Avisos para os casados

Por São Francisco de Sales na obra Filotéia (cap.38)


O casamento é um grande sacramento, eu digo em Jesus Cristo e na sua Igreja é honroso para todos, em todos, e em tudo, isto é, em todas as suas partes. Para todos: porque as próprias virgens o devem honrar com humildade. Em todos: porque é tão santo entre os pobres como é entre os ricos. Em tudo: porque a sua origem, o seu fim, as suas vantagens, a
sua forma e matéria são santas. É o viveiro do Cristianismo, que enche a terra de fiéis, para tornar completo no céu o número dos eleitos: de sorte que a conservação do bem do casamento é sobremaneira útil para a república; porque é a raiz e o manancial de todos os seus arroios. Prouvera a Deus que o seu Filho muito amado fosse chamado para todas as bodas como o foi para a de Caná; nunca faltaria lá o vinho das consolações e das bençãos;porque se não as há senão um pouco ao princípio, é porque, em vez de Nosso Senhor, se fez vir a elas Adônis e, em lugar de Nossa Senhora, se faz vir a Vênus. Quem quer ter cordeirinhos bonitos e malhados, como Jacó, precisa como ele de apresentar às ovelhas quando se juntam para conceber umas lindas varinhas de diversas cores; e quem quer ser bem-sucedido no casamento, deveria em suas bodas representar a si mesmo a santidade e dignidade deste Sacramento; mas em lugar disso dão-se aí mil abusos e excessos em passatempos, festins e palavras. Não é pois de admirar que os efeitos sejam desordenados.

Exorto sobretudo aos casados ao amor recíproco que o Espírito Santo tanto lhes recomenda na Sagrada Escritura: ó casados não se deve dizer: amai-vos um ao outro com o amor natural, porque os casais de rolas fazem isto muito bem; nem se deve dizer: amai-vos com amor humano, porque também os pagãos praticaram esse amor; mas digo-vos encostado
ao grande Apóstolo: "Maridos, amai as vossas mulheres, como Jesus Cristo ama a Igreja; ó mulheres, amai vossos maridos, como a Igreja ama o seu Salvador". Foi Deus quem levou Eva a nosso primeiro pai Adão, e lha deu por mulher; foi também Deus, meus amigos, que com sua mão invisível fez o nó do sagrado laço do vosso matrimônio, e que vos deu uns aos outros: por que não haveis então de amar-vos com amor todo santo, todo sagrado, todo divino? O primeiro efeito deste amor é a união indissolúvel dos vossos corações. Se se grudam duas peças de pinho, uma vez que a cola seja fina, a união fica tão forte, que será mais fácil quebrar as peças noutros locais do que no local da junção; mas Deus junta o marido e a mulher em seu próprio sangue: e por isso é que esta união é tão forte que antes se deve separar a alma do corpo de um e de outro do que separar-se o marido da mulher. Ora esta união não se entende principalmente do corpo, mas sim do coração, do afeto e do amor. O segundo efeito deste amor deve ser a fidelidade inviolável de um ao outro: antigamente gravavam-se os selos nos anéis que se traziam nos dedos, como a própria santa Escritura testifica. Aqui está o segredo da cerimônia que se faz nas bodas: a Igreja pela mão do sacerdote benze um anel, e dando-o primeiramente ao homem, dá a entender que sela e cerra seu coração por este Sacramento, para que nunca mais nem o nome, nem o amor de qualquer outra mulher possa nesse coração entrar, enquanto viver aquela que lhe foi dada: depois o esposo mete o anel na mão da própria esposa, para que ela reciprocamente saiba que nunca o seu coração deve conceber afeto por qualquer outro homem, enquanto viver sobre a terra aquele, que Nosso Senhor acaba de lhe dar. O terceiro fruto do casamento é a geração e a legítima criação e educação dos filhos. Grande honra é esta para vós, ó casados, que Deus, querendo multiplicar as almas que possam bendizê-lO e louvá-lO por toda a eternidade, vos torna cooperadores de obra tão digna, por meio da produção dos corpos, em que Ele reparte, como gotas celestes, as almas, criando-as e infundindo-as nos corpos.

Conservai pois, ó maridos, um terno, constante e cordial amor a vossas mulheres: por isto foi a mulher tirada do lado mais chegado ao coração do primeiro homem, para que fosse amada por ele cordial e ternamente. As fraquezas e enfermidades de vossas mulheres, quer do corpo, quer do espírito, não devem provocar-vos a nenhuma espécie de desdém, mas antes a uma doce e amorosa compaxião, pois Deus criou-as assim para que dependendo de vós, vos honrem e vos respeitem mais, e de tal modo as tenhais por companheiras que contudo sejais os chefes e superiores. E vós, ó mulheres, amai ternamente, cordialmente, mas com um amor respeitoso e cheio de reverência, os maridos que Deus vos deu: porque realmente por isso os criou Deus de um sexo mais vigoroso e predominante, e quis que a mulher fosse uma dependência do homem, e osso dos seus ossos, e carne da sua carne, e que ela fosse produzida por uma costela deste, tirada debaixo dos seus braços, para mostrar que ela deve estar debaixo da mão e governo do marido; e toda a Escritura Santa vos recomenda severamente esta sujeição, que aliás a mesma Escritura vos faz doce e suave, não somente querendo que vos acomodeis a ela com amor, mas ordenando a vossos maridos que a exerçam com grande afeto, ternura e suavidade.

Maridos, diz São Pedro, portai-vos discretamente com vossas muleres como com um vaso mais frágil, honrando-as. Mas assim como vos exorto a afervorar cada vez mais este recíproco amor que vos deveis, estai alerta para que não se converta em nenhuma espécie de ciúme: porque acontece muitas vezes que, como o verme se cria na maçã mais delicada e madura, também o ciúme nasce no amor mais ardente e afetuoso dos casados, cuja substância aliás estraga e corrompe; porque pouco a pouco acarreta os desgostos, desavenças e divórcios. Por certo que o ciúme nunca chega aonde a amizade está de parte a parte fundada na verdadeira virtude: e eis a razão por que ela é um sinal indubitável de um amor sensual, grosseiro, e que se dirigiu a objeto em que encontrou uma virtude defeituosa, inconstante e exposta a desconfianças. É, pois, uma pretensão tola quere dar a entender com os zelos a grandeza amizade: porque o sinal na verdade é um sinal da magnitude e corpolência da amizade, mas não da sua bondade, pureza e perfeição; pois que a perfeição da amizade pressupõe a firmeza da virtude da coisa que se ama, e o ciúme pressupõe a incerteza.

