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O Sacramento da Confissão

Papa Francisco atende confissão de jovens na JMJ no Rio 2013


O Sacramento da Confissão

Porque devemos nos confessar.

Deus, no seu amor paternal, deseja que todos os pecadores voltem para junto dele. Ele quer que nos afastemos dos nossos pecados, que nos convertamos a ele, nosso supremo Senhor e fim eterno. Jesus Cristo nos diz no Evangelho: “Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está perto.” (Mat. IV,17).
Mas para nos ajudar a fazer a penitência, Deus nos dá uma virtude especial para que tenhamos forças para nos arrependermos de nossos pecados. Essa força especial é a Virtude de Penitência.
Pela virtude de Penitência, que Deus coloca no nosso coração, Ele nos leva a reconhecer toda Sua bondade, toda Sua santidade e como nós O ofendemos e O deixamos triste quando cometemos nossos pecados. Só mesmo conhecendo a Santidade, a Justiça e o Amor de Deus é que podemos reconhecer como nossos pecados ofendem a Deus.
Deus quer que tenhamos grande arrependimento por nossos pecados. 
O que quer dizer “se arrepender”? 
Arrepender-se quer dizer não querer de maneira nenhuma continuar com a alma manchada pelo pecado, sentir uma dor profunda por ter traído a bondade de Deus, ter ofendido e entristecido a Deus, que nos ama tanto. 
Na nossa família nós temos um bom exemplo do que é o arrependimento, quando deixamos nossos pais tristes e ofendidos. Logo vem aquela dor, aquela vergonha e, ao mesmo tempo, a certeza de que eles vão nos perdoar, se pedirmos desculpas, porque sabemos que eles nos amam muito. Com Deus também acontece assim. Com essa diferença: o arrependimento dos nossos pecados nos abre novamente as portas do Paraíso, nos devolve a amizade com nosso Deus, que morreu na Cruz para nos salvar.
Mas se não tivermos o arrependimento, será que Deus nos perdoará dos nossos pecados? É fácil perceber que sem um sincero arrependimento, Deus não pode nos perdoar.
Há vários tipos de arrependimento pelo pecado:
Arrependimento humano: estamos arrependidos porque temos medo do castigo que receberemos de nossos pais. Esse arrependimento humano nada adianta para o perdão dos pecados.
Arrependimento imperfeito: chama-se também contrição imperfeita ou atrição – estamos arrependidos porque temos medo do castigo de Deus.
Arrependimento perfeito: chama-se também contrição perfeita – estamos arrependidos não mais por causa do castigo dos pais ou de Deus, mas porque ofendemos a Deus, traímos o amor de Deus, nosso Pai tão bom e amoroso, nosso Redentor e Salvador. Esta dor é chamada perfeita porque vem do amor que sentimos por Deus. É essa contrição perfeita que nós manifestamos quando rezamos o Ato de Contrição. Devemos saber de cor o Ato de Contrição para rezá-lo no confessionário e também em todos os momentos de tentação e perigo de nossa vida.
Meu Deus, eu tenho muita pena de ter pecado, pois ofendi a Vós, meu sumo Bem, e mereci os castigos de Vossa justiça. Perdoai-me, Senhor, não quero mais pecar”.
Existe um Ato de Contrição mais bonito e mais completo:
«Senhor meu Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro, criador e redentor meu, por serdes Vós quem sois, sumamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas, e porque Vos amo e estimo, pesa-me Senhor, de todo o meu coração de Vos ter ofendido; pesa-me também de ter perdido o céu e merecido o inferno; e proponho firmemente, ajudado com o auxílio da Vossa divina graça, emendar-me e nunca mais Vos tornar a ofender. Espero alcançar o perdão das minhas culpas pela Vossa infinita misericórdia. Amém.»
Porém, só o arrependimento não basta! É preciso que ele seja acompanhado pelo bom propósito. O que é o propósito?
É a vontade firme e sincera de não mais cometer aquele pecado.
Se tivermos a contrição perfeita e o firme propósito de não mais pecar, devemos esperar com toda confiança o perdão de Deus. Ele é infinitamente misericordioso, chegando até a enviar seu Filho, o Verbo Encarnado, Jesus Cristo, para morrer pagando nossos pecados. 
Essa virtude de Penitência não serve apenas para que nasça em nosso coração o arrependimento e a dor por ter pecado. Ela nos ajuda ainda a realizar certos atos exteriores, as obras de penitência, que servem para diminuir a pena do Purgatório, que teremos de pagar antes de irmos para o Céu; serve para dominar nossas más inclinações, nossos defeitos dominantes; e, também, para nos fortificar no bem.
São obras de penitência: rezar, jejuar, dar esmolas, suportar com paciência os sofrimentos e contrariedades, aceitar os incômodos da vida. A melhor obra de penitência é receber o Sacramento da Penitência, que é a Confissão.

A Tentação, o Pecado e o Sacramento da Confissão

Deus quer que a nossa vida aqui na Terra seja um tempo de provação, para podermos alcançar a glória do Paraíso, não somente como um presente mas também como prêmio pela vitória. Por isso Ele permite que sejamos tentados e mesmo que, por nossa fraqueza, façamos pecados, pondo assim em risco a nossa Salvação Eterna.
A Tentação
Quando Jesus foi tentado no deserto, levou-o o demônio a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua glória e disse-lhe: “— Tudo isso lhe darei se, prostrado em terra, me adorares. Respondeu-lhe Jesus: Afasta-te Satanás! Pois está escrito: adorarás ao Senhor teu Deus e só a Ele servirás. Então o demônio o deixou e eis que vieram os anjos e O serviram.” (S. Mateus, IV, 8-11).
Enquanto vivermos na Terra estaremos sujeitos à tentação. O demônio emprega toda sua astúcia e maldade para fazer com que pequemos e nos condenemos para sempre.
Deus permite a tentação. Ele quer nossa vitória, mas ao mesmo tempo Ele quer que nós saibamos reconhecer nossa fraqueza ficando humildes: a luta deve também nos fortificar para que nossa recompensa seja, um dia, ainda maior.
Deus nos ajuda na tentação. Ele é fiel: se Ele permite que sejamos tentados, Ele também nos dá as graças para vencer a tentação. Deus está sempre do nosso lado.
Como fazer quando somos tentados?
Devemos resistir imediatamente à tentação e invocar o auxílio de Deus. Às vezes bastará uma oração jaculatória ou o Sinal da Cruz. Muitas vezes o melhor é não fazer caso da tentação, ocupar-se com alguma outra coisa e acabar esquecendo o pecado. Devemos evitar as más companhias que podem nos conduzir à ocasiões de pecado.
Sentir uma tentação é pecar?
Não. Só haverá pecado se nós consentirmos na tentação, ou seja, se nós aceitarmos o pecado que a tentação propõe. Mas já é pecado se nos expormos à tentação ou não a combatermos com fervor.
Para a minha vida: Na tentação direi: Nunca, Jamais! e rezarei: Senhor, ajudai-me!
A tristeza e o abatimento são os maiores aliados da fraqueza e do mal. Por isso sejam sempre alegres.
Os Santos nos ensinam:
“Quem não é tentado não é provado: quem não é provado não progride” (Sto. Agostinho).
“Quanto mais se luta, mais se demonstra o amor a Deus” (Sta. Tereza D’Ávila).
“Se nos deixarmos levar pela mão de Deus, venceremos o demônio: se combatermos sozinhos, seremos vencidos” (Sto. Agostinho).

O Pecado

Muitas vezes não damos ouvidos aos conselhos de Deus, mas consentimos na tentação. Pecamos contra Deus, Sua vontade e Sua ordem. Desobedecemos à Lei de Deus com consciência, querendo fazer o pecado.
O pecado pode ser mortal ou venial. 
O Pecado Mortal – O pecado mortal é um pecado sobre matéria grave, onde desobedecemos os mandamentos de Deus ou da Igreja. Para ser mortal, deve haver matéria grave e vontade firme de pecar.
O que quer dizer matéria grave? Vamos dar um exemplo. Todos sabem que roubar é pecado. Se você rouba uma bala de um amigo da escola, a matéria do pecado é leve, é muito pouca coisa. Se você rouba um saco de balas ou a carteira de dinheiro, a matéria do pecado é grave.
O que quer dizer vontade firme? Dizemos também: ter pleno consentimento do pecado. Ou seja, você sabe perfeitamente que aquilo é pecado, você poderia recusar, mas você faz assim mesmo. Todas as vezes que fazemos algo contra os dez mandamentos da Lei de Deus e contra os cinco mandamentos da Igreja, em que há matéria grave e pleno consentimento, cometemos pecado mortal.
O pecado mortal é uma grave injúria que se faz a Deus. Com o pecado mortal o homem se rebela contra seu Criador e Senhor. Deste modo, ofende a Deus, Santidade infinita, e retribui com a mais vergonhosa ingratidão ao amor de seu bondoso Pai e de seu Redentor crucificado.
O pecado mortal é, ao mesmo tempo, uma terrível desgraça para o homem: rouba-lhe a vida da graça e a amizade de Deus: ele perde todos os méritos que já tinha ganho; passa a merecer a condenação eterna do inferno e os castigos temporais. Enquanto o pecador não se arrepender, estará morto para o Céu.
“É impossível que venha a cometer um pecado mortal o homem que reza com verdadeiro fervor e continuamente invoca a Deus“ (S. João Crisóstomo).

O Pecado Venial - É o pecado que não nos afasta inteiramente de Deus, mostra certa negligência do nosso amor e serviço de Deus, mas não chega a ser uma grave traição. Esses pecados podem ser perdoados sem a Confissão, bastando rezar um Ato de Contrição, pedir sinceramente perdão a Deus e não querer fazer mais aquilo. Deus perdoa assim o pecado venial. Eles não acarretam a morte eterna e o inferno, mas não deixa de ferir nossas almas e aumentar o tempo do Purgatório.

Comete-se pecado venial quando se peca em matéria menos grave, como por exemplo o que vimos do roubo de bala. Podemos cometer pecado venial também por falta de vontade firme de não pecar.
Por isso, a grande importância da Confissão freqüente. Mesmo que estejamos arrependidos de ter feito algo que consideramos errado, o melhor que temos a fazer é  nos confessarmos. Na Confissão, o Padre poderá esclarecer todas as nossas dúvidas, e certamente ficaremos mais tranqüilos e felizes por recebermos a Santa Comunhão e vivermos em constante estado de graça.
Mas não é porque o pecado venial seja leve que podemos viver pecando assim. Todo pecado, mesmo venial, é uma ingratidão para com nosso Pai Celeste. Devemos nos esforçar para evitar também os pecados veniais. Além disso eles nos prejudicam, principalmente quando os cometemos deliberadamente. Perdemos por causa deles muitas graças e diminui em nós o amor de Deus e o gosto pelo Bem. E, depois, com a alma enfraquecida com muitos pecados veniais, logo virão pecados mortais. Como todo pecado, o pecado venial nos traz penas temporais que teremos de pagar ou com nossos sofrimentos aqui na Terra ou com muito sofrimento no Purgatório.
Para minha vida: Quando, na tentação, me vier um pensamento assim: ... afinal, isso não passa de um pecado venial, responderei a mim mesmo: o Divino Salvador na Cruz teve de sofrer também pelos pecados veniais.
O Sacramento da Confissão

1) A Instituição do Sacramento da Penitência

Na tarde do dia da Ressurreição, apareceu Jesus aos Apóstolos e lhes disse: “A paz esteja convosco! Como o Pai me enviou, assim envio-vos eu. Depois destas palavras soprou sobre eles e disse:Recebei o Espírito Santo. A quem perdoares os pecados, lhes serão perdoados, e a quem os retiverdes, lhes serão retidos” (Evangelho de São João, Cap. XX, 19-23).
Jesus Cristo, no seu amor, vem em auxílio do pecador por meio de um Sacramento especial. Durante sua vida terrena, perdoou aos pecadores arrependidos, e na Cruz expiou a culpa de toda a humanidade. No dia da sua Ressurreição, deu aos Apóstolos e aos seus sucessores no sacerdócio, o poder de perdoar os pecados em seu nome. Instituiu assim o Sacramento da Confissão ou Penitência e o confiou à sua Igreja.

