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Livro do Padre Jean Nicolas Grou, S.J.: Retiro Espiritual

LivroGraças ao André F. Garcia, advogado, leitor de nosso blog e também um apaixonado pelos escritos do Padre Grou, podemos disponibilizar o livro publicado pela Editora Vozes em 1944:


Retiro Espiritual
Sobre as
Qualidades e Deveres do Cristão

Traduzido do Francês por
Maria Anna Nabuco
Baixe o livro AQUI.

Obrigado, Sr. André F. Garcia!
LAVS DEO!

O interior de Maria, Jean Nicolas Grou, S.J.

"Maria conservava todas estas palavras no Seu coração.”
(S. Lucas, cap. II)
Para bem julgar o interior de Maria, vejamos o que Deus fez por Ela e o que Ela fez por Deus. O Senhor, tendo-A predestinado para Mãe de Jesus Cristo;

1º) preservou-A do pecado original;
2º) enriqueceu-A com as maiores graças desde o momento da Sua Conceição;
3º) conferiu-Lhe muito cedo, e talvez desde o seio materno, o uso da razão;
4º) elevou-A á maternidade divina, deu-Lhe parte especial e única na Cruz e depois na glória do Seu Filho.

Maria correspondeu a essas graças de Deus:

1º) Vivendo com tão grande resguardo e tão contínua vigilância como se tivesse algo a recear da concupiscência e de suas conseqüências. Que atenção e cautela não devemos ter, nós que tantas vezes experimentamos os efeitos funestos da concupiscência!

2º) Aplicando-Se a seguir todos os impulsos e ditames da graça com tanta fidelidade, que jamais cometeu o mais leve pecado; mereceu em todos os instantes da Sua vida novo aumento de graça; nunca fez um só ato interior, uma única ação exterior cujo fim não fosse a mais estreita união com Deus.

Que modelo para a alma completamente entregue a Deus!

3º) Fazendo constantemente o mais perfeito uso da razão. E em que consistiu tal uso? Em constantemente submeter Maria a Sua razão ás luzes da fé; em trazê-la sempre sacrificada á razão suprema que é Deus; em nunca haver consentido num só raciocínio sobre os desígnios de Deus e o procedimento d'Este a Seu respeito, conquanto esse procedimento fosse cheio de mistérios e aparentes contradições.

Jamais avançaremos na vida interior, se não fizermos igual uso da nossa razão. Deus conduz as almas por caminhos opostos a todas as vistas humanas; compraz-se em destruir todos os nossos juízos, transtornar todas as nossas previsões, frustrar as nossas espectativas....

4º) Dispondo-se, sem o saber, á maternidade divina, pelo que devia humanamente privá-la para sempre dessa honra. Todas as filhas de Judá anhelavam o matrimônio, afim de contar o Messias em sua posteridade. Para elas era opróbrio a esterilidade; Maria julga-se indigna de pretender á qualidade de Mãe de Deus.

Desde a mais tenra idade, apresenta-Se ao templo para consagrar a Deus a Sua virgindade e, segundo as idéias de Sua nação, renuncia para sempre á mais alta pretensão das pessoas do Seu sexo e da Sua tribo.

Não é aspirando a grandes coisas, concebendo projetos grandiosos, tomando resoluções sublimes que alcançamos a santidade e nos dispomos aos desígnios de Deus, bem diferentes dos nossos; é humilhando-nos, abismando-nos na nossa baixeza e no nosso nada, reconhecendo-nos indignos de toda graça, temendo todo desejo de elevação e rejeitando-o como sugestão do espírito do orgulho.

Na Cruz de Jesus Cristo Maria teve tão grande parte que desde o nascimento até a morte do Seu Filho, n'Ela repercurtiu-se tudo quanto sofreu Ele, não só da parte dos homens, como da parte de Deus. Para termos idéia disso, basta considerarmos que Maria tinha por Seu Filho o maior amor de que seja capaz uma criatura: amava-O incomparavelmente mais do que a Si mesma...

Não vivia em Si mesma, mas no Seu Filho; todos os sentimentos de Jesus comunicavam-se ao coração de Sua Mãe com toda a força e na extensão ao alcance de uma simples criatura.

Elevemos-nos á meditação do que se passava na alma de Jesus Cristo, relativamente á glória do Seu Pai, ultrajada pelos homens, á santidade desonrada pelo pecado, á Sua justiça de que Ele era a vítima e a tantos milhões de almas, para as quais o Seu sangue seria inútil e até funesto em razão do abuso que dele fariam. E digamos afoitamente que a alma de Maria, guardadas as proporções experimentou as mesmas impressões.

Jesus Cristo sacrificou-Se na Cruz entregando-Se a todo o rigor da justiça divina. Maria sacrificou-Se também e mais do que a Si mesma, sacrificando Jesus Cristo e consentindo na realização dos desígnios de Deus, sobre a Redenção do gênero humano: os maiores sacrifícios da vida interior são incomparavelmente inferiores ao Seu, tanto pela extensão, como pela intensidade e pela incompreensível dor do Seu coração.