Se quereis, maridos, que as vossas mulheres vos sejam fiéis, ensinai-lhes a lição com o vosso exemplo: "Com que cara,- diz S. Gregório Nazianzeno -, quereis exigir honestidade de vossas mulheres, se vós próprios viveis na desonestidade? Como lhes pedis o que não lhes dais? Quereis que elas sejam castas? Vivei castamente com elas", e, como diz São Paulo, saiba cada um possuir o seu vaso em santificação. Mas, se pelo contrário vós mesmos lhes ensinais as dissoluções, não é de admirar que sofrais a desonra da sua perda. Mas vós, ó mulheres, cuja honra está inseparavelmente aliada com a pureza e honestidade, conservai zelosamente a vossa glória, e não permitais que nenhuma espécie de dissolução empane a brancura da vossa reputação. Temei toda a sorte de ataques, por pequenos que sejam: nunca permitais que andem em volta de vós os galanteios. Todo aquele que vem elogiar a vossa formosura e a vossa graça deve ser-vos suspeito. Porque quem gaba uma mercadoria que não pode comprar, ordinariamente é muito tentado a roubá-la. Mas se ao vosso encômio alguém adicionar o desprezo de vosso marido, ofende-vos sobremaneira, porque a coisa é clara, que não somente quer perder-vos, mas já vos tem na conta de meio perdida, pois que metade do contrato é feito com o segundo comprador, quando se está desgostoso do primeiro. As senhoras, tanto antigas como modernas, acostumaram-se a levar pendentes das orelhas muitas pérolas, pelo prazer, diz Plínio, que têm em as ouvir tilintar e chocalhar, tocando umas nas outras. Mas quanto a mim, que sei que o grande amigo de Deus, Isaac, enviou à casta Rebeca pendentes de orelhas como os primeiros penhores do seu amor: eu creio que este ornamento místico significa que a primeira coisa que um marido deve ter de uma mulher, e que a mulher lhe deve fielmente guardar, é a orelha, para que nenhuma linguagem ou ruído possa aí entrar, senão o doce e amigável gorjeio das palavras castas e pudicas, que são as pérolas orientais do Evangelho. Porque é preciso lembrar-se sempre de que as almas se envenenam pelo ouvido, como o corpo pela boca.
O amor e a fidelidade juntos trazem sempre consigo a familiaridade e confiança; é por isso que os Santos e as Santas usaram de muitas carícias recíprocas em seu matrimônio, carícias verdadeiramente amorosas, mas castas; ternas, mas sinceras. Assim Isaac e Rebeca, o casal mais casto dos casados do tempo antigo, foram vistos à janela a acariciar-se de tal sorte que, embora nada nisso houvesse de desonesto, Abimelec conheceu bem que eles não podiam ser senão marido e mulher. O grande São Luís, tão rigoroso com a sua carne, como terno amor a sua mulher, foi quase censurado de ser pródigo em tais carícias: embora na verdade antes merecesse encômio por saber despojar-se do seu espírito marcial e corajoso para praticar estas ligeiras obrigações necessárias para a conservação do amor conjugal; porque ainda que estas pequenas mortificações de pura e franca amizade não prendam os corações, contudo aproximam-nos, e servem de agradável isca para a mútua conversação.

Santa Mônica, estando grávida do grande Santo Agostinho, consagrou-o com repetidos oferecimentos à Religião cristã, e ao serviço da glória de Deus, como ele próprio testifica, dizendo: que já no ventre de sua mãe tinha provado o sal de Deus. É um grande ensinamento para as mulheres cristãs oferecer à divina Majestade o fruto de seus ventres, mesmo antes que deles tenham saído: porque Deus, que aceita as oblações de um coração humilde e bem formado, ordinariamente favorece os bons desejos das mães nessa circunstância: sejam disso testemunhas Samuel, S. Tomás de Aquino, S. André de Fiesole, e muitos outros. A mãe de S. Bernardo, digna mãe dum tal filho, tomando seus filhos e filhas nos braços apenas nasciam, oferecia-os a Jesus Cristo; e desde logo os amava com respeito como coisa sagrada, e que Deus lhe tinha confiado: o que lhe deu tão feliz resultado, que todos os seus sete filhos foram muito santos. Mas uma vez vindos os filhos ao mundo, e começando a ter uso da razão, devem os pais e mães ter um grande cuidado de lhes imprimir o temor de Deus no coração. A boa rainha Branca desempenhou fervorosamente este encargo com o rei S. Luís, seu filho, porque lhe dizia a cada passo: Antes quero, meu caro filho, ver-te cair morto na minha presença do que ver-te cometer um só pecado mortal. O que ficou de tal modo gravado na alma deste santo filho, que, como ele próprio contava, não houve dia da sua vida em que disso se não lembrasse, esforçando-se o quanto lhe era possível por observar à risca esta santa doutrina. Na nossa linguagem chamamos casas às linhagens e gerações; e os próprios hebreus chamam a geração dos filhos edificação de casa. Porque foi neste sentido que se disse que Deus edificou casas para as parteiras do Egito. Ora é para mostrar que não é fazer uma boa casa provê-la de muitos bens mundanos: mas educar bem os filhos no temor de Deus e na virtude. Nisto não devemos esquivar-nos a penas nem trabalhos, pois os filhos são a coroa do pai e da mãe. Assim, Santa Mônica combateu com tanto fervor e constância as más inclinações de Santo Agostinho que, tendo-o seguido por mar e por terra, o tornou mais felizmente filho de suas lágrimas, pela conversão da sua alma, do que o tinha sido do sangue pela geração do seu corpo.

S. Paulo deixa como incumbência às mulheres o governo da casa; e por isso muitos seguem esta verdadeira opinião que a sua devoção é mais frutuosa para a família que a dos maridos, que, não tendo uma residência tão continuada entre os domésticos, não pode, por conseguinte encaminhá-los tão facilmente para a virtude. Segundo esta consideração Salomão nos seus provérbios faz depender a felicidade de toda a sua casa do cuidado e esmero da mulher forte que descreve.

