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[Sermão] A ira santa e a paciência imprudente

Sermão para o Quinto Domingo depois de Pentecostes
23 de junho de 2013 – Padre Daniel Pinheiro

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave-Maria…
***
“Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus.” “Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás e quem matar será condenado em juízo. Pois eu vos digo que todo aquele que se irar contra seu irmão, será condenado em juízo.” (Mateus V, 21)
Neste trecho do Sermão da Montanha, que é o resumo da Lei Evangélica – lei do amor a Deus e ao próximo -, Nosso Senhor, legislador supremo, que aperfeiçoa a lei antiga e condena as interpretações erradas dadas pelos fariseus e escribas, mostra o valor profundo do quinto mandamento.  Não matar é insuficiente. É preciso cortar o mal em suas origens, pela raiz, é preciso coibir a ira, causa do homicídio.
O divino legislador parece, porém, violar a própria lei por Ele estabelecida. Pouco antes de estabelecer o perfeito sentido do quinto mandamento, Nosso Senhor atacou e condenou os fariseus, dizendo que a justiça deles era insuficiente para entrar no céu. Mas não somente isso: Nosso Senhor expulsa os vendilhões do templo com ira e condena os fariseus chamando-os de hipócritas, de cegos, de serpentes, de víboras, de orgulhosos. Haveria, então, uma contradição entre o preceito dado por Cristo e a sua atitude face aos fariseus?
A contradição, claro, é somente aparente. Para resolvê-la, devemos compreender o verdadeiro sentido do preceito e conhecer quem eram os fariseus e os escribas. Como explicam todos os Padres da Igreja baseados no texto grego do Evangelho de São Mateus, o que Nosso Senhor proíbe como pecado é a ira sem motivo. A ira é o sentimento, a paixão, que nos move a agir para restabelecer a ordem lesada por uma injustiça, para defender um bem que é atacado, uma verdade que é atacada. Assim, se esse movimento de cólera se dirige contra um verdadeiro mal a fim de restabelecer a justiça, a verdade ou a virtude por meios lícitos e dentro dos devidos limites, a ira não somente não é proibida, mas é mesmo louvável porque, neste caso, ela é conforme à razão e à moral. A ira encontra sua origem no amor do bem e da justiça. Quando o bem ou a justiça são atacados, nada mais virtuoso do que defendê-los dentro dos devidos limites. A ira deve, então, ser dirigida pela razão e voltar-se contra o mal, contra o vício, contra o pecado, que são uma ofensa a Deus, nosso maior bem. E face ao pecado e ao vício, a ausência de ira pode ser um pecado porque mostra a falta de amor por Deus. O preceito de Nosso Senhor – “todo aquele que se irar contra seu irmão, será condenado em juízo” – encontra seu verdadeiro sentido quando se compreende desse modo: todo aquele que se irar contra seu irmão, sem motivo, será condenado em juízo.
Resta saber se a ira de Nosso Senhor relativa aos fariseus é justa ou não.  Para tanto, é preciso conhecê-los. Fariseu quer dizer separado e comumente se pensa que os fariseus são aqueles que cumprem com exatidão a lei de Deus. Com frequência, católicos sérios são acusados de serem fariseus por buscarem, apesar de suas inúmeras fraquezas e defeitos, praticar bem a lei de Cristo, opondo-se às leis desse mundo. Ora, se os fariseus fossem simplesmente fiéis observadores da Lei de Deus, Nosso Senhor não teria razão para repreendê-los e condená-los, mas sim para elogiá-los dizendo: “servos bons e fiéis entrem na alegria do Senhor”. Nosso Senhor observou perfeitamente a Lei Mosaica e Nossa Senhora também. Seriam eles fariseus? Os fariseus não são aqueles que observam perfeitamente a lei de Deus.  Ao contrário, os fariseus não praticavam a lei dada por Deus e não deixavam os outros praticá-la: em primeiro lugar porque os fariseus e escribas – seguindo tradições puramente humanas, inventadas por eles, e interpretando a Lei segundo seus gostos – violavam essa mesma lei. Sob pretexto de cumprir tais tradições, a lei dada por Deus era desprezada. Sabemos que nenhuma lei humana, nem mesmo a lei de um país pode contrariar a lei estabelecida por Deus. Assim, inventaram uma consagração de certos bens a Deus para não ajudar os pais, evitando perder, dessa forma, certa riqueza (Marcos VII, 11), e se opondo ao quarto mandamento. Em segundo lugar, os fariseus violavam a lei porque praticavam uma religião puramente exterior, em que a pureza exterior substituía a santidade interior. Assim, eles pagavam o dízimo de todas as ervas (o que era bom e louvável), mas negligenciavam a justiça e a misericórdia (Mateus XXIII, 23). Eram hipócritas, bonitos por fora como um túmulo pintado de branco, mas no interior cheio de podridão. Finalmente, os fariseus violavam a lei pelo orgulho: todas as suas boas obras eram para ser vistas pelos homens e não por amor a Deus, em franca oposição ao que é preciso fazer, pois “quer comais quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (I Cor X, 31) . Com essa doutrina, os fariseus não entravam no céu e também não deixavam os outros entrar, uma vez que eram os guias do povo. Eram, então, cegos guiando cegos. Haveria maior mal do que esse, haveria maior ofensa a Deus do que essa: impedir que os outros entrem no céu?
Nosso Senhor Jesus Cristo – que amava a Deus da maneira mais perfeita possível e que buscava a salvação das almas – não poderia ficar impassível face à péssima doutrina dos fariseus. Ele, sendo bom, amava a justiça, e a justiça lesada pede reparação. Assim, a ira de Nosso Senhor contra os fariseus é, em realidade, virtuosa porque ela tem um motivo perfeito: os direitos de Deus atacados e a salvação das almas impedida pela doutrina dos fariseus e escribas. É importante sabermos que existe uma ira santa. Muitos católicos pensam que a santidade consiste numa total indiferença face ao mal, no fato de não reagir de maneira alguma, na tolerância da diferença. Tudo isso baseado em um falso conceito de mansidão. A mansidão não impede a ira, mas a regula segundo a reta razão iluminada pela fé. De um lado, a mansidão impede a ira desordenada que pode ser pecado mortal ou venial, segundo exceda grave ou levemente os limites impostos pela razão na correção do próximo, na reparação da justiça, na defesa de um bem, de uma verdade. Do outro lado, ela impede uma excessiva brandura, originada do amor por uma falsa paz.  O exemplo de santidade e de mansidão é Cristo e Ele mostrou que em determinados momentos uma ira santa é indispensável. Assim, Santo Agostinho nos diz que aquele que não se enfurece (de maneira ordenada), quando há uma causa para isso, peca por uma paciência imprudente que favorece os vícios, aumenta a negligência e encoraja o agir mal. A ausência da ira seria então pecar contra a justiça e a caridade. Nós católicos e, sobretudo, aqueles constituídos em autoridade deveríamos, então, nos levantar para defender os direitos de Deus e nos opormos, com vigor, às leis e doutrinas iníquas: divórcio, aborto, contracepção, união contra a natureza, entre tantas outras… A nossa paciência imprudente já permitiu males enormes…
Todavia, a ira para ser santa deve ser prudente.
Ela deve ter como causa uma verdadeira injustiça. Ela deve proceder da inteligência e da vontade e não de um sentimento impetuoso e descontrolado. Ela tem que ser dominada pelo homem e não o homem ser dominado por ela. Se nossa inclinação é de falar bruscamente, com voz destemperada e expressões indevidas, com grosserias, palavras de baixo calão, nossa ira é desordenada, pecaminosa. Se nossa ira nos leva a agressões ou destruição do bem alheio, ela é pecaminosa (a não ser, claro, em caso de legítima defesa, ou em caso de exercício da legítima autoridade, mas sempre proporcionalmente ao mal que é combatido).
A ira santa deve ser exercida quando há alguma esperança de êxito e principalmente por aqueles que têm obrigação de denunciar a injustiça e de restabelecer a ordem. E, ainda que não haja a possibilidade de êxito, às vezes é preciso para não escandalizar os outros, dando a impressão de que estamos de acordo com o mal. Ela deve ser sempre proporcional ao mal causado, como já dissemos.
Ela deve ter em vista mais o bem comum e a glória de Deus do que o bem privado. A ira santa não deve ter como objeto os males e as pequenas injustiças que sofremos porque eles têm para nós algo de justo – pois merecemos ser punidos pelos nossos pecados – e de bom – porque se os aceitamos de bom grado, Deus nos conduz à vida eterna. Devemos ter muita paciência nas tribulações, unindo-nos a Nosso Senhor. Podemos, claro, buscar afastar essas adversidades e a causa do sofrimento, mas sempre com serenidade e com submissão à vontade de Deus. Diante do sofrimento e das adversidades, que nossa ira nunca se volte contra Deus, que é o autor de todo o bem.
Na ira santa, não devemos desejar o mal do pecador, mas o bem que é sua correção e o bem que é o restabelecimento da ordem violada – que no mais das vezes passa, claro, pela punição daquele que fez o mal.
Atenção. É muito fácil equivocar-se na apreciação dos justos motivos que justificam a ira e é muito fácil perder o controle no exercício dela. É preciso estar, então, muito alerta e, na dúvida, o melhor é inclinar-se à doçura e não à ira. 
Assim, Nosso Senhor, verdadeiramente manso, soube perfeitamente o momento de irar-se ou e não irar-se, pois muitas vezes o remédio mais eficaz diante de um mal não é a ira. Nosso Senhor irou-se contra os fariseus, pertinazes no erro e no pecado, mostrando a falsidade da doutrina desses mestres hipócritas, a fim de conduzir o povo a Deus e a fim de tentar converter os próprios fariseus. Mas Ele não se encolerizou contra Herodes ou Pilatos no momento de sua paixão, pois não convinha que Nosso Senhor reagisse: sua ira não os tiraria do mal no qual estavam afogados e convinha que ele morresse para nos salvar. Nosso Senhor também não se encolerizou nem com os apóstolos lentos para compreender os seus ensinamentos nem com outros pecadores (Maria Madalena, Zaqueu): neste caso, Ele sabia que o melhor remédio para conduzi-los a Deus era a paciência e a doçura e não ira.
Como diz, então, o Salmo: “Irai-vos, mas não pequeis”. Irai-vos por uma causa justa, irai-vos dentro dos justos limites. Irai-vos sem deixar se levar pela ira. Irai-vos mantendo sempre o controle da razão iluminada pela fé e pela caridade. Irai-vos amando o próximo, afastando o ódio pelos outros. Na dúvida, vale mais inclinar-se à doçura.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
[Nota do Editor: os destaques são nossos.]