Quando tivermos passado pelas últimas provações, se Deus nos conceder tal graça, teremos pálida idéia do que sofreu Maria. Mas a maior parte dos cristãos só vê na Paixão de Jesus Cristo os tormentos do corpo e em Maria a Sua compaixão pelos sofrimentos do Filho.

O interior de Maria foi a cópia, mas a cópia mais fiél do interior de Jesus Cristo. Como Jesus Se imolou constantemente ao Pai, durante todo o curso da Sua vida, também Maria imolou continuamente a Jesus o Seu coração e imolou-Se com Ele ao Pai Celestial...

Como Jesus amou os homens, até lhes dar não só a vida do corpo, mas até a vida da alma. Maria amou os homens até lhes dar em Jesus Cristo o que lhe era mais caro do que a Sua própria vida e a Sua alma.

Que direi agora da oração de Maria?
Quem poderá dignamente descrevê-la?

Jesus foi o único objeto do Seu amor: desde a Ressurreição, só corporalmente permaneceu Ela sobre a Terra; Sua alma seguiu Jesus por assim dizer, até ao Céu. Não fez senão consumir-Se de amores pelo Filho e suspirar por Ele com inexprimível veemência, inefável enlevo. A sua única distração, se assim póde chamar-se, foi interessar-se pelo progresso da Igreja nascente e orar em prol da mesma.

Com sentimentos tão elevados quem era, quanto ao exterior, como pessoa, a SS. Virgem?

Uma mulher do povo, paupérrima, que vivia do Seu trabalho manual, durante trinta anos dedicada ao governo de uma pequena casa em Nazareth, mais tarde confiada a São João que com Ela repartia as espórtulas dos fiéis.

Que nome grangeou no mundo? Por que grandes feitos salientou-se aos olhos dos homens? Por ventura pôs-Se em evidência e contribuiu exteriormente, visivelmente, para a propagação do Evangelho? Era, entretanto, a Mãe de Deus, a mais santa e a mais pura das criaturas; foi quem teve a parte mais importante na Redenção da humanidade, e no estabelecimento da Religião cristã.

Quão diversas das nossas são as idéias de Deus!
Quão diferentes dos nossos os caminhos por Ele tomados para alcançar os Seus fins!
Como a obscuridade, o retraimento, o retiro, a solidão, a prece em silêncio Lhe agradam e mil vezes maiores são aos Seus olhos do que toda sorte de ações brilhantes!

Ah! como é ser tudo diante do Senhor - ser nada, nada pretender, aspirar apenas a viver ignorado, esquecido, desprezado, reputado o que há de mais vil e abjeto!

Se a vida da Santíssima Virgem não nos ensina esta verdade, se não provoca o nosso amor, abafando em nós todo desejo de sermos alguma coisa, se não convence da necessidade de perdermo-nos por completo, em nós mesmos, afim de nos encontrarmos de novo em Deus, que exemplo mais sensível, que lição mais poderosa será capaz de persuadir-nos?

Jesus e Maria demonstram a todo cristão que Deus só tira verdadeira glória neste mundo do nosso aniquilamento; provam ainda que quanto maior houver sido o nosso aniquilamento na Terra, tanto mais felizes, enaltecidos, poderosos seremos no Céu.

Qual é, pois a sólida devoção á SS. Virgem?

Tomarmos o Seu interior para modelo do nosso: procurarmos imitá-lA no baixo conceito que de Si mesma fazia; no amor á obscuridade, ao silêncio, ao retraimento; na atração que sentia pelas pequenas coisas; na fidelidade á graça; na simplicidade do recolhimento e da oração, cujo único objeto foi Deus e a Sua vontade, Jesus Cristo e o Seu amor; no sacrifício contínuo de si mesma e do que amava e devia amar mais do que a Si mesma.

Peçamos-Lhe quotidianamente que nos sirva de guia e modelo na vida interior, que nos obtenha as graças necessárias para correspondermos aos desígnios de Deus sobre nós. Esses desígnios são indubitavelmente desígnios de morte e destruição.

(Excertos do livro: Manual das almas interiores, do Pe. Grou)

Do mundo, Jean Nicolas Grou, S.J.


Que é o mundo? E que deve ele ser para o cristão? Duas questões bem interessantes para todos quantos desejam pertencer inteiramente a Deus e assegurar a salvação.

Que é o mundo? É o inimigo de Jesus Cristo, o inimigo do Evangelho. É esse conjunto de pessoas que, presas às coisas sensíveis, fazendo consistir nelas a felicidade, têm horror aos sofrimentos, à pobreza, as humilhações e consideram estas e aqueles, como verdadeiros males de que cumpre fugir e contra os quais de deve estar garantido, custe o que custar; que, em contraposição ligam o maior apreço aos prazeres, as riquezas e as honrarias; reputam umas e outras, verdadeiros bens; os desejam e buscam portanto, com ardor extremo e sem escolherem os meios; os disputam, invejam e arrebatam uns e outros; só se estima ou desprezam-se mutuamente, na medida em que os possuem; em suma, fundam na aquisição e no gozo desses bens todos os seus princípios toda a sua moral, todo o plano de sua conduta.

