Eu, bispo exorcista

Eu, bispo exorcista

Em recente livro, o bispo de Isernia-Venafro, na Itália, descreve suas experiências de exorcista e as surpreendentes conclusões a que foi levado durante uma década de prática do Exorcistado


D. Andréa Gemma: a ação diabólica “é mais nefasta do que se possa pensar”
Na manhã de 29 de junho de 1992, o novo bispo de Isernia-Venafro, D. Andrea Gemma, saía da Basílica Vaticana, olhando pensativo para a Praça de São Pedro. As palavras de São Mateus, “as portas do inferno não prevalecerão” (Mt 16,18), ecoavam em seu espírito com um atrativo sobrenatural. E lhe inspiravam graves considerações: 1) a ação do demônio não só não diminuiu, mas multiplicou-se; 2) o demônio é consciente de que dispõe de pouco tempo; 3) Nosso Senhor Jesus Cristo deu à Igreja enorme poder contra Satanás; 4) para não ser derrotado, o demônio faz tudo para agir no silêncio; 5) chegou o momento de desmascarar a ação insidiosa de Lúcifer e enfrentá-lo de viseira erguida, com as armas de que a Igreja dispõe. (* – pp. 11-12).

Por que não se fala da necessidade de exorcismo?

Voltando à sua diocese, a 170 km de Roma, D. Andrea decidiu pôr em prática o mandato divino “expulsai os demônios” (Mc 16,17). Porque, explica ele, para o bispo, exorcizar “não é uma escolha, é obrigação” (p. 21). E cita o exorcista oficial de Roma, Pe. Gabriele Amorth: “Um bispo que não estabelece pelo menos um exorcista na sua diocese não está isento de pecado mortal por grave omissão” (p. 24).

O resultado foi surpreendente. O poder do inferno se lhe revelou em todo o seu horror e em toda a sua extensão. “Quantas vezes — escreve ele —, nos meus colóquios cotidianos, freqüentemente difíceis, com os doentes de todo tipo, esta verdade se punha diante de mim: ‘Por que não nos falaram antes destas coisas? Por que não nos alertaram com uma adequada instrução? Por que não nos preservaram a nós, grei de Cristo, da devastação dos lobos famintos?” (p. 113).

“Se todos os bispos fossem como você, estaríamos completamente vencidos, e imediatamente” (p. 12), gritou-lhe um demônio por meio de uma mulher possessa, acrescentando em uma outra ocasião: “[mas] vocês são poucos” (p. 62).

Poder da promessa de Nossa Senhora em Fátima

Em 1992, o prelado publicou a pastoral As portas do inferno não prevalecerão. Nela, alertava: “A ação infestante e obscura de Satanás [...] está, acreditai-me, mais difundida e é mais nefasta do que se possa pensar” (p. 15). Na pastoral, D. Andrea convocou a diocese para “uma luta sem quartel, concertada e eficaz contra o mal e as suas artes” (p. 16). O bispo promoveu orações públicas que congregavam multidões vindas de muito longe. O Maligno se externava visivelmente, e aqueles que sofriam alguma ação diabólica eram levados à sacristia para serem objeto de exorcismos específicos.

O bispo não imaginava que sua pastoral daria a volta ao mundo, sendo traduzida em várias línguas. Cartas, imprensa, pessoas de toda Itália e até do exterior, apelando ao seu socorro porque sentiam alguma ação diabólica ou estavam possessas, lhe mostraram que muitos fiéis estavam esperando algo do gênero.

Nos exorcismos, D. Andrea pôde constatar o enorme poder de Nossa Senhora e da Igreja sobre as potências do abismo: “Se quero ver o demônio realmente furioso, basta jogar-lhe água benta, pronunciando esta minha doce certeza: ‘por fim, o Coração materno de Maria triunfará’. ‘Sim!!!’, me responde, sempre rangendo os dentes. Mas algumas vezes acrescenta um desafio: ‘neste meio tempo, quantos levaremos conosco’...” (p. 63).

D. Andrea interrogou várias vezes os demônios possuidores:

— “Vós, que vexais as vossas vítimas, tirais algum proveito ou alívio disso?

— Não, pelo contrário, nós sofremos um maior agravamento das nossas penas.

— E, então, por que o fazeis?

— Por ódio, por ódio, por ódio” (p. 61).

A Igreja em crise não usa as suas armas

Imagem do Arcanjo São Miguel, que liderou a luta contra Lúcifer no Céu
O bispo procurou inspiração nos textos do Vaticano II, e eis as suas conclusões: “Ide e folheai todos os documentos do Concílio Vaticano II, [...] verificai se se fala, e quantas vezes, do demônio e das suas obras. Sabeis que naqueles dezesseis documentos, pensados e ponderados, não existe sequer a palavra inferno, nem a palavra ‘demônio’? Incrível, mas verdadeiro, basta ir verificar...” (p. 88).

Ele debruçou-se sobre os textos litúrgicos antigos e novos. E ficou estupefato: “Sempre lamentei que na reforma da Missa se tenha tirado aquela oração a São Miguel [Exorcismo Breve], que Leão XIII, não sem inspiração do alto, quis que fosse recitada no fim de cada celebração. Muitas vezes o demônio, pela voz dos possessos, fez saber que gostou muitíssimo dessa abolição! [...] O que é que sugeriu e sugere evitar-se o mais possível, nos textos litúrgicos, a menção a Satanás, às suas nefastas intervenções, às conseqüências da sua ação destrutiva? Quem possa, que me responda. E com argumentos válidos, por favor. [...] Hoje a obra assassina do demônio é mais evidente do que nunca [...]. Então, não somente não era o caso de expurgar as fórmulas deprecatórias e imprecatórias, mas sim de multiplicá-las e reforçá-las. Porém, infelizmente não foi assim” (p. 27).

O ambiente laicizado hodierno: vitória do demônio

D. Andrea reparou que os históricos dos que padecem malefícios e o dos possessos eram muito parecidos. É imensa, diz ele, a quantidade de ocasiões que o contexto atual oferece às serpentes infernais para se apossarem das suas vítimas.