Diz-se no Gênesis que Isaac, vendo a esterilidade de sua esposa Rebeca, rogou ao Senhor por ela: ou segundo o texto hebraico, rogou ao Senhor em frente dela, porque um orava de um lado do oratório e outro do outro lado; e a oração do marido feita deste modo foi ouvida. A maior e mais frutuosa união do marido e da mulher é a que se faz na devoção, à qual se devem excitar à perseverança um ao outro. Frutos há, como o marmelo, que, pela aspereza do seu suco, não são agradáveis senão postos em conserva. Há outros que, pela sua brandura e delicadeza, não se podem conservar senão também postos em doce, como as cerejas e os damascos: assim as mulheres hão de desejar que os seus maridos estejam em conserva no açúcar da devoção. Porque o homem sem devoção é um animal severo, áspero e duro; e os maridos devem desejar que as suas mulheres sejam devotas; porque sem a devoção, a mulher é em extremo frágil e sujeita a cair ou embaciar a sua virtude. S. Paulo disse que o homem infiel é santificado pela mulher fiel e a mulher infiel pelo homem fiel, porque nesta estreita aliança do casamento um pode facilmente puxar o outro à virtude. Mas que grande benção há quando o homem e a mulher fiéis se santificam um ao outro num verdadeiro temor de Deus! Além disso, hão de ter tanta condescendência um com o outro, que nunca se aborreçam e irritem ambos ao mesmo tempo e de repente, para que entre eles não se note dissensão nem disputa. As abelhas não podem estar em lugar onde se ouvem ecos e estrondos, e onde soa a voz repetida: nem o Espírito Santo pode demorar numa casa onde há disputas, réplicas e repetição de vozes e altercações. S. Gregório Nazianzeno diz que no seu tempo os casados faziam festa no anivesário dos seus casamentos. E eu por certo aprovaria que se introduzisse este costume, contanto que não fosse com aparatos de diversões mundanas e sensuais, mas que os maridos e mulheres, tendo-se confessado e comungado nesse dia, recomendassem a Deus, mais fervorosamente que de costume, o progresso do seu matrimônio, renovando os bons propósitos de o santificar cada vez mais por uma recíproca amizade e fidelidade, e cobrando alento em Nosso Senhor, para arcar com os encargos da sua vocação.

Presidente da Conferência Nacional dos Bispos das Filipinas celebra Missa Pontifical Solene.

Algo impensável para os dirigentes da CNBB ocorre no maior país católico da Ásia.

Por Shawn Tribe, New Liturgical Movement | Tradução: Fratres in Unum.com

O Presidente da Conferência  Nacional dos Bispos das Filipinas e Arcebispo de Cebu, Jose S. Palma, celebrou uma Missa Solene Pontifical segundo o usus antiquior no último dia 26 de março por ocasião das Festa da Anunciação.

Como parece ser o caso com frequência, os Freis Franciscanos da Imaculada deram a sua ajuda valiosa para a liturgia.

Aqui algumas fotografias do evento que foram enviadas para o NLM.

Começamos pela vestidura do arcebispo. (E nesse ponto, um breve comentário. Tive a felicidade de estar em uma série de diferentes sacristias em várias partes da Europa onde isso ocorre, e devo dizer que esses ritos, as suas orações anexas e o simbolismo que acompanha os elementos particulares dos paramentos, para não mencionar o simbolismo de tudo isso, conforme se relaciona com o cargo do bispo, são extraordinariamente comoventes e muito ricos teologicamente. Certamente, estes e seus elementos associados são algo digno de reivindicação em nossa busca de 'enriquecimento mútuo'.)

A chegada e a vestição do Arcebispo

A Missa

Parabéns a todos que ajudaram a tornar esse evento uma realidade. Oxalá esse seja o iníco de muitos outros eventos semelhantes.

Sri Lanka: Coleta da Quaresma para garantir direito das crianças à vida.

Oposição da Igreja no Sri Lanka a um projeto do governo. No Brasil, até hoje nenhuma famigerada Campanha da Fraternidade foi dedicada especificamente ao combate ao aborto.

Colombo, 28 de março de 2012, Apic | Tradução: Fratres in Unum.com - O Cardeal Malcolm Ranjith, Arcebispo de Colombo, Sri Lanka, decidiu destinar a coleta de Quaresma para as crianças a nascer. Lançada em 25 de março de 2012 [ndr: festa da Encarnação do Verbo], esta iniciativa se opõe à proposta do governo de permitir o aborto em determinadas situações, informa 'AsiaNews' em 28 de março. "Os abortos estão crescendo em todo o Sri Lanka. Para proteger as crianças e colocá-las no mundo, é necessário ajudar as mães com todos os meios possíveis", afirmou o Cardeal Ranjith. Seminários são organizados para mestres e professores sobre o tema do aborto, como proteger a vida ou como salvar a vida, esclareceu o Padre Judas Raaj. A iniciativa é promovida pela arquidiocese e pela cáritas de Colombo, com o lema: "Proteção da vida, para garantir o direito da criança à vida".

Bento XVI conhece a sua “madrinha espiritual” em Santiago de Cuba

HAVANA, 28 Mar. (ACI)

Ao iniciar a jornada desta terça-feira com uma Missa privada em Santiago de Cuba, o Papa Bento XVI conheceu pessoalmente a uma religiosa da Índia que foi sua "madrinha espiritual" durante 20 anos.

O Santo Padre celebrou a Missa privada antes de partir para o Santuário de Nossa Senhora da Caridade do Cobre. Na Missa participaram umas 10 religiosas da rama contemplativa das Missionárias da Caridade, fundadas pela Beata Teresa de Calcutá.

Ao finalizar a celebração eucarística, o Arcebispo de Santiago de Cuba, Dom Dionisio García, apresentou ao Santo Padre a religiosa indiana Teresa Kereketa, que seguindo a prática de sua congregação, há 20 anos recebeu a tarefa de orar diariamente por um sacerdote específico, convertendo-se assim na sua "madrinha espiritual". O sacerdote que recebeu sob tutela espiritual foi o Cardeal Joseph Ratzinger.

Durante o emotivo encontro, seguindo a tradição da Índia, a religiosa apresentou ao Santo Padre uma coroa de flores. "O Papa esteve muito comovido por conhecer esta religiosa", explicou durante uma conferência de imprensa o porta-voz da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi.

PSICOLOGIA III

3.4. As potências da alma: Uma vez relatadas as potências gerais da alma racional, analisemos as potências intelectivas. São cinco as potências da alma intelectiva, pelas quais a alma humana opera e atualiza as suas perfeições: a potência vegetativa, a potência sensitiva, a potência apetitiva, a potência locomotiva e a potência intelectiva [STh I,q78,a1,c]. Desta cinco tratemos das três fundamentais: a vegetativa, a sensitiva e a intelectiva, já que a locomotiva inclui-se na sensitiva e intelectiva e a apetitiva na intelectiva.

