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Eu, bispo exorcista

Eu, bispo exorcista

Em recente livro, o bispo de Isernia-Venafro, na Itália, descreve suas experiências de exorcista e as surpreendentes conclusões a que foi levado durante uma década de prática do Exorcistado


D. Andréa Gemma: a ação diabólica “é mais nefasta do que se possa pensar”
Na manhã de 29 de junho de 1992, o novo bispo de Isernia-Venafro, D. Andrea Gemma, saía da Basílica Vaticana, olhando pensativo para a Praça de São Pedro. As palavras de São Mateus, “as portas do inferno não prevalecerão” (Mt 16,18), ecoavam em seu espírito com um atrativo sobrenatural. E lhe inspiravam graves considerações: 1) a ação do demônio não só não diminuiu, mas multiplicou-se; 2) o demônio é consciente de que dispõe de pouco tempo; 3) Nosso Senhor Jesus Cristo deu à Igreja enorme poder contra Satanás; 4) para não ser derrotado, o demônio faz tudo para agir no silêncio; 5) chegou o momento de desmascarar a ação insidiosa de Lúcifer e enfrentá-lo de viseira erguida, com as armas de que a Igreja dispõe. (* – pp. 11-12).

Por que não se fala da necessidade de exorcismo?

Voltando à sua diocese, a 170 km de Roma, D. Andrea decidiu pôr em prática o mandato divino “expulsai os demônios” (Mc 16,17). Porque, explica ele, para o bispo, exorcizar “não é uma escolha, é obrigação” (p. 21). E cita o exorcista oficial de Roma, Pe. Gabriele Amorth: “Um bispo que não estabelece pelo menos um exorcista na sua diocese não está isento de pecado mortal por grave omissão” (p. 24).

O resultado foi surpreendente. O poder do inferno se lhe revelou em todo o seu horror e em toda a sua extensão. “Quantas vezes — escreve ele —, nos meus colóquios cotidianos, freqüentemente difíceis, com os doentes de todo tipo, esta verdade se punha diante de mim: ‘Por que não nos falaram antes destas coisas? Por que não nos alertaram com uma adequada instrução? Por que não nos preservaram a nós, grei de Cristo, da devastação dos lobos famintos?” (p. 113).

“Se todos os bispos fossem como você, estaríamos completamente vencidos, e imediatamente” (p. 12), gritou-lhe um demônio por meio de uma mulher possessa, acrescentando em uma outra ocasião: “[mas] vocês são poucos” (p. 62).

Poder da promessa de Nossa Senhora em Fátima

Em 1992, o prelado publicou a pastoral As portas do inferno não prevalecerão. Nela, alertava: “A ação infestante e obscura de Satanás [...] está, acreditai-me, mais difundida e é mais nefasta do que se possa pensar” (p. 15). Na pastoral, D. Andrea convocou a diocese para “uma luta sem quartel, concertada e eficaz contra o mal e as suas artes” (p. 16). O bispo promoveu orações públicas que congregavam multidões vindas de muito longe. O Maligno se externava visivelmente, e aqueles que sofriam alguma ação diabólica eram levados à sacristia para serem objeto de exorcismos específicos.

O bispo não imaginava que sua pastoral daria a volta ao mundo, sendo traduzida em várias línguas. Cartas, imprensa, pessoas de toda Itália e até do exterior, apelando ao seu socorro porque sentiam alguma ação diabólica ou estavam possessas, lhe mostraram que muitos fiéis estavam esperando algo do gênero.

Nos exorcismos, D. Andrea pôde constatar o enorme poder de Nossa Senhora e da Igreja sobre as potências do abismo: “Se quero ver o demônio realmente furioso, basta jogar-lhe água benta, pronunciando esta minha doce certeza: ‘por fim, o Coração materno de Maria triunfará’. ‘Sim!!!’, me responde, sempre rangendo os dentes. Mas algumas vezes acrescenta um desafio: ‘neste meio tempo, quantos levaremos conosco’...” (p. 63).

D. Andrea interrogou várias vezes os demônios possuidores:

— “Vós, que vexais as vossas vítimas, tirais algum proveito ou alívio disso?