2) Quando devemos nos Confessar

Devem receber o Sacramento da Penitência todos aqueles que cometeram algum pecado mortal depois do Batismo. Não há obrigação de confessar os pecados veniais, pois estes podem ser perdoados também de outros modos, como fazendo um Ato de Contrição perfeito, rezando devotamente um Confiteor, fazendo uma boa ação por amor a Deus. Mas é muito útil confessarmos também deles, pois na Confissão Jesus Cristo vem em nosso auxílio por meio de abundantes graças próprias deste Sacramento, por exemplo, forças especiais para não pecar novamente. É, pois, muito útil confessar regularmente, mesmo os pecados veniais.
Além de confessar os pecados mortais e os pecados veniais, a Confissão também serve para expor uma dúvida que esteja nos afligindo, para pedir um conselho ao Padre, para pedir uma explicação. Essas coisas podem ser ditas em outra hora, mas o confessionário ajuda a conversar sobre a vida espiritual e moral.
3) A Forma e a Matéria da Confissão
Jesus Cristo ordenou que no Sacramento da Confissão, os pecados fossem perdoados ou retidos, ou seja, não perdoados ou deixados para uma próxima Confissão. Cabe ao Padre julgar, como juiz que ele é, se há verdadeiro arrependimento. Como o Padre não pode adivinhar os nossos pecados, nós devemos confessá-los, ou seja, declará-los, dizê-los claramente, sem esconder nenhum deles. Os nossos pecados assim ditos diante do Padre constitui a matéria do Sacramento da Confissão.
Depois que confessamos, arrependidos, os nossos pecados, o Padre nos absolve com as palavras da forma do Sacramento: Eu te absolvo dos teus pecados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Vemos assim que é preciso três coisas principais neste Sacramento: a matéria (os pecados confessados), a forma (absolvição pelo Padre) e o arrependimento.
4) Os efeitos da Confissão
Quando o Sacerdote nos absolve, Jesus Cristo, nosso Redentor, nos perdoa todos nos nossos pecados. Nós, que estávamos afastados de Deus pelo pecado, somos reconciliados com o Pai Celeste, pelo perdão do pecado e da pena eterna. A Confissão nos restitui, nos devolve a graça santificante, a amizade de Deus, bem como os méritos que perdemos por causa do pecado. A Confissão nos traz muitas forças para não mais pecar.
A pena eterna nos é perdoada. O que isso quer dizer?
Quando cometemos um pecado mortal, ficamos sujeitos a dois tipos de castigo:
a pena eterna, que é a condenação ao inferno, onde nunca se vê a Deus e onde se sente ódio de Deus, de si mesmo e de todos;
a pena temporal, que é o sofrimento do fogo que queima as almas do inferno.
Quando nos arrependemos do pecado e recebemos a absolvição, somos imediatamente perdoados da pena eterna, ou seja, não vamos mais para o inferno. Mas continuamos sujeitos à pena temporal, ao fogo. Para pagar esta pena temporal e poder entrar no Céu perfeitamente puras, as almas passam pelo Purgatório. Lá elas sofrem muito, sofrem também no fogo, mas este sofrimento tem a consolação de se saber que em breve estarão no Céu, na Felicidade Eterna, vendo a Deus face a face e podendo amá-lo e adorá-lo eternamente. Mas as almas do Purgatório sofrem muito. Por isso devemos rezar muito por elas, pedindo a Deus, à Nossa Senhora, à São Miguel Arcanjo, que levem estas almas sofredoras para o Céu.
Mas Deus nos ajuda também para diminuir o tempo que devemos passar no Purgatório. Como?
Ele permite que nós tenhamos muitos sofrimentos aqui na Terra. Quando somos católicos e conhecemos todas estas coisas que estamos estudando, aprendemos a oferecer estes sofrimentos a Jesus, em vez de ficarmos reclamando e praguejando contra Deus.
Nossas orações também servem para diminuir nossa pena temporal. Por isso, na Confissão, o Padre nos dá a penitência. Esta oração, ou a obra que o Padre nos manda fazer (jejum, esmola, sacrifício) serve para diminuir nossa pena temporal. Por isso, em vez de desejarmos penitências pequenas e rápidas, devemos nos alegrar quando o Padre nos pede algo que devemos fazer com algum esforço, pois estaremos diminuindo mais a nossa pena temporal.
5) Como devemos nos Confessar
Exame de consciência. Devemos rezar ao Divino Espírito Santo para que Ele nos ilumine sobre nossos próprios pecados. Refletimos, procuramos nos lembrar de todos os pecados que cometemos desde a última Confissão. Podemos ter ofendido a Deus por pensamentos, por atos pecaminosos, por omissões no nosso dever.
Devemos nos lembrar do pecado, mas também do número de vezes que o cometemos e de alguma coisa que possa ter agravado ou diminuído a gravidade do pecado. Tudo isso devemos dizer ao Padre.
Quando já sabemos mais ou menos o que vamos dizer ao Padre, nos aproximamos do confessionário com respeito e recolhimento. Muitas crianças não entendem bem que a Confissão é uma cerimônia religiosa, um rito, e não uma conversa com o Padre. Estamos ali diante de Deus.
Pedimos a benção ao Padre, dizemos quando foi nossa última Confissão, e dizemos todos os pecados, uma após o outro, com o número e algum detalhe importante, sem alongar muito os detalhes que nos levaram a cometer o pecado. Se for necessário algum detalhe a mais, o Padre perguntará. Não podemos esconder nenhum pecado grave, pois isso tornaria a Confissão inválida e estaríamos abusando da bondade de Deus. Muitas pessoas, por vergonha, escondem algum pecado. O Padre, que não pode adivinhar, dá a absolvição, mas Deus não perdoa uma alma mentirosa. Depois aquela pessoa vai para a Missa e ainda comunga, cometendo o pecado de sacrilégio. Tenhamos sempre sinceridade nas nossas confissões.
Quando terminamos de confessar, ouvimos os conselhos do Padre. Sempre aprendemos alguma coisa boa para nossa alma nesta hora. Prestemos muita atenção! E procuremos agir segundo estes conselhos, principalmente quando se trata de reparar algum mal causado aos outros, como pedir desculpas a alguém, devolver algo roubado, etc. O Padre, nesta hora, nos dará a penitência, que rezaremos assim que possível, de preferência logo após a Confissão, em união à Paixão de Nosso Senhor. Depois, ele nos manda rezar o Ato de Contrição. Enquanto rezamos, ele nos dá a absolvição, que termina com esta bela oração:
«Que a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, os méritos da bem-aventurada Virgem Maria e de todos os Santos, e tudo o que tiverdes feito de bom e suportado de mal, vos seja aplicado para a remissão dos pecados, aumento das graças e para a recompensa da vida eterna. Amém.»
Que Deus não permita que nos afastemos algum dia da prática da Confissão regular, meio seguro de alcançar a salvação eterna!

Fonte: Capela.org

Papa Francisco: “Foi o primeiro grande genocídio do século XX”.

As palavras de Francisco evocam o extermínio de dois milhões de cristãos por mãos turcas, entre 1915 e 1923, gerando uma das maiores diásporas do século XX. Embora a Turquia insista em negar o fato, a Santa Sé tradicionalmente tem reconhecido este episódio negro da história.

O Papa Francisco reconhece o genocídio dos Armênios

Por Osservatore Vaticano | Tradução: Fratres in Unum.com - « Foi o primeiro grande genocídio do século XX », declarou o Papa Francisco a uma descendente de sobreviventes dos Armênios que fazia parte de uma delegação da Igreja Católica Armênia conduzida por seu patriarca, Sua Beatitude Nerses Bedros XIX Tarmouni, recebida no Vaticano no último dia 4 de junho. Ouve-se a frase do Soberano Pontífice aos 38 segundos do vídeo sobre o acontecimento, disponibilizado por Rome Reports.
* * *
Por Hurriyet Daily News | Tradução: Fratres in Unum.com –  O Ministro das relações Exteriores da Turquia reagiu em uma declaração por escrito de 8 de junho às palavras do Papa Francisco descrevendo o assassinato em massa dos Armênios durante a 1ª Guerra Mundial como “o primeiro genocídio do século XX”, advertindo que sua postura poderia prejudicar os laços entre os dois países.
“O que se espera do Papa, sob a responsabilidade de seu ofício espiritual, é que contribua para a paz mundial, em vez de criar animosidade sobre eventos históricos”, diz a declaração. “O embaixador do Vaticano foi chamado ao Ministério do Exterior em 7 de junho de 2013 e foi informado que os comentários feitos pelo Papa Francisco são inaceitáveis”.
“Enfatizamos que o Vaticano deve evitar dar passos que poderiam ter consequências irreparáveis em nossos laços”, também afirma a declaração.
[...] Em 2006, durante eventos em Buenos Aires que marcavam o 91º aniversário das mortes, ele [Bergoglio] instou a Turquia a reconhecer “o genocídio” como o mais grave crime da Turquia Otomana contra o povo Armênio e toda a humanidade”.

Papa Francisco: "A Missa Antiga é intocável!" [texto traduzido]

Texto da entrevista traduzido: 


