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Nós precisamos, urgentemente, de exorcismo!


"Paulo VI queixa-se da fumaça de Satanás dentro do templo, quase a ocupar o espaço do incenso esquecido [...]"
Dom Manoel em manifestação pro-vida em Anápolis, GO.

Dom Manoel Pestana, Prefácio do livro “Um Exorcista Conta-nos” do Pe.Gabriele Amorth 

O grande papa Leão XIII entrou no século XX ainda apavorado pela visão que tivera da formidável presença diabólica em Roma, “para a perdição das almas”. Desde 1886, mandara a todos os bispos rezar a oração a São Miguel Arcanjo, escrita por ele, de próprio punho, como também um exorcismo maior que recomendava a bispos e párocos para recitarem com frequência nas dioceses e paróquias.

“O século do homem sem Deus”, anunciado por Nietzsche, transforma-se no século de Satanás, que prepara o seu reino com a Primeira Guerra Mundial, implanta o comunismo ateu e tirânico, contra Deus e contra o homem, na revolução bolchevista de 1917, semeia a Europa inteira de ruínas e sangue com a Segunda Guerra Mundial, fruto dos poderes das trevas; invade toda a terra de ódio, terror, impiedade, heresia, blasfêmia e corrupção em guerras e revoluções sem trégua; insinua-se, de início, como fumaça, e, depois, implanta-se, poderoso, no seio da própria Igreja.

Tudo isto, Nossa Senhora confidenciara aos videntes de Fátima, exatamente no mesmo ano da tragédia russa; e o mesmo se diga do 3º capítulo do Gênesis, em que se pinta a vitória da serpente infernal e a presença de Maria, esmagando-lhe a cabeça.

A Cristandade continuou a rezar as orações de Leão XIII, estimulada pelos Papas. Pensadores cristãos como, por exemplo, Anton Böhm (Satã no Mundo Atual, Tavares Martins) e de La Bigne Villeneuve (Satan dans la Cité, Du Cèdre) denunciam a infiltração visível do demônio em todas as estruturas da sociedade.Bernanos surpreende-nos Sob o Sol de Satã.

De súbito, ao aproximar-se o último e temeroso quartel do século XX, contesta-se a existência dos anjos, desaparece a oração de São Miguel, suspendem-se os exorcismos, inclusive o do Batismo, mergulha no silêncio o ministério e a função do exorcista.

Paulo VI queixa-se da fumaça de Satanás dentro do templo, quase a ocupar o espaço do incenso esquecido, e amargura-se com a autodemolição da Igreja. Os seminários desaparecem, a teologia prostitui-se em cátedras de iniquidade, a liturgia reduz-se, com certa frequência, a uma feira irrelevante de banalidades folclóricas. A pretexto de inculturação, a vida religiosa desliza para o abismo.

“Os poderes do inferno não prevalecerão contra a Igreja”, é certo. Mas o próprio Senhor prediz o obscurecimento da fé, o esfriamento da caridade. A visão (do Inferno) de Fátima faz vacilar o otimismo ingênuo e irresponsável dos que apostam na salvação de todos, mesmo até dos que a recusam.

(…) Jesus começa a sua missão, tentado pelo demônio e a expulsão dos maus espíritos torna-se uma das notas mais relevantes da sua atividade messiânica.“Em meu nome expulsarão os demônios” (Mc 16,17), diz Jesus, ao despedir-se dos discípulos, notando que este será um sinal dos que crêem nele. E Satanás, pela ação dos Apóstolos, caía do céu como um raio… Quando os cristãos de todos os níveis, apesar dos Evangelhos e do Magistério, principiaram a duvidar da ação e, depois, da existência do espírito rebelde, aconteceu o que Jesus havia anunciado (Mt 14,44-45): expulso, ele volta para a casa “desocupada, varrida e arrumada”, mas indefesa, com sete espíritos piores do que ele, “e a condição final torna-se pior do que antes”, exatamente o que está a acontecer.


Hoje, não é só a fumaça de Satanás, penetrando por uma fenda oculta, mas o diabo, de corpo inteiro, que irrompe triunfalmente pelas portas centrais. Quem o vai exconjurar das nossas igrejas, das nossas residências episcopais e paroquiais, dos nossos centros comunitários, dos nossos seminários e universidades, dos Senados e das Câmaras Legislativas, dos Palácios do Governo e da Justiça, dos bancos e das bolsas, dos meios de comunicação, das escolas e hospitais, das consciências de todos nós?

E, não hesitemos: quem vai expulsar os demônios dos Palácios Pontifícios, das Congregações e Secretarias, das Nunciaturas, das Conferências Episcopais e Cúrias, dos Santuários e Basílicas, das ONU e dos Parlamentos, sem falar desse mundo “posto maligno”, que viceja “sob o sol de Satã”?

(Fonte: GRAA)

A morte do Atanásio brasileiro.

