Uma revolução igualitária movida pela inveja

Dr. Plínio Correa de Oliveira

Revolução Francesa! O tema ocupou as páginas de nossa revista, ininterruptamente de maio a dezembro de 1989, e em fevereiro do presente ano, a propósito das comemorações do bicentenário daquele trágico evento. Fatos diversos e centrais do período revolucionário (1789-1815) foram aqui lembrados, bem como noticiadas as comemorações realizadas no ano passado, sobretudo na França.
Hoje, apresentamos aos leitores uma análise do que foi o espírito da Revolução Francesa, e do modo pelo qual foi ela discutida desde seu desencadear até nossos dias.
O presente trabalho — o qual nos desvenda, em profundidade, o motor da Revolução Francesa — é o resultado de anotações extraídas de uma penetrante conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, proferida para sócios e cooperadores da TFP, em 23 de agosto do ano passado.
*     *     *

A sedução derrotada

O manipulador experiente é alguém muitíssimo atento às reações das suas vítimas. A partir de reflexos psicológicos e físicos induzidos nos outros por situações artificiosamente criadas, ele vai formando um quadro das preferências, ojerizas, medos e desejos — expressos ou ocultos — daqueles contra quem vai lançar a sua rede de domínio. 
Feito o diagnóstico básico dos principais vetores da psique alheia, o manipulador inicia o seu nefasto trabalho deflagrando simpatias seguras, e isto por um método mais ou menos simples de sedução: é solidário nos medos e nas preferências da vítima; elabora discursos contrários às coisas que ela mais odeia, calculando bem as palavras e o momento certo de dizê-las; insinua-se como facilitador de prazeres; e induz preocupações imaginárias para as quais se apresenta como protetor ou salvador.Com estas e outras ações, vai minando as resistências psicológicas da pessoa que é objeto do seu malefício e consegue ir ganhando, aos poucos, a sua confiança. 
Em síntese, ele faz um sumário bastante preciso das paixões alheias e estuda os mecanismos para despertá-las. Depois disso, dá vazão às tendências (boas e más) identificadas na vítima, e com tal procedimento logra conhecê-la melhor e se arma convenientemente para a sedução que tem em vista. Diga-se neste ponto o seguinte: como consumado hipócrita, o manipulador jamais mostra as suas reais intenções a princípio, pois se o fizesse perderia todo o poder encantatório. Ele só se revela quando o domínio sobre a vontade alheia está em adiantado grau, a ponto de a pessoa ficar a serviço dos seus caprichos quase sem o saber — ou então sabendo, nos casos em que se escraviza totalmente. A propósito, o manipulador despreza a vítima que chega a tão abjeto nível de entrega, razão pela qual destruí-la de uma vez por todas se lhe apresenta como a única opção, pois precisa de combustível e o encontra em novas conquistas. Em breves palavras, nenhum vampiro interessa-se por novamente atacar quem já teve todo o sangue sugado.
Eis o princípio elementar modelador das ações e pensamentos desta maldita criatura: quanto maior é a maldade planejada, mais necessária se torna a capa da hipocrisia. Ora, na escala das maldades, as que matam o mais excelente numa pessoa (a alma, com as ricas potências que nela radicam) são as que mais precisam ocultar-se, pois o inferno não seduz senão a quem já se iniciou no processo de autodestruição, seja moral ou psicológica. O manipulador sabe muito bem disso e todo o seu trabalho de compelir uma pessoa a ir na direção por ele desejada depende de que esse princípio não seja ferido. Daí se presume o quanto ele é capaz de fazer da sedução uma obra de artesanato espiritual às avessas — na qual construir é destruir.
É necessário certo discernimento das almas para identificar o manipulador, ou então experiência adquirida como vítima de algum deles. Sem a menor sombra de dúvida, trata-se de pessoa bastante hábil e conhecedora de algumas tendências universais da psique humana. Mas o nosso arquetípico personagem costuma perder a bússola diante de quem não se deixa levar por consensos e também com pessoas cuja auto-estima se baseia em critérios realistas, objetivos, e não na opinião da maioria ou em devaneios hedonísticos. Não é errôneo dizer que o poder inicial do manipulador será tanto maior quanto menos centrada for a pessoa a quem queira dominar, e tanto menor quanto mais a vítima mantenha o próprio ego em salutar equilíbrio e razoável senso de proporções. Por exemplo: mesmo o mais competente manipulador tem sérias dificuldades com pessoas humildes, e, como estas se encontram entre as que amam verdadeiramente a Deus, deduz-se daí o caráter consciente ou inconscientemente satânico de toda e qualquer manipulação.
Em nossa época, boa parte da cultura e da política é feita de grandes manipulações — repletas de mensagens subliminares e da indução pavloviana de respostas psíquicas padronizadas em larga escala. Mas este admirável mundo novo, escravizante e derrogador da consciência humana, tem o limite prefixado de domínio: a liberdade, que não é outra coisa senão a vontade quando ama.
Não por outro motivo, os santos são os homens menos manipuláveis que pode haver, pois a sua sanidade psicológica e espiritual bebe da fonte suprema do ser, Deus, instância de amor inalcançável pelo mal. Portanto, quanto mais um homem toma os santos por modelo, e quanto mais procura conhecer-lhes a vida e a obra, menos chance tem de ser manietado pelo príncipe deste mundo.
Ou por seus disciplinados soldados.

EVENTO: O Concílio Vaticano II - Uma história nunca escrita


Prezados Amigos

Temos a grata satisfação de convidá-lo(a), bem como a seus familiares e amigos, a participar da conferência do renomado historiador italiano, Prof. Roberto de Mattei, na segunda semana de dezembro de 2013, entre os dias 8 e 15, sobre os bastidores do Concílio Vaticano II.

O evento realizar-se-á nas seguintes cidades:

8 de dezembro – Rio de Janeiro - no Windsor Flórida Hotel, na Rua Ferreira Viana, 81 – bairro Flamengo. Faça já sua inscrição


9 de dezembro – Recife – Pernambuco, no auditório do Círculo Católico de Recife – Rua Riachuelo, 105 – 10 º andar. Faça já sua inscrição


10 de dezembro – Brasília – Lançamento do livro, na Livraria Cultura. Clique aqui e faça sua reserva


12 de dezembro – São Paulo – Conferência no Club Homs, Av. Paulista, 735 . Clique aqui e faça sua inscrição.


Escolha sua cidade e Faça já sua inscrição. No dia da conferência haverá, para os participantes, sorteio dos livros: O Concílio Vaticano II – uma história nunca escrita e Apologia da Tradição. 

***

Desde sua convocação até os dias presentes, o Concílio Vaticano II suscitou inúmeras controvérsias que certamente darão margem a discussões futuras.

Para que possamos conhecer os bastidores desse marcante evento na História da Igreja, onde conservadores e progressistas travaram uma grande luta, o prof. de Mattei, como historiador, oferece um contributo ímpar em sua obra “O Concílio Vaticano II – uma história nunca escrita”, através de uma rigorosa reconstrução do Concílio em suas raízes e consequências, baseada sobretudo em documentos, arquivos, diários, correspondências e testemunhos daqueles que foram os seus protagonistas. 