Papa Francisco e o Latim: Na missa antiga não se toca! O Papa Jesuíta pôs-se contra a proposta feita pelos bispos da Puglia que pediam-lhe que retirasse o moto próprio de Ratzinger. Bergoglio disse não, pois precisamos das coisas novas mas também das antigas. Quem pensava que com a chegada ao trono de Pedro do Jesuíta sul-americano Jorge Mario Bergoglio a missa em latim na sua forma extraordinária fosse arquivada para sempre calcularam mal. O moto próprio de Ratzinger de 2007, a Summorum Pontificum, não será alterada e o missal de 1962 de João XXIII (e que aliás, é a última versão daquele tridentino do Papa santo Pio V) foi salvo. Aquele rito com o celebrante virado para Deus e não para o povo, com a balaustrada separando o banco dos fieis do presbitério, não é uma antigualha, um restolho a ser enviado a um museu para ficar empoeirando-se. Foi o próprio pontífice reinante a dizê-lo, ao receber há dias no Palácio Apostólico a delegação dos bispos da região da Puglia vindos à Roma para a visita “ad limina apostolorum”, como feito por todo episcopado mundial a cada cinco anos. Como escreveu em seu blog o vaticanista Sandro Magister, os bispos puglineses foram bem loquazes, tanto com o clero como com os jornalistas. Na semana passada, o chefe da diocese de Molfetta, Luigi Martella, relatou como Francisco prontamente afirmou dentro do ano da encíclica sobre a fé que Bento XVI estaria levando a termo na tranquilidade do monastério Mater Ecclesiae, imediatamente acrescentando que Bergoglio já estava pensando em sua segunda carta pastoral, dedicada à pobreza e intitulada “Beati pauperes”. Declarações que levaram a Santa Sé a desmentir, retificar e esclarecer, com o padre Frederico Lombardi que convidava a pensar “uma encíclica por vez”. Em seguida tocou ao bispo de Conversano e Monopoli, Domenico Padovano, que ao clero de sua diocese relatou como prioridade dos bispos da região do Tavoliere, seja aquela de explicar ao Papa que a missa no rito antigo está criando grandes divisões no interior da Igreja. Mensagem implícita: o Summorum Pontificum deve ser cancelado, ou pelo menos fortemente limitado. Mas Francisco disse não. Monsenhor Padovano continua seu relato, explicando que Francisco respondeu-lhes que deviam vigiar os extremistas de certos grupos tradicionalistas, mas sugerindo além disso de conservarem o tesouro da tradição e de criarem os presssupostos para que esta possa conviver com a inovação. A tal propósito, como escreve Magister, Bergoglio teria também relatado as pressões sofridas por ele após sua eleição para trocar o Mestre do Cerimonial litúrgico, Guido Marini, descrito ao Papa como um tradicionalista que iria ser restituído à Genova, cidade que em 2007 ele deixou de má vontade obedecendo à vontade de Bento XVI que o queria em Roma. Também neste caso, Francisco opôs sua recusa a qualquer troca no cargo do cerimonial. E o fez “para fazer valer sua formação tradicional” consentindo ao moderado e pouco protagonista Marini de “prevalecer-se da minha formação mais emancipada”. A diferença cultural é total, o jesuíta que por tradição inaciana “nec rubricat nec cantat” encontra-se improvisamente catapultado para uma realidade em que nestes últimos oito anos estavam paciente e lentamente recuperando elementos litúrgicos abandonados nos últimos trinta-quarenta anos, justificando assim coisas que via no Concílio uma ruptura, também no campo litúrgico. O fio condutor das cerimônias beneditinas podia ser resumido na síntese da solenidade e do decoro: o retorno dos sete candelabros ao altar, a cruz central e o aviso para não aplaudirem são só exemplos. Além disso, o latim, a língua da Igreja, que vinha sendo usada para celebrações não apenas em Roma mas em cada canto do planeta, na África inclusive. Não poucos, observando o rosto sério de Marini naquela tardinha de março enquanto Bergoglio aparecia pela primeira vez no Balcão da Benção com a simples veste talar branca, sem murça nem estola, haviam previsto uma atração iminente. Ao contrário, Francisco sabe que Roma não é Buenos Aires, que faz com que o Papa exija a manutenção de um aparato simbólico ancorado na história e na milenária tradição da Igreja Católica. Continuidade que não agrada a todos. Uma reconquista, aquela ocorrida nos anos de Bento XVI, que a muitos não agradou, mesmo dentro dos Muros leoninos. Monsenhor Sergio Pagano, prefeito do Arquivo Secreto Vaticano, dizia no dia 7 de maio passado por ocasião da apresentação da constituição de indicção para o Concílio “Humane Salutis” que “ quando hoje vejo em certos altares das basílicas aqueles sete candelabros de bronze mais altos que a cruz, me faz pensar que ainda pouco foi compreendido da constituição sobre a liturgia Sacrosantum Concilium”. Eis porque qualquer pessoa, como o bispo de Cerignola-Ascoli Satriano, monsenhor Felice Di Molfetta – que sempre considerou a missa na forma extraordinária incompatível com o missal de Paulo VI, expressão ordinária da Lex orandi da Igreja Católica de rito latino – que há dias fez saber aos fieis de sua diocese de estar vivamente jubiloso com Francisco “pelo estilo celebrativo que demonstra, inspirado na nobre simplicidade estatuída pelo Concílio”. De Foglio Quotidiano Di Matteo Matzuzzi-@matteomatzuzzi FIM 

Papa Francisco: "A Missa Antiga é intocável!"


Papa Francisco na Missa do Crisma de 2013.
É isso mesmo, leitor, segundo a notícia do site italiano Il Foglio, estas são as palavras do Papa Francisco.

Segue a matéria em italiano até que alguém possa traduzi-la para nós:


Francesco e il latino
La messa antica non si tocca, il Papa gesuita spiazza ancora tutti
I vescovi pugliesi chiedono il ritiro del motu proprio di Ratzinger. Bergoglio dice no, servono cose nuove e antiche
Chi pensava che con l’arrivo al Soglio di Pietro del gesuita sudamericano Jorge Mario Bergoglio la messa in latino nella sua forma extra-ordinaria fosse archiviata per sempre, aveva fatto male i conti. Il motu proprio ratzingeriano del 2007, il Summorum Pontificum, non si tocca, e il messale del 1962 di Giovanni XXIII (che poi è l’ultima versione di quello tridentino del Papa santo Pio V) è salvo. Quel rito con il celebrante rivolto verso Dio e non verso il popolo, con le balaustre a separare i banchi per i fedeli dal presbiterio, non è un’anticaglia, detrito da spedire in qualche museo a impolverarsi. E’ stato proprio il Pontefice regnante a dirlo, ricevendo qualche giorno fa nel Palazzo apostolico la delegazione dei vescovi pugliesi giunti a Roma in visita ad limina apostolorum, come fa tutto l’episcopato mondiale ogni cinque anni.
Come ha scritto sul suo blog il vaticanista Sandro Magister, i vescovi pugliesi sono stati i più loquaci, con clero e giornalisti. La scorsa settimana, il capo della diocesi di Molfetta, Luigi Martella, ha raccontato come Francesco sia pronto a firmare entro l’anno l’enciclica sulla fede che Benedetto XVI starebbe portando a termine nella tranquillità del monastero Mater Ecclesiae, aggiungendo addirittura che Bergoglio ha già pensato alla sua seconda lettera pastorale, dedicata alla povertà e intitolata “Beati pauperes”. Dichiarazioni che hanno costretto la Santa Sede a smentire, rettificare e chiarire, con padre Federico Lombardi che invitava a pensare “a un’enciclica per volta”. Poi è toccato al vescovo di Conversano e Monopoli, Domenico Padovano, che al clero della sua diocesi ha raccontato come la priorità dei vescovi della regione del Tavoliere sia stata quella di spiegare al Papa che la messa in rito antico sta creando grandi divisioni all’interno della chiesa. Messaggio sottinteso: il Summorum Pontificum va cancellato, o quanto meno fortemente limitato. Ma Francesco ha detto no.
E’ sempre monsignor Padovano a dirlo, spiegando che Francesco ha risposto loro di vigilare sugli estremismi di certi gruppi tradizionalisti, ma suggerendo altresì di far tesoro della tradizione e di creare i presupposti perché questa possa convivere con l’innovazione. A tal proposito, come scrive Magister, Bergoglio avrebbe pure raccontato le pressioni subite dopo l’elezione per avvicendare il Maestro delle cerimonie liturgiche, quel Guido Marini dipinto al Papa come un tradizionalista che andava rimandato a Genova, la città che nel 2007 lasciò a malincuore obbedendo alla volontà di Benedetto XVI che lo volle a Roma. Anche in questo caso, però, Francesco ha opposto il suo rifiuto a ogni cambiamento nell’ufficio delle cerimonie. E lo ha fatto “per fare tesoro della sua preparazione tradizionale”, consentendo al mite e poco protagonista Marini di “avvantaggiarsi della mia formazione più emancipata”.
La differenza culturale c’è tutta, il gesuita che per tradizione ignaziana “nec rubricat nec cantat” si trova improvvisamente catapultato in una realtà in cui negli ultimi otto anni erano stati pazientemente e lentamente recuperati elementi liturgici abbandonati negli ultimi trenta-quarant’anni, giustificando così chi vedeva nel Concilio una rottura anche in campo liturgico. Il filo conduttore delle cerimonie benedettiane era riassumibile nella sintesi tra solennità e compostezza: il ritorno sull’altare dei sette alti candelabri e della croce centrale e gli avvisi a non applaudire ne sono un esempio. E poi il latino, lingua della chiesa, che veniva usato per le celebrazioni non più solo a Roma ma in ogni angolo del pianeta, Africa compresa. Non pochi, guardando il volto serio di Marini quella sera di marzo mentre Bergoglio appariva per la prima volta alla Loggia delle Benedizioni con la semplice talare bianca, senza mozzetta né stola, avevano previsto un avvicendamento imminente. Invece Francesco sa che Roma non è Buenos Aires, che fare il Papa richiede anche di mantenere un apparato simbolico ancorato nella storia e nella tradizione millenaria della chiesa cattolica.
La continuità che non piace a tutti
Un recupero, quello avvenuto negli anni di Benedetto XVI, che a molti non è piaciuto, anche dentro le Mura leonine. Monsignor Sergio Pagano, prefetto dell’Archivio segreto vaticano, diceva lo scorso 7 maggio a margine della presentazione della costituzione d’indizione del Concilio “Humanae salutis” che “quando oggi vedo in certi altari delle basiliche quei sette candelabri bronzei che sovrastano la croce mi viene da pensare che ancora poco è stato capito della costituzione sulla liturgia Sacrosanctum Concilium”. Ecco perché qualcuno, come il vescovo di Cerignola-Ascoli Satriano, monsignor Felice Di Molfetta – che da sempre considera la messa in forma extra-ordinaria incompatibile con il messale di Paolo VI, espressione ordinaria della lex orandi della chiesa cattolica di rito latino – qualche giorno fa ha fatto sapere ai fedeli della sua diocesi di essersi vivamente rallegrato con Francesco “per lo stile celebrativo che ha assunto, ispirato alla nobile semplicità sancita dal Concilio”.
© - FOGLIO QUOTIDIANO
di Matteo Matzuzzi@matteomatzuzzi

“Não, não, mais de um filho não, porque não podemos fazer férias, não podemos comprar a casa”


Cidade do Vaticano (RV) – Para seguir Jesus, devemos nos despir da cultura do bem-estar e do fascínio provisório: foi o que disse esta manhã o Papa Francisco, na Missa na Casa Santa Marta.

Na homilia, o Papa comentou o Evangelho do dia, em que Jesus pede a um jovem que dê suas riquezas aos pobres e que O siga. “As riquezas são um empecilho, pois não facilitam o caminho rumo ao Reino de Deus”, disse Francisco. 

O Pontífice se referiu a duas “riquezas culturais”: antes de tudo, a “cultura do bem-estar, que nos deixa pouco corajosos, preguiçosos e também egoístas. O bem-estar é uma “anestesia”:

"Não, não, mais de um filho não, porque não podemos tirar férias, não podemos comprar a casa... Podemos seguir o Senhor, mas até certo ponto. Isso faz o bem-estar: nos despe daquela coragem forte que nos aproxima de Jesus. Esta é a primeira riqueza da nossa cultura de hoje, a cultura do bem-estar.”

A segunda riqueza é o fascínio do provisório. “Nós estamos apaixonados pelo provisório”, disse o Papa. Não gostamos das propostas definitivas que Jesus nos faz e temos medo do tempo de Deus:

“Ele é o Senhor do tempo, nós somos os senhores do momento. Uma vez, conheci uma pessoa que queria se tornar padre, mas só por dez anos, não mais.” Além disso, muitos casais se casam pensando que o amor pode acabar e, com ele, a união. 

“Essas duas riquezas são as que, neste momento, nos impedem de prosseguir. Eu penso em muitos, muitos homens e mulheres que deixaram a própria terra para serem missionários por toda a vida: isso é definitivo! Assim como muitos homens e mulheres que deixaram a própria casa para um matrimônio por toda a vida: isso é seguir Jesus de perto! É o definitivo”, afirmou o Pontífice, que concluiu:

“Peçamos ao Senhor que nos dê a coragem de prosseguir, despindo-nos desta cultura do bem-estar, com a esperança no tempo definitivo.”

