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Os protestantes afirmam que, nos tempos de Lutero, a Igreja vendia aos mais abastados, lugares no Céu.

Cônego José Luiz Villac

Pergunta
"Os protestantes (luteranos) afirmam, em revista, que nos tempos de Lutero a Igreja vendia aos mais abastados lugares no Céu. Acusam-na e as autoridades eclesiásticas da época de serem `camelôs de indulgência'. É justa esta acusação? Como refutá-los?
"É difícil justificar a posiçäo de nossos irmäos separados de que o `Mandamento' da Igreja foi imposto pelo Divino Mestre só aos Doze Apóstolos e, conseqüentemente, à Igreja. Como convencê-los disso?"
Resposta
Todo pecado acarreta uma dupla conseqüência: uma culpa, que nos afasta da amizade de Deus, e uma pena temporal ou eterna que pune a infraçäo cometida.
O sacramento da Confissäo, ou o arrependimento perfeito,libera a alma daculpa, restabelecendo a amizade com Deus.
Mas nem sempre, ao menos totalmente, libera da pena temporal exigida pela suprema justiça e majestade de Deus e que nós pagaremos aqui nesta Terra ou na outra vida, no Purgatório.
Para remir o pecador dessa pena temporal, no todo ou em parte, a Igreja recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo o poder de utilizar para esse fim os méritos obtidos pela Sua Paixäo, bem como os méritos de Nossa Senhora e de todos os Santos.
Isto se baseia no Poder das Chaves comunicado a Pedro e à Igreja: "Eu te darei as chaves do Reino dos Céus; tudo o que ligares na Terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na Terra será desligado nos Céus" (Mt 16,19).
É também conseqüência da Comunhäo dos Santos, ou seja, a íntima uniäo que existe entre a Igreja Triunfante (os bem-aventurados no Céu), a Igreja Militante (os que ainda batalhamos nesta Terra) e a Igreja Padecente (as benditas almas do Purgatório).
Conforme ensina Säo Paulo, por misericórdia de Deus todos formamos um sóCorpo Místico, do qual Cristo Nosso Senhor é a cabeça enquanto nós somos os membros. Esse Corpo Místico de Cristo é a Santa Igreja Católica (Cfr. Rm. 12, 4s.; 1 Cor 12, 12-27; Ef 1, 23; 5, 23-29; Col. 1, 18-24; 2, 19 etc.).
Entäo podemos rezar uns pelos outros e participar, através da Igreja, dos méritos do Redentor e dos Santos.
Esta é a base da concessäo pela Igreja das chamadas indulgências.
 Urna de prata que contém os restos mortais do Apóstolo São Tiago, na Basílica de Santiago de Compostela, diante dos quais peregrinos rezam, sendo favorecidos por indulgências.
A indulgência é a remissäo, diante de Deus, da pena temporal devida pelos pecados já perdoados quanto à culpa, remissäo que a autoridade eclesiástica, tomando-a do tesouro da Igreja, concede aos vivos à maneira de absolviçäo, e aos defuntos a modo de sufrágio.
Como se vê, tal doutrina nada tem a ver com a acusaçäo ridícula de que a Igreja "vendia lugares no Céu".
Quanto a terem havido abusos, por parte de pregadores inescrupulosos ou ignorantes, isto pode acontecer com as coisas mais santas neste vale de lágrimas. E a própria Igreja, no Concílio de Trento, condenou toda espécie de abusos ou falsas concepçöes a respeito das indulgências.
Mas os protestantes, a começar por Lutero, serviram-se desses possíveis e esporádicos abusos para combater a própria doutrina das indulgências, ou seja, o poder de a Igreja distribuir e aplicar, por sua autoridade, os méritos adquiridos por Nosso Senhor Jesus Cristo e pelos Santos para mitigar a pena temporal devida por nossos pecados.
Essa prática a Igreja utilizou desde seu início, estando ela ligada a certas formas piedosas de devoçäo: romarias, cruzadas, oraçöes, sacrifícios, esmolas, etc.
A condiçäo básica para receber indulgências, convém lembrar novamente, é estar em estado de graça, na amizade de Deus.
Quanto à negaçäo dos protestantes de que Cristo constituiu um Colégio Apostólico, ao qual conferiu poderes especiais de ensinar, santificar e governar, muito resumidamente pode-se dizer o seguinte:
Os Evangelistas narram a escolha feita por Jesus de 12 entre os discípulos, a quem deu o nome de Apóstolos (Mt 10, 2-4; Mc 3, 13-19; Lc 6, 13,16). Ele os instruiu de maneira particular e os associou à sua obra, mandando-lhes que pregassem o reino de Deus (Mt 10, 5-42; Mc 6, 7-13; Lc 9, 1-6).
 As peregrinações a Santiago de Compostela, na Espanha, cuja majestosa Basílica vê-se na fotografia acima, foram beneficiadas há séculos por indulgências concedidas pela Igreja
O texto mais eloqüente relativo ao Colégio Apostólico (que continua na Igreja através do Papa e dos Bispos, sucessores dos Apóstolos) é talvez o de Säo Mateus, ao fim de seu Evangelho, referido também pelos demais Evangelistas (Mt 28, 16-20; Mc 16, 14-18; Lc 24, 36-49; Jo 20, 19-23):
"Os 12 discípulos foram para a Galiléia, para

