivíduo, desde que tais crenças não sejam o resultado de fatores patológicos ou um obstáculo para a recuperação da saúde mental. No entanto, será difícil ver como o analista, por muito que queira, evitará pôr em risco a atitude religiosa. Qualquer paciente, mesmo de inteligência média, não pode deixar de compreender que o espírito geral daquela teoria com a qual se relacionou durante o tratamento é completamente hostil às suas crenças religiosas. E pouco importa o fato de o paciente refletir ou deixar de refletir nisso.


O antagonismo entre a psicanálise e a moral católica, na medida em que tal
antagonismo está implicado no sistema da filosofia e da psicologia de Freud, é uma
coisa; o consciente eventual e a influência direta, aconselhando o paciente a agir
contra os princípios da moral católica, é outra. Se se soubesse que muitos ou alguns
psicanalistas aconselhavam os seus pacientes de forma que lhe sugerissem um
comportamento contrário à moral, o perigo deste sistema tornar-se-ia, sem dúvida,
muitíssimo grande.
Algumas das idéias sustentadas pelos psicanalistas são contrárias às concepções
católicas, sem que sejam, no entanto, exclusivamente características do freudismo.

Desnecessário será dizer que um analista, encontrando uma pessoa a braços com dificuldades domésticas, sem qualquer esperança e incapaz de continuar a vida com o marido ou com a esposa, acabará por lhe aconselhar a separação. Tal conselho poderá não ser mau, mas implica, na mente do analista, a idéia de que, depois da separação, essa pessoa poderá voltar a casar-se com alguém que lhe dê melhor vida.

Esse conselho podia ter sido dado por qualquer médico não católico; as convicções que o originaram não são especificamente freudianas, pois pertencem a um conjunto de idéias comuns a todas aquelas pessoas que julgam possuir "um espírito liberal". O mesmo se pode dizer da sugestão para se procurar a satisfação sexual prématrimonial. Seria diferente, se se sugerisse a uma pessoa casada que, por qualquer motivo, procurasse relações sexuais extra-matrimoniais.

É muito difícil saber qual é a atitude normal dos analistas no que se refere a tais problemas, bem como é também muito difícil ter a certeza de que certos relatos publicados são inteiramente dignos de crédito. O tratamento psicanalítico pode, em alguns casos, principalmente se não foi bem sucedido, deixar um ressentimento definido no ânimo do paciente, e esse estado mental poderá muito bem deturpar, mesmo sem qualquer intenção consciente de calúnia ou de prevaricação, a memória de coisas mencionadas durante as horas de análise. É corrente, em alguns tipos da personalidade nevrótica, um certo desrespeito pela verdade objetiva; por isso, os relatos que nos são fornecidos por doentes nervosos têm de ser olhados com muita precaução. Alguns psicanalistas podem ter professado uma atitude demasiadamente "liberal", no que diz respeito a certas leis morais, mas há ainda razão para perguntar se tal atitude resulta do fato de serem sequazes de Freud, ou se resulta da sua mentalidade geral. Não nos devemos esquecer de que muitas idéias, definidamente anti-católicas, no que se refere a moral, têm partido de pessoas que não eram psicanalistas. As opiniões defendidas pelos bolchevistas sobre o casamento, sobre relações sexuais etc., pelo menos na primeira fase do seu domínio, não dependem de qualquer influência exercida pelos psicanalistas. Não há dúvida de que os pontos de vista de Freud contribuíram para propagar as discussões sobre assuntos sexuais. A insistência com que ele se referiu à sexualidade, e as suas provas, aparentemente científicas, da importância fundamental dos fatores sexuais na natureza humana, fortaleceram a posição daqueles que dirigiam os seus ataques contra a moral cristã.

Mas não se pode dizer que o próprio Freud pregasse diretamente uma moral anticatólica. No entanto, pregou-a implicitamente.

Tanto quanto os relatórios podem ser acreditados, fica-se, sem dúvida, com a impressão de que alguns psicanalistas não sentem qualquer relutância em aconselhar atos decididamente imorais, especialmente — e até exclusivamente — no que se refere ao comportamento sexual. Num congresso de psiquiatras franceses realizado há anos, o Dr. Genil-Perrin referiu-se a numerosos casos em que ele e outros intervieram, e em que era freqüente darem-se conselhos de tal natureza. Mas é impossível lançar mão de cifras dignas de crédito. Não podemos saber quantos psicanalistas teriam, eventualmente, procedido dessa forma, nem tampouco podemos saber quantas vezes eles se viram obrigados a fazê-lo. A única coisa de que podemos estar certos é que o sistema da psicanálise não contém fator algum que iniba o analista de se servir de tal expediente. E sabemos também que existe um grande número de relatórios que mencionam essa atitude por parte de alguns psicanalistas, mas sendo de presumir que nem todos eles são falsos ou exagerados.