Via Fratres in Unum

(o Bispo Emérito de Anápolis, Dom Manoel Pestana Filho)
Por Padre Luiz Carlos Lodi da Cruz
Atanásio significa imortal. É o nome do Bispo de Alexandria, Doutor da Igreja (300-373), que se destacou na defesa da divindade de Cristo, professada pelo Concílio de Niceia (325) contra a heresia do presbítero Ário, que reduzia Cristo a uma criatura de Deus. A firmeza doutrinal de Santo Atanásio custou-lhe a perseguição dos arianos por toda a vida. Por cinco vezes foi obrigado a abandonar sua cidade, transcorrendo 17 anos no exílio e sofrendo pela fé.
* * *
No início de 1988 (provavelmente em fevereiro), o monge Dom Marcos Barbosa, do Mosteiro de São Bento (Rio de Janeiro) irradiava em seu programa Encontro Marcado (Rádio Jornal do Brasil) uma pequena palestra intitulada “Um novo Atanásio”. Eram tempos difíceis aqueles. A “teologia da libertação” marxista tinha o apoio de vários bispos. Leonardo Boff era defendido contra o Papa João Paulo II, que lhe impusera silêncio por causa da obstinação em seus erros teológicos.
Dom Marcos Barbosa, ao afirmar que a CNBB não era mais confiável “por estar criando uma Igreja paralela(sic)”, fazia uma ressalva de vários bispos fiéis, entre os quais Dom Eugênio Sales (Rio de Janeiro), Dom Luciano Cabral Duarte (Aracaju), Dom José Freire Falcão (Brasília), Dom José Veloso (Petrópolis), Dom Boaventura Kloppenburg (Novo Hamburgo) e Dom Lucas Moreira Neves (Salvador)[1]. O herói da crônica, porém, era o Bispo de Anápolis, Dom Manoel Pestana Filho, em quem o monge beneditino descobrira “a ortodoxia e a fibra de um novo Atanásio”.
Leia-se o trecho da seguinte carta (citada por Dom Marcos Barbosa) de 20 de janeiro de 1988 enviada por Dom Pestana ao presidente da CNBB Dom Luciano Mendes de Almeida:
“Creio que já ultrapassamos os limites do tolerável. Nem mais seríamos canes non valentes latrare [2], responsáveis diante de Deus e da Igreja pelas inimagináveis consequências do nosso silêncio no meio do sofrido povo de Deus, se, estupidificados pelo engodo da ‘unidade’, continuássemos engolindo a infidelidade e apostasia que escorrem do alto. Não é apenas a fumaça de Satanás que entrou na Igreja, por alguma fenda oculta, como lamentava o Santo Padre Paulo VI: é, transpondo triunfalmente os portões, o diabo inteiro, presente nos mais altos postos, através de seus fiéis seguidores.
Um Cardeal, que depois de comunicar que nem tomaria conhecimento da passagem da imagem de Fátima pela sua Arquidiocese, pronuncia-se, na televisão, a favor da abolição do celibato eclesiástico – ou melhor, declara-o contra o direito – e defende o homossexualismo; a CNBB que assume oficialmente, para espanto dos Constituintes que ainda respeitam a Igreja, a posição do sinistro Frei Betto pela despenalização do aborto, como em vão propugnou Dom Cândido Padim em Itaici, na Comissão da Constituição e em plenário; a imposição prática de um texto da Campanha da Fraternidade, complementado pelo que a AEC, avançando ainda mais, preparou para os pobres colégios católicos, em que não sobra nem fraternidade nem fé; os cursos de lavagem cerebral para Bispos que, apenas transferidos de Itaici para o Embu, são agora apresentados como ‘cursos para bispos novos’ – e V. Exa. sabe muito bem quais são os seus organizadores e professores – TUDO ISSO claramente indica que o caminho que estamos seguindo não leva a Jerusalém nem muito menos a Roma: vai direto a Sodoma e Gomorra, que já não estão muito longe.
Revendo, para um curso de férias, as peripécias do Arianismo, Nestorianismo e Monofisitismo, pus-me a refletir no acerto de Franklin: ‘Não me importa o que hoje pensam de mim, mas o que dirão de mim daqui a cem anos’… E assusta-me a responsabilidade perante o presente e principalmente o futuro, que vamos alegre e levianamente assumindo”.
Em 19 de fevereiro de 1988, Dom Pestana enviou nova carta a Dom Luciano (citada por Dom Marcos Barbosa no mesmo programa):
“Agradecendo-lhe o envio de parabéns e a garantia de orações pelo aniversário de minha consagração episcopal, peço-lhe a caridade de ouvir-me ainda uma vez.
A situação eclesial brasileira se deteriora a olhos vistos, dia a dia. Lembra-me o espantoso processo de autodemolição de que falava Paulo VI. Um incrível masoquismo estéril e suicida, com graves danos para o Reino de Deus. O Sr. tem uma posição privilegiada nesse contexto. Pelo amor de Deus, pare um pouco. A velocidade embriaga. E há gente demais ligada ao seu desempenho.
Não se pode mais aceitar como conselheiros e mestres nas Assembleias da CNBB, muito menos como representantes da CNBB na Constituinte, tipos como Plínio da Arruda Sampaio, que vota pelo aborto e pelo divórcio; ou Hélio Bicudo que, conhecido por posições opostas aos princípios cristãos, ameaça de público levar o Papa ao Tribunal de Haia; ou outros confessadamente trotskistas (já os tivemos em Itaici), marxistas, etc, como, em livro, acaba de confirmar antigo assessor da Conferência.
Seria bem mais vantajoso desligar-me, acomodado, se a paralisia não fosse consciente e dolorosa. Veja nisto, desajeitada que pareça, a contribuição que posso oferecer para que a situação, que nos querem fazer irreversível, seja superada energicamente, enquanto é tempo.
Sei que muitos não creem em Fátima. Problema deles. Entretanto, o que vem acontecendo, ademais da atitude do Magistério eclesiástico autêntico, me leva a confiar, apreensivo, na Senhora da Mensagem, como chamou João Paulo II. E muita coisa diz respeito ao que agora se está vendo…”
* * *
