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NOTRE CHARGE APOSTOLIQUE, São Pio X

Carta Apostólica
NOTRE CHARGE APOSTOLIQUE
sobre os erros do Sillon
Introdução
1. Nosso encargo apostólico Nos impõe o dever de vigiar sobre a pureza da fé e a integridade da disciplina católica, de preservar os fiéis dos perigos do erro e do mal, sobretudo quando o erro e o mal lhes são apresentados numa linguagem atraente, que, encobrindo o vago das idéias e o equívoco das expressões sob o ardor do sentimento e a sonoridade das palavras, pode inflamar os corações por causas sedutoras mas funestas. Tais foram, outrora, as doutrinas dos pretensos filósofos do século XVIII, as da Revolução e as do Liberalismo, tantas vezes condenadas; tais são ainda hoje as teorias do Sillon, que, sob aparências brilhantes e generosas, muitas vezes carecem de clareza, de lógica e de verdade, e, por este aspecto, não exprimem o gênio católico e francês.
Ao "Sillon" não faltavam relevantes qualidades
2. Durante muito tempo hesitamos, Veneráveis Irmãos, em dizer pública e solenemente Nosso pensamento sobre o Sillon. Foi necessário que vossas preocupações se viessem somar às Nossas para que Nos decidíssemos a fazê-lo. Porque amamos a valente juventude alistada sob a bandeira do Sillon, e a julgamos digna, por muitos aspectos, de elogio e de admiração. Amamos seus chefes, em que Nos é grato reconhecer almas elevadas, superiores às paixões vulgares e animadas do mais nobre entusiasmo pelo bem. Vós os vistes, Veneráveis Irmãos, penetrados de um sentimento muito vivo de fraternidade humana, ir ao encontro daqueles que trabalham e sofrem para os levantar, animados no seu devotamento pelo amor a Jesus Cristo e pela prática exemplar da religião.
3. Foi nos dias seguintes à memorável Encíclica de Nosso predecessor, de feliz memória, Leão XIII, sobre a condição dos operários. A Igreja, pela boca de seu Chefe supremo, havia derramado sobre os humildes e os pequenos todas as ternuras do seu coração materno, e parecia convocar, por seus anelos, campeões sempre mais numerosos da restauração da ordem e da justiça em nossa sociedade perturbada. Os fundadores do Sillon não vinham, no momento oportuno, colocar a seu serviço esquadrões jovens e crentes para a realização de seus desejos e de suas esperanças? E, de fato, o Sillon levantou, entre as classes operárias, o estandarte de Jesus Cristo, o sinal da salvação para os indivíduos e as nações, alimentando sua atividade social nas fontes da graça, impondo o respeito da religião nos ambientes menos favoráveis, habituando os ignorantes e os ímpios a ouvir falar de Deus, e, muitas vezes, em conferências contraditórias, em face de um auditório hostil, levantando-se, espiaçados por uma questão ou por um sarcasmo, para proclamar alta e briosamente a sua fé. Eram os bons tempos do Sillon; era o seu lado bom, que explica os encorajamentos e as aprovações que não lhe regatearam o episcopado e a Santa Sé, enquanto este fervor religioso pode encobrir o verdadeiro caráter do movimento sillonista.
Mas era ainda maior a gravidade de seus defeitos
4. Porque, é necessário dizê-lo, Veneráveis Irmãos, nossas esperanças, em grande parte, foram ludibriadas. Houve um dia em que o Sillon começou a manifestar, para olhares clarividentes, tendências inquietantes. O Sillon se desorientava. Podia ser de outra forma? Seus fundadores, jovens, entusiastas e cheios de confiança em si mesmos, não estavam suficientemente armados de ciência histórica, de sã filosofia e de forte teologia para afrontar, sem perigo, os difíceis problemas sociais, para os quais tinham sido arrastados por sua atividade e por seu coração, e para se premunir, no terreno da doutrina e da obediência, contra as infiltrações liberais e protestantes.
Que forçaram o Papa a condená-lo