No entanto, a justiça pede que limitemos o nosso juízo a fatos que podem ser provados, e a única coisa que se pode provar é o antagonismo essencial que existe entre o espírito geral do freudismo e a mentalidade católica. Isto, contudo, seria suficiente para obrigar os católicos a evitarem, tanto quanto pudessem, o contato com a psicologia psicanalítica, e a evitarem qualquer situação que pudesse dar ao analista, mesmo contra a vontade da pessoa, ocasião de influir sobre as suas idéias.


A enumeração das proposições da escola de Freud que brigam incontestavelmente com a fé cristão podia ainda continuar por algum tempo. Julgamos, porém, que dissemos já o bastante. Nenhum católico poderá professar tais idéias — a idéia da religião como uma neurose obrigatória, a idéia de Deus como sendo a imagem do pai, e a idéia da comunhão remontar à refeição totemística etc. — idéias essas que não podem ser consideradas senão como falsas, para não dizermos sacrílegas. Mas há sempre uma objeção. Não será possível separar o método da sua inaceitável filosofia? Não poderemos nós, embora sejamos cristãos, usar o instrumento fornecido pela psicanálise? Não poderemos pôr de parte a concepção naturalista, as idéias descabidas sobre religião, a negação da liberdade, o papel exagerado atribuído aos instintos, e "batizar", digamos assim, a psicanálise, mais ou menos como se diz que Santo Agostinho "cristianizou" o Neo-Platonismo e S. Tomás "batizou" Aristóteles? Estes filósofos pagãos também ensinaram coisas que a filosofia cristã nunca pôde aceitar, mas ensinaram outras coisas que eram verdadeiras, ou que, pelo menos, com alguma modificação, podiam ser verdadeiras. Se a filosofia cristã tivesse procedido com a filosofia pagã como se deseja que o católico proceda para com a psicanálise, isso representaria uma enorme perda para a humanidade, e teria talvez obstado o desenvolvimento da verdadeira filosofia cristã. Que razão há, portanto, para tal radicalismo perante a psicanálise, radicalismo esse de que a Igreja nunca se sentiu possuída no passado?

A resposta é, simplesmente, que tal analogia não pode existir. Tentamos mostrar, no capítulo oitavo, que se não pode separar a filosofia do método, e que aquele que adota o segundo tem, necessariamente, de perfilhar a primeira. Mas há outra razão para a intransigência que aqui consignamos. A psicanálise não está para o católico na mesma relação em que a filosofia pagã estava, nos primeiros séculos da cristandade, para com a filosofia católica. A psicanálise é mais semelhante ao Maniqueísmo, ou a qualquer outra das grandes heresias, do que à filosofia de Plotino ou de Aristóteles. E a Igreja nunca transigiu, por pouco que fosse, com qualquer heresia.

O espírito da psicanálise pode-se chamar, e com muita razão, espírito pagão, mas não é o paganismo dos tempos pré-cristãos; é o paganismo que surgiu quando a Cristandade já existia há séculos. E é um espírito completamente diferente. O paganismo dos velhos tempos morreu, pelo menos nos países de civilização ocidental, e não há possibilidade de o fazer reviver. Tal espírito não pode tornar a aparecer, porque as alterações que o pensamento humano sofreu, debaixo da influência de dois mil anos de Cristianismo, não podem voltar atrás. O neopaganismo não é um regresso aos tempos de Platão ou de Sêneca: é, simplesmente, uma revolta.

Para compreender a natureza desse espírito, é necessário examinar a origem da psicanálise e as forças que contribuíram para o seu aparecimento. E teremos também de investigar as condições que tornaram possível o surpreendente sucesso das concepções freudianas. Desta maneira chegaremos — ao menos é essa a nossa esperança — a um melhor conhecimento da verdadeira natureza desta teoria.
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1. Freud adota, pelo que diz respeito à história da religião, o mesmo método que segue pelo que se refere à etnologia. Limita-se a escolher, numa abundante literatura, apenas algumas palavras que se adaptam às suas idéias preconcebidas.


Assim, presta grande crédito a um livro, no qual se aventa a hipótese de que Moisés foi assassinado pelos judeus. Este trabalho foi rejeitado pelas autoridades no assunto, mas isso não impede que Freud se apoie sobre ele para os seus raciocínios.
A sua teoria, de acordo com a sua maneira de pensar, não precisa de provas, pois é já de per si uma prova de todas as asserções nela contidas. Ora, isto não é maneira de proceder para um homem de ciência.Seria necessário que os psicanalistas prestassem atenção ao fato de as referências, ou testemunhos de Freud, serem tão infelizes. Sempre que escolhe um autor, trata-se de um indivíduo que não merece a consideração das autoridades do assunto em questão.
2. Para melhor elucidação sobre essas questões, veja-se o meu artigo "Confessor e Alienista", Revista Eclesiástica, 1938, 99, 401.
3. Allers refere-se ao capítulo 9 do livro em questão, chamado "A Psicanálise e a etnologia". [Nota da Editora]










PSICOLOGIA III

3.4. As potências da alma: Uma vez relatadas as potências gerais da alma racional, analisemos as potências intelectivas. São cinco as potências da alma intelectiva, pelas quais a alma humana opera e atualiza as suas perfeições: a potência vegetativa, a potência sensitiva, a potência apetitiva, a potência locomotiva e a potência intelectiva [STh I,q78,a1,c]. Desta cinco tratemos das três fundamentais: a vegetativa, a sensitiva e a intelectiva, já que a locomotiva inclui-se na sensitiva e intelectiva e a apetitiva na intelectiva.

