Obra polêmica faz retrato devastador do papa acusado de ter optado pelo silêncio diante dos horrores do Holocausto.
Por Hermes Rodrigues Nery
Fratres in Unum.com – Desde 1963, com o aparecimento da peça teatral O Vigário, do escritor alemão Rolf Hochhuth, que a polêmica em torno da ação do papa Pio XII durante a 2ª Guerra Mundial foi crescendo, ao ponto de criar sérios embaraços para o Vaticano, que deseja beatificar (e posteriormente canonizar) Eugênio Pacelli (cujo pontificado foi um dos mais difíceis do século XX, por coincidir com as trevas do Holocausto).
A grande questão apresentada pelos críticos de Pio XII (papa de 1939 a 1958) é a seguinte: Pacelli deveria ou não ter denunciado publicamente o Shoah? O protesto formal teria tido força suficiente para debelar a insanidade em execução? Sua denúncia teria sido capaz de evitar ou diminuir o genocídio que exterminou cerca de 6 milhões de judeus? Quais teriam sido as razões pelas quais Pio XII teria feito a “opção diplomática” pelo silêncio?
Ninguém até hoje saberia dizer o que poderia ter acontecido se Pacelli tivesse condenado publicamente as barbaridades cometidas por Hitler (apesar de ter tocado no assunto na sua mensagem de Natal de 1942; de ter auxiliado Pio XI a redigir a encíclica Mit Brennender Sorge (Com Profunda Preocupação) – a primeira condenação direta do racismo e do nazismo, divulgada em 1937; de ter ajudado concretamente os judeus da Hungria, e de ter se envolvido diretamente num perigosíssimo complô contra Hitler, em 1939-40; e de ter sido quase seqüestrado pelo Führer, que pensou em levá-lo para a Alemanha ou Liechtenstein, e chegou a dizer, em julho de 1941, que a destruição da Igreja Católica fazia parte de seus planos (“Minha última missão – declarou Hitler – será resolver o problema da Igreja. Na juventude, tive a visão: dinamite tudo”).
Julgar Pio XII por sua ação num contexto até hoje altamente problemático não é tarefa fácil. Simplesmente acusá-lo de covardia pode ser uma atitude imediatista e até irresponsável, tendo em vista a enorme complexidade da conjuntura histórica em que viveu e teve de atuar.
Na realidade, como afirmou Henry L. Sobel, é necessário investigar. “O Vaticano criou (em 1998), a pedido de entidades judaicas uma comissão internacional de pesquisadores judeus e católicos, encarregada de reexaminar a documentação já divulgada pela Santa Sé referente a atuação da Igreja durante a 2a Guerra Mundial e, eventualmente, conseguir acesso aos inúmeros arquivos ainda mantidos em sigilo pelo Vaticano. O estudo desses documentos revelará a informação que nos permitirá encarar o passado, compreender a realidade daquela época e reagir construtivamente”.
No bojo da polêmica, o historiador inglês John Cornwell (professor, jornalista e pesquisador do Jesus College, Cambridge) surge com sua obra bombástica: O Papa de Hitler, simplesmente devastadora. “A omissão em dizer uma palavra franca sobre a Solução Final em execução proclamava para o mundo que o Vigário de Cristo não podia ser levado à compaixão e à raiva. Desse ponto de vista, ele era o papa ideal para o plano abominável de Hitler. Era um peão de Hitler. Era o papa de Hitler”, diz Cornwell.
Não é difícil sair da leitura do livro sem reconhecer que as colocações mais contundentes contra Pio XII e as candentes indagações de Cornwell são bem argumentadas. Resta saber se as conclusões tiradas têm realmente fundamentação e condizem com a verdade dos fatos. O “choque moral” que Cornwell diz ter tido ao recolher o material de sua pesquisa e constatar que os dados coligidos “não serviam para inocentar Pio XII; em vez disso, consolidava as acusações” diz respeito à sua interpretação dos documentos analisados (ao juízo que ele já tinha do problema) e não aquilo que realmente a documentação pudesse conter como verdade histórica. Como jornalista, habituado em lidar com versões dos fatos, Cornwell deixou-se enredar pela areia-movediça da parcialidade.