No Brasil, o tema vem tomando corpo, e merece de nossa parte uma singular atenção. Para compreender seu desenrolar até o presente momento será de grande valia ouvirmos a abordagem objetiva e clara do renomado historiador italiano, nesta oportunidade única e inédita que se realizará na nossa Terra de Santa Cruz.

***

O historiador e jornalista italiano Roberto de Mattei, nascido em 1948, é um dos mais destacados líderes católicos contemporâneos. É professor de História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma, na qual é o coordenador da Escola de Ciências Históricas. Entre 2004 e 2011 foi por duas vezes vice-presidente do principal organismo estatal italiano de apoio às ciências, o Conselho Nacional de Pesquisa. Membro do Conselho de Administração do Instituto Histórico para a Idade Moderna e Contemporânea e da Sociedade Geográfica Italiana, ele colabora com o Comitê Pontifício de Ciências Históricas. Foi agraciado com a insígnia da Ordem da Santa Sé de São Gregório Magno, em reconhecimento pelos seus serviços prestados à Igreja.


Em 2010, Roberto de Mattei publicou o livro O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita, o qual lhe valeu o mais prestigioso prêmio italiano para livros históricos: o Acqui Storia/2011. Recentemente traduzido para o português, e difundido no Brasil pela Petrus Livraria, pode ser adquirido por meio do site:http://www.livrariapetrus.com.br.

Inscreva-se nos links abaixo:


Tomás de Aquino e o Vaticano II


O Flautista de Hamelin

“O Concílio Vaticano II é Prometeu no ato do seu latrocínio”

Pe. Álvaro Calderón
(A Religião do Homem)

Com a declarada intenção de não querer impor dogmaticamente nenhuma doutrina, o Concílio Vaticano II fez chegar aos ouvidos dos fiéis católicos não a voz firme e inequívoca do Bom Pastor, mas o som encantatório do Flautista de Hamelin. E, de maneira semelhante ao que sucedeu às malfadadas crianças do famoso conto medieval, as ovelhas do rebanho se precipitaram no rio e morreram — afogaram-se nas águas tormentosas do pluralismo teológico. A deliberada ambigüidade dos textos conciliares transformou em norma o diálogo entre a luz e as trevas, com funestas conseqüências para a Igreja e o mundo.

O Concílio cita Santo Tomás de Aquino, assim como o magistério de Paulo VI e o de João Paulo II também o fazem. Porém misturam numa estranha alquimia elementos irredutíveis uns aos outros, com o seguinte detalhe metodológico na disseminação do caos: aspectos tradicionais tópicos vêm acompanhados de novidades até então nunca vistas,[1] o que abre as fórmulas conciliares à possibilidade de interpretações sem fim. A propósito, a pregação contemporânea acerca da necessidade de se buscar o “verdadeiro Concílio” é a evidência maior da ambivalência dos textos — legíveis à luz de hermenêuticas excludentes entre si. Nunca um documento eclesiástico gerou materialmente tantas dúvidas a respeito do seu próprio conteúdo. E é pelos frutos que se conhece a árvore.

Nos textos do Vaticano II vêem-se vestígios da doutrina tradicional católica ao lado de teses no mínimo estranhas, como a pitoresca idéia de que a Igreja é “edificada e vivificada” por elementos exteriores a ela, contra o Magistério anterior e os Doutores, que frisaram enfaticamente a impossibilidade de sequer haver fé fora da Igreja. Diz Unitatis Redintegratio (n.3):

“Entre os elementos ou bens com que, tomados em conjunto, a própria Igreja é edificada e vivificada, alguns e até muitos e muito importantes podem existirfora do âmbito da Igreja católica: a palavra de Deus escrita, a vida da graça, a fé, a esperança e a caridade e outros dons interiores do Espírito Santo e elementos visíveis”.
Aqui, além da inaudita e errônea circunstância teológica de se colocarem as três virtudes teologais como existentes fora da Igreja, ainda que potencialmente,[2] vale dizer: trata-se da primeira e única edificação da história sustentada em algo exterior a ela própria! Nem o arquiteto Oscar Niemeyer — famoso por conceber espaços que às vezes precisavam ser redesenhados por sugestão de engenheiros calculistas — imaginaria pôr de pé uma obra com tão bizarras características... Existem incontáveis outras imprecisões, ambigüidades e equívocos similares esparzidos entre os dezesseis documentos promulgados pelo Concílio Vaticano II. Não é intenção deste breve texto sumariá-los, seja com lupa, seja com água benta.

Apenas no tocante ao exemplo acima mencionado, cabe apontar a correção: a Igreja é vivificada em Cristo e edificada sobre Pedro (Tu es Petrus et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam), em quem repousa a suprema autoridade apostólica, assim como o sumo carisma magisterial, e não em elementos presumivelmente exteriores ao Corpo Místico. A propósito, com relação à falta de autoridade magisterial dos textos do Concílio Vaticano II, indicamos entusiasticamente a leitura do mais importante livro escrito nas últimas décadas: A Candeia Debaixo do Alqueire – Questão Disputada Sobre a Autoridade Doutrinal do Magistério Eclesiástico a partir do CVII, do Pe. Álvaro Calderón.

Pois muito bem.

No esforço de revestir a ambigüidade de autoridade, há anos neoteólogos de diferentes matizes tentam associar Tomás de Aquino ao Concílio Vaticano II, apoiando-se nas passageiras citações ao Aquinate num ou noutro documento conciliar, assim como em parte do magistério que se lhe seguiu — caso da famosa Encíclica Fides et Ratio, de João Paulo II.[3] Esta, infelizmente, toma o Aquinate não como a autoridade doutrinal cuja filosofia e teologia devam ser preferidas em detrimento do pensamento moderno(como diferentes Papas expressamente mandaram),[4] e sim como exemplo de audácia e liberdade de espírito, ou como “precursor do novo rumo da filosofia e da cultura universal” (hã?). Tudo a fim de “conciliar a secularidade do mundo com as exigências radicais do Evangelho”.[5] Diga-se neste ponto o mínimo: a intenção de frei Tomás jamais foi essa conciliação simpliciter, mas sim enfatizar a subordinação das coisas do mundo às celestes. Em resumo, a valorização daquelas só se pode dar em ordem a estas; tal é o conceito decontemptus mundi.