A educação católica dos filhos: “Ensinar desde a mais tenra idade a temer a Deus e a se abster de todo pecado.”

Via Missa Tridentina em Brasília


Padre Daniel Pinheiro
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria…
“Ensinar desde a sua mais tenra idade a temer a Deus e a se abster de todo o pecado.”   Ab infantia timere Deum et abstinere ab omni peccato. (Tob. I, 10).
A questão da educação é fundamental, caros católicos, sobretudo nesses dias em que a sociedade como um todo se opõe de maneira cada vez mais hostil à lei natural e à lei divina. Da educação que a pessoa recebe na sua mais tenra infância depende o seu futuro, não somente neste mundo, mas também no próximo. De regra, tal a criança, tal o adolescente e tal o adulto. É a partir da educação que a consciência e a personalidade da pessoa são formadas, seja para o bem, seja para o mal. Assim, saber qual é o fim da educação e quais os meios para bem educar os filhos é indispensável para todo casal e educador católico.
Quando falamos de educação é preciso ter um conhecimento claro do homem e de seu estado atual. O homem é composto de corpo e alma. A educação deve prover, então, aos dois. O homem está maculado, ferido, pelo pecado original e sofre suas consequências, isto é, ele tem uma inclinação desordenada nas suas faculdades: quer dizer, a inteligência está inclinada para o erro, a vontade está inclinada para o mal e as paixões estão inclinadas para o bem sensível desordenado. É preciso levar em conta esta desordem nas faculdades do homem para poder educá-lo bem e empregar os meios adequados. Além disso, o homem foi elevado por Deus à vida sobrenatural, de maneira que o fim último do homem é sobrenatural e só pode ser alcançado pela prática da verdadeira religião.
A educação tem como objetivo, então, levar o homem ao seu desenvolvimento perfeito. A perfeição de cada coisa consiste em atingir a finalidade para a qual foi criada. O homem foi criado para Deus e seu fim último é, portanto, Deus. A educação, então, não deve ser naturalista, mas deve considerar não só a natureza do homem, mas a Revelação divina, pela qual o homem é chamado à vida sobrenatural. Uma educação naturalista privaria o homem daquilo para o que ele foi feito (visão beatífica no céu) e seria extremamente danosa e prejudicial não somente para o indivíduo, mas também para a sociedade.
O dever e o direito de educar as crianças e os jovens dizem respeito aos pais, em primeiro lugar. Por lei natural, este dever e este direito são dos pais. A educação das crianças está contida na primeira finalidade do casamento. Esta primeira finalidade visa não somente à procriação, mas também a educação da prole. Não basta gerar o filho, mas é preciso ajudá-lo a desenvolver-se da melhor maneira possível. Em outras palavras: não basta dar a vida, é preciso dar aos filhos uma vida feliz e a vida feliz é a vida virtuosa. Para tanto, é necessário, segundo a natureza humana e salvo situações extraordinárias, que estejam presentes o pai e a mãe, não somente para o sustento material, mastambém para a educação espiritual dos filhos, o que vai contra o divórcio, que perturba a educação dos filhos e, consequentemente, toda a sociedade. Nem precisamos falar de como uniões de pessoas do mesmo sexo são extremamente prejudiciais para a criança e toda a sociedade.
Os pais têm pela lei natural o dever e o direito – invioláveis ambos – de educar os filhos. Não se trata de um direito civil dado pelo Estado e que pode ser retirado a qualquer momento. Não. A família existe antes do Estado. O Estado tem, então, uma grave obrigação moral de permitir que os pais eduquem seus filhos. Por outro lado, os pais podem delegar para o Estado a educação dos filhos e podem retratar tal delegação a qualquer momento. O Estado tem direito de interferir nesse direito natural dos pais de educar os filhos somente em uma circunstância: quando os pais estão instruindo os filhos a violar a lei natural de maneira que decorra dano para o bem comum. Para interferir o Estado tem que agir segundo a lei natural e a lei divina. Então, se o Estado quer forçar o aprendizado da educação sexual, por exemplo, ele não tem direito algum, pois assim ele não está garantindo o bem comum, mas indo contra ele, pois viola a lei natural.
ideal seria que família, Igreja e Estado cooperassem na educação católicade uma criança e de um jovem, evitando assim, a mudança de ambientes, o que é extremamente prejudicial para a educação. Atualmente, isso é, infelizmente, quase impossível.
A educação é dever grave dos pais, pois da educação das crianças depende o futuro delas. Os filhos são como um depósito dado por Deus aos pais e do qual eles deverão prestar contas. A Sagrada Escritura nos diz: “Aquele que educa seu filho (…) quando morrer não ficará aflito e se salvará pela educação deles.” (Eccl XXX, 3- 5: Qui docet filium suum… in obitu suo non est contristastus nec confusus. E 1 Tim. II, 15:  Salvabitur autem per generationem filiorum.)
O fim da educação é a virtude nesta terra, quer dizer a santidade, e a glória eterna na outra vida. Ora, a virtude consiste numa disposição muito bem enraizada para agir bem, fazendo o que é bom, por um bom motivo e nas circunstâncias devidas. Todavia, essa disposição bem enraizada para agir bem, que é a virtude, adquire-se pela repetição dos atos. Assim, quanto mais cedo aprendemos a agir bem, maior facilidade teremos para agir bem posteriormente. Isso quer dizer que a educação deve começar o mais cedo possível, mesmo quando a criança ainda não entende perfeitamente as coisas.Por isso, levamos a criança à Missa desde cedo, ensinamos à criança a rezar, a manter-se bem vestida, a respeitar as coisas sagradas. Em suma ensinamos à criança a evitar o mal e praticar o bem. Aquilo que a criança aprender na sua infância e adolescência dificilmente deixará de praticar na idade adulta. Diz a Sagrada Escritura que mesmo quando a criança envelhecer, não se afastará de seu caminho. Adolescens juxta viam suam, etiam cum senuerit, non recedet ab ea (Prov. XXII, 6).
Além disso, como no início o homem é como uma tábua rasa, aprender o bem é muito mais fácil, pois a criança ou o jovem não tem disposições ruins, além daquelas que são consequência do pecado original. Por outro lado, deixar o mal ao qual a pessoa já se habituou é uma tarefa dificílima. É imperioso, dessa forma, acostumar as crianças desde já a praticar o bem e a evitar o mal. A Sarada Escritura diz: Ensinar desde a sua mais tenra idade a temer a Deus e a se abster de todo o pecado. Ab infantia timere Deum et abstinere ab omni peccato. (Tob. I, 10). Agora, como começar a educação de alguém que ainda não atingiu a idade da razão? Aristóteles e depois São Tomás dizem que a virtude nada mais é do que alegrar-se com aquilo que é bom e entristecer-se com aquilo que é mal. Dessa maneira, a melhor forma de educar uma criança é fazer que ela se alegre com o bem que ela faz e que ela se entristeça com o mal. É preciso, então, recompensar as boas ações e punir as más, mesmo que ela não tenha plena consciência de uma ou de outra. Ela passará a gostar de fazer o bem e odiará fazer o mal. Ela vai aprender com isso, que nossas ações têm uma consequência, merecendo um prêmio ou um castigo nesta terra, mas também depois da morte.
Mas como educar os filhos? Pais, não exaspereis os vossos filhos, mas educai-os na disciplina e na instrução do Senhor, nos diz São Paulo. Et vos patres educate filios vestros in disciplina et correptione Domini (Eph VI, 4). Isto quer dizer que é preciso instruir os filhos segundo a doutrina e discipliná-los, corrigi-los quando agem mal.
Instrução. O primeiro dever dos pais é conformar a conduta do filho à lei de Deus, quer dizer, segundo a lei natural e segundo a Revelação. E os pais devem fazer isso não somente com as palavras, mas também com o exemplo.
Pelas palavras. Os bons pais reunirão com frequência os filhos em torno de si e ensinarão, desde bem cedo, o temor de Deus, o amor da verdade e do bem.  Assim, o primeiro dever dos pais é instruir os filhos quanto à fé, em particular sobre quatro pontos fundamentais: 1) que há um Deus criador de todas as coisas e todo-poderoso; 2) que este Deus é remunerador, premiando os bons e punindo os maus; 3) que há um só Deus em três pessoas; 4) que Deus se encarnou no seio de Maria e que Ele sofreu e morreu para nos salvar.Os pais devem também ensinar para os filhos o fim que devem buscar: conhecer, amar e servir a Deus.  É preciso, então, que os pais tenham o mínimo de conhecimento dessas coisas a fim de transmitir aos filhos. Se eles ignoram tais coisas (o que é grave) eles devem pelo menos enviá-los a alguém que ensine a fé às crianças. É de se lamentar muitíssimo que as crianças cheguem à juventude sem conhecer praticamente nada da religião, como, por exemplo, o que significam o pecado mortal, o inferno, o céu, a eternidade. É de se lamentar também que eles não conheçam as orações mais básicas que todo cristão deve saber, sob pena de pecado grave (Sto Afonso de Ligório):  Pater, Ave-Maria, Credo. Os pais devem ensinar a criança a rezar. A rezar a oração da manhã, a oração da noite. Devem ensinar a pedir perdão pelas suas faltas, a agradecer pelos dons de Deus, a oferecer tudo a Deus. Os pais devem ensinar a devoção à Maria Santíssima, em particular um apreço enorme pelo Terço. Eles devem favorecer o amor ao Santíssimo Sacramento, visitando-o com frequência. A família deve rezar junta. Os pais devem ler bons livros para seus filhos (história da salvação, histórias de santos, e.g.) e dar bons livros para que eles leiam. No momento em que eles atingirem a idade da razão (em torno de sete anos), é preciso habituá-los a frequentar os sacramentos (confissão e comunhão). Com esses bons hábitos bem penetrados na alma, eles perseverarão até o fim. Deus não há de abandoná-los.