Qual foi o verdadeiro motivo que fez Martin Lutero se revoltar contra a Igreja?

Pergunta
1- Qual foi o verdadeiro motivo que fez Martin Lutero se revoltar contra a Igreja?Segundo a História, foi porque ele era contra o luxo do Vaticano. O que a Igreja pensa sobre isso?
2- O que acontece com a alma daqueles que nasceram com graves deficiências mentais, ou que vieram a adquiri-las posteriormente, que impossibilitam qualquer discernimento quanto aos atos praticados durante suas vidas? Que destino têm suas almas? Como ficarão no Juízo Final?
Resposta:
1. A afirmação de que Lutero revoltou-se contra a Igreja por ter-se escandalizado com o luxo do Vaticano, não é historicamente correta. Na realidade, tal revolta pode ser explicada – ademais de fatores preternaturais que não podem ser descartados, provenientes de uma violenta ação diabólica contra a Santa Igreja Católica – também por fatores psicológiscos como o temperamento exaltado e insubmisso, e o voto inconsiderado que fez Lutero de tornar-se religioso (por medo e não por vocação autêntica, ao que tudo indica) e, finalmente, pela má formação filosófica e teológica que recebeu, afetada de erros que já haviam sido condenados.
Com efeito, Lutero reeditou erros do inglês Wiclef, do checo Jan Huss e das heresias medievais que defendiam uma Igreja dos Santos, puramente carismática e sem Hierarquia.
Esplendor do Vaticano
Em relação ao esplendor do Vaticano, é preciso como premissa considerar que Deus deve ser louvado com magnificência e seu culto deve necessariamente refletir a infinita grandeza e santidade divinas. Por ordem expressa de Deus, já no Antigo Testamento, Salomão construiu o Templo com o máximo de riqueza, não somente empregando madeiras preciosas, mas utilizando ainda verdadeira profusão de ouro.
Assim, lemos no Iº Livro dos Reis:
"Mandou revestir de ouro todo o Templo, de cima a baixo; mandou recobrir de ouro também todo o altar destinado ao recinto dos fundos.
"No recinto dos fundos o Rei mandou fazer de madeira de oliveira brava dois querubins, cada um com cinco metros de altura. Uma asa do querubim media dois metros e meio e outros tantos media sua segunda asa, de modo que entre uma e outra extremidade das asas havia cinco metros. Também o segundo querubim tinha cinco metros, de modo que os dois querubins tinham a mesma dimensão e aparência: a altura dos dois querubins era de cinco metros. Estes querubins, Salomão os colocou no meio do recinto interno; eles tinham as asas desdobradas, de modo que a asa de um tocava numa parede e a do outro tocava na outra parede, e no meio do recinto a asa de um encostava na do outro. Salomão mandou revesti-los de ouro.
“Mandara cobrir de baixos-relevos esculpidos, representando querubins, palmeiras e grinaldas de flores entreabertas, todo o âmbito das paredes do Templo, por dentro e por fora. Também o pavimento do Templo, revestiu-o de ouro por dentro e por fora.
“Na entrada para o recinto dos fundos mandou fabricar batentes de portas de madeira de oliveira brava, formando a padieira e o umbral a quinta parte da porta.Quanto às duas folhas da porta de madeira de oliveira brava, mandou esculpir nelas baixos-relevos com querubins, palmeiras e grinaldas de flores entreabertas e revesti-las de ouro; aplicou as folhas de ouro batido nos querubins e nas palmeiras.Do mesmo modo, fez para a entrada do recinto central umbrais de madeira de oliveira brava, formando um quarto do conjunto. Fez igualmente duas folhas de madeira de junípero; pôs duas almofadas giráveis numa das folhas da porta e duas almofadas giráveis na outra folha. Nas folhas mandou esculpir baixos-relevos de querubins, palmeiras e grinaldas de flores entreabertas, revestindo-os de ouro bem ajustado sobre os relevos.
“Salomão ainda construiu o muro do pátio interno com três carreiras de pedra esquadriadas e uma carreira de barrotes de cedro.