A fama do Atanásio brasileiro chegou até o Rio de Janeiro, em cujo seminário eu estudava. Atraído por ele – assim como tantos outros de toda parte do Brasil e do mundo – transferi-me para a Diocese de Anápolis (GO), onde terminei meus estudos. Recebi de suas mãos a ordem sacerdotal em 31 de maio de 1992, festa da Visitação de Maria a Isabel (o encontro de duas mães com seus bebês no ventre).
Estaria, porém, totalmente enganado quem pensasse que Dom Pestana era irascível, autoritário e intolerante. Ao contrário, a mansidão, a simplicidade e o bom humor eram constantes em sua fisionomia. De espírito aberto, contentava-se com a unidade, mas não exigia a uniformidade. Dava-se bem com os mais diversos movimentos, inclusive com a Renovação Carismática Católica. Dizia frequentemente: “Não devemos apagar a mecha que ainda fumega” (cf. Is 42,3; Mt 12,20). Habitualmente celebrava a Missa de Paulo VI (Novus Ordo Missae), mas não se importava se algum sacerdote quisesse usar a forma extraordinária (Missa de São Pio V). Em sua prática pastoral, adotava o lema do grande reformador São Carlos Borromeu: “omnia videre, multa tolerare, pauca corrigere” (ver todas as coisas, tolerar muitas, corrigir poucas). Se nas cartas acima, ele se mostrou tão inflamado, foi porque – conforme dissera – já haviam sido ultrapassados “os limites do tolerável”. O escândalo causava nele – como em Jesus – uma santa cólera. Podia dizer com São Paulo: “Quem é escandalizado, que eu não me inflame?” (2Cor 11,29). Seu amor aos pequeninos fazia com que ele se consumisse de indignação contra o aborto. Rezava continuamente “pela inocência das crianças, pela pureza dos jovens e pela santidade das famílias”. Na esteira do Concílio Vaticano II, que chamou o aborto de “crime abominável[3], Dom Pestana cunhou a jaculatória: “Coração Imaculado de Maria, livrai-nos da maldição do aborto”.
Sua militância pró-vida foi ao ponto de participar de uma “operação resgate” em frente a uma clínica de abortos em Nova Orleans (EUA). Em 1989, após a visita a Anápolis do grande Mons. Ney Sá Earp (coordenador do Movimento em Defesa da Vida do Rio de Janeiro) acompanhado de um grupo de militantes da Human Life International (Vida Humana Internacional), fundou o Pró-Vida de Anápolis, que se tornaria, no dizer de seu sucessor Dom João Wilk, “referência nas ações de defesa da vida e da dignidade da pessoa humana”[4]. Mesmo após o seu longo episcopado à frente de Anápolis (1979-2004), já como Bispo Emérito, Dom Pestana não se cansava de se dedicar à causa pró-vida. Em 11 de agosto de 2010, pressentindo a proximidade da própria morte e o perigo iminente de um terceiro governo petista, escreveu um apelo ardente aos Bispos, que circulou pela Internet:
“Caros irmãos no Episcopado,
Suportem-me, que o menor dos irmãos lhes possa dirigir uma palavrinha amiga, mas angustiada de quem se prepara, temeroso, para partir.
Pelo amor de Deus! Estamos diante de uma situação humanamente irreversível. A América Latina, outrora “Continente da Esperança”, como a saudava João Paulo II, hoje mergulha na antecâmara do terrorismo vermelho, aliás, como prenunciava aos pastorinhos de Fátima a Senhora do Rosário.
Podem parecer, a essa altura, resquícios de uma idade de trevas, mas tudo acontece como se ouviu em dezembro de 1917 (“a Rússia comunista espalhará seus erros pelo mundo, com perseguições à Igreja, etc.”). Assusta-me a corrupção dentro da Igreja, o desmantelamento dos seminários, a maçonização de Cúrias e Movimentos.
Horroriza-me a frieza com que olhamos tal estado de coisas. Somos pastores ou cães voltados contra as ovelhas? Somos ou não, alem disso, cúmplices de uma política atéia empenhada em apagar os últimos traços da nossa vida cristã?
Perdoem-me, mas não poderia deixar de falar, sem me sentir infiel à minha consciência e à minha Igreja.
Parabéns a Dom Luiz Gonzaga Bergonzini e a Dom Henrique Soares da Costa”.
O apelo de Dom Pestana não ficou sem frutos. Uma reação inédita contra o aborto surgiu de vários Bispos brasileiros. Não, porém, suficiente para impedir a eleição da candidata do PT. Angustiado pela vitória de Dilma Rousseff, Dom Pestana ainda encontrou forças para enviar-me uma mensagem de ânimo no dia 17 de novembro de 2010:
“Carissimo Pe Lodi:
Deus Nosso Senhor o abençoe sempre; Nossa Senhora o acompanhe e defenda a cada momento, para não nos vermos privados da sua lucidez e coragem.
O seu pronunciamento acerca do O poder da oração e uma vitoria da cultura da morte representa um estimulo para aqueles que sabem que uma batalha perdida não é uma guerra desperdiçada.
Quando se luta por Deus, a nossa fé não pode vacilar.
Cristo garantiu-nos que os poderes da morte do pecado não hão de vencer, e o Senhor nos pede não a vitória, mas a luta.
Ai daqueles que vacilam e baixam a guarda!
É aí que os inimigos avançam.
Muito obrigado pelo seu testemunho de verdadeiro apóstolo.
Continuamos rezando: é a nossa força”.
No dia 8 de janeiro de 2011, Dom Pestana faleceu em Santos (SP), sua terra natal, aonde tinha vindo visitar seus parentes e amigos, vítima de um enfarto do miocárdio. Entre os 84 padres por ele ordenados, um já é bispo e curiosamente se chama Atanásio: É Dom Atanásio Schneider, Bispo auxiliar em Karaganda, Casaquistão.
A morte de Dom Pestana foi o coroamento de sua missão pró-vida. Afinal, “se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto” (Jo 12,24). Ele morreu como vítima, oferecida com Cristo em nosso favor. Agora, ganhamos um intercessor junto ao Pai. Enquanto seu corpo, sepultado na Catedral do Bom Jesus em Anápolis, aguarda a ressurreição, desde já experimentamos os frutos imortais de sua caridade.
Anápolis, 8 de fevereiro de 2011.
Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz
Presidente do Pró-Vida de Anápolis


