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Uma revolução igualitária movida pela inveja

Dr. Plínio Correa de Oliveira

Revolução Francesa! O tema ocupou as páginas de nossa revista, ininterruptamente de maio a dezembro de 1989, e em fevereiro do presente ano, a propósito das comemorações do bicentenário daquele trágico evento. Fatos diversos e centrais do período revolucionário (1789-1815) foram aqui lembrados, bem como noticiadas as comemorações realizadas no ano passado, sobretudo na França.
Hoje, apresentamos aos leitores uma análise do que foi o espírito da Revolução Francesa, e do modo pelo qual foi ela discutida desde seu desencadear até nossos dias.
O presente trabalho — o qual nos desvenda, em profundidade, o motor da Revolução Francesa — é o resultado de anotações extraídas de uma penetrante conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, proferida para sócios e cooperadores da TFP, em 23 de agosto do ano passado.
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Lutero pensa que é divino!


Não compreendo como homens da Igreja contemporâneos, inclusive dos mais cultos, doutos ou ilustres, mitifiquem a figura de Lutero, o heresiarca, no empenho de favorecer uma aproximação ecumênica, de imediato com o protestantismo, e indiretamente com todas as religiões, escolas filosóficas, etc.Não discernem eles o perigo que a todos nos espreita, no fim deste caminho, ou seja, a formação, em escala mundial, de um sinistro supermercado de religiões, filosofias e sistemas de todas as ordens, em que a verdade e o erro se apresentarão fracionados, misturados e postos em balbúrdia? Ausente do mundo só estaria – se até lá se pudesse chegar – a verdade total; isto é, a fé católica apostólica romana, sem nódoa nem jaça.
Sobre Lutero – a quem caberia, sob certo aspecto, o papel de ponto de partida nessa caminhada para a balbúrdia total – publico hoje mais alguns tópicos que bem mostram o odor que sua figura revoltada espargiria nesse supermercado, ou melhor, nesse necrotério de religiões, de filosofias, e do próprio pensamento humano.
Segundo em anterior artigo prometi, tiro-os da magnífica obra do padre Leonel Franca S. J., "A Igreja, a Reforma e a Civilização" (Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 3ª ed., 1934, 558 pp.).
Elemento absolutamente característico do ensinamento de Lutero é a doutrina da justificação independente das obras. Em termos mais chãos, que os méritos superabundantes de Nosso Senhor Jesus Cristo só por si asseguram ao homem a salvação eterna. De sorte que se pode levar nesta terra uma vida de pecado, sem remorsos de consciência, nem temor da justiça de Deus.
A voz da consciência era, para ele, não a da graça, mas a do demônio!
  1. Por isso escreveu a um amigo que o homem vexado pelo demônio, de quando em quando "deve beber com mais abundância, jogar, divertir-se e mesmo fazer algum pecado em ódio e acinte ao diabo, para lhe não darmos azo de perturbar a consciência com ninharias (...) Todo o decálogo se nos deve apagar dos olhos e da alma, a nós tão perseguidos e molestados pelo diabo"(M. Luther, "Briefe, Sends breiben und Bedenken", e. De Wette, Berlim, 1825-1828 – cfr. op. cit., pp. 199-200).
  2. Neste sentido, escreveu ele também: "Deus só te obriga a crer e a confessar.Em todas as outras coisas te deixa livre e senhor de fazeres o que quiseres, sem perigo algum de consciência; antes é certo que, de si, Ele não se importa, ainda mesmo se deixasses tua mulher, fugisses do teu senhor e não fosses fiel a vínculo algum. E que se lhe dá (a Deus), se fazes ou deixas de fazer semelhantes coisas?"("Werke", ed. de Weimar, 12, pp. 131 ss. – cfr. op. cit., p. 446).