(a) Potência vegetativa: A potência vegetativa afirma-se propriamente das espécies vegetais [STh.I,q78,proêmio]. Mas diz-se no homem ser uma função, uma capacidade vegetativa. Por que ela existe no homem? Toda potência superior contém em si mesma a potência inferior, que dela emana. Já vimos que a potência superior é a intelectiva. Ora, a intelectiva que é potência própria do homem, possui como perfeição sua a potência vegetativa. Por isso, a potência vegetativa é uma potência natural que pertence ao vegetal e ao animal [STh.III,q33,a1,obj4;I,q78,a2,c], na qual se inclui a espécie humana. Segue-se do anterior que se afirma a potência vegetativa de todo corpo animado que possui, como partes vegetativas, a nutrição, o crescimento e a geração [STh I,q78,a2,c].

(b) Potência sensitiva: a potência sensitiva, é uma potência passiva cuja natureza é ser modificada por um objeto sensível exterior; como vimos acima, a potência sensitiva, embora seja potência da alma racional, ela tem por sujeito o composto de corpo e alma racional e, para tanto, exige, para a sua operação, órgãos dos sentidos externos, pelos quais opere, pois tais órgãos existem em função da potência e não o contrário; por tudo isso, se fazem necessários - os cinco sentidos externos - ou seja, a visão, a audição, o tato, o olfato e a gustação [STh I,q78,a3,c] e os seus respectivos órgãos dos sentidos externos: os olhos, o ouvido, a pele, o nariz e a boca, seus respectivos sensíveis próprios: luz -cor-, som -agudo-, superfície -áspera-, odor -suave- e sabor -doce-. Estes órgãos dos sentidos externos produzem, pelos cinco sentidos, algo que a potência sensitiva percebe externamente pelos próprios órgãos e, também, internamente, pelos sentidos internos. O homem deve, portanto, em sua potência sensitiva, não só receber as espécies das coisas sensíveis, no momento em que os órgãos dos senstido são modificados por elas, mas ainda imaginá-las, percebê-las, retê-las e conservá-las. Para tanto, para perceber e guardá-las internamente, a potência sensitiva dispõe também de - quatro sentidos internos - o sentido comum, pelo qual recebe a forma sensível das coisas sensíveis, a imaginação que retêm estas formas sensíveis, a cogitativa, que permite associá-las e a memória sensitiva, para conservá-las [STh I,q78,a4,c].


3.5. Potência intelectiva: 

(a) o intelecto: a palavra intelecto provém de intus legere, 'ler por dentro'; trata-se de uma potência cognitiva da alma humana, por meio da qual a alma conhece algo de si, algo do que lhe rodeia e algo do que lhe transcende. O intelecto é a mais nobre potência da alma, mas não a própria natureza da alma [STh I,q79,a1,c]. Difere dos sentidos [In I Met.lec2,n45; In II Met.lec1,n282-286]; seu objeto é a verdade [In VI Met.lec4,n.1230-1240]; possui duas operações, uma indivisível e outra de composição [In VI Met.lec4,n.1232]; está ordenado ao inteligível [In XII Met.lec8,n.2540]; humano é imaterial [In IX Met.lec11,n2624]; divino inteligi-se a si mesmo [In XII Met.lec11,n2611-2626]. 

(b) objeto próprio do intelecto: o ente é o que primeiro considera e conhece o intelecto [In I Met. lec.2, n.46]; o intelecto ordena-se ou orienta-se primeira e naturalmente à consideração do ente. O ente diz-se do que tem ser. Portanto, tudo que tem ser é ente e a isso odena-se o intelecto. É o sujeito da Metafísica [In IV Met. lec.1, n.529-531]. Não é gênero, pois não possui diferença [In I Met. lec.9, n.139]. É o que tem ser [In XII Met. lec.1, n.2419]. É tomado do ato de ser [In IV Met. lec.2, n.556-558]. Se diz da substância [In III Met. lec.12, n.488-493]. É considerado de quatro modos: do acidente, da verdade da proposição, dos predicamentos e se divide em ato e potência [In VI Met. lec.2, n.1171]. Pode ser essencial, acidental, real e de razão, dos predicamentos e do ato e da potência [In V Met. lec.9, n.885]. Ente por acidente não é propriamente ser [In XI Met. lec.8, n.2272]. Não há ciência acerca do ente por acidente [In VI Met. lec.2, n.1172-1176]. Ente de razão é próprio da Lógica [In IV Met. lec.4, n.574]. É o que primeiro capta o intelecto [In I Met. lec.2, n.46]. (c) ação própria do intelecto: conhecer a realidade e dela apreender a verdade; esta é a ação própria do intelecto; a verdade é o que visa o intelecto, quando ele considera o ente; por isso, a verdade é a adequação do intelecto com a coisa, que é um ente. O conhecimento da verdade é por dupla via: por resolução e por composição [In II Met. lect. 1, n.278]; o seu conhecimento implica dupla dificuldade: uma da parte das coisas e outra da parte de nosso intelecto [In II Met. lect. 1, n.279-286]; para o seu conhecimento os homens se ajudam duplamente: direta e indiretamente [In II Met.lect. 1, n.287-288; lect. 5, n.334]; é conveniente buscá-la [In II Met. lect. 5, n.335-336]; dos primeiros princípios é previamente determinada, e resolvem muitas dificuldades em sua aplicação [In III Met. lect. 1, n.338]; o verdadeiro e o falso nas coisas não são senão afirmar e negar [In IX Met. lect. 11, n.1896-1901; In VI, lect. 4, n.1230-1240]; está mais no ato que na potência e mais nas simples que nas compostas [In IX Met. lect. 11, n.1910-1913].