[1] Hoje, graças a Deus, a Comissão Vida e Família da CNBB tem-se empenhado na defesa da vida humana, contra a despenalização do aborto.
[2]Cães incapazes de latir (Is 56,10).
[3] Gaudium et Spes, 51

Sobre a morte de meu Bispo Emérito


Por Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz

Desejo escrever melhor em outra ocasião, mas não quero deixar este momento em branco. No sábado passado, 8 de janeiro, por volta das 9 horas, faleceu Dom Manoel Pestana Filho, em Santos (SP). A Providência Divina quis que ele morresse na mesma cidade onde nascera e fora ordenado Bispo.

Estava lá de viagem, em visita a seus familiares e amigos. Faleceu no convento das irmãs da Toca de Assis, antes que pudesse retornar a sua casa em Anápolis (GO). O motivo da morte parece ter sido um enfarto.

Bispo Diocesano de Anápolis de 1979 a 2004, Dom Manoel conseguiu atrair a sua diocese do Centro-Oeste brasileiro gente de toda a parte. Ouvia-se dizer que lá havia um Bispo corajoso, fiel ao Magistério, obediente à Igreja. Fora apelidado "um novo Atanásio" por Dom Marcos Barbosa, monge beneditino do Rio de Janeiro.

Da Alemanha, os cônegos regulares da recém-restaurada Ordem da Santa Cruz vieram para Anápolis onde fundaram o "Institutum Sapientiae", com o carisma específico de se dedicar a formação do clero. Era lá que os seminaristas diocesanos (inclusive eu) tinham suas aulas.
Quanto ao seminário, Dom Manoel empenhou-se pessoalmente em construí-lo. As primeiras instalações foram sua própria residência episcopal. O corpo docente era constituído (quase?) exclusivamente pelo Bispo, até que os cônegos regulares viessem ajudá-lo.
Quando, atraído por sua fama, transferi-me da Arquidiocese do Rio de Janeiro, onde estudava, para a Diocese de Anápolis, em 1989, o seminário Imaculado de Maria funcionava, não mais na casa episcopal, mas em outro lugar provisório: a "casa do sacerdote e das vocações sacerdotais", projetada para servir de abrigo a padres idosos. Somente bem mais tarde, em 2004, seria inaugurado o prédio definitivo que hoje abriga os seminaristas.

Para falar a verdade, quando cheguei, percebi que a Diocese de Anápolis não tinha nada de mais. Era simplesmente uma diocese católica. No seminário rezava-se o terço, fazia-se adoração eucarística e leitura espiritual. Falava-se de Nossa Senhora com a familiaridade de filhos, sem aquele temor constante de evitar eventuais "exageros". Na faculdade, estudava-se a filosofia tomista e a teologia católica. Grande apreço era dado aos documentos do Concílio Vaticano II, que serviram de base para diversas das disciplinas que estudei. Quanto à liturgia, encorajava-se recitar o "Novus Ordo Missae", do Papa Paulo VI.
Nunca vi uma ordem de Dom Manoel obrigando os padres a vestirem batina. No entanto, nós o imitávamos espontaneamente. Sua mais eloquente pregação era o exemplo.

Ao contrário do que falsamente foi depois atribuído a ele, Dom Manoel tinha um espírito muito aberto. Desejava a unidade, mas não exigia a uniformidade. Respeitava o carisma que o Espírito Santo suscitava em cada pessoa, em cada grupo, em cada movimento, em cada comunidade.

Nunca o vi orando em voz alta e de mãos levantadas. No entanto, ele se dava muito bem com os membros da Renovação Carismática Católica (RCC), desde fossem fiéis a fé e à moral católicas. Quando se falava dos abusos da RCC, ele replicava dizendo que cabia aos padres vigiar para corrigi-los. "Mas - dizia ele sempre - não devemos apagar a mecha que ainda fumega".

Todas as vezes em que presenciei Dom Manoel celebrar, fosse em público, fosse em privado, na capela de sua residência, ele usou o "Novus Ordo Missae" (forma ordinária). No entanto, ela não se importava se em sua Diocese algum sacerdote quisesse celebrar a Missa de São Pio VI (forma extraordinária). Nem recusava algum convite de celebrá-la se alguém lhe pedisse.

Ele gostava de repetir um adágio de autoria, se não me engano, do grande reformador São Carlos Borromeu: "omnia videre, multa tollerare, pauca corrigere" (ver tudo, tolerar muitas coisas, corrigir poucas). As poucas coisas que ele se sentiu obrigado a corrigir custaram-lhe uma violenta perseguição. Uma delas foi a introdução da confissão auricular e individual, tal como prescreve o Direito Canônico. Conta-se que, recém-chegado à Diocese, ao anunciar que na Catedral havia padres prontos para ouvir confissões, ele foi alvo de uma grande vaia. Após essa humilhação pública, os que restaram dirigiram-se aos sacerdote a fim de se confessarem.

Suas refeições eram sempre simples. Bondosamente ele dividia sua mesa com qualquer visitante, até o mais ocasional. Às sextas-feiras, ele dava folga à cozinheira. Era o seu dia de jejum. Certa vez, almoçando em sua casa, fiquei sabendo que ele próprio preparara o delicioso "estrogonofe de atum" que estava sendo servido.

Sua disponibilidade contínua para com o povo, fazia com que ele não encontrasse tempo para escrever livros. Escreveu numerosos (e inflamados) artigos, entre os quais aquele que em 1987 valeu-lhe o título de "novo Atanásio" dado por Dom Marcos Barbosa. Mas não se dava o direito de concentrar-se para escrever do início ao fim uma obra longa. A única exceção foi seu livro "Igreja doméstica", sobre o matrimônio e a família, publicado em 1980.