— Não, pelo contrário, nós sofremos um maior agravamento das nossas penas.

— E, então, por que o fazeis?

— Por ódio, por ódio, por ódio” (p. 61).

A Igreja em crise não usa as suas armas

Imagem do Arcanjo São Miguel, que liderou a luta contra Lúcifer no Céu
O bispo procurou inspiração nos textos do Vaticano II, e eis as suas conclusões: “Ide e folheai todos os documentos do Concílio Vaticano II, [...] verificai se se fala, e quantas vezes, do demônio e das suas obras. Sabeis que naqueles dezesseis documentos, pensados e ponderados, não existe sequer a palavra inferno, nem a palavra ‘demônio’? Incrível, mas verdadeiro, basta ir verificar...” (p. 88).

Ele debruçou-se sobre os textos litúrgicos antigos e novos. E ficou estupefato: “Sempre lamentei que na reforma da Missa se tenha tirado aquela oração a São Miguel [Exorcismo Breve], que Leão XIII, não sem inspiração do alto, quis que fosse recitada no fim de cada celebração. Muitas vezes o demônio, pela voz dos possessos, fez saber que gostou muitíssimo dessa abolição! [...] O que é que sugeriu e sugere evitar-se o mais possível, nos textos litúrgicos, a menção a Satanás, às suas nefastas intervenções, às conseqüências da sua ação destrutiva? Quem possa, que me responda. E com argumentos válidos, por favor. [...] Hoje a obra assassina do demônio é mais evidente do que nunca [...]. Então, não somente não era o caso de expurgar as fórmulas deprecatórias e imprecatórias, mas sim de multiplicá-las e reforçá-las. Porém, infelizmente não foi assim” (p. 27).

O ambiente laicizado hodierno: vitória do demônio

D. Andrea reparou que os históricos dos que padecem malefícios e o dos possessos eram muito parecidos. É imensa, diz ele, a quantidade de ocasiões que o contexto atual oferece às serpentes infernais para se apossarem das suas vítimas.

O rock, além do uso da droga, representou importante fator na quarta etapa da Revolução.
“A maior vitória do diabo consiste em convencer os homens de que ele não existe”. Esta verdade indiscutida levou o prelado à conclusão de que o ambiente moderno serve de luva ideal para as garras infernais. A todo momento, esse ambiente sugere que não há Deus nem demônio, nem Céu nem inferno. E os espíritos malignos atacam e invadem os corpos das suas vítimas de inúmeras formas. Há cultos satânicos explícitos. Mas também implícitos, como certas técnicas de meditação e algumas terapias alternativas, superstições ou modas tipo Nova Era ou músicas tipo rock and roll.

Como é que a humanidade gerou esse ambiente enganosamente neutro e materialista, porém tão útil para os espíritos das trevas?

A Revolução gera ambiente propício à ação diabólica

D. Andrea dá uma elucidativa explicação histórica. Ela se aproxima muito da denúncia do processo revolucionário que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira formula na sua obra magistral Revolução e Contra-Revolução. Não descartamos que o culto bispo italiano tenha tirado dela alguma inspiração: “A laicização da nossa sociedade é o fruto de um longo e complexo processo que durou cerca de cinco séculos, e que se desenvolveu em três etapas fundamentais, três revoluções no campo cultural e social, mas com lances também cruentos, que levaram à gradual transformação do mundo antigo, tradicional, para dar na sociedade atual, pós-moderna e secularizada”.

D. Andrea descreve essas sucessivas revoluções: primeiro a revolução protestante, que causou um grande desgarramento da sociedade cristã medieval; segundo o Iluminismo e a Revolução Francesa; terceiro a Revolução comunista marxista. Por fim, acrescenta, uma quarta etapa ou Revolução: a do movimento estudantil dos anos 60, que contestou a família, generalizou o uso da droga, propugnou a libertação dos vínculos morais, e sobretudo revoltou-se contra toda autoridade. Esse processo gerou uma sociedade e uma cultura que tendencialmente seduzem os homens para a idéia de que Deus e a religião são coisas absurdas (pp. 113ss).