“No ano quarto, no mês de Ziv, tinham sido lançados os fundamentos da casa do Senhor, e no ano 11, no mês de Bul, que corresponde ao oitavo mês, estava terminada a casa, de acordo com todos os planos e requisitos. Salomão a levantou em sete anos."
Luxo a serviço de Deus
Como vemos, o luxo a serviço do louvor de Deus não somente não é condenável, mas é virtuoso e desejado por Ele mesmo. A riqueza e esplendor dos templos ajudam-nos a compreender melhor a beleza e a grandeza divinas, predicados de sua santidade sem limites. E é um tributo que a criatura presta ao Criador e Soberano Senhor de todas as coisas, de todas as riquezas, de tudo o que existe.
Os protestantes e os anticlericais que falam contra essa riqueza dos templos são, no fundo, igualitários com tendências socialistas e miserabilistas, como mostrou, aliás, o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em sua obra máxima Revolução e Contra Revolução.
Em relação aos protestantes, não devemos nos deixar enredar por seus sofismas e pretender rebater acusação por acusação, mas rejeitar em bloco sua doutrina – a do Livre Exame – segundo o qual cada um pode interpretar a Bíblia como bem entenda, e que não é preciso um magistério autêntico e uma autoridade instituída por Deus para ensinar, santificar e governar o povo fiel.
2- Como ensina a Doutrina Católica, toda pessoa é julgada moralmente pelos atos que praticou livremente e com pleno conhecimento de causa. Assim sendo, as pessoas que nasceram com graves deficiências mentais ou vieram a adquiri-las posteriormente, serão julgadas por Deus de acordo com a responsabilidade que tiveram por seu atos.
Se uma pessoa nasceu e viveu sem o uso das faculdades mentais, por demência, ou alguma outra anormalidade patológica, devemos considerá-la na mesma situação das crianças que morrem antes de atingir o uso da razão. Se elas foram batizadas, irão para o Céu; se não o foram, irão para o Limbo. Este é um estado e um lugar de felicidade natural perfeita, onde não se goza, entretanto, da visão beatifica de Deus e da felicidade sobrenatural da vida gloriosa do Céu.
Dementes não de nascimento
Quanto às pessoas que adquiriram a demência total depois de um período de lucidez -- por exemplo, um adolescente ou adulto que, em virtude de doenças ou acidente, perderam o uso da razão --, serão elas julgadas pelo que fizeram de virtuoso ou pecaminoso, no período anterior a esse novo estado de deficiência mental.
Entre a completa loucura e a plena lucidez, há estados intermediários, que, nos doentes mentais, é difícil de determinar. Mas Deus julga tudo com sua infinita sabedoria, justiça e misericórdia.
É bem evidente que após a morte cessam todas as enfermidades, mesmo as mentais, e quer a pessoa vá para o Céu, o Limbo ou o Inferno, nessa nova condição -- da vida eterna -- ela terá plena lucidez e uso das faculdades mentais.
Juízo Particular
O estado futuro da pessoa é decidido imediatamente após a morte, quando há o julgamento particular. As almas dos que morreram na amizade de Deus e com todas suas dívidas para com Deus saldadas, vão imediatamente para o Céu.Aquelas que têm pecados veniais ou não fizeram penitência suficiente pela pena devida aos pecados perdoados quanto à culpa, vão para o Purgatório por um tempo que varia de acordo com a necessidade de purgação. Por fim, aqueles que morrem na inimizade de Deus, em estado de pecado mortal, vão para o inferno eterno.
Juízo Final
Assim, tão logo morre, a pessoa já é julgada individualmente e a alma toma o seu destino eterno (juízo particular). Quando houver o Juízo Final, no fim dos tempos, haverá a ressurreição dos corpos e dar-se-á a nova e definitiva união da mesma alma e do mesmo corpo, ou para a felicidade sobrenatural, beatifica e eterna no Céu, ou para a felicidade natural no Limbo, ou para a terrível infelicidade sem remissão no Inferno.
Que Deus, pela intercessão de nossa Mãe bondosíssima, nos conceda as graças necessárias para que sejamos fiéis até o fim de nossa vida, e possamos gozar da bem-aventurança eterna.
“Creio na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém!”