(d) o processo de conhecimento pelo intelecto: a abstração é o processo próprio do modo como o intelecto conhece o ente; o intelecto não conhece as coisas nele mesmo, senão, pela abstração, depois da recepção das formas sensíveis impressas que, impregnadas de materialidade e individualidade, são depositadas, pela potência sensitiva, nos sentidos internos, cuja separação da materialidade e individualidade é feita pelo processo de abstração. Designa em Tomás uma atividade do intelecto pela qual considera a forma comum de um objeto separada (abstraída) de sua matéria e de suas condições individuais. Ela é tríplice: da matéria, dos inferiores e dos sentido [In I Met. lec. 10, n. 158; In III Met. lec. 7, n. 404-405; In VIII Met. lec. 1, n. 1683 e In XII Met. lec. 2, n. 2426]. A abstração da matéria é de quatro modos: matéria sensível, inteligível, comum e individual [In VI Met. lec. 1; In XI Met. lec. 7, n. 2259-2264]. (e) a passividade do intelecto: no primeiro momento do ato de conhecimento, o intelecto é passivo, porque recebe as informações que as potências sensitivas, tanto interna, quanto externa, fornecem para a alma; por isso, conhecer é padecer, enquanto isso significa receber aquilo para o qual estava em potência, sem que nada lhe fosse tirado [STh I,q79,a2,c].

(f) a atividade do intelecto: num segundo momento do ato de conhecer, o intelecto é agente, pois é necessário que o próprio intelecto, depois de recebidas as formas sensíveis, - as espécies impressas ou imagens - opere e as coloque em ato, pela abstração das formas inteligíveis, formando novas espécies - as espécies expressas ou conceitos -, na medida em que as conhece em ato e as torna semelhantes a ele e subsistentes nele [STh I,q79,a3,c]. O intelecto agente é potência intelectiva, ou seja, existe na alma humana como sua potência de entender as coisas em ato. Cada homem possui o seu intelecto individualmente; e este se assemelha, por natureza e perfeição, aos dos demais homens. Portanto, ele não existe separado da alma, embora não dependa de algum órgão do corpo para operar no que lhe é próprio [STh I,q79,a4,c], nem é único ou um só para todos os homens [STh I,q79,a5,c].

(g) partes da potência intelectiva: São seis as partes da potência intelectiva, com as quais o intelecto concebe um conceito verdadeiro, certo, abstrato, universal ou comum de muitos: a memória, a razão, a razão superior e inferior, a inteligência, o intelecto especulativo e prático, a sindérese, a consciência. - a memória - é parte da potência intelectiva da alma humana responsável por reter, conservar e recordar as imagens inteligíveis das coisas que são apreendidas [STh I,q79,a6,c]. Como tal, a memória não é uma outra potência distinta da potência intelectiva, senão que é da mesma potência intelectiva, pela qual além de ser potência passiva é conservativa [STh I,q79,a7,c]. - a razão - é parte da potência intelectiva da alma humana responsável pelo raciocinar, ou seja, ir de um objeto conhecido a outro; mas isso não difere a razão do intelecto, senão por causa das funções e não da natureza, pois uma coisa é o conhecer, que é simplesmente apreender a verdade inteligível, e outra coisa é raciocinar, como foi dito acima [STh I,q79,a8,c]. - a razão superior e a razão inferior - não são também duas potências distintas da potência intelectiva, senão que são dois nomes distintos dados a duas funções distintas de uma mesma natureza: a razão superior é a sabedoria, conhecimento conseqüente dos hábitos dos primeiros princípios indemonstráveis e a razão inferior é a ciência, conseqüente da aplicação dos hábitos dos primeiros princípios na demonstração das coisas temporais [STh I,q79,a9,c]. - a inteligência - é propriamente o ato mesmo do intelecto, que é o inteligir e não é uma outra potência, senão o ato da potência intelectiva [STh I,q79,a10,c]. - o intelecto especulativo e o prático - não são duas potências ademais da intelectiva, senão que são a consideração da mesma potência intelectiva, segundo os seus fins: especulativo, que não ordena o que apreende para a ação e o prático, que ordena para a ação aquilo que apreende [STh I,q79,a11,c]. - a sindérese - não é parte da potência intelectiva, nem mesmo é uma outra potência do intelecto, não é senão um hábito natural do intelecto que entende e concebe os princípios da ordem da ação que incita ao bem e condena o mal, na medida em que julga o que encontramos, mediante os primeiros princípios [STh I,q79,a12,c]. - a consciência - significa aquilo que implica a relação do conhecimento com alguma coisa, não é uma potência, mas um ato que atesta, obriga ou incita ou ainda acusa, reprova ou repreende, mas tudo isso resulta da aplicação de algum conhecimento ou ciência que temos do que fazemos, por isso, consciência é conhecimento com um outro. Neste sentido, a consciência forma parte da potência intelectiva, não como uma outra potência, senão como um ato pelo qual se aplica o conhecimento de alguma coisa [STh I,q79,a13,c].