Embora sempre estivesse risonho e bem humorado, havia certas coisas que o enchiam daquela ira santa que experimentou Jesus diante dos vendilhões no Templo. Uma delas era o aborto. Outra era o atentado à inocência das crianças. A família era tema recorrente em suas pregações. Não conseguia conceber um apostolado que não fosse centrado na união perpétua de vida e de amor entre um homem e uma mulher, com abertura à geração e educação da prole.

Foi ele que em pessoa resolveu fundar em Anápolis o movimento Pró-Vida em 1989, quando recebeu em sua diocese a visita de um grupo de militantes da "Human Life International" (HLI) dos Estados Unidos, acompanhados de Mons. Ney Sá Earp, grande líder pró-vida do Rio de Janeiro. O Pró-Vida de Anápolis funcionou de início na própria Cúria Diocesana, dirigido pessoalmente por ele, juntamente com alguns leigos. De lá saíam os que iam aconselhar gestantes, dar palestras em escolas e fazer manifestações contra o aborto. Ele próprio introduziu o costume de se fazer, em cada dia 28 de dezembro, a Marcha dos Santos Inocentes, na qual crianças atravessavam as ruas da cidade enquanto adultos falavam ao megafone contra o aborto.

Quando, assustado pelo perigo da iminente legalização do aborto no Brasil, sugeri a Dom Manoel que organizássemos uma caravana a Brasília, a resposta foi um "sim" entusiástico. Em 16 de agosto de 1996, ele se dirigia à Praça dos Três Poderes juntamente com cerca de 3000 pessoas portando faixas e cartazes pró-vida. Naquele ano e no ano seguinte, estava em pauta o perigoso Projeto de Lei 20/91, que pretendia obrigar o SUS a praticar aborto. Quase toda semana tínhamos que ir a Brasília em ônibus fretados para impedir a aprovação do projeto. Conosco estava sempre Dom Manoel, que deixava de lado todos os seus afazeres na Cúria Diocesana.

O grande legado de Dom Manoel foi a criação do Pró-Vida de Anápolis, que foi registrado em cartório, com personalidade jurídica, somente em 1997, e subsiste até hoje. No Estatuto, ele fez questão de incluir a defesa da família ao lado da defesa da vida. E entre os objetivos, colocou a formação para a castidade.

Os que se consideram adeptos do progresso, deveriam ter conhecido a figura desse Bispo. Era fascinado pelas novas tecnologias a serviço da evangelização: rádio, televisão, cinema, Internet. Tinha o sonho de criar uma emissora de rádio e uma de televisão na Diocese. Prestigiou pessoalmente a inauguração da Rede Vida, que ele via como uma grande esperança de penetração do Evangelho nos lares católicos. Mesmo antes que a Internet chegasse ao Brasil, ele já procurava fazer os seminaristas se familiarizarem com o recurso à informática. Em 1996, ele aprovou com entusiasmo o sítio do Pró-Vida de Anápolis, uma das primeiras páginas a entrar no ar em defesa da vida e da família. Tudo que era inovação, desde que não ferisse o imutável depósito da fé, era bem-vindo.

A paixão de Dom Manoel pelos livros se manifesta em sua colossal biblioteca, que foi colecionando ao longo dos anos. Depois de se tornar emérito, em 2004, foi difícil terminar de catalogar toda aquela multidão de obras. Ele, porém, não se dava por satisfeito, e estava sempre comprando "coisas novas e velhas": livros recém-editados ou preciosidades vendidas no "sebo".

Sempre com uma saúde debilitada, há muitos anos ele se dizia "moribundo em precário estado de conservação". Já havia sido levado várias vezes à UTI e recebido outras tantas vezes a Unção dos Enfermos. Ultimamente fora bem sucedido em uma cirurgia nos joelhos, que fez com que pudesse andar (embora com o auxílio de uma bengala) sem necessidade da cadeira de rodas. Não esperávamos que ele morresse no dia 8, antes de retornar a nós. Mas, pensando bem, há muito não deveríamos nos surpreender com uma eventual (embora triste) notícia de sua morte.

Há poucos meses, em visita a sua casa, eu lhe falara do plano de ele terminar seus dias em uma nova sede do Pró-Vida de Anápolis, que seria construída em um terreno a ele doado em 1989. Ele ficou muito entusiasmado. Respondeu sorrindo e batendo as mãos. Deus porém preparava para ele uma casa melhor. E em um prazo menor.

Uma das coisas que deve ter acelerado sua morte foi sua angústia (mortal?) pela situação política do Brasil. Ele se afligia sobremaneira ao ver nosso país ser invadido e dominado pelo terrorismo vermelho, que não poupa o respeito à vida nem à família. Nestas últimas eleições, ele lançou um apelo ardente a seus irmãos no episcopado (http://www.providaanapolis.org.br/apelard.htm). Sua voz encontrou eco em alguns Bispos, em especial os do Regional Sul 1, que se coligaram para denunciar o plano do PT de implantar a cultura da morte no país. Quando foi anunciada a vitória de Dilma, ele se abalou sobremaneira. No entanto, escreveu-me recomendando coragem, uma vez que "uma batalha perdida não é uma guerra desperdiçada". E ainda: "Deus não exige de nós a vitória, mas a luta".

A morte de Dom Manoel está longe de ser um sossego para os promotores do aborto. Ao contrário: à semelhança do grão de trigo, que só dá frutos quando morre, da morte desse Bispo devemos esperar grandes frutos para nossa terra. Ele morreu como vítima, oferecida com Cristo em nosso favor. Agora, ganhamos um intercessor junto ao Pai.