(a) Potência vegetativa: A potência vegetativa afirma-se propriamente das espécies vegetais [STh.I,q78,proêmio]. Mas diz-se no homem ser uma função, uma capacidade vegetativa. Por que ela existe no homem? Toda potência superior contém em si mesma a potência inferior, que dela emana. Já vimos que a potência superior é a intelectiva. Ora, a intelectiva que é potência própria do homem, possui como perfeição sua a potência vegetativa. Por isso, a potência vegetativa é uma potência natural que pertence ao vegetal e ao animal [STh.III,q33,a1,obj4;I,q78,a2,c], na qual se inclui a espécie humana. Segue-se do anterior que se afirma a potência vegetativa de todo corpo animado que possui, como partes vegetativas, a nutrição, o crescimento e a geração [STh I,q78,a2,c].

(b) Potência sensitiva: a potência sensitiva, é uma potência passiva cuja natureza é ser modificada por um objeto sensível exterior; como vimos acima, a potência sensitiva, embora seja potência da alma racional, ela tem por sujeito o composto de corpo e alma racional e, para tanto, exige, para a sua operação, órgãos dos sentidos externos, pelos quais opere, pois tais órgãos existem em função da potência e não o contrário; por tudo isso, se fazem necessários - os cinco sentidos externos - ou seja, a visão, a audição, o tato, o olfato e a gustação [STh I,q78,a3,c] e os seus respectivos órgãos dos sentidos externos: os olhos, o ouvido, a pele, o nariz e a boca, seus respectivos sensíveis próprios: luz -cor-, som -agudo-, superfície -áspera-, odor -suave- e sabor -doce-. Estes órgãos dos sentidos externos produzem, pelos cinco sentidos, algo que a potência sensitiva percebe externamente pelos próprios órgãos e, também, internamente, pelos sentidos internos. O homem deve, portanto, em sua potência sensitiva, não só receber as espécies das coisas sensíveis, no momento em que os órgãos dos senstido são modificados por elas, mas ainda imaginá-las, percebê-las, retê-las e conservá-las. Para tanto, para perceber e guardá-las internamente, a potência sensitiva dispõe também de - quatro sentidos internos - o sentido comum, pelo qual recebe a forma sensível das coisas sensíveis, a imaginação que retêm estas formas sensíveis, a cogitativa, que permite associá-las e a memória sensitiva, para conservá-las [STh I,q78,a4,c].


3.5. Potência intelectiva: 

(a) o intelecto: a palavra intelecto provém de intus legere, 'ler por dentro'; trata-se de uma potência cognitiva da alma humana, por meio da qual a alma conhece algo de si, algo do que lhe rodeia e algo do que lhe transcende. O intelecto é a mais nobre potência da alma, mas não a própria natureza da alma [STh I,q79,a1,c]. Difere dos sentidos [In I Met.lec2,n45; In II Met.lec1,n282-286]; seu objeto é a verdade [In VI Met.lec4,n.1230-1240]; possui duas operações, uma indivisível e outra de composição [In VI Met.lec4,n.1232]; está ordenado ao inteligível [In XII Met.lec8,n.2540]; humano é imaterial [In IX Met.lec11,n2624]; divino inteligi-se a si mesmo [In XII Met.lec11,n2611-2626]. 

(b) objeto próprio do intelecto: o ente é o que primeiro considera e conhece o intelecto [In I Met. lec.2, n.46]; o intelecto ordena-se ou orienta-se primeira e naturalmente à consideração do ente. O ente diz-se do que tem ser. Portanto, tudo que tem ser é ente e a isso odena-se o intelecto. É o sujeito da Metafísica [In IV Met. lec.1, n.529-531]. Não é gênero, pois não possui diferença [In I Met. lec.9, n.139]. É o que tem ser [In XII Met. lec.1, n.2419]. É tomado do ato de ser [In IV Met. lec.2, n.556-558]. Se diz da substância [In III Met. lec.12, n.488-493]. É considerado de quatro modos: do acidente, da verdade da proposição, dos predicamentos e se divide em ato e potência [In VI Met. lec.2, n.1171]. Pode ser essencial, acidental, real e de razão, dos predicamentos e do ato e da potência [In V Met. lec.9, n.885]. Ente por acidente não é propriamente ser [In XI Met. lec.8, n.2272]. Não há ciência acerca do ente por acidente [In VI Met. lec.2, n.1172-1176]. Ente de razão é próprio da Lógica [In IV Met. lec.4, n.574]. É o que primeiro capta o intelecto [In I Met. lec.2, n.46]. (c) ação própria do intelecto: conhecer a realidade e dela apreender a verdade; esta é a ação própria do intelecto; a verdade é o que visa o intelecto, quando ele considera o ente; por isso, a verdade é a adequação do intelecto com a coisa, que é um ente. O conhecimento da verdade é por dupla via: por resolução e por composição [In II Met. lect. 1, n.278]; o seu conhecimento implica dupla dificuldade: uma da parte das coisas e outra da parte de nosso intelecto [In II Met. lect. 1, n.279-286]; para o seu conhecimento os homens se ajudam duplamente: direta e indiretamente [In II Met.lect. 1, n.287-288; lect. 5, n.334]; é conveniente buscá-la [In II Met. lect. 5, n.335-336]; dos primeiros princípios é previamente determinada, e resolvem muitas dificuldades em sua aplicação [In III Met. lect. 1, n.338]; o verdadeiro e o falso nas coisas não são senão afirmar e negar [In IX Met. lect. 11, n.1896-1901; In VI, lect. 4, n.1230-1240]; está mais no ato que na potência e mais nas simples que nas compostas [In IX Met. lect. 11, n.1910-1913].

(d) o processo de conhecimento pelo intelecto: a abstração é o processo próprio do modo como o intelecto conhece o ente; o intelecto não conhece as coisas nele mesmo, senão, pela abstração, depois da recepção das formas sensíveis impressas que, impregnadas de materialidade e individualidade, são depositadas, pela potência sensitiva, nos sentidos internos, cuja separação da materialidade e individualidade é feita pelo processo de abstração. Designa em Tomás uma atividade do intelecto pela qual considera a forma comum de um objeto separada (abstraída) de sua matéria e de suas condições individuais. Ela é tríplice: da matéria, dos inferiores e dos sentido [In I Met. lec. 10, n. 158; In III Met. lec. 7, n. 404-405; In VIII Met. lec. 1, n. 1683 e In XII Met. lec. 2, n. 2426]. A abstração da matéria é de quatro modos: matéria sensível, inteligível, comum e individual [In VI Met. lec. 1; In XI Met. lec. 7, n. 2259-2264]. (e) a passividade do intelecto: no primeiro momento do ato de conhecimento, o intelecto é passivo, porque recebe as informações que as potências sensitivas, tanto interna, quanto externa, fornecem para a alma; por isso, conhecer é padecer, enquanto isso significa receber aquilo para o qual estava em potência, sem que nada lhe fosse tirado [STh I,q79,a2,c].