3.6. A potência apetitiva: 

(a) definição: por potência apetitiva entende-se a inclinação natural da alma racional, ou seja, da forma humana para aquilo que lhe é natural, daí o apetite natural [STh I,q80,a1,c].

(b) tipos de potência apetitiva: há o apetite da potência sensitiva - o concupiscível e o irascível - e o apetite da potência intelectiva - a vontade -, que são potências diferentes por causa não só de seus atos e objetos, mas também por causa de seus respectivos sujeitos: a potência sensitiva, tanto o concupiscível, quanto o irascível, têm por sujeito o composto de alma racional e corpo, e a intelectiva, a vontade, tem por sujeito a alma. Ambas as potências distinguem-se entre si, tendo em comum o fato de serem potências passivas, cuja natureza é ser movida pelo objeto apreendido e visto que o objeto apreendido pelo intelecto é de gênero diverso do objeto apreendido pelo sentido, segue-se que o apetite intelectivo é uma potência distinta da potência do apetite sensitivo [STh I,q80,a2,c].

(c) apetite sensitivo: - a sensibilidade - não é apenas apetitiva, mas também cognoscitiva, de qualquer modo este é o nome do apetite sensitivo; a operação da potência apetitiva sensitiva se dá por um movimento sensível, causado pela apreensão sensível, como se atesta a seguir: a visão é a sensibilidade que resulta da relação que há entre o órgão sensorial - os olhos - e o objeto sensível, na apreensão de sua forma sensível [STh I,q81,a1,c/De ver. q25]. Outro nome é o de sensação, que em parte serve para nomear esta relação que acabamos de mostrar.

(d) tipos de apetites sensitivos: o apetite sensitivo se distingue em concupiscível e irascível, como duas potências distintas do apetite sensitivo; porque o apetite sensitivo é uma inclinação natural conseqüente da apreensão sensitiva, deve haver, portanto, na parte sensitiva, duas potências apetitivas: - o concupiscível - pela qual a alma humana é absolutamente inclinada, por conseqüência da apreensão sensitiva, a buscar o que lhe convém na ordem dos sentidos e a fugir do que pode prejudicar; - o irascível - pela qual a alma humana resiste às causas de corrupção e aos agentes contrários que põem obstáculo à aquisição do que convém [STh I,q81,a2,c]. É a razão que move e dirige o apetite sensitivo, portanto estas duas potências sensitivas, o apetite sensitivo concupiscível e o apetite sensitivo irascível, obedecem à razão, quanto ao mando e ato e submete-se à vontade, quanto à execução sendo, portanto, desta maneira que elas obedecem à razão [STh I,q81,a3,c].