Na prática, os ventos de modernidade do Concílio Vaticano II interromperam os frutos que a escola neotomista vinha dando desde o chamado de Leão XIII na Encíclica Aeterni Patris. Basta vermos a abissal diferença de nível entre os tomistas mais atuantes nos períodos anteriores e nos posteriores ao Concílio, a saber: entre Pierre Mandonnet, M.D. Roland-Gosselin, Garrigou-Lagrange, Gallus Manser, Cornelio Fabro, Santiago Ramírez, Édouard Hugon e Josef Gredt, de um lado, e Abelardo Lobato, Miguel Ángel Gonzalez, Marie-Dominique Chenu e Jean-Pierre Torrel, de outro. Chega a ser covardia. Há exceções entre estudiosos que atravessaram o período do Concílio e têm ótimos trabalhos (como Josef Pieper e Battista Mondin), mas é quase na virada do século XX para o XXI que o tomismo começa a readquirir maior viço, sobretudo em comunidades tradicionais como a FSSPX e os dominicanos de Avrillé. Na universidade, vale citar nomes contemporâneos com importantes trabalhos publicados no espírito da escola tomista, como Martín Echavarría e Jorge Martínez Barrera, para aludir a apenas dois.

Voltemos no tempo para ressaltar o seguinte: se se trata de estímulo ao estudo da obra de Santo Tomás de Aquino, nenhum Concílio pode comparar-se a Trento. Ali a Suma Teológica foi simplesmente posta ao lado da Bíblia na proclamação dos Dogmas, e, numa passagem sobre a Eucaristia (seção XXI do Concílio), os Padres chegaram a reexaminar um ponto importante apenas porque certa passagem parecia contrariar Tomás. Por sua influência em Trento, o Aquinate chegou a ser chamado de patrum Concillii Tridentini oraculum! Ora, maior estímulo aos estudos tomistas não poderia haver do que este reconhecimento notório da autoridade do Doutor Comum justamente no Concílio que deu substância doutrinal à Contra Reforma — de maneira tão solene, magistral, catedrática, enfática e impositiva, não obstante este último adjetivo fira os delicados ouvidos do católico liberal, para quem a dicotomia autoridade/liberdade é irresolvível.

Em contrapartida, Tomás de Aquino e o Concílio Vaticano II são elementos que não se podem misturar sem acarretar sérios problemas. O motivo é simples: incontáveis textos do Concílio contrariam a letra e/ou o espírito da obra de Santo Tomás — seja em questões ecumenistas fundadoras do indiferentismo religioso hoje imperante, seja em questões políticas que defendem a separação formal entre a Igreja e o Estado, seja em questões eclesiológicas instauradoras da colegialidade, etc.

Vejamos dois brevíssimos exemplos, por meras razões de economia de texto:

       > Lumen Gentium (n. 16):

O desígnio da salvação estende-se também àqueles que reconhecem o Criador, entre os quais vêm em primeiro lugar os muçulmanos, que professam seguir a fé de Abraão, e conosco adoram o Deus único e misericordioso, que há de julgar os homens no último dia”.

Santo Tomás, em clave totalmente contrária a esta, deixa em primeiro lugar claro na Suma Contra os Gentios ser impossível crer nas proposições do Corão sem elevado grau de consciência culpável — tão contrárias são algumas suras à lei natural. E ali diz mais o Doutor Comum: Maomé deturpou os textos do Antigo e do Novo Testamento, entremeando-os de histórias legendárias, razão pela qual os sarracenos não podem, ao contrário do que diz o texto conciliar, professar "seguir a mesma fé de Abraão”. E ainda: Maomé fez a sua religião crescer no gume da espada e com promessas de prazeres carnais, nesta vida e na outra.[6] Isto sem falar no fato  — acrescentemos nós! — de que os muçulmanos não adoram o Deus único e misericordioso, visto não crerem na divindade de Cristo nem na Trindade! Ora, se Cristo, que é Deus na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, vai julgar os homens no último dia, como se depreende de Jo., V, 22, e os muçulmanos não crêem na divindade de Cristo, logo, o que eles adoramnão é patrimônio comum dos católicos, pois não é Deus mas um ídolo, visto que Deus é  essencialmente trinitário.

Em síntese, Tomás de Aquino e o Vaticano II não podem andar de mãos dadas por um breve caminho sem se arranharem mutuamente durante o percurso.

       >  Dignitatis Humanae (n. 2):

    “Este Concílio Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa. Esta liberdade consiste no seguinte: todos os homens devem estar livres de coação, quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos sociais ou qualquer autoridade humana; e de tal modo que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência, nem impedido de proceder segundo ela, em privado e em público, só ou associado com outros, dentro dos devidos limites”.

     Aqui estamos diante de uma das pedras de toque da neoteologia católica: o “dogma” liberal da intocabilidade das consciências individuais. Não entremos no mérito desta tese, já abordada à exaustão no Contra Impuganantes, mas apenas mostremos que ela não pode coadunar-se com Santo Tomas, pois este afirma não menos que o seguinte: judeus e muçulmanos devem ser coagidos no sentido de não colocarem obstáculos de nenhuma ordem à fé católica; hereges e cismáticos, por sua vez,devem ser coagidos — ou até “forçados fisicamente” (corporaliter compelendi) — a cumprir o que prometeram no batismo e a manter o que uma vez aceitaram.[7]

     Concordemos ou não com esta gravíssima opinião do grande Doutor medieval, o fato é que entre Tomás de Aquino e o Vaticano II não há harmonia possível.

       Normalmente, quando um diz “A” o outro diz “B”.

Eis o trabalho que, a propósito, está para ser escrito: um catecismo das teses de Santo Tomás frontalmente contrárias aos textos conciliares. Não tive tempo de levar adiante uma empreitada desta magnitude, embora conheça de cor inúmeros pontos da divergência radical aqui aludida (os tópicos acima são modestíssimas amostras). Ocorre que escrever com organicidade é coisa que demanda tempo, saúde e disposição; e de nada disso hoje disponho como gostaria.

Um vídeo no horizonte
Este breve texto foi motivado pelo vídeo recentemente divulgado pelo Pe. Paulo Ricardo em que se diz o seguinte: “De alguma forma, o Concílio Vaticano II fez pelos estudos de Santo Tomás mais do que qualquer outro Concílio”. Para corroborar esta opinião, o atuante sacerdote brasileiro menciona as citações ao Aquinate feitas em Optatam totius (3) eGravissimum educacionis (1), dois documentos conciliares.

No tocante a esta opinião, reiteremos agora com outras palavras algo do que ficou dito acima: no contexto e na forma como estão enunciadas, estas breves e vagas recomendações (ter a Tomás como mestre dos estudos filosóficos e teológicos, etc., coisa já naquela altura dos acontecimentos arqui-sabida e reiterada por mais de 600 anos de magistério, com muito maior ênfase e detalhes do que nestas modestas passagens concilares) não poderiam ter senão o efeito prático que tiveram, a saber: nenhum!As incontáveis novidades gritaram muitísimo mais alto, e se a coisa não desandou de todo foi porque a Providência Divina deu coragem e armas espirituais a um bispo para combater em meio à tormenta: D. Marcel Lefebvre.

Entre outros fatores, indica de maneira grandiloqüente o que estamos a dizer — ou seja, o efeito nulo daquelas recomendações conciliares — o próprio ponto de partida do vídeo do Pe. Paulo Ricardo: o enorme preconceito contra o Aquinate nos seminários católicos, a ponto de o sacerdote mesmo confessar só se ter interessado por estudar com maior interesse a obra do Doutor Comum da Igreja há pouco tempo, depois de haver sido ordenado.