(BF)

Homem recusa (novamente) a comunhão na mão em Missa Papal

Via Rorate Caeli

Continuo esperando por uma das "missas-dos-balões" do Papa Francisco. Mas, ao contrário, continuo vendo missas com muito Latim e somente pessoas ajoelhadas recebendo a Sagrada Comunhão do Santo Padre.

Vejam em 1 hora 57min 39 seg. Pode-se ver mais uma vez - como na última semana - alguém sendo lembrado para receber a Sagrada Comunhão na língua ... [Nota Rorate: ainda mais forte, ele foi negado na mão, e não apenas lembrados, um bom sinal]

Para ter certeza, há padres "agradáveis ao público" ', por exemplo @ 1 hora 57min 08sec, que distribuem a Sagrada Comunhão de qualquer forma, mas está claro que existe uma diretiva para se distribuir na língua, que certos padres tomam para si a iniciativa de contrariar...

O bispo de Roma e as conferências episcopais

Por Leandro Mariani | Tradução: Paula Torrini
 
E se, contrariamente ao estabelecido pela onda midiática, os obstáculos mais árduos à ação do novo Pontífice não surgissem na cúria romana, mas no resto do Orbe católico? Certo, é muito fácil assumir a resistência da burocracia vaticana a qualquer tipo de reforma que lança dúvidas sobre a conservação. Mais quantas burocracias similares se encontram no resto do mundo eclesial? Basta imaginar, mesmo só aproximadamente, quantas são as Conferências Episcopais nacionais e regionais que há décadas vivem uma vida própria ou quase isso, como se Roma não existisse.

A burocracia é sempre um monstro para qualquer inovador. Imaginemos quando há centenas de exemplares que passaram a funcionar em sentido inverso ao modo original. Concebidas e criadas como uma correia de transmissão do governo romano nas mais diversas regiões, as Conferências Episcopais se transformaram em organismos que se permitem pôr Roma em votação. Na verdade, literalmente, se permitem colocar em questão o que foi estabelecido por Roma. E não falo de uma Conferência qualquer perdida em alguma região equatorial

Basta pensar na Conferência Episcopal Italiana, a única que não tem um presidente eleito pelos próprios membros, mas nomeado diretamente pelo Papa. Uma segurança, se poderia dizer. No entanto, há não muito tempo, em 2010, a CEI colocou em votação a Instrução da Congregação para o Culto Divino que, pro indicação do Papa, solicitava que nos missais nacionais fosse substituída a tradução “por todos” para a mais correta “por muitos” na fórmula da consagração do Sangue de Nosso Senhor onde o texto latino recita “pro multis”. Resultado: de 187 votantes, só 11 se expressaram a favor daquilo que foi solicitado pelo Papa.

Além do mérito, evidentemente gravíssimo, tendo em vista o que deverá fazer o novo Pontífice, não se pode calar o método. E se tal método é adotado na Itália em uma matéria tão delicada como a fórmula da consagração das espécies eucarísticas, é de se pensar o que pode acontecer no resto do mundo em outras questões, a começar pelas morais. Há pouco mais de um mês foi noticiado que a Conferência Episcopal Alemã, presidida pelo Mons. Robert Zoellitsch, expressou parecer favorável ao uso da chamada pílula do dia seguinte por mulheres que o requeiram após terem sido vítimas de uma violência.

Mas a resistência a qual deverá fazer frente uma eventual ação do novo Pontífice não se refere somente as matérias dos casos singulares, mas à origem de tal atitude. Hoje as Conferências Episcopais se transformaram em organismos que visam sua própria sobrevivência exprimindo à maioria uma linha da qual não é possível desviar e usurpando os bispos isolados da autonomia que sempre caracterizou suas ações. Subtraída, de fato, a relação com Roma, um bispo acaba por adaptar-se à linha decidida em plenária ou em qualquer comissão da qual talvez nem mesmo conheça a existência ou o funcionamento. Tudo isto, longe de ser um instrumento que apóia e reforça a ação do Papa, mostra-se sempre mais um obstáculo ao efetivo governo da Igreja.

O fato que Francisco I insista na sua qualidade de bispo de Roma poderá talvez ajudá-lo nas relações com a Conferência Episcopal Italiana, da qual deve nomear o presidente. Mas é de se perguntar se enfatizar este aspecto não o colocaria em uma dificuldade ainda maior em relação às outras Conferências Episcopais. A menos que, em nome e por conta da pobreza franciscana que parece ter subitamente conquistado um consenso unânime dentro e fora da Igreja, as Conferências aceitem se auto-desmantelar e economizar no custo dos tantos escritórios que mantêm. Mas chegará a tanto o carisma do Papa Francisco?

Rei por direito divino

A renúncia de Bento XVI e a eleição de Francisco. Pergunta: quem é o Papa? O carisma jurídico de um bispo que tem um primado sobre os seus confrades. Por Cristo.
Por Roberto de Mattei 
PapasVFoglio Quotidiano, 28-03-2013 | Fratres in Unum.comTradução: Hélio Viana* - A pergunta “quem é o Papa?” surge espontaneamente toda vez que um novo Pontífice é eleito, sobretudo quando seu nome e sua história pessoal são desconhecidos do grande público. Tal não foi o caso do cardeal Joseph Ratzinger, romano de adoção, após tantos anos passados como prefeito da Congregação para a Fé; mas foi o caso de Karol Wojtyla, vindo de Cracóvia, e o é hoje o de Jorge Mario Bergoglio, proveniente de uma diocese ainda mais distante, nos confins do mundo, como ele disse no dia de sua eleição.

É compreensível que nos primeiros dias e semanas após a eleição procuremos sondar o passado próximo ou remoto do novo Pontífice, conhecer suas idéias, tendências e hábitos, para inferir, a partir de suas palavras e ações do passado, o programa do novo pontificado. O volume El Jesuita. Conversaciones con el cardenal Jorge Bergoglio s.j. (Vergara, Buenos Aires 2010, por Sergio Rubin e Francesca Ambrogetti) já delineia o rosto de um papabile e merece ser conhecido. Menos conhecida é a reação indignada que ao referido volume dedica um estudioso argentino de orientação tradicional, Antonio Caponnetto (La Iglesia traicionada, Editorial Apóstol Santiago, Buenos Aires, 2010). Tampouco se pode entender quem seja o novo Pontífice sem conhecer o julgamento que dele faz o padre Juan Carlos Scannone, um jesuíta discípulo de Karl Rahner que o teve como aluno e que inscreve o arcebispo de Buenos Aires na “escola argentina” da teologia da libertação (La Croix, 18 de março de 2013).

A “opção preferencial pelos pobres” do cardeal Bergoglio está enraizada em particular no ensinamento de Lucio Gera e Rafael Tello, expoentes de uma “teologia do povo” caracterizada pela substituição da ideologia da revolução armada pela praxis da pobreza. Analisando em La Nación de 21 de março o “Método Bergoglio de governar”, Carlos Pagni explica a razão teológica pela qual a “periferia” ocupa o lugar central na paisagem ideológica do arcebispo Bergoglio. O pobre para ele não é uma realidade sociológica para ajudar, mas um sujeito teológico do qual aprender: “Esta atitude pedagógica tem uma raiz religiosa: a relação do povo com Deus seria mais genuína porque carece de contaminações materiais”. Também Maurizio Crippa, no Foglio de 23 de março (“A pobreza é um sinal teológico, não sociologia”) enfatiza este aspecto, recordando as origens remotas dessa atitude: “A aposta é sempre transformar a Igreja na pessoa dos pobres em marcha, melhor ainda se autoconvocados: dos Pobres de Lyon, mais tarde chamados valdenses, a todas as correntes ortodoxas ou heréticas que atravessaram a Idade Média, como os Humilhados e Frei Dolcino de Novara, com desvios que chegaram até Tolstoi; e assim em diante, num percurso de privação e regeneração que retorna idêntico, desde as ‘Cinco chagas da Santa Igreja’ de Antonio Rosmini – a quinta é precisamente ‘a escravidão aos bens eclesiásticos’ – até as teologias conciliares da Igreja pobre”.

Trata-se de temas que seria útil aprofundar. Mas, no fundo, não é esse o ponto. A vida de um homem, mesmo de um Papa, não se mede pelos gestos do passado; ela muda a cada dia e pode a cada dia ser redefinida por mudanças, maturações e correções de rota novas e inesperadas.

Mais do que despertar tais interrogações a que só o futuro poderá responder, cada mudança de pontificado deveria proporcionar ocasião para se refletir sobre o que o novo eleito representa; refletir sobre o Papado como instituição mais do que sobre o Papa como pessoa individual. E isso especialmente após um período no qual, entre 11 de fevereiro e 13 de março de 2013, a própria constituição do Papado parece ter sido profundamente ferida.

O primeiro golpe dessa flagelação foi a renúncia de Bento XVI ao pontificado, um evento canonicamente legítimo, mas de impacto histórico devastador. “Um Papa que renuncia – observou Massimo Franco – já é um evento memorável na história moderna. Mas um Pontífice que o faz na plena posse de suas faculdades mentais, dando como razão simplesmente a fragilidade proveniente da idade, quebra uma tradição plurissecular” (A crise do império vaticano, Mondadori, Milão 2013, p. 9).

Um segundo golpe à instituição foi a escolha por Bento XVI de se autodefinir como “Papa emérito”, conservando o nome e a veste pontifícia e continuando a viver no Vaticano. Canonistas renomados como Carlo Fantappié destacaram a novidade do gesto, sublinhando como “a renúncia do Papa Bento XVI colocou graves problemas a respeito da constituição da Igreja, da natureza da primazia do Papa, bem como quanto ao âmbito e a extensão dos seus poderes após a cessação do ofício” (“Papado, sede vacante e ‘Papa emérito’. Equívocos a serem evitados”, em chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1350457).

A coexistência de um Papa que se apresenta como Bispo de Roma e de um bispo (porque tal é hoje Joseph Ratzinger) que se autodefine como Papa oferece a imagem de uma Igreja “bicéfala” e evoca inevitavelmente as épocas dos grandes cismas. Não se compreende a este propósito a ênfase midiática que as autoridades vaticanas quiseram dar ao ‘encontro dos dois papas’, no dia 23 de março, em Castel Gandolfo. As imagens que deram volta ao mundo e que o próprio Osservatore Romano publicou na primeira página no dia seguinte é a de dois homens que a linguagem dos símbolos coloca em pé de absoluta paridade, impedindo discernir de forma imediata quem fosse o autêntico Papa. O evento também contrasta com a garantia dada pela assessoria de imprensa da Santa Sé de que depois de 28 de fevereiro Bento XVI renunciaria ao cenário midiático, retirando-se no silêncio e na oração. Não teria sido mais prudente se o encontro tivesse se dado longe dos holofotes? Ou existe por acaso uma estratégia voluntária atrás dessa escolha midiática? Qual?

Estudioso da História do Cristianismo, Roberto Rusconi descreveu por sua vez o que vai resultar da encíclica inacabada de Joseph Ratzinger sobre a fé, em complemento das já promulgadas sobre a caridade e esperança. “A encíclica não terminada – observa Rusconi – poderia ser publicada depois como mais um texto de Joseph Ratzinger, quem durante seu pontificado sustentou repetidamente que seus últimos livros não deveriam ser considerados de nenhum modo como uma expressão direta de seu magistério pontifício” (Roberto Rusconi, A grande recusa. Por que um papa renuncia, Morcelliana, Brescia 2012, pp. 143-144). Se isso acontecer, o resultado vai ser o de minar pela base não só a autoridade dos documentos magisteriais promulgados anteriormente por Bento XVI, mas também daqueles futuramente exarados pelo seu sucessor, porque se dissolveria a distinção entre aquilo que é ato magisterial e aquilo que não é ato magisterial, diluindo o conceito de infalibilidade, do qual com freqüência se fala despro­positadamente.