O rock, além do uso da droga, representou importante fator na quarta etapa da Revolução.
“A maior vitória do diabo consiste em convencer os homens de que ele não existe”. Esta verdade indiscutida levou o prelado à conclusão de que o ambiente moderno serve de luva ideal para as garras infernais. A todo momento, esse ambiente sugere que não há Deus nem demônio, nem Céu nem inferno. E os espíritos malignos atacam e invadem os corpos das suas vítimas de inúmeras formas. Há cultos satânicos explícitos. Mas também implícitos, como certas técnicas de meditação e algumas terapias alternativas, superstições ou modas tipo Nova Era ou músicas tipo rock and roll.

Como é que a humanidade gerou esse ambiente enganosamente neutro e materialista, porém tão útil para os espíritos das trevas?

A Revolução gera ambiente propício à ação diabólica

D. Andrea dá uma elucidativa explicação histórica. Ela se aproxima muito da denúncia do processo revolucionário que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira formula na sua obra magistral Revolução e Contra-Revolução. Não descartamos que o culto bispo italiano tenha tirado dela alguma inspiração: “A laicização da nossa sociedade é o fruto de um longo e complexo processo que durou cerca de cinco séculos, e que se desenvolveu em três etapas fundamentais, três revoluções no campo cultural e social, mas com lances também cruentos, que levaram à gradual transformação do mundo antigo, tradicional, para dar na sociedade atual, pós-moderna e secularizada”.

D. Andrea descreve essas sucessivas revoluções: primeiro a revolução protestante, que causou um grande desgarramento da sociedade cristã medieval; segundo o Iluminismo e a Revolução Francesa; terceiro a Revolução comunista marxista. Por fim, acrescenta, uma quarta etapa ou Revolução: a do movimento estudantil dos anos 60, que contestou a família, generalizou o uso da droga, propugnou a libertação dos vínculos morais, e sobretudo revoltou-se contra toda autoridade. Esse processo gerou uma sociedade e uma cultura que tendencialmente seduzem os homens para a idéia de que Deus e a religião são coisas absurdas (pp. 113ss).

Há os que se deixam levar por essa influência, ensina D. Andrea. Mas há também os que reagem de um modo exasperado e caem no exagero oposto: as novas e enganosas formas de religiosidade. Todas são fáceis presas de Lúcifer.

Armas para derrotar os demônios

Estatutária medieval: Nossa Senhora defende o monge Teófilo (séc VI) de ação diabolica
D. Andrea exorta os fiéis a recorrerem às armas que vencem o demônio: a Fé, os Livros Sagrados, o jejum, os sacramentos. E, sobretudo, a oração por meio de Nossa Senhora, a “inimiga eterna de Satanás” (p. 16). Entre as orações específicas, ele recomenda a renúncia formal a Satanás, como se faz na renovação das promessas do batismo, e o exorcismo breve: “São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate; cobri-nos com vosso escudo contra os embustes e ciladas do demônio. Subjugue-o Deus, instantemente o pedimos, e vós, Príncipe da Milícia Celeste, pelo divino poder, precipitai no inferno a Satanás e aos outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas. Amém” (p. 17).

E recomenda também não se deixar seduzir pelo ambiente revolucionário hodierno nem pelas falsas novidades nas formas de religiosidade — inclusive no âmbito católico —, que tanto e tão bem servem de ocasião para os malefícios e possessões por parte do pai da mentira.

Com essas cautelas e armas espirituais, o católico resistirá e sairá vitorioso, confiando sempre na promessa divina: “As portas do inferno não prevalecerão” (Mt 16,18).

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Notas:

* D. Andrea Gemma, Io, vescovo esorcista (Eu, bispo exorcista), Editora Mondadori, Milão, 2002, 208 pp. Todas as citações do artigo são extraídas desse livro.

Verdades esquecidas, na consideração da natureza

AMBIENTES, COSTUMES, CIVILIZAÇÕES




Toda a natureza nos fala de Deus, e da lei moral por Ele instituída para o homem.
É esta uma verdade muito conhecida, mas da qual habitualmente só se fazem aplicações unilaterais. A influência do sentimentalismo nos leva a omitir os aspectos da natureza que instruem o homem sobre a beleza da coragem, da audácia e de todos os predicados, enfim, que ele deve possuir na luta, - na luta que, quando voltada contra o mal, constitui dever sublime. E o liberalismo nos impede de dar a devida atenção a todos os aspectos da natureza que nos trazem à mente a própria noção de mal.
Ora, quanto nos fala a respeito de um ou outro ponto o reino animal! Não que os animais sejam capazes de vícios ou virtudes. Nem que neles possa haver algum princípio bom ou mau que transcenda de qualquer forma a sua natureza de simples animais. A serpente, por exemplo, é uma criatura de Deus absolutamente tão boa quanto o cordeiro. E isto não obstante, a primeira, por uma série de riquíssimas analogias, por sua falsidade, sua nocividade para o homem, sua marcha rastejante e seu poder de sedução, é utilizada como símbolo adequado da vilania e da maldade, tendo até por meio dela o demônio falado a Eva; - e o cordeiro, também por uma série de analogias riquíssimas, por sua alvura, sua mansidão, sua inocência, é tido como símbolo adequado de Nosso Senhor Jesus Cristo e do cristão. Os animais, todos igualmente bons como obras de Deus, nos instruem sobre o bem e o mal, para que amemos àquele e odiemos a este. Mas em qualquer caso são meros animais.
Perdoem-nos os leitores a banalidade desta última asserção. Hoje em dia a confusão dos conceitos é tal, que é sempre melhor dizer-se que a água é água e não pólvora ou granito, quando se conta a alguém que se vai tomar um copo de água...
Este falcão, que baixa majestoso sobre um coelho que foge espavorido, nos faz sentir a forte e nobre beleza da luta, por ser um admirável símbolo das virtudes do guerreiro: calma, força, agilidade e precisão. Ele se move no ar com um equilíbrio, um "à vontade" tal, que se diria que a lei da gravidade para ele não existe. Sua velocidade está proporcionada de tal maneira à do coelho, que o atingirá forçosamente. Suas garras possantes já estão abertas, seu bico também, mas no auge do ataque ele mantém uma sobranceria simbolizada de modo admirável pelas asas nobremente abertas num vôo que se diria idealmente sereno.
Ai, dirá um sentimental, e o pobre coelhinho, será lícito ao falcão agredi-lo?Não se irrite demais esse sentimental, nem com o falcão, nem com a nossa resposta: é por vontade de Deus que os bichos se comem uns aos outros. E que os falcões comem coelhos... Não se deve ver um bicho que devora outro, como se veria um antropófago.
Deus, que manda aos homens que se amem uns aos outros, manda neste vale de lágrimas aos animais, que se entredevorem, e nos permite que comamos os animais. E com isto ensina aos homens que eles são incomensuravelmente mais do que simples animais.
Deus não é igualitário... outra grande, muita grande lição.
Haverá algo que nos faça sentir melhor o horror da cupidez, do orgulho, da falsidade, do que a "fisionomia" da segunda foto? A "fronte" baixa e fugidia, o porte orgulhoso da cabeça, o olhar frio e "desalmado", a boca desdenhosa, o bico adunco e agressivo, uma mobilidade terrível que parece toda feita para atacar, tudo enfim incute horror, neste abutre.
Horror, do que? Do mal moral, que nos afasta de Deus.
Um liberal não gosta de pensar nisto. E é porque muitos homens não são propensos a admitir a existência do mal, que Deus os instrui por símbolos como este.
E assim, ao considerar a natureza, se aprende a não ser, nem sentimental, nem liberal.