O espírito do mundo é, pois, evidentemente oposto ao espírito de Jesus Cristo e do Evangelho. Jesus Cristo, na oração por Seuseleitos, declara não orar pelo mundo; anuncia, aos Apóstolos e, nas pessoas destes, a todos os cristãos, que o mundo os há de odiar e perseguir, como a Ele próprio odiou e perseguiu. Quer que a seu turno façam eles contínua guerra ao mundo.

Nos primeiros séculos da Igreja, quando quase todos os cristãos eram santos e a parte restante da humanidade achava-se abismada na idolatria, fácil tornava-se discernir o mundo, conhecer a gente que se podia freqüentar e a que se devia evitar.

O mundo, então desencadeado contra Jesus Cristo, distinguia-se por sinais inequívocos. Depois que nações inteiras abraçaram o Evangelhoe o relaxamento se introduziu entre os cristãos, formou-se pouco a pouco no meio deles um mundo no qual reinam todos os vícios da idolatria, um mundo ávido de honras, prazeres e riquezas, um mundo cujas máximas combatem diretamente as máximas de Jesus Cristo.

Mas, como esse mundo professa exteriormente o cristianismo, hoje é mais difícil discerni-lo. A sua freqüentação também se tornou mais perigosa porque ele disfarça sua má doutrina com mais habilidade, propaga-a com mais tento, emprega toda a sua sutilezapara conciliá-la com a doutrina cristã e, nesse intuito, enfraquece,suaviza tanto quanto pode o santo rigor do Evangelho escondendo cuidadosamente, por outro lado, todo o veneno da sua moral.

Daí um perigo de sedução tanto maior porquanto não se percebe e contra ele não se está em guarda; daí certo espírito de transigência e adaptação, pelo qual procura-se conciliar a severidade cristã com as máximas do século sobre a ambição, a cobiça, o gozo dos prazeres; acordo impossível, condescendências ou atenuações que tendem a lisonjear a natureza, alterar a santidade cristã e formar consciências falsas. É incrível a que ponto chega o desconcerto, mesmo entre pessoas que se prezam de ser piedosas e devotas: desvario num sentido mais difícil de reprimir do que o resultante de uma conduta abertamente mundana e criminosa, porque não querem reconhecê-lo e a seu respeito se iludem.

Se quisermos viver nesta terra sem participar da corrupção do século, só temos um partido a tomar, o de rompermos absolutamente com o mundo pelo coração e entrarmos a sentir com São Paulo, quando exclamava: O mundo está crucificado para mim, e eu estou crucificado para o mundo.

Oh! que belas palavras, e quão profundo o sentido que encerram!
A cruz era outrora o suplício mais infame, o suplício dos escravos.

Dizendo o Apóstolo que o mundo está crucificado para ele, é como dissesse: Tenho pelo mundo o mesmo desprezo, a mesma aversão, o mesmo horror que por um vil escravo crucificado pelos seus crimes: não posso suportar-lhe a vista, ele é para mim objeto de maldição, com o qual toda ligação em todo trato e toda relação me são interditos.

Nada de exagerado tem, ao invés, apenas justo e legítimo é esse sentimento de São Paulo, que deve ser o de todo cristão e a razão é evidente: o mundo crucificou Jesus Cristo, depois de havê-lOcaluniado, insultado, ultrajado; crucifica-O ainda todos os dias: é, pois, justo que o mundo, por sua vez, esteja crucificado para o discípulo de Jesus Cristo; é justo ter o discípulo horror ao inimigo capital do Mestre, do seu Salvador, do seu Deus. Assim a renúncia ao mundo é uma das promessas mais solenes do batismo, uma condição essencial, sem a qual a Igreja não nos teria admitido entre seus filhos.

Pensamos nessa promessa?
Pensamos nas obrigações que ela acarreta?
Examinamos até onde deve chegar a nossa renúncia?

A renúncia do cristão a respeito do mundo deve ir tão longe quanto a renúncia do mundo a respeito de Jesus Cristo.

Esta regra é clara e em face da sua precisão fora impossível nos enganarmos. Só nos resta aplicá-la em toda a extensão. O mundo tem o seu evangelho: só temos que tomá-lo numa das mãos e o Evangelho de Jesus Cristo na outra; só temos que comparar, sobre os mesmos objetos, a doutrina e os exemplos de um e de outro,  só temos que opor Jesus Cristo na Cruz, no sofrimento, no opróbrio e na nudez, ao mundo cercado e embriagado de honras, riquezas e prazeres, e dizer a nós mesmos: A quem desejo pertencer?