5. Os conselhos não lhes faltaram, e, após os conselhos, vieram as admoestações. Mas tivemos a dor de ver que tanto uns como outras deslizavam sobre suas almas fugitivas, e ficavam sem resultado. As coisas vieram assim a tal ponto que Nós trairíamos Nosso dever, se, por mais tempo, guardássemos silêncio. Devemos a verdade a nossos caros filhos do Sillon, que um ardor generoso arrebatou para um caminho tão falso quanto perigoso. Devemo-la a um grande número de seminaristas e de padres que o Sillon subtraiu, senão à autoridade, pelo menos à direção e à influência de seus Bispos. Devemo-la, enfim, à Igreja, onde o Sillon semeia a divisão, e cujos interesses compromete.
I. ERROS DO SILLON
O "Sillon" procura furtar-se à Autoridade da Igreja
6. Em primeiro lugar, convém censurar severamente a pretensão do Sillon de escapar à direção da Autoridade Eclesiástica. Os chefes do Sillon, com efeito, alegam que se movem num terreno que não é o da Igreja; que só têm em vista interesses de ordem temporal e não de ordem espiritual; que o sillonista é simplesmente um católico dedicado à causa das classes trabalhadoras, às obras democráticas, e que haure nas práticas de sua fé a energia de seu devotamento; que nem mais nem menos que os artífices, os trabalhadores, os economistas e os políticos católicos, ele se acha submetido às regras de moral comuns a todos, sem estar subordinado, nem mais nem menos do que aqueles, de uma forma especial à autoridade eclesiástica.
7. A resposta a estes subterfúgios não é senão demasiado fácil. A quem se fará crer, com efeito, que os sillonistas católico, que os padres e os seminaristas alistados em suas fileiras só têm em vista, em sua atividade social, o interesse temporal das classes trabalhadoras? Sustentar tal coisa, pensamos, seria fazer-lhes injúria. A verdade é que os chefes do Sillon se proclamam idealistas irredutíveis, que pretendem reerguer as classes operárias, reerguendo, antes de mais nada, a consciência humana; que têm uma doutrina social e princípios filosóficos e religiosos para reconstruir a sociedade sobre um novo plano; que têm uma concepção especial sobre a dignidade humana, a liberdade, a justiça e a fraternidade, e que, para justificar seus sonhos sociais, apelam para o Evangelho, interpretando à sua maneira, e, o que é ainda mais grave, para um Cristo desfigurado e diminuído. Além disso, estas idéias eles as ensinam em seus círculos de estudo, eles as inculcam a seus companheiros, eles as fazem penetrar em suas obras. São, pois, verdadeiramente, professores de moral social, cívica e religiosa, e, quaisquer que sejam as modificações que possam introduzir na organização do movimento sillonista, temos o direito de dizer que a finalidade do Sillon, seu caráter, sua ação pertencem ao domínio moral, que é o domínio próprio da Igreja, e que, em conseqüência, os sillonistas se iludem quando crêem mover-se num terreno em cujos confins expiram os direitos do poder doutrinário e diretivo da Autoridade Eclesiástica.
8. Se suas doutrinas fossem isentas de erro, já teria sido uma falta muito grave à disciplina católica o subtrair-se obstinadamente à direção daqueles que receberam do céu a missão de guiar os indivíduos e as sociedades no reto caminho da verdade e do bem. Mas o mal é mais profundo, já o dissemos: o Sillon, arrastado por um mal compreendido amor dos fracos, descambou para o erro.
As tendências igualitárias do "Sillon"
9. Com efeito, o Sillon se propõe o reerguimento e a regeneração das classes operárias. Ora, sobre esta matéria os princípios da doutrina católica são fixos, e a história da civilização cristã aí está para atestar sua fecundidade benfazeja. Nosso Predecessor, de feliz memória, recordou-os em páginas magistrais, que os católicos ocupados em questões sociais devem estudar e ter sempre sob os olhos. Ensinou, de modo especial, que a democracia cristã deve "manter a diversidade das classes, que é seguramente o próprio da cidade bem constituída, e querer para a sociedade humana a forma e o caráter de Deus, seu autor, lhe imprimiu". Censurou "uma certa democracia que vai até aquele grau de perversidade de atribuir, na sociedade, a soberania ao povo e de pretender a supressão e o nivelamento das classes". Ao mesmo tempo, Leão XIII impunha aos católicos um programa de ação, o único programa capaz de recolocar e de manter a sociedade sobre suas bases cristãs seculares. Ora, que fizeram os chefes do Sillon? Não somente adotaram um programa e um ensinamento diferentes dos de Leão XIII (o que já seria singularmente audacioso da parte de leigos, que se colocam, assim, em concorrência com o Soberano Pontífice, como diretores da atividade social da Igreja); mas rejeitaram abertamente o programa traçado por Leão XIII, e adotaram um outro, que lhe é diametralmente oposto; além disso, rejeitam a doutrina relembrada por Leão XIII sobre os princípios essenciais da sociedade, colocam a autoridade no povo ou quase a suprimem, e toma, como ideal por realizar, o nivelamento das classes. Caminham, pois, ao revés da doutrina católica, para um ideal condenado.
10. Bem sabemos que se gabam de reerguer a dignidade humana e a condição demasiado desprezada das classes trabalhadoras, de tornar justas e perfeitas as leis do trabalho e as relações entre capital e os assalariados, enfim, de fazer reinar sobre a terra uma justiça melhor, e mais caridade, e de, por movimentos sociais profundos e fecundos, promover na humanidade um progresso inesperado. E, certamente, não condenamos estes esforços, que seriam excelentes, sob todos os aspectos, se os sillonistas não esquecessem que o progresso de um ser consiste em fortificar suas faculdades naturais por novas energias e facilitar o jogo de sua atividade no quadro e de acordo com as leis de sua constituição; e que, pelo contrário, ferindo seus órgãos essenciais, quebrando o quadro de suas atividades, impele-se o ser não para o progresso, mas para a morte. Entretanto, é isto que eles querem fazer com a sociedade humana; seu sonho consiste em trocar-lhe as bases naturais e tradicionais e prometer uma cidade futura edificada sobre outros princípios, que ousam declarar mais fecundos, mais benfazejos do que os princípios sobre os quais repousa a atual cidade cristã.
11. Não, Veneráveis Irmãos – e é preciso lembrá-lo energicamente nestes tempos de anarquia social e intelectual, - a cidade não será contruída de outra forma senão aquela pela qual Deus a construiu; a sociedade não será edificada se a Igreja não lhe lançar as bases e não dirigir os trabalhos; não, a civilização não mais está para ser inventada nem a cidade nova para ser construída nas nuvens. Ela existiu, ela existe; é a civilização cristã, é a cidade católica. Trata-se apenas de instaurá-la e restaurá-la sem cessar sobre seus fundamentos naturais e divinos contra os ataques sempre renascentes da utopia malsã, da revolta e da impiedade: omnia instaurare in Christo. E para que não Nos acusem de julgar muito sumariamente e com rigor não justificado as teorias sociais do Sillon, queremos rememorar-lhe os pontos essenciais.
As doutrinas subversivas e revolucionárias do "Sillon"
12. O Sillon tem a nobre preocupação da dignidade humana. Mas esta dignidade é compreendida ao modo de certos filósofos, que a Igreja está longe de poder aprovar. O primeiro elemento desta dignidade é a liberdade, entendida neste sentido que, salvo em matéria de religião, cada homem é autônomo. Deste princípio fundamental tira as seguintes conclusões: Hoje em dia, o povo está sob tutela, debaixo de uma autoridade que é distinta dele, e da qual se deve libertar: emancipação política. Está sob a dependência de patrões que, detendo seus instrumentos de trabalho, o exploram, o oprimem e o rebaixam; deve sacudir seu jugo: emancipação econômica. Enfim, é dominado por uma casta chamada dirigente, à qual o desenvolvimento intelectual assegura uma preponderância indevida na direção dos negócios; deve subtrair-se à sua dominação: emancipação intelectual. O nivelamento das condições, deste tríplice ponto de vista, estabelecerá entre os homens a igualdade, e esta igualdade é a verdadeira justiça humana. Uma organização política e social fundada sobre esta dupla base, liberdade e igualdade (às quais logo virá acrescentar-se a fraternidade), eis o que eles chamam Democracia.
13. No entanto, a liberdade e a igualdade não constituem senão o lado, por assim dizer, negativo. O que faz, própria e positivamente, a Democracia é a participação maior possível de cada um no governo da coisa pública. E isto compreende um tríplice elemento, político, econômico e moral.
14. Em primeiro lugar, em política, o Sillon não abole a autoridade; pelo contrário, considera-a necessária; mas a quer partilhar, ou para melhor dizer, a quer multiplicar de tal modo que cada cidadão se tornará uma espécie de rei. A autoridade, é certo, emana de Deus, mas reside primordialmente no povo e daí deriva por via de eleição ou, melhor, ainda, de seleção, sem por isto deixar o povo e se tornar independente dele; ela será exterior, mas somente na aparência; na realidade, ela será interior, porque será uma autoridade consentida.
15. Guardadas as proporções, acontecerá o mesmo na ordemeconômica. Subtraído a uma classe particular, o patronato será multiplicado de tal modo que cada operário se tornará uma espécie de patrão. A forma invocada para realizar este ideal econômico não é, afirma-se, a do socialismo, é um sistema de cooperativa suficientemente multiplicadas para provocar uma concorrência fecunda e para salvaguardar a independência dos operários, que não ficariam adstritos a nenhuma delas.
16. Eis agora o elemento capital, o elemento moral. Como a autoridade, já se viu, é muito reduzida, é necessária uma outra força para completá-la e opor uma reação permanente ao egoísmo individual. Este novo princípio, esta força, é o amor do interesse profissional e do interesse público, quer dizer, da finalidade mesma da profissão e da sociedade. Imaginai uma sociedade onde, na alma de cada um, com o amor inato do bem individual e do bem familiar, reinasse o amor do bem profissional e do bem público, onde, na consciência de cada um, estes amores, se subordinassem de tal modo, que o bem superior dominasse sempre o bem inferior; uma sociedade não poderia quase dispensar a autoridade e não ofereceria o ideal da dignidade humana, cada cidadão tendo uma alma de rei, cada operário uma alma de patrão? Arrancado à estreiteza de seus interesses privados e elevado até os interesses de sua profissão e, mais alto, até os da nação inteira e, mais alto, até os da humanidade (porque o horizonte do Sillon não se detém nas fronteiras da pátria, mas se estende a todos os homens até os confins do mundo), o coração humano, alargado pelo amor do bem comum, abraçaria todos os companheiros da mesma profissão, todos os compatriotas, todos os homens. E eis aí a grandeza e a nobreza humana ideal, realizada pela célebre trilogia: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.
17. Ora, estes três elementos, político, econômico e moral, estão subordinados um a outro, e é o elemento moral, como dissemos, que é o principal. Com efeito, nenhuma democracia política é viável se não tem profundos pontos de contato com a democracia econômica. Por sua vez, nem uma nem outra são possíveis se não se radicam num estado de espírito em que a consciência se acha investida de responsabilidades e de energias morais proporcionadas. Mas, supondo este estado de espírito, assim feito de responsabilidade consciente e de forças morais, a democracia econômica daí decorrerá naturalmente por tradução em atos, desta consciência e destas energias; e, igualmente, e pela mesma via, do regime corporativo sairá a democracia política e econômica, esta trazendo aquela, se acharão fixadas na própria consciência do povo sobre bases inabaláveis.