  3. Talvez ainda mais taxativo é este incitamento ao pecado, em carta a Melanchton, de 1º de agosto de 1521: "Sê pecador, e peca a valer (esto peccator et pecca fortiter), mas com mais firmeza ainda crê e alegra-te em Cristo, vencedor do pecado, da morte e do mundo. Durante a vida presente devemos pecar. Basta que pela misericórdia de Deus conheçamos o Cordeiro que tira os pecados do mundo. Dele não nos há de separar o pecado, ainda que cometêssemos por dia mil homicídios e mil adultérios"(Briefe, Sendschreiben und Bedenken", ed. De Wette, 2, p. 37 – cfr. op. cit. p. 439).
  4. Tão descabelada é esta doutrina, que o próprio Lutero a duras custas nela conseguia acreditar: "Nenhuma religião há, em toda a terra, que ensine esta doutrina da justificação; eu mesmo, ainda que a ensine publicamente, com grande dificuldade a creio em particular"( Werke", ed. de Weimar, 25, p. 330 – cfr. op. cit., p. 158).
  5. Mas os efeitos devastadores da pregação assim confessadamente insincera de Lutero, ele mesmo os reconhecia: "O Evangelho hoje em dia encontra aderentes que se persuadem não ser ele senão uma doutrina que serve para encher o ventre e dar larga a todos os caprichos"("Wekw", ed. de Weimar, 33, p. 2 – cfr. po. cit., p. 212).
  6. E Lutero acrescentava, acerca de seus sequazes evangélicos, que "são sete vezes piores que outrora. Depois da pregação da nossa doutrina, os homens entregaram-se ao roubo, à mentira, à impostura, à crápula, à embriaguez e a toda espécie de vícios. Expulsamos um demônio (o papado) e vieram sete piores"("Werke", ed. de Weimar, 28, p. 763 – cfr. op. cit., p. 440).
    "Depois que compreendemos não serem as boas obras necessárias para a justificação, ficamos muito mais remissos e frios na prática do bem (...) E se hoje se pudesse voltar ao antigo estado de coisas, se de novo revivesse a doutrina que afirma a necessidade do bem fazer para ser santo, outra seria a nossa alacridade e prontidão no exercício do bem"("Werke", ed. de Weimar, 27, p. 443 – cfr. op. cit., p. 441).
  7. Todas essas insânias explicam que Lutero chegasse ao frenesi do orgulho satânico, dizendo de si mesmo: "Este Lutero não vos parece um homem extravagante? Quanto a mim, penso que ele é Deus. Senão, como teriam os seus escritos e o seu nome a potência de transformar mendigos em senhores, asnos em doutores, falsários em santos, lodo em pérolas!" (Ed. Wittemberg, 1551, t. 4, p. 378 – cfr. op. cit., p. 190).
  8. Em outros momentos, a opinião que Lutero tinha de si mesmo era muito mais objetiva: "Sou um homem exposto e implicado na sociedade, na crápula, nos movimentos carnais, na negligência e em outras moléstias, a que se vêm ajuntar as do meu próprio ofício"("Briefe, Sendschreiben und Bedenken", ed. De Wette, 1, p. 232 – cfr. op. cit., p. 198). Excomungado em Worms em 1521, Lutero entregou-se ao ócio e à moleza. E a 13 de julho escreveu a outro prócer protestante, Melanchton: "Eu aqui me acho, insensato e endurecido, estabelecido no ócio, oh dor!, rezando pouco, e deixando de gemer pela Igreja de Deus, porque nas minhas carnes indômitas ardo em grandes labaredas. Em suma, eu que devo ter o fervor do espírito, tenho o fervor da carne, da libidinagem, da preguiça, do ócio e da sonolência"(Briefe, Sendscheiben und Bedenken", ed. De Wette, 2, p. 22 – cfr. op. cit. p. 198).
Num sermão pregado em 1532: "quanto a mim confesso – e muitos outros poderiam sem dúvida fazer igual confissão – que sou desleixado assim na disciplina como no zelo, sou muito mais negligente agora que sob o papado; ninguém tem agora pelo Evangelho o ardor que se via outrora" ("Saemtliche Werke", ed. de Plochman-Irmischer, 28 (2), p. 353 – cfr. op. cit. p. 441).

O que de comum se pode encontrar, pois, entre esta moral, e a da Santa Igreja Católica Apostólica Romana?

Lutero: não e não!