Eis aí dois inimigos irreconciliáveis, fazendo-se reciprocamente a guerra mais cruel. A favor de qual deles desejo declarar-me? É me impossível ficar neutro, ou tomar o partido de ambos. Se escolho Jesus Cristo e a Sua Cruz, o mundo me reprova; se me prendo ao mundo e às suas pompas, Jesus Cristo me rejeita e condena: poderei hesitar? É cristão aquele que hesita sequer um instante?

Mas, se uma vez nos alistamos sob o estandarte da Cruz, não é evidente que desde esse momento o mundo se torna inimigo com o qual não há mais a fazer pazes nem lhe dar tréguas?

Como isso vai longe, ainda uma vez! e como os cristãos seriam santos se da grandeza de seus compromissos bem se compenetrassem.

Não basta estar o mundo crucificado para nós, é preciso que consintamos estar também crucificados para o mundo, isto é, que o mundo nos crucifique como crucificou a Jesus Cristo; nos guerreie do mesmo modo que guerreou a Jesus Cristo; nos persiga, calunie e ultraje com igual furor; nos arrebate, finalmente, os bens, a honra, a própria vida.

É mister não só consentirmos em todos esses sacrifícios de preferência a renunciarmos à santidade cristã, mas também fazer disso motivo de alegria e triunfo. O discípulo deve gloriar-se de ser tratado como o Mestre: Se eles me perseguiram, dizia Jesus Cristo a Seus Apóstolos, também vos perseguirão: é coisa infalível. O mundo não seria o que é, ou os cristãos não seriam o que devem ser, se escapassem à perseguição do mundo.

Procuramos muitas vezes certificar-nos do nosso estado; quiséramos saber se somos agradáveis a Deus, se Jesus Cristo nos reconhece como pertencentes a Ele. Eis um meio bem próprio para esclarecer-nos e dissipar todas as nossas inquietações: indaguemos se o mundo nos estima e considera, se fala bem de nós e nos procura. Neste caso não pertencermos a Jesus Cristo. Pelo contrário, se ele nos censura e ridiculariza, se nos calunia foge de nós, nos despreza e odeia, oh! que grande motivo de consolação, oh! que poderosa razão para crermos que pertencemos a Jesus Cristo!

Vejamos, pois, seriamente diante de Deus, o que o mundo é para nós e o que somos para o mundo. Sondemos as nossas disposições interiores, estudemos os sentimentos mais profundos do nosso coração: acharemos por certo, motivo para nossa confusão e humilhação; verificaremos haverem as máximas do mundo deixado profundos vestígios em nosso espírito e que em muitas circunstânciasdelicadas os nossos juízo se aproximam ainda dos seus; verificaremos que somos ciosos de sua estima e temeremos seusdesprezos; que gostamos de cultivar e entreter certas relações e veríamos com desprazer os outros afastarem-se de nós; que temos, em várias ocasiões, condescendências, atenções, respeitos humanos que nos incomodam peiam e conservam numa espécie de constrangimento e dissimulação. Veremos, numa palavra, que não somos bem claramente a favor de Jesus Cristo e contra o mundo.

Mas não desanimemos: triunfar plenamente do mundo, afrontá-lo, desprezá-lo, achar bom que por sua vez ele nos afronte e despreze,não é obra de um momento. Exerçamo-nos nas pequenas ocasiões que se apresentam: se Deus nos ama, jamais deixará de no-lasproporcionar e pelas pequenas vitórias reparemo-nos aos grandes combates. Lembremo-nos, sendo preciso, das palavras de Jesus Cristo: Tende confiança, eu venci o mundo. Supliquemo-Lhe que nos ajude a vencer, ou antes, que Ele mesmo vença em nós o mundo e destrua em nossos corações o reino deste para aí estabelecer o Seu.

(Manual das almas interiores, do Pe. Grou - Companhia de Jesus, edição de 1932)

Do Crucifixo, Nicolas Grou, S.J.

Oh! invenção admirável do amor divino!
Para São Paulo à ciência do crucifixo reduzia-se toda a religião. Geralmente o Crucifixo é o compêndio de tudo quanto o cristão deve crer e praticar. O Crucifixo faz-nos conhecer toda a malícia do pecado, o excesso da nossa miséria e o excesso ainda maior da misericórdia divina.

O Crucifixo é a maior prova que Deus, embora sendo Deus, podia dar-nos do Seu amor e o meio eficaz que podia empregar para ganhar o nosso coração. Todas as virtudes acham-se contidas no Crucifixo: ele é a consumação dos caminhos interiores.

Direi uma palavra sobre cada um destes conceitos. A graça dirá muito mais ás almas dedicadas ou desejosas de se voltarem ao amor.

Crucifixo é o compêndio de tudo quanto o cristãos deve crer. A pessoa Daquele que sofre, Filho único de Deus e concebido no seio de Maria por obra do Espírito Santo, nos propõe os dois grandes mistérios da Santíssima Trindade e da Incarnação. O objeto dos Seus sofrimentos nos instrui sobre o mistérios da Redenção e do pecado original.