Há os que se deixam levar por essa influência, ensina D. Andrea. Mas há também os que reagem de um modo exasperado e caem no exagero oposto: as novas e enganosas formas de religiosidade. Todas são fáceis presas de Lúcifer.

Armas para derrotar os demônios

Estatutária medieval: Nossa Senhora defende o monge Teófilo (séc VI) de ação diabolica
D. Andrea exorta os fiéis a recorrerem às armas que vencem o demônio: a Fé, os Livros Sagrados, o jejum, os sacramentos. E, sobretudo, a oração por meio de Nossa Senhora, a “inimiga eterna de Satanás” (p. 16). Entre as orações específicas, ele recomenda a renúncia formal a Satanás, como se faz na renovação das promessas do batismo, e o exorcismo breve: “São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate; cobri-nos com vosso escudo contra os embustes e ciladas do demônio. Subjugue-o Deus, instantemente o pedimos, e vós, Príncipe da Milícia Celeste, pelo divino poder, precipitai no inferno a Satanás e aos outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas. Amém” (p. 17).

E recomenda também não se deixar seduzir pelo ambiente revolucionário hodierno nem pelas falsas novidades nas formas de religiosidade — inclusive no âmbito católico —, que tanto e tão bem servem de ocasião para os malefícios e possessões por parte do pai da mentira.

Com essas cautelas e armas espirituais, o católico resistirá e sairá vitorioso, confiando sempre na promessa divina: “As portas do inferno não prevalecerão” (Mt 16,18).

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Notas:

* D. Andrea Gemma, Io, vescovo esorcista (Eu, bispo exorcista), Editora Mondadori, Milão, 2002, 208 pp. Todas as citações do artigo são extraídas desse livro.

SANTA FRANCISCA ROMANA: MODELO DE CONVIVÊNCIA COM OS SANTOS ANJOS

Santa Francisca Romana e o Santo Anjo

É importante alimentar constantemente nossa devoção aos Santos Anjos senão pouco a pouco iremos perdendo o entusiasmo e o fervor, e até podemos esquecer de nossos Irmãos celestiais que tanto querem ajudar-nos, mas só podem fazê-lo na medida em que nós deixamos e pedimos a sua ajuda. Por isso, queremos nesta Carta apresentar Francisca Romana, uma santa que recebeu de Deus a graça prodigiosa de ser acompanhada por três Anjos diferentes durante a sua vida. Eles a guiaram, iluminaram, consolaram, mas também, corrigiram e exigiram penitência de suas faltas. Nela encontramos o exemplo de uma vida de intimidade muito grande com os Santos Anjos (este texto foi baseado no livro Vereint mit den Engeln und Heilegen de Ferdinand Holböck, Stein am Rhein, 1984, pág. 302 ss).

A ESCOLHA DA VIDA: FAÇA-SE A VOSSA VONTADE, SENHOR
Santa Francisca nasceu em Roma no ano 1384, descendente da distinta família “De Busci”. Era uma época turbulenta, pois havia um cisma na Igreja e uma grande confusão no ocidente. A Cidade Santa encontrava-se em ruínas. No foro romano transitavam vacas e a Basílica de São Paulo servia de estábulo aos pastores para seus rebanhos. No entanto, Deus compadeceu-se da miséria daquela época, e concedeu ao povo o consolo de Sua assistência através do surgimento de grandes figuras santas, entre elas, Francisca Romana.
Francisca nutria o desejo ardente de entrar na vida religiosa, mas os planos de seus pais eram bem diferentes. Desejavam para ela o matrimônio e toda resistência de sua parte não resultou em nada; por fim, ela aceitou esses planos obedecendo ao conselho de seu confessor. Já aos doze anos estava casada com Lorenzo de Ponziani, um homem rico e nobre que a amava muito.
Junto com ela, no palácio, vivia sua cunhada Vanozza, que encontrando-a uma vez chorando amargamente, perguntou o motivo dessas lágrimas, e esta confessou seu enorme desejo de viver num convento. Descobriram, então, que ambas tiveram a mesma sorte: Vanozza também quis entrar num mosteiro, mas fora obrigada a casar-se. A partir de então começou uma grande amizade entre elas, amizade esta que durou 36 anos. Juntas rezaram, jejuaram e fizeram obras de caridade. Como havia uma sala em desuso no palácio, elas a transformaram em uma capela de oração, onde dedicavam várias horas noturnas em prolongadas orações.
Três anos depois do casamento, Francisca adoeceu gravemente. Já se temia a morte da jovem esposa, quando então, apareceu-lhe santo Aleixo que, colocando o seu manto cor de ouro ao redor dela, disse: “Terás a vida, pois o Senhor quer que ainda fiques no mundo para a glória de Seu nome”. No mesmo instante ficou curada. Isso aconteceu no ano 1399.