Plinio Corrêa de Oliveira



Tive a honra de ser, em 1974, o primeiro signatário de um manifesto publicado em cotidianos dos principais do Brasil e reproduzido em quase todas as nações onde existiam as então onze TFPs. Era seu titulo: "A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas - Para a TFP: omitir-se? Ou resistir?" (cfr. "Folha de S. Paulo", 10-4-74).

Nele, as entidades declararam seu respeitoso desacordo face à "Ostpolitik" conduzida por Paulo VI, e expunham pormenorizadamente suas razões para tanto. Tudo – diga-se de passagem – expresso de maneira tão ortodoxa que ninguém levantou a propósito qualquer objeção.

Para resumir numa frase, ao mesmo tempo toda a sua veneração ao Papado e a firmeza com a qual declaravam sua Resistência à "Ostpolitik" ­vaticana, as TFPs diziam ao Pontífice "Nossa alma é Vossa, nossa vida é Vossa. Mandai-nos o que quiserdes. Só não nos mandeis que cruzemos os braços diante do lobo vermelho que investe. A isto nossa consciência se opõe".

Lembrei-me desta frase com especial tristeza, lendo a carta escrita por João Paulo II ao cardeal Willebrands (cfr. "L'Osservatore Romano", 6-11-83­­), a propósito do quingentésimo aniversário do nascimento de Martinho­ Lutero, e assinada no dia 31 d­e outubro, data do primeiro ato de rebelião do heresiarca, na Igre­ja do castelo de Wittenberg. Está ela repassada de tanta benevolência e amenidade, que me perguntei se o Augusto signatári­o esquecera as terríveis blasfêmias que o frade apóstata lançara contra Deus, Cristo Jesus Filho de Deus, o Santíssimo Sacramento, a Virgem Maria e o próprio Papado.

O certo é que ele não as ignora, pois estão ao alcance de qualquer católico culto, em livros de bom quilate, os quais ainda hoje não são difíceis de obter.

Tenho em mente dois deles. Um, nacional: é “A Igreja, a Reforma e a Civilização" do grande jesuíta Padre Leonel Franca. Sobre o livro e o autor, os silêncios eclesiásticos oficiais vão deixando baixar a poeira.

O outro livro é de um dos mais conhecidos historiadores franceses deste século, Funck-Brentano, membro do Instituto de França e aliás insuspeito protestante

Comecemos por citar textos colhidos na obra deste último: “Luther” (Grasset, Pari­s, 1934 7a. ed., p. 352).
"Eu não posso e não vou me retratar". Com essas palavras, Lutero defende os seus escritos na Dieta de Worms, em abril de 1521


E vamos diretamente a esta blasfêmia sem nome: "Cristo – diz Lutero – cometeu adultério pela primeira vez com a mulher da fonte, de que nos fala João. Não se murmurava em torno dele: ‘Que fez, então, com ela?’ Depois com Madalena, em seguida com a mulher adúltera, que ele absolveu tão levianamente. Assim Cristo, tão piedoso, também teve de fornicar, antes de morrer" ("Propos de table", nº 1472, ed. de Weimar 11, 107 – cfr. op. cit., p. 235).

Lido isto, não nos surpreende que Lutero pense – como assinala Funck-Brentano –que "certamente Deus é grande e poderoso, bom e misericordioso .... mas é estúpido – ‘Deus est stultissimus’ (“Propos de table” nº 963, ed. de Weimar, 1, 487). É um tirano. Moisés agia movido por sua vontade, como seu lugar-tenente, como carrasco que ninguém superou, nem mesmo igualou em assustar, aterrorizar e martirizar o pobre mundo" (op., cit., p. 230).

Tal está em estrita coerência com estoutra blasfêmia, que faz de Deus o verdadeiro responsável pela traição de Judas e pela revolta de Adão: "Lutero – comenta Funck-Brentano – chega a declarar que Judas, ao trair Cristo, agiu sob imperiosa decisão do Todo-Poderoso. ‘Sua vontade (a de Judas) era dirigida por Deus; Deus o movia com sua onipotência’. O próprio Adão, no paraíso terrestre, foi constrangido a agir como agiu. Estava colocado por Deus numa situação tal que lhe era impossível não cair" ( op. cit., p. 246).