O mistério da predestinação, o da graça, a vontade de Deus de salvar todos os homens encerram-se também na Cruz. Esta é a fonte de todos os Sacramentos, como me seria fácil mostrar minuciosamente; e todo o culto com que a Igreja honra a Deus reporta-se ao sacrifício da Cruz.

O Crucifixo é o compêndio de tudo quanto o cristão deve praticar. Toda a moral evangélica reduz-se a carregar cada um a sua cruz, renunciar a si mesmo, crucificar a carne e a cobiça, imolar-se á vontade de Deus. Jesus Cristo não prescreveu lei alguma nem deu conselho cujo cumprimento e perfeito modelo não se encontrem na Cruz. Ela é a mais viva e notável expressão de toda a doutrina evangélica.

O Crucifixo nos faz conhecer toda a malícia do pecado. Na verdade, não pode haver maior mal do que aquele que causou a morte de um Deus-Homem!

Antes de Jesus Cristo podia-se fazer alguma idéia da ofensa a Deus, porém, essa idéia era bem fraca e imperfeita. O suplício eterno do inferno, embora exceda a toda inteligência criada, não corresponde á malícia do pecado, porque pode castigar este, mas não basta para expiá-lo. Nada menos do que uma pessoa divina era necessária para reparar dignamente, por seus sofrimentos e humilhações, a injuria feita a Deus pelo pecado. Ao pé da Cruz é que aprendemos a julgar do pecado e a conhecer todo o horror que merece.

O Crucifixo ainda nos faz conhecer o excesso da nossa miséria, excesso tal, que não nos é possível remediá-lo por nossas próprias forças. Todo o gênero humano estava perdido irremediavelmente, perdido para a eternidade, para sempre privado da posse do soberano bem, se Jesus Cristo, sofrendo e morrendo na Cruz, não o houvesse resgatado, reconciliado com Deus, e restabelecido nos Seus direitos. Para isso bastava o pecado original, mas a esse pecado quantos pecados atuais mais graves não acrescentamos nós! Em que abismo de miséria não nos lançamos voluntariamente?

O Crucifixo faz-nos conhecer o abismo ainda maior da misericórdia divina. Um abismo atraiu outro abismo; o abismo dos nossos males foi absorvido e mergulhado no abismo infinito da misericórdia.

Oh! quanta razão tinha David em dizer que as misericórdias de Deus estão acima de todas as suas obras! Tudo quanto Deus fez na ordem da natureza nada é em comparação do que fez na ordem da graça. A bondade do Todo-Poderoso excedeu a si mesma, resgatando-nos.Nunca, nem mesmo no Céu, o nosso entendimento há de atingir a grandeza incompreendível desse benefício que a fé nos mostra no Crucifixo.

Deus, embora seja Deus, não nos poderia dar maior prova do Seu amor.

Qualquer prova por Ele dada devia ser consentânea aos direitos da sua justiça, aos quais não podia renunciar. Era mister fosse essa justiça aplacada. Mas por quem? Quem a poderia satisfazer, vingar e ao mesmo tempo poupar os culpados?

Oh! invenção admirável do amor divino! Deus transfere para o Seu próprio Filho todas as nossas iniquidades; n'Ele as castiga, vinga-se n'Ele e esse Filho adorável consente de todo o coração em ser por nossa causa a vítima da cólera divina! Que amor ao Pai! que amor no Filho! Quem pode pensar em tal arrebatamento de admiração e profunda gratidão?

Se Deus nos tivesse facultado propôr-lhe algum remédio para os nossos males, teríamos imaginado e escolhido por Ele? Se acaso este nos acudisse á mente, teríamos ousado propô-Lo? Semelhante meio de salvação só poderia ser concebido no coração de um Deus que nos ama infinitamente.

Se o nosso coração pode resistir a tanto amor, que dureza, que malícia, que ingratidão!

Deus imola o Seu próprio Filho, para retirar-nos do inferno e abrir-nos o paraíso; descarrega sobre Ele a Sua cólera e nos perdoa; nesse Filho nos adota por Seus filhos; confere-nos direito á Sua herança e nos prodigaliza todos os socorros sobrenaturais para a conseguirmos. E que nos pede Ele? Que O amemos, sirvamos e Lhe obedeçamos.

E nós não O amamos! E consideramos o Seu serviço como jugo insuportável!E violamos os Seus mandamentos!

Todos os crimes, todos os escândalos reinam hoje no cristianismo, com tanta e maior licença que entre os pagãos! A irreligião chegou a tal ponto que Jesus Cristo e a Sua Cruz tornam-se objeto de desprezo, zombaria e horror. A incompreensibilidade desse mistério de amor é exatamente a razão pela qual é rejeitado.

Poder-se-á conceber tal excesso de impiedade? Compreender-se-á até que ponto o amor desprezado, insultado e ultrajado deve estar irritado contra tantos cristãos apóstatas, secretos ou declarados!