(f) a atividade do intelecto: num segundo momento do ato de conhecer, o intelecto é agente, pois é necessário que o próprio intelecto, depois de recebidas as formas sensíveis, - as espécies impressas ou imagens - opere e as coloque em ato, pela abstração das formas inteligíveis, formando novas espécies - as espécies expressas ou conceitos -, na medida em que as conhece em ato e as torna semelhantes a ele e subsistentes nele [STh I,q79,a3,c]. O intelecto agente é potência intelectiva, ou seja, existe na alma humana como sua potência de entender as coisas em ato. Cada homem possui o seu intelecto individualmente; e este se assemelha, por natureza e perfeição, aos dos demais homens. Portanto, ele não existe separado da alma, embora não dependa de algum órgão do corpo para operar no que lhe é próprio [STh I,q79,a4,c], nem é único ou um só para todos os homens [STh I,q79,a5,c].

(g) partes da potência intelectiva: São seis as partes da potência intelectiva, com as quais o intelecto concebe um conceito verdadeiro, certo, abstrato, universal ou comum de muitos: a memória, a razão, a razão superior e inferior, a inteligência, o intelecto especulativo e prático, a sindérese, a consciência. - a memória - é parte da potência intelectiva da alma humana responsável por reter, conservar e recordar as imagens inteligíveis das coisas que são apreendidas [STh I,q79,a6,c]. Como tal, a memória não é uma outra potência distinta da potência intelectiva, senão que é da mesma potência intelectiva, pela qual além de ser potência passiva é conservativa [STh I,q79,a7,c]. - a razão - é parte da potência intelectiva da alma humana responsável pelo raciocinar, ou seja, ir de um objeto conhecido a outro; mas isso não difere a razão do intelecto, senão por causa das funções e não da natureza, pois uma coisa é o conhecer, que é simplesmente apreender a verdade inteligível, e outra coisa é raciocinar, como foi dito acima [STh I,q79,a8,c]. - a razão superior e a razão inferior - não são também duas potências distintas da potência intelectiva, senão que são dois nomes distintos dados a duas funções distintas de uma mesma natureza: a razão superior é a sabedoria, conhecimento conseqüente dos hábitos dos primeiros princípios indemonstráveis e a razão inferior é a ciência, conseqüente da aplicação dos hábitos dos primeiros princípios na demonstração das coisas temporais [STh I,q79,a9,c]. - a inteligência - é propriamente o ato mesmo do intelecto, que é o inteligir e não é uma outra potência, senão o ato da potência intelectiva [STh I,q79,a10,c]. - o intelecto especulativo e o prático - não são duas potências ademais da intelectiva, senão que são a consideração da mesma potência intelectiva, segundo os seus fins: especulativo, que não ordena o que apreende para a ação e o prático, que ordena para a ação aquilo que apreende [STh I,q79,a11,c]. - a sindérese - não é parte da potência intelectiva, nem mesmo é uma outra potência do intelecto, não é senão um hábito natural do intelecto que entende e concebe os princípios da ordem da ação que incita ao bem e condena o mal, na medida em que julga o que encontramos, mediante os primeiros princípios [STh I,q79,a12,c]. - a consciência - significa aquilo que implica a relação do conhecimento com alguma coisa, não é uma potência, mas um ato que atesta, obriga ou incita ou ainda acusa, reprova ou repreende, mas tudo isso resulta da aplicação de algum conhecimento ou ciência que temos do que fazemos, por isso, consciência é conhecimento com um outro. Neste sentido, a consciência forma parte da potência intelectiva, não como uma outra potência, senão como um ato pelo qual se aplica o conhecimento de alguma coisa [STh I,q79,a13,c].


3.6. A potência apetitiva: 

(a) definição: por potência apetitiva entende-se a inclinação natural da alma racional, ou seja, da forma humana para aquilo que lhe é natural, daí o apetite natural [STh I,q80,a1,c].

(b) tipos de potência apetitiva: há o apetite da potência sensitiva - o concupiscível e o irascível - e o apetite da potência intelectiva - a vontade -, que são potências diferentes por causa não só de seus atos e objetos, mas também por causa de seus respectivos sujeitos: a potência sensitiva, tanto o concupiscível, quanto o irascível, têm por sujeito o composto de alma racional e corpo, e a intelectiva, a vontade, tem por sujeito a alma. Ambas as potências distinguem-se entre si, tendo em comum o fato de serem potências passivas, cuja natureza é ser movida pelo objeto apreendido e visto que o objeto apreendido pelo intelecto é de gênero diverso do objeto apreendido pelo sentido, segue-se que o apetite intelectivo é uma potência distinta da potência do apetite sensitivo [STh I,q80,a2,c].

(c) apetite sensitivo: - a sensibilidade - não é apenas apetitiva, mas também cognoscitiva, de qualquer modo este é o nome do apetite sensitivo; a operação da potência apetitiva sensitiva se dá por um movimento sensível, causado pela apreensão sensível, como se atesta a seguir: a visão é a sensibilidade que resulta da relação que há entre o órgão sensorial - os olhos - e o objeto sensível, na apreensão de sua forma sensível [STh I,q81,a1,c/De ver. q25]. Outro nome é o de sensação, que em parte serve para nomear esta relação que acabamos de mostrar.

(d) tipos de apetites sensitivos: o apetite sensitivo se distingue em concupiscível e irascível, como duas potências distintas do apetite sensitivo; porque o apetite sensitivo é uma inclinação natural conseqüente da apreensão sensitiva, deve haver, portanto, na parte sensitiva, duas potências apetitivas: - o concupiscível - pela qual a alma humana é absolutamente inclinada, por conseqüência da apreensão sensitiva, a buscar o que lhe convém na ordem dos sentidos e a fugir do que pode prejudicar; - o irascível - pela qual a alma humana resiste às causas de corrupção e aos agentes contrários que põem obstáculo à aquisição do que convém [STh I,q81,a2,c]. É a razão que move e dirige o apetite sensitivo, portanto estas duas potências sensitivas, o apetite sensitivo concupiscível e o apetite sensitivo irascível, obedecem à razão, quanto ao mando e ato e submete-se à vontade, quanto à execução sendo, portanto, desta maneira que elas obedecem à razão [STh I,q81,a3,c].