Os pais devem ensinar aos filhos as verdadeiras máximas da vida e não as máximas mundanas. Assim, longe dos pais católicos dizer aos filhos: “É essencial ser estimado pelos outros”; “Deus é misericordioso, no final perdoará teus pecados”. Os bons pais têm outra linguagem. Como Santa Branca, mãe de São Luís, eles dizem: “Meu filho, eu prefiro te ver morto no meu braço que em estado de pecado”; ou dizem: “o que vale ganhar o mundo inteiro, se nós perdemos a nossa alma”, ou “tudo se perde, mas não percamos Deus”. E finalmente aquela máxima de São Domingos Sávio: “Antes morrer do que pecar”. Uma dessas máximas bem impressas no espírito de uma criança bastará, como nos diz Santo Afonso, para que a criança se mantenha toda a sua vida em estado de graça.
Os pais, além de ensinar aos filhos, devem governar os filhos de forma a evitar as ocasiões de agir mal, as ocasiões de pecado. É preciso evitar a ociosidade dos filhos, ocupando bem o tempo deles. A ociosidade é ocasião farta para o pecado. David cometeu adultério e homicídio porque num momento de ociosidade levantou os olhos para uma mulher.
É preciso impedi-los de ir a lugares suspeitos e de andar em má companhia. A má companhia é o flagelo da juventude. Os pais devem saber aonde vai o filho quando ele sai de casa, o que ele vai fazer e com quem ele vai. Os pais devem ter cuidado com os empregados e devem demiti-los se eles têm um comportamento ruim. É preciso impedir os jogos de azar (que levam à perda da fortuna e da alma), as danças e bailes, os espetáculos escandalosos, assim como as músicas ruins (e não só por causa das letras, mas da própria melodia, às vezes muito sentimental ou colérica). É preciso evitar os filmes impróprios (aqui estão incluídos praticamente quase todos os filmes atuais e muitos dos antigos), bem como os programas ruins de rádio. É preciso também vigiar as leituras dos filhos, a fim de que não leiam o que vai contra a moral e contra a fé. É necessário ter cuidado com os livros de romances, que tiram a juventude da realidade e a leva por um caminho ruim. E mesmo historinhas de ficção e desenhos para crianças são em grande parte prejudiciais pelo conteúdo – que via de regra é péssimo – mas também pelo fato do excesso acostumar a criança a viver fora da realidade e não gostar da realidade.
Hoje, é preciso tomar cuidado, sobretudo, com a televisão e a internet. A televisão invade de tal maneira a casa das famílias que elas tendem a destruir os lares e vai aos poucos incutindo uma forma de pensar e uma moral não só anticatólicas, mas também antinaturais. A televisão aos poucos substitui o que de bom existe no intelecto da pessoa por valores anticatólicos e antinaturais. Onde ela entra, atualmente, ela destrói tudo. A internet é celeiro do melhor e do pior. Assim, os pais precisam regular e conhecer o que acessam seus filhos, a fim de que eles se edifiquem natural e sobrenaturalmente. E só devem acessar, mesmo coisas boas, quando já tiverem certa idade. Essas coisas, como filmes, cinema, rádio, televisão, internet, são em si indiferentes. Assim, elas podem ser usadas para o bem e para o mal. Atualmente, porém, elas são usadas para destruir não só a realidade sobrenatural (a doutrina revelada por Cristo e afirmada pela Igreja), mas também os princípios mais básicos da realidade natural e as pessoas passam a viver fora da realidade. É preciso, então, cuidado. Pio XI escreveu assim na sua Encíclica Divini Illius Magistri, sobre a educação da juventude:
“Na verdade nos nossos tempos torna-se necessária uma vigilância tanto mais extensa e cuidadosa, quanto mais têm aumentado as ocasiões de naufrágio moral e religioso para a juventude inexperiente, especialmente nos livros ímpios e licenciosos, muitos dos quais diabolicamente espalhados, a preço ridículo e desprezível, nos espetáculos do cinematógrafo, e agora também nas audições radiofónicas, que multiplicam e facilitam toda a espécie de leituras, como o cinematógrafo toda a sorte de espectáculos. Estes potentíssimos meios de vulgarização que podem ser, se bem dirigidos pelos sãos princípios, duma grande utilidade para a instrução e educação, aparecem infelizmente, na maior parte das vezes, como incentivos das más paixões e da avidez do lucro. Quantas depravações juvenis, por causa dos espetáculos modernos e das leituras infames, não têm hoje que chorar os pais e os educadores!”
E acrescentemos por causa da televisão, da internet… Vale mais cansar-se um pouco agora cuidando do filho do que sofrer enormemente depois por tê-lo deixado à mercê de distrações indevidas.
Os pais devem vigiar também pelas obras de arte que estão em seu lar. Os quadros e esculturas licenciosas que geram pensamentos ruins devem desaparecer. Dessa forma, não basta ensinar o bem, mas é preciso vigiar, a fim de que se evite também o mal. Além disso, o que se verá no dia-a-dia de nossa sociedade já basta para que a criança ou o jovem conheça os males do mundo.
Somem-se aos ensinamentos pelas palavras os ensinamentos pelos exemplos. Os filhos têm grande tendência a ver nos pais o modelo e a imitá-los, portanto. O homem acredita mais naquilo que ele vê do que naquilo que ele ouve. Magis oculis credunt homines quam auribus. Assim, se os pais fazem o mal, como podem esperar que os filhos façam o bem? Aos pais que dão mau exemplo, São Tomás os chama de assassinos dos filhos. Não do corpo, mas da alma, claro. Frequente os sacramentos, vá aos sermões, reze o terço todo dia, seja modesto no falar e no vestir, não fale maledicências do próximo, fuja das disputas, abandone a vida mundana, guardem a devida hierarquia no matrimônio e os vossos filhos frequentarão os sacramentos, irão aos sermões, recitarão o rosário, fugirão das garras do mundo, serão obedientes, modestos e assim por diante. Eles imitarão, enfim, vossa conduta.  Isso tem que ser feito enquanto os filhos são crianças. É preciso endireitá-los desde a infância, nos diz a Sagrada Escritura (Eclesiástico 7, 25). Depois dos maus hábitos, fica extremamente difícil convertê-los pelas palavras e mesmo pelo exemplo.
Os pais devem, desde o momento do casamento, rezar pelos filhos, oferecer sofrimentos e penitências pela santificação dos filhos… suportando os defeitos das crianças, oferecendo as noites em claro para cuidar dos filhos, etc.
Querer o verdadeiro bem do filho não é realizar todas as suas vontades, ou dar abundantes brinquedos. Aliás, a abundância de brinquedos acostuma a criança a buscar sempre a novidade e ser superficial e depois ela não conseguirá controlar seus desejosQuerer o bem é permitir e ensinar à criança a fazer a vontade de Deus. Para tanto, é preciso também corrigir o filho, sempre que ele ande pelo mau caminho. A Sagrada Escritura diz: Quem poupa a vara odeia seu filho; quem o ama, castiga-o na hora precisa. (Prov. XIII, 24). A correção, que é aparentemente um mal, visa a um bem infinitamente superior: a virtude, a santidade. Se os pais amam o filho eles devem repreendê-lo e castigá-lo quando ele comete uma falta, mas claro devem castigá-lo de maneira proporcionalOs pais podem mesmo puni-lo fisicamente, mas só durante a infância e de forma moderada, porque eles agem enquanto pais e não enquanto mestres de escravos. O castigo enquanto se está irado deve ser evitado, para não passar além do que é justo e para que o filho não desconsidere a correção, pensando que se trata de um exagero devido à ira (Santo Afonso o diz expressamente).
Os pais devem proteger os filhos evitando todo tipo de pecado e sobretudo os relativos ao uso do matrimônio para que o demônio não seja atraído para a casa. Devem também usar os sacramentais para proteger a família: água benta, objetos abençoados, abençoando a casa…
Eis aqui, então, alguns deveres e direitos para que os pais eduquem bem os seus filhos. Claro, os filhos terão sempre o livre arbítrio e poderão escolher o mau caminho mesmo tendo recebido uma boa educação. Mas isso é relativamente raro. É preciso confiar em Deus.
Aquele que tiver educado bem os filhos neste mundo será dignamente recompensado.  Os pais se assemelham a Deus que por sua Revelação vai nos ensinando o que há de mais importante na nossa vida e nos conduz pela mão a fim de que possamos adorá-lo eternamente. Que os pais tenham na mente esse preceito de Cristo: “Deixai vir a mim as criancinhas” (Mc X, 14).
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Nota do editor: destaques são nossos.