Há defensores declarados de um redimensionamento do Papado, os quais geralmente invocam um texto de João Paulo II, na encíclica Ut unum sint, de 25 de maio de 1995, na qual o Papa Woytila se diz disposto a “encontrar uma forma de exercício do primado que, sem renunciar de modo algum ao que é essencial da sua missão, se abra a uma situação nova” (nº 95). Daí a distinção, feita por Giuseppe Alberigo e pela escola de Bolonha, entre a essência imutável do Papado e “as formas de exercício” nas quais ele se expressa na história (“Formas históricas de governo da Igreja”, em “O Reino”, 1º de dezembro de 2001, pp. 719-723). O inimigo de fundo é a idéia da “soberania pontifícia”, supostamente nascida na Idade Média, que estaria na origem do desvio do Papado de seu espírito original. A partir de meados do século XV, segundo outro historiador de Bolonha, Paolo Prodi, ter-se-ia iniciado uma metamorfose do Papado que modificou a instituição como um todo, levando não só a uma mudança das características institucionais dos Estados Pontifícios, convertidos em um principado temporal, mas também a uma reformulação do conceito de soberania eclesiástica inspirada na soberania política. Vitorioso sobre o conciliarismo, o Papado teria sido, no entanto, derrotado pelo Estado moderno, pois enquanto a Igreja se secularizava, o Estado se sacralizou (O Sumo Pontífice, Il Mulino, Bologna, 1983, p. 306). Porém, para os mesmos autores, a partir da Revolução Francesa, a Igreja, numa dialética frutífera com o mundo moderno, teria começado a se libertar dos grilhões do passado. Apesar de algumas fases regressivas, representadas principalmente pelos pontificados de Pio IX, Pio X e Pio XII, o Concílio Vaticano II marcaria finalmente, de acordo com Alberigo e seus discípulos, o momento da “virada”, descartando a dimensão jurídico-institucional da Igreja e abraçando uma nova visão desta, fundada nos conceitos de “comunhão” e de “povo de Deus”.

Essas teses foram novamente propostas, no plano teológico, em um recente livro dedicado ao ministério do Papa pelo decano dos eclesiólogos italianos Severino Dianich (Por uma teologia do Papado, Cinisello Balsamo, San Paolo, 2010). O fulcro da sua tese é a passagem de uma visão jurídica da Igreja, com base no critério de competência, a uma concepção sacramental, baseada na idéia de comunhão. O cerne do problema remonta à discussão havida no Vaticano II sobre a interpretação do nº. 22 da Lumen Gentium e da Nota prévia inserida por Paulo VI nesse documento, durante o que os progressistas apelidaram de “semana negra” do Concílio. As relações entre o Papa e os bispos, depois do Vaticano II, de acordo com Dianich, não podem mais ser baseadas na delegação e na subordinação. O Papa não governa “do alto” a Igreja, mas a guia na ordem da comunhão. Seu poder de jurisdição procederia, de fato, do sacramento da Ordem. E, sob esse aspecto sacramental, o Papa não é superior aos bispos. Ele, antes de ser Pastor da Igreja universal, é o Bispo de Roma, e a primazia que ele exerce sobre a Igreja universal não é de governo, mas de amor, porque, ontologicamente, como bispo, o Papa está em pé de igualdade com os outros bispos. Por isso Dianich quereria atribuir maior poder ao colégio episcopal, atribuindo a este a possibilidade de legislar com autoridade. O Papa deveria exercer de maneira nova o seu Primado, associando ao seu poder órgãos deliberativos e consultivos, tais as conferências episcopais, os sínodos ou até órgãos permanentes que o assistiriam no governo da Igreja. Tratar-se-ia de um Primado de “honra” ou de “amor”, mas não de governo e de jurisdição sobre a Igreja.

Porém, em primeiro lugar, essas teses são historicamente falsas. A história do Papado não é de fato a história de formas históricas diferentes e conflitantes entre si, mas a evolução homogênea do princípio de suprema jurisdição presente nas palavras que Jesus Cristo disse a São Pedro, e somente a ele: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16, 14-18). Quando São Clemente (ano 92-98 ou 100), terceiro sucessor de Pedro como Bispo de Roma, no início do império de Nerva (por volta de 97), interveio para restabelecer a unidade na igreja de Corinto, abalada por uma violenta discórdia, ele evocou o princípio da sucessão estabelecida por Cristo e pelos Apóstolos, exigindo obediência e até mesmo ameaçando com sanções se as suas disposições não fossem seguidas (Carta Propter subitas aos Coríntios, in Denz-H, nn. 101-102). O tom autoritário da carta e a veneração com que foi recebida são uma prova clara da Primazia do Bispo de Roma no final do primeiro século.

Cerca de dez anos mais tarde, Santo Inácio, Bispo de Antioquia, na viagem de Antioquia para Roma, onde foi martirizado, escreveu uma carta aos romanos na qual ele reconhece à Igreja de Roma uma posição de preeminência sobre toda a Igreja universal, dizendo: “Vós haveis instruído os outros e eu desejo que permaneçam firmes aquelas coisas que prescrevestes com o vosso ensinamento” (Epístola aos Romanos, 3, 1). Sua afirmação, tantas vezes mal interpretada, de que a Igreja de Roma “preside ao ágape”, deve ser entendida em seu sentido próprio. O “ágape” não é uma mera “caridade” genérica, mas, para Inácio, é a própria Igreja universal (que ele é o primeiro a chamar de “católica”), unida pelo vínculo do amor.

Ao longo dos séculos, o Primado pontifício, concebido como princípio ativo e central do governo da Igreja universal, permaneceu como a nota característica do Papado, assim como a constituição monárquica e hierárquica continuou a caracterizar a Igreja. Nas diferentes épocas que a Igreja percorreu, cada vez que o Papado esteve ausente ou foi fraco ou ineficaz, produziram-se cismas, heresias, agitações religiosas e sociais. Pelo contrário, as grandes reformas e a revitalização da Igreja se deram com papas que exerceram o governo usando a plenitude de seus poderes, de São Gregório VII a São Pio X.

O múnus específico do Sumo Pontífice não consiste em seu poder de Ordem, que ele tem em comum com todos os outros bispos do mundo, mas em seu poder de jurisdição, que o distingue de qualquer outro bispo, porque só no caso do Papa este poder é pleno e absoluto, e fonte do poder dos outros bispos. O poder de Magistério faz parte do Primado de jurisdição, e a infalibilidade constitui a expressão mais alta e perfeita do Primado pontifício, uma soberania ainda mais necessária do que aquela das sociedades temporais.

O poder de jurisdição é eminentemente um poder do governo. O Papa é tal porque governa a Igreja exercendo uma jurisdição doutrinária e disciplinar que não pode delegar senão parcialmente: não existe de fato uma diferença entre o poder jurídico de governo e o seu exercício, porque é inimaginável um governo cuja característica seja a de não governar. A essência do Papado tem neste sentido características imutáveis​​: é um governo absoluto que não pode ser delegado a outros no todo, mas apenas em parte. O Papado é uma monarquia absoluta na qual o Sumo Pontífice reina e governa, e que não pode ser transformada em uma monarquia constitucional em que o rei reina, mas não governa. Uma tal mudança de governo não feriria apenas sua forma histórica, mas a própria essência divina do Papado.

Não se trata de um debate abstrato, mas de um problema teológico com efeitos históricos concretos. Nossa época de mundialização dos mercados e de revolução informática assistiu ao colapso dos estados nacionais, substituídos por novos poderes, financeiros e midiáticos. Mas o caos, a fragmentação e o conflito dos novos cenários derivam precisamente desta perda de soberania, da qual é eloquente exemplo a União Europeia nascida do Tratado de Maastricht, que não se apresenta como um “super-Estado” europeu, mas como um não-estado, caracterizado pela multiplicação dos centros de decisão e pela confusão de poderes.

A autoridade e o poder dos estados nacionais e das democracias representativas se desintegram e o vazio é preenchido por lobbies ideológicos e financeiros, visíveis ou ocultos. Deverá a Igreja Católica remodelar-se com base num processo similar de pulverização, se autodemolindo? Face ao relativismo, deverá a Igreja deixar de lado a infalibilidade, como pediu o pastor valdense Paulo Ricca (​​“Il Foglio”, 19 de março de 2013), para se apresentar ao mundo fraca e demissionária, ou seja, não mais servindo-se desse carisma, que só ela possui, para contrapor sua soberania religiosa e moral aos escombros da modernidade? A alternativa é dramática, mas inevitável.

O certo é que a pergunta “quem é hoje o Papa?”, antes que à mídia deve ser dirigida à Teologia, à História e ao Direito Canônico da Igreja. Eles nos respondem que, por trás das pessoas de Bento XVI e de Francisco, há um trono papal instituído pelo próprio Cristo. O Papa São Leão Magno, que pode ser considerado o teólogo mais completo do Papado no primeiro milênio, explicou com clareza o significado da sucessão petrina, resumindo-a na fórmula: “Indigno herdeiro de São Pedro”. O Papa se tornava herdeiro de São Pedro no que dizia respeito à sua natureza jurídica e aos seus poderes objetivos, mas não em relação à sua situação pessoal e aos seus méritos subjetivos. A distinção entre o cargo e o detentor do cargo, entre a pessoa pública do Papa e a sua pessoa privada, é fundamental na história do Papado.
O Papa é o Vigário de Cristo que em seu nome e pelo seu mandato governa a Igreja. Mais do que uma pessoa privada é uma pessoa pública; mais do que um homem é uma instituição; mais do que o Papa é o Papado, no qual se resume e concentra a Igreja, que é o Corpo Místico de Cristo.

“O Papa lava os pés de duas moças? Um mau exemplo”.