(e) As paixões da alma: as paixões são o movimento do apetite sensitivo concupiscível e irascível, pela imaginação do bem ou do mal [Sum. Theo. I-II,q22,a3/De ver.q26,3/In II Eth. lec5,n292]. A alma humana, dita racional ou intelectiva, possui, como já dissemos, as faculdades: intelectiva que possui duas potências - a razão que se ordena à verdade e a vontade que, sendo apetite do intelecto, se ordena ao bem; sensitiva que possui duas potências - a concupiscível que move a alma para a busca de bens sensíveis e evita os males sensíveis e a irascível que move a alma para a busca de bens sensíveis difícieis de conseguir e a movimenta para evitar os males sensíveis difíceis de evitar e a vegetativa que move a alma humana na consecução e realização de suas funções inferiores correlatas ao corpo, como crescimento e diminuição. Pois bem, a potência sensitiva opera mediante os órgãos dos sentidos. Por meio dos sentidos produz-se a sensação nos órgãos dos sentidos [Sum. Theo. I-II,q10,a3/De malo,q3,a9-10/Comp. Theo.c128]. Tais sensações, quando recebidas na alma, - por isso são paixões da alma - produzem, pela imaginação que causam nos sentidos internos [além da imaginação, estes são os outros três sentidos internos: senso comum, memória e estimativa ou instintos], certos movimentos, que vão desde o desejo da posse de um bem sensível ou da aversão de um mal sensível. Daí as paixões, emoções ou sentimentos, serem estabelecidas em dois grupos: um concupiscível, caracterizado pelo movimento que se pauta na busca do bem sensível e na aversão ao mal sensível e outro irascível, que se caracteriza como um movimento mais violento, seja para conseguir um bem difícil de conseguir ou para evitar um mal difícil de evitar. Daí termos as seguintes paixões [Sum. Theo. I-II,q23,a4/q22,a2,ad3/In II Eth.lec5,n293/De ver.q26,a4]: Concupiscível: - acerca do bem: presente -amor/ausente-desejo/presente -alegria; & acerca do mal: presente -ódio/ausente - aversão/presente -tristeza; Irascível - acerca do bem difícil de conseguir-se: ausente -esperança & acerca do mal difícil de evitar-se: ausente -audácia/presente -ira. As paixões no homem afetam a sua inclinação a algum bem ou a aversão a algum mal. Por isso podem influenciar todo o rumo da formação do caráter e da instrução humana, pois elas podem determinar o voluntário, se o antecedem na inclinação ao bem ou na aversão ao mal. Se por um lado, a vontade ao aderir a determinação e a influência das paixões, isso pode aumentar o voluntário, por outro lado, esta mesma determinação pode diminuir a liberdade. De tal modo que sendo as paixões muito fortes, podem inclusive obscurecer ou obstaculizar o livre arbítrio da vontade [Sum. Theo. I-II,q77,a6/De ver.q26,a7/De malo,q3,a11]. Mas as paixões não são, em si mesmas, algo bom ou mal, mas naturais, pois são disposições que devem favorecer a inclinação do homem, por seus atos, ao bem de sua natureza e ao fim último a que se inclina, mediante os bens particulares que se lhe disponham a vida.

 (f) apetite intelectivo: - a vontade - é um apetite superior ao apetite sensitivo, não havendo nela nem concupiscível, nem irascível [STh I,q82,a5,c/De ver.q23]; é a inclinação natural do intelecto para algo; por isso, diz-se apetite do intelecto ou da razão; assim como se chama natural o que é segundo a inclinação da natureza, denomina-se voluntário o que é segundo a inclinação da vontade, que deseja alguma coisa de maneira necessária [STh I,q82,a1,c], embora não queira por necessidade tudo o que ela queira [STh I,q82,a2,c]. A vontade não é uma potência superior ao intelecto, pois o objeto próprio do intelecto é mais nobre e está nele mesmo, como quando se diz que a verdade e a falsidade a que consideram o intelecto estão na mente, enquanto o objeto próprio da vontade está na coisa, como quando se diz que o bem e o mal, a que tendem a vontade, estão nas coisas. Ora, o que é mais abstrato e nobre e reside no intelecto é superior em relação a tudo o que não seja abstrato e nele não esteja. Neste sentido, a vontade é inferior ao intelecto e, inclusive, depende dos princípios do intelecto para executar a sua ação [STh I,q82,a3,c], mas isso não significa que a vontade mesma não possa mover o intelecto, já que o objeto próprio da vontade, o bem, é causa eficiente de todas as potências da alma, inclusive, do intelecto, excetuando-se a potência vegetativa, que não é submetida ao nosso querer [STh I,q82,a4,c]. - o livre arbítrio - é uma potência [STh I,q83,a2,c/De ver.q24] apetitiva-cognoscitiva [STh I,q83,a3,c] que faculta o homem julgar os objetos do apetite sensitivo e do apetite intelectivo, segundo o que deles conhece, cujo julgamento não resulta de um instinto natural, senão de certa comparação da razão frente à orientação de certas apreensões sensíveis e inteligíveis; e é necessário que o homem julgue livremente, pois isso é uma exigência natural do ser racional [STh I,q83,a1,c]; o livre-arbítrio não é senão a própria potência apetitiva do intelecto, pois assim como o intelecto está para a razão, tratando-se da apreensão intelectiva, da mesma maneira, tratando-se do apetite intelectivo, a vontade está para o livre-arbítrio, que nada mais é do que a potência de escolha [STh I,q83,a4,c]. Assim, o intelecto tem por um lado a potência de raciocinar (razão), enquanto vai de um conhecimento a outro e, por outro lado, tem a potência de querer (vontade), enquanto isso é um simples desejo e tem a potência de eleger (liberdade), enquanto deseja alguma coisa por causa de outra que se quer conseguir [STh I,q83,a4,c]. 