Coerente ainda nesta abominável seqüência, um panfleto de Lutero intitulado "Contra o pontificado romano fundado pelo diabo", de março de 1545, chamava o Papa, não "Santíssimo", segundo o costume mas "infernalíssimo", e acrescentava que o Papado mostrou-se sempre sedento de sangue (cfr. op. cit., pp. 337-338).
A igreja luterana...


Não espanta que, movido por tais idéias, Lutero escrevesse a Melanchton, a propósito das sangrentas perseguições de Henrique VIII contra os católicos da Inglaterra. "É licito encolerizar-se quando se sabe que espécie de traidores, ladrões e assassinos são os papas, seus cardeais e legados. Prouvesse a Deus que vários reis da Inglaterra se empenhassem em acabar com eles" (op. cit., p. 254).

Por isso mesmo exclamou ele também: "Basta de palavras: o ferro! o fogo!" E acrescenta: "Punimos os ladrões à espada; por que não havemos de agarrar o papa, cardeais e toda a gangue da Sodoma romana e lavar as mãos no seu sangue?" (op. cit., p. 104).

Esse ódio de Lutero o acompanhou até o fim da vida. Afirma Funck-Brentano: "Seu último sermão público em Wittenberg é de 17 de janeiro de 1546: o último grito de maldição contra o papa, o sacrifício da missa, o culto da Virgem” (op. cit., p. 340).

Não espanta que grandes perseguidores da Igreja tenham festejado a memória dele. Assim "Hitler mandou proclamar festa nacional na Alemanha a data comemorativa de 31 de outubro de 1517, quando o frade agostiniano revoltoso afixou nas portas da igreja do castelo de Wittenberg as famosas 95 proposições contra a supremacia e as doutrinas pontifícias" (op. cit., p. 272 ).
...e o governo comunista da Alemanha Oriental aliaram-se para comemorar o qüingentésimo aniversário de Lutero, em 1983


E, a despeito de todo o ateísmo oficial do regime comunista, o Dr. Erich Honnecker, presidente do Conselho de Estado e do Conselho de Defesa, o primeiro homem da República Democrática Alemã, aceitou a chefia do comitê que, em plena Alemanha vermelha, organizou as espalhafatosas comemorações de Lutero neste ano (cfr. "German Comments", de Osnabruck, Alemanha Ocidental, abril de 1983).

Que o frade apóstata tenha despertado tais sentimentos num líder nazista, como mais recentemente no líder comunista, nada de mais natural.

Nada mais desconcertante e até vertiginoso, do que o ocorrido quando da recentíssima comemoração do quingentésimo aniversário do nascimento de Lutero num esquálido templo protestante de Roma, no dia 11 do corrente.

Desse ato festivo, de amor e admiração à memória do heresiarca, participou o prelado que o conclave de 1978 elegeu Papa. E ao qual caberia, portanto, a missão de defender, contra heresiarcas e hereges, os santos nomes de Deus e de Jesus Cristo, a Santa Missa, a Sagrada Eucaristia e o Papado!

"Vertiginoso, espantoso" – gemeu, a tal propósito, meu coração de católico. Que, sem embargo, com isto redobrou de fé e veneração pelo Papado.