O PRIMEIRO ANJO - GUIA NO CAMINHO DA PURIFICAÇÃO
Foi nesse mesmo ano que Francisca recebeu um Anjo do nono coro. Ele não era visível para ela mas ficava constantemente a seu lado e ela podia perceber sua presença por meio de sinais bem claros. Esse Anjo foi um grande amigo e conselheiro, mas também, um severo admoestador que a castigava até sensivelmente quando cometia pequenas faltas; vigiava todos seus pensamentos, palavras e obras, guiando-a dessa forma no caminho da santidade. Quando ela, por exemplo, uma vez não interrompeu uma conversa muito superficial devido ao respeito humano, o Anjo lhe deu uma bofetada tão forte que em toda sala ouviu-se o barulho e, por muito tempo, podiam-se ver os sinais que esta bofetada lhe deixou em seu rosto.

O auxílio do Anjo para assumir as obrigações de seu estado de vida
No que diz respeito ao seu matrimônio o Anjo ajudou-a a encontrar as atitudes e os valores positivos desse estado de vida, de maneira que ela começou a viver essa união sacramental muito conscientemente. Assim, também ajudou-a a cumprir os deveres de uma dona-de-casa, aliás, de uma das casas mais ricas de Roma, mostrando-lhe que isso não era perda de tempo, mas, dever de estado. E quando, pela primeira vez, deu à luz um filho, a quem chamou de Batista, foi o Anjo que a fez deixar as severas mortificações por amor a seu filho. Ela recebeu também uma forte iluminação interior que a tornou capaz de compreender o quanto vale diante de Deus, como verdadeira oração, quando se cumpre com amor os deveres de mãe e da educação dos filhos.

Esses fatos nos mostram que este Anjo tinha a tarefa de cuidar da purificação de Francisca. Mostra também como os nossos deveres de estado e nossas tarefas cotidianas fazem parte dessa purificação, e como o seu cumprimento tem preferência diante das mortificações particulares. Em primeiro lugar, a nossa penitência é o cumprimento de nossos deveres, é o amor fraterno, o amor aos nossos irmãos e aos nossos filhos, é o trabalho que devemos realizar. E, como fundamento de tudo isso, o Anjo conduziu-a a aceitar totalmente o seu estado de vida. Com certeza, foi um passo duro para ela deixar aquele ardente desejo de vida religiosa que sempre tinha aspirado. Mas, já estava incluído nos planos de Deus esse outro estado de vida, na missão que Ele tinha para ela.

É interessante notar que ela nunca pôde ver esse Anjo, enquanto os outros dois companheiros celestiais ficaram visivelmente a seu lado. Isso indica que ela ainda precisava crescer na fé. “A fé é a certeza daquilo que não se vê” define a Carta aos Hebreus esta virtude teologal (11,1), em que se baseia toda a nossa relação com Deus, pois, “é impossível agradar a Deus sem ter fé” (Heb 11,6).

Devemos também ter uma fé viva em nosso Anjo
Por isso, o Anjo quer em primeiro lugar fortificar a nossa fé, pois um ato de fé vale mais diante de Deus do que muitas aparições. Queremos, portanto, manter firme a nossa fé, não somente em Deus, mas também no Anjo. Devemos acreditar nele, na sua presença ao nosso lado, na sua força e poder que recebe de Deus para proteger-nos e que ele quer comunicar a nós; sim, ele deseja um contato íntimo com a nossa alma que é a sua grande amiga.