(e) As paixões da alma: as paixões são o movimento do apetite sensitivo concupiscível e irascível, pela imaginação do bem ou do mal [Sum. Theo. I-II,q22,a3/De ver.q26,3/In II Eth. lec5,n292]. A alma humana, dita racional ou intelectiva, possui, como já dissemos, as faculdades: intelectiva que possui duas potências - a razão que se ordena à verdade e a vontade que, sendo apetite do intelecto, se ordena ao bem; sensitiva que possui duas potências - a concupiscível que move a alma para a busca de bens sensíveis e evita os males sensíveis e a irascível que move a alma para a busca de bens sensíveis difícieis de conseguir e a movimenta para evitar os males sensíveis difíceis de evitar e a vegetativa que move a alma humana na consecução e realização de suas funções inferiores correlatas ao corpo, como crescimento e diminuição. Pois bem, a potência sensitiva opera mediante os órgãos dos sentidos. Por meio dos sentidos produz-se a sensação nos órgãos dos sentidos [Sum. Theo. I-II,q10,a3/De malo,q3,a9-10/Comp. Theo.c128]. Tais sensações, quando recebidas na alma, - por isso são paixões da alma - produzem, pela imaginação que causam nos sentidos internos [além da imaginação, estes são os outros três sentidos internos: senso comum, memória e estimativa ou instintos], certos movimentos, que vão desde o desejo da posse de um bem sensível ou da aversão de um mal sensível. Daí as paixões, emoções ou sentimentos, serem estabelecidas em dois grupos: um concupiscível, caracterizado pelo movimento que se pauta na busca do bem sensível e na aversão ao mal sensível e outro irascível, que se caracteriza como um movimento mais violento, seja para conseguir um bem difícil de conseguir ou para evitar um mal difícil de evitar. Daí termos as seguintes paixões [Sum. Theo. I-II,q23,a4/q22,a2,ad3/In II Eth.lec5,n293/De ver.q26,a4]: Concupiscível: - acerca do bem: presente -amor/ausente-desejo/presente -alegria; & acerca do mal: presente -ódio/ausente - aversão/presente -tristeza; Irascível - acerca do bem difícil de conseguir-se: ausente -esperança & acerca do mal difícil de evitar-se: ausente -audácia/presente -ira. As paixões no homem afetam a sua inclinação a algum bem ou a aversão a algum mal. Por isso podem influenciar todo o rumo da formação do caráter e da instrução humana, pois elas podem determinar o voluntário, se o antecedem na inclinação ao bem ou na aversão ao mal. Se por um lado, a vontade ao aderir a determinação e a influência das paixões, isso pode aumentar o voluntário, por outro lado, esta mesma determinação pode diminuir a liberdade. De tal modo que sendo as paixões muito fortes, podem inclusive obscurecer ou obstaculizar o livre arbítrio da vontade [Sum. Theo. I-II,q77,a6/De ver.q26,a7/De malo,q3,a11]. Mas as paixões não são, em si mesmas, algo bom ou mal, mas naturais, pois são disposições que devem favorecer a inclinação do homem, por seus atos, ao bem de sua natureza e ao fim último a que se inclina, mediante os bens particulares que se lhe disponham a vida.

 (f) apetite intelectivo: - a vontade - é um apetite superior ao apetite sensitivo, não havendo nela nem concupiscível, nem irascível [STh I,q82,a5,c/De ver.q23]; é a inclinação natural do intelecto para algo; por isso, diz-se apetite do intelecto ou da razão; assim como se chama natural o que é segundo a inclinação da natureza, denomina-se voluntário o que é segundo a inclinação da vontade, que deseja alguma coisa de maneira necessária [STh I,q82,a1,c], embora não queira por necessidade tudo o que ela queira [STh I,q82,a2,c]. A vontade não é uma potência superior ao intelecto, pois o objeto próprio do intelecto é mais nobre e está nele mesmo, como quando se diz que a verdade e a falsidade a que consideram o intelecto estão na mente, enquanto o objeto próprio da vontade está na coisa, como quando se diz que o bem e o mal, a que tendem a vontade, estão nas coisas. Ora, o que é mais abstrato e nobre e reside no intelecto é superior em relação a tudo o que não seja abstrato e nele não esteja. Neste sentido, a vontade é inferior ao intelecto e, inclusive, depende dos princípios do intelecto para executar a sua ação [STh I,q82,a3,c], mas isso não significa que a vontade mesma não possa mover o intelecto, já que o objeto próprio da vontade, o bem, é causa eficiente de todas as potências da alma, inclusive, do intelecto, excetuando-se a potência vegetativa, que não é submetida ao nosso querer [STh I,q82,a4,c]. - o livre arbítrio - é uma potência [STh I,q83,a2,c/De ver.q24] apetitiva-cognoscitiva [STh I,q83,a3,c] que faculta o homem julgar os objetos do apetite sensitivo e do apetite intelectivo, segundo o que deles conhece, cujo julgamento não resulta de um instinto natural, senão de certa comparação da razão frente à orientação de certas apreensões sensíveis e inteligíveis; e é necessário que o homem julgue livremente, pois isso é uma exigência natural do ser racional [STh I,q83,a1,c]; o livre-arbítrio não é senão a própria potência apetitiva do intelecto, pois assim como o intelecto está para a razão, tratando-se da apreensão intelectiva, da mesma maneira, tratando-se do apetite intelectivo, a vontade está para o livre-arbítrio, que nada mais é do que a potência de escolha [STh I,q83,a4,c]. Assim, o intelecto tem por um lado a potência de raciocinar (razão), enquanto vai de um conhecimento a outro e, por outro lado, tem a potência de querer (vontade), enquanto isso é um simples desejo e tem a potência de eleger (liberdade), enquanto deseja alguma coisa por causa de outra que se quer conseguir [STh I,q83,a4,c]. 