Conduz ao materialismo o vendaval igualitário

O Marquês de Spinola, comandante das valorosas tropas de Felipe II, recebe das mãos de Justino de Nassau, em Breda, no Brabante, Países Baixos, as chaves da cidade, que capitula depois de uma resistência intrépida. Quadro famoso de Velásquez.
O general do Rei Católico está revestido de uma imponente armadura sobre a qual uma gola com rendas dá uma nota de amenidade, realçada ainda pela grande faixa própria ao comandante-chefe. Em sua mão esquerda nota-se o bastão do marechalato. Justino de Nassau se apresenta em um rico traje, e também usa gola e punhos de renda.
A cena se passa no campo, e num ambiente estritamente bélico. Nosso clichê não reproduz senão a parte central do quadro, no qual figuram de ambos os lados, tropas de armas na mão. Tudo não obstante, o encontro tem uma nota de distinção e afabilidade que lembra uma cena de salão. Justino de Nassau, tendo sido derrotado, apresenta-se de chapéu na mão, e entrega as chaves curvando-se ligeiramente. Spinola, por respeito para com o valoroso vencido, está também com a cabeça descoberta. Atrás dele, os "hidalgos" de seu séqüito o imitam. Vê-se que o chefe vencedor, ao mesmo tempo que se inclina levemente, contém com o braço a reverência do gentil-homem flamengo, e o seu semblante é impregnado de simpatia e consideração. Percebe-se que ele felicita o adversário pelo brilho da resistência, amenizando assim cavalheirescamente o que o ato de rendição tem de amargo para o vencido.
Toda uma doutrina de cortesia, toda uma tradição de nobreza de alma se exprime nos pormenores discretos mas eloqüentes deste quadro admirável.Elevação de alma, decorrente da fé, cortesia nascida da caridade, que faziam rutilar valores espirituais inestimáveis, num ato que em si mesmo é inevitavelmente rude e humilhante, como toda rendição.
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A mesma cena na segunda guerra mundial. Os americanos, valorosos defensores do forte de Corregidor, nas Filipinas, se entregam aos japoneses.
Segundo o estilo pragmatista e nivelador de nossos dias, todo protocolo foi suprimido de parte a parte. Nada há, que signifique apreço e confiança recíprocos. O vencedor exige que o vencido levante as mãos, porque desconfia de uma cilada. O vencido obedece, também desconfiado, esperando que assim se reduza à categoria de assassínio vulgar qualquer ataque de que ele seja objeto.De ambos os lados, neste encontro trágico, tudo está reduzido ao mínimo exigido pelo espírito prático. Nenhum valor cultural ou moral ilumina o ambiente pesado e vulgar, que sucede ao heroísmo imortal da resistência americana. A cortesia, o cavalheirismo, a elevação de vistas de outrora já não se manifestam no ato da rendição. Cenas como esta não ocorrem só entre americanos e japoneses, mas se repetem idênticas entre outros povos.
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Em um de seus magníficos discursos à Nobreza e ao Patriciado Romano, disse Pio XII que numa democracia verdadeira deveria haver instituições de "tônus aristocrático" ( cfr. alocução de 1946, "Catolicismo", nº 64, abril de 1956 ). Isto também é verdade para os costumes.
De 1789 para cá, em progressão alarmante, a sociedade se vem nivelando cada vez mais, rumo à igualdade completa. Pari passu, os costumes se vêm vulgarizando. E se chegarmos à igualdade completa chegaremos também à completa vulgaridade. Mas como a completa vulgaridade é a redução das coisas à sua expressão mais ínfima, e nas coisas o que há de mais ínfimo é a matéria, é ao materialismo completo que nos leva o vendaval igualitário!

Será anacrônico tudo que não é "moderno"?

Plínio Corrêa de Oliveira
( Edifício Holiday - Recife)

