Os Jesuítas na América latina
Por Prof. Carlos Ramalhete
As técnicas de penetração
Aos jesuítas não agradavam as técnicas espanholas que os franciscanos e dominicanos em geral aceitavam. A simples leitura por um intérprete de um texto que poderia ser resumido grosseiramente em "aceite a Deus e ao Rei como seus superiores por bem ou o faremos aceitar por mal" não lhes condizia em absoluto. As técnicas dos colonizadores portugueses eram-lhe ainda mais repulsivas. O objetivo dos jesuítas era, antes de mais nada, a conversão verdadeira dos índios. Tanto espanhóis quanto portugueses queriam reduzir os índios a escravidão; a única diferença era a maior honestidade dos portugueses, que não disfarçavam sob títulos pomposos e pseudo-misericordiosos os seus intentos.
Assim, os jesuítas procuraram manter-se longe dos colonizadores, trabalhando por conta própria. Armados apenas com seus utensílios sacros e alguns instrumentos musicais, os jesuítas adentravam as matas e caminhavam enormes distâncias, de modo a serem os primeiros a encontrar os índios. Encontrando-os, tocavam música para atraí-los. Atraindo-os, procuravam contar a eles a Boa Nova e convencê-los, sem jamais usar da força, a aderir à religião cristã.
Para isso eles aprenderam as línguas indígenas, compilaram dicionários e gramáticas, e chegaram ao ponto de criar uma língua nova, amálgama das línguas faladas pelos índios da costa brasileira, para que se tornasse possível a comunicação entre todas as tribos. A esta língua foi dado o nome de "Nheengatu", ou Língua Geral.
O objetivo dos jesuítas era a evangelização, não a europeização dos índios. Isso causou enormes dificuldades com os colonizadores, pois apesar da aceitação geral pelos índios evangelizados da suserania do Rei eles não se tornavam pequenos espanhóis ou pequenos portugueses. Não aprendiam a falar as línguas européias e mantinham todos os seus hábitos culturais que não fossem contrários à Lei Cristã. Era, em suma, criada uma nova cultura cristã de base indígena.
As missões e reduções
Em 1604, pregando aos colonizadores espanhóis em Assunção, o Pe. jesuíta Lorenzana despertou o ódio geral ao ameaçar com a cólera divina os espanhóis se não libertassem os índios que haviam escravizado em incursão pelo interior. Esta foi a gota d'água. A situação tornou-se tensa demais entre os jesuítas e a população espanhola; calúnias surgiram por toda parte, e algo precisava ser feito.
Por mais desagradável que tenha sido, entretanto, este incidente causou indiretamente um grande bem. Afinal, o Rei D. Felipe III já havia proibido em 1601 a escravidão indígena. Em 1606 ele exigiu o desenvolvimento do sistema reducional nos novos contatos com nativos, e reiterou esta ordem em 1609. Três anos depois, em 1607, o superior geral da Companhia, Pe. Cláudio Aquaviva, erigiu uma província nova da Companhia de Jesus: a Província do Paraguai, dedicava à evangelização dos índios no interior. Esta província, que começou com oito padres, já contava com 113 sacerdotes sete anos depois. Seu primeiro superior provincial foi o Pe. Torres, a quem o Visitador do Rei , D. Francisco de Alfaro, sugeriu a vinculação direta das novas reduções à Coroa, para libertar os jesuítas dos entraves causados pelos colonizadores e pelas autoridades cúmplices do tráfico de escravos.
Partindo assim das regiões dominadas pela Espanha, missionários jesuítas avançaram rumo ao sudeste, adentrando as amplas planícies dos Pampas e do Chaco. Nestas planícies, encontraram tribos indígenas semelhantes às existentes no território dominado pelos portugueses, não culturas desenvolvidas e hierarquizadas como haviam anteriormente encontrado os espanhóis no México e nos Andes.
Atraindo-os pacificamente, os jesuítas lograram construir o que já foi chamado "a utopia de mais longa duração": a República das Missões. "Reduzindo" os índios, ou seja, convencendo-os a viver em "reduções", em cidades construídas de pedra, os jesuítas edificaram uma verdadeira civilização cristã indígena em um território que hoje faz parte do Paraguai, Uruguai e Brasil. A língua dos índios - o guarani, até hoje falado por ampla parcela da população paraguaia - foi mantida; a autoridade de seus caciques foi respeitada; suas regras de vida, quando não contrárias ao Evangelho, permaneceram em prática. Uma nova civilização começou a desenvolver-se.