Lombardi explica a “oportunidade” do gesto em uma comunidade pequena como a Casal do Marmo
Por Alessandro Speciale | Tradução: Fratres in Unum.com – Alguns alarmes soaram imediatamente após sua eleição, quando o Papa Francisco se apresentou ao mundo, no Balcão das Bênçãos, com a sua cruz de ferro e vestido de forma extremamente simples. Os tradicionalistas católicos, ligados à missa pré-conciliar em latim, fizeram uma careta.
Por outro lado, o “currículo” do Papa argentino provocou muitas críticas dentre os “fãs” da missa tridentina. “O Horror”, resumiu um periodista sul-americano em uma análise publicada no sítio tradicionalista Rorate Caeli. «Dentre todos os candidatos impensáveis, Jorge Mario Bergoglio é, talvez, o pior. Não porque professe abertamente doutrinas contra a fé e a moral, mas sim porque, julgando por seu trabalho como arcebispo de Buenos Aires, a fé e a moral parecem ser irrelevantes para ele».
Sobretudo, o novo Papa foi descrito como «um inimigo da missa tradicional», aquela que é celebrada em latim, e havia impedido em sua arquidiocese que se colocasse em prática o Motu Proprio “Summorum Pontificum”, com o qual Bento XVI permitia a missa tridentina como «forma extraordinária» do Rito Romano.
Outro exemplo. Um comentador católico conservador, Michael Brendan Dougherty, definiu a eleição de Bergoglio no “National Post”, apressadamente (apenas a três dias da “fumaça branca”), como mais uma das «novidades recentes e mediocridades católicas», porque segue a linha que foi seguida em meio século do Concílio Vaticano II, marcado por «experimentações desconsideradas», como a celebração da missa em línguas vernáculas, os gestos «drásticos» de João Paulo II ou a renúncia de Bento XVI.
Porém, a hostilidade explodiu somente depois de ontem à tarde, quando o Papa Francisco lavou e beijou os pés de duas meninas (e uma muçulmana) durante a liturgia da Quinta-Feira Santa, que ele celebrou no instituto penal para menores Casal do Marmo.
O Papa Francisco foi acusado de dar um mau exemplo e de violar a lei da Igreja; o sítio “Rorate Coeli” declarou imediatamente que a «reforma da reforma», que muitos esperavam de Bento XVI, havia acabado.
Ed Peters, um canonista e blogueiro muito conhecido nos Estados Unidos, não acusou o Pontífice, naturalmente, de «violar qualquer indicação divina», porém, sobretudo, de «dar um exemplo discutível, ignorando a sua própria lei».
Em 1988, a Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos publicou a carta circular “Paschales Solemnitatis” sobre a celebração dos ritos pascais. Nesse texto, no número 51, se lê que a lavagem dos pés deve envolver apenas homens escolhidos. O original em latim, “viri selecti”, não deixa dúvidas a esse respeito.
Nos Estados Unidos, a Conferência Episcopal decretou, um ano antes, a prática de incluir também as mulheres na cerimônia, embora não esteja previsto nos livros litúrgicos, pois tinham a «intenção de realçar o serviço ao lado da caridade no rito», porque era uma «forma compreensível de acentuar a ordem evangélica do Senhor, que veio para servir e não para ser servido».
A questão voltou a surgir em 2005, quando o arcebispo de Boston, o cardeal Séan O’Malley desencadeou as polêmicas por sua vontade de abrir o rito também às mulheres. Nessa ocasião, a Congregação para o Culto Divino explicou que, embora permanecia a «obrigação litúrgica» de lavar os pés somente dos homens, o bispo local podia ter a liberdade de decidir se existia uma necessidade pastoral na diocese.
Até esta “ruptura” humilde de Francisco. O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, explicou à Associated Press que se em uma «grandiosa celebração solene» seria lógico lavar os pés somente dos homens, porque se comemora a Última Ceia de Jesus com os apóstolos, «em uma comunidade pequena e única, composta também por mulheres», como a de Casal do Marmo, havia sido «inoportuno» excluir as mulheres, «à luz do simples objetivo de comunicar uma mensagem de amor a todos em um grupo que não incluía a refinados peritos em normas litúrgicas» [nota do Fratres: ou seja, se estás em uma "comunidade" pequena, "faze o que tu queres pois é tudo da lei!"].
* * *
O Padre Adolfo Ivorra, doutor em teologia litúrgica pela Universidade São Dámaso, de Madri, e professor de metodologia de investigação e de livros litúrgicos modernos na Espanha, explica em seu blog o que determina o Missal de Paulo VI:
“Os varões designados, acompanhados pelos ministros, ocupam os assentos preparados para eles em um lugar visível aos fiéis. O sacerdote (deposta a casula, se necessário), aproxima-se de cada uma das pessoas designadas e, com a ajuda dos ministros, lava e seca os seus pés” (Missal Romano: reimpressão espanhola atualizada de 2008, p. 263).
Em latim: “Viri selecti deducuntur a ministris ad sedilia loco apto parata. Tunc sacerdos (deposita, si necesse sit, casula) accedit ad singulos, eisque fundit aquam super pedes et abstergit, adiuvantibus ministris. (Missale Romanum, a. 2002)
Prossegue o douto sacerdote: “O que me preocupa muito é que o primeiro a não obedecer as rubricas seja o ‘patriarca’ de nosso rito, o romano. Temos um sério problema, sobretudo no catolicismo latino, em relação à correta apreciação dos sinais litúrgicos [...] O grande problema que recai sobre nós é o relativo ao munus regendi, ou dito em uma linguagem secular: o caos litúrgico, onde tudo vale porque tudo é “relativo”. O relativismo está dentro de nossa casa. Por favor, Santidade, peço-lhe que siga fielmente as rubricas de seu próprio rito, o romano, e dê exemplo aos demais sacerdotes e bispos de fidelidade às normas da Igreja. O Papa não é um monarca absoluto ao modo dos governantes seculares, mas alguém que reconhece, como dizia Bento XVI, que a liturgia é uma realidade que nos é dada e que não se reconstrói segundo os gostos. O primado do bispo de Roma não é tarefa fácil. Roguemos ao Senhor para que o próprio Papa Francisco ou alguns de seus colaboradores façam que Sua Santidade veja a importância destes sagrados ritos”.
E o blog Rorate Caeli questiona: “Uma vez que há normas em vigor a respeito do lava-pés (viri, homens), todavia, mesmo a Suprema Autoridade está obrigada a humildemente obedecê-las, ao menos que ele formalmente as altere de antemão. Não é realmente tão complicado entender esta matéria básica de lógica legal, não é mesmo?”.

Pontificado do Papa Francisco. Análise e pistas de ação.


o coração do rei é uma água fluente nas mãos do Senhor:
ele o inclina para qualquer parte que quiser” (Prov. XXI,1).

I. Pressupostos iniciais

Em 2005, quando da eleição do Papa Bento XVI, um expoente da teologia da libertação, o sacerdote chileno Pablo Richard, escreveu um artigo [1] no qual analisava a escolha de Joseph Ratzinger para o sólio pontifício e traçava um plano programático para os progressistas nos anos sucessivos. Este plano, verdadeiramente, foi seguido à risca por todos eles.
Papas Bento e Francisco.
Papas Bento e Francisco.
Em oito anos de Pontificado, estabeleceu-se eficazmente uma “operação boicote” a todo o magistério de Bento XVI. Suas determinações foram ignoradas, sua imagem detratada, sua palavra deturpada e seu governo sabotado. Ao fim, após uma avalanche de escândalos, “com plena liberdade e pelo bem da Igreja”[2], declarou a sua renúncia ao ministério petrino[3].
Agora, desde a conturbada convocação e realização do conclave, bem como da eleição ao Pontificado do Card. Jorge Mario Bergoglio[4], o orbe tradicionalista entrou num estado de perplexidade inicial, seguido de diversas atitudes contraditórias, que precisamos considerar. A meu ver, após a primeira reação de susto, contrastaram-se três posições: 1ª.) alguns, num esforço de contorno otimista da situação, deram largas a uma auto-alucinação apressada positiva. Estes são os entusiastas; 2ª.) outros, chocando-se de início com as primeiras exibições um tanto populistas do Papa Francisco e com a sua austeridade litúrgica, tão dissonante com o esplendor ratzingeriano, entregaram-se ao pavor, já dão tudo por perdido, se descabelam e anunciam a chegada do Armagedom. São osdesesperados; 3ª.) por fim, outros, mais cautelosos no juízo, estão considerando os fatos com calma, sem servilismos e ingenuidades, mas serena e criticamente observam a progressão dos acontecimentos. São os cautelosos. Pessoalmente, tenho feito um esforço, às vezes não demasiadamente pequeno, para ter esta última atitude.
Para isso, precisamos analisar a situação ponderadamente.