Longa fachada segundo o estilo moderno. Massa esmagadora. Ausência completa e inexorável de decoração, que passa muito além do limite do simples e do severo, para descambar inteiramente no pobre, no indigente até, e no sinistro.Para sua moradia, o homem deseja algo que alie à distinção uma afabilidade, uma amenidade acolhedora, que lhe dê a sensação da proteção e do repouso.Para tanto é indispensável que a habitação seja suscetível de se deixar impregnar pelo espírito do homem, e quase diríamos pelo calor de sua presença.E isto não só no interior como na fachada. Do homem, dizíamos, e de cada homem, com suas diversidades, com as mil originalidades brilhantes, curiosas ou modestas, que Deus deu a cada alma, e cuja manifestação constitui um dos encantos da vida.
Como imaginar que neste imenso prédio de cimento armado, cuja única pretensão é de se mostrar possante por sua massa, geometricamente correta por suas proporções, e vigorosa por sua implacável e sombria uniformidade, as famílias nele instaladas possam deixar cada qual a marca pitoresca, miúda, variada quase diríamos ao infinito, de seu modo de ser?
Pelo contrário, uma construção como esta não será um terrível meio de socializar, nivelar, comprimir e despersonalizar? Sobretudo se se considera o efeito, não de um só edifício, mas de toda uma cidade neste estilo?
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Em contraposição a esta fachada ultramoderna, considere-se este prédio de apartamentos em estilo tradicional. Não diremos que é uma obra prima. Mas é razoavelmente agradável de ser visto. O que a extensão da fachada poderia ter de excessivo é disfarçado e reduzido às proporções do homem por vários meios. O edifício comporta uma parte central em torno da qual se dispõem dois corpos de cada lado, distintos e simétricos entre si. Na fachada evita-se uma uniformidade caricata, por meio de terraços e "window-box" aprazíveis. Tudo é proporcionado, e atende à regra essencial da variedade dos pormenores e das partes na unidade harmônica do conjunto.
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Mas, dirá alguém, isto é velho. Cumpre que nos ajustemos aos tempos. Cada época tem suas características. É preciso aceitar as que são impostas pelos dias em que vivemos, e pelas circunstâncias que nos rodeiam. Ninguém, absolutamente ninguém, poderia construir em pleno século XX uma cidade no estilo do segundo clichê. E só mentalidades irremediavelmente apegadas ao passado, a modos de ser, de sentir e de pensar definitivamente peremptos, poderiam recusar o espírito e as exigências de nesse tempo tão completamente quanto o faz o autor desta crítica quanto à primeira gravura.
Como responder a esta objeção, tão freqüentemente repetida a propósito de certos comentários publicados nesta secção?
Consideradas as coisas de modo inteiramente abstrato, só um demente poderia ser sistematicamente contrário ao que se produz em seu tempo, e sistematicamente favorável ao que se produziu em épocas anteriores. Assim, ninguém pode ser, ninguém é partidário de todo o antigo, e hostil a todo o moderno. Mas, isto posto, apressamo-nos em acrescentar que das palavras "antigo" e "moderno" se faz um abuso miserável, que nos recusamos a aceitar. Se por "moderno" se entende tudo quanto se faz em nossos dias, seja qual for sua orientação ou inspiração, "Catolicismo" é tão moderno - e esta secção de "Ambientes, Costumes, Civilizações" também - quanto a mais extremada das folhas que fazem a apologia sistemática de Picasso, Le Corbusier, etc. Pois temos todos a mesma nota essencial de modernidade, que é a de existir no século XX, e muito precisamente em 1956. Mas se no que hoje existe se faz uma discriminação, para colar o epíteto de "moderno" em umas coisas e negá-lo a outras, estamos no direito de discutir o critério dessa discriminação.Especialmente se ela reserva esse epíteto a obras de uma inspiração, e o nega às de inspiração contrária. Por que, afinal, nosso prédio do primeiro clichê, e seus congêneres, são modernos? Por que romperam com toda tradição? Se modernidade é antitradicionalismo, então somos antimodernos. Pois queremos um progresso na linha da tradição, como o recomenda o Santo Padre Pio XII em seus discursos à nobreza romana ( v. "Catolicismo", nos. 63 a 65 ). Ou são modernos porque nunca se fez nada de parecido em época anterior? Isto faz lembrar a ilusão de certos brasileiros que pensam dever gostar da macumba porque os turistas que aqui vêm afirmam nada ter visto de igual alhures. A macumba é típica de nosso país, talvez. Como o estilo desse primeiro edifício é típico de nosso século. Mas o homem tem de típico não só qualidades como defeitos. E do fato de se provar que esse estilo é típico não se pode deduzir que é bom.
Enfim - e seja isto para edificação de nossos "modernos" - o prédio de nossa segunda gravura é muito moderno, pois foi construído há pouco, e é elemento integrante de toda uma cidade edificada segundo a mesma concepção, por gente... muito insuspeita de obediência aos princípios do passado! Esse prédio que tanto engenheiro ocidental hesitaria em edificar hoje, foi levantado na Stalingrado reconstruída, de pós-guerra. O que lhe falta então para ser "moderno", pelo menos segundo certos critérios?
De onde se vê que nada tem de retrógrado nossa secção, e que não nos dariam o epíteto de anacrônicos muitos arquitetos comunistas, ao contrario do que fazem não poucos católicos...
Mas, dir-se-á, a Rússia mandou construir este e outros prédios do mesmo gênero, simplesmente para efeito de propaganda no Ocidente, pois eles estão em oposição com o coletivismo que é o próprio espírito do socialismo. Então os russos reconhecem que tão fundo é, em pleno século XX, o apego do Ocidente aos estilos tradicionais, que vale a pena, só para propaganda gastar milhões de rublos construindo uma cidade em moldes que lhes desagradam. E neste caso, por que chamar de anacrônicos estes estilos?
Na realidade, a arte dita moderna, à qual negamos o monopólio da modernidade, deforma, desequilibra, arrasa as almas. Os dirigentes russos hão de prezar muito que esta escola artística viceje entre seus adversários. Desejá-la-ão para si? O caso é outro. Possivelmente esperem que o comunismo tenha vencido no mundo inteiro, para aplicar este instrumento de destruição psíquica ao seu próprio povo. No momento isto não lhes conviria, pois o povo russo é seu instrumento na demolição do que resta da Cristandade. Esse e outros fatos é que bem explicam a contradição palpitante: estilo socializante em países que não são socialistas, e estilo tradicional em países que são dominados inteiramente pelo socialismo.
De qualquer modo, note-se bem: se quem ama os estilos tradicionais e recusa os destampatórios "modernos" tem a mentalidade imobilizada no passado, será preciso dizer que os chefes comunistas são homens totalmente imobilizados na era da burguesia ou quiçá da aristocracia.
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O tema transborda dos limites desta secção. Não pretendemos tê-lo esgotado. Mas pensamos ter introduzido no assunto alguns "aperçus" esclarecedores e oportunos...