Ordenado o primeiro Padre Brasileiro do Instituto do Bom Pastor.



Conforme já havíamos anunciado, no último dia 29, festa dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, em Bordeaux,Dom Fernando José Monteiro Guimarães, bispo diocesano de Garanhuns (PE), ordenou sacerdote o brasileiro Daniel Pereira Pinheiro, juntamente com Yvain Cartier e Giorgio Domenico Lenzi. Outros dois brasileiros, Luis Fernando Karps Pasquotto e Renato Arnellas Coelho, foram ordenados diáconos.
Já no Brasil, Padre Daniel celebrará uma Santa Missa solene às 10h30, no próximo dia 7, sábado, 5º aniversário da promulgação do Motu Próprio Summorum Pontificum, na paróquia Santo Cura d’Ars, situada na 914 sul, em Brasília (DF). Também no domingo, na mesma paróquia, ele celebra Missa às 11:30.
As fotos da primeira Missa do Padre Daniel podem ser vistas aqui.

IBP: Ordenações com o Cardeal Hoyos

Via Fratres in unum

Agradecemos ao seminarista Luis Carlos de Lima o envio das fotos das ordenações diaconais (Sergiusz Orzeszko, Polônia; Giorgio Lenzi, Itália; Yvain Cartier, França; e o brasileiro Daniel Pinheiro) e sacerdotal (Pe. Rémy Balthazard, França) conferidas por Sua Eminência Reverendíssima Dom Dario Cardeal Castrillon Hoyos no último sábado, na Igreja de Saint-Eloi, em Bordeaux, sede do Instituto do Bom Pastor.

Ordenação de Daniel Pinheiro, IBP

Via Frates in Unum

Courtalain, França, 10 de abril de 2011: O jovem Daniel Pinheiro, de Brasília, é ordenado ao subdiaconato, juntamente com outros 4 seminaristas do Instituto do Bom Pastor.

Posições contraditórias e ambíguas na Fraternidade São Pio X

Reflexões teológicas sobre algumas declarações recentes.