Não se escandalizem os amigos católicos com este texto: trata-se de matéria teologicamente opinável (a saber, se o Concílio Vaticano II ajudou ou não aos estudos tomistas), na qual é lícito a quem quer que seja — do mais simples fiel ao Papa — defender um ponto de vista, apresentar suas razões corroborantes, evidências, indícios, etc. Aliás, divergir sobre pontos acerca dos quais pairam incertezas e discutir à exaustão com o intuito de aclará-los foram as atitudes que construíram a grandeza filosófica e teológica do cristianismo. Portanto, não venham os fofoqueiros profissionais, os maledicentes contumazes, os engraçadinhos medíocres e os idiotas natos destilar o seu veneno! Nem para cima de mim, nem nos ouvidos do Pe. Paulo Ricardo.

Não reduzam uma divergência conceptual, de si lícita, à altura da sua própria incapacidade de pensar fora dos grupelhos — pois estes, ao fim e ao cabo, dão o fiel retrato de mentes medrosas e débeis, para as quais o eco dos pequenos murmúrios coletivos e das detrações de bastidor tem valor de argumento probante.

Ao Pe. Paulo Ricardo, na certeza da divergência e na convicção da caridade cristã, peço a bênção e orações por minha pessoa.



1- Como o malfadado “subsist in”, por exemplo.
2- Nem a vida da graça, nem as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade são bens que possam propriamente existir “fora do âmbito da Igreja”. Aqui, o erro vem acompanhado da formulação equívoca, dúbia. Em verdade, o hábito da fé faz o intelecto submeter-se ao império da vontade deificada: é assim que o homem confessa a Cristo como Deus e Senhor (e não apenas como pessoa bem intencionada com dons e talentos excepcionais) e dá assentimento aos preceitos evangélicos; é assim que o homem confessa a esperança no Cristo ressuscitado, pilar de toda verdadeira espera cristã; é assim que o homem ama as criaturas e a si mesmo por amor a Deus, compreendendo que o amor é pelos bens criados, e não pelo que neles falha. Daí Santo Tomás dizer na Questão Disputada sobre a Caridadedevemos amar nos homens o que é de Deus, e odiar neles o que é alheio a Deus. Isto é caridade, e ela, como as demais virtudes teologais, pressupõe a anuência do intelecto prático ao fiel depósito custodiado pela Igreja. Afirmar que essas virtudes podem dar-se “fora do âmbito da Igreja” é, se quisermos ser eufemísticos, uma formulação grandemente imprecisa. O muçulmano e o judeu, por exemplo, não têm fé porque não crêem no Evangelho; não têm esperança porque não esperam no Ressuscitado; não têm caridade porque não aceitam a Cruz redentora. Por sua vez, o herege e o cismático (nossos irmãozinhos separados, de acordo com a atual Hierarquia católica) não têm fé porque não aceitam parte da doutrina, seja deturpando-a, caso dos hereges, seja derrogando-a, caso de cismáticos como os ortodoxos, por exemplo, os quais não aceitam o Primado de Pedro.  Isto para não falar nos “evangélicos”. Também não têm esperança porque procurar a Cristo fora da Igreja é uma das piores formas de não esperar n’Ele, ou seja, desobedecendo àqueles a quem Nosso Senhor conferiu o poder de ligar e desligar, assim como o carisma de ensinar; e a desobediência, como sabemos desde Lúcifer, é pecado grave. E por fim lhes falta caridade, a virtude teologal que dá forma às demais, por motivos análogos ao que acontece com judeus e muçulmanos, pois, para tornar mais leve a Cruz de confessar perante o mundo a fé católica integralmente, preferem acomodá-la às próprias paixões e a interesses menores. Ora, desde São Paulo sabemos (por fé!) que não aceitar um só ponto da doutrina — e o modo como a Igreja magisterialmente a ensina —, implica perda da fé.
3- É imprescindível a leitura do “Comentário à Encíclica Fides et Ratio”, do Pe. Álvaro Calderón, que editamos no Brasil como apêndice à Candeia Debaixo do Alqueire. Esse texto destrói qualquer possível tentativa de fazer da referida Encíclica um documento “tomista”, próxima ou distantemente.
4- Em sentido totalmente oposto, Fides et Ratio diz que “a Igreja não propõe uma filosofia própria nem canoniza uma filosofia particular em detrimento de outras” (n.49).
5- João Paulo II. Fides et Ratio, n.43
6- Cfme. Tomas de AquinoSuma Contra os Gentios, I, cap.6, n.7
7- Tomas de AquinoSuma Teológica, II-II, q.X, art.8, resp.

INTERPRETAÇÃO DA SAGRADA ESCRITURA


Deve-se dizer que, na perspectiva católica, NENHUM FIEL tem luzes espirituais para interpretar a Sagrada Escritura. A interpretação é prerrogativa exclusivíssima do Magistério da Igreja, carisma participado por Cristo ao Papa e aos Bispos para que mantenham íntegro o fiel depósito até o final dos tempos. Só eles podem interpretar e ensinar as verdades de fé porque são detentores deste indelével selo carismático garantidor da unidade doutrinária no decorrer dos tempos. Sim, não se espantem: os textos bíblicos não são mitos simbólicos ou poéticos, não obstante possuam rico conteúdo simbólico e elevada poesia, mas perfazem uma doutrina que contém proposições adequadas ao humano modo de conhecer. Porém com um detalhe nada desprezível — a suprema autoridade magisterial (e portanto hermenêutica) é virtude conferida por Cristo à Hierarquia do Corpo Místico da Igreja, e não aos simples fiéis, sejam quem forem.

O Magistério é a única regra próxima da fé. Nem mesmo os grandes teólogos — e Santo Tomas foi o maior deles — têm autoridade para interpretar o inesgotável conteúdo espiritual dos textos bíblicos. A ciência teológica contribui de maneira auxiliar e, ademais, as suas conclusões precisam ser ratificadas exatamente pelo Magistério. Os teólogos são, na melhor das hipóteses, mestres auxiliares. Se houver divergências entre eles e o Magistério, o católico sabe que deve ficar com este último. 

Não somos protestantes. Portanto, NÃO INTERPRETEMOS a Sagrada Escritura! Se houver dúvida quanto a um ponto aparentemente obscuro, cabe ao fiel procurar a interpretação dada pelo Magistério, tanto ordinário quanto extraordinário. Depois, ver o que disseram os Santos Doutores. Por fim, consultar os grandes teólogos. Nesta ordem. Sem esquecermos que o Código de Direito Canônico também traz a resolução de algumas dúvidas relevantes... E ainda há o Catecismo. Deus do céu! 

A anuência que o fiel católico dá à Sagrada Escritura não é fruto de sua capacidade interpretativa, mas da "lumen fidei", ou seja: a luz da fé (virtude teologal infusa) é o que abre a alma do fiel a dizer "sim" aos textos sagrados e aos seus intérpretes abalizados, ou seja, o Magistério mesmo. A fé não é uma conquista árdua da razão, mas um presente de Deus, daí ser infundida na alma do fiel. Por isto Santo Tomás afirma que uma simplória velhinha com fé sabe, num certo sentido, mais que Aristóteles.