O Santíssimo Nome de Maria e o dever de zelar pela gloria de Deus

Dia 12 de setembro: festa do Santíssimo Nome de Maria. Nessa data, no ano de 1683, tendo o rei João Sobieski com seus poloneses vencido os maometanos que assediavam Viena e ameaçavam a Cristandade, o bem-aventurado Papa Inocêncio XI estendeu essa festa à toda Igreja, como agradecimento à intercessão da Mãe de Deus.
            Os antigos consideravam o nome como uma espécie de símbolo da pessoa, de onde, durante muito tempo, se ter desenvolvido muito o uso das iniciais, que é de algum modo símbolo do nome.
Então, o nome é o símbolo da realidade psicológica, moral, espiritual, mais profunda que está na pessoa. E, por causa disso, o Santissimo Nome de Nossa Senhora, como o Santíssimo Nome de Jesus, deve ser considerado nome simbólico da virtude excelsa de Nossa Senhora, simbólico de sua missão,  daquilo que Ela verdadeiramente é.
O Nome de Nossa Senhora é a afirmação desta glória interior, a afirmação destes predicados interiores. E, por causa disso, o Nome de Maria seria a manifestação – simbólica é claro – de tudo quanto há de excelso em Nossa Senhora. Festejando este Nome, festejamos a glória que Nossa Senhora teve, tem e terá no Céu, na terra e em todo universo. 
Quanto à Sua glória no Céu, já está tudo dito: Ela é a Rainha de todos os Anjos e de todos os santos e está colocada incomparável, incomensuravelmente acima de todas as criaturas. De maneira que na ordem criada, Ela é o cone para o qual tudo converge e é, então, nossa medianeira com Deus Nosso Senhor. E a glória que Ela com isso tem é simplesmente inexprimível, pois que é uma decorrência de Sua condição de Mãe do Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo.
Na terra – nós precisamos pensar muito nisto –, na terra também Nossa Senhora deve ser glorificada: Gloria Patri, et Filio et Spiritui Sancto. Aí se responde: Sicut erat in principio, et nunc et semper, et in secula saeculorum, Amen – Assim como era no princípio, agora e sempre e por todos os séculos dos séculos, Amém. O normal é que Nossa Senhora fosse venerada na terra, e que o Nome santíssimo de Nossa Senhora fosse glorificado de modo inexprimível.
Os senhores imaginem um mundo como a Cristandade, na qual, em toda ela soprasse o espírito de São Luís Grignion de Monfort, os srs. imaginem que em toda essa Cristandade os discípulos de São Luís Grignion fossem o sal da terra e dessem realmente o tom da piedade de Nossa Senhora, e os srs.  compreendem o que seria a glória de Nossa Senhora no mundo. Seria incomparavelmente mais do que é hoje!
Nós vemos Nossa Senhora tão glorificada pela Santa Igreja, ao menos até o momento em que começou o “progressismo”. Essa glória nos parecia  imensa, mas não era nada em comparação com a glória que Ela deveria ter e que seria uma glória dentro do espírito de São Luís Grignon. E esta glória de Nossa Senhora, nós a devemos amar ardentemente, porque é insuportável que Nossa Senhora não tenha toda a glória que Ela deveria ter. É simplesmente a coisa mais odiosa, mais execrável, que o vício, que o crime, que a Revolução, que a maldade dos homens, que o demônio enfim, consiga diminuir a glória que Ela deva receber dos homens.
E nós deveríamos, em relação à glória de Nossa Senhora, ser zelosos como filhos na casa de sua mãe. Imaginem se um filho pode se sentir bem na casa de sua mãe, quando vê que recusam à sua mãe as atenções que lhe são devidas...Como podemos nos sentir bem na terra, que está sujeita ao reinado de Nossa Senhora, vendo que na terra são recusadas as honras e as atenções a que Nossa Senhora tem direito? Isto deve ser para nós uma ocasião contínua de pesar...muito mais do que pesar, de indignação, de indignação enorme por ver que a Rainha não está sendo reconhecida por todos no papel em que Ela deve o ser. 