A Dom Manoel, sepultado na Catedral ontem, minha saudade, minha gratidão e minha admiração. Mas sobretudo meu amor.
Lembre-se de nós, que gememos e choramos neste vale de lágrimas.
Permita-me repetir a jaculatória que o senhor mesmo nos ensinou:
"Coração Imaculado de Maria, livrai-nos da maldição do aborto".

Apelo ardente do bispo emérito de Anápolis, Goiás

Caros irmãos no Episcopado,

Suportem-me, que o menor dos irmãos lhes possa dirigir uma palavrinha amiga, mas angustiada de quem se prepara, temeroso, para partir.

Pelo amor de Deus! Estamos diante de uma situação humanamente irreversível. A América Latina, outrora “Continente da Esperança”, como a saudava João Paulo II, hoje mergulha na ante-câmara do terrorismo vermelho, aliás, como prenunciava aos pastorinhos de Fátima a Senhora do Rosário.

Podem parecer, a essa altura, resquícios de uma idade de trevas, mas tudo acontece como se ouviu em dezembro de 1917 (“a Rússia comunista espalhará seus erros pelo mundo, com perseguições à Igreja, etc.”). Assusta-me a corrupção dentro da Igreja, o desmantelamento dos seminários, a maçonização de Cúrias e Movimentos.

Horroriza-me a frieza com que olhamos tal estado de coisas. Somos pastores ou cães voltados contra as ovelhas? Somos ou não, alem disso, cúmplices de uma política atéia empenhada em apagar os últimos traços da nossa vida cristã?

Perdoem-me, mas não poderia deixar de falar, sem me sentir infiel à minha consciência e à minha Igreja.

Parabéns a Dom Luiz Gonzaga Bergonzini e a Dom Henrique Soares da Costa.

In Xto et Matre,

Dom Manoel Pestana Filho

Roma: discurso de Dom Manoel Pestana Filho, bispo emérito de Anápolis, em conferência sobre Fátima.

Roma, 7 de maio de 2010. Dom Manoel Pestana Filho discursa em conferência sobre Fátima e apresenta o livro de Monsenhor Gherardini - Concilio Vaticano II, un discorso da fare.
Roma, 7 de maio de 2010. Dom Manoel Pestana Filho discursa em conferência sobre Fátima e apresenta o livro de Monsenhor Gherardini - Concilio Vaticano II, un discorso da fare.

Apresentamos nossa transcrição do discurso proferido por Sua Excelência Reverendíssima Dom Manoel Pestana Filho, bispo emérito de Anápolis (Goiás), no “The Fatima Challenge Conference”, em Roma, no último dia 7. De antemão agradecemos as possíveis correções feitas ao nosso trabalho.
* * *
Excelências, irmãos padres, religiosos e religiosas,
Não esperem muito de mim, pois sou baixinho, mas, em suma, devo falar alguma coisa e me pediram que, ao menos,  eu me comunicasse com vocês.

Algo que me parece sempre incerto é a questão do Concílio Vaticano II. Na última sessão, da qual participei, uma comissão foi até a Irmã Lucia, em Coimbra, e eu lhe encaminhei uma pergunta por escrito. Minha pergunta foi a seguinte: o terceiro segredo de Fátima tem alguma relação com o Concílio Vaticano II? A Irmã Lucia respondeu — não a mim, mas a um padre que fora com a comissão — “não estou autorizada a responder esta pergunta”. Isso é muito interessante. [...] é um sinal de alguma reserva no terceiro segredo e esta reserva tinha alguma relação com o Concílio Vaticano II.

Mas, como reversas com o Concílio Vaticano II? Estudei aqui em Roma, estudei Teologia, e isso me impressionava muito. Eu também tinha lido dois livros sobre Fátima, um do padre Marc, e um outro de um padre português, que tinha sido diretor espiritual num seminário brasileiro. E uma coisa interessante para mim era entender esta razão. E nesse meio tempo, soube que o Santo Padre Pio XI desejava reabrir o Concílio do Vaticano. O Cardeal Billot o advertiu: “Santidade, me parece que isso é um perigo, porque estamos no tempo dos modernistas e esses modernistas criaram muita confusão na Igreja. Se o concílio for aberto agora, todos estarão em condição de participar, porque muitos também eram hierarcas da Igreja e creio que isso seria uma magnífica confusão entre os teólogos, sacerdotes, religiosos e até o povo, porque todas estas questões que já haviam sido esclarecidas e algumas condenadas pela Igreja desde Pio X e também um pouco por Bento XV, estas questões estariam livres para discussão e creio que não seria bom para a comunicação e para a opinião católica”. Soube que o Papa levou em consideração o que havia dito o Cardeal Billot – o Cardeal Billot foi retirado do cardinalato alguns anos depois, mas esta é outra questão – mas o Papa teria dito sim, [o Cardeal] tem razão.

Soube também que Pio XII teve uma idéia [sobre um concílio] – estudei quatro anos em Roma quando ele era Pontífice – mas estas razões [mesmas] lhe fizeram pensar e naqueles anos ele havia escrito uma carta encíclica Humani Generis, onde ele condena aberta e duramente todas as posições modernistas, citando, inclusive, muitos teólogos de seu tempo. Eu depois fiz [...] um trabalho [...] sobre esta encíclica e situei muitas de suas citações [de autores] que eram anônimas, mas eram citações, nesta encíclica. Por exemplo, Padre Congar, por exemplo, Padre Schillebeecxs, e outros. [...], mas o Santo Padre havia denunciado muitos teólogos que depois fariam sucesso com os seus escritos.