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4. Principais conceitos: A seguir apresentaremos os conceitos do De anima considerados neste comentário e que requerem especial atenção em razão de sua relação a certas noções metafísicas. A numeração referida no léxico designa o parágrafo da Edição de M. Pirotta, Roma: Marietti,1948:

De anima
Livro I (A)
Livro I: Acerca da dignidade, utilidade e dificuldade desta ciência que versa sobre a alma. As antigas opiniões sobre a natureza da alma. Sobre a unidade da alma com relação às opiniões propostas. Em três capítulos.
Livro II (B)
Livro II: Acerca da definição da alma, de suas potências, ordem à natureza. A potência vegetativa. Acerca da pontência sensitiva. O núumero dos sentidos. De casa um dos sentidos. Sobre o sentido comum e próprio e suas distinçoes. Acerca do saber pelo sentir e sobre a imaginação. Em doze capítulos.
Livro III (G)
Livro III: Acerca do número dos sentidos, do senso comum, da imaginação e disto que o intelecto discerne. Sobre o intelecto. Sobre a potência motora. Acerca das faculdades comuns a todos os seres animados. Em treze capítulos.
Comentários aos III livros do De anima de Aristóteles
Livro I (A)
Livro I: Acerca da dignidade, utilidade e dificuldade desta ciência que versa sobre a alma. As antigas opiniões sobre a natureza da alma. Sobre a unidade da alma com relação às opiniões propostas. Lições I a XIV, n. 1-210.
Livro II (B)
Livro II: Acerca da definição da alma, de suas potências, ordem à natureza. A potência vegetativa. Acerca da pontência sensitiva. O núumero dos sentidos. De casa um dos sentidos. Sobre o sentido comum e próprio e suas distinçoes. Acerca do saber pelo sentir e sobre a imaginação. Lições I a XXIV, n. 211-563.
Livro III (G)
Livro III: Acerca do número dos sentidos, do senso comum, da imaginação e disto que o intelecto discerne. Sobre o intelecto. Sobre a potência motora. Acerca das faculdades comuns a todos os seres animados. Lições I a XVIII, n. 564-874.
Alimento É o objeto da alma sensitiva [n.310], objeto da nutrição [n.340,343].
Alteração
Não é de lugar, mas no lugar [n.76], sendo dupla: a mutação por privação e por hábito [n.369].
Alma
Sua ciência e estudo pertencem à Filosofia da Natureza [n.23]; é movida e movente [n.33]; é incorpórea e sutil [nn.68,175]; se existisse num lugar não seria a forma da totalidade do corpo de que é forma [n.77]; é causa do movimento e do repouso do animal [n.89]; o seu movimento é voluntário [n.90]; se move pelo intelecto e pela vontade [n.90]; sua felicidade está no inteligir [n.127]; move-se a si mesma [n.145]; suas operações podem ser de tríplice gênero de movimento: próprio, menos próprio e minimamente próprio [n.157]; a nurição é o movimento próprio da operação vegetativa [n.158]; é ato primeiro do corpo físico orgânico [nn.233,241,253,271,320]; se une imediatamente ao corpo, enquanto é sua forma [n.234]; é primeiro princípio dos viventes e dos que são vivos [nn.253,264,271,273]; vegetal é princípio do crescimento e decrescimento [nn.258,328]; das plantas é uma em ato e múltiplas em potência [n.264]; das plantas não exige grande diversidade nas partes [nn.264,268]; é de algum modo tudo [nn.284,787-788]; é tríplice: vegetativa, sensitiva e racional [n.285]; o ato da vegetativa é a geração [n.310]; é princípio e causa da vida do corpo [n.318]; é princípio, causa e forma do corpo animado [n.319-323]; vegetativa é geradora de outra semelhante segundo a espécie [n.347]; sensitiva não é ato sensível, mas só potência [n.354]; vegetativa existe em todos os viventes que geram e corrompem [n.848].
Apetite
Inteligível é a inclinação às formas inteligíveis [n.286]; sensível é a inclinação às formas sensíveis [n.286]; natural é a inclinação que segue as formas naturais [n.286].
Beatitude da alma está no inteligir [n.127].
Conhecimento
é a semelhança da coisa conhecida no sujeito que a conhece [n.43,377].
Ciência
é perfeição do homem [n.3]; é boa e honorável [n.3]; é especulativa ou prática [n.3]; é acerca dos universais [n.375].
Corpo
é movido pela alma [n.145]; possui levidade e gravidade [n.147]; são naturais ou artificiais [n.218]; natural é mais substância do que o artificial [n.218,220]; possui vida alguns outros não [n.219]; possui três dimensões [n.530].
Corrupção
não é propriamente movimento, mas mutação [n.75]; é dupla: substancial e acidental e absoluta e relativa [n.365].
Definição notifica a essência da coisa [n.10]; possui princípio e fim [n.121].
Deus é ato puro, por sua essência intelige e é inteligido [n.726].
Figura é determinação da magnitude [n.577].
Forma
convém a qualquer corpo e a ele existe unida [n.130]; não é toda a natureza de que é parte, pois a natureza é a do composto [n.213]; difere a substancial da acidental [n.224,236]; artificial são acidentais [n.235]; que pertence à essência é significada pela definição [n.236]; é o princípio da espécie [n.332]; substancial não é por si sensível, mas só compreendida pelo intelecto [n.420].
Geração
não é propriamente movimento, mas mutação [n.75]; é ato da alma vegetativa [n.310,312].
Imaginação
não é presente em todos os animais [n.302]; e não é do mesmo modo em todos os animais que a possuem [n.302]. Vid Fantasia: é o nome tomado da visão o aparição [n.632]; a fantasia do sentido se distingue da do intelecto [n.632]; fantasia se distingue da opinião [n.633-635].
Individuação
da natureza comum nas coisas corporais e materiais é a matéria corporal contida sob determinadas dimensões [n.377].
Intelecto
é forma subsistente [n.21]; não é movente, senão só metaforicamente [n.160]; sua operação não é mutação [n.160]; possui potência apetitiva e apreensiva [n.162]; ou razão é o que de mais nobre e divino há na natureza [n.188]; não tem parte ou órgão corpóreo [n.200,207,294,377,687]; considera os universais [n.284,377]; é perfeição intrínseca da operação da natureza que o possui [n.301]; é virtude e força imaterial que não possui algum órgão corporal [n.377,687-688]; conhece diretamente a natureza ou a quididde da coisa [n.713,716]; inteligi-se a si mesmo e as coisas mediante a espécie delas [n.724]; não intelige sem fantasmas [n.772,791,854]; é potência receptiva de todas as formas inteligíveis [n.790]; conhece o bem em razão de sua natureza universal [n. 804]; e razão não são partes ou potências distintas da alma [n. 812]; conhece o verdadeiro e o falso [n. 793]; difere em especulativo e prático em relação ao fim [n.820]; é agente quando coloca todos os inteligíveis em ato [n.728.,730,739]; agente é próprio o abstrair [n.734]; agente participa de algum modo do intelecto das substâncias separadas [n.739]; passivo é reduzido ao ato pelas espécies das coisas sensíveis [n.85]; passivo está em potência aos inteligíveis [n.308]; passivo não é separado do corpo como uma substância separada [n.689-699]; passivo tem por operação receber os inteligíveis [n.734].
Inteligir
é o próprio ser da alma [n.17]; é operação da alma sem unir-se ao corpo por meio de algum órgão [n.150,622].
Matéria
difere da forma [n.215]; é dupla: sensível e inteligível [n.707]; primeira é potência com respeito às formas [n.405]; primeira não tem alguma ação por sua essência [n.725].
Movimento
é ato imperfeito [n.82,160,356,766]; é de quatro espécies: local, aumento, diminuição e alteração [n.75]; difere da operação [n.82,160]; do intelecto é a própria operação [n.286]; se encontra propriamente nas operações vegetativas e snsitivas [n. 159,766].
Natureza
de algo está em toda e qualquer parte [n.116]; da espécie está toda em qualquer indivíduo [n.116]; da espécie individua-se pela matéria [n.706]; comum é intenção universal se encontrada no intelecto [n.380].
Operação
é ato perfeito e difere de movimento [n.86]; do intelecto não é mutação [n.160]; da alma vegetativa é operação do vivente segundo o ser material [n.285,288]; vegetativa ordena-se à conservação do ser [n.285,300]; da alma é ato da potência ativa ou passiva [n.305].
Paixão
é dupla: própria e menos própria ou comumente [n.365-366].
Potência
vegetativa, sensitiva e intelectiva são na alma conforme o modo de sua operação [n.199]; da alma são cinco: nutritiva, sensitiva, motora, segundo o local, apetitiva e intelectiva [n.201,297]; se distingue segundo a diversidade de operação [n.281,667].
Saber
não é o mesmo que sentir [n.629]; difere pelo inteligir [n.629,672].
Sensível
pode ser por acidente, por si, próprio e comum [n.383,579-580], em ato e em potência [n.596].
Sentido
é potência receptiva de todas as formas sensíveis [n.790]; é sobre o particular [n.284,375,377,716]; não sente sem os sensíveis exteriores [n.354]; diversifica segundo a diferença dos sensíveis [n.394. 582-583]; é conhecimento das coisas só corpóreas [n. 416]; se move pelos sensíveis assim como o intelecto o faz pelos inteligíveis [n.770]; não pode sentir sem o sensível [n.772]; comum tem órgão próprio [n.611]; próprio se distingue segundo os sensíveis contrários [n.613].
Sentir
se diz das coisas animadas [n.32]; não é da parte da alma, mas do corpo [n.150]; é alguma paixão e alteração [n.393]; é algum conhecimento [n.675]; não é saber [n.629] e nem inteligir [n.630-631].
Ser
sensível é o que há entre a matéria e as suas condições individuais [n.284]; é segundo a forma [n.286]; natural é fundamento do ser sensível e do inteligível [n.310].
Substância
é o que há de completo em seu ser e em sua natureza [n.213]; se divide em matéria, forma e composto [n.215,221,275]; composta é algo individual [n.215].
Universal
é pela abstração da matéria corpórea e de suas condições individuais [n.377]; pode ser duplo: em si mesmo e sob a intenção de universalidade [n.378]; só existem na alma [n.380].
Uno
é tríplo: contínuo, específico e absolutamente indivisível [n.752-759].
Verdade é ato de compor o que no real existe de modo único ou composto [n.748].