Soube do texto do Sr. Júlio Severo sobre a Inquisição. Meu conselho aos amigos católicos é muito simples: este cidadão não tem nada a ensinar a vocês — a propósito, não é bom manter ecumênicos contatos com pessoas dessas agremiações que de cristãs usurpam o nome.

Se a Igreja não tem absolutamente nada a aprender de Nicodemos, muito menos terá a aprender com Henrique VIII, Lutero, Calvino, Maomé ou, contemporaneamente, Silas Malafaia e similares.

La Salette e o Anticristo

Seria a Igreja Ortodoxa anterior à Igreja Católica?

ATUALIZAÇÃO da postagem com o texto completo.

Resposta de um blog Católico americano sobre um e-mail de um cristão ortodoxo que dizia:

Além disso, você fala da Igreja Ortodoxa como “quase tão antiga quanto a Igreja Católica.” Uma vez que a Cristandade começou no Oriente, e os patriarcados de Jerusalém, Antioquia, e Alexandria foram estabelecidos antes de Roma (o apóstolo Pedro até mesmo serviu, segundo algumas fontes, como bispo auxiliar em Antioquia) e já que estes patriarcados defendiam as visões teológicas de Constantinopla nas contendas que surgiram entre a Nova e a Antiga Roma, não seria simplesmente mais justo ver a Igreja Ortodoxa como a mais antiga? [...] E como o cisma dos pré-calcedonianos antecede o cisma entre os quatro antigos Patriarcados e a Sé de Roma, tecnicamente não seriam também eles [pré-calcedonianos] mais antigos que a Igreja Romana?
Embora seja na Igreja de Jerusalém que o Cristianismo começou, aquela igreja (uma igreja judaico-cristã) deixou de existir entre 70 d.C. e 130 d.C. Depois de 130 d.C., todos os judeus (inclusive judeus cristãos) foram proibidos de entrar na cidade de Jerusalém, que foi renomeada como Élia Capitolina pelo Império Romano. Neste tempo, a Igreja de Jerusalém consistia em um corpo simbólico de cristãos gentios, que estava submetido à Sé metropolitana de Cesareia. Foi só no tempo de Constantino (dois séculos depois) que, novamente, foi dado a Jerusalém um lugar de importância honorífica. Entretanto, isso se deu por ser aquele um lugar de peregrinação. O reconhecimento como Patriarcado só aconteceu no Concílio da Calcedônia (451 d.C.), mas ela continuou sob a autoridade do metropolitano de Cesareia, que por sua vez respondia ao Patriarca de Antioquia. É por isto que o Concílio de Niceia (325 d.C.) declarou, no Cânon 7:
“Já que mandam o costume e a antiga Tradição que o Bispo de Élia (i.e., Jerusalém) seja honrado, que ele tenha a sucessão de honra, no entanto SEM o direito interno da metrópole (i.e., Cesareia).”
Isto está de acordo com o Cânone anterior (Cânone 6), que define os direitos patriarcais de Alexandria e Antioquia BASEANDO-SE no reconhecimento destes direitos pelo Bispo de Roma. Diz o Cânone 6:
“Prevaleçam os antigos costumes de que, no Egito, Líbia, e Pentápolis, o Bispo de Alexandria tenha jurisdição sobre todas estas, já que este também é o costume do Bispo de Roma. Igualmente, na Antioquia e nas outras províncias, que as igrejas retenham seus privilégios.” (Concílio de Niceia, Cânone 6)
Então, a autoridade patriarcal de Jerusalém é uma invenção do Concílio da Calcedônia. Não existia antes de 451.
O mesmo vale para a chamada autoridade patriarcal de Constantinopla. Apesar de lendas medievais, oriundas do Estado (e que não possuem nenhuma base histórica), Bizâncio não tinha nenhuma ligação com André ou qualquer Apóstolo, mas na verdade era uma igreja menor sob a jurisdição da Sé metropolitana de Hercúlea, na Trácia, que por sua vez era diretamente submetida a Roma. Foi com o I Concílio de Constantinopla que primeiramente tentou-se dar a autoridade patriarcal a Bizâncio (somente por ser a cidade imperial). Todavia, tanto Roma quanto Alexandria rejeitaram este decreto, e ele foi retirado. De acordo com a Tradição Apostólica, Roma tinha a primazia na Igreja universal, e Alexandria era a segunda após ela, esta última tendo a primazia no Oriente. Isto é afirmado por todos os padres que abordam o assunto, e mais claramente pelo Papa São Dâmaso I, que expediu o seguinte decreto em 382 – a fim de defender a posição de Alexandria como primaz no Oriente, que fora usurpada pelos bizantinos no Concílio de Constantinopla no ano anterior.
“Embora todas as igrejas católicas espalhadas pelo mundo formam uma só câmara nupcial do Cristo, não obstante, a santa Igreja romana foi colocada à frente não por decisões conciliares das igrejas, mas recebeu o seu primado pela voz evangélica de nosso Senhor e Salvador, o Qual diz: “Tu és Pedro...” (Mat 16:18-19). Além disto, tem também dentre sua companhia na barca dos eleitos, o beatíssimo Apóstolo Paulo que, junto com Pedro na cidade de Roma no tempo do César Nero, igualmente consagrou a sobredita santa Igreja Romana a Cristo Senhor; e por sua própria presença e por seu venerável triunfo, eles colocaram-na à frente de todas as outras de todas as cidades do mundo. A primeira Sé, portanto, é aquela do Apóstolo Pedro, a Igreja de Roma, que não tem mancha ou defeito, nem nada similar. A segunda Sé é a de Alexandria, consagrada em nome do apóstolo Pedro por Marcos, seu discípulo e Evangelista, o qual foi mandado ao Egito pelo Apóstolo Pedro, onde ele pregou a Palavra da Verdade e consumou seu glorioso martírio. A terceira Sé é a de Antioquia, a qual pertenceu ao beatíssimo Pedro, onde ele primeiro habitou antes de ir a Roma, e onde o nome de “cristãos” foi primeiro usado, como a um novo povo.” (Decreto de Dâmaso#3, 382 d.C.)
Essa é a antiga ordem – Roma, Alexandria e Antioquia, na ordem de primazia e autoridade. Foi somente em 700 d.C. – depois que Alexandria e Antioquia caíram nas mãos dos muçulmanos –, que Roma reconheceu o primado de Constantinopla no Oriente. Antes disso, a reivindicação era consistentemente negada, tanto por Roma quanto pelos outros patriarcas (embora Antioquia ocasionalmente aceitasse). Nada é tão contundente para mostrar isto quanto a condenação do Papa São Leão Magno ao Cânone 28 de Calcedônia, na qual diz:
“... nós também ordenamos e decretamos o mesmo em relação aos privilégios da santíssima Igreja de Constantinopla, a Nova Roma. Pois os Padres acertadamente garantiram privilégios ao trono da antiga Roma, porque esta era a cidade real. E os cento e cinquenta piíssimos Bispos deram iguais privilégios ao santíssimo trono da Nova Roma, julgando justamente que a cidade é honrada pela Autoridade Soberana e o Senado e goza de iguais privilégios como a antiga Roma imperial...” (Cânone 28, Calcedônia).
No entanto, o Papa Leão se recusou a concordar com este Cânone; e fazendo uso de um tipo de “veto parcial”, excluiu-o dos documentos conciliares. Aqui, o Bispo Anatólio de Constantinopla escreve ao Papa Leão, desculpando-se e explicando como o cânone veio a ser, dizendo...
“Quanto àquilo que o Concílio Ecumênico da Calcedônia recentemente ordenou em favor da igreja de Constantinopla, Sua Santidade esteja assegurada de que não tive culpa nisso, eu que desde a minha juventude sempre amei a paz e a quietude, mantendo-me na humildade. Foi o reverendíssimo clero da igreja de Constantinopla que estava ansioso por isto, e eles eram igualmente amparados pelos reverendíssimos sacerdotes daquelas partes, que concordavam com eles. Mesmo assim, toda a força de confirmação dos atos foi reservada à autoridade de Sua Beatitude. Portanto, que Sua Santidade tenha por certo de que eu não fiz nada que contribuísse no assunto, sabendo sempre que eu deveria evitar os luxos do orgulho e da cobiça.” – Patriarca Anatólio de Constantinopla ao Papa Leão, Ep 132 (sobre o Cânone 28 de Calcedônia).
Deste modo, o assunto estava encerrado; e, pelos próximos seis séculos, todas as Igrejas do Oriente falavam somente em 27 cânones de Calcedônia – o 28º Cânone foi anulado e invalidado pelo “veto parcial” de Roma. Isto é embasado por todos os historiadores gregos, como Teodoro o Leitor (escreve em 551 d.C.), João Escolástico (escreve em 550 d.C.), Dionísio Exíguo (também por volta de 550 d.C.); e por Papas como São Gelásio (c. 495) e Símaco (c. 500) – todos os quais falam somente em 27 cânones da Calcedônia.