Nós devemos exprimir essa fé em palavras, orações, atos e agradecimentos. Quanto mais viva e firme for a nossa fé tanto mais íntima será a nossa relação com o Anjo. Poderíamos dizer também que esse Anjo ajudou Francisca a viver de forma exemplar os seus compromissos batismais que é expressão de nossa fé.

O SEGUNDO ANJO – GUIA NO CAMINHO DA ILUMINAÇÃO
No ano 1413, quando Francisca uma vez estava rezando na capela, apareceu-lhe Evangelista, seu filho muito querido que já havia falecido. Ao lado dele estava um rapaz que parecia ter a mesma idade e o mesmo tamanho, mas que era muito mais belo. “És realmente tu, filho do meu coração?” perguntou a santa, ao que respondeu o filho: “Mãe, saiba que estou no segundo coro da primeira hierarquia, entre os Arcanjos, junto com este companheiro, que vedes ao meu lado e que é muito mais belo do que eu. Este espírito celeste é enviado à senhora, para consolá-la na peregrinação terrestre. Dia e noite o verás ao teu lado e ele te assistirá em tudo”.

Durante os próximos 24 anos este Arcanjo acompanhou-a dia e noite, e seu rosto brilhava tão fortemente que a santa não podia contemplá-lo. Somente quando se encontrava em oração, na luta contra os demônios, ou no colóquio com o confessor, ela então podia ver o seu rosto. Na luz desse Anjo foi possível para ela até ler e trabalhar durante a noite. O Anjo serviu-lhe também de espelho no qual ela podia ver sua pequenez.
Quando vacilava na confiança em Deus, ou se deixava oprimir pelas preocupações, ou cometia faltas, imediatamente perdia esse contato visível com o Arcanjo. Mas, ao arrepender-se pedindo perdão a Deus, novamente podia vê-lo, ainda mais belo e feliz, de maneira que recuperava novamente a paz interior. Em caso de dúvida, ou medo, um olhar benevolente do companheiro celeste bastava para dissipá-los.


O conhecimento dos pensamentos dos corações
Na luz que saía desse Anjo, Francisca conhecia os pensamentos mais íntimos dos corações dos homens e sabia o estado de sua alma. Recebeu também o discernimento dos espíritos. Sem dúvida, essas graças foram de muito proveito ao dar conselhos às pessoas e ao reconduzir os pecadores desviados. Seus conselhos ficaram de tal forma conhecidos que era procurada também pelos teólogos e doutores daquela época.

“Dia e noite o verás ao teu lado e ele te assistirá em tudo”
Em 1414 Francisca ficou contaminada ao cuidar dos doentes de peste. Foi então que quase todos os amigos a abandonaram, enquanto o Arcanjo ficou a seu lado, tornando-se desse modo uma fonte de consolo na miséria. Ainda doente, uma vez entrou em êxtase e lhe foi mostrado como, após a morte, o Anjo da Guarda de uma pessoa apresenta todas as suas boas obras diante de Deus. Poucos dias após essa visão foi repentinamente curada.

Os dons de Francisca não puderam ficar escondidos. Sempre mais era solicitada quando havia brigas ou quando cônjuges queriam separar-se. Um olhar para o Arcanjo bastava para ela conhecer os pensamentos de vingança, de raiva no coração ou outros pecados que causavam divisões. E a presença dela, acompanhada de suas palavras, tinha uma força tão grande que ninguém conseguia resistir aos seus conselhos.

Somente uma coisa temo: ofender a Deus
Santa Francisca também foi introduzida na luta contra os poderes do mal. Os conselhos, e até profecias, as curas, milagres e exorcismos tinham seu preço. Esse preço ela pagou lutando com os demônios, que também podia ver da mesma forma que o Arcanjo; este, muitas vezes, colocou-se entre ela e os demônios, afastando-lhe muitos golpes. Quando movimentava seus cabelos dourados, saíam raios de luz e os demônios se afastavam. Contudo, isso não quer dizer que ela não teve de lutar. Muitas vezes o Arcanjo permitiu uma longa luta antes de intervir. Aconteceu também que esses inimigos infernais procuraram lançar-se sobre Francisca em formas horrorosas de animais. Entretanto, o Anjo a envolveu em luz radiante e ela ficou invisível para os inimigos. Sempre encontrava consolo ao olhar para o seu companheiro celeste. Isso enfurecia ainda mais os demônios que, então, lançavam areia contra ela causando-lhe grandes dores. Ela, porém, corajosamente protestava contra esses atacantes: “Eu não vos temo! Uma só coisa eu temo: ofender a Deus. Vós somente podeis fazer o que Ele vos permite, e Ele permite tão somente o que serve para a Sua glória e a minha salvação”.