“Mahoma fue un engañador que redactó un libro llamado Corán”: la imagen del Profeta en la filosofía de Ramón Llull (1232-1316)

Por  Ricardo da Costa

Conferência proferida na Universidad Autònoma de Madrid (UAM) no dia 17 de novembro de 2011 no Grupo de Pesquisa "Iglesia y legitimación del poder político. Guerra santa y cruzada en la Edad Media del occidente peninsular (1050-1250)" do Prof. Dr. Carlos de Ayala Martínez (UAM).

Resumo: O trabalho analisa como o filósofo Ramon Llull tratou pejorativamente de Maomé (c. 570-632) e do Alcorão em seus escritos, apresentando o Profeta como um homem impuro, endemoniado, epilético e enganador, e o Alcorão como uma obra confusa, enganosa e recheada de falsidades e canções luxuriosas. Para tal, valho-me dos tratados O Livro da Intenção (Llibre d'intenció, c. 1274-1283) e a Doctrina pueril (Doutrina para crianças, c. 1274-1276), dedicados ao seu filho Domingos, mas também do Liber de Passagio (O Livro da Passagem, 1292), do Liber de fine (O Livro Derradeiro, 1305) e do Liber de acquisitione Terrae sanctae (Livro sobre a aquisição da Terra Santa, 1309), obras cruzadísticas em que Llull analisou como a Cristandade poderia – e deveria necessariamente – recuperar a Terra Santa e converter os infiéis (muçulmanos); caso contrário, todos prestariam contas no Dia do Juízo Final. Para contextualizar historicamente o pensamento teológico-escatológico do filósofo catalão, apresento um afresco do pintor Giovanni da Modena (c. 1379-1455) e uma iluminura italiana do século XIV, imagens influenciadas pela passagem da Divina Comédia em que Dante (c. 1265-1321) coloca o Profeta Maomé no nono abismo do Inferno, junto com Ali, dilacerado por um demônio, entre os "semeadores de escândalo e cismáticos" (Inferno, Canto XXVIII, 22-63).

Abstract: The work examines how the philosopher Ramon Llull depicted of Muhammad (c. 570-632) and the Qur'an in his writings, showing the Prophet as a man unclean, possessed, epileptic and misleading, and the Qur'an as a work confusing, misleading and filled falsehoods and lusty songs. For that, I approach the treaties Llibre d'intenció (The Book of Intention, c. 1274-1283), Doctrina pueril (Doctrine for children, c. 1274-1276), dedicated to his son Dominic, but also the Liber de Passagio (The Book of the Passage, 1292), the Liber de fine (The Last Book, 1305) and the Liber de acquisitione Terrae sanctae (The Book of the Acquisition of the Holy Land, 1309), crusading works in which Llull examined how Christianity could – and should necessarily – recover the Holy Land to convert the infidels (Muslims); otherwise, everyone would be accountable on The Day of Judgment. To historically contextualize the theological and eschatological thought of the Catalan philosopher, I present one fresco by the painter Giovanni da Modena (c. 1379-1455) and a fourteenth-century Italian illumination, images influenced by the passage of the Divine Comedy where Dante (c. 1265-1321) depicts the Prophet Muhammad in the ninth pit of Hell, along with Ali (c. 600-661), torn by a demon, among the "sowers of scandal and schismatics" (Hell, XXVIII, 22-63).


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