Posições contraditórias e ambíguas na Fraternidade São Pio X

pela redação de Disputationes Theologicae
Fonte: São Pio V
Os votos do abbé de Cacqueray para 2011: “Não vão à Missa do motu proprio”
Com um certo escândalo, lemos as recentíssimas proposições do abbé Régis de Cacqueray (o superior do distrito da França, o maior e mais prestigioso da Fraternidade São Pio X), sobre a assistência à Missa de São Pio V, celebrada por sacerdotes canonicamente reconhecidos pela Santa Sé ]ndr: o site da FSSPX no Brasil veicula também artigo semelhante]. O influente sacerdote, muito estimado pelos seus superiores, ao ponto de ser encarregado de um dos papéis mais importantes da instituição, exprime-se, no seu texto de votos para o ano novo de 2011, com os termos que se seguem: “Para sermos completos sobre esse assunto (falava sobre a importância de assistir à Missa tradicional, mesmo se for difícil encontrá-la), devemos ainda citar as outras Missas de São Pio V, celebradas com o favor dos indultos sucessivos, e por último com o motu proprio. É verdade que nós desaconselhamos a sua frequentação” [1]. Não se deveria, segundo ele, frequentar os sacramentos distribuídos por aqueles que estão em posições diferentes daquelas da Fraternidade, mas, neste aparente clima de acordos canônicos, se afirma até que seria oportuno que os padres diocesanos se aproximassem do rito tradicional, sem, porém, poder contar – haja vista a severa admoestação – com a presença dos fiéis da Fraternidade.
É difícil dizer o quanto há de “teológico” nessas afirmações, e quanto de “ideológico” ou de “partidarismo”. Qualquer que seja a intenção do abbé de Cacqueray, o problema é aquele mesmo, como afirmado concomitantemente ao anúncio da reunião de Assis em outubro próximo, “o perigo que resultaria para as almas”. Note-se que a frase do abbé de Caqueray, ainda que gravemente escandalosa, não vem acompanhada de nenhuma justificação teológica, e muito menos de uma rigorosa exposição dos pressupostos de tal afirmação, nem das suas consequências. Todavia, os contornos da “Pétite Eglise” não são ignorados pelo leitor atento.
Uma argumentação bem estruturada
Por outro lado, o pensamento de um outro teólogo da Fraternidade, o abbé Mérel (já professor em Ecône, e com cargos no distrito da França) é mais profundo especulativamente, e mais estruturado teologicamente. Num artigo [2] que ficou célebre – foi publicado em muitas ocasiões em revistas locais da Fraternidade a partir de 2008 -, e que possivelmente tenha inspirado as declarações mais vagas do seu superior, exprime-se ele em termos teológicos acessíveis, mas estritamente bem construídos. O discurso é simples: a missa de São Pio V, em si, é boa. Entretanto, assistir à Missa de São Pio V nem sempre é bom, depende das circunstâncias. Até aqui, ainda se poderia estar de acordo. Todavia, o abbé Mérel prossegue afirmando que, onde a Missa tradicional fosse celebrada por um sacerdote da Ecclesia Dei, não seria bom participar dela. De fato, pode-se fazer mal uso de uma coisa boa, diz o autor. Com o rum – o exemplo é do texto -, que é uma coisa boa em si, pode-se embriagar-se e pecar. Quais seriam, portanto, as circunstâncias que tornariam má a participação da Missa? Continua o abbé Mérel: “Não é necessário assistir à Missa dos ‘ralliés’ (com esse termo, entendam-se os “traidores”, que dependem da Ecclesia Dei e não da Fraternidade – alusão ao “ralliement” de Leão XIII) [3], porque eles se submetem à hierarquia conciliar”. Continua: “a missa de um padre ‘rallié’ (traduz-se “alienado” / “traidor”) é a Missa de um padre que, ao menos oficialmente, obedece o bispo local e o Papa (…), um padre que, obedecendo as autoridades liberais e modernistas, tornar-se-á, necessariamente, um padre que, no fim das contas, trai tudo o que fez Mons. Lefebvre, trai as almas, engana-as”.
O autor não esquece as questões pastorais, embora secundárias na economia do discurso: diz, por exemplo, que o fiel encontrará, nas igrejas dos “ralliés”, publicações cheias de erros, que poderiam perturbá-lo, ou ouvirá pregações pouco ortodoxas, feitas, durante a Missa tradicional, por um padre que tradicional não é, ou conviverá com “fiéis menos formados na fé”, arriscando, em contato com eles, “deixar-se arrastar”. O abbé Mérel, porém, com o talento especulativo que o distingue, dá a verdadeira razão teológica, radicada num terreno mais “universal”, e não numa variante ligada às circunstâncias, e fala, de modo absoluto, de todos os padres “ralliés”, não apenas daqueles que pregam “mal”. Sustenta que o padre “rallié”, o padre canonicamente submetido a Roma, “não está numa posição justa na Igreja. Não está em regra com Deus”. E conclui: “não se pode nunca desagradar a Deus, estas missas não são para nós!”. Ainda que às vezes, por razões excepcionais, se devesse assistir às Missas dos Institutos “Ecclesia Dei”, dever-se-ia “abster-se de comungar”, diz ainda o autor, porque seria necessário permanecer em uma resistência ostensivamente passiva. Fala-se, neste caso, da mesma assistência, prevista pelos moralistas, a um rito protestante ou greco-cismático. Em resumo, comungar nas Missas ditas por um sacerdote que não adere às posições da Fraternidade é um pecado, é algo que “desagrada a Deus”, e isso em razão do ministro. Não se deve, pois, participar, não apenas por causa das homilias heterodoxas, fator variável e secundário, mas em razão do fato de o celebrante estar submetido a uma autoridade à qual não se deve senão resistir, sob pena de pecado. Destaquemos que o autor não assume o risco de declarar lícita a assistência às Missas sem homilia; seria obrigado a admitir que o sacramento é válido e lícito, e não oferece perigo de contaminar a fé dos fiéis; por outro lado, não quer proibir a participação das Missas dos padres da Fraternidade que sustentam teses perigosas para a fé. É a submissão a Roma que, sozinha, faz com que não se possa receber a eucaristia.
Uma magistral declaração de cisma
O artigo do abbé Mérel é uma magistral declaração de cisma, ainda que, do ponto de vista do autor, o pecado de cisma (ou de heresia, ou ambos, o texto não o especifica) parece ser mais imputável ao Papa e àqueles que se Lhe submetem. A hierarquia católica teria, no seu conjunto, cometido o pecado de afastar-se da verdade, e, portanto, não se poderia entrar em comunhão com ela nos sacramentos, mesmo se o rito é tradicional. Esse texto foi escrito no verão de 2008, para indicar aos fiéis como comportar-se depois do motu proprio. O mesmo Motu proprio que fora pedido ao Papa pelas autoridades da Fraternidade, que ofereceram, para isso, a cruzada de um milhão de rosários.