Ah! que motivo para as almas boas amarem a Deus de todo o coração e O desagravarem, com sua dedicação, de tantos ultrajes! De que virtudes o Crucifixo não nos oferece modelo?

Amor de Deus, confiança em Deus, abandono ás suas vontades mais rigorosas, paciência inalterável, caridade para com o próximo, perdão das injúrias, amor dos inimigos, humildade, pobreza, abnegação inteira de Si mesmo; virtudes levadas ao cúmulo da perfeição, exercidas nas circunstâncias mais difíceis, praticadas com generosidade e coragem dignas de um Homem-Deus.

Depois disto, queixa-nos de que a virtude nos custa; disputamos a Deus bagatelas, censuramo-Lo por nos exigir demais. Um olhar para o Crucifixo fará nos envergonharmos das nossas queixas e da nossa covardia.

Temos sofrido e sofreremos em prol da nossa salvação algo que se aproxime, sequer de longe, dos sofrimentos e humilhações de Jesus Cristo? Ele era Deus - dirá alguém - e eu sou apenas uma fraca criatura. Ele era Deus, é verdade, por isso sofreu tudo quanto poderia sofrer a natureza humana unida á divina.

Se a união hipostática comunicava á Humanidade santa uma força infinita, proporcionados a esta foram os sofrimentos e, sem a poupar, a justiça de Deus carregou-a com todo o peso que ela podia suportar. É princípio de fé que Deus jamais permite sermos provados além das nossas forças.

Por mais fracos que sejamos, poderemos sempre suportar as provas que Ele nos envia, pois a medida do socorro iguala e mesmo excede sempre a dos males. Sem razão alegamos a nossa fraqueza e pensamos que para nós não sirva o exemplo do Salvador.

Finalmente, o Crucifixo é a consumação dos caminhos interiores. Mostra-nos Jesus Cristo sacerdote e vítima. Jesus imolando-Se Ele próprio á glória do Pai, imolando-Se voluntariamente e dedicando-Se á Sua justiça.

Poucas almas amadas por Deus são chamadas a esse estado de vítima e de semelhança expressa com Jesus crucificado. Mas as que têm motivo para se julgarem destinadas a essa honra devem compartilhar os sofrimentos e humilhações do Salvador; devem plantar no coração a Sua Cruz, ou antes, devem deixar que Ele mesmo a plante e enterre. Jesus submisso e obediente até á morte, deve ser o seu modelo, a sua consolação e força.

Se ás vezes as suas penas lhes parecem excessivas, se lhes faltar coragem; se forem tentadas a cusar Deus de injusto rigor, detenham os olhares no Crucifixo. Jesus na Cruz responderá a tudo e sairão de perto d'Ele com o desejo de sofrerem ainda mais.

Seja o Crucifixo o nosso grande livro, seja o livro não somente dos nossos olhos, mas do nosso coração.

Peçamos a Jesus que nos ensine a ler nesse livro e que nos descubra todos os Seus segredos, não para que apenas na oração os contemplemos, senão para os praticarmos durante toda a nossa vida. Entremos no caminho interior por uma dedicação absoluta, sem reserva, á vontade de Deus; entreguemo-nos inteiramente ao Seu espírito e á Sua graça. Façamos de todo o coração, no momento dado, todos os sacrifícios por Ele exigidos de nós; peçamos-Lhe que tome e arranque á força o que não teríamos coragem de dar-Lhe.

Em uma palavra, deixemo-nos reduzir ao estado de Jesus Cristo expirando na Cruz, nas dores, nos opróbrios, no aparente abandono do Pai, reunindo na Sua alma e no Seu corpo todos os males de uma vítima da justiça divina e do furor das paixões humanas.

(Excertos do livro: Manual das almas interiores - Pe. Grou - Companhia de Jesus)

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Amigos, estou a mais de anos atrás deste sacerdote jesuíta do séc. XVIII. Existem livros dele em português em alguns sebos, mas não tenho como comprá-los. Quem quiser me fazer esta doação, me avise, por favor.

Do aniquilamento

Publicado neste link.
O meu ser está diante de Vós
como o que não é.
(David)

Quando nos falam de renunciarmos a nós mesmos, de aniquilar-nos; quando nos dizem ser esse o fundo da moral cristã, consistir nisso a adoração em espírito e verdade, tal palavra nos parece dura e até injusta: não queremos ouvi-la e repelimos quem no-lo prega da parte de Deus.

Convençamo-nos, uma vez por todas, de que esse preceito nada de injusto encerra e na prática é mais suave do que pensamos. Em seguida, humilhemo-nos se nos faltar coragem para pô-lo em prática e, ao invés de condená-lo condenemos a nós mesmos.

Que nos pede o Senhor, ordenando que nos aniquilemos? Pede fazermos justiça a nós mesmos, colocarmo-nos em nosso lugar e reconhecermo-nos tais quais somos.