18. Tal é, em resumo, a teoria, poder-se-ia dizer o sonho, do Sillon, e é para isto que tende seu ensinamento e aquilo que chama a educação democrática do povo, quer dizer, levar ao máximo a consciência e a responsabilidade cívicas de cada qual, donde decorrerá a democracia econômica e política, e o reino da justiça, da liberdade, da igualdade e da fraternidade.
19. Esta rápida exposição, Veneráveis Irmãos, já vos mostra claramente quanto tínhamos razão em dizer que o Sillon opõe doutrina a doutrina, que edifica sua cidade sobre uma teoria contrária à verdade católica e que falseia as noções essenciais e fundamentais que regulam as relações sociais em toda a sociedade humana. Esta oposição aparecerá com maior clareza ainda nas seguintes considerações.
II. REFUTAÇÃO DOS ERROS
Sobre a autoridade, a liberdade e a obediência
20. O Sillon coloca a autoridade pública primordialmente no povo, do qual deriva em seguida aos governantes, de tal modo, entretanto, que continua a residir nele. Ora, Leão XIII condenou formalmente esta doutrina em sua encíclica Diuturnum Illud (DP 12) sobre o Principado Político, onde diz: "Grande número de modernos seguindo as pegadas daqueles que, no século passado, se deram o nome de filósofos, declaram que todo o poder vem do povo; que em conseqüência aqueles que exercem o poder na sociedade não a exercem como sua própria autoridade, mas como uma autoridade a eles delegada pelo povo e sob a condição de poder ser revogada pela vontade do povo, de quem eles a têm. Inteiramente contrário é o pensamento dos católicos, que fazem derivar de Deus o direito de mandar, como de seu princípio natural e necessário". Sem dúvida, o Sillon faz descer de Deus esta autoridade, que coloca em primeiro lugar no povo, mas de tal forma que "sobe de baixo para ir ao alto, enquanto na organização da Igreja, o poder desce do alto para ir até em baixo" (Marc Sangnier, discurso de Rouen, 1907). Mas, além de ser anormal que a delegação suba, pois é próprio à sua natureza descer, Leão XIII refutou de antemão esta tentativa de conciliação entre a doutrina católica e o erro do filosofismo. Pois prossegue: "É necessário observá-lo daqui: aqueles que presidem ao governo da coisa pública podem bem, em certos casos, ser eleitos pela vontade e o julgamento da multidão, sem repugnância nem oposição com a doutrina católica. Mas, se esta escolha designa o governante, não lhe confere a autoridade de governar, não lhe delega o poder, apenas designa a pessoa que dele será investido".
21. De resto, se o povo continua a ser o detentor do poder, que vem a ser da autoridade? Uma sombra, um mito; não há mais lei propriamente dita, não há mais obediência. O Sillon o reconheceu; desde que, com efeito, reclama, em nome da dignidade humana, a tríplice emancipação política, econômica e intelectual, a cidade futura, para a qual trabalha, não mais terá mestres nem servidores; os cidadãos aí serão todos livres, todos camaradas, todos reis. Uma ordem, um preceito, seria um atentado à liberdade; a subordinação a uma qualquer superioridade seria uma diminuição do homem, a obediência, uma degradação. É assim, Veneráveis Irmãos, que a doutrina tradicional da Igreja nos representa as relações sociais, mesmo na cidade mais perfeita possível? Não é verdade que toda sociedade de criaturas dependentes e desiguais por natureza tem necessidade de uma autoridade que dirija sua atividade para o bem comum e imponha sua lei? E se, na sociedade, se encontram seres perversos (e sempre os haverá), a autoridade não deverá ser tanto mais forte quanto o egoísmo dos maus for mais ameaçador? Além disso, pode-se dizer, com uma aparência de razão sequer, que haja incompatibilidade entre a autoridade e a liberdade, sem que se cometa um erro grosseiro sobre o conceito da liberdade? Pode-se ensinar que a obediência é contrária à dignidade humana e o ideal seria substituí-la pela "autoridade consentida"? Será que o apóstolo S. Paulo não tinha em vista a sociedade humana, em todas as suas etapas possíveis, quando prescrevia aos fiéis a submissão a toda autoridade? Será verdade que a obediência aos homens, enquanto representantes legítimos de Deus, quer dizer afinal de contas a obediência a Deus, rebaixa o homem e o avilta abaixo de si mesmo? Será que o estado religioso, fundado sobre a obediência, é contrário ao ideal da natureza humana? Será que os santos, que foram os mais obedientes dos homens, foram escravos e degenerados? Enfim, poder-se-ia imaginar um estado em que Jesus Cristo, de novo sobre a terra, não mais desse o exemplo de obediência e não mais dissesse: Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus?
Sobre a justiça e a igualdade
22. O Sillon, que ensina semelhantes doutrinas e as põe em prática em sua vida interna, semeia portanto entre a vossa juventude católica noções erradas e funestas sobre a autoridade, a liberdade e a obediência. Outra coisa não acontece quanto à justiça e à igualdade. Trabalha, como afirma, para realizar uma era de melhor justiça. Assim, para ele, toda desigualdade de condição é uma injustiça ou, pelo menos, uma justiça menor! Princípio soberanamente contrário à natureza das coisas, gerador de inveja e de injustiça, subversivo de toda a ordem social. Assim, só na democracia inaugurará o reino da perfeita justiça! Não é isto uma injúria às outras formas de governo que são rebaixadas, por este modo, à categoria de governos impotentes, apenas toleráveis! De resto o Sillon, ainda sobre este ponto, vai de encontro ao ensinamento de Leão XIII. Poderia Ter lido na Encíclica já citada sobre o Principado Político que, "salvaguardada a justiça, aos povos não é interdito escolher o governo que melhor responda a seu caráter ou às instituições e costumes que receberam dos antepassados", e a Encíclica faz alusão à tríplice forma de governo bem conhecida. Supõe, portanto, que a justiça é comparável com cada uma delas. E a Encíclica sobre a condição dos operários não afirma claramente a possibilidade de restaurar-se a justiça nas organizações atuais da sociedade, pois que indica os meios para isso? Ora, sem dúvida alguma, Leão XIII queria falar não de uma justiça qualquer, mas da justiça perfeita. Ensinando, pois, que a justiça é compatível com as três formas de governo em questão, ensinava que, sob este aspecto, a Democracia não goza de um privilégio especial. Os "sillonistas", que pretendem o contrário, ou recusam ouvir a Igreja ou têm da justiça e da igualdade um conceito que não é católico.
Sobre a fraternidade
23. O mesmo acontece com a noção da fraternidade, cuja base colocam no amor dos interesses comuns, ou, além de todas as filosofias e de todas as religiões, na simples noção de humanidade, englobando assim no mesmo amor e numa igual tolerância todos os homens com todas as suas misérias, tanto as intelectuais e morais como as físicas e temporais. Ora, a doutrina católica nos ensina que o primeiro dever da caridade não está na tolerância das convicções errôneas, por sinceras que sejam , nem da indiferença teórica e prática pelo erro ou o vício, em que vemos mergulhados nossos irmãos, mas no zelo pela sua restauração intelectual e moral, não menos que por seu bem-estar material. Esta mesma doutrina católica nos ensina também que a fonte do amor do próximo se acha no amor de Deus, Pai comum e fim comum de toda a família humana, no amor de Jesus Cristo, do qual somos membros a tal ponto que consolar um infeliz é fazer o bem ao próprio Jesus Cristo. Qualquer outro amor é ilusão ou sentimento estéril e passageiro. Certamente, a experiência humana aí está, nas sociedades pagãs iy leigas de todos os tempos, para provar que, em certos momentos, a consideração dos interesses comuns ou da semelhança de natureza pesa muito pouco diante das paixões e concupiscências do coração. Não, Veneráveis Irmãos, não existe verdadeira fraternidade fora da caridade cristã, que, pelo amor de Deus e de seu Filho Jesus Cristo nosso Salvador, abrange todos os homens, para consolar todos, e para os conduzir todos à mesma fé e à mesma felicidade do céu. Separando a fraternidade da caridade cristã assim entendida, a democracia, longe de ser um progresso, constituiria um desastroso recuo para a civilização. Porque, se se chegar, e Nós o desejamos de toda a nossa alma, à maior soma possível de bem-estar para a sociedade e para cada um de seus membros pela fraternidade, ou, como se diz ainda, pela soliedaridade universal, é necessária a união dos espíritos na verdade, a união das vontades na moral, a união dos corações no amor de Deus e de seu filho Jesus Cristo. Ora, esta união só poderá ser realizada pela caridade católica, que é a única, por conseqüência, que pode conduzir os povos no caminho do progresso, para o ideal da civilização.
Sobre a dignidade humana
24. Enfim, na base de todas as falsificações das noções sociais fundamentais, o Sillon coloca uma falsa idéia da dignidade humana. Segundo ele, o homem só será verdadeiramente homem, digno desse nome, no dia em que adquirir uma consciência esclarecida, forte, independente, autônoma, podendo dispensar os mestres, só obedecendo a si própria, e capaz de assumir e desempenhar, sem falhas, as mais graves responsabilidades. Eis algumas destas grandes palavras com as quais se exalta o sentimento do orgulho humano; tal como um sonho, que arrasta o homem, sem luz, sem guia e sem auxílio, pelo caminho da ilusão, em que, esperando o grande dia da plena consciência, será devorado pelo erro e pelas paixões. E este grande dia, quando virá? A menos que se mude a natureza humana (o que não está no poder do Sillon), virá ele alguma vez? Será que os santos, que levaram ao apogeu a dignidade humana, tiveram esta dignidade? E os humildes da terra, que não podem subir tão alto e se contentam com traçar modestamente seu sulco (tracer modestement son sillon) na classe social que lhes designou a Providência, cumprindo energicamente seus deveres na humildade, na obediência e na paciência cristãs, não seriam eles dignos do nome de homens, aos quais o Senhor há de tirar um dia de sua condição obscura para colocar no céu, entre os príncipes de seu povo?
Suspendemos aqui nossas reflexões sobre os erros do Sillon. Não pretendemos esgotar o assunto, pois que ainda poderíamos chamar vossa atenção sobre outros pontos igualmente falsos e perigosos, por exemplo, sobre a maneira de compreender o poder coercitivo da Igreja. Importa, contudo, examinar agora a influência destes erros sobre a conduta prática do Sillon e sobre a sua ação social.
III. CONDUTA PRÁTICA DO SILLON E SUA AÇÃO SOCIAL
A estrutura igualitária da organização do "Sillon"
25. As doutrinas do Sillon não ficam apenas nos domínios da abstração filosófica. Elas são ensinadas à juventude católica, e, bem mais do que isso, procurasse vivê-las. O Sillon se considera como o núcleo da cidade futura; reflete-a, pois, tão fielmente quanto possível. Com efeito, não existe hierarquia no Sillon. A elite que o dirige separa-se da massa por seleção, quer dizer, impondo-se por sua autoridade moral e por suas virtudes. Nele se entra livremente, como livremente dele se sai. Os estudos aí se fazem sem mestre, quando muito com um conselheiro. Os círculos de estudos são verdadeiras cooperativas intelectuais, onde cada um é ao mesmo tempo aluno e mestre. A camaradagem mais absoluta reina entre os membros, e põe em total contato suas almas: daí a alma comum do Sillon. Definiram-na "uma amizade". Mesmo o padre, quando nele ingressa, abaixa a eminente dignidade de seu sacerdócio e, pela mais estranha inversão de papéis, se faz aluno, se põe no nível de seus jovens amigos e não é mais do que um camarada.