Quanto à igreja de Antioquia, é verdade que a comunidade gentia de Antioquia é mais antiga que a comunidade gentia de Roma. Porém, a igreja de Roma em si (que começou como igreja judia) foi estabelecida por judeus peregrinos que se converteram ao Cristianismo no dia de Pentecostes (ver Atos 2:9-10), e tinha ministros judeus que lhe pertenciam e que se converteram muito antes de São Paulo (ver Romanos 16:7). Além disso, a primeira estadia de São Pedro em Roma teve lugar entre 42 d.C. (quando ele fugiu da Judeia – Atos 12:17) e 49 d.C., quando o Imperador Cláudio expulsou todos os judeus de Roma por causa de um tumulto acerca de alguém que o historiador romano Suetônio chama de “Chrestus” – claro mal-entendido de “Christus” (“Cristo”). Foi por isso que Pedro voltou a Jerusalém em Atos 15 para o Concílio de Jerusalém, que ocorreu em 49 d.C. Foi somente DEPOIS do Concílio de Jerusalém (ver Gálatas 2) que Pedro estabeleceu-se em Antioquia e tornou-se o primeiro Bispo de Antioquia (ele não era algum tipo de bispo “auxiliar”, como foi dito acima). Porém, uma vez que os judeus são readmitidos em Roma, Pedro volta para lá, e é aqui que ele e São Paulo confrontam o arqui-herege Simão o Mago, e onde eles juntos constroem a Igreja de Roma, síntese da igreja judia com a igreja gentia, e onde eles terminaram suas vidas como mártires. No entanto, só Pedro era a autoridade primacial ali – isto é, o bispo de Roma de facto. Assim, seu episcopado em Roma foi mais longo do que (e anterior) ao seu episcopado em Antioquia. Todos os Padres (Hipólito, Eusébio, Jerônimo, etc) o dizem. E, como diz Dâmaso acima, é daqui que os três originais patriarcados (Apostólicos) provêm. Por volta de 60 d.C., Pedro deixa Antioquia e volta para Roma. Fazendo isto, ele deixa seu discípulo Santo Evódio na Sé de Antioquia. Santo Evódio foi sucedido por Santo Inácio de Antioquia. Então, enquanto em Roma, Pedro enviou seu maior discípulo São Marcos para Alexandria, para ser o primeiro bispo (e seu próprio “legado”) lá. Ao fazer isto, Pedro, em essência, “triangula” o mundo conhecido. Sua própria Sé de Roma tinha a primazia e era a corte final de apelação, ao passo que administrava a Europa (e o Norte da África) diretamente. Alexandria teria o segundo lugar e o primado no Oriente, enquanto administraria a África Oriental, a Etiópia, a Arábia, e parte da atual Palestina. Antioquia, por fim, teria o terceiro lugar depois de Alexandria, e administraria diretamente a Ásia e o Oriente mais longínquo. Todavia, toda a relação dependia do quão eficientemente uma mensagem poderia ser mandada de Roma para o Oriente; isto porque, como pode ser facilmente visto num mapa romano, o caminho mais rápido de despachar uma mensagem para o Oriente era mandando-a de barco de Roma para Alexandria, e de Alexandria para a costa da Palestina até Antioquia. Este era o arranjo original, e como a Igreja primitiva operava. Os bizantinos perturbaram esta ordem original tentando equiparar a autoridade eclesiástica com a autoridade imperial.

Aqui, deve-se lembrar do fato de que a Cristandade bizantina não é a quintessência da Cristandade Oriental. Na Igreja Ortodoxa, não há representação da tradição copta, ou siríaca, ou maronita (libanesa), ou etíope, ou malankar (índia), ou armênia, ou caldeia (persa). A Igreja Católica, no entanto, possui todas estas tradições, bem como as tradições bizantina e antioquena, junto com as do Ocidente (romana e gálica). Além do mais, a presente teologia Ortodoxa nem sequer representa a totalidade da Cristandade grega, mas subordina a tradição greco-alexandrina à antioquena e à greco-capadócia. Se você aceitasse a sua herança alexandrina, não teria problema com a teologia do Filioque (propriamente dita). Logo, em suma, sua Ortodoxia não fala pelo Oriente inteiro, mas tão somente pela tradição antioquena-bizantina – isto é, uma parte do Oriente. E essa parte do Oriente pela qual você fala não é tão antiga quanto a herança apostólica de Roma.

>>>>>>E já que os Armênios também romperam a comunhão com a Igreja (com isso eu quero dizer a antiga grande Igreja) antes da separação de Roma, não seriam eles também mais antigos?