Quando mesmo tivessemos nascido e vivido sempre na inocência, quando jamais houvéssemos perdido a graça original, outra coisa não seríamos, por nós mesmos, senão nada; não poderíamos consider-nos de outro modo sem nos desconhecermos e injustos seríamos pretendendo que diversamente Deus ou os homens nos tratassem.

Que se pode dever ao que nada é? Que pode exigir o que nada é? Se a sua própria existência é uma graça, também e com razão maior é tudo quanto tem. Há, portanto, injustiça formal da nossa parte em recusarmos ser tratados e tratar-nos a nós mesmos como verdadeiros nadas.

Diz-se nada custar e ser justa essa confissão em relação a Deus; mas que assim não é a respeito dos homens, porquanto estes, nada sendo, como nós, não têm título algum para obrigar-nos a tal confissão e ás suas conseqüências. A confissão nada custa em relação a Deus, se nos limitamos a fazê-la de boca; porém, quando faz-se mister procedermos de acordo com ela, deixarmos que Ele se arrogue e exerça sobre nós todos os direitos que Lhe pertencem, consentirmos em que disponha ao Seu talante de nosso coração, de todo o nosso coração, de todo o nosso ser, custa-nos infinitamente e com grande dificuldade não chamamos ser injustiça.

Ele, todavia, poupa a nossa fraqueza, não usa dos Seus direitos com todo o rigor, jamais nos expõe a certas provas aniquiladoras, sem ter obtido o nosso consentimento.

Qauanto aos homens, concordo não terem por si mesmos domínio algum sobre nós e que injusto é da sua parte qualquer dsprezo, humilhação ou ultraje. Mas nem por isso temos direito de nos queixarmos dessa injustiça, porque no fundo não é injustiça a nós, que nada somos, a quem nada é devido, mas para com Deus, cujo mandamento violam desprezando-nos, humilhando-nos, ultrajando-nos.

É, pois, o Senhor quem deve ressentir-Se da injúria que Lhe fazem maltratando-nos e não nós, que em tudo quanto nos acontece não devemos ser sensíveis senão á injúria feita a Deus. Meu próximo despreza-me; não tem razão, porque não é mais do que eu e Deus lho proíbe. Mas não terá ele razão porque eu sou verdadeiramente digno de estima, porque em mim nada há merecedor de desprezo? Não, porque se ele arrebata meus bens, mancha a minha reputação, atenta contra a minha vida, é certamente culpado e muito culpado para com Deus; mas será também para comigo? Estarei autorizado a querer-lhe mal, a vingar-me?

Não: porque tudo quanto possuo, tudo quanto sou, não pertence propriamente a mim; que só tenho de meu o nada e a quem nada se pode tirar. Se assim encararássemos, sempre do lado de Deus e jamais do nosso, tudo que nos acontece, não seríamos tão melindrosos, tão sensíveis, tão sujeitos a nos queixarmos e irritarmos.

Toda a desordem vem sempre de supormos que somos alguma coisa, de nos arrogarmos direitos que nos falecem, de em tudo começarmos sempre por nos considerarmos diretamente e não prestarmos atenção aos direitos e aos interesses de Deus, os únicos lesados no que nos concerne.

Confesso que isso é de prática muito difícil e para consegui-lo faz-se mister renunciarmos, absoluta e completamente, a nós mesmos. Mas, em suma, é justo e a razão coisa alguma pode opôr.

Deus, portanto, nada exige de nós que não seja razoável, quando a Seu respeito e a respeito do próximo quer que nos portemos como nada sendo, nada tendo, nada pretendendo. Isto como já se disse, seria justo, quando mesmo tivéssemos conservado a nossa primeira inocência. Mas, se nascemos culpados, se estamos  inteiramente cobertos de pecados pessoais, se contraímos infinitas dívidas para com a justiça divina, se merecemos não sei quantas vezes a condenação eterna, não é para nós castigo demasiado brando só sermos tratados como nadas?

E não deve o pecador colocar-se infinitamente abaixo do que nada é? Se qual for a provação imposta a ele por Deus, sejam quais forem os maus tratos suportados do próximo, terá direito de se queixar? Poderá acusar de rigor excessivo a Deus ou de injustiça os homens? Não deve, antes, considerar-se muito feliz em resgatar, com alguma pena temporal, tormentos eternos?

Se a religião não é uma ilusão, se é verdade o que a fé nos ensina acerca do pecado e dos suplícios que lhe estão reservados, como pode entrar no espírito de um pecador - a quem Deus se dispõe a perdoar - que não merece tudo quanto se possa suportar de males neste mundo, embora dure sua vida milhões de séculos?

Sim, é injustiça soberana, é monstruosa ingratidão de quem ofendeu a Deus (e quem de nós não O ofendeu?) não aceitar de boamente, em reconhecimento, por amor, por dedicação aos interesses de Deus, tudo quanto de sofrimentos, se essas humilhações aprouver á divina bondade enviar-lhe.