Estas missões, ou reduções, foram certamente um fenômeno único na história da América Latina. Afastando-se dos bárbaros colonos europeus, os jesuítas avançaram da antiga terra dos Incas a oeste, penetrando no atual território paraguaio, uruguaio, brasileiro e argentino. A "República Guarani", estabelecida pelos jesuítas sob a suserania do Rei da Espanha, tinha características administrativas ímpares. Séculos antes de qualquer outro Estado proibir a pena de morte, já era tal a regra nas Missões. A música, as artes, os ofícios mais variados eram ensinados pelos jesuítas aos índios. O talento natural dos nativos para as artes foi descoberto e desenvolvido à perfeição por seus mestres jesuítas. Basta dizer que foram construídas belíssimas catedrais, dotadas de órgãos de tubos; que foram organizados, treinados e ensaiados à perfeição corais de por vezes mais de mil cantores; que foram feitas orquestras; que até hoje a harpa, instrumento aristocrático por excelência, é no Paraguai instrumento popular entre os descendentes dos índios missioneiros.
Nas missões era a priori proibida a entrada de brancos; apenas os padres e irmãos jesuítas transitavam livremente por estes territórios. Esta medida visava evitar não apenas a captura dos índios pelo escravagistas espanhóis, como também a proteção dos nativos evangelizados contra o deletério efeito da pouquíssima moral da ralé colonizadora. Este foi um trabalho dificílimo em seu início; os feiticeiros, evidentemente, buscavam rebelar os índios contra os jesuítas; freqüentemente os índios que não haviam nascido nas reduções relapsavam em antigos hábitos e entregavam-se à embriaguez, ao canibalismo, ao assassinato. Com o tempo, porém, à medida que as novas gerações foram crescendo e suplantando os antigos, que lembravam da vida selvagem, estes problemas foram acabando, apenas para serem substituídos pelos choques com os espanhóis e, mais grave, com as criminosas excursões dos bandeirantes com o propósito de seqüestrar índios missioneiros e reduzi-los à escravidão.
A organização social das missões era, inicialmente, uma versão cristianizada da organização tribal; os caciques mantinham a sua autoridade, que pouco a pouco diminuía até ser atingida uma quase igualdade entre os índios. O padre não participava diretamente da administração secular senão como consultor com poder de veto. Suas sugestões eram evidentemente acatadas, mas as minúcias do governo eram deixadas nas mãos dos índios, que elegiam livremente seus líderes (os caciques viram-se aos poucos transformados em uma nobreza honorífica, sem direito de mando real).
Este não foi um trabalho fácil. Os padres chegavam a pé, sozinhos, armados apenas com seus utensílios litúrgicos, e atraíam os nativos pela música. Falando com eles em suas próprias línguas - para isso foram compostas pelos jesuítas gramáticas e dicionários -, era-lhes anunciada a Boa Nova. Atraídos então pelos padres para uma vida sedentária, os índios construíam, sob a orientação dos missionários, aldeias e cidades cujas ruínas até hoje não deixam de impressionar os visitantes. Estas cidades de pedra eram feitas do nada; cada ferramenta, cada martelo, era construído pelos índios com os materiais de que pudessem dispor, sob as instruções de mestres jesuítas.
As missões eram completamente auto-sustentadas. Criava-se gado, plantava-se o necessário, minerava-se e fundia-se o ferro. Os impostos eram pagos à Coroa espanhola em espécie, visto não circular dinheiro nas Missões. Tudo nestas vastas cidades indígenas era comum; não havia bens particulares, não havia selvageria. Os raros criminosos eram levados, ou melhor, iam de bom grado ao padre, que determinava sua punição. Após serem punidos, normalmente voltavam os índios para agradecer ao sacerdote.
Não se trata de pequenas comunidades de hippies com algumas dezenas de pessoas; o território missioneiro contava em 1700 com 73 religiosos nas 30 reduções já fundadas: 8 no atual Paraguai, 15 na atual Argentina e 7 no atual Rio Grande do Sul. Nelas viviam noventa mil índios, que formavam vinte e três mil famílias. Nos 158 anos que durou a República Guarani, houve apenas sete visitações episcopais.
Confrontos e inimizades
O maior inimigo das missões em seus primeiros anos foram os bandeirantes paulistas. As incursões escravagistas destes mercenários provocavam tamanho terror entre os índios que aqueles eram comparados por estes a demônios encarnados. Há até mesmo uma interessante amostra desta percepção - não de todo errônea - a ser vista ainda hoje em uma igreja gaúcha: uma escultura de S. Miguel Arcanjo em que ao invés de representar o Santo pisando em um demônio vencido ele é mostrado pisando em um bandeirante.