Não há certeza exata (documental) do quanto Pio XII sabia a respeito do Endlosung (A Solução Final). De qualquer forma, o que se questiona é o aspecto moral da atitude de Pio XII. Se ele tinha conhecimento dos detalhes da Solução Final, teria como dever moral impedi-la, até porque – como reza o Catecismo – “é pecado saber de um mal e não impedi-lo”. Porém, também observa: “se queremos impedir um mal, podemos provocar outro maior?” Terrível dilema moral. A responsabilidade de uma ação diz respeito às suas conseqüências.
Os defensores de Pio XII afirmam que o silêncio não representou omissão, mas ação estratégica para evitar a extensão do mal. Conhecendo a fundo o ideário e as motivações do governo nazista, Pio XII sabia do risco das retaliações e do quanto poderia agravar ainda mais a conturbação de uma época, em que os poderosos temporais, estavam decididos a pulverizar as nações, e não recuar enquanto não ao vissem “o mundo em chamas”. Diante de tão grande mal, somente no silêncio, a Igreja poderia “salvar vidas” e resistir.
O livro de John Cornwell causou sensação. No entanto, apesar de sua pesquisa ter sido, até agora, a mais consistente já realizada sobre o assunto (o autor teve acesso a documentos inéditos do próprio arquivo do Vaticano), a obra “carece de provas”, como afirma Gilles Lapouge: “O autor do livro, um católico inglês, iniciou suas pesquisas para reabilitar Pio XII, mas diz ter encontrado documentos tão importantes que sua obra ficou, ao contrário, muito incômoda. Não se vêem muitos desses documentos no livro de Cornwell. Com certeza, há muitas coisas que ‘não foram ditas’, por Pio XII, uma prudência extrema, mas nada que prove um consentimento com o nazismo. E as acusações de Cornwell freqüentemente não são amparadas pelos documentos oficiais (O Estado de São Paulo – 18.09.1999).
Se Pio XII não denunciou o Holocausto, também não o fizeram o governo inglês e norte-americano que (por estarem em guerra com a Alemanha, tinham também muitas informações do horror dos campos de concentração). O papa Paulo VI formou uma comissão de 3 jesuítas que vasculharam os arquivos do Vaticano e publicaram uma farta documentação, em 6 volumes, e nada encontraram que incriminasse Pio XII. Também, até os anos 60, como conta o Pe. José Oscar Beozzo, diversas instituições judaicas costumavam agradecer à Igreja pela ajuda que deu a milhares de judeus durante a guerra, socorro esse confirmado pelo próprio Cornwell: “Em 29 de novembro de 1945 (ao final da guerra), Pacelli reuniu-se com 80 representantes de refugiados judeus de vários campos de concentração da Alemanha, que expressaram ‘sua grande honra por serem capazes de agradecer ao Santo Padre por sua generosidade com os perseguidos durante o período nazi-fascista’. Não se pode deixar de respeitar um tributo feito por pessoas que sofreram a perseguição e sobreviveram. E não podemos depreciar os esforços de Pacelli no nível do socorro caritativo, ou seu estímulo ao trabalho de incontáveis religiosos e leigos católicos que proporcionaram conforto e segurança a centenas de milhares de pessoas”.
O valor da obra de Cornwell está nas perguntas que faz. O desmérito nas respostas que apresenta. Antonio Amaral de Sampaio, também em artigo publicado no Estado de São Paulo, acrescentou: “Ao Vaticano não cabe nenhuma responsabilidade direta ou indireta pelo crime do século, cujas raízes já se encontravam no anti-semitismo germânico”. Há, evidentemente, uma grande diferença entre anti-judaísmo e anti-semitismo. O fato é que, do ponto de vista racial, conforme a ideologia nacional-socialista, a Igreja, em nenhum momento, endossou ou estimulou uma política anti-semita. O anti-judaismo de caráter religioso gerou incompreensões, tensões e conflitos agudos em diversas circunstâncias na história da Igreja, mas sem motivação anti-semita.
John Cornwell não deu a última palavra sobre o juízo do pontificado de Pio XII. O tema, de dificílima abordagem, continua a exigir a responsabilidade de análises que não sejam generalistas, superficiais, tendenciosas e reducionistas. Tais características, infelizmente, fazem da obra de Cornwell um estudo (corajoso e de fôlego) cheio de gritantes contradições.
Hermes Rodrigues Nery é Coordenador do Movimento Legislação e Vida, da Diocese de Taubaté (SP).