O espírito anárquico que incute
26. Nestes hábitos democráticos, e nas doutrinas sobre a cidade ideal que os inspiram, reconhecereis, Veneráveis Irmãos, a causa secreta das faltas disciplinares que, tantas vezes, tiverdes de recriminar ao Sillon. Não é de espantar que não tenhais encontrado nos chefes e nos seus companheiros assim formados, fossem seminaristas ou padres, o respeito, a docilidade e a obediência que são devidos às vossas pessoas e à vossa autoridade; que tenhais experimentado da parte deles uma surda oposição, e que tenhais tido o pesar de os ver subtrair-se totalmente, ou, quando a isto forçados pela obediência, entregar-se com desgosto às obras não sillonistas. Vós sois o passado, eles são os pioneiros da civilização futura. Vós representais a hierarquia, as desigualdades sociais, a autoridade e a obediência: instituições envelhecidas, ante as quais suas almas, embevecidas por um outro ideal, não mais se podem dobrar. Temos sobre este estado de espírito o testemunho de fatos dolorosos, capazes de arrancar lágrimas, e não podemos, apesar de nossa longanimidade, reprimir um justo sentimento de indignação. Pois há quem inspire à vossa juventude católica a desconfiança para com a Igreja sua mãe; ensina-se-lhe que, decorridos 19 séculos, ela ainda não conseguiu no mundo constituir a sociedade sobre suas verdadeiras bases; que ela não compreendeu as noções sociais da autoridade, da liberdade, da igualdade, da fraternidade e da dignidade humana; que os grandes bispos e os grandes monarcas, que criaram e tão gloriosamente governaram a França, não souberam dar ao seu povo nem a verdadeira justiça, nem a verdadeira felicidade, porque eles não tinham o ideal do Sillon!
O sopro da Revolução passou por aí, e podemos concluir que, se as doutrinas sociais do Sillon são erradas, seu espírito é perigoso e sua educação funesta.
O "Sillon" é de uma intolerância odiosa
27. Mas então, que devemos pensar de sua ação na Igreja, se seu catolicismo é tão melindroso que, por mais um pouco, quem não abraçasse a sua causa seria a seus olhos um inimigo interior do catolicismo, e nada teria compreendido do Evangelho e de Jesus Cristo? Julgamos conveniente insistir sobre esta questão, porque foi precisamente seu ardor católico que valeu ao Sillon, até estes últimos tempos, preciosos encorajamentos e ilustres sufrágios. Pois bem! Perante as palavras e os fatos, somos obrigados a dizer que, em sua ação como em sua doutrina, o Sillon não dá satisfação à Igreja.
28. Em primeiro lugar, seu catolicismo só se acomoda com a forma democrática de governo, que julga ser a mais favorável à Igreja, e como que se confundindo com ela; portanto, entenda sua religião a um partido político, Não precisamos demonstrar que o advento da democracia universal não tem importância para a ação da Igreja no mundo; já temos lembrado que a Igreja sempre deixou às nações o cuidado de se dar o governo que consideram mais vantajoso para seus interesses. O que Nós queremos afirmar ainda uma vez após nosso predecessor, é que há erro e perigo em enfeudar, por princípio, o catolicismo a uma forma de governo; erro e perigo que são tanto maiores quando se sintetiza a religião com um gênero de democracia cujas doutrinas são erradas. Ora, é o caso do Sillon, o qual, de fato, e em favor de uma forma política especial, comprometendo a Igreja, divide os católicos, arranca a juventude e mesmo padres e seminaristas à ação simplesmente católica, e esbanja, em pura perda, as forças vivas de uma parte da nação.
Exceto quando se trata dos princípios da Igreja
29. E reparai, Veneráveis Irmãos, numa estranha contradição. É precisamente porque a religião deve dominar todos os partidos, é invocando este princípio que o Sillon se abstém de defender a Igreja atacada. Certamente não foi a Igreja que desceu à arena política; arrastaram-na para aí, e para a mutilar, e para a despojar. O dever de todo o católico não consiste, então, em usar das armas políticas, que tem à mão, para defendê-la e também para forçar a política a ficar em seu domínio e a não se ocupar da Igreja, a não ser para lhe dar o que é devido? Pois bem! Em face da Igreja assim violentada, muitas vezes se tem a dor de ver os sillonistas cruzar os braços, a não ser que eles achem vantajoso defendê-la; vemo-los ditar ou sustentar um programa que em nenhum lugar nem no menor grau revela o espírito católico. O que não impede que estes mesmos homens, em plena luta política, sob o golpe de uma provocação, façam pública ostentação de sua fé. Isto que quer dizer senão que há dois homens nos sillonistas: o indivíduo que é católico; o sillonista, homem de ação, que é neutro.
Um dos graves erros do "Sillon" é o interconfessionalismo.
30. Houve um tempo em que o Sillon, como tal, era formalmente católico. Em matéria de força moral, só conhecia uma, a força católica, e ia proclamando que a democracia havia de ser católica, ou não seria democracia. Em dado momento, entretanto, mudou de parecer. Deixou a cada um em sua religião ou sua filosofia. Ele próprio deixou de se qualificar de "católico", e a fórmula "A democracia há de ser católica" substitui-a por esta "A democracia não há de ser anticatólica", tanto quanto, aliás, antijudaica ou antibudista. Foi a época do "maior Sillon". Todos os operários de todas as religiões e de todas as seitas foram convocados para a construção da cidade futura. Outra coisa não se lhes pediu a não ser que abraçassem o mesmo ideal social, que respeitassem todas as crenças e que trouxessem um saldo das forças morais. Certamente, proclamava-se, "os chefes do Sillon põem sua fé religiosa acima de tudo. Mas podem recusar aos outros o direito de hauri-la na fé católica. Pedem, pois, a todos aqueles que querem transformar a sociedade presente no sentido da democracia, que não se repilam mutuamente por causa de convicções filosóficas ou religiosas que os possam separar mas que marchem de mãos dadas, não renunciando a suas convicções, mas experimentando fazer, sobre o terreno das realidades práticas, a prova da excelência de suas convicções pessoais. Talvez que neste terreno de emulação entre almas ligadas a diferentes convicções religiosas ou filosóficas a união se possa realizar" (Marc Sangnier, Discurso de Rouen, 1907). E ao mesmo tempo se declarou (de que modo isto se poderia realizar?) que o pequeno Sillon católico seria a alma do grande Sillon cosmopolita.
31. Recentemente, desapareceu o nome do grande "maior Sillon", e houve a intervenção de uma nova organização que em nada modificou, bem pelo contrário, o espírito e o fundo das coisas "para por ordem no trabalho, e organizar as diversas formas de atividade. O Sillon continua sempre a ser uma alma, um espírito, que se misturará aos grupos e inspirará sua atividade". E a todos os novos agrupamentos, tornados autônomos na aparência: católicos, protestantes, livres-pensadores, se pede que se ponham a trabalhar. "Os camaradas católicos se esforçarão entre si próprios, numa organização especial, por se instruir e se educar. Os democratas protestantes e livres-pensadores farão o mesmo de seu lado. Todos, católicos, protestantes e livres-pensadores terão em mira armar a juventude não para uma luta fratricida, mas para uma generosa emulação no terreno das virtudes sociais e cívicas" (Marc Sangnier, Paris, Maio de 1910).
32. Estas declarações e esta nova organização da ação sillonista provocam bem graves reflexões. Eis uma associação interconfessional, fundada por católicos, para trabalhar na reforma da civilização moral sem a verdadeira religião: é uma verdade demonstrada, é um fato histórico. E os novos sillonistas não poderão pretextar que só trabalharão "no terreno das realidades práticas" onde a diversidade das crenças não importa. Seu chefe tão bem percebe esta influência das convicções do espírito sobre o resultado da ação, que os convida, qualquer que seja a religião a que pertençam, a "fazer no terreno das realidades práticas a prova da excelência de suas convicções pessoais". E com razão, porque as realizações práticas revestem o caráter das convicções religiosas, como os membros de um corpo, até as últimas extremidades, recebem sua forma do princípio vital que o anima.
33. Isto posto, que se deve pensar da promiscuidade em que se acharão agrupados os jovens católicos com heterodoxos e incrédulos de todas as espécies, numa obra desta natureza? Esta não será mil vezes mais perigosa para eles do que uma associação neutra? Que se deve pensar deste apelo a todos os heterodoxos e a todos os incrédulos para virem provar a excelência de suas convicções no terreno social, numa espécie de concurso apologético, como se este concurso já não durasse há 19 séculos, em condições menos perigosas para a fé dos fiéis e sempre favorável à Igreja Católica? Que se deve pensar deste respeito a todos os erros e deste estranho convite, feito por um católico a todos os dissidentes, fortificarem suas convicções pelo estudo e delas fazer as fontes sempre mais abundantes de novas forças? Que se deve pensar de uma associação em que todas as religiões, e mesmo o livre-pensamento, podem manifestar-se altamente à vontade? Porque os sillonistas que, nas conferências públicas e em outras ocasiões proclamam altivamente sua fé individual, não pretendem certamente fechar a boca aos outros e impedir que o protestante afirme seu protestantismo e o cético, seu ceticismo. Que pensar, enfim, de um católico que, ao entrar em seu círculo de estudos, deixa na porta seu catolicismo, para não assustar seus camaradas que, "sonhando com uma ação social desinteressada, têm repugnância de a fazer servir ao triunfo de interesses, de facções, ou mesmo de convicções, quaisquer que sejam"? Tal é a profissão de fé na nova Comissão Democrática de Ação Social, que herdou a maior tarefa da antiga organização, e que, assim afirma, "desfazendo o equívoco em torno do maior Sillon, tanto nos meios reacionários como nos meios anticlericais", está aberta a todos os homens "respeitadores das forças morais e religiosas e convencidos de que nenhuma emancipação social verdadeira será possível sem o fermento de um generoso idealismo".