Os ataques bandeirantes tinham na verdade duas causas. Além da busca de escravos, objetivo primeiro dos aventureiros na ausência de ouro e pedras preciosas, havia por trás de tudo uma dura questão política. Os bandeirantes não eram mais portugueses; consideravam-se antes de mais nada paulistas. Somando-se a esta identidade primordialmente local o fato de que o Trono de Portugal esteve em mãos espanholas de 1580 a 1640, diminuindo mais ainda qualquer reconhecimento de autoridade superior por parte dos aventureiros, e o apoio dos colonos portugueses e espanhóis, que não viam com bons olhos as reduções cheias de índios enquanto eles trabalhavam sem auxílio escravo, as incursões bandeirantes eram também afirmações do domínio territorial que desejavam ter naquelas regiões. A Coroa Espanhola, que acabaria por lucrar mais cedo ou mais tarde com os frutos das minerações bandeirantes, fechava normalmente os olhos a tais incursões. Estavam assim os índios e os jesuítas forçados a defender-se por sua própria conta e risco, com as armas que pudessem fabricar e valendo-se apenas de suas próprias forças, sem esperança de auxílio exterior.
Durante o período de união das coroas ibéricas foram muitos os ataques dos bandeirantes. A partir de 1628 eles foram se tornando progressivamente mais graves; em uma só incursão, certa feita, foram capturados e escravizados pelos paulistas trinta mil índios missioneiros. No período de dois anos que vai de 1628 a 1630 foram raptados ao todo cerca de sessenta mil índios. As reduções da região de Guaíra, no atual território brasileiro, tiveram que ser abandonadas em 1631, quando os padres Montoya e Mendoza encabeçaram uma multidão de doze mil índios, atravessando selvas e lugares onde até hoje não há estradas para fugirem da sanha bandeirante e refugiar-se nas missões situadas juntos aos rios Paraná e Alto-Uruguai.
Em 1639, às vésperas da separação de Portugal e Espanha, a Coroa espanhola permitiu que os índios usassem armas de fogo. Foram então fabricados arcabuzes e outras armas leves, com as quais poderiam finalmente defender-se das incursões predadoras dos bandeirantes.
A maior batalha entre os missioneiros e os paulistas, com avassaladora derrota destes, foi a Batalha de Mbororé, no dia 11 de março de 1641. No Rio Uruguai enfrentaram-se 800 bandeirantes acompanhados por seis mil índios tupis, seus aliados, e quatro mil guaranis missioneiros. Os bandeirantes portavam todos armas de fogo; os tupis usavam azagaias e flechas, e os guaranis tinham, ao todo, 57 arcabuzes. A estes, porém, somavam-se engenhosos canhões feitos de bambu grosso envolto em couro, que atiravam balotes de pedra com peso e força suficiente para fazer naufragar uma canoa.
Ao ver aproximarem-se os bandeirantes, o líder guarani, Cacique Inácio Abiaru, avançou com poucos guerreiros e bradou ser uma vergonha que gente que se dissesse cristã quisesse escravizar a outros cristãos. A isso nada respondeu o chefe bandeirante, capitão-mor Manoel Pires. A batalha então começou. Dois dias de batalha ininterrupta depois, vendo as balas de pedra dos canhões de bambu arrasando suas tropas; recebendo o fogo certeiro dos arcabuzes dos guaranis; sofrendo tamanha chuva de flechas que mal podiam sair de seus abrigos, os bandeirantes procuraram convencer os missioneiros que não eram escravagistas, estavam apenas em busca de outros bandeirantes desaparecidos naquela região. De nada lhes valeu a artimanha. Foram desbaratados, e fugiram de volta ao planalto paulista com os guaranis em seus calcanhares. Durante muito tempo não voltaram os bandeirantes a atacar as reduções.
Começava então a fase áurea das reduções. A maior parte dos índios já havia nascido nas missões; os antigos hábitos de canibalismo, roubo, estupros já haviam sido abandonados, e tudo isso já não mais ocorria.
Um problema de natureza diferente, porém, impedia o pleno florescimento desta belíssima civilização cristã guarani. A incerteza das fronteiras traçadas pelo Tratado de Tordesilhas fazia do direito de posse o verdadeiro indicador de soberania. Portugal e Espanha cobiçavam aquelas terras férteis, consideradas como suas de direito por ambos os lados. Como os jesuítas que povoaram a região haviam saído de território espanhol e pertenciam a uma província eclesiástica sediada em Assunção, cidade incontestavelmente pertencente à Espanha, a vassalagem da República Guarani era prestada aos Reis de Espanha. Seus impostos iam para a Coroa Espanhola, e pela Coroa Espanhola foram nomeados defensores da fronteira oriental.