Entrevista: “A melhor resposta ao império do dinheiro é a lei da honra”

Revista Catolicismo | Retorno à ordem cristã para superar uma economia baseada na “intemperança frenética” — espírito inquieto e precipitado que provoca violenta aceleração no ritmo de vida.
John Horvat:

“A família surge de alguns princípios gerais que se fundam no Direito natural, como seu caráter de união monogâmica entre pessoas de sexos opostos”
O Sr. John Horvat II é pesquisador, educador, palestrante internacional, articulista e autor do livro Retorno à ordem, lançado recentemente nos Estados Unidos pela Sociedade Americana de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), da qual é vice-presidente e diretor do website (www.tfp.org).
Seus escritos têm sido reproduzidos em publicações como “The Wall Street Journal”, “FOX News”, “The Christian Post”, “The Washington Times”, “ABC News”, “C-SPAN”, além de outros órgãos de imprensa e sites.
As pesquisas, escritos e conferências do Sr. Horvat sobre a crise sócio-econômica dos Estados Unidos se estendem por mais de duas décadas, culminando no lançamento de sua obra inovadoraRetorno à ordem, útil não só para os americanos, mas para todos os nossos contemporâneos.
O Sr. Horvat reside na sede da TFP americana em Spring Grove, Pennsylvania, onde lidera a Comissão de Estudos Americanos Tradição, Família e Propriedade. Foi nessa bela propriedade que ele concedeu a presente entrevista a Catolicismo, na qual responde a questões sobre temas tratados no referido livroEle defende que não bastam as leis para a solução dos graves problemas de nosso século, como os econômicos, mas cumpre restaurar os valores culturais, morais e religiosos, como, por exemplo, a prática das virtudes cardeais e a consideração da lei natural. 
*       *       *
Catolicismo — O que há de novo na solução proposta em seu livroRetorno à ordem?
John Horvat Quando a maior parte das pessoas excogita soluções, pensa em termos de sistema, isto é, em um plano a ser posto em prática para resolver todos os problemas. As soluções propostas no livro Retorno à ordem partem de um pressuposto totalmente diferente. Elas são orgânicas e derivam de alguns princípios básicos da Lei natural e da doutrina católica. Porém, tais princípios se desenvolvem depois de maneira imprevisível, adaptando-se às circunstâncias concretas de cada realidade, muito variáveis. Não é um sistema rígido, uma espécie de plano quinquenal socialista que impõe uma série de normas e regulamentos para a sociedade inteira. Não é uma solução planejada sobre uma mesa. Eis o aspecto novo e, ao mesmo tempo, antigo das soluções propostas no livro. Propomos soluções que levam em consideração o lado humano das coisas, ou seja, soluções flexíveis, mas, ao mesmo tempo, com uma base sólida.

 Catolicismo — Poderia dar um exemplo de uma solução cristã orgânica?
John Horvat Vem-me à mente a família. Não se pode inventar um novo tipo de família e impô-la a um povo. A família surge de alguns princípios gerais que se fundam no Direito natural, de onde provém o seu caráter de união monogâmica entre pessoas de sexos opostos.

 Catolicismo — O que não funciona no atual sistema econômico?
John Horvat — Hoje, temos um tipo de economia constantemente voltado para o frenesi. É o que chamamos de “intemperança frenética”, um termo cunhado para descrever o espírito inquieto e precipitado que domina atualmente vários setores da economia. Tal espírito anula toda restrição legítima e visa somente satisfazer as paixões desordenadas.
A crise das hipotecas anterior a 2008 é um exemplo. Bastou que a bolha se desinflasse e os juros aumentassem para que o sistema viesse abaixo

“A economia tornou-se fria e impessoal, veloz e frenética, mecânica e inflexível. Cumpre reintroduzir o elemento humano na economia e na sociedade”
A intemperança frenética produz não só avidez e ambição, mas também uma expansão explosiva de desejos humanos além do limite da razão e da moral. Leva a realizar atividades econômicas que anulam a própria ideia de moderação e os valores espirituais, religiosos, morais e culturais que normalmente deveriam temperá-las, introduzindo um elemento quase irracional, causador de relações agitadas, especulação e risco exagerado.
É impossível resolver nossos problemas econômicos com leis ou com regras. O problema está no homem, em sua alma. A única resposta real à intemperança frenética é um retorno à temperança. E isto exige uma conversão espiritual.