34. Ah, sim! O equívoco está desfeito; a ação social do Sillon não é mais católica; o sillonista, como tal não trabalha para uma facção, e "a Igreja, ele o diz, não deveriam por nenhum título, ser a beneficiária das simpatias que sua ação possa suscitar". Insinuação estranha, em verdade! Teme-se que a Igreja se aproveite, com objetivo egoísta e interesseiro, da ação social do Sillon, como se tudo o que aproveita à Igreja não aproveitasse à humanidade! Estranha inversão de idéias: a Igreja é que seria beneficiária da ação social, como se os maiores economistas já não houvessem reconhecido e demonstrado que a ação social é que, para ser real e fecunda, deve beneficiar-se da Igreja. Porém, mais estranhas ainda, ao mesmo tempo inquietantes e acabrunhadoras, são a audácia e a ligeireza de espírito de homens que se dizem católicos, e que sonham refundir a sociedade em tais condições, e estabelecer sobre a terra, por cima da Igreja Católica, "o reino da justiça e do amor", com operários vindos de toda parte, de todas as religiões ou sem religião, com ou sem crenças, contando que se esqueçam do que os divide: suas convicções religiosas e filosóficas, e ponham em comum aquilo que os une: um generoso idealismo e forças morais adquiridas "onde possam", Quando se pensa em tudo que foi preciso de forças, de ciência, de virtudes sobrenaturais para estabelecer a cidade cristã, e nos sofrimentos de milhões de mártires, e nas luzes dos Padres e Doutores da Igreja, e no devotamento de todos os heróis da caridade, e numa poderosa Hierarquia nascida no céu, e nas torrentes da graça divina, e tudo isto edificado, travado, compenetrado pela Vida e pelo Espírito de Jesus Cristo, a Sabedoria de Deus, o Verbo feito homem; quando se pensa, dizíamos, em tudo isto edificado, fica-se atemorizado ao ver novos apóstolos se encarniçarem por fazer melhor, através da atuação dum vago idealismo e de virtudes cívicas. Que é que sairá desta colaboração? Uma construção puramente verbal e quimérica, em que se verão coruscar promiscuamente, e numa confusão sedutora, as palavras liberdade, justiça, fraternidade e amor, igualdade e exaltação humana, e tudo baseado numa dignidade humana mal compreendida. Será uma agitação tumultuosa, estéril para o fim proposto, e que aproveitará aos agitadores de massas, menos utopistas. Sim, na realidade, pode-se dizer que o Sillon escolta o socialismo, o olhar fixo numa quimera.
35. Tememos que ainda haja pior. O resultado desta promiscuidade em trabalho, o beneficiário desta ação social cosmopolita só poderá ser uma democracia, que não será nem católica, nem protestante, nem judaica; uma religião (porque o sillonismo, os chefes o afirmaram, é uma religião) mais universal do que a Igreja Católica, reunindo todos os homens tornados enfim irmãos e camaradas "no reino de Deus". – "Não se trabalha pela Igreja, trabalha-se pela humanidade".
E por isto o "Sillon" deixou de ser católico
36. E agora, penetrado da mais viva tristeza, perguntamo-Nos, Veneráveis Irmãos, aonde foi parar o catolicismo do Sillon. Ah! Ele, que dava outrora tão belas esperanças esta torrente límpida e impetuosa foi captada em sua marcha pelos inimigos modernos da Igreja, e agora já não é mais do que um miserável afluente do grande movimento de apostasia organizada, em todos os países, para o estabelecimento de uma Igreja universal que não terá nem dogmas, nem hierarquia, nem regra para o espírito, nem freio para as paixões, e que sob o pretexto de liberdade e de dignidade humana, restauraria no mundo, se pudesse triunfar, o reino legal da fraude e da violência, e a opressão dos fracos, daqueles que sofrem e que trabalham.
O "Sillon" e as tramas dos inimigos da Igreja
37. Conhecemos demasiado bem os sombrios laboratórios, em que se elaboram estas doutrinas deletérias, que não deveriam seduzir espíritos clarividentes. Os chefes do Sillon nãou souberam evitá-las: a exaltação de seus sentimentos, a cega bondade de seu coração, seu misticismo filosófico misturado com um tanto de iluminismo os impeliram para um novo Evangelho do Salvador, a tal ponto que ousam tratar Nosso Senhor Jesus Cristo com uma familiaridade soberanamente desresepitosa, e que, sendo o seu ideal aparentado com o da Revolução, não temem fazer entre o Evangelho e a Revolução aproximações blasfematórias, que não têm a escusa de haverem escapado a alguma improvisação tumultuosa.
O "Sillon" dá uma idéia desfigurada do divino Redentor.
38. Queremos chamar vossa atenção, Veneráveis Irmãos, sobre esta deformação do Evangelho e do caráter sagrado de Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus e Homem, praticada no Sillon e algures. Desde que se aborda a questão social, está na moda, em certos meios, afastar primeiro a divindade de Jesus Cristo, e depois só falar de sua soberana mansidão, de sua compaixão por todas as misérias humanas, de suas instantes exortações ao amor do próximo e fraternidade. Certamente, Jesus nos amou com um amor imenso, infinito, e veio à terra sofrer e morrer, a fim de que, reunidos em redor dele na justiça e no amor, animados dos mesmos sentimentos de mútua caridade, todos os homens vivam na paz e na felicidade. Mas para a realização desta felicidade temporal e eterna, Ele impôs, com autoridade soberana, a condição de se fazer parte de seu rebanho, de se aceitar sua doutrina, de se praticar a virtude e de se deixar ensinar e guiar por Pedro e seus sucessores. Ademais se Jesus foi bom para os transviados e os pecadores, não respeitou suas convicções errôneas por sinceras que parecessem; amou-os a todos para os instruir, converter e salvar. Se chamou junto de si, para os consolar, os aflitos e os sofredores, não foi para lhes pregar o anseio de uma igualdade quimérica. Se levantou os humildes, não foi para lhes inspirar o sentimento de uma dignidade independente e rebelde à obediência. Se seu coração transbordava de mansidão pelas almas de boa vontade, soube igualmente armar-se de uma santa indignação contra os miseráveis que escandalizam os pequenos, contra as autoridades que acabrunham o povo sob a carga de pesados fardos, sem aliviá-la sequer com o dedo. Foi tão forte quão doce; repreendeu, ameaçou, castigou, sabendo e nos ensinando que, muitas vezes, o temor é o começo da sabedoria, e que, às vezes, convém cortar um membro para salvar o corpo. Enfim, não anunciou para a sociedade futura o reinado de uma felicidade ideal, de onde o sofrimento fosse banido; mas, por lições e exemplos, traçou o caminho da felicidade possível na terra e da felicidade perfeita no céu: a estrada real da cruz. Estes são ensinamentos eminentemente sociais, e nos mostram em Nosso Senhor Jesus Cristo outra coisa que não um humanitarismo sem consciência e sem autoridade.
CONCLUSÃO
Exortação ao Episcopado
39. No que se refere a vós, Veneráveis Irmãos, continuai ativamente a obra do Salvador dos homens pela imitação de sua doçura e de sua força. Inclinai-vos para todas as misérias; que nenhuma dor escape à vossa solicitude pastoral; que nenhum gemido vos encontre indiferentes. Mas, também, pregai ousadamente os deveres aos grandes e aos pequenos; a vós compete formar a consciência do povo e dos poderes públicos. A questão social está bem perto de ser resolvida quando uns e outros, menos exigentes a respeito de seus direitos recíprocos, cumprirem mais exatamente seus deveres. Além disso, como no conflito dos interesses, e principalmente na luta com as forças pouco honestas, a virtude de um homem, e mesmo sua santidade, não é sempre suficiente para lhe assegurar o pão cotidiano, e como as engrenagens sociais deveriam estar organizadas de tal forma que, por seu jogo natural, paralisassem os esforços dos maus e tornassem acessível a toda boa vontade sua parte legítima de felicidade temporal, desejamos vivamente que tomeis uma parte ativa na organização da sociedade, neste sentido. E, para isto, enquanto vossos padres se entregarem com ardor ao trabalho da santificação das almas, da defesa da Igreja, e às obras de caridade propriamente ditas, escolhereis alguns dentre eles, ativos e de espírito ponderado, munidos dos graus de doutor em filosofia e teologia, e dominando perfeitamente a história da civilização antiga e moderna, e os aplicareis aos estudos menos elevados e mais práticos da ciência social, para, no tempo oportuno, colocá-los à testa de vossas obras de ação católica. Contudo, que estes padres não se deixem transviar no dédalo das opiniões contemporâneas, pela miragem de uma falsa democracia; que não emprestem à retórica dos piores inimigos da Igreja e do povo uma linguagem enfática, cheia de promessas tão sonoras quanto irrealizáveis. Estejam eles persuadidos de que a questão social e a ciência social não nasceram ontem; que, de todos os tempos, a Igreja e o Estado, em feliz acordo, suscitaram para isto organizações fecundas; que a Igreja, que jamais traiu a felicidade do povo em alianças comprometedoras, não precisa livrar-se do passado, bastando-lhe retomar, com o auxílio de verdadeiros operários da restauração social, os organismos quebrados pela Revolução, adaptando-os, com o mesmo espírito cristão que os inspirou, ao novo ambiente criado pela evolução material da sociedade contemporânea; porque os verdadeiros amigos do povo não são revolucionários, nem inovadores, mas tradicionalistas.
Os membros do "Sillon" devem submeter-se
40. A esta obra, eminentemente digna de vosso zelo pastoral, desejamos que, longe de a embaraçar, a juventude do Sillon, purificada de seus erros, traga, na ordem e na submissão convenientes, um concurso leal e eficaz.
41. Voltando-nos, pois, para os chefes do Sillon, com a confiança de um pai que fala a seus filhos, pedimo-lhes para o seu bem, para o bem da Igreja e da França, vos cedam o lugar. Medimos, certamente, a extensão do sacrifício que lhes solicitamos, mas os sabemos assaz generosos para o realizar, e, antecipadamente, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, de quem somos o indigno representante, os abençoamos . Quanto aos membros do Sillon, queremos que se agrupem por dioceses para trabalhar, sob a direção de seus bispos respectivos, pela regeneração cristã e católica do povo, ao mesmo tempo pela melhoria de sua sorte. Estes grupos diocesanos serão, por ora, independentes uns dos outros; e, a fim de tornar bem claro que romperam com os erros do passado, tomarão o nome de Sillons Católicos, e cada um de seus membros acrescentará a seu título de sillonista o mesmo qualificativo de católico. Não será preciso dizer que todo sillonista católico ficará livre, aliás, de guardar suas preferências políticas, depuradas de tudo o que não esteja inteiramente conforme, nesta matéria, com a doutrina da Igreja. E assim, Veneráveis Irmãos, se houver grupos que se recusem a submeter-se a estas condições, devereis considerá-los por isso mesmo como se recusassem a submeter-se à vossa direção; e, então, dever-se-á examinar se eles se confinam na política ou na economia pura, ou se perseveram nos antigos erros. No primeiro caso, está claro que já não vos devereis ocupar mais deles do que do comum dos fiéis; no segundo, devereis agir em conseqüência, com prudência mas com firmeza. Os padres deverão manter-se totalmente alheios aos grupos dissidentes e se contentarão com prestar o socorro do santo ministério individualmente a seus membros, aplicando-lhes, no tribunal da Penitência, as regras comuns de moral relativamente à doutrina e à conduta. Quanto aos grupos católicos, os padres e os seminaristas, sempre favorecendo-os e os secundando, abster-se-ão de se inscreverem como membros, porque é conveniente que a milícia sacerdotal fique acima das associações leigas, mesmo as mais úteis e animadas do melhor espírito.
42. Tais são as medidas práticas pelas quais julgamos necessário sancionar esta carta sobre o Sillon e os sillonistas.Que o Senhor haja por bem, nós o rogamos no fundo da alma, fazer com que estes homens e estes jovens compreendam as graves razões que a ditaram, e lhes dê a docilidade de coração, com a coragem de provar, em face da Igreja, a sinceridade de seu fervor católico; e a vós, Veneráveis Irmãos, que vos inspire para com eles, pois que eles são doravante vossos, os sentimentos de uma afeição toda paternal.
É com esta esperança, e para obter estes resultados tão desejáveis, que vos concedemos, de todo o coração, assim como a vosso clero e a vosso povo, a Benção Apostólica.
- Dado em Roma, junto a S. Pedro, em 25 de Agosto de 1910, oitavo ano de Nosso Pontificado.
Pio X, papa.