E por isso creio que o Papa Bento XVI, com sua prudência e sabedoria, não tenha citado nas obras do Papa Pio XII esta encíclica. É interessante, pois me perguntaram uma vez: por que o Papa não cita a Humani Generis? Pensei, pensei, e disse: creio que se o Papa tivesse citado esta encíclica ele criaria um ambiente de oposição a Pio XII por parte de teólogos famosos que continuam tendo muita influência nas questões da Igreja e haviam sido grandes homens famosos, aplaudidos, no Concílio Vaticano II. Para mim foi uma decisão de muita prudência e sabedoria [...]. Depois, quando a questão da canonização tivesse avançado, eles tomariam certamente outra posição.

Mas retornemos. Seria possível que Nossa Senhora tivesse dito que não era de seu gosto, que não lhe agradava uma realização do Concílio? Eu não sei, mas se pode pensar. Com isso eu não quero dizer que o Concílio Vaticano não seja legítimo… e não seja também uma benção para a Igreja.

Não sei se vocês conhecem este livro de Brunero Gherardini, Concilio Vaticano II – Un discorso da fare – publicado pelos Franciscanos da Imaculada, aquela congregação fundada pelo padre Manelli, que é interessantíssimo… terrível este livro… mas mantém uma posição muito justa, muito bem fundamentada. Ele diz que no Concílio foram ditas muitas coisas  que não são boas. Um comentarista francês dizia que era necessário distinguir aquilo que foi dito no Concílio, e foram ditas tantas coisas tolas, por exemplo, quando se discutia – e com todo respeito – a maternidade divina de Maria e também Maria mãe da Igreja; um bispo mexicano, Méndez Arceo, provocou risos, muitos risos, quando disse: “isso não me agrada, pois, se Maria é mãe da Igreja, e se a Igreja é nossa mãe, Maria não será nossa mãe, mas nossa avó”. Uma piada fora de lugar, mas, em suma, tudo era possível, e era uma Excelência que falava. E outras coisas que foram ditas; evidentemente, num ambiente de discussão, pode-se dizer tanta coisa tola [...] o delito que o homem usa e abusa de dizer o que pensa. Portanto, é necessário compreendê-lo.

Mas é ainda mais interessante que muitos daqueles que foram condenados por Pio XII – De Lubac, De Le Blond, Danielou, Congar, etc – eram homens do dia, atuais, durante o Concílio.
Mas, verdadeiramente, eu soube de uma coisa interessante: um professor da  Universidade Gregoriana, que fora responsável pela comissão para os textos preliminares para o Concílio – Padre Tromp – um teólogo magnífico… Falei com ele um pouco antes de sua morte. Ele era meu professor na Gregoriana e eu até fiz um curso especial com ele. E eu perguntei como ele avaliava esta situação e ele me respondeu o seguinte: o Concílio foi um concílio bastante difícil, muito difícil, tanta energia desperdiçada, mas, em suma, uma coisa que se deve dizer é que o Concílio Vaticano II, com todas estas discussões, declarações, documentos, etc, etc, é também a indicação dada por João XXIII de ser um concílio pastoral. Até hoje não se compreende bem este sentido, sentido bem profundo de concílio pastoral. Mas sabemos que não era um concílio de definições, que terminava assim: “todos que disserem o contrário sejam anátemas, etc, etc,” como era praxe. Mas era um concílio que tratava questões católicas, religiosas e mesmo questões não religiosas, mas não concluía mais como os outros concílios, com condenações, excomunhões. Não era um concílio dogmático.

Este sacerdote, que fora nomeado chefe da comissão de redação dos textos preliminares por João XXIII, me disse: “É incrível que um Concílio assim, complexo, heterogêneo, no final das contas tenha contribuído para um dos documentos mais seguros, fundamentais da Igreja. Sim, e ele aludia ao Capítulo 8º da Lumen Gentium. Para o Padre Tromp, este documento seria um dos maiores documentos de toda a história da Igreja.

Bem, nesse Concílio havia um homem que eu admirava muito, muitíssimo, tinha lido várias vezes um de seus livros: “Teologia do Apostolado”, Cardeal Suenens e que, em suma, me fez sofrer[...]. Ele tomou a posição de comando, um comando externo, dos bispos da Alemanha e Holanda. Mas, em suma, ele era um mariólogo, um devoto de Maria e certamente ele é quem inspirou e acompanhou a redação do capitulo 8º. Bem, por que digo isso? Porque quando Suenens disse: “Santidade, não somos crianças [...]”. Recebemos uma carta, para logo ler e assinar. Nós somos bispos, nós somos sucessores dos apóstolos. Sabemos o que fazemos. [... ]. Temos que ler os esquemas e depois vamos discuti-los.

E João XXIII, vocês sabem disso, se amedrontou e disse: “sim sim, faremos um Concílio pastoral” Não há Constituições Dogmáticas num Concílio Pastoral. Faremos um Concílio para discutir as questões do momento, e não as questões de sempre, e dar a resposta convencida pela prudência e sabedoria evangélica.

O estudo feito por Gherardini considera todas essas questões e diz claramente: o Concílio é uma grande graça para o mundo, e também é este concílio, tantas coisas são ditas, mas não há nenhum peso dogmático. [..] Há coisas que podemos chamar de incertas… até alguns teólogos depois do Concílio Vaticano II disseram que a linguagem da teologia de hoje é uma linguagem de incertezas, não há nenhuma certeza em suas declarações.