É verdade que, depois de 1054, Roma (e o resto da Europa Ocidental) deixaram de fazer parte do legado cultural do Império Bizantino, que era o herdeiro cultural direto do Império Romano. Porém, isto tem pouco, quase nada, a ver com a herança cristã e a Tradição Apostólica de Roma, que não depende das inovações de Constantino no século IV ou de seu estabelecimento de um Império cristão, mas antecede consideravelmente esta construção. Foi Bizâncio que rompeu com Roma, e não o contrário. Foi Fócio e seus planos imperiais que fizeram com que os bizantinos ignorassem e distorcessem seu prévio reconhecimento do primado romano, etc. Tente o quanto quiser, é simplesmente impossível reconciliar sua visão moderna, “Fócia”, com aquela dos padres bizantinos mais antigos como São Máximo Confessor, Teodoro Estudita, e outros que eram claramente “papistas” e que reconheciam a completa e total ortodoxia de Roma (ex. Filioque, etc.)

Aparentemente, Tertuliano serviu como sacerdote lá, e Jerônimo também visitou e serviu o Papa de Roma; mas o primeiro era originalmente de Cartago, onde ele também morreu; e o segundo era um monge de Belém, sob a jurisdição de Élia (Jerusalém) e Cesareia.

Como foi dito acima, Tertuliano tornou-se um herege montanista, e então rejeitou TODA autoridade episcopal. Então, não seria surpreendente que ele não defendesse o primado de Roma. No entanto, ele ainda testemunha para todos o primado Romano, através de seus protestos montanistas. Se o primado de Roma não fosse reconhecido, por que Tertuliano escarneceria do Papa Calisto chamando-o de “Pontifex Maximus” (isto é, a cabeça da religião estatal romana) e de “bispo dos bispos”? Além disso, por que eu e você podemos, hoje, receber o Sacramento da Confissão repetidamente, se Roma não tem a reconhecida autoridade de “ligar e desligar”?

Quanto a São Jerônimo, ele não estava sob a autoridade de Élia (Jerusalém), mas sim de Cesareia, que era o metropolitano para a atual Palestina. Cesareia respondia ao Patriarca de Antioquia, que por sua vez reconhecia o primado de Roma. No entanto, nos tempos de Jerônimo, o patriarcado de Antioquia estava dividido pelo cisma interno entre dois aspirantes a Patriarca. Jerônimo não tinha certeza a qual deveria se submeter. Então, ele escreveu o seguinte ao Papa São Dâmaso, em Roma:
“Já que o Oriente, estilhaçado como está pelas longas contendas entre seu povo, está aos poucos rasgando em pedaços a veste inconsútil do Senhor, ‘tecida de cima a baixo’, já que as raposas estão destruindo a vinha de Cristo, e já que entre vasos rachados que não guardam água alguma está difícil encontrar ‘a fonte selada’ e ‘o jardim fechado’, acredito que seja meu dever consultar a Cátedra de Pedro, e voltar-me à igreja cuja Fé fora enaltecida por Paulo. [...] Minhas palavras são dirigidas ao sucessor do Pescador, ao discípulo do Crucificado. Assim como eu não sigo nenhum líder além de Cristo, assim eu não comungo com ninguém além de Sua Beatitude, que se assenta na Sé de Pedro. Pois eu sei que esta é a Pedra sobre a qual a Igreja foi construída! Esta é a casa onde só o Cordeiro Pascal pode ser corretamente comido. Esta é a Arca de Noé, e aquele que não se encontra nela vai perecer quando o dilúvio vier. (Jerônimo, Epístola 15 – dirigida ao Papa Dâmaso I, c. 375 d.C.)
Nosso amigo ortodoxo continua:
>>>>>>Além disso, Cipriano de Cartago brigou com o Papa Estevão de Roma. Cipriano foi apoiado por toda a Ásia Menor, toda a África, toda a Grécia, toda a Arábia, e em geral todo lugar fora da diocese de Roma (embora ele também encontrasse apoio ali). O Papa Estevão, por sua vez, ameaçou essas igrejas com a excomunhão. Firmiliano de Cesareia, porém, passou a frente dele e o excomungou em favor de toda a Igreja. Cipriano foi martirizado, como você sabe, mas não estava em comunhão com Roma no momento.
É verdade que Cipriano teve um conflito amargo com o Papa Estevão sobre a questão do Batismo dos hereges – isto é, se os hereges que procuravam a comunhão com a Igreja Católica precisavam ser rebatizados ou não. Cipriano dizia que sim; Estevão dizia que não. Mais que isso, Estevão ensinava que havia “um só Batismo para a remissão dos pecados”; assim como a posição de Estevão (isto é, de Roma) fora adotada pelos padres niceno-constantinopolitanos no Credo! É a isso que esta afirmação do Símbolo de Fé se refere.
Entretanto, embora Cipriano acreditasse que o Papa Estevão estava errado, ele nunca excomungou o Papa Estevão, nem o bispo Firmiliano de Cesareia, na Capadócia. Durante toda a controvérsia, a posição de Cipriano era a de que todos os bispos eram livres para discordar neste ponto. Então, para Cipriano, o desacordo era sobre a soberania local de cada bispo. Em outras palavras, Cipriano via isso como um problema de oikonomia (literalmente, “administração da casa”) e disciplina local, e não como assunto formal da doutrina. É por isso que ele estava tão transtornado com as delcarações do Papa Estevão de que quem rebatizasse seria condenado. Porém, novamente, Cipriano NUNCA chamou Estevão de herege, e NUNCA rompe a comunhão com Roma. Ele apenas acreditava que Roma estava sendo injusta neste ponto, e que o Papa Estevão estava se intrometendo nos direitos próprios de Cipriano como bispo.
Quanto aos apoiadores de Cipriano, nem entre os bispos africanos ele tinha completo apoio. Na verdade, os bispos da Mauritânia que participaram do Concílio de Cartago seguiam o mesmo costume de Roma e não rebatizavam os hereges. É por isso que o concílio formalmente diz que os bispos são “livres para discordar” nesta matéria. E não só isso. Na conclusão do Concílio de Cartago, Cipriano manda legados ao Papa Estevão em Roma, pedindo-lhe para ratificar a decisão Africana. Por que faria isso se ele e seus colegas Africanos não reconheciam a autoridade romana? O Papa Estevão, no entanto, em um ato admitidamente pouco caridoso, recusou-se a receber a delegação africana. E é por ISSO que Cipriano voltou-se ao Oriente, tentando encontrar algum apoio ali.
No entanto, Cipriano não conseguiu encontrar ninguém no Oriente para apoia-lo, isto é, além de Firmiliano na Capadócia. Os dois patriarcados orientais de Alexandria e Antioquia ficaram do lado de Roma! Nós sabemos com certeza que Alexandria (na pessoa de São Dionísio) aceitou a ordem romana, pois, um ano depois da morte do Papa Estevão, o Patriarca Dionísio de Alexandria mandou uma carta para o seu sucessor, o Papa Sixto II, pedindo-lhe sua decisão acerca do caso de um egípcio, que era formalmente um herege, mas que procurara a comunhão com a Igreja, e que pedia para ser rebatizado porque acreditava que o batismo dos hereges não fora feito corretamente. Dionísio perguntou a Sixto se seria correto rebatizar este homem.
Então, Firmiliano na Capadócia era o único bispo oriental que tomou o partido de Cipriano contra o Papa Estevão. E ambos Cipriano e Firmiliano estavam errados! Depois os bispos de Cartago não mais rebatizaram hereges, e São Basílio Magno, sucessor de Firmiliano na Cesareia de Capadócia, também não rebatizou os hereges.
Quanto a Cipriano e Firmiliano, nenhum deles negou o primado de Roma. Por exemplo, mesmo criticando o Papa Estevão, Firmiliano escreveu:
Mas quão grande é seu erro [do Papa Estevão], quão grande a sua cegueira, que diz que a remissão dos pecados pode ser conseguida nas sinagogas dos hereges, não perpetuando assim a fundação da única Igreja, que fora primeiramente estabelecida por Cristo sobre a Pedra [...] E aqui, sobre este assunto, estou justamente indignado com esta insensatez aberta e manifesta de Estevão, logo ele que se orgulha tanto de seu lugar entre o episcopado, e sustenta que ele guarda a sucessão de Pedro, sobre quem as fundações da Igreja foram colocadas, introduz muitas outras pedras (os hereges), e constrói o novo prédio de muitas igrejas, ao manter por sua própria autoridade ele que há Batismo entre eles. Estevão, que se proclama ocupante da sucessão da Cátedra de Pedro, não é movido pelo zelo contra os hereges.” (Epístola de Firmiliano a São Cipriano, LXXV)
Em suma, Firmiliano não discute a dignidade que Estevão possui. Ele somente pensa que Estevão pessoalmente é indigno dela. Quanto a Cipriano, claramente também era um “papista”. Muito antes do conflito com Estevão, Cipriano escreveu o seguinte ao Papa Cornélio, em Roma:
“Com falsos bispos nomeados para si, eles (hereges novacianos) ousam mesmo viajar e levar suas cartas de cismáticos e blasfemos à Sé de Pedro e à principal igreja, na qual a unidade sacerdotal tem a sua origem; eles também não se lembram de que estes são Romanos, aqueles cuja fé fora enaltecida pelo Apóstolo, e a quem a fé herética não pode atingir.” (Cyp. ad Cornelius).
Para Cipriano, a Igreja de Roma era a “principal igreja” e a FONTE de unidade entre os bispos. Ele tinha como primacial a “Sé de Pedro” – porque seu bispo sucedia o próprio Pedro. De fato, em outros momentos, Cipriano chama Roma de “útero e a raiz da Igreja Católica”, e mesmo durante seu conflito com Estevão, Cipriano nunca abandonou esta visão. Por exemplo, na época da contenda, Cipriano mandou um informe a Estevão, dizendo-lhe que o bispo Marciano de Arles juntara-se ao partido do antipapa Novaciano. O Papa certamente já havia sido informado disso pelo bispo Faustino de Lyon e por outros bispos da Gália. Ainda assim, Cipriano (mesmo claramente não sendo nenhum fã de Estevão a essa altura) avisa o Papa, dizendo:
Você deveria mandar muitas cartas íntegras aos nossos irmãos bispos da Gália, não permitindo mais que o obstinado e orgulhoso Marciano insulte nossa sociedade. [...] Portanto mande cartas à província e ao povo de Arles, para que, excomungando Marciano, outro possa ser colocado em seu lugar [...], pois todo o copioso episcopado é unido pela cola da concórdia mútua e pelo laço da unidade, para que se algum de nossos irmãos ameace cair em heresia e assim lacerar e devastar o rebanho de Cristo, os outros possam prestar socorro [...] Pois embora haja muitos pastores, todos alimentamos um só rebanho.” (Cipriano, Ep. LXVIII)
Aqui, Cipriano está explicando ao Papa porque ele tomou a liberdade de interferir, e ele atribui ao Papa o poder de depor Marciano e ordenar uma nova eleição. Então, Cipriano NUNCA acreditou que Roma carecia de autoridade primacial ou que ele estivesse fora da comunhão com Roma.