Basta um nada para excitar a paixão nos jovens


Do futuro Papa S. Pio X

De uma carta datada de 10 de abril de 1894 do Cardeal José Sarto, depois S. Pio X, ao Vice-Reitor do Seminário de Mântua, a respeito de uma revista recreativa então muito difundida entre as famílias católicas:



“Tendo caído em minhas mãos um número do ‘Giovedi’, notei com verdadeira surpresa que essa revista não é escrita com a prudência e delicadeza necessárias em uma leitura destinada à juventude. Como sei que alguns alunos do Seminário são seus assinantes, peço-lhe que retenha em seu poder todos os números que publiquem de agora em diante, embora pareçam inofensivos porque nestas coisas nunca é excessivo a circunspecção, e basta um nada para excitar a paixão nos jovens.”

(“San Pio X – Cartas”, tradução espanhola de José Ma. Javierre, Juan Flors Editor, Barcelona-Madrid-Valencia, 1954, p. 193).

Giuseppe Sarto, a eleição de um santo (III – Final)


Leia antes o primeiro e segundo posts da série.

As razões por trás da eleição

São Pio X, rogai por nós!A eleição de um cardeal ao Sumo Pontificado é sempre o resultado de muitas considerações, políticas e espirituais. Se Sarto foi eleito, é porque havia um amplo acordo quanto a seu nome. Não que uma grande maioria de cardeais compartilhavam a mesma visão sobre ele, mas, antes, havia um acúmulo das várias razões que eles individualmente tinham para querê-lo como Papa. Gianpaolo Romanato assim resumiu estes motivos:
O Patriarca de Veneza parecia ser a pessoa mais satisfatória. Seus traços biográficos representavam uma espécie de garantia. Ele era um homem do povo, muito humilde, e não da nobreza; havia nascido não nos Estados Papais, mas no Reino da Lombardia-Venécia; ele nunca servira como diplomata pontifício; era um homem discretamente culto, mas não um intelectual; passara toda a sua carreira na cura das almas; era de conhecimento geral que, se necessário, ele sabia mandar e fazer-se obedecido. Além do mais, era conhecido por sua profunda piedade; totalmente distante dos lobbies romanos e desprovido de interesses pessoais. Por último, mas não menos importante, ele tinha exatamente a idade certa (68) para dar a todos as necessárias garantias de discernimento e prudência”. [Romanato, “Pio X: profile storico”, in Sulle orme di Pio X, p. 13.] 
Em suma, de muitas formas ele era o anti-Rampolla. Até o veto, o conclave havia sido em grande parte um reflexo das lutas de influência entre os grandes blocos de poder. O veto austríaco escandalizou muitos cardeais e fez com que eles vissem que o critério para escolher o sucessor de São Pedro deveria ser essencialmente religioso. Também é possível que, mesmo que os participantes do conclave ainda não tivessem informação suficiente para avaliar os resultados do pontificado de Leão XIII, eles tinham algumas de suas deficiências em mente. Enquanto as encíclicas sociais de Leão XIII, o seu prestígio com certos governos e seu encorajamento da renovação intelectual cristã (notavelmente através de um retorno à filosofia tomista e da renovação dos estudos bíblicos) contavam a seu favor, os observadores mais atentos não podiam deixar de ver os problemas que permaneceram não resolvidos: a inadequada formação do clero italiano e o seu laxismo, a crescente laicização das consciências e dos estados, os primeiros sinais do modernismo, etc. Dando os seus votos gradativamente ao Cardeal Sarto, os cardeais do conclave de 1903, evidentemente, queriam romper com um certo tipo de pontificado e com uma certa maneira com que a Igreja se apresentava ao mundo. Sem exagerar grosseiramente as diferenças — pois havia também continuidade –, podemos dizer que os cardeais queriam ver um papa proeminentemente político sucedido por um papa religioso, que traria a Igreja “de volta ao centro” — o centro sendo Cristo — ao unir o povo cristão nos fundamentos da disciplina e da defesa da fé.
O Cardeal Sarto, no entanto, não aspirava ao Sumo Pontificado. Há uma riqueza de detalhadas evidências de que ele não estava fingindo uma aparente humildade; nem é esta imagem o resultado de reconstrução hagiográfica após o acontecimento. Na mesma medida em que os votos cresciam para o Patriarca de Veneza, aumentava também a sua apreensão. Após o quarto escrutínio, ele declarou que “não foi feito para o Papado, e que as pessoas estavam usando o seu nome sem consultá-lo” [Landrieux, “Le Conclave de 1903”, p. 176]. Diversos cardeais foram à sua cela para encorajá-lo a não rejeitar o ofício pontifício se este lhe fosse confiado. O Cardeal Satolli repetiu a ele as palavras de Cristo a São Pedro, andando sobre as águas: “Ego sum, nolite timere!” e, sorrindo, disse-lhe: “Deus que vos ajudou a comandar a gôndola de São Marcos, ajudará a guiar a barca de São Pedro”. Após a quinta votação, parecia que movimento em favor do Patriarca de Veneza só poderia ficar cada vez mais forte. Porém, como relatou o conclavista Landrieux, “após o escrutínio, Sarto se levantou e declarou que ele era indigno da escolha que muitos estavam fazendo, e lhes implorou que votassem em outros” [Ibid., p. 178].
Os escrúpulos e as recusas do Cardeal Sarto eram tão insistentes que o Cardeal Decano, Oreglia di San Stefano, pediu a Monsenhor Merry del Val que fosse vê-lo. Monsenhor Merry del Val fez um relato deste primeiro encontro com o homem de quem ele seria o principal colaborador:
Sua Eminência (Cardeal Oreglia di San Stefano) se sentiu obrigado em consciência a assegurar que o conclave não se arrastasse [em um impasse], e enviou-me ao Cardeal Sarto para questioná-lo se ele insistiria em sua recusa e, fazendo-o, se desejaria e autorizaria que Sua Eminência, o Cardeal Decano, fizesse uma pública e definitiva declaração a este respeito ao conclave durante a sessão da tarde. Neste caso, o Cardeal Decano convidaria os seus confrades a refletir e ao menos a considerar a possibilidade de direcionar suas escolhas a outro candidato.
Eu parti imediatamente para procurar o Cardeal Sarto. Disseram-me que ele não estava em seu quarto e que eu provavelmente o encontraria na capela Paulina.
Era quase meia-noite quando adentrei à silenciosa e sombria capela…
Eu notei um cardeal ajoealhado no chão de mármore próximo ao altar, absorto em oração, com a cabeça entre as mãos e seus cotovelos apoiados em um pequeno banco.
Era o Cardeal Sarto.
Ajoelhei-me ao seu lado e, em voz baixa, dei-lhe a mensagem da qual havia sido incumbido.
Sua Eminência, assim que me compreendeu, levantou os seus olhos e lentamente voltou sua cabeça para mim, com lágrimas transbordando de seus olhos…
“Sim, sim, Monsignore”, ele acrescentou gentilmente, “pedi ao Cardeal Decano que me faça esta caridade…”
As únicas palavras que tive forças para expressar, e que vieram espontaneamente aos meus lábios, foram:
“Eminência, tende coragem! O Senhor vos ajudará!” [Cardeal Merry del Val, Pie X, Impressions et souvenirs”, p. 51]
Quando Pio X escreveu, nas primeiras linhas de sua primeira encíclica, “inútil é lembrar-vos com que lágrimas e com que ardentes preces Nos esforçamos por desviar de nós o múnus tão pesado do Pontificado supremo”, não se tratava de mera formulação costumeira de palavras.

A eleição

Entrementes, o Cardeal Sarto havia se restabelecido de suas apreensões. Outros cardeais, particularmente Ferrari e Satolli, vieram fazer “um premente apelo à sua consciência, para persuadi-lo a aceitar o sacrifício. [Cardeal Mathieu, “Les derniers jours”, p. 283.] O Cardeal Rampolla, apesar de seus votos em declínio, manteve sua candidatura. Fê-lo, afirmou ele, “por uma questão de princípio” e estava agindo “sob conselho formal de seu confessor”. [Cardeal Perraud, “Jounal du Conclave de 1903”, pp. 65-66.] Esta atitude, ao fim, atrasou a eleição do Cardeal Sarto. Parecia mesmo, após várias abordagens relatadas pelo Cardeal Perraud, que a obstinação de Rampolla era uma tática deliberada de obstrução contra Sarto. [O Cardeal Perraud relata duas visitas que o Cardeal Rampolla lhe fez em 4 de agosto: Ibid., p. 67. O Padre Landrieux, por sua vez, conta em seu Diário os esforços feitos pelos cardeais franceses para persuadir Rampolla a se retirar “nobremente”: a recusa deste impressionou os purpurados. Landrieux observa, sobre o penúltimo dia do conclave, após o sexto escrutínio no qual Rampolla recebeu apenas 16 votos (apenas metade do que recebera no dia anterior): “O comportamento de Rampolla é incompreensível. Ele não alcançou nada. Em quatro escrutínios, manteve 30 votos a seu favor para nada. Ele foi incapaz e relutante em dar qualquer direção àqueles que o apoiaram. Ele se recusou a sair quando se viu comprometido e perdeu o momento psicológico quando ele poderia salvar tudo com uma saída digna e honrosa”(“Le Conclave de 1903”, p. 179).]
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Finalmente, na votação — a sétima — da manhã de 4 de agosto, Cardeal Sarto recebeu 50 votos, contra apenas 10 do Cardeal Rampolla e 2 do Cardeal Gotti. “O Cardeal Sarto estava acabado”, recorda o Cardeal Mathieu: “seus olhos estavam cheios de lágrimas, o suor escorria por sua face e parecia estar quase desmaiando”. Segundo o ritual, o Cardeal Oreglia, Decano do Sacro Colégio, dirigiu-se a ele com dois outros cardeais para questionar ao recém eleito:
“Aceitais a eleição que canonicamente vos faz Soberano Pontífice?”
O Cardeal Sarto respondeu humildemente:
“Quoniam calix non potest transire, fiat voluntas Dei! (Já que não posso afastar-me deste cálice, faça-se a vontade de Deus)”.
Canonicamente, esta não era a resposta correta. O Cardeal Oreglia questionou novamente:
“Aceitais ou não?”
Então o Cardeal Sarto respondeu com a fórmula exigida:
Accepto!”
E quando questionado sobre qual nome ele doravante gostaria de ter, declarou:
“Pius Decimus (Pio X)”.
Saint Pius X, Restorer of the Church, Yves Chiron, Angelus Press, 2002, pp. 124-127 | Tradução: Fratres in Unum.com. As notas com meras remissões bibliográficas foram excluídas.