Catolicismo — Poderia citar um exemplo do que o Sr. denomina “intemperança frenética”?
John Horvat — Nos Estados Unidos, a crise das hipotecas anterior a 2008 é um exemplo. A fim de adquirir uma casa a qualquer custo — a famosa bolha imobiliária — um número enorme de pessoas fez uma hipoteca bancária sem ter como pagá-la. Pensando apenas no lucro, os banqueiros não se preocuparam em controlar os riscos. Vieram em seguida os operadores financeiros, introduzindo essa hipoteca má em pacotes de títulos para revender aos investidores. A prudência foi literalmente atirada às urtigas. Bastou que a bolha se desinflasse e os juros aumentassem para que o sistema viesse abaixo.
Apreciamos o uísque, o queijo Camembert e o champanhe, por entender que constituem expressões de cultura local

“Nos dias de hoje, comecemos por difundir na sociedade princípios, valores morais e veremos como a influência do dinheiro começará a desaparecer”
A intemperança frenética tende a eliminar toda restrição, visando somente vantagens e interesses pessoais. Ora, são exatamente essas restrições de ordem moral que devem temperar a economia, humanizando-a e mantendo-a no limite do razoável. Por outro lado, a intemperança frenética provoca uma violenta aceleração no ritmo de vida, que ela tende a manter anulando o elemento humano pela utilização de máquinas cada vez mais velozes e reduzindo as pessoas à condição de engrenagens de uma gigantesca economia. Essa intemperança também elimina o calor das relações humanas na economia, torna a vida brutal, exclui os aspectos morais e extingue o senso de comunidade. Quando as pessoas se comunicam exclusivamente por celular ou via Internet, o contato humano de outrora deixa de existir. Anula-se aquilo que alguns economistas chamam de “capital social”. Praticamente perdemos a ideia de comunidade orgânica, isto é, de uma estrutura social onde as pessoas se relacionam com laços de confiança e amizade, sem as quais não se pode garantir um caráter humano à economia.

Catolicismo — No livro, o Sr. trata da importância da moeda, do império do dinheiro.
John Horvat — Quando a intemperança frenética prepondera, o dinheiro tende a governar. Os homens colocam à parte os valores culturais e morais e adotam um sistema diverso de valores que sobrepõe a quantidade à qualidade, o útil ao belo, a matéria ao espírito. Seu efeito trágico foi que a economia moderna tornou-se fria e impessoal, veloz e frenética, mecânica e inflexível. Cumpre reintroduzir o elemento humano na economia e na sociedade. Impõe-se um retorno à ordem cristã.

Catolicismo — Qual é a melhor resposta ao império do dinheiro?
John Horvat — A melhor resposta ao império do dinheiro é a lei da honra. A honra afirma valores que não podem ser comprados nem vendidos. Pressupõe a valorização das coisas de qualidade. Difunde no mercado um clima de tranquilidade e temperança. A lei da honra conduz naturalmente os homens a estimar e procurar as coisas excelentes. Introduz no mercado uma série de valores como qualidade, beleza, bondade e caridade. Na honra encontramos a influência temperante das virtudes cardeais.
Alguém poderá objetar: mas é possível implementar tal lei nos dias de hoje? Comecemos por difundir princípios, ideias, valores morais na sociedade e veremos como a influência do dinheiro começará a desaparecer.

Catolicismo — O Sr. é contrário ao sistema capitalista?
John Horvat — Não, eu defendo muitos dos princípios básicos da economia de mercado: a propriedade privada, a livre empresa, o governo limitado e a fiscalização contida. O problema é que a palavra capitalismo tem muitos significados difíceis de avaliar. A esquerda utiliza-a para descrever os erros ou os excessos do atual sistema de mercado, enquanto alguns libertários usam-na para promover uma anarquia radical. Este é o motivo pelo qual evitei acuradamente essa palavra no livro. Preferi seguir o sábio conselho do jesuíta Pe. Bernard Dempsey, segundo o qual é impossível definir cientificamente o capitalismo. Ele mesmo utiliza o termo com muita relutância, dizendo: “Só um general demente aceitaria a batalha no terreno escolhido pelo adversário”.

Catolicismo — O que aqui é um sistema orgânico de mercado?
John Horvat — A concepção orgânica de mercado repele o gigantismo na indústria, no comércio e nas finanças, em favor de uma economia de proporção humana. A concepção orgânica rejeita a padronização em massa dos produtos, porque esta empobrece culturalmente a sociedade, diminuindo a tendência de cada região a desenvolver sua própria riqueza cultural com os recursos de seu território. Apreciamos o uísque, o queijo Camembert e o champanhe, por entender que constituem expressões de cultura local. A vida proporcionaria uma riqueza muito maior se houvesse mais produtos locais.

Catolicismo — Como definir essa visão da economia?
John Horvat — É certamente diversa da visão moderna. Creio que a economia deve basear-se nos princípios que norteavam a sociedade pré-industrial. Entendamo-nos, não digo voltar atrás historicamente, mas falo de retomar aqueles princípios perenes que constituem a base de uma economia sã e equilibrada. Os problemas começam quando o pensamento econômico se desliga da filosofia moral. Esta ruptura tornou-se evidente com o advento da Revolução Industrial (1760-1840). Os economistas começaram a sustentar que a economia não deveria estar sujeita a nenhuma norma ética superior. Quer dizer, trouxe consigo a intemperança frenética da qual falei acima.
         Um segundo problema da economia moderna é sua dissociação de toda legítima consideração social. Na visão católica, economia e sociedade são realidades complementares. Precisamos reintroduzir retamente o elemento social na economia. Necessitamos de uma ordem econômica vinculada aos princípios gerais das relações sociais, da caridade e da justiça. Cumpre dar maior relevo às instituições que auxiliam a reforçar tal ordem social: a família, a comunidade, o Estado cristão e a Igreja. Ao invés de ser um instrumento para ajudar o homem a alcançar seu fim último, a economia tornou-se um patrão autoritário. Devemos reconduzi-la ao seu limite natural. Eis por que o livro propõe um retorno à ordem.

Catolicismo — A solução para a atual crise, portanto, seria um retorno à ordem cristã?
John Horvat — Para resolver a atual crise não necessitamos de novas leis, mas de algo mais profundo. Precisamos redefinir as nossas prioridades, reordenar a nossa vida, começar a praticar a temperança e outras virtudes cardeais. Impõe-se um retorno à sociedade orgânica cristã, que não trata as pessoas como peças de uma máquina, mas como seres humanos que somos. Ela repõe o elemento humano no centro da sociedade moderna e favorece o papel temperante da tradição, da moral, da família e da comunidade, ajudando a reconstruir o tecido social e acalmar o mercado. Essa sociedade será cristã, isto é, fundada sobre as virtudes cristãs; guiar-se-á pela Lei natural, orientada ao bem comum e à vida virtuosa em comunidade; será cheia de matizes, poesia e paixões ordenadas.