São Tomás de Vilanova, O anti-Lutero

Quase na mesma época em que um ex-frade agostiniano, Martinho Lutero, pervertia a Alemanha com sua pseudo-reforma, outro agostiniano, São Tomás de Vilanova, promovia com firmeza a verdadeira reforma religiosa e de costumes na Espanha
Plinio Maria Solimeo
São Tomás de Vilanova nasceu em Fuenllana (Espanha) no ano de 1488 e criou-se em Villanueva de los Infantes, de onde tomou seu nome ao entrar na Ordem dos Agostinianos.
Seus pais, Alonso Tomás Garcia e Lucia Martinez de Castellanos, emulavam nas obras de caridade. Socorriam a toda espécie de necessidades e eram conhecidos na região como “os santos esmoleres”.
Tomás herdou dos pais essa virtude. Dava a seus coleguinhas mais necessitados tudo o que podia, inclusive suas próprias vestes e calçados. Um dia em que os pais não estavam em casa, chegaram seis pobres pedindo esmola. O menino, não encontrando nada para dar-lhes, foi ao galinheiro e pegou seis franguinhos, dando a cada um dos pobres um destes. E disse à mãe que, se houvesse mais um pobre, ter-lhe-ia dado também a galinha.
Seguindo o exemplo da mãe, desde muito cedo começou a jejuar, não só nos dias prescritos pela Igreja, como também em outros de sua devoção. Flagelava-se e fazia outras sortes de penitências como se fosse um adulto. Diz um seu biógrafo que Tomás “começou a praticar a mortificação a fim de fazer sentir à sua carne as dores da penitência, mesmo antes que ela fosse suscetível aos prazeres da concupiscência”.(1) Seu confessor, o Padre Tiago Montiel, depôs publicamente que ele guardou a inocência batismal até o túmulo.
Estudante modelar na universidade de Alcalá
Aos 15 anos, os pais enviaram-no à famosa Universidade de Alcalá, para cursar humanidades, retórica, filosofia e teologia.
Ele o fez com tanto sucesso, nos nove anos de estudos naquela instituição, que era aclamado por todo mundo. Mas sua virtude era ainda mais notável que sua ciência. Apesar do sucesso que obtinha, jamais perdeu sua modéstia e humildade, aceitando os elogios como se não fosse ele que estivesse em foco.
Aos 17 anos, a morte de seu pai obrigou-o a voltar temporariamente para casa, a fim de pôr em ordem os assuntos domésticos. Coube-lhe por herança uma grande residência, que transformou em hospital para os pobres. Sua mãe cumpriu sua vontade, encerrando-se ela mesma no hospital, para passar os seus anos de viuvez a serviço dos pobres.
De professor de filosofia a frade agostiniano
Voltando para Alcalá, passou a ensinar filosofia na Universidade aos 26 anos.Mas outras eram suas preocupações. Havia muito vinha ele pensando em consagrar-se inteiramente a Deus, mediante a vida religiosa. Por isso, deixou as glórias do mundo, pelo hábito agostiniano, fazendo sua profissão solene em 1517. É sintomático que neste mesmo ano, Lutero, ainda frade agostiniano, iniciou sua rebelião contra a Igreja Católica, afixando na porta da capela do Príncipe Eleitor da Saxônia, na cidade de Wittenberg, suas 95 proposições.Dentro da mesma Ordem, outro frade agostiniano, com sua profissão religiosa, iniciaria uma obra restauradora da fé e dos bons costumes — uma autêntica reforma — na Espanha. Tarefa completada posteriormente por Frei Tomás, como santo Arcebispo da cidade de Valência.