O modernista crente





Agora, passando a considerá-lo como crente, se quisermos conhecer de que modo, no modernismo, o crente difere do filósofo, convém observar que, embora o filósofo reconheça por objeto da fé a realidade divina, contudo esta realidade não se acha noutra parte senão na alma do crente, como objeto de sentimento e afirmação; porém, se ela em si mesma existe ou não fora daquele sentimento e daquela afirmação, isto não importa ao filósofo. Se, porém, procurarmos saber que fundamento tem esta asserção do crente, respondem os modernistas: é a experiência individual. Com esta afirmação, enquanto na verdade discordam dos racionalistas, caem na opinião dos protestantes e dos pseudo-místicos.


Eis como eles o declaram: no sentimento religioso deve reconhecer-se uma espécie de intuição do coração, que pôs o homem em contato imediato com a própria realidade de Deus e lhe infunde tal persuasão da existência dele e da sua ação, tanto dentro como fora do homem, que excede a força de qualquer persuasão, que a ciência possa adquirir. Afirmam, portanto, uma verdadeira experiência, capaz de vencer qualquer experiência racional; e se esta for negada por alguém, como pelos racionalistas, dizem que isto sucede porque estes não querem pôr-se nas condições morais que são necessárias para consegui-la. Ora, tal experiência é a que faz própria e verdadeiramente crente a todo aquele que a conseguir. Quanto vai dessa à doutrina católica! Já vimos essas idéias condenadas pelo Concílio Vaticano I. Veremos ainda como, com semelhantes teorias, unidos a outros erros já mencionados, se abre caminho para o ateísmo. Cumpre, entretanto, desde já, notar que, posta esta doutrina da experiência unida à outra do simbolismo, toda religião, não executada sequer a dos idólatras, deve ser tida por verdadeira. E na verdade, porque não fora possível o se acharem tais experiências em qualquer religião? E não poucos presumem que de fato já se as tenha encontrado. Com que direito, pois, os modernistas negarão a verdade a uma experiência afirmada, por exemplo, por um maometano? Com que direito reivindicarão experiências verdadeiras só para os católicos? E os modernistas de fato não negam, ao contrário, concedem, uns confusa e outros manifestamente, que todas as religiões são verdadeiras. É claro, porém, que eles não poderiam pensar de outro modo.

(Encíclia Pascendi Domici Gregis - São Pio X).

Há 110 anos, a coroação de São Pio X.


Em todos os detalhes, o ritual de uma cerimônia hoje simplificada em missa de entronização.

piox3Por Les temps | Tradução: Fratres in Unum.com – 20 de março de 1903: « […] O Papa, acompanhado dos cardeais, do pessoal da Corte Pontifícia, dos Guardas Nobres e dos Guardas Suíços, apareceu às 8:30 no pórtico da Basílica. Diante da Porta Santa, Pio X, revestido das vestes pontificais, usando a mitra, está sentado no trono. Os cardeais assentam-se em bancos especiais. Rampolla, Cardeal Arcipreste da Basílica, acompanhado do capítulo e do clero, profere em latim o discurso de costume ao novo Papa. Pio X, em seguida, admite o capítulo e o clero para beijar os múleos. Enquanto isso, o coro da Capela Sistina canta o Tu es Petrus. O Papa, então, é elevado na sede gestatória, rodeado pelos flabelos e precedido pelos dignitários e cardeais. Ele ingressa às 9:30 na Basílica pela porta central. É acolhido pela aclamação da multidão enquanto que da loja da bênção soam as trombetas de prata. A Guarda Palatina presta as honras. O Papa dá sua bênção e faz sinal com a mão para que se fizesse silêncio e parassem as aclamações. Diante do altar do Santíssimo Sacramento, o Papa desce de sede gestatória. Ele permanece alguns minutos em adoração diante do Santíssimo Sacramento, exposto de forma solene. Todos os cardeais ajoelhados formam como que uma coroa em torno dele. A cena é magnífica. […]
Os mestres de cerimônias pontifícias vão naquele instante à frente do Papa e queimam estopas por três vezes, clamando: “Santo Padre, assim passa a glória do mundo”. Finalmente, o Papa chega ao altar enquanto o coro da Sistina canta o Ecce sacerdos Magnus. Na abside, à direita e à esquerda do trono, foram construídas tribunas para a família do Papa, os Cavaleiros de Matal, o corpo diplomático, o patriciado romano. […] Depois do Sacro Colégio, os bispos e padre proferem o ato de obediência, os cardeais beijando os pés, os joelhos e o rosto do Papa; os Bispos, os pé e os joelhos; os padres, apenas os pés.
A missa começa de acordo com o cerimonial das missas papais. Após o canto da epístola e do Evangelho em latim e grego, o Cardeal diácono Macchi, acompanhado pelos auditores da rota e dos advogados consistoriais, chega ao altar, enquanto o Pontífice sobe o trono e recita as ladainhas especiais para a coroação. No momento da elevação, as trombetas de prata ressoam do alto da cúpula, enquanto o Corpo de Armas do Vaticano se ajoelha. A assistência observa um silêncio religioso. Após o Papa ter se assentado em seu trono e comungado com o cerimonial habitual, o diácono e o subdiácono comungam igualmente. A Missa termina, o Papa se levanta novamente na sede gestatória, entre os flabelos, sob um baldaquino suntuoso, e é levado a um pódio especial erigido em frente ao altar da confissão. Neste momento, o Cardeal Decano recita a oração do novo Pontífice eleito e, em seguida, o Cardeal subdiácono retira a mitra, enquanto o Cardeal diácono coloca a tiara e pronuncia a entronização. O Papa então lê em voz alta algumas orações, em seguida sobe ao trono e dá a benção solene à assistência, que aclama calorosamente o Pontífice enquanto este atravessa a igreja para se dirigir ao altar da Pietà. O Papa recebe os votos do Sacro Colégio, e, depois, pela escada interior da capela do Santíssimo Sacramento, finalmente entra em seus apartamentos. »

Giuseppe Sarto, a eleição de um santo (II)


Leia antes o primeiro post da série.