Assim, me parece que isso explica que tantas coisas tenham chegado a nós com muito pouco fruto. Pelo contrário. Vejamos. Dentro do Concílio Vaticano II, não nas reuniões, foram feitos acordos com os representantes da Rússia para que não se falasse do comunismo, não se falasse de Rússia. Mas isso é o contrário da mensagem de Fátima. O centro da mensagem [...] era a Rússia, da qual virão grandes males para a Igreja e para o mundo. Mas fizeram um acordo. Ah sim! Porque havia bispos ortodoxos [para participar do Concílio]. E nós sabemos hoje que muitos bispos não só na Rússia, mas na Polônia e outros lugares, para não terem obstáculos da parte do governo comunista, faziam vistas grossas a certas coisas. Por exemplo: nós sabemos que este escândalo ocorreu na Polônia de um arcebispo que fora nomeado e que no momento de tomar posse da diocese ele simplesmente disse: “não, não posso tomar posse, porque encontraram um documento assinado por mim que me permitia sair da Polônia para estudar em Roma com a condição de colaborar com o governo sobre as coisas da Igreja que lhe interessavam.”. Este é o problema. [...] O arcebispo de Kiev, que era um homem que se aproximou muito de João Paulo I, na última audiência, morreu lá diante do Papa. Ele não era ninguém menos que um chefe da KGB e era arcebispo de Kiev. Coronel da KGB. [...] É um trabalho de muito tempo de infiltração na Igreja Católica, e se pode dizer que também o fato de Judas fazer parte do colégio apostólico, não disse nada contra Cristo, e no último momento quis lhe trair: “amigo, a que viestes?”. [...] Há momentos extremos de traição e por isso o Senhor tem muitos e muitos caminhos. [...]

Por outro lado, por exemplo, nós sabemos da influência da maçonaria no último Concílio não foi pouca, porque o próprio Monsenhor encarregado da liturgia – Bugnini – tinha escrito uma carta ao chefe da maçonaria italiana, dizendo que pela liturgia havia feito tudo que era possível; tudo aquilo, segundo recebeu instruções, mais não poderia ser feito. [...]  Um padre polonês que encontrou este ofício o levou imediatamente a Paulo VI, que o mandou para fora de Roma, na nunciatura no Irã. Até Monsenhor Benelli, que era o braço direito do Papa, também foi retirado de Roma e estranhamente ambos morreram pouco depois em circunstâncias misteriosas. Dizíamos que era uma queima de arquivo. Entendem, não?
Quero dizer que mesmo os inimigos estando presente dentro da Igreja, isso não deve nos atemorizar, pois o próprio Cristo já contou aquela parábola [...] do trigo e do joio juntos e o Senhor disse “deixai crescer”, depois, na hora da colheita se separará os dois. Pois os maus, como diz Santo Agostinho, ou existem para se converter ou para nos santificar. E isso é verdade. [...] O Senhor, no antigo testamento, deixava os povos bárbaros e desumanos presentes e próximos do povo eleito para garantir a sua fidelidade e seu espírito de sacrifício. E por isso não devemos de maneira alguma pensar que estes problemas possam abalar a nossa fé. Absolutamente!

Uma vez, quando disse um pouco dessas coisas num encontro de bispos, um deles se levantou e me disse: “Você não crê no Espírito Santo?”. Eu disse: “Creio sim, e por isso estou aqui, porque creio no Espírito Santo e sei que as portas do inferno não prevalecerão”. “Eu estarei convosco até o fim do mundo”, tenhamos esta certeza absoluta, não podemos duvidar daquilo que Cristo disse. Isso seria um suicídio religioso. Se não creio em Cristo, em que acreditaria? Em meu pai, em minha mãe, em meu amigo, no Papa? Se não creio em Cristo… e por isso estou seguro, seguro com armas, com sofrimentos, com sangue, sim, sim, é verdade. Quando penso, por exemplo, no Pe. Gruner, vejo nele um mártir da Igreja moderna, sem dúvida. Não se pode compreender a sua vida sem a palavra de Deus que diz: “o reino dos céus é sofre violência, e são os violentos que o alcançam”.

Creio que poderia dizer – digo como uma palavra minha — e suspeitar que o Concílio Vaticano II está relacionado [...] com o terceiro segredo de Fátima. Alguns de vocês me dirão: “mas isso não é atual”. Mas é atual sim, pois se nós publicamos isso, teremos que enfrentar o temor de nossos fiéis que dirão: “O que? Vocês não acreditaram?”… Porque me dirão que eu fui fraco, que eu fui estúpido… essas não são justificativas para que eu possa dizer: “não sou responsável” ou “não estava nessas coisas”.

[...] victoria quae vincit mundum: fides nostra. A nossa fé é a vitória que vence o mundo. Que vence o mundo! Eu estarei convosco até a consumação dos séculos. As portas do inferno com ela. Nem a maçonaria que é o corpo místico de Satanás, nem as heresias são realmente a lepra da nossa Igreja, mas que encontram sempre na graça de Maria e no amor de Cristo um remédio salutar para todos os males, nada disso me deve fazer perder a coragem ou deixar de lutar.

Um dia eu falava na conferência dos bispos do Brasil contra o aborto, porque eu trabalho muito – poderia e deveria ter trabalhado ainda mais. E um bispo me disse: “Mas Dom Pestana, o senhor tem que entender que não podemos perder tempo [...] com uma batalha perdida. O aborto vem! Como veio para quase todas as nações. Não se pode perder tempo com essas coisas”. E eu disse: “Excelência, Deus não te julga se ganhamos ou não a batalha, mas se lutamos e se lutamos bem”. E assim penso que vocês estão fazendo, e por isso estou aqui com a alma renovada, encorajado [...] mesmo com o meu joelho com duas placas de metal.

Deve-se pensar nisso: eu devo lutar. [...]. Sempre recordo de uma estória, e gosto de contar estorinhas [...] para ensinar o catecismo. Um elefante corria na África e, de repente, uma formiga na sua orelha lhe diz: “Elefante, olhe para trás, veja quanta poeira estamos fazendo”. Nós estamos fazendo. E pensamos que somos nós que estamos fazendo. E por isso o personalismo no apostolado é um grande perigo. É Deus quem faz, e só quando os homens se convencerem que Deus faz aquilo que nós fazemos é que acreditarão em nós. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, Amém.
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Fonte: The Fatima Challenge