| Líderes do Oxford Movement |
Por Pedro Goulart
O
Movimento de Oxford se caracterizou por ter seguido caminhos que seus
iniciadores simplesmente não imaginavam. Nasceu em meados do século XIX,
com o propósito de ser uma fonte de renascimento para a Igreja
Anglicana, de forma que esta pudesse melhor combater tanto demais
correntes protestantes (os chamados “não-conformistas”), quanto a
própria Igreja Católica. Porém, surpreendemente para muitos, os Tractarians (“Tractarianos” ou “Tratadistas”, devido ao seu principal meio de difusão de ideias, os “Tracts for the Times”)
se aproximam tanto da Verdade a respeito da natureza da Igreja, que
muitos de seus membros se convertem e se unem à Roma. Dessa forma, o
Movimento de Oxford contribui ainda de forma significativa para o
renascimento do Catolicismo no Reino Unido e nos países de língua
inglesa em geral, a partir da passagem do século XIX para o século XX.
O Movimento começa como uma reação a políticas cada vez mais
intrusivas da Coroa Britânica em relação à Igreja da Inglaterra, que
passa a ser considerada como um simples órgão de governo. Com o Reform Act
de 1832, o governo reduz o número de bispos da Igreja da Irlanda, o que
é visto como um enorme abuso pelos primeiros Tractarianos, como John
Henry Newman, Edward Pusey, e John Keble. Em 1833 é publicado o primeiro
Tract, com o objetivo de combater o crescente liberalismo teológico e secularismo dentro da Igreja Anglicana.
Ainda que com oposições, o Movimento começa a gerar grandes frutos
entre os anglicanos. A tese central era que existia sim uma Igreja
Católica, entendida como Igreja Universal instituída por Cristo através
dos Apostólos. Porém, defendiam que esta Igreja em tese universal tinham
3 ramos que com a mesma legitimidade representavam esta sucessão
apostólica: a Igreja Ortodoxa, a Igreja Anglicana, e a própria Igreja
Católica Romana. Assim ressaltavam a continuidade ininterrupta da Igreja
da Inglaterra, o que inclui a Igreja medieval, noção rejeitada pelos
demais protestantes. Os Tractarians
teciam enormes críticas à Igreja Católica por considerarem o Papado uma
instituição “corrupta”. De fato, não fugiam muito à mentalidade
corrente à época. Desde a era Elizabetana, no século XVI, os “papistas”,
como eram chamados pejorativamente, eram vistos como bárbaros a serviço
de um poder estrangeiro (é preciso ter em mente que o anglicanismo é
extremamente sui generis
entre os protestantes. Ao invés de proposições teológicas
revolucionárias, ele basicamente se caracteriza como um
jurisdicionalismo eclesial, ou seja, uma tendência, que não era
exclusiva da Inglaterra, de defender o controle da Igreja local pela
Coroa ao invés de Roma). A Rainha Elizabeth I, que consolidou a reforma
anglicana, restringiu de forma brutal diversos direitos dos católicos,
como os relativos à propriedade e acesso às universidades inglesas, bem
como à celebração da Missa. Os católicos ingleses passaram a recuperar
direitos a partir do final do século XVIII, em especial com o Ato de
Emancipação dos Católicos de 1829. Porém, a mentalidade negativa
permanecia em grande parte.
Mas seria justamente o Movimento de Oxford que, imprevisivelmente,
contribuiria para mudar esse quadro, através de seu iniciador, o Beato
John Henry Cardeal Newman. Este gradualmente ia notando a grande
irrealidade da sua proposta de uma Via Media,
na qual afirmava ser o anglicanismo um ponto de equilíbrio entre o
protestantismo evangélico e liberal e o catolicismo romano. Essa
percepção progressiva culmina no último Tract,
o 90, publicado em 1841, no qual o Beato Newman defendia polemicamente
que os 39 Artigos da Igreja da Inglaterra poderiam ser inerpretados em
um sentido estritamente católico, posição que suscitou graves
condenações, que levaram à saída de Newman da liderança do Movimento,
que se retira de Oxford. No início, Newman negava ardentemente as
acusações de que o Movimento tinha como objetivo levar os anglicanos
para a Igreja romana. Com o tempo, porém, o futuro cardeal da Igreja
viria a se despir completamente de seus preconceitos, abraçando a
verdadeira Igreja de Cristo.
O Movimento de Oxford suscitou ainda muitas conversões ao
catolicismo, como as de Robert Hugh Benson, filho do Arcebispo anglicano
de Canterbury e que se torna sacerdote católico; Gerard Manley Hopkins,
poeta que se torna padre jesuíta; e do eminente teólogo e tradutor de
textos bíblicos Ronald Knox, que foi convertido por influência do grande
Chesterton, antes mesmo do escritor ter se convertido. Depois, é Knox
que influencia Chesterton em sua entrada definitiva ao Catolicismo.
Dentro do âmbito do próprio anglicanismo, surge o chamado
“anglocatolicismo” e a chamada High Church, ramo dos anglicanos que se
aproxima fortemente de sua herança católica, e que tem recentemente
retornado em peso ao seio da Igreja.