II. Análise ponderada da situação

Passada uma semana de pontificado, podemos mais calmamente, ainda que prematuramente, fazer algumas observações que talvez tenham qualquer pertinência.
É verdade que determinadas posturas do Papa Francisco são desconcertantes para o observador tradicionalista ou mesmo meramente conservador. Entretanto, creio que este papa não é facilmente enquadrável e todas as rotulações que se lhe façam correm um risco não pequeno de serem desmentidas a posteriori.
Em seus tempos de jesuíta, não perece ter sido um dos preferidos do Padre Arrupe. “O jesuíta Jorge Maria Bergoglio nos anos setenta era um ‘arrupista’, isto é, decidido seguidor do Padre Pedro Arrupe, superior geral da Companhia de Jesus entre 1965 e 1981? Não o era. O argentino tinha sido nomeado superior provincial do seu país em 1973, mas em 1974 se produziria um fato que modificaria a face da Companhia: a 32ª. Congregação Geral dos Jesuítas reformulava o sentido da ordem fundada por Santo Inácio em 1540 (…). A Igreja e a Companhia na Argentina, naqueles momentos, tinham uma estrutura muito tradicional, e a postura de Bergoglio se orientou por outra senda. Ele, que era uma pessoa de profunda espiritualidade e um homem de intensa oração, alertou seus irmãos jesuítas ‘de que se mantivessem na tradição da Companhia’ (…). Seja como for, e sem tirar a ‘reta e sã intenção de Bergoglio’, sua liderança como padre provincial diminuiu e os jesuítas se ‘dividiram entre aqueles que o respeitavam e seguiam e aqueles que iam às comunidades de base e liam a Teologia da Libertação”[5].
Imediatamente após a sua eleição, veicularam-se fotografias, vídeos e textos nos quais o Card. Bergoglio assumiu posições objetivamente ruins. No entanto, isto vale igualmente para os últimos pontífices, inclusive durante seus respectivos pontificados. Os exemplos poderiam se multiplicar aos borbotões[6]…
Para nos limitarmos ao exemplo do Papa Bento XVI, basta dizer que ele, um dia após sua eleição, afirmou diante dos cardeais que o elegeram: “eu, ao preparar-me para o serviço que é próprio do Sucessor de Pedro, desejo afirmar com vigor a vontade decidida de prosseguir no compromisso de atuação do Concílio Vaticano II”[7]. Quase como um presidente da república que jura uma constituição, o Papa Ratzinger, taxado de conservador, comprometeu-se explicitamente em aplicar o Vaticano II. Enquanto isso, Papa Francisco, celebrado com fogos de artifício pelos progressistas, até a homilia de sua missa de entronização, sequer o mencionou! Como enquadrá-lo?
Ao mesmo tempo, interessante é notar que, embora tenha tido um comportamento ecumênico, Papa Francisco, em sua primeira homilia aos cardeais, afirmou sem titubeio: “Quando não confessa Jesus Cristo, confessa o mundanismo do diabo, o mundanismo do demónio”[8]. Menos ecumênico, impossível! Nem a declaração Dominus Jesus tinha sido tão contundente.
A propósito, em dois dias de pontificado, o Papa Francisco citou quatro vezes o demônio em seus encontros com os cardeais, três vezes na Missa pro Ecclesia e uma vez na audiência do dia seguinte. Parece-me que falar do diabo não seja a prática mais progressista do mundo…
É verdade que em seu primeiro Angelus ele afirmou que o Card. Kasper é um “um teólogo estupendo”, mas, em seguida, cometeu um lapso imenso, quando disse “não julgueis que estou a fazer publicidade dos livros dos meus Cardeais”[9]. Nunca tinha visto um papa do pós-Concílio referir-se aos cardeais utilizando um pronome possessivo na primeira pessoa do singular, “meu”! Ué?!, diriam alguns, mas ele não se apresentou apenas como bispo de Roma, quase que abrindo mão de sua autoridade suprema sobre os bispos e, ainda mais, sobre os cardeais?…[10] Pois é, em Roma, é preciso saber ler também nos lapsos e nas entrelinhas[11].
Outros se desesperam ao verificar o contraste entre a liturgia ratzingeriana e a bergogliana… Certo!, existem contrastes que não agradam os olhares tradicionais empenhados neste esforço já consagradamente denominado de “reforma da reforma”.
Deixando de lado a técnica já ultrapassada de ler a história do papado colocando um papa contra outro para se escolher aquele que mais agrada ao mesmo que os contraditou artificialmente, o problema é mais amplo do que se possa perceber de início.
O primeiro dado relevante é a própria pessoa do Papa Francisco. Ele é jesuíta. Ou seja, pertence a uma ordem religiosa surgida após a chamada devotio moderna, que não se limita à espiritualidade litúrgica, mas cultiva práticas devocionais (meditação, exames de consciência, leitura espiritual, entre outras) como elemento essencial de sua espiritualidade[12].
Ademais, os jesuítas sempre foram dispensados dos ofícios litúrgicos em comum, como a missa conventual, de modo que sua formação neste aspecto segue contornos menos cerimoniais. Além do que, por seu voto de pobreza, pela austeridade característica da Companhia de Jesus e pelo seu próprio estilo mais ascético de viver, é inevitável que tais traços repercutam de algum modo em seu modo de encarar, por exemplo, a pompa nos pontificais papais. O Papa Bento XVI, de fato, além de sua formação muitíssimo mais refinada, tem uma vivência litúrgica mais marcada por um estilo monástico, beneditino, donde emana sua compreensão mais nobre da liturgia.
Papa Francisco foi presidente da Conferência Episcopal Argentina e, como tal, certamente ouviu não poucas ironias episcopais acerca do estilo litúrgico mais suntuoso de Bento XVI. Pois bem, aliada à sua austeridade pessoal, será que a tentativa de não salientar estas polêmicas não pode ser indício de que está querendo somar uma popularidade que lhe dê uma plataforma de onde possa tomar proximamente medidas impopulares?
Papa Francisco celebra Missa de encerramento do conclave.
Papa Francisco celebra Missa de encerramento do conclave.
Pessoalmente, posso dizer que a concepção litúrgica de Bento XVI, dentro daquela hermenêutica da reforma na continuidade proposta por ele em dezembro de 2005, é aquela que mais se aproxima de nossa sensibilidade doutrinal católica tradicional… Entretanto, também preciso reconhecer naquele olhar fixo do Papa Francisco para a hóstia consagrada, durante a elevação, uma fé menos ostentada, mas não menos adorante.
Evidentemente, com isso, não quero defender nenhum tipo de pauperismo atribuível aomodus celebrandi do novo Pontífice. Quero apenas salientar a ideia acima referida de que, também neste aspecto, ele não é facilmente enquadrável.
Há alguns meses atrás, um líder tradicionalista italiano dizia in off que “estamos precisando de perseguição, nos farão bem”… Na verdade, precisamos reconhecer que, em muitos ambientes ditos tradicionalistas, se antepôs um amor formalista à liturgia ao necessário zelo pela doutrina, pela piedade coadunada com uma vida santa, dando espaço a um modismo litúrgicototalmente alheio seja à santidade da Missa de Sempre[13] como ao verdadeiro espírito da liturgia defendido por Papa Bento XVI. Agora veremos quem realmente ama com zelo doutrinal e espiritual as práticas litúrgicas tradicionais (desde a Missa de Sempre até a comunhão na boca e de joelhos, a orientação do altar ad Deum, a centralidade da cruz, etc.) e quem é, digamos,embalista.
De fato, chegou a hora de nos evadirmos de qualquer superficialismo e desfraldarmos a bandeira da fé católica, que nos faz amar a liturgia tradicional por amor da santidade da Igreja e da continuidade na transmissão de seu patrimônio dogmático. Ter um papa que simbolicamente não favoreça esta compreensão pode ser ocasião para que cada um reitere sua convicção de fé, sem ceder diante das facilidades ou das tendências do momento eclesial.
Enquanto isso, os progressistas soltam rojões, dançam ao som do maculelê e gritam vivas ao “Papa Chico”, que irá “reformar a Igreja”… Estão celebrando o despertar, depois daquilo que consideram ter sido o pesadelo dos pontificados que, segundo eles, até agora, bloquearam o Concílio. Não nos impressionemos com isso. Também eles são apressados, e até demais!
Mas os progressistas nunca amaram nenhum papa. Aliás, eles são incapazes de amar qualquer coisa que seja diferente de suas próprias utopias delirantes. Eles usam o papa e o instrumentalizam, citando-o para referendarem fundamentalisticamente as suas próprias crenças exorbitantes. É o que estão fazendo agora. Chegaram até mesmo ao absurdo de usar Bento XVI, dizendo que tinha defendido a essência da teologia da libertação[14]. Imaginem o que não poderão fazer com Papa Francisco, que celebrará a Missa da Ceia do Senhor num centro de menores delinquentes[15]…
Porém, como dizia minha velha e venerável vovó, “quanto mais alto, maior o tombo”!
Não é a primeira vez que isto acontece na história da Igreja. Em 1846, foi eleito Giovanni Mastai, que tomou o nome de Pio IX. Na época, a maçonaria fez festa do norte ao sul da Itália, comemorando a eleição, enfim, de um papa liberal. Após o célebre exílio em Gaeta, porém, Pio IX deu uma guinada milagrosa em direção à tradição e tornou-se o inimigo “número um” do chamado “catolicismo liberal”, tornou-se o Papa da encíclica Quanta cura, do Syllabus, da Imaculada Conceição, da Infalibilidade Pontifícia, da Consagração do Gênero humano ao Sagrado Coração de Jesus e da extensão deste culto a toda a Igreja, tornou-se o terror de todos os modernistas do seu tempo.
De fato, a Escritura tem razão quando afirma: “cor regis in manu Domini quocumque voluerit inclinabit illud”, “o coração do rei está nas mãos do Senhor, ele o inclina para qualquer parte que quiser” (Prov. XXI,1).
Os modernistas contam apenas com os recursos naturais. Os católicos fiéis contam, sobretudo, com os meios sobrenaturais, e sabem que há mais poder em dedos que debulham o Terço e em joelhos que se dobram diante do Santíssimo Sacramento que em todos os conchavos humanos e em todas as maquinações da política eclesiástica.
Convertimini… et dabo vobis pastores juxta cor meum et pascent vos scientia et doctrina”, “convertei-vos… e vos darei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com ciência e doutrina” (Ier. III,14-15). Como dizia São João Eudes, “o maior sinal da ira de Deus sobre um povo e a mais terrível punição que sobre ele pode descarregar neste mundo é permitir que, em castigo dos seus crimes, venha a cair nas mãos de pastores que mais o são de nome do que de fato”[16].
Portanto, como será este pontificado depende também das nossas orações, sacrifícios e apostolados… Por isso, sem a pretensão de ser invasivo, gostaria de sugerir algumas medidas práticas como guias de ação para os próximos anos.

III. Pistas de ação

1) Multiplicar as orações e penitências pelo Soberano Pontífice. Enquanto muitos se dedicam unicamente a criticá-lo, nós, acompanhando criticamente o seu pontificado, como dissemos, sem ingenuidades e servilismos, prosseguimos, mais do que nunca, rezando pela pessoa e pelas intenções do Sucessor de Pedro. Precisamos invadir o céu em assalto, extraindo, pela mediação estratégica do Imaculado Coração de Maria, na força potentíssima do Santo Rosário, todas as graças necessárias para a restauração da Igreja. A adoração à Santíssima Eucaristia é o modo pelo qual continuamente entronizamos Cristo, pedindo incessantemente “adveniat regnum tuum”, “adveniat per Mariam”. Aliás, chegou a doer a afirmação de Bento XVI, dias depois da declaração de sua renúncia, quando disse que, então e apenas então, “nestes dias, não fáceis para mim, sentiquase fisicamente a força da oração que me proporciona o amor da Igreja, a vossa oração. Continuai a rezar por mim, pela Igreja” e, continuava ele, “pelo futuro Papa. O Senhor vos guiará”[17]. É triste saber que o Papa precisou renunciar para poder sentir um surto de orações que o sustentassem…
2) Celebrar com ainda maior solenidade e devoção a Santa Missa na forma extraordinária do Rito Romano. O Papa Bento XVI afirmou rotundamente acerca da Missa de Sempre ser esta “numquam abrogatam”[18]. Portanto, este é o momento mais importante para que celebremos ou assistamos a Santa Missa com a máxima devoção, difundindo entre todos os fiéis o mais radical apreço por esta forma litúrgica, pois “aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós”[19], mesmo que alguns se sirvam de alguma interpretação falsificada do pensamento do Pontífice reinante para nos criticar.  Os modernistas lutam com todas as suas forças contra a Missa de Sempre porque sabem ser ela o compêndio inalterado das mais excelsas verdades da fé católica, o que os coloca sob grave perigo.
3) Continuar incessantemente com a “reforma da reforma” sem nenhum retrocesso. As conquistas duramente obtidas no Pontificado de Bento XVI não podem ser malbaratadas nem negociadas em nome do momento presente. De fato, são estas uma manifestação da autenticidade de nossa fé católica, “são fórmulas e ritos não privados de uma sua beleza que favorece a contemplação dos mistérios de Deus. A lex credendi torna-se assim lex orandi”[20]. Não podemos nos desencorajar em nossa reverência para com a magnificente presença de Deus em nossas ações litúrgicas. Assim como os modernistas não deixaram de cumprir vergonhosamente seus abusos durante o pontificado anterior, não podemos abandonar nossa convicção de fé em nome de uma situação momentânea adulterada pela astúcia deles.
4) Ensinar oportuna e inoportunamente a fé católica. Muitas vezes, mesmo em ambientes ditos tradicionais, descurou-se a transmissão autêntica da doutrina, dedicando-se demasiado tempo a polêmicas e querelas teológicas. De nossa parte, precisamos tomar o Catecismo em punho e ensinar a todos as verdades eficazes da nossa salvação. “Conticuit populus meus eo quod non habuerit scientiam”, “meu povo se perde por falta de conhecimento” (Os. IV,6). Mas, “fide ex audito”, “a fé vem pelo ouvir” (Rom. X,17). E, por isso, precisamos falar. Portanto, para cada missa tradicional, que haja dezenas de grupos para o estudo da doutrina cristã e, assim, nossa devoção não será sacrificada sobre o altar da nossa ignorância. Somente mentes ilustradas com a doutrina de sempre poderão aderir sem titubeios à verdadeira piedade e devoção tradicionais.
5) Aprofundar no magistério de Bento XVI. Encerrando o seu pontificado, Bento XVI deixou-nos um patrimônio magisterial valiosíssimo que, enquanto foi ensinado, nem sempre pôde ser adequadamente acompanhado, seja pelo número imenso de intervenções papais como pela sua frequência quase ininterrupta. É chegado o tempo de aprofundar. Não podemos permitir que Bento XVI passe à história simplesmente como o Papa que teve a ousadia de tirar do armário o fânon ou o camauro papais! O seu magistério consistiu numa ampla reinterpretação do Concílio Vaticano II à luz da tradição e, por isso, deve ser assimilado, refletido e transmitido às próximas gerações. A este propósito, cabe uma observação: nossa geração, testemunha e receptora do magistério espetacular de Bento XVI tem uma responsabilidade grave para com as próximas gerações, que é a de transmitir a sua visão do Concílio Vaticano II, desmistificado da áurea de intocável que lhe foi atribuída, na linha da hermenêutica da continuidade. Somente se formos firmes na reverberação desta ideia, as futuras gerações poderão, serena e desapaixonamente, considerar com objetividade o Concílio, desapegando-se dele enquanto evento, analisando-o em seus textos, sintonizando-o com o magistério precedente e reavaliando-o também através de suas consequências históricas.
6) Combater com todas as forças a teologia da libertação. Já em 1996, para os representantes das comissões de doutrina das Conferências Episcopais da América Latina, no México, o então Card. Ratzinger apontava a necessidade de se superar a teologia da libertação[21]. Efetivamente, desde aqueles tempos, este monstro que quase devorou a fé em nossa nação estava em operação discretamente, bem ao estilo de Pablo Richard, que mencionava no início deste artigo. Todavia, também neste período levantou-se uma falange de jovens católicos esclarecidos, que deram seu grito de “cansei!” a esta caterva de apóstatas, e se articularam, eletrônica e até mesmo pessoalmente, na brava resistência a seus maiores expoentes, aliás, já anciãos e às portas do dies iræ[22]. Contudo, infelizmente, as heresias não morrem com a morte de seus proponentes! Nossas armas são o magistério autêntico da Igreja e a nossa devoção e, por isso, temos de juntar forças para vencê-los, ao menos em nossa geração. Não seguimos os mesmos protocolos imundos que eles seguem, pois sabemos que “non est nobis conluctatio adversus carnem et sanguinem sed adversus principes et potestates adversus mundi rectores tenebrarum harum contra spiritalia nequitiæ in cælestibus”, “não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal nos ares” (Eph. VI,12) que agem através deles. “Hæc est victoria quæ vincit mundum fides nostra“, “Esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” (I Ioan. V,4).
7) Quebrar a onipresença dos progressistas em todas as mídias possíveis. É impressionante como, nestas horas, os dinossauros da teologia da libertação voltam à baila em todas as mídias, sobretudo nos jornais e nas televisões, para vomitarem seus “dogmas” anti-católicos sem nenhuma contestação! Precisamos ser mais reativos a esta hegemonia, escrevendo aos seus respectivos superiores eclesiásticos, a fim de exigir uma intervenção disciplinar, e nos manifestando aos órgãos de imprensa, mostrando como estes senhores não representam o povo católico de modo algum. Ademais, com os recursos que tivermos, precisamos esgotar todas as possibilidades de nos fazermos ouvir em todos os meios de comunicação social, e não apenas na internet, como muitos se têm conformado em fazer.