Ordenado sacerdote algum tempo depois, celebrou sua primeira Missa no dia de Natal, entrando em êxtase ao cantar o Glória. Ele conservaria para sempre uma terna devoção à Divina Infância e ao Santo Sacrifício do altar. Costumava dizer que é péssimo sinal para um sacerdote, quando ele é visto celebrar a Missa todos os dias sem se tornar melhor nem mais mortificado.
Não perdia um minuto durante o dia. Podia ser encontrado nos cinco diferentes lugares, que consagrou às cinco chagas de Cristo: no altar, no coro, em sua cela, na biblioteca ou na enfermaria, cuidando dos doentes.
O Santo não podia ver um religioso ocioso e inútil, comparando-o a um soldado sem armas e exposto ao ataque de seus inimigos.
Dizia que a ciência e grande erudição, sem a piedade, é como uma espada na mão de uma criança, arma que pode feri-la, pois não tira proveito daqueles dons de ciência para ninguém. Criticava também os religiosos que, sob pretexto de devoção, não se aplicavam suficientemente ao estudo.
Outro São Paulo ou Santo Elias
Designado à pregação, ele a fazia com tanto empenho, que o consideravam um outro São Paulo, pela profundidade de sua doutrina, ou um outro Elias da nova Lei, por causa do zelo que demonstrava em seus sermões. Reformou de tal maneira Salamanca que, segundo voz corrente, a cidade se havia tornado um mosteiro. Muitos jovens renunciaram ao mundo para seguir a Deus. O próprio Imperador Carlos V quis ouvi-lo, e depois escolheu-o para seu pregador. E quando Tomás pregava fora do palácio, o Rei ia disfarçado para ouvi-lo.
O santo não aprovava os pregadores que, para dar mostras de erudição, faziam longos e prolixos sermões. “É na oração, dizia ele, que o homem recebe as luzes que iluminam seu espírito e os ardores que aquecem sua vontade”. E é a esses sentimentos que se deve procurar levar o auditório.
Por uma visão interior, conhecia as necessidades espirituais de seus ouvintes, e o mais admirável era que, por mais diferentes que fossem seus interlocutores, todos saíam com maior piedade após ouvir seu sermão.
Preguiça e ociosidade: inimigas da virtude
Tomás foi eleito prior de Burgos e Valladolid, e duas vezes provincial da Andaluzia e uma de Castela. No governo de seus súditos, sua mansidão de coração e o atrativo de sua pessoa constituíam poderosas armas para exercer sua autoridade.
Nos seus conventos, desejava primeiro que os ofícios divinos fossem celebrados com toda a reverência e atenção possíveis; em segundo lugar, que os religiosos considerassem a meditação e a leitura espiritual como coisas invioláveis; terceiro, que a paz e a união na caridade fraterna fossem guardadas sem nenhuma alteração; e finalmente, que ninguém fosse dominado pela preguiça ou pelo ócio, vícios que são os maiores inimigos da virtude, a ruína da alma, o sorvedouro da castidade e a fonte de todas as desordens.
Com tais normas, fez ele florescer a observância em todas as casas sob sua jurisdição, ou seja, promoveu uma verdadeira reforma no sentido católico do termo.
Arcebispo de Valência, por inspiração divina
Carlos V já tentara inutilmente fazer Frei Tomás aceitar a Sé de Granada.Vagando a de Valência, o Imperador escolheu para o cargo um monge jerônimo.Entretanto, seu secretário apresentou-lhe o documento para assinar em nome de Frei Tomás de Vilanova. O Imperador perguntou por que havia o secretário alterado suas ordens. “Como, majestade! Eu ouvi claramente que vós dizíeis Frei Tomás de Vilanova. Entretanto, é fácil reparar, pois é só refazer o documento”. —“Não, respondeu o Imperador, o que está escrito permanecerá; vós fizestes melhor do que eu disse; ou eu disse melhor o que não pensava. É a mão de Deus”.