Catolicismo — Quais são as perspectivas?
John Horvat — As soluções orgânicas não podem ser impostas; devem desenvolver-se de modo natural. Nosso livro demonstra que o atual modelo sócio-econômico está em crise, com os dias contados, e que haverá naturalmente uma procura de outros modelos. Temos, portanto, necessidade de procurar um modelo alternativo que nos permita superar a crise. Devemos estar prontos para afastar os modelos que serão propostos pelo socialismo, por ecologistas e outros, e apresentar aqueles derivados de uma concepção católica das coisas. Devemos voltar aos princípios da ordem cristã, que fazem parte do nosso patrimônio e de nossas tradições. São princípios que funcionaram no passado. O livro coloca esta opção sobre a mesa e mostra como já é possível mover-se nessa direção.

Catolicismo — O que o Sr. entende por princípios que funcionaram no passado?
John Horvat — O testemunho da História vem em defesa de tais princípios, cujos antecedentes são extraordinários. As pessoas tendem a pensar que a civilização anterior à Revolução Industrial era primitiva e retrógrada. Isso está longe da verdade. De fato, a civilização cristã preparou o caminho para o verdadeiro progresso.
         Os princípios do Cristianismo muito têm contribuído para inaugurar um período de incrível dinamismo e enorme progresso tecnológico. O historiador Samuel Lilley, por exemplo, demonstra que o progresso tecnológico foi proporcionalmente muito maior na Idade Média do que em toda a história precedente. A Idade Média não era inimiga da tecnologia. Na Europa medieval foram introduzidas máquinas em uma escala desconhecida de qualquer civilização anterior. Alguns historiadores sustentam que a Revolução Industrial foi na realidade um prolongamento (eu diria uma corrosão) do processo iniciado na Idade Média. O historiador Lynn White afirma que a Cristandade foi a primeira civilização não construída sobre os ombros de escravos. Esse progresso dinâmico não se limitava à tecnologia, mas se estendia também ao campo do direito, da instrução, da medicina, da economia e do governo. Os que não confiam nos livros de História poderão visitar os monumentos da época: catedrais, universidades, castelos. Aí terão uma ideia do que se fez.

Catolicismo — Seu livro foi escrito só para os norte-americanos?
John Horvat — Todos nós individualmente fazemos parte da cultura da intemperança frenética. Ou melhor, sob alguns aspectos, somos seu elemento mais ativo. O livro Retorno à ordem trata também de como devemos agir em nossa vida pessoal para nos desligarmos dos ritmos frenéticos que criamos. Ele foi escrito não somente para os americanos, mas também para todas as pessoas do mundo moderno. Creio que estamos em condições de rejeitar o império do dinheiro e a lógica dos mercados de massa que alimentam a intemperança frenética. E também de restabelecer o contato com o elemento humano deficiente na sociedade e na economia. Seja a medida qual for, se ela concorrer para reforçar a família e a comunidade local, para aumentar nosso apreço pela reflexão, pela beleza, pelo dever e pela virtude, ela será uma medida positiva para o retorno à ordem. Temos por isso necessidade de entender a crise e participar do debate sobre o futuro da civilização cristã. O livro Retorno à ordem nos convida a participar desse debate, o qual acreditamos que vai crescer em importância na medida em que a crise se agravar. 
Ainda a propósito de sua pergunta, gostaria de acentuar que meu livro é dedicado ao Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, pensador católico, um brasileiro campeão da luta pela Civilização Cristã cujo exemplo de grande virtude e coragem serviu de inspiração para muitos. Foi sua visão católica que inspirou o livro, o qual está profundamente irrigado pelos pensamentos contidos nas dezenas de reuniões que ele de bom grado condescendeu em ter com a Comissão de Estudos norte-americanos.

Catolicismo — Por que o retorno à ordem é tão urgente neste momento?
Os que não confiam nos livros de História poderão visitar os monumetos da Idade Média: catedrais, universidades, castelos, como transparence na foto acima 

“Creio que a economia deve basear-se nos princípios que norteavam a sociedade pré-industrial. Entendamo-nos, não digo voltar atrás historicamente”
John Horvat — Um dos principais motivos que o torna urgente é o fato de o bissecular modelo ocidental moderno parecer ter entrado em declínio. Mesmo o American way of life não é mais aquele de outrora. Quando se evidenciar o declínio de nossa sociedade, com seus fundamentos sendo postos em discussão, creio que muitos compreenderão a importância do retorno à ordem.
         Mas tal retorno só será possível mediante um retorno a Deus e à Santa Igreja. Uma sociedade ordenada é necessariamente virtuosa, confia na Providência e nos leva a amar a Deus. Ela é possível e para ela devemos retornar.

Ministro francês: Estado laico ensina uma nova religião que bane a Igreja Católica


Via Valores inegociáveis
Vincent Peillon: revolução moral laicista exige acabar com a Igreja


A polêmica na França sobre o “casamento” homossexual contribuiu para desvendar o pensamento oculto de inimigos da Igreja Católica. 

Por exemplo, Vincent Peillon, ministro de Educação, explicitou o ódio de fundo anticatólico – diríamos satânico – do laicismo de Estado. 

Em recente entrevista deixou claro esse fundo com palavras que dispensam comentários:

“Não se pode fazer uma revolução que consista unicamente em realizações materiais; é necessário fazê-la nos espíritos. 

“Ora, até agora foi feita uma revolução essencialmente política, mas não a revolução moral e espiritual. 

“Portanto, deixamos à Igreja Católica o controle da moral e do espiritual.Agora é preciso substituir isso [...].
Decapitação do rei Luís XVI: modelo para o laicismo
“Jamais poderemos construir um país de liberdade com a religião católica.Como tampouco se pode aclimatar o protestantismo na França, como foi feito em outras democracias. 

“É preciso inventar uma religião republicana. Essa religião republicana que deve ir junto com a revolução material, mas que de fato é uma revolução espiritual, é a laicidade. 

“E é por causa disso, aliás, que no início do século XX se começou a falar de fé laica, de religião laica, e que a laicidade pretendia criar um espírito público, uma moral laica e, portanto, a adesão a um certo número de valores.
E ainda escreve em seu recente livro:
“A Revolução Francesa é a irrupção no tempo de algo que não pertence ao tempo; é um começo absoluto, é a presença da encarnação de um sentido, de uma regeneração e de uma expiação do povo francês. 

“1789, o ano sem igual, é o ano do engendramento de um homem novo por meio de um brusco salto da História.
Ministro de Educação socialista: matar a religião nas almas das crianças
“A Revolução é um acontecimento meta-histórico, quer dizer, um acontecimento religioso. 

