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O movimento de Oxford (Oxford Movement)

Líderes do Oxford Movement


O Movimento de Oxford se caracterizou por ter seguido caminhos que seus iniciadores simplesmente não imaginavam. Nasceu em meados do século XIX, com o propósito de ser uma fonte de renascimento para a Igreja Anglicana, de forma que esta pudesse melhor combater tanto demais correntes protestantes (os chamados “não-conformistas”), quanto a própria Igreja Católica. Porém, surpreendemente para muitos, os Tractarians (“Tractarianos” ou “Tratadistas”, devido ao seu principal meio de difusão de ideias, os “Tracts for the Times”) se aproximam tanto da Verdade a respeito da natureza da Igreja, que muitos de seus membros se convertem e se unem à Roma. Dessa forma, o Movimento de Oxford contribui ainda de forma significativa para o renascimento do Catolicismo no Reino Unido e nos países de língua inglesa em geral, a partir da passagem do século XIX para o século XX.

O Movimento começa como uma reação a políticas cada vez  mais intrusivas da Coroa Britânica em relação à Igreja da Inglaterra, que passa a ser considerada como um simples órgão de governo. Com o Reform Act de 1832, o governo reduz o número de bispos da Igreja da Irlanda, o que é visto como um enorme abuso pelos primeiros Tractarianos, como John Henry Newman, Edward Pusey, e John Keble. Em 1833 é publicado o primeiro Tract, com o objetivo de combater o crescente liberalismo teológico e secularismo dentro da Igreja Anglicana.

Ainda que com oposições, o Movimento começa a gerar grandes frutos entre os anglicanos. A tese central era que existia sim uma Igreja Católica, entendida como Igreja Universal instituída por Cristo através dos Apostólos. Porém, defendiam que esta Igreja em tese universal tinham 3 ramos que com a mesma legitimidade representavam esta sucessão apostólica: a Igreja Ortodoxa, a Igreja Anglicana, e a própria Igreja Católica Romana. Assim ressaltavam a continuidade ininterrupta da Igreja da Inglaterra, o que inclui a Igreja medieval, noção rejeitada pelos demais protestantes.  Os Tractarians teciam enormes críticas à Igreja Católica por considerarem o Papado uma instituição “corrupta”. De fato, não fugiam muito à mentalidade corrente à época. Desde a era Elizabetana, no século XVI, os “papistas”, como eram chamados pejorativamente, eram vistos como bárbaros a serviço de um poder estrangeiro (é preciso ter em mente que o anglicanismo é extremamente sui generis entre os protestantes. Ao invés de proposições teológicas revolucionárias, ele basicamente se caracteriza como um jurisdicionalismo eclesial, ou seja, uma tendência, que não era exclusiva da Inglaterra, de defender o controle da Igreja local pela Coroa ao invés de Roma). A Rainha Elizabeth I, que consolidou a reforma anglicana, restringiu de forma brutal diversos direitos dos católicos, como os relativos à propriedade e acesso às universidades inglesas, bem como à celebração da Missa. Os católicos ingleses passaram a recuperar direitos a partir do final do século XVIII, em especial com o Ato de Emancipação dos Católicos de 1829. Porém, a mentalidade negativa permanecia em grande parte.

Mas seria justamente o Movimento de Oxford que, imprevisivelmente, contribuiria para mudar esse quadro, através de seu iniciador, o Beato John Henry Cardeal Newman. Este gradualmente ia notando a grande irrealidade  da sua proposta de uma Via Media, na qual afirmava ser o anglicanismo um ponto de equilíbrio entre o protestantismo evangélico e liberal e o catolicismo romano. Essa percepção progressiva culmina no último Tract, o 90, publicado em 1841, no qual o Beato Newman defendia polemicamente que os 39 Artigos da Igreja da Inglaterra poderiam ser inerpretados em um sentido estritamente católico, posição que suscitou graves condenações, que levaram à saída de Newman da liderança do Movimento, que se retira de Oxford. No início, Newman negava ardentemente as acusações de que o Movimento tinha como objetivo levar os anglicanos para a Igreja romana. Com o tempo, porém, o futuro cardeal da Igreja viria a se despir completamente de seus preconceitos, abraçando a verdadeira Igreja de Cristo.

O Movimento de Oxford suscitou ainda muitas conversões ao catolicismo, como as de Robert Hugh Benson, filho do Arcebispo anglicano de Canterbury e que se torna sacerdote católico; Gerard Manley Hopkins, poeta que se torna padre jesuíta; e do eminente teólogo e tradutor de textos bíblicos Ronald Knox, que foi convertido por influência do grande Chesterton, antes mesmo do escritor ter se convertido. Depois, é Knox que influencia Chesterton em sua entrada definitiva ao Catolicismo. Dentro do âmbito do próprio anglicanismo, surge o chamado “anglocatolicismo” e a chamada High Church, ramo dos anglicanos que se aproxima fortemente de sua herança católica, e que tem recentemente retornado em peso ao seio da Igreja.