Certa vez aconteceu que, enquanto segurava seu neto nos braços, de repente, recebeu um forte golpe dum demônio que queria vingar-se por causa da conversão de sua nora que se deveu principalmente à santa. O golpe foi tão duro que também a criança começou a chorar. Ela então fez o sinal da cruz na testa, pronunciou o nome de Jesus e começou a recitar o início do Evangelho de São João. Mas, como o demônio não queria afastar-se, o Arcanjo deixou seu lugar à direita de Francisca, tomou o menino nos braços, e colocou-o suavemente no berço. Com seus cabelos, que brilhavam como ouro, formou uma cortina que protegeu o menino de novos ataques. Aí então o inimigo afastou-se. Todos os presentes foram testemunhas de como o menino voltou para o berço, parecendo pairar no ar, pois não podiam ver o Anjo.

Esse Anjo ajudava não somente a Francisca, mas todas pessoas ao seu redor. O conhecimento das almas, o dom do bom conselho, e muitas graças que ela recebeu desse Anjo não eram para ela, mas sim, para poder mais eficazmente ajudar a outros. Vendo tudo isso, temos a impressão de que esse Anjo ajudou a santa a viver conseqüentemente o sacramento do Crisma, no qual somos ungidos para espalhar e lutar pelo Reino de Deus aqui na terra.

No ano 1425 Francisca fundou a Ordem das “Oblatas de Maria”. Em 1433, doze companheiras começaram a vida comunitária, enquanto a santa fundadora ficou ainda por três anos cuidando de seu marido. Quando este faleceu em 1437, realizou-se o desejo de seu coração: ingressou na comunidade no dia 25 de março do mesmo ano e, por ordem de seu Anjo, ela aceitou o encargo de superiora. Nesse mesmo dia o seu fiel companheiro despediu-se dela com um amoroso sorriso.

O TERCEIRO ANJO – AUXÍLIO PARA A UNIÃO COM DEUS
Então, o Senhor mandou-lhe um outro companheiro, ainda muito mais belo e poderoso, que trazia uma veste branca de diácono, ricamente enfeitada. Durante os últimos três anos de sua vida este Anjo ficou com ela.

Foi notável a sua força; bastava a sua presença e os demônios fugiam. Na mão esquerda ele segurava três ramos de uma palmeira, dos quais saíam fios dourados que punha em ordem num trabalho misterioso e constante, noite e dia, sem interrupção. Uma vez apareceu São Bento e explicou que o ouro significava o amor a Deus e ao próximo com o qual Francisca deveria dirigir as suas filhas. As palmas significavam que ela deveria agir com coragem e sem falso respeito humano, enquanto o trabalho constante e regular do Anjo significava que ela deveria cuidar constantemente da ordem e do progresso de sua comunidade.

Incessantemente o Anjo estava a trabalhar com esses fios, exceto quando Francisca admoestava suas filhas, quando rezava o credo, ou o ofício de Nossa Senhora. Só então o Anjo parava, escutando ou rezando, e adorando com ela. Quando ele rezava uma coluna luminosa erguia-se de sua cabeça até o céu.

No dia 3 de março de 1440 foi chamada para a casa dos seus para tratar do filho Batista que adoecera gravemente. A santa ficou vigiando ao seu lado até à tarde. Quis, então, voltar para o mosteiro, mas as forças a abandonaram e ela voltou para o palácio de sua família, tremendo de febre e, ainda, com uma pleurisia. Nesses dias ela afirmou: “Não vejo mais os demônios. Deus é Vencedor. O inimigo foi vencido e lançado no abismo!” O Anjo permaneceu constantemente ao seu lado e tornou-se cada vez mais radiante.