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4. Principais conceitos: A seguir apresentaremos os conceitos do De anima considerados neste comentário e que requerem especial atenção em razão de sua relação a certas noções metafísicas. A numeração referida no léxico designa o parágrafo da Edição de M. Pirotta, Roma: Marietti,1948:

De anima
Livro I (A)
Livro I: Acerca da dignidade, utilidade e dificuldade desta ciência que versa sobre a alma. As antigas opiniões sobre a natureza da alma. Sobre a unidade da alma com relação às opiniões propostas. Em três capítulos.
Livro II (B)
Livro II: Acerca da definição da alma, de suas potências, ordem à natureza. A potência vegetativa. Acerca da pontência sensitiva. O núumero dos sentidos. De casa um dos sentidos. Sobre o sentido comum e próprio e suas distinçoes. Acerca do saber pelo sentir e sobre a imaginação. Em doze capítulos.
Livro III (G)
Livro III: Acerca do número dos sentidos, do senso comum, da imaginação e disto que o intelecto discerne. Sobre o intelecto. Sobre a potência motora. Acerca das faculdades comuns a todos os seres animados. Em treze capítulos.
Comentários aos III livros do De anima de Aristóteles
Livro I (A)
Livro I: Acerca da dignidade, utilidade e dificuldade desta ciência que versa sobre a alma. As antigas opiniões sobre a natureza da alma. Sobre a unidade da alma com relação às opiniões propostas. Lições I a XIV, n. 1-210.
Livro II (B)
Livro II: Acerca da definição da alma, de suas potências, ordem à natureza. A potência vegetativa. Acerca da pontência sensitiva. O núumero dos sentidos. De casa um dos sentidos. Sobre o sentido comum e próprio e suas distinçoes. Acerca do saber pelo sentir e sobre a imaginação. Lições I a XXIV, n. 211-563.
Livro III (G)
Livro III: Acerca do número dos sentidos, do senso comum, da imaginação e disto que o intelecto discerne. Sobre o intelecto. Sobre a potência motora. Acerca das faculdades comuns a todos os seres animados. Lições I a XVIII, n. 564-874.
Alimento É o objeto da alma sensitiva [n.310], objeto da nutrição [n.340,343].
Alteração
Não é de lugar, mas no lugar [n.76], sendo dupla: a mutação por privação e por hábito [n.369].
Alma
Sua ciência e estudo pertencem à Filosofia da Natureza [n.23]; é movida e movente [n.33]; é incorpórea e sutil [nn.68,175]; se existisse num lugar não seria a forma da totalidade do corpo de que é forma [n.77]; é causa do movimento e do repouso do animal [n.89]; o seu movimento é voluntário [n.90]; se move pelo intelecto e pela vontade [n.90]; sua felicidade está no inteligir [n.127]; move-se a si mesma [n.145]; suas operações podem ser de tríplice gênero de movimento: próprio, menos próprio e minimamente próprio [n.157]; a nurição é o movimento próprio da operação vegetativa [n.158]; é ato primeiro do corpo físico orgânico [nn.233,241,253,271,320]; se une imediatamente ao corpo, enquanto é sua forma [n.234]; é primeiro princípio dos viventes e dos que são vivos [nn.253,264,271,273]; vegetal é princípio do crescimento e decrescimento [nn.258,328]; das plantas é uma em ato e múltiplas em potência [n.264]; das plantas não exige grande diversidade nas partes [nn.264,268]; é de algum modo tudo [nn.284,787-788]; é tríplice: vegetativa, sensitiva e racional [n.285]; o ato da vegetativa é a geração [n.310]; é princípio e causa da vida do corpo [n.318]; é princípio, causa e forma do corpo animado [n.319-323]; vegetativa é geradora de outra semelhante segundo a espécie [n.347]; sensitiva não é ato sensível, mas só potência [n.354]; vegetativa existe em todos os viventes que geram e corrompem [n.848].
Apetite
Inteligível é a inclinação às formas inteligíveis [n.286]; sensível é a inclinação às formas sensíveis [n.286]; natural é a inclinação que segue as formas naturais [n.286].
Beatitude da alma está no inteligir [n.127].
Conhecimento
é a semelhança da coisa conhecida no sujeito que a conhece [n.43,377].
Ciência
é perfeição do homem [n.3]; é boa e honorável [n.3]; é especulativa ou prática [n.3]; é acerca dos universais [n.375].
Corpo
é movido pela alma [n.145]; possui levidade e gravidade [n.147]; são naturais ou artificiais [n.218]; natural é mais substância do que o artificial [n.218,220]; possui vida alguns outros não [n.219]; possui três dimensões [n.530].
Corrupção
não é propriamente movimento, mas mutação [n.75]; é dupla: substancial e acidental e absoluta e relativa [n.365].
Definição notifica a essência da coisa [n.10]; possui princípio e fim [n.121].
Deus é ato puro, por sua essência intelige e é inteligido [n.726].
Figura é determinação da magnitude [n.577].
Forma
convém a qualquer corpo e a ele existe unida [n.130]; não é toda a natureza de que é parte, pois a natureza é a do composto [n.213]; difere a substancial da acidental [n.224,236]; artificial são acidentais [n.235]; que pertence à essência é significada pela definição [n.236]; é o princípio da espécie [n.332]; substancial não é por si sensível, mas só compreendida pelo intelecto [n.420].