“A Revolução implica o esquecimento total daquilo que precedeu a Revolução.Em consequência, a escola tem um papel fundamental, porque a escola deve despojar a criança de todos seus apegos pré-republicanos para educá-la até virar um citoyen. 

“É bem um novo nascimento, uma transubstanciação que se opera na escola e por meio da escola gera esta nova igreja com seu novo clero, sua nova liturgia e suas novas Tábuas da Lei.” (Vincent Peillon, La Révolution française n’est pas terminée, Le Seuil, Paris, 2008).

Sacerdote lança maldição em fiéis

Parece inacreditável, mas nada é inacreditável mais nos sacerdotes formados sem a filosofia e telogia perenes. Honestamente, isso soa patologia, mas deixemos isso para os bons psicólogos.


O texto [original, mesmo com erros de digitação] do Pe. Ivair Gentil Zanchetta é este:

" PECADOS DE SODOMA E GOMORRA A NADA SE COMPARA AO DE VOCÊS"E para os inimigos e os que ficaram em cima do muro será peso daMALDIÇÃO que eternamente recairá sobre vocês e sobre seus familiares por muita gerações. Vocês nem imaginem o que significa terem erguido a MÃO CONTRA DE UM UNGIDO DO SENHOR.Vocês brincaram com algo muito sério. O pecado de vocês é como pecar contra o Espírito Santo não tem perdão. Vocês arrastarão ESTA MALDIÇÃO para resto de suas vidas aqui e depois daqui. A cada dia a consciência de vocês se lembráará de tudo isso. Nunca mais terão felicidade, paz, prosperidade, a doença será a vossa companheira de vossas famílias, serão olhados como escárnios da humanidade ... serão servos para sempre de SATANÁS, ELE OS AMARROU À SUA MALDADE E VOCÊS CAÍRAM NA ARMADILHA DELE E EM NOME DE JESUS ELE NÃO PERMITIRÁ NUNCA MAIS SER DESAMARRADO !!!! A pratica que vocês fIzeram que nunca mais serão os mesmo, andarão de cabeça baixa, não terão coragem de olhar nos olhos das pessoas, serão odiados por todos, O casamento de vocês nunca mais terá paz, o adultério vos perseguirá, todos os tipos de de dependência estarão vos perseguindo (química, alcol,sexualidade desregrada vossas casas, vossos filhos serão o vosso desespero, porque Vocês servem a SATANÁS .Pelos poderes Sacerdotais que a Igreja me confiou EU VOS AMALDIÇOOU PARA SEMPRE EM NOME DO DO SANGUE DE JESUS DERRAMADO!AMEM!

Ademais, que fique registrado o fato. Nossa equipe recebeu um e-mail sobre maldições lançadas por sacerdotes. Por isso, deixamos uma boa e sucinta resposta do Prof. Fedeli AQUI.

Que o sacerdote saiba bem o que está fazendo.

O amor próprio - ou o maior impedimento à vida de Cristo em nós

O inimigo máximo da vida interior, segundo os autores espirituais, não é o mundo com suas tentações, nem o demônio com suas insídias, mas o amor desordenado de si mesmo; pois se não existisse em nós este amor, as tentações do mundo e as insídias do demônio seriam facilmente vencidas; no entanto, encontram um cúmplice neste amor desordenado.

Com a doutrina de S. Tomás, exposta na Suma Teológica [Ia IIae q. 77 e 84), vejamos de modo concreto e prático: 1o. Como o amor desordenado de si mesmo se opõe ao amor de Deus e não raro o destrói? ― 2o. Como o amor desordenado de si mesmo permanece latente mesmo nos melhores católicos? ― 3o. Que devemos pensar dos subterfúgios do amor próprio? ― 4o. Como se pode eficazmente combater este amor próprio? 1

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1o. Como o amor desordenado de si mesmo se opõe ao amor de Deus e, não raro, o destrói?

Este amor desordenado é muito insidioso e variado. Primeiro porque esconde-se sob outros nomes, como honra, zelo do bom nome ou da própria dignidade; diz, p. ex., «o homem ama-se naturalmente, assim como o anjo se ama a si mesmo; quer para si o bem e nisto não há desordem. Sobretudo, pela caridade sobrenatural, devemos amar-nos a nós mesmo ainda mais que ao próximo». Mas o amor próprio desordenado não diz que, tanto na ordem natural, quanto na ordem sobrenatural, o amor de nós mesmos deve ser subordinado ao amor de Deus, autor da natureza e da graça. E se nos move a considerar esta subordinação, isto ocorre somente de modo teórico e abstrato, nunca de modo prático e concreto. Assim, implícita e realmente, acabamos buscando demasiadamente nosso próprio interesse.

Por conseqüência, o amor de si mesmo torna-se, pouco a pouco, desordenado; é isto uma seqüela do pecado original.

Ora, o batismo nos apaga este pecado da natureza, mas permanece nos batizados essa ferida como uma espécie de cicatriz que, por vezes, se abre por causa de nossos pecados pessoais.

Por isso, o amor próprio desordenado pode, pouco a pouco, instaurar a desordem em quase todos nossos atos, mesmo nos mais altos, se não os fizermos por Deus, como deveríamos, mas pela satisfação de nosso apetite natural e, assim, paulatinamente, nossa vida interior é viciada e se impede a vida de Cristo em nós. É verdade que La Rochefoucauld, em seu livro «Les Maximes», e os jansenistas exageram esta inclinação; mas, sob este exagero, há algo de verdadeiro, algo de demasiado verdadeiro.

Muitos cultivam em si mesmos não o amor de Deus, mas uma excessiva estima de si mesmos, das suas qualidades, procuram o louvor e a aprovação dos outros; não enxergam seus próprios defeitos mas, ao contrário, exageram os defeitos dos outros, como escritores de panfletos políticos: são, por vezes, severíssimos com os demais e extremamente indulgentes consigo mesmos. Seria então muito bom e salutar repetir a humilhação do salmista: «sois bom para mim, Senhor, pois me humilhastes». Este amor desordenado de si mesmo gera a soberba, a vaidade e, não raro, a concupiscência da carne e dos olhos e, destes, os pecados capitais, que nascem destas concupiscências, p. ex.: preguiça, gula, impureza, inveja, ira etc.