>>>>>>O outro Africano, Agostinho, também não estava em comunhão com Roma quando morreu. Nem Tertuliano (embora se possa argumentar que ele era um herege, de qualquer forma).
Você está dizendo que Santo Agostinho de Hipona não estava em comunhão com Roma quando morreu? Me desculpe, Sr. Lawhorn, mas esta é uma afirmação ridícula, e você não tem absolutamente nenhuma razão para fazê-la. Você deve estar se referindo ao conflito de Agostinho com o Papa Zózimo, que ordenou a reabertura do caso contra Pelágio (inimigo de Agostinho) depois que o Papa Inocêncio condenara o pelagianismo. Porém, Zózimo também terminou condenando o pelagianismo. E ao passo que Agostinho claramente não estava satisfeito com Zózimo rever o caso, ele e seus irmãos africanos nunca romperam a comunhão com Roma por isso. Além disso, o Papa Zózimo morreu em 418 d.C., e Agostinho morreu em 430 d.C., 12 anos depois, e MUITO depois que a controvérsia já estava resolvida.
>>>>>>>E como a maioria dos primeiros Padres da Igreja escreveu em Grego e eram ou da Europa Oriental, ou da Ásia, ou da África, a Igreja Ortodoxa – que também considera estes Padres como santos, e descendentes diretos de si, e possui uma teologia idêntica à deles – parece ser a mais velha entre as duas [Igrejas].
Bem, como eu ilustrei acima, “aparências” podem enganar. Você não está vendo a história completa, nem avalia maduramente sua própria herança bizantina, que não representa integralmente a tradição Grega.
>>>>>>Quero dizer, sua teologia não é idêntica àquela dos Padres do Oriente ou mesmo dos primeiros Padres de sua próprio localidade, e parece mais ser um produto da Ortodoxia revisada e expandida por inovações.
É verdade que a Igreja do Ocidente usa algumas construções teológicas que não eram usadas pelos Padres de língua grega. Mas, e daí? Os Padres de língua grega baseavam sua linguagem filosófica na de Platão – um pagão. A Igreja do Ocidente (depois do Cisma) começou a pegar emprestada a linguagem filosófica de Aristóteles – outro pagão. É por isso que as Igrejas do Oriente e do Ocidente tem sido incapazes de comunicar-se entre si por tanto tempo. No entanto, não é a linguagem teológica que é importante, mas o conteúdo por detrás dela. E o conteúdo da Teologia Católica é completamente Apostólico. As “inovações” que você percebe são na forma, e não no conteúdo.

>>>Acredito que escrever qualquer coisa em defesa da idade dos Coptas e dos Armênios é injustificável, já que a Igreja Ortodoxa os antecede de qualquer modo.
Existem cristãos no Egito e na Armênia muito antes de Bizâncio. Além disso, como eu disse acima, nós católicos temos Coptas e Armênios em comunhão conosco. É atualmente uma Igreja composta de gregos aqueus, gregos antioquenos, e eslavos. O resto do Oriente está fora da nossa comunhão, mas está representado na Unidade Católica.
______________
Tradução: Marcos Marinho.