IV. Conclusão

Como disse ao início, sem pressas, precisamos ser cautelosos em emitir juízos sobre o pontificado que se inicia, sobretudo pela imprevisibilidade da intervenção divina – a Igreja é de Deus! – e por considerar a boa fé do Pontífice.
Missa de inauguração do Ministério Petrino: Papa Francisco aos pés de Nossa Senhora.
Missa de inauguração do Ministério Petrino: Papa Francisco aos pés de Nossa Senhora.
De fato, um dos sinais mais interessantes que o Papa nos deu imediatamente foi a iniciativa de, como primeiro ato,dirigir-se a Santa Maria Maior e consagrar seu Pontificado a Nossa Senhora.  Do mesmo modo, na missa de inauguração de seu ministério Petrino, pressurosamente acorreu aos pés da Imagem da Santíssima Virgem para confiar-se a ela.
O Papa Bento XVI, em sua última viagem à Fatima no ano de 2010, augurou: “possam os sete anos que nos separam do centenário das Aparições apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima”[23].
A respeito disso, traduzo umas palavras do Pe. Paul Kramer, um dos maiores combatentes de Fátima: “Remeto o testemunho do estigmatizado romano Antonio Ruffini. O Papa Pio XII autorizou a bênção de uma capela no local onde Ruffini recebeu os estigmas, na Via Appia, e Padre Tomaselli escreveu um livro sobre ele – um breve relato da vida de Ruffini. Eu mesmo conheci Ruffini há muitos anos. No início de 1990, perguntaram a Ruffini: ‘É João Paulo II, o Papa que vai fazer a Consagração da Rússia?’ Ele respondeu: ‘Não, não é João Paulo. Não será seu sucessor imediato, mas o que virá depois. Ele é o único que vai consagrar a Rússia’. Ou seja, o sucessor de Bento XVI, durante este tempo de guerra mundial e perseguição da Igreja, vai ser o único a fazer a Consagração, finalmente, e, depois, a restauração e o triunfo do Imaculado Coração começará”[24]. Ademais, “digna de nota é a sua eleição no dia treze do mês, que tem um significado especial para os devotos e os promotores da Mensagem de Fátima”[25]. A propósito, Francisco é também o nome do Pastorinho de Fátima…
Será que este Papa fará a tão sonhada Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria? Talvez, por detrás de suas comentadas “quebras de protocolo” se esconda a coragem de quebrar um protocolo maligno de censura e silenciamento de Nossa Senhora de Fátima, citada por ele, nas entrelinhas, em seu primeiro Angelus[26]…
Se o fará, não sabemos. Mas… “o coração do rei é uma água fluente nas mãos do Senhor: ele o inclina para qualquer parte que quiser” (Prov. XXI,1). Oremus pro Pontifice nostro Francisco.
* * *

[1] Cf. Richards, P.,  Crisis irreversible en la Iglesia Católica, pero otra manera de ser iglesia es posible, Costa Rica, 04.05.2005 (todas as citações eletrônicas foram consultadas por nós pela última vez em 20.03.2013).

[2] Bento XVI, S.S., Audiência geral, Vaticano, 13.02.2013.

[3] Cf. Idem, Declaratio, Vaticano, 11.02.2013. As discussões acerca da validade da renúncia de Bento XVI, quer movidas por suposições acerca de sua presumível falta de liberdade, quer por causa de alguns defeitos na gramática latina no texto da “declaratio”, a meu ver, são sanadas por suas diversas reiterações públicas, nas quais, repetidamente, alega sua total liberdade.

[4] Atualmente, alguns consideram a possibilidade de que a eleição do Papa Francisco tenha sido inválida. Contudo, sendo a renúncia de Bento XVI um ato jurídico válido (como dissemos acima, sua liberdade foi repetidamente reiterada por ele) e a eleição do Card. Bergoglio ter se consolidado pela quase totalidade dos cardeais (parece ter tido mais de noventa votos), inclusive dos ratzinguerianos, parece-me que a possibilidade sedevacantista, pelo menos neste caso e por agora, não se sustenta.

[5] Morán, J., Varios Bergoglios en un solo Francisco. La evolución del nuevo Papa, muy espiritual, que rechazó la Teología de la Liberación, pero se ha volcado en los pobres, 15.03.2013 (a tradução é nossa).

[6] A propósito, seria interessante fazer uma retrospectiva desde o pontificado do Papa Paulo VI para termos uma noção mais exata do que consistiu a revolução pós-conciliar e, assim, termos uma percepção mais clara das proporções que estas atitudes do Papa Francisco tiveram relativamente ao todo.

[7] Bento VI, S.S., Mensagem ao final da concelebração eucarística com os cardeais eleitores, 20.04.2005. Aliás, vale a pena ler as palavras originais, que foram pronunciadas em latim, e que são mais vigorosas: “Nos quoque propterea munus ingredientes quod est proprium Successoris Petri, firmam certamque voluntatem declarare volumus Concilii Vaticani Secundi continuandi exsecutionem”.

[8] Francisco, S.S., Homilia, 14.03.2013. Em seu discurso com aos representantes de outras religiões, no qual, aliás, pela primeira vez cita o Vaticano II, Papa Francisco faz uma repetida observação: “A Igreja Católica está ciente da importância que tem a promoção da amizade e do respeito entre homens e mulheres de diferentes tradições religiosas – quero sublinhar isto: promoção da amizade e do respeito entre homens e mulheres de diferentes tradições religiosas”. Idem, Discurso, 20.03.2013.

[9] Idem, Angelus, 17.03.2013.

[10] Idem, Alocução no dia da eleição, 13.03.2013.

[11] A propósito, vale lembrar que o Papa João Paulo II – que, quando se encolerizava, chegava a bater na mesa e a dizer quem é que manda –, ao apresentar-se, disse: “os Eminentíssimos Cardeais chamaram um novo Bispo de Roma”. João Paulo II, S.S., Primeira saudação aos fiéis, 16.10.1978. Não será que o Papa Francisco quis associar-se mais exatamente a esta saudação?…

[12] A este respeito, veja-se a interessante observação feita neste Fórum.

[13] Esta terminologia é, na verdade, oriunda de uma ideia expressa pelo Papa São Pio V na Bula pela qual promulga o Missa Romano, no qual “restituíram o Missal propriamente dito à norma e ao rito dos Santos Padres” (Pio V, S., Bula Quo primum tempore, n. 4). De tal modo, o rito tradicional não foi uma invenção emanada da contra-reforma do Concílio de Trento, como se diz por aí, mas é uma verdadeira restauração da liturgia segundo suas fontes mais antigas e imemoráveis.

[14] Cf. Boff, C., Entrevista, Folha de São Paulo, 11.03.2013.

[15] Sala de imprensa da Santa Sé, Comunicado, 21.03.13. É interessante notar como, mesmo que às vezes faça ou diga algo que seja mais agradável aos progressistas, também lhes confronta com verdades para eles indigestas: “Mas há ainda outra pobreza: é a pobreza espiritual dos nossos dias, que afeta gravemente também os países considerados mais ricos. É aquilo que o meu Predecessor, o amado e venerado Bento XVI, chama a ‘ditadura do relativismo’, que deixa cada um como medida de si mesmo, colocando em perigo a convivência entre os homens” (Francisco, S.S., Discurso ao corpo diplomático creditado junto à Santa Sé, 22.03.2013).

[16] Nas profecias de Jeremias, a verdade do castigo de Deus sobre o seu povo, entenda-se na Nova Lei a Igreja, é continuamente sublinhado: “Escutai bem, povo insensato e sem inteligência: vós que tendes olhos para não ver e ouvidos para não ouvir. Enquanto tiver esse povo um coração indócil e rebelde, recuará e ir-se-á embora. Foram vossas iniquidades que alteraram essa ordem, vossos pecados que vos privaram desses bens. Coisas horríveis, espantosas, ocorreram nesta terra: mentem os profetas em seus oráculos, os sacerdotes dominam pela força. E meu povo mostra-se satisfeito! Que fareis vós, quando chegar o fim?” (Ier. V,21.23.25.30-31).

[17] Bento XVI, Audiência geral, 13.02.2013. No dia seguinte, repetiu a mesma ideia ao clero de Roma: “Eu estou muito agradecido pela vossa oração, que pude sentir – como disse quarta-feira – quase fisicamente. Embora agora me retire, na oração continuo sempre unido a todos vós e tenho a certeza de que também vós estareis unidos a mim, apesar de permanecer oculto para o mundo”. Idem, Encontro com o clero de Roma, 14.02.2013.

[18] “Nunca ab-rogada”. Idem, Motu próprio Summorum Pontificum, 07.07.2007, Art. 1.

[19] Idem, Carta que acompanha o Motu próprio Summorum Pontificum, 07.07.2007.

[20] Idem, Discurso aos bispos, 19.09.2005.

[21] Card. Ratzinger, J., La situación actual de la fe y la teologíaGuadalajara, 1998.

[22] Veja-se a foto da “garotada” da TL.

[23] Bento XVI, S.S., Homilia, 13.05.2010.

[24] Kramer, P., Interview.

[25] Fatima Network, News & Views – Cardinal Bergoglio Becomes First Latin American Pontiff, 13.03.2013. Ademais, Pe. Gruner também fez interessantes declarações. A propósito, num vídeo entrevista, Pe. Kramer fala sobre uma troca de correspondência entre o Pe. Gruner e o então card. Bergoglio. O mesmo assunto foi retomado num outro fórum de discussão.

[26] Cf. Francisco, S.S., Angelus, 17.03.2013.