Geração
não é propriamente movimento, mas mutação [n.75]; é ato da alma vegetativa [n.310,312].
Imaginação
não é presente em todos os animais [n.302]; e não é do mesmo modo em todos os animais que a possuem [n.302]. Vid Fantasia: é o nome tomado da visão o aparição [n.632]; a fantasia do sentido se distingue da do intelecto [n.632]; fantasia se distingue da opinião [n.633-635].
Individuação
da natureza comum nas coisas corporais e materiais é a matéria corporal contida sob determinadas dimensões [n.377].
Intelecto
é forma subsistente [n.21]; não é movente, senão só metaforicamente [n.160]; sua operação não é mutação [n.160]; possui potência apetitiva e apreensiva [n.162]; ou razão é o que de mais nobre e divino há na natureza [n.188]; não tem parte ou órgão corpóreo [n.200,207,294,377,687]; considera os universais [n.284,377]; é perfeição intrínseca da operação da natureza que o possui [n.301]; é virtude e força imaterial que não possui algum órgão corporal [n.377,687-688]; conhece diretamente a natureza ou a quididde da coisa [n.713,716]; inteligi-se a si mesmo e as coisas mediante a espécie delas [n.724]; não intelige sem fantasmas [n.772,791,854]; é potência receptiva de todas as formas inteligíveis [n.790]; conhece o bem em razão de sua natureza universal [n. 804]; e razão não são partes ou potências distintas da alma [n. 812]; conhece o verdadeiro e o falso [n. 793]; difere em especulativo e prático em relação ao fim [n.820]; é agente quando coloca todos os inteligíveis em ato [n.728.,730,739]; agente é próprio o abstrair [n.734]; agente participa de algum modo do intelecto das substâncias separadas [n.739]; passivo é reduzido ao ato pelas espécies das coisas sensíveis [n.85]; passivo está em potência aos inteligíveis [n.308]; passivo não é separado do corpo como uma substância separada [n.689-699]; passivo tem por operação receber os inteligíveis [n.734].
Inteligir
é o próprio ser da alma [n.17]; é operação da alma sem unir-se ao corpo por meio de algum órgão [n.150,622].
Matéria
difere da forma [n.215]; é dupla: sensível e inteligível [n.707]; primeira é potência com respeito às formas [n.405]; primeira não tem alguma ação por sua essência [n.725].
Movimento
é ato imperfeito [n.82,160,356,766]; é de quatro espécies: local, aumento, diminuição e alteração [n.75]; difere da operação [n.82,160]; do intelecto é a própria operação [n.286]; se encontra propriamente nas operações vegetativas e snsitivas [n. 159,766].
Natureza
de algo está em toda e qualquer parte [n.116]; da espécie está toda em qualquer indivíduo [n.116]; da espécie individua-se pela matéria [n.706]; comum é intenção universal se encontrada no intelecto [n.380].
Operação
é ato perfeito e difere de movimento [n.86]; do intelecto não é mutação [n.160]; da alma vegetativa é operação do vivente segundo o ser material [n.285,288]; vegetativa ordena-se à conservação do ser [n.285,300]; da alma é ato da potência ativa ou passiva [n.305].
Paixão
é dupla: própria e menos própria ou comumente [n.365-366].
Potência
vegetativa, sensitiva e intelectiva são na alma conforme o modo de sua operação [n.199]; da alma são cinco: nutritiva, sensitiva, motora, segundo o local, apetitiva e intelectiva [n.201,297]; se distingue segundo a diversidade de operação [n.281,667].
Saber
não é o mesmo que sentir [n.629]; difere pelo inteligir [n.629,672].
Sensível
pode ser por acidente, por si, próprio e comum [n.383,579-580], em ato e em potência [n.596].
Sentido
é potência receptiva de todas as formas sensíveis [n.790]; é sobre o particular [n.284,375,377,716]; não sente sem os sensíveis exteriores [n.354]; diversifica segundo a diferença dos sensíveis [n.394. 582-583]; é conhecimento das coisas só corpóreas [n. 416]; se move pelos sensíveis assim como o intelecto o faz pelos inteligíveis [n.770]; não pode sentir sem o sensível [n.772]; comum tem órgão próprio [n.611]; próprio se distingue segundo os sensíveis contrários [n.613].
Sentir
se diz das coisas animadas [n.32]; não é da parte da alma, mas do corpo [n.150]; é alguma paixão e alteração [n.393]; é algum conhecimento [n.675]; não é saber [n.629] e nem inteligir [n.630-631].
Ser
sensível é o que há entre a matéria e as suas condições individuais [n.284]; é segundo a forma [n.286]; natural é fundamento do ser sensível e do inteligível [n.310].
Substância
é o que há de completo em seu ser e em sua natureza [n.213]; se divide em matéria, forma e composto [n.215,221,275]; composta é algo individual [n.215].
Universal
é pela abstração da matéria corpórea e de suas condições individuais [n.377]; pode ser duplo: em si mesmo e sob a intenção de universalidade [n.378]; só existem na alma [n.380].
Uno
é tríplo: contínuo, específico e absolutamente indivisível [n.752-759].
Verdade é ato de compor o que no real existe de modo único ou composto [n.748].