Isso não era visto com bons olhos pela Coroa portuguesa, que ambicionava aquelas terras. Durante cem anos persistiu a questão de fronteira, com os índios guaranis das Missões defendendo ardorosamente seu território contra os ataques das tropas portuguesas e paulistas e dos maus colonizadores espanhóis.
O fim das Missões e da Companhia
Os colonizadores portugueses e os paulistas, como já vimos, não viam com bons olhos aquele gigantesco enclave armado e auto-suficiente em uma terra que consideram sua por direito. Os colonizadores espanhóis, porém, tampouco aceitavam de bom grado a presença das reduções, que os privavam de mão-de-obra escrava (ilegal, mas amplamente utilizada). Além disso, quando de uma sublevação em Assunção em 1753, quando se instaurou uma Comuna independente, o exército guarani sitiou a cidade e a fez retornar à submissão à Coroa, o que evidentemente não contribui para aumentar sua popularidade entre os habitantes. As acusações foram tamanhas que foi ordenada em Madri uma investigação completa, cujo resultado foi favorável aos guaranis.
Em 1750, finalmente, foi assinado o Tratado dos Sete Povos, que expulsou do atual território brasileiro as sete reduções jesuíticas. Foram expulsos de nosso território os trinta mil habitantes que se viram forçados a abandonar os corpos de seus ancestrais em cemitérios tomados depois pelo mato, a abandonar suas imensas plantações, a esvaziar edifícios lindíssimos construídos pelo trabalho de gerações de índios cristãos. Foi forçado a sair do atual território brasileiro, por medo de ser escravizado, o único povo que não tinha pena de morte em sua legislação, o povo que fazia as mais belas obras de arte, o povo que produziu os primeiros impressos de toda a América.
Doze anos depois, em 1762, o Tratado foi revogado e o território dos Sete Povos voltou à Coroa espanhola. Os índios puderam voltar, mas por pouco tempo. Em 1767, o Conde de Aranda determinou a expulsão dos jesuítas dos territórios da Coroa da Espanha. O Marquês de Bucarelli, governador de Buenos Aires, recebeu a incumbência de efetuar a expulsão, com instruções determinando que ele fosse morto se ao fim do ano restasse algum jesuíta, ainda que doente ou à beira da morte, em sua área. Esquadrões de cavalaria fizeram ser cumprida a ordem, levando embora os jesuítas - muitos dos quais já haviam esquecido suas línguas nativas e só sabiam o guarani e o latim - em meio às lágrimas dos valentes índios, que não ousavam levantar-se contra o Rei de Espanha que tantas vezes haviam defendido.
As reduções passaram à administração colonial espanhola, terminando com o belo trabalho de já mais de século e meio dos jesuítas. Os índios aos poucos foram se afastando, e hoje as Missões são apenas as impressionantes ruínas de elevadíssima civilização.
Nos territórios submetidos à Coroa portuguesa, a queda dos jesuítas foi quase simultânea. O Marquês de Pombal, maçom fervoroso e iluminista às raias da caricatura, ordenou a expulsão sumária dos jesuítas de todo o território português, acusando-os de tentativa de regicídio. Em 19.I.1759 foram confiscados todos os bens da Companhia nos territórios portugueses. Em 3.IX.1759, foram expulsos todos os padres. Isso foi feito de maneira tão violenta e brutal que o próprio Voltaire afirmou que "l'excès du ridicule et de l'absurdité y fut joint à l'excès d'horreur".
A campanha contra os jesuítas, na verdade, era universal. Alvo dos mais ferozes ataques de todos os hereges, dos protestantes aos iluministas, os filhos de Santo Inácio de Loiola acabaram por sofrer o mais baixo de todos os golpes pela mão do Papa Clemente XIV (1769-1774), que fôra eleito com apoio dos governos antijesuítas. O irmão do Marquês de Pombal foi feito Cardeal, e a Companhia de Jesus foi extinta. O superior Geral da Companhia, Pe. Lourenço Ricci (1758-1773), foi encarcerado no Castel Sant'Angelo, onde passou o resto de seus dias. Foi o momento mais negro da história do Papado, e o fim da Companhia de Jesus tal como estabelecida por Santo Inácio. O caminho estava livre para Revolução que alguns anos mais tarde banhou a França em sangue. Abriram-se as portas para a lenta transformação da Cristandade na barbárie do Século XX.
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FIM