 Nossa Senhora da Esperança Macarena (Sevilha – Espanha)
 Peçamos a Nossa Senhora que aceite o nosso desagravo pelas injúrias que Lhe são feitas e que está continuamente recebendo. E que Ela disponha nossas almas para uma reparação completa. Mas devemos fazer um exame de consciência, perguntando-nos a nós mesmos se nossa reparação é como deveria ser e se não deveríamos também oferecer uma reparação... pela deficiência de nossa reparação.
E este é um ponto em que temos muito que pensar. Porque não podemos pedir perdão de um modo superficial a Nossa Senhora pelo que fizeram os outros, sem pedir perdão pelo que fazemos nós também, como se nos aproximássemos de Seu trono sem culpa, como se nós fôssemos ilibados e os outros carregados de culpa! Portanto pedir a Ela que aceite uma reparação pela pífia reparação de seus pobres reparadores.
Como seria a reparação perfeita? Esta decorreria de um amor pleno, de uma noção plena de tudo quanto Nossa Senhora representa, noção plena de tudo quanto Ela é. Porque não se trata apenas de uma noção teórica, mas  uma noção prática, viva, noção concreta que se deve ter.
E depois nos perguntarmos se durante o dia - quando estamos trabalhando, quando vemos uma revista, quando lemos um livro, por exemplo - o zelo pela glória de Deus e pela glória de Nossa Senhora verdadeiramente nos devora. Ou se não há ocasiões em que somos fracos, pífios, em que nossos interesses pessoais, nossas questões de amor próprio, nossos problemas de mil questões de susceptibilidade e de coisas desse gênero não interferem e não empanam o zelo que devemos ter pela glória de Nossa Senhora. Porque se interferem, empanam, e se pensamos demais em nós e pensamos pouco nEla, nossa reparação não será tão plena como deveria ser.
E aqui entra mais uma vez a oportunidade de recorrermos aos nossos Anjos da Guarda e a nossos Santos protetores, pedindo que eles se unam a nós para dar à nossa reparação um valor que, de si, ela não tem, para ser uma reparação adequada, reta e que de fato satisfaça. Sugeriria, portanto, que rezássemos para que nossa reparação fosse boa e para que nos preparássemos para sermos perfeitos reparadores.
Tenho a maior esperança de que levando estas disposições ao pé do altar de Nossa Senhora, isto terá como conseqüência que Ela nos dispense abundantes graças e que Seu sorriso receberá, senão a nossa reparação, pelo menos a nossa humildade. E esta humildade nós podemos e devemos levar aos Seus pés.