Então se verifica a enorme oposição entre o amor de Deus e o amor desordenado de si mesmo, pois o verdadeiro amor de Deus procura o beneplácito de Deus, quer agradar a Deus, enquanto o amor desordenado de si mesmo procura a satisfação pessoal, mesmo não subordinada a Deus.

O amor de Deus impele à generosidade, à tender verdadeira e praticamente à perfeição; o amor desordenado de si mesmo tende a evitar os incômodos, a abnegação, o trabalho, as fadigas. O amor de Deus é, cada vez mais, sem o interesse próprio desordenado, julga que nunca faz o suficiente por Deus e pelas almas; o amor desordenado de si mesmo pensa que sempre faz demasiado por Deus e pelo próximo. O verdadeiro amor de Deus quer não apenas receber, mas também dar glória e honra a Deus pelo zelo apostólico. O amor desordenado de si mesmo não quer dar, mas apenas receber; como se o homem fosse o centro do universo, tudo trazendo a si mesmo.

Finalmente, o amor desordenado de si mesmo tende a destruição do amor de Deus e do próximo na nossa alma, e atinge este fim quando conduz ao pecado mortal e, sobretudo, ao pecado mortal reiterado, assim mais e mais aumenta a aversão a Deus e a conversão ao bem comutável e ao mal amor de si mesmo: assim pode, cada vez mais, viciar todas nossas inclinações, como ocorre com os danados. Por exemplo, no demônio é viciada mesmo a inclinação natural de amar a Deus, autor da natureza, acima de tudo, pois, nos danados, nasce desta inclinação o desejo desordenado de fruir de Deus, não por amor a Deus, mas pela gula espiritual desenfreada, pois faltam todos os outros bens e todas as outras satisfações.

Esta oposição trágica entre o amor de Deus e o amor desordenado de si mesmo, é descrita por S. Agostinho pela oposição entre caridade e cupidez: no fim do livro 14 de A Cidade de Deus, cap. último, diz: «Dois amores fizeram duas cidades; o amor de Deus até o desprezo de si mesmo, fez a cidade de Deus e o amor de si mesmo até o desprezo de Deus, fez a cidade da Babilônia, ou da perdição.» S. Paulo dissera (1 Tm 6, 10): «A raiz de todos os males é a cupidez» ou o amor desordenado de si mesmo. Cf. S. Tomás, Suma Teológica Ia IIae, q. 77 e 84, sobre a tríplice raiz dos pecados capitais, pois da cupidez surge a soberba, a concupiscência da carne e a concupiscência dos olhos. Isto se verifica nos maus; e, de outro modo, nos justos imperfeitos 2. 



Do amor desordenado
de si mesmo surge:



soberba
ira
inveja
acedia
vaidade 
cegueira da mente, ao invés de uma fé viva

concupiscência dos olhos 
avareza 
desespero, ao invés de esperança

concupiscência da carne 
gula
luxúria 
discórdia, ao invés da caridade, e ódio a Deus.









Da graça surge:

As virtudes teológicas 
e os dons correlativos 
caridade
esperança
fé viva
ilustrada pelos dons

união com Deus, confiança, contemplação.

As virtudes morais
e os dons correlativos 
prudência cristã e o dom do conselho
justiça, religião, dom de piedade
fortaleza, generosidade
temperança, castidade, humildade.


Cf. nossa obra «Les trois âges de la vie intérieure», II, pág. 480.



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2o. Como o amor desordenado de si mesmo permanece de modo latente mesmo nos melhores católicos? 

S. Vicente de Paulo (como se lê na sua Vida, escrita por Domino Coste, I, 12; III, 300) narra um fato que lhe sucedeu quando estava no colégio: «Certo dia, disseram-me: "teu pai veio te ver" e, como meu pai era um pobre agricultor e um homem rude, não quis ir até ele para conversar; e antes, quando meu pai me conduzia à cidade, estava triste pela sua condição, e me envergonhava de meu pai».

O mesmo santo, falando do tempo posterior da fundação da sua Congregação, diz: «veio o filho do meu irmão me visitar no Colégio onde era superior e eu, considerando a situação muito modesta do meu sobrinho, que se vestia rudemente, ordenei que me fosse ele conduzido secretamente. Mas, imediatamente, mudei minha deliberação com a resolução de reparar este primeiro movimento de amor próprio, desci até o portão, e abracei meu sobrinho e, conduzindo-o pela mão pela sala comum onde estavam meus confrades, disse a eles: ´Eis a pessoa mais honorável de minha família´». Assim, S. Vicente de Paulo vencia seu amor próprio, e ainda temia que, nessa vitória, o amor próprio se escondesse sutilmente.

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3o. Perigo que nasce das evasões e subterfúgios usados pelo amor próprio.

Por exemplo, a oração mental se vicia pelo excessivo desejo de consolações sensíveis, pela gula espiritual, pelo sentimentalismo. O sentimentalismo é, na sensibilidade, uma afetação de amor de Deus e do próximo que não existe suficientemente na vontade espiritual. Então, a alma procura a si mesma mais que a Deus. Donde, para tirar a alma desta imperfeição, Deus purifica a alma pela aridez da sensibilidade.

Se, verdadeiramente, a alma nesta aridez não é suficientemente generosa, cai na preguiça espiritual, na tepidez e não mais tende suficientemente à perfeição.

Igualmente, pelo amor desordenado de si mesmo se vicia o labor intelectual ou apostólico, pois nele buscamos satisfação pessoal, buscamos o louvor, mais do que Deus ou a salvação das almas. Assim, o pregador pode tornar-se estéril «como um bronze que soa ou um címbalo que tine». A alma se retarda, não é mais iniciante, não avança ao estado dos aproveitados, permanece uma alma retardada, como um menino que, por não crescer, não permanece menino, nem se faz adolescente ou um adulto normal, mas um homúnculo deforme. Ocorre algo similar na ordem espiritual e isto provém do amor próprio desordenado, do qual nasce a esterilidade da vida. 3

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4o. Que se deve fazer contra este amor desordenado?

Temos de conhecer e lutar contra nosso defeito dominante para obter a vitória. O defeito dominante é como que uma caricatura da boa inclinação que deveria prevalecer, é como que o «outro lado da moeda». Daí surge o combate entre a boa e a má inclinação. A virtude e o vício oposto não podem existir simultaneamente em ato no mesmo sujeito, mas podem existir simultaneamente em potência; daí surge o combate em que prevalecerá ou a boa inclinação natural, sob a forma da virtude em ato, ou o defeito dominante, sob a forma do vício em ato.