Compelido pela santa obediência e ameaçado de excomunhão, caso não aceitasse o cargo, Frei Tomás teve que curvar a cabeça e conformar-se com os desígnios da Providência. Tinha ele então 56 anos.
Pôs-se a caminho, a pé, acompanhado apenas de um frade e dois criados. Ora, estava havendo uma seca muito grande em Valência, mas a chegada do novo arcebispo ocorreu debaixo de chuva, o que muitos interpretaram como sinal das bênçãos que deveria trazer sua administração à arquidiocese.
Conservou como arcebispo seu hábito religioso, que ele mesmo remendava. O cabido da arquidiocese fez-lhe presente de quatro mil ducados, para que comprasse trajes mais condizentes com seu posto. Imediatamente enviou-os ao hospital, agradecendo muito ao cabido e dizendo que o bem que era feito aos doentes ele o tomava como para si.
Começou sua administração pela visita pastoral à sua circunscrição eclesiástica, pregando por toda parte, resolvendo litígios, reformando conventos, extirpando os vícios. Promoveu um sínodo para acabar com muitos abusos e reformar o clero. Os cônegos do cabido recalcitraram e apelaram ao Papa, alegando que deste dependiam diretamente. “Eles não querem obedecer ao meu sínodo e apelam ao Papa; e eu, eu apelo de sua resistência a Nosso Senhor Jesus Cristo. Que eles escapem, se quiserem, à minha justiça, mas não escaparão da d’Ele”. Isso foi suficiente para dobrar o cabido, que se submeteu.
São Tomás teve também que enfrentar o governador que, intrometendo-se na esfera eclesiástica, quis julgar e condenar dois clérigos antes que eles comparecessem ante o tribunal eclesiástico. Como o governador não quis voltar atrás, lançou contra ele as censuras eclesiásticas. O caso foi parar no Vice-Rei, que teve também que ceder diante da tenacidade do santo prelado.
Extraordinária caridade e milagres
A caridade de D. Tomás era insuperável. Atendia diariamente no palácio a mais de 500 pobres, não importava a hora do dia ou da noite em que acorressem pedindo seu auxílio. Freqüentemente acompanhava seus atos de caridade com milagres. A um paralítico que lhe pedia esmola, perguntou se preferia trabalhar e ganhar o sustento com as próprias mãos. À resposta afirmativa, ele lhe disse:“Em nome de Jesus Crucificado, deixa tuas muletas e anda”. No mesmo instante, o pobre começou a andar e a agradecer.
São Tomás de Vilanova tinha arroubos e êxtases em público, diante de seus diocesanos, o que contribuía para aumentar a veneração que por ele sentiam.Seus milagres também eram conhecidos por todo mundo.
Entretanto, como ele dizia, nunca temera tanto salvar-se como desde o momento em que se tornou arcebispo. Isso, devido às responsabilidades que lhe cabiam, pelo bem das almas de todos seus diocesanos. Por essa razão, aspirava ardentemente a renunciar ao cargo e voltar para sua cela de religioso.
Enfim, quando ele suplicava com lágrimas a Nosso Senhor que o livrasse desse pesado fardo, o Crucificado lhe respondeu: “Tenha ânimo, que no dia do nascimento de minha Mãe virás descansar”.
E no dia 8 de setembro de 1555, foi ele receber o prêmio demasiadamente grande de sua fidelidade.(2)
E-mail do autor: pmsolimeo@uol.com.br