O veto contra Rampolla

Cardeal Mariano Rampolla.
Cardeal Mariano Rampolla.
Até o quinto escrutínio, Rampolla era o “candidato” mais bem colocado, ao menos com a maioria dos votos. Para muitos observadores não eclesiásticos, e para um certo número de cardeais, como dissemos, ele era o candidato óbvio para suceder a Leão XIII, uma vez que as pessoas estavam certas de que ele daria continuidade às políticas do Papa a quem servira como Secretário de Estado. Isso explica o elevado número de votos em seu favor nos primeiros escrutínios. Relativamente pouca atenção foi dada, todavia, ao fato de que o crescimento de seus votos, de um escrutínio a outro, não era impressivo. Da segunda para a terceira votação ele ficou estagnado em 29, um sinal de que seu nome encontrava dura oposição no coração do Sagrado Colégio e que ele havia atingido, talvez, o máximo de votos possível. Neste ponto, antes da quarta votação, ocorreu o que ficaria conhecido como o “veto” do cardeal Puzyna.
Cardeal Puzyna, Princípe de Kozielsko, Bispo de Cracóvia (então dentro do Império Austríaco), levantou-se para ler uma declaração em latim. [Ele o fez “ao sinal do Cardeal Kopp”, afirma Landrieux, informado por um cardeal (“Le Conclave de 1903”, p. 177). Cardeal Kopp era o bispo de Breslau (hoje Wroclaw, Polônia)]
Ele declarou: “… oficialmente e em nome e pela autoridade de Franz-Josef, Imperador da Áustria e Rei da Hungria, que Sua Majestade, em virtude de um antigo direito e privilégio, pronuncia um veto de exclusão contra o meu Eminentíssimo Senhor, o Cardeal Mariano Rampolla del Tindaro”. [O Cardeal Mathieu, em “Les derniers jours de León XIII et le conclave de 1903”, p. 280, dá o  texto latino integral da declaração; Marchesan, p. 483, o reproduz. As outra fontes dão a substância do texto, com notáveis diferenças (Cardeal Perraud insistia na natureza “semi-oficial” do veto).]
O Cardeal Puzyna falou muito rapidamente, com enorme emoção. Muitos cardeais não compreenderam o que a sua declaração significava, e alguns sequer ouviram-na completamente. Um cardeal italiano então leu a declaração novamente em voz clara. Todos entenderam que um veto fora lançado contra o Cardeal Rampolla.
Nenhum dos participantes do conclave, nos relatos escritos que citamos, deu as razões que levaram a Áustria a pronunciar este veto. Nem os primeiros biógrafos de Pio X se arriscaram a especular o motivo dessa exclusão do antigo Secretário de Estado de Leão XIII. Desde então, os historiadores aventaram razões de natureza política. A Áustria estaria insatisfeita com o apoio dado pelo antigo Secretário de Estado às aspirações de eslavos e balcânicos, e o próprio cardeal Puzyna havia acusado Rampolla de ter sacrificado os interesses dos poloneses em favor de suas políticas pró-Rússia.
Algumas de suas críticas são ecoadas nos relatórios de diplomatas franceses à época da eleição. Quando o conclave estava para começar, Bihourd, embaixador da França em Berlim, escreveu ao seu governo: “O que o governo austro-húngaro mais teme é o possível sucesso do Cardeal Rampolla. Em Viena, teme-se que a sua eleição apenas encorajaria as aspirações de independência por parte dos católicos eslávos na Croácia, Carniola, Boemia e outras partes do reinado”. [Cf. Aubert, “Pio X tra restaurazione e riforma”, Storia della Chiesa, vol. XXII/1, La Chiesa e la società industriale, pp. 108-109, que remete aos estudos de F. Engel-Janosi e Z. Obertynski.] … Após a eleição, contudo, o cônsul-geral da França na Hungria daria uma razão adicional: “Não é tanto a hostilidade do antigo Secretário de Estado vis-à-vis a Tríplice Aliança que levou a esta intervenção direta da Áustria, mas a sua obstinada frustração, em diversas ocasiões, dos interesses da Hungria”, e deu como exemplos as dificuldades encontradas em relação às indicações episcopais na Hungria e sua rejeição — oposta pela Santa Sé — do desejo do Império de ver o cardinalato concedido a Dom Samossa. [Relatório do cônsul-geral da França na Hungria ao Ministro de Assuntos Exteriores, 12 de agosto de 19023, AMAE, NS 4, f.46-49.]
Alguns outros escritores levantaram outra razão para o veto austríaco estritamente religiosa: o Cardeal Rampolla supostamente era maçom. [O Marquês de La Franquerie, em seu livreto Saint Pie X sauveur de L’Église et de la France (Montsûrs: Éditions Résiac, 1976), p.3, escreve: “Devemos ter em mente que o Cardeal Rampolla estava praticamente eleito, mas o Imperador da Áustria – sem dúvida ciente de que o Secretário de Estado de Leão XIII pertencia à maçonaria – lançou o seu veto. Este veto providencialmente evitou que uma ferramente de Lúcifer ascendesse ao trono pontifício, e felizmente resultou em um Santo sendo elevado e ele”.] Na época não houve nenhuma menção disso, nem em relatórios de diplomatas nem nos escritos dos participantes do conclave, e sequer pelos “integristas” da La Sapinière[Em 1913, em uma lista elaborada por Monsenhor Benigni e alguns de seus amigos antes do futuro conclave, apenas um cardeal era suspeito de ser maçom; Agliardi foi julgado muito severamente: “um homem de tipo superior, sua mente cheia de ilusões, um sonhador, o Júlio Verne da política eclesiástica, o Crispi do governo papal, um megalomaníaco” (lista publicada por Émile Poulat, Intégrisme et catholicisme intégral [Tournai-Paris: Casterman, 1969], pp. 329-330).] Só após o pontificado de Pio X é que este rumor começou a se espalhar. [O rumor de que ele pertencera à maçonaria apenas começou a ser difundido após 1929, em decorrência dos artigos que apareceram em publicações contra-revolucionárias: cf. as citações encontradas em Georges Virabeau, Prélats et francs-maçons (Paris: Publications HC, 1978), pp. 26-31.] Podemos imaginar que se houvesse a mínima suspeita a este respeito em 1903, o Cardeal Sarto, uma vez eleito Papa, teria removido o Cardeal Rampolla de toda função pública na Igreja. Rampolla, no entanto, embora tenha perdido o posto de Secretário de Estado, manteve a maior parte de suas funções no pontificado de Pio X, e mesmo alcançou outras novas. Ademais, nós veremos que, se ele apenas exercia um papel secundário, era porque voluntariamente ingressara em uma semi-aposentadoria.
Neste momento, porém, confrontado com o veto impetrado contra si, o Cardeal Rampolla levantou-se e respondeu, calmamente, em latim: “Em nome dos princípios, protesto contra este ataque à liberdade e dignidade do Sagrado Colégio. No que diz respeito à minha própria pessoa, eu declaro que nada mais agradável e honroso (nihil jucundius, nihis honorabilius) poderia me acontecer”. Oreglia, o Cardeal Decano, fez uma declaração protestando contra esta intervenção estrangeira e afirmou que o conclave manteria a sua completa liberdade. Posteriormente, o Cardeal Perraud, em nome dos cardeais franceses, também fez o seu protesto.[Alguns meses após a sua eleição, na Constituição Apostólica Commissum nobis (20 de janeiro de 1904), Pio X formalmente condenou esta prática do veto ou exclusive e ameaçou de excomunhão qualquer cardeal que, no futuro, concordasse a apresentar tal medida no conclave (Documents pontificaux, vol. I, pp. 85-87).]
Inicialmente, o veto austríaco não teve nenhum efeito, uma vez que, no quarto escrutínio, o Cardeal Rampolla continuou a ter a maioria dos votos, mesmo que só tivesse alcançado um voto a mais do que nas votações anteriores e estivesse longe de obter os necessários dois terços dos votos. Diferentemente, o Cardeal Sarto continuava a avançar tranquilamente. Ele recebeu 24 votos neste quarto escrutínio e 27 no seguinte — o maior número de votos entre todos os cardeais nesta quinta votação. Tornava-se mais e mais certo que ele seria eleito ao Sumo Pontificado.
Continua…
Saint Pius X, Restorer of the Church, Yves Chiron, Angelus Press, 2002, pp. 121-124 | Tradução: Fratres in Unum.com. As notas com meras remissões bibliográficas foram excluídas.

Giuseppe Sarto, a eleição de um santo (I)


Iniciamos hoje uma série sobre a eleição ao Sólio Pontifício de São Pio X, que esperamos concluir até a eleição do novo Sumo Pontífice.

sarto
Os eleitores entraram em conclave na sexta-feira, 31 de julho de 1903, às 5 da tarde. Os cardeais poderiam ser acompanhados por duas pessoas, diante dos quais eles manteriam o mais absoluto sigilo: um “conclavista” e um “guarda nobre”. O Cardeal Sarto escolheu Monsenhor Bressa como seu conclavista e o Conde Stanislao Mucciolli como seu guarda nobre.
A cargo do conclave estavam o Decano do Sagrado Colégio e Camerlengo, Cardeal Oreglia de San Stefano, o único purpurado vivo criado por Pio IX. Monsenhor Merry del Val, presidente da Academia de Nobres Eclesiásticos, era o secretário do conclave. Monsenhor Cagiado de Azevedo e o Príncipe Mario Chigi eram, respectivamente, governador e marechal do conclave.
Sessenta e dois cardeais se reuniram na Capela Sistina para proferir o juramento [Dos 62 cardeais presentes no conclave, dois (Herrero e Cretoni) estavam doentes e tiveram que permanecer na cama; eles não puderam estar presentes nas sessões de votação na Capela Sistina.]
A Sistina servia tanto como lugar de orações quanto espaço para a contagem dos votos. Ao se aproximar às 8 da noite, os cerimoniários percorreram os corredores lançando o famoso brado extra omnes(“todos fora!”) enquanto o Cardeal Oreglia e seus assistentes se certificavam de que todas as portas estavam fechadas e todas as frestas lacradas, de modo que não pudesse haver comunicação entre os cardeais e o mundo de fora.
No dia seguinte, o Cardeal Sarto contou a seu secretário que não havia conseguido dormir. Ele passara grande parte da noite em oração. Na manhã do primeiro dia, após a chamada Missa “de comunhão” — os cardeais não celebravam a Missa, mas assistiam a celebração do Cardeal Decano e recebiam a Comunhão de suas mãos –, ocorreu a primeira votação.
A eleição ao Sumo Pontificado não pode ser comparada às eleições políticas que ocorrem nas democracias. Enquanto pode haver encontros entre cardeais antes e durante o conclave, não há “campanha eleitoral”– ou ao menos não deveria haver. Não há candidatos, promessas ou acordos — ou ao menos não deveria haver. Antes de cada voto, os cardeais proferem um juramento, com as mãos sobre os Evangelhos, de votar segundo as suas consciências: “Chamo por testemunha a Cristo, que um dia será meu Juiz, de que estou votando naquele que, diante de Deus, acredito ser o mais digno de ser eleito”. Há uma outra diferença: a eleição não se dá por uma simples maioria de votos. Para ser eleito, o futuro papa precisa ter alcançado dois terços dos votos. O novo papa não deve aparecer como tendo sido eleito por um partido em oposição a outro: deve haver o maior consenso possível.
Historicamente, os conclaves foram mais curtos ou mais longos. Três escrutínios foram necessários para eleger Leão XIII e sete para eleger aquele que tomaria o nome de Pio X. O curso do conclave que elegeu este último é bem conhecido pelos relatos de vários participantes, em escritos publicados logo depois do conclave ou postumamente: os cardeais franceses Mathieu e Perraud, o conclavista Maurice Landrieux, o secretário do conclave Merry del Val. A estas fontes podemos acrescentar a reconstrução feita pelo biógrafo “autorizado”, Marchesan.
Os resultados obtidos pelos três principais “candidatos” ao longo de sete votações podem ser assim apresentados: [Marchesan e as outras fontes citadas concordam quanto ao número de votos, em cada escrutínio, do principal papabile. Por outro lado, há divergência ou silêncio sobre o número de votos dos candidatos secundários. Damos aqui os números fornecidos pela embaixada francesa na Santa Sé, AMAE, NS 4, f. 36-37).]

1 de agosto

2 de agosto

3 de agosto

4 de agosto

Manhã
Tarde
Manhã
Tarde
Manhã
Tarde
manhã
Rampolla
24
29
29
30
24
16
10
Gotti
17
16
9
3
6
7
2
Sarto
5
10
21
24
27
35
50
Para ser completo, deve-se notar que os cardeais Serafino Vannutelli, Oreglia di San Stefano, Capecelatro, Di Pietro, Agliardi, Ferrata, Cassetta, Portanova, Segna, Tripedi e Richelmy receberam, cada um, um ou mais votos no primeiro ou seguintes escrutínios. Mas eles nunca se encontraram entre os favoritos e no sétimo e último escrutínio apenas os cardeais Sarto, Rampolla e Gotti estavam na contagem. Sarto obteve 5 votos na primeira votação e 10 na segunda, o que o instigou a dizer, em latim, ao cardeal Lecto, que estava ao seu lado: “Volunt jocare super nomen meum” (“Eles querem fazer uma piada com o meu nome”).
Continua…
Saint Pius X, Restorer of the Church, Yves Chiron, Angelus Press, 2002, pp. 119-121 | Tradução: Fratres in Unum.comAs notas com meras remissões bibliográficas foram excluídas.