Para sermos completos, digamos que não é completamente falso o que disse o abbé de Cacqueray, que às vezes pode ser desaconselhado assistir a uma Missa. Poderia ser o caso, ainda em missas tradicionais, quando o significado teológico da Missa de sempre é gravemente deformado ou até reduzido – como, infelizmente, às vezes acontece – a um puro fenômeno teatral, que acaba por juntar incenso, sedas preciosas e homilias heterodoxas. Mas é insustentável que o princípio deva aplicar-se universalmente a todas as Missas dos que estão canonicamente submetidos ao Papa: uma tal ruptura da communicatio in sacris, com todos aqueles que subscrevem as posições da Fraternidade, não é nada mais que a aplicação prática de uma teoria cismática. Quando São Tomás de Aquino fala de cisma, distingue dois modos de cometer esse pecado. O primeiro é a separação da autoridade eclesiástica, o segundo é a recusa de comungar “in sacris” com outras partes da Igreja submissas ao Papa [4]. Esse último também é um modo de despedaçar o Corpo Místico de Cristo.
Como se fosse necessário, afirmamos que estar submetidos a uma autoridade de direta instituição divina, como a do Papa, não significa, de modo algum, submeter publicamente a inteligência a tudo aquilo que tal autoridade sustenta, ou dá a entender, ou parece aprovar, quando fala como teólogo privado, ou age como pessoa privada. Essa não é a doutrina católica do Primado, nem o Pontífice reinante jamais reclamou semelhante submissão. De fato, ainda que se possa conceder que uma certa fatia do tradicionalismo costuma, com servilismo e escarso senso teológico, dogmatizar até às vírgular as afirmações de qualquer autoridade eclesiástica, ainda que somente local, deve-se reconhecer honestamente que esse fenômeno não é, de modo algum, universal. Pelo contrário, afirmar que, necessáriamente, em todos os casos de obediência canônica, peca-se contra a fé, por omissão de defesa da verdade revelada, é não apenas uma mentira e um engano aos fiéis, mas até um absurdo teológico. Afirmaríamos, então, ridiculamente, que a autoridade suprema tornou-se formalmente herética, e, com ela, todos os que se lhe submetem visivelmente, pelo próprio fato de submeter-se.
A Fraternidade, se não quiser ser cismática, deve reconhecer que ela já está submetida visivelmente ao Papa, tanto quanto qualquer padre diocesano. Ontologicamente, a submissão da Fraternidade à autoridade eclesiástica não difere daquela de todos os outros Institutos, tradicionais ou não. Permanece, todavia, um problema canônico, que deve ser resolvido o mais breve possível, por que, de fato, no perdurar desse estado anormal há o perigo de conduzir alguns dos seus membros a posições teológicas gravemente errôneas. Os artigos citados o confirmam.
As incoerências de uma política dupla
Acrescentemos que, se é natural e compreensível que os sacerdotes da Fraternidade queiram continuar fiéis aos princípios do próprio fundador, também é bom e moralmente necessário ser coerentes com o que se propõe nas próprias declarações públicas. Ora, a tese discutida acima, como notamos, teologicamente insustentável, denuncia um obstáculo insuperável à conclusão de um acordo canônico entre a Fraternidade e a Santa Sé, mas também uma clara vontade de continuar em dois vagões paralelos, que não comungam nem mesmo nos sacrementos celebrados em rito tradicional. De fato, se, para comungar in sacris com o Papa – como é implicitamente afirmado – será necessário atingir o acordo doutrinal, com o qual a Santa Sé fará própria a posição da Fraternidade, então será necessário ter a coerência de afirmar que, atualmente, a hierarquia católica está ao menos próxima da heresia e do cisma, tanto que se justifique uma escolha tão grave. Tertium non datur.
Mas se, pelo contrário, o acordo fosse possível e, talvez, iminente, segundo os termos do próprio Mons. Fellay, e se o Superior Geral da Fraternidade procedesse efetivamente a um acordo canônico – permanecendo as reservas expressas sobre o projeto da reunião interreligiosa de Assis e o desacordo com certas escolhas do Papa – o que fará o abbé de Cacqueray? Desaconselhará os “seus” fiéis a ir nas Missas na Fraternidade? Dir-lhes-á que não recebam a comunhão das mãos de Mons. Fellay, porque afirmou, porque assinou com as autoridades que organizam os encontros de Assis? A coerência entre os propósitos desses dois importantes responsáveis pela obra fundada por Mons. Lefebvre é muito menos difícil de compreender: parece mais o reflexo de uma política ambígua. Por isso e por outros motivos, sempre foi expressa, nestas páginas, a firmar convicção da oportunidade de um acordo canônico, que não pretenda ser “doutrinal”. Do ponto de vista dogmático, de fato, é absurda a ideia de um acordo “doutrinal” que o Vigário de Cristo deveria assinar. Do ponto de vista prático, os fatos demonstram que é uma presunção querer resolver em poucas linhas – com algum episódico encontro entre especialistas – a complexidade da atual situação eclesiástica, e, com ela, os problemas levantados por alguns textos magisteriais. Não é, porém, absurdo – nem teologicamente, nem prudencialmente – reconhecer canonicamente a autoridade de Pedro, salvaguardando uma autonomia de debate teológico sobre alguns pontos de perplexidade.
Estamos prontos para publicar aqui, se necessário, qualquer correção ou precisamento que, sobre a questão, provier dos legítimos superiores da Fraternidade São Pio X, e a tornar pública uma eventual retificação, assim que, publicamente, eles quiserem dissociar-se dos conteúdos aqui expressos. Esperamos ainda, e sobretudo, um clara resposta à pergunta se se pode comprir o preceito dominical assistindo a uma Missa da Fraternidade São Pedro, e receber a eucaristia de um sacerdote do Bom Pastor, do Cristo-Rei, ou de uma diocese qualquer.
A Fraternidade São Pio X, que não pode ser acusada de laxismo, sempre precisou, e às vezes puniu com firmeza, quando as opiniões de um membro contrastavam com as gerais. Se as opiniões da “Petite Eglise”, hoje abertamente sustentadas por alguns dos seus sacerdotes, não são compartilhadas pelo Superior Geral, com a mesma firmeza deveria desmenti-las publicamente. Caso contrário, dir-se-á que o discurso é voluntariamente ambíguo.
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[1] Le texte intégral peut être consulté sur La porte latine, site officiel de la Fraternité saint Pie X en France, à l’adresse suivante : voeux de M. l’abbé de Cacqueray pour 2011
[2] Abbé Jacques Mérel, « Discussion de parvis sur la messe des ralliés », in Le Pélican, juillet-août 2008 ; publié intégralement dans Le Sel de la Terre, n°70, Automne 2009, pp. 188-193.
[3] Com o termo “rallié” designa-se, na França, o católico “amigo do poder”, “traidor”. A palavra difundiu-se notavelmente sob o pontificado de Leão XIII, com o sentido de “católico alienado” e designa, nos ambientes da Fraternidade São Pio X, os institutos que dizem a Missa tradicional dependentes da Ecclesia Dei.
[4] Saint Thomas d’Aquin, Summa Theologiae, IIa-IIae, qu. 39, a. 1, corpus : “Ecclesiae autem unitas in duobus attenditur, scilicet in connexione membrorum Ecclesiae ad invicem, seu communicatione; et iterum in ordine omnium membrorum Ecclesiae ad unum caput (…). Et ideo schismatici dicuntur qui subesse renuunt summo pontifici, et qui membris Ecclesiae ei subiectis communicare recusant”.
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Don Stefano Carusi, coordinateur de la rédaction
Abbé Matthieu Raffray, coordinateur de l’édition française