Eu, bispo exorcista

Eu, bispo exorcista

Em recente livro, o bispo de Isernia-Venafro, na Itália, descreve suas experiências de exorcista e as surpreendentes conclusões a que foi levado durante uma década de prática do Exorcistado


D. Andréa Gemma: a ação diabólica “é mais nefasta do que se possa pensar”
Na manhã de 29 de junho de 1992, o novo bispo de Isernia-Venafro, D. Andrea Gemma, saía da Basílica Vaticana, olhando pensativo para a Praça de São Pedro. As palavras de São Mateus, “as portas do inferno não prevalecerão” (Mt 16,18), ecoavam em seu espírito com um atrativo sobrenatural. E lhe inspiravam graves considerações: 1) a ação do demônio não só não diminuiu, mas multiplicou-se; 2) o demônio é consciente de que dispõe de pouco tempo; 3) Nosso Senhor Jesus Cristo deu à Igreja enorme poder contra Satanás; 4) para não ser derrotado, o demônio faz tudo para agir no silêncio; 5) chegou o momento de desmascarar a ação insidiosa de Lúcifer e enfrentá-lo de viseira erguida, com as armas de que a Igreja dispõe. (* – pp. 11-12).

Por que não se fala da necessidade de exorcismo?

Voltando à sua diocese, a 170 km de Roma, D. Andrea decidiu pôr em prática o mandato divino “expulsai os demônios” (Mc 16,17). Porque, explica ele, para o bispo, exorcizar “não é uma escolha, é obrigação” (p. 21). E cita o exorcista oficial de Roma, Pe. Gabriele Amorth: “Um bispo que não estabelece pelo menos um exorcista na sua diocese não está isento de pecado mortal por grave omissão” (p. 24).

O resultado foi surpreendente. O poder do inferno se lhe revelou em todo o seu horror e em toda a sua extensão. “Quantas vezes — escreve ele —, nos meus colóquios cotidianos, freqüentemente difíceis, com os doentes de todo tipo, esta verdade se punha diante de mim: ‘Por que não nos falaram antes destas coisas? Por que não nos alertaram com uma adequada instrução? Por que não nos preservaram a nós, grei de Cristo, da devastação dos lobos famintos?” (p. 113).

“Se todos os bispos fossem como você, estaríamos completamente vencidos, e imediatamente” (p. 12), gritou-lhe um demônio por meio de uma mulher possessa, acrescentando em uma outra ocasião: “[mas] vocês são poucos” (p. 62).

Poder da promessa de Nossa Senhora em Fátima

Em 1992, o prelado publicou a pastoral As portas do inferno não prevalecerão. Nela, alertava: “A ação infestante e obscura de Satanás [...] está, acreditai-me, mais difundida e é mais nefasta do que se possa pensar” (p. 15). Na pastoral, D. Andrea convocou a diocese para “uma luta sem quartel, concertada e eficaz contra o mal e as suas artes” (p. 16). O bispo promoveu orações públicas que congregavam multidões vindas de muito longe. O Maligno se externava visivelmente, e aqueles que sofriam alguma ação diabólica eram levados à sacristia para serem objeto de exorcismos específicos.

O bispo não imaginava que sua pastoral daria a volta ao mundo, sendo traduzida em várias línguas. Cartas, imprensa, pessoas de toda Itália e até do exterior, apelando ao seu socorro porque sentiam alguma ação diabólica ou estavam possessas, lhe mostraram que muitos fiéis estavam esperando algo do gênero.

Nos exorcismos, D. Andrea pôde constatar o enorme poder de Nossa Senhora e da Igreja sobre as potências do abismo: “Se quero ver o demônio realmente furioso, basta jogar-lhe água benta, pronunciando esta minha doce certeza: ‘por fim, o Coração materno de Maria triunfará’. ‘Sim!!!’, me responde, sempre rangendo os dentes. Mas algumas vezes acrescenta um desafio: ‘neste meio tempo, quantos levaremos conosco’...” (p. 63).

D. Andrea interrogou várias vezes os demônios possuidores:

— “Vós, que vexais as vossas vítimas, tirais algum proveito ou alívio disso?

— Não, pelo contrário, nós sofremos um maior agravamento das nossas penas.

— E, então, por que o fazeis?

— Por ódio, por ódio, por ódio” (p. 61).

A Igreja em crise não usa as suas armas

Imagem do Arcanjo São Miguel, que liderou a luta contra Lúcifer no Céu
O bispo procurou inspiração nos textos do Vaticano II, e eis as suas conclusões: “Ide e folheai todos os documentos do Concílio Vaticano II, [...] verificai se se fala, e quantas vezes, do demônio e das suas obras. Sabeis que naqueles dezesseis documentos, pensados e ponderados, não existe sequer a palavra inferno, nem a palavra ‘demônio’? Incrível, mas verdadeiro, basta ir verificar...” (p. 88).

Ele debruçou-se sobre os textos litúrgicos antigos e novos. E ficou estupefato: “Sempre lamentei que na reforma da Missa se tenha tirado aquela oração a São Miguel [Exorcismo Breve], que Leão XIII, não sem inspiração do alto, quis que fosse recitada no fim de cada celebração. Muitas vezes o demônio, pela voz dos possessos, fez saber que gostou muitíssimo dessa abolição! [...] O que é que sugeriu e sugere evitar-se o mais possível, nos textos litúrgicos, a menção a Satanás, às suas nefastas intervenções, às conseqüências da sua ação destrutiva? Quem possa, que me responda. E com argumentos válidos, por favor. [...] Hoje a obra assassina do demônio é mais evidente do que nunca [...]. Então, não somente não era o caso de expurgar as fórmulas deprecatórias e imprecatórias, mas sim de multiplicá-las e reforçá-las. Porém, infelizmente não foi assim” (p. 27).