No dia 9 de março de 1440 ela rezou: “Entrego o meu corpo, meu espírito, minha vida nas Vossas mãos, Senhor Jesus!” E expirou com as palavras: “Os céus estão abertos. O Anjo completou sua obra. Ele está na minha frente e cordialmente faz-me um sinal para segui-lo”.

Vemos nesse terceiro Anjo um auxiliador para uma vida mais retirada. Seu trabalho incessante significa que de nossas boas obras o Anjo nos faz uma veste para o céu. E também: quanto mais estamos unidos com o Senhor, tanto mais força o Anjo tem na luta contra o poder das trevas, e ainda, que o próprio Deus envia um Anjo mais forte àqueles que mantêm um contato mais íntimo com Ele.

Por isso, peçamos a ajuda desse Anjo quando nos aproximamos da mesa do Senhor – momento em que se realiza concretamente em nossa vida a união mais profunda entre Deus e nossa alma, entre nosso Salvador e nós, por meio da Santíssima Eucaristia. As nossas vestes para o banquete celeste serão tanto mais esplêndidas quanto mais amorosamente nos unirmos ao nosso Bom Senhor na sagrada comunhão. E não é isso também a tarefa mais nobre de nosso Anjo: unir-nos sempre mais com o Deus de Amor que nos espera em cada Santa Missa, que renova cada vez conosco a Sua aliança?


Santa Teresa de Liseux e o Santos Anjos (I)

O SOFRIMENTO E OS ANJOS

Teresinha tinha consciência da diferença entre Anjo e homem. Pensar-se-ia que ela teria inveja dos Anjos, mas é o contrário! Ela tinha entendido a grandeza da Encarnação. “Quando vejo o Eterno envolvido em paninhos e ouço o fraco choro desse Verbo divino, ó Mãe querida, não invejo mais os Anjos, porquanto o Onipotente é meu amado Irmão! ...” (Poesia 54: “Porque eu te amo, Maria”). Também os Anjos compreendem profundamente o alcance da Encarnação e teriam, se fosse possível, inveja de nós pobres criaturas de carne e sangue. Num teatro natalino, no qual ela dá nomes aos Anjos conforme suas tarefas em relação a Cristo - por exemplo, o Anjo do Menino Jesus, o Anjo da Sagrada Face, o Anjo da Eucaristia - ela coloca na boca do Anjo do Juízo Final o canto: “Diante de Ti, doce Criança, o Querubim se inclina! Admira, espantado, Teu inefável amor. Quer, como Tu, sobre a sombria colina poder um dia morrer!” Então todos os Anjos cantam o estribilho: “Como é imensa a alegria da humilde criatura. Nos seus arrebatamentos os Serafins desejam deixar, ó Jesus, a angélica natureza, e fazer-se criança!”. (Os Anjos no presépio, cena final). Aqui nos deparamos com o motivo da estima de Santa Teresinha para com os Anjos, isto é: sua ‘santa inveja’ em relação aos homens, pelos quais o Filho de Deus Se fez homem e morreu. Na poesia em honra de Santa Cecília, um Serafim explica esse mistério a Valeriano da seguinte forma: “Eu me abismo em Deus, Seus encantos contemplo, mas não posso imolar-me nem sofrer por Ele. Não posso Lhe ofertar nem lágrimas nem sangue; apesar de todo meu amor, não posso morrer... A pureza de um Anjo é a herança luminosa de uma felicidade imensa que não passa, mas neste ponto, sim, vós venceis os Serafins: sois puros e, além disso, ainda podeis sofrer” (Poesia 3: Santa Cecília).

Mais adiante, Jesus Se dirige a um Anjo com as seguintes palavras cheias de luz e consolo: “Ó tu! que quiseste na terra compartilhar Minha cruz, Minha dor; belo Anjo, escuta este mistério: toda alma padecente é irmã tua. No Céu, o brilho do seu sofrimento virá também na tua fronte recair, e o brilho da tua pura essência iluminará o mártir!” (Os Anjos no presépio, Cena 5,10-11). Portanto, no Céu, Anjo e homem terão comunhão, parte e alegria com a glória do outro. Assim, na economia da salvação existe uma maravilhosa e íntima comunhão de pessoas.