Assim, o defeito dominante inicial é aquilo pelo qual alguma virtude degenera em um vício materialmente similar, mas formalmente contrário, por exemplo, a inclinação à humildade degenera em pusilanimidade, a inclinação à magnanimidade em soberba e ambição, a inclinação à fortaleza em amarga ironia e crueldade, inclinação à justiça em rigorismo, inclinação à mansidão e à misericórdia em debilidade. Isto compreende-se melhor quando se considera, por exemplo, que a humildade se opõe mais diretamente à soberba que a pusilanimidade, que, no entanto, também lhe é contrária, assim como a magnanimidade mais diretamente se opõe à pusilanimidade que à soberba. E estas duas virtudes são conexas, como dois arcos da mesma ogiva.

Portanto, é necessário ver sob qual forma este amor próprio prevalece em nós, isto é, se sob a forma de soberba, ou de vaidade ou de preguiça, ou de sensualidade, ou de gula, ou de ira. Em outras palavras, é preciso saber qual é nosso defeito dominante, que se manifesta nos nossos pecados mais freqüentes e que oferece alimento a nossa fantasia.

Em alguns a soberba, por exemplo, vence a irascibilidade para conservar a estima dos homens; em outros, a soberba é vencida pela preguiça e não cuida mais da estima alheia.

Deve-se vigiar, portanto, para refrear o defeito dominante e isto com tenacidade e perseverança para adquirir o domínio de si mesmo, não pela estima dos outros, mas por Deus. Isto é sempre possível no nosso caminho, ainda que seja sempre árduo. Deus não pede o impossível, mas nos adverte a fazer tudo que podemos e pedir tudo que não podemos, e nos ajuda para que consigamos. 4

Outros homens não tem um defeito manifestamente dominante, mas o seu amor próprio se manifesta de diversos modos.

O amor próprio deve ser combatido de diversos modos, eliminando-se o que o pode alimentar e agindo mais e mais por amor de Deus, para que o agrademos, primeiro nas coisas externas e obrigatórias e fáceis de se cumprir com espírito de fé; depois nas coisas interiores e difíceis, de modo que, paulatinamente, as três virtudes teológicas prevaleçam em nossa vida, com seus correlativos dons.

Nesta metódica luta, três coisas se exigem: pureza de intenção, abnegação progressiva, recolhimento habitual.

1. A pureza de intenção é de suma importância. Diz o Salvador [Lc 11, 34]: «O teu olho é a lucerna do teu corpo. Se o teu olho for puro, todo o teu corpo terá luz; se porém, for mau, também o teu corpo será tenebroso». S. Tomás comenta: «O olho significa a intenção. Ora, quem quer fazer algo, tem alguma intenção. Se tua intenção for luminosa, isto é, dirigida a Deus, todo teu corpo, ou seja, suas operações, serão luminosas». Isto se vê em todo bom católico e em todo bom prelado que guia bem o seu rebanho.

Esta pureza de intenção deve ser mantida primeiro nas coisas mais fáceis e ordinárias. S. Bento formava seus religiosos, que não costumavam ser de grande cultura, dizendo-lhes: «fazei com intenção pura, em espírito de fé, esperança e amor de Deus, para agradar a Deus, todos os atos determinados na regra»; e os religiosos, conversos, fazendo com este espírito e com esta pureza de intenção os atos externos da vida religiosa, atingiam grande perfeição, união com Deus, uma grande santidade e uma perfeita vitória sobre o amor próprio desordenado; assim, faziam um grande bem ao próximo. Como se lê no Evangelho (Lc 16, 10): «O que é fiel no pouco, também é fiel no muito», e será mesmo no martírio. S. Agostinho também diz: «o mínimo é, em si mesmo, mínimo; mas ser sempre fiel, até nas coisas mínimas, isto é o máximo».

2. Deve-se manter uma abnegação progressiva, externa e interna, segundo aquilo: «Aquele que quer seguir-me, negue-se a si mesmo». Há de se praticar sempre que a ocasião se apresente, para que o amor de Deus e do próximo prevaleça sobre nosso desordenado amor próprio. Isto, que é necessário aos simples fiéis que aspirem à perfeição da caridade, expressa no primeiro preceito «amarás ao Senhor teu Deus com todo teu coração», segundo a condição de cada um, é ainda mais necessário ao sacerdote, sobretudo se tem almas sob seu cuidado.

3. O recolhimento habitual é necessário para conservar a união com Deus, não somente durante a celebração da Missa, confissões ou pregação da palavra divina, mas constantemente.

(extrato de «De unione sacerdotis cum Christo Sacerdote et victima»)

1.Cf. escreveu um missionário de S. Vicente de Paulo, chamado Paolo Provera, no livro Diamoci a Dio, Torino, 1945, p. 89: «Il nemico più terribile. Si deve dare un buon colpo di bistori al nostro amore proprio.»
2.Freqüentemente, os homens agem prontamente e com grande energia para a satisfação da própria cupidez, soberba, vaidade; e lenta, tarda e indolentemente, com preguiça, à obrigação incômoda, ainda que seja uma grave responsabilidade para com Deus ou o próximo. Com efeito, grande é o poder do amor próprio desordenado, e se não laborarmos para a sua destruição, ele destruirá em nós o amor de Deus e do próximo.
3.Cf. Mt 21, 19, sobre a figueira seca «Vendo uma figueira junto do caminho, aproximou-se dela, e não encontrou nela senão folhas, e disse-lhe: Nunca mais nasça fruto de ti. E, imediatamente, secou a figueira». S. Tomás comenta: «Cristo visitou a Judéia. Esta tinha folhas, ou seja, a observância da lei, mas não tinha fruto. Do mesmo modo, algumas pessoas tem aspecto de honestidade, no entanto são más e perversas no interior... E veio a maldição para que Cristo mostrasse que a Judéia seria estéril no futuro, assim como se lê em Rm 9. Assim, por vez ocorre que a algumas pessoas, más no coração, virtuosas no exterior, o Senhor as faz secas, para que não corrompam os demais» [In Matth. XXI, 19]. E isto, Deus faz por amor às almas, para sua salvação.
4.Cf. S. Agostinho (De natura et gratia, c. 43, n. 50), citado pelo Concílio de Trento (Denz. 804).