O ambiente laicizado hodierno: vitória do demônio

D. Andrea reparou que os históricos dos que padecem malefícios e o dos possessos eram muito parecidos. É imensa, diz ele, a quantidade de ocasiões que o contexto atual oferece às serpentes infernais para se apossarem das suas vítimas.

O rock, além do uso da droga, representou importante fator na quarta etapa da Revolução.
“A maior vitória do diabo consiste em convencer os homens de que ele não existe”. Esta verdade indiscutida levou o prelado à conclusão de que o ambiente moderno serve de luva ideal para as garras infernais. A todo momento, esse ambiente sugere que não há Deus nem demônio, nem Céu nem inferno. E os espíritos malignos atacam e invadem os corpos das suas vítimas de inúmeras formas. Há cultos satânicos explícitos. Mas também implícitos, como certas técnicas de meditação e algumas terapias alternativas, superstições ou modas tipo Nova Era ou músicas tipo rock and roll.

Como é que a humanidade gerou esse ambiente enganosamente neutro e materialista, porém tão útil para os espíritos das trevas?

A Revolução gera ambiente propício à ação diabólica

D. Andrea dá uma elucidativa explicação histórica. Ela se aproxima muito da denúncia do processo revolucionário que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira formula na sua obra magistral Revolução e Contra-Revolução. Não descartamos que o culto bispo italiano tenha tirado dela alguma inspiração: “A laicização da nossa sociedade é o fruto de um longo e complexo processo que durou cerca de cinco séculos, e que se desenvolveu em três etapas fundamentais, três revoluções no campo cultural e social, mas com lances também cruentos, que levaram à gradual transformação do mundo antigo, tradicional, para dar na sociedade atual, pós-moderna e secularizada”.

D. Andrea descreve essas sucessivas revoluções: primeiro a revolução protestante, que causou um grande desgarramento da sociedade cristã medieval; segundo o Iluminismo e a Revolução Francesa; terceiro a Revolução comunista marxista. Por fim, acrescenta, uma quarta etapa ou Revolução: a do movimento estudantil dos anos 60, que contestou a família, generalizou o uso da droga, propugnou a libertação dos vínculos morais, e sobretudo revoltou-se contra toda autoridade. Esse processo gerou uma sociedade e uma cultura que tendencialmente seduzem os homens para a idéia de que Deus e a religião são coisas absurdas (pp. 113ss).

Há os que se deixam levar por essa influência, ensina D. Andrea. Mas há também os que reagem de um modo exasperado e caem no exagero oposto: as novas e enganosas formas de religiosidade. Todas são fáceis presas de Lúcifer.

Armas para derrotar os demônios

Estatutária medieval: Nossa Senhora defende o monge Teófilo (séc VI) de ação diabolica
D. Andrea exorta os fiéis a recorrerem às armas que vencem o demônio: a Fé, os Livros Sagrados, o jejum, os sacramentos. E, sobretudo, a oração por meio de Nossa Senhora, a “inimiga eterna de Satanás” (p. 16). Entre as orações específicas, ele recomenda a renúncia formal a Satanás, como se faz na renovação das promessas do batismo, e o exorcismo breve: “São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate; cobri-nos com vosso escudo contra os embustes e ciladas do demônio. Subjugue-o Deus, instantemente o pedimos, e vós, Príncipe da Milícia Celeste, pelo divino poder, precipitai no inferno a Satanás e aos outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas. Amém” (p. 17).

E recomenda também não se deixar seduzir pelo ambiente revolucionário hodierno nem pelas falsas novidades nas formas de religiosidade — inclusive no âmbito católico —, que tanto e tão bem servem de ocasião para os malefícios e possessões por parte do pai da mentira.

Com essas cautelas e armas espirituais, o católico resistirá e sairá vitorioso, confiando sempre na promessa divina: “As portas do inferno não prevalecerão” (Mt 16,18).

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Notas:

* D. Andrea Gemma, Io, vescovo esorcista (Eu, bispo exorcista), Editora Mondadori, Milão, 2002, 208 pp. Todas as citações do artigo são extraídas desse livro.