E que será se tais sofrimentos, se essas humilhações passageiras são, não só a compensação do inferno, mas o preço de uma felicidade eterna, o preço da posse eterna de Deus; se no céu seremos glorificados na proporção do nosso aniquilamento aqui na terra?

Teremos ainda horror a nos aniquilarmos?

Pensaremos que é nos fazer mal, quando, por sermos pecadores e para emergirmos do nada, exige-se a renúncia completa do nosso eu, com a promessa de uma recompensa que sempre durará?

Acrescento que semelhante forma de aniquilamento, contra a qual a natureza tanto se insurge e clama, ao invés de tão penosa como imaginamos, é até suave, porque antes de tudo Jesus Cristo a declarou tal: Tomai sobre vós o meu jugo, disse Ele; é doce e leve. Por mais pesado que seja esse jugo, Deus o suaviza para os que o tomam de boa vontade e consentem em carregá-lo por Seu amor. O amor não nos impede de sofrer, mas faz como que amemos o sofrimento e torna-o preferível e atodos os prazeres.

A recompensa presente do aniquilamento é a paz do coração, a calma das paixões, a cessação de todas as agitações do espírito, das murmurações, das revoltas interiores.

Vejamos, em pormenores, a prova disto. Qual é o maior mal do sofrimento? Não é a própria dor, é a revolta, a sublevação interior que a acompanha. A alma aniquilada sofreria todos os males imagináveis sem perder o repouso conexo ao seu estado: é fato de experiência. Custa-nos conseguir o nosso aniquilamento, temos que fazer grandes esforços sobre nós mesmos: mas também gozamos da paz na proporção das vitórias alcançadas.

O hábito de renunciarmos a nós mesmos, de não atendermos ao nosso eu, torna-se cada dia mais fácil; admiramo-nos de que não nos faça mais sofrer, no fim de certo tempo, aquilo que nos parecia intolerável, assustava a imaginação, sublevava as paixões e punha a natureza em estado violento.

Nos desprezos, nas calúnias, humilhações, o que no-las torna tão duras de suportar é o nosso orgulho; é o nosso desejo de ser estimados, considerados, tratados com certas atenções; é o pavor que temos das zombarias e do desprezo do próximo. Eis o que nos agita e enche de indignação, o que nos torna a vida amarga e insuportável.

Trabalhemos com afinco para aniquilar-nos; não demos alimento nenhum ao orgulho, deixemos caírem todos os artifícios de estima e amor próprio, aceitemos interiormente as pequenas mortificações que se apresentarem.

Pouco a pouco chegaremos a não mais nos inquietarmos com o que se pensa e diz de nós, nem com o modo pelo qual nos tratam. Um morto nada sente; para ele não há honra nem reputação; os louvores e as injúrias lhe são indiferentes.

A maior parte dos sofrimentos e desgostos por que passamos no serviço de Deus provém de não estarmos bastante aniquilados em Sua presença, de conservarmos certa vida própria no meio dos nossos exercícios, de imiscuir-se um secreto orgulho em nossa devoção. E por isso não somos indiferentes ás consolações e á sua falta; sofremos quanto Deus parece afastar-Se de nós; esgotamo-nos em desejos e esforços tendentes a fazê-Lo voltar; ficamos abatidos e desolados, se o afastamento perdura muito.

Por isso também temos falsos alarmes a respeito do nosso estado. Afigura-se-nos estarmos mal com Deus, porque Ele nos priva de algumas doçuras sensíveis. Julgamos más as nossas comunhões, porque as fazemos sem gosto, a mesma coisa acontecendo quanto ás nossas leituras, orações e outras práticas.

Servamos a Deus com espírito de aniquilamento; sirvamo-Lo por Ele e não em atenção a nós; sacrifiquemos os nossos interesses á Sua glória e ao Seu bel-prazer; então, estaremos sempre contentes com o Seu modo de tratar-nos, persuadidos de que nada merecemos e de ser imensa a bondade de Sua parte, não digo aceitando, porém suportando os nossos serviços.

Nas grandes tentações contra a pureza, a fé, a esperança, o que há de mais penoso para nós não é precisamente o temor de ofender a Deus, senão o medo de perder-nos, ofendendo-O. É o nosso interesse que nos ocupa muito mais do que a Sua glória.

Eis a razão de ter um confessor tanta dificuldade em tranquilizar-nos e reduzir-nos á obediência. Cremos que ele nos engana, transvia e perde, porque nos obriga a deixar de lado as nossas vãs apreensões. Aniquilemos o nosso conceito; não julguemos por nós mesmos... Encontraremos a paz e paz perfeita, no esquecimento total de nós mesmos. Nada há no céu, na terra, nem do inferno, capaz de perturbar a alma verdadeiramente aniquilada.

(Excertos do livro: Manual das Almas Interiores, do Pe. Grou)

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Os livros são de 1831, portanto, um espanhol bem difícil de ler, mas vale a pena!
Baixe nestes links abaixo:

Abbé Jean Nicolas Grou



SALVE MARIA!