Sacerdotes contra o aborto

… Próximo à uma e meia da tarde, sob o impulso do Abbé Julien, alguns religiosos tradicionalistas se recolheram para rezar contra o aborto. Uma oração pública, portanto, que vários grupos pró-aborto consideraram como uma provocação. “Estou inquieta, explica uma militante do grupo Féministes 33, essa gente preconiza o retorno da ordem moral. ”… (Fonte: Le Forum Catholique)
Pe. Bruno Stemler - FSSP, Pe. Jean-Pierre Gaillard - IBP, Pe. Louis-Numa Julien - IBP, Pe. Jean-Baptiste Guyon - FSSPX, Pe. Denis Coiffet - FSSP
Da esquerda para a direita: Pe. Bruno Stemler – FSSP, Pe. Jean-Pierre Gaillard – IBP, Pe. Louis-Numa Julien – IBP, Pe. Jean-Baptiste Guyon – FSSPX, Pe. Denis Coiffet – FSSP

Ordenações no IBP

 Paróquia de Saint Eloi, Bordeaux - 10 de julho de 2010: Dom Ennio Appignanesi, arcebispo emérito de Potenza-Muro Lucano-Marsico Nuovo, Itália, com a fotografia de Dom Lefebvre ao fundo.

Dom Ennio Appignanesi procedeu a ordenação sacerdotal do padre Jean-François Billot, do diácono Rémy Balthazard e do sub-diácono Etienne Lecarme, do Instituto do Bom Pastor, em Bordeaux, no último dia 10. As fotos podem ser conferidas aqui.

O Cardeal Antonio Cañizares Llovera, prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, enviou uma carta ao instituto justificando sua ausência e comunicando uma futura visita, nos “mais vivos sentimentos de alegria e amizade em Cristo Sacerdote”.

A Tradição no mundo (II)

Instituto Bom Pastor restaura a IgrejaSaint-Éloi.

O Instituto do Bom Pastor (IBP) é uma Sociedades de Vida Apostólica de direito pontifício, em que os seus membros exercem o seu sacerdócio e consagração a Deus dentro da tradição (doutrinal e litúrgica) da Igreja Católica Apostólica Romana. Os padres fundadores antes faziam parte da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, fundada por Dom Marcel Lefèbvre. São eles: Pe. Philippe Laguérie, Pe. Paul Aulagnier, Pe. Christophe Héry, Pe. Guillaume de Tanoüarn e Pe. Henri Forestier.

O Instituto foi erigido canonicamente, em 8 de setembro de 2006 (Festa da Natividade de Nossa Senhora), em Roma, pelo Cardeal Dario Castrillon-Hoyos, representando o Santo Padre, o Papa Bento XVI.

O rito próprio e exclusivo do Instituto do Bom Pastor é o rito romano tradicional, contido nos quatro livros litúrgicos (pontifical, missal, breviário e ritual romano) em vigor em 1962 .Essa especificidade está clara nos Estatutos do IBP.

Possui um seminário em Courtalain, França e tem já casas no Chile, Colômbia, França, Polônia e Roma. O seu fundador e Superior-Geral é o padre Philippe Laguérie.

Devido ao grande número de pedidos vocacionais, além das casas de formação da França e de Roma, o IBP contará também com um novo seminário para os candidatos de língua espanhola e portuguesa, em Santiago do Chile. É composto atualmente por 21 sacerdotes e 35 jovens seminaristas de várias nações.

O Instituto é composto de padres e irmãos. Conta ainda com o ramo feminino, fundado pelo Pe. Henri Forestier, das Pequenas Irmãs do Bom Pastor. Aconteceu a recente fundação de um grupo de Irmãos Educadores e Coadjutores, na França.

É mantido ainda por um grupo de fiéis leigos que auxiliam material e espiritualmente o IBP, chamado Sensus Fidei.

O Cardeal Jean-Pierre Ricard é quem sediou a fundação em Bordoux, França. Esta paróquia é exclusivamente da Forma extraordinário do Rito Romano.

A vocação ou o mistério do Deus que chama


Por M. l’Abbé Perrel, IBP

Nossa vida cristã toma lugar no mistério de Deus que nos chama, nós somos chamados por Deus à santidade, chamados a segui-Lo. E Deus chama livremente aquele que Ele quer, isso faz parte do mistério insondável da vontade divina, o Espírito Santo sopra onde Ele quer. Na epístola aos romanos (8, 28-30), São Paulo escreve: « Nós sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, para o bem daqueles que, segundo o desígnio, foram chamados santos. Porque, os que Ele conheceu na sua presciência, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aqueles que predestinou, também os chamou; e aqueles que chamou, também os justificou; e aqueles que justificou, também os glorificou. » A vocação de todo cristão está ligada ao mistério da predestinação, é inútil, portanto, tentar explicar. É inútil se pôr a questão: “porque eu?”. A única resposta possível é: “porque Deus quer assim”. Isso é tudo. Certamente, é mais comum receber o chamado de Deus em uma família católica, entretanto, as conversões e as vocações provenientes de outros lugares nos faz lembrar que o desígnio de Deus é soberano. Neste trecho da epístola aos romanos, São Paulo coloca em evidência a gradação que existe no chamado de Deus: a predestinação, o chamado, a justificação e a glória. O chamado de Deus tem uma finalidade: a glória, somos chamados por Deus à participar de sua glória, à entrar no gozo de teu Senhor (Mt 25, 21), à receber como herança o reino que está preparado desde o princípio do mundo (Mt 25, 34).
 
Ao lado deste chamado à glória do qual fala São Paulo se encontra também o chamado de Jesus aos seus discípulos: “Segui-me, e eu vos farei pescadores de homens.” (Mt 4, 19) Este chamado não tem por fim a glória daquele que é chamado, mas uma missão: ser pescador de homens. Na quinta-feira santa, Jesus diz aos seus discípulos: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que escolhi à vós, e que vos destinei para que vades e deis fruto, e para que o vosso fruto permaneça, a fim de que tudo o que pedirdes a meu Pai em meu nome, Ele vo-lo conceda.” (Jo 15, 16) Jesus chamou nesta ocasião os apóstolos a um ministério particular de intercessão, fez deles padres para que intercedessem em seu nome junto ao Pai. Eles receberam o poder de oferecer o sacrifício pelos vivos e mortos. Enfim, São Paulo menciona freqüentemente este chamado particular de Deus no começo de suas epístolas: “Paulo, Apóstolo, não pelos homens, nem por intermédio de um homem, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos.” (Gal 1,1) Na epístola aos romanos, ele acrescenta: “escolhido parar anunciar o Evangelho” (Rom 1, 1). Pode-se notar, portanto, que há uma diferença entre essas duas vocações: uma que se situa ao nível do batismo, a outra que se encerra no sacramento da Ordem.

A vocação cristã tem por objeto Jesus Cristo conhecido e amado, São Paulo utiliza diversas expressões para defini-la. Aos coríntios (1 Cor 1, 2) ele escreve: “aos santificados em Jesus Cristo, chamados santos, com todos os que invocam o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.” Esta santidade é: “conhecer as riquezas da glória deste mistério entre os Gentios, o qual é Cristo, em vós esperança da glória” (Col 1, 27), ou ainda “poder conhecer, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade; e conhecer também aquele amor de Cristo, que excede toda ciência, para que sejais cheios de  toda a plenitude” (Ef 3, 18-19) A vocação sacerdotal, ao contrário, é uma realidade de outra ordem, é um ministério, os apóstolos foram chamados para pregar, parar pedir em nome de Jesus Cristo, parar anunciar o Evangelho. Na epístola aos hebreus (Hb 5, 1-4), o Apóstolo descreve esplendidamente a vocação sacerdotal: “Porque todo pontífice, tomado dentre os homens, é constituído a favor dos homens naquelas coisas que se referem a Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados; o qual se possa condoer daqueles que ignoram e erram; por que ele também está cercado de enfermidade; e por isso deve, tanto pelo povo como também por si mesmo, oferecer sacrifício pelos pecados. E nenhum se arroga esta honra senão o que é chamado por Deus, como Arão.” O padre é portanto, acima de tudo, um pontífice, um mediador entre Deus e os homens, ele faz subir as orações dos homens a Deus, oferece os sacrifícios – o padre é o homem da missa – ele sabe ter compaixão às fraquezas alheias, é o ministro da misericórdia. Sua mediação é, portanto, nos dois sentidos: a oração que se eleva, e os bens celestes que descem: os sacramentos, a pregação àqueles que estão na ignorância.Enfim, ninguém pode se arrogar a honra de ser pontífice, sem ser chamado por Deus. Na antiga aliança, para ser sacerdote era preciso nascer e nada de mais, era preciso pertencer à tribo de Levi. Na nova aliança, Jesus faz ouvir esse chamado no mais íntimo da alma e o torna sensível pela voz do bispo no dia da ordenação.

Esta vocação é diferente da vocação à fé do batismo pois é um chamado a ser apóstolo, mediador entre Deus e os homens. Os batizados são chamados a serem unidos ao Cristo santo, glorificado, enquanto que o sacerdote é chamado a estar unido ao Cristo santificante, glorificante. O padre recebe um ministério de Deus e da Igreja: o de santificar as almas e de oferecer o sacrifício. Sem dúvida, há também na vocação sacerdotal um chamado interior. É preciso querer e poder. Mas não é isso que a especifica, é o chamado do bispo no dia da ordenação que constitui a vocação, que dá ao ordinando sua missão hierárquica: « Ide e ensinai ». A vocação sacerdotal poderia ser resumida assim: querer, poder, e ser chamado pelo bispo.