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Os protestantes afirmam que, nos tempos de Lutero, a Igreja vendia aos mais abastados, lugares no Céu.

Cônego José Luiz Villac

Pergunta
"Os protestantes (luteranos) afirmam, em revista, que nos tempos de Lutero a Igreja vendia aos mais abastados lugares no Céu. Acusam-na e as autoridades eclesiásticas da época de serem `camelôs de indulgência'. É justa esta acusação? Como refutá-los?
"É difícil justificar a posiçäo de nossos irmäos separados de que o `Mandamento' da Igreja foi imposto pelo Divino Mestre só aos Doze Apóstolos e, conseqüentemente, à Igreja. Como convencê-los disso?"
Resposta
Todo pecado acarreta uma dupla conseqüência: uma culpa, que nos afasta da amizade de Deus, e uma pena temporal ou eterna que pune a infraçäo cometida.
O sacramento da Confissäo, ou o arrependimento perfeito,libera a alma daculpa, restabelecendo a amizade com Deus.
Mas nem sempre, ao menos totalmente, libera da pena temporal exigida pela suprema justiça e majestade de Deus e que nós pagaremos aqui nesta Terra ou na outra vida, no Purgatório.
Para remir o pecador dessa pena temporal, no todo ou em parte, a Igreja recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo o poder de utilizar para esse fim os méritos obtidos pela Sua Paixäo, bem como os méritos de Nossa Senhora e de todos os Santos.
Isto se baseia no Poder das Chaves comunicado a Pedro e à Igreja: "Eu te darei as chaves do Reino dos Céus; tudo o que ligares na Terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na Terra será desligado nos Céus" (Mt 16,19).
É também conseqüência da Comunhäo dos Santos, ou seja, a íntima uniäo que existe entre a Igreja Triunfante (os bem-aventurados no Céu), a Igreja Militante (os que ainda batalhamos nesta Terra) e a Igreja Padecente (as benditas almas do Purgatório).
Conforme ensina Säo Paulo, por misericórdia de Deus todos formamos um sóCorpo Místico, do qual Cristo Nosso Senhor é a cabeça enquanto nós somos os membros. Esse Corpo Místico de Cristo é a Santa Igreja Católica (Cfr. Rm. 12, 4s.; 1 Cor 12, 12-27; Ef 1, 23; 5, 23-29; Col. 1, 18-24; 2, 19 etc.).
Entäo podemos rezar uns pelos outros e participar, através da Igreja, dos méritos do Redentor e dos Santos.
Esta é a base da concessäo pela Igreja das chamadas indulgências.
 Urna de prata que contém os restos mortais do Apóstolo São Tiago, na Basílica de Santiago de Compostela, diante dos quais peregrinos rezam, sendo favorecidos por indulgências.
A indulgência é a remissäo, diante de Deus, da pena temporal devida pelos pecados já perdoados quanto à culpa, remissäo que a autoridade eclesiástica, tomando-a do tesouro da Igreja, concede aos vivos à maneira de absolviçäo, e aos defuntos a modo de sufrágio.
Como se vê, tal doutrina nada tem a ver com a acusaçäo ridícula de que a Igreja "vendia lugares no Céu".
Quanto a terem havido abusos, por parte de pregadores inescrupulosos ou ignorantes, isto pode acontecer com as coisas mais santas neste vale de lágrimas. E a própria Igreja, no Concílio de Trento, condenou toda espécie de abusos ou falsas concepçöes a respeito das indulgências.
Mas os protestantes, a começar por Lutero, serviram-se desses possíveis e esporádicos abusos para combater a própria doutrina das indulgências, ou seja, o poder de a Igreja distribuir e aplicar, por sua autoridade, os méritos adquiridos por Nosso Senhor Jesus Cristo e pelos Santos para mitigar a pena temporal devida por nossos pecados.
Essa prática a Igreja utilizou desde seu início, estando ela ligada a certas formas piedosas de devoçäo: romarias, cruzadas, oraçöes, sacrifícios, esmolas, etc.
A condiçäo básica para receber indulgências, convém lembrar novamente, é estar em estado de graça, na amizade de Deus.
Quanto à negaçäo dos protestantes de que Cristo constituiu um Colégio Apostólico, ao qual conferiu poderes especiais de ensinar, santificar e governar, muito resumidamente pode-se dizer o seguinte:
Os Evangelistas narram a escolha feita por Jesus de 12 entre os discípulos, a quem deu o nome de Apóstolos (Mt 10, 2-4; Mc 3, 13-19; Lc 6, 13,16). Ele os instruiu de maneira particular e os associou à sua obra, mandando-lhes que pregassem o reino de Deus (Mt 10, 5-42; Mc 6, 7-13; Lc 9, 1-6).
 As peregrinações a Santiago de Compostela, na Espanha, cuja majestosa Basílica vê-se na fotografia acima, foram beneficiadas há séculos por indulgências concedidas pela Igreja
O texto mais eloqüente relativo ao Colégio Apostólico (que continua na Igreja através do Papa e dos Bispos, sucessores dos Apóstolos) é talvez o de Säo Mateus, ao fim de seu Evangelho, referido também pelos demais Evangelistas (Mt 28, 16-20; Mc 16, 14-18; Lc 24, 36-49; Jo 20, 19-23):
"Os 12 discípulos foram para a Galiléia, para

Qual foi o verdadeiro motivo que fez Martin Lutero se revoltar contra a Igreja?

Pergunta
1- Qual foi o verdadeiro motivo que fez Martin Lutero se revoltar contra a Igreja?Segundo a História, foi porque ele era contra o luxo do Vaticano. O que a Igreja pensa sobre isso?
2- O que acontece com a alma daqueles que nasceram com graves deficiências mentais, ou que vieram a adquiri-las posteriormente, que impossibilitam qualquer discernimento quanto aos atos praticados durante suas vidas? Que destino têm suas almas? Como ficarão no Juízo Final?
Resposta:
1. A afirmação de que Lutero revoltou-se contra a Igreja por ter-se escandalizado com o luxo do Vaticano, não é historicamente correta. Na realidade, tal revolta pode ser explicada – ademais de fatores preternaturais que não podem ser descartados, provenientes de uma violenta ação diabólica contra a Santa Igreja Católica – também por fatores psicológiscos como o temperamento exaltado e insubmisso, e o voto inconsiderado que fez Lutero de tornar-se religioso (por medo e não por vocação autêntica, ao que tudo indica) e, finalmente, pela má formação filosófica e teológica que recebeu, afetada de erros que já haviam sido condenados.
Com efeito, Lutero reeditou erros do inglês Wiclef, do checo Jan Huss e das heresias medievais que defendiam uma Igreja dos Santos, puramente carismática e sem Hierarquia.
Esplendor do Vaticano
Em relação ao esplendor do Vaticano, é preciso como premissa considerar que Deus deve ser louvado com magnificência e seu culto deve necessariamente refletir a infinita grandeza e santidade divinas. Por ordem expressa de Deus, já no Antigo Testamento, Salomão construiu o Templo com o máximo de riqueza, não somente empregando madeiras preciosas, mas utilizando ainda verdadeira profusão de ouro.
Assim, lemos no Iº Livro dos Reis:
"Mandou revestir de ouro todo o Templo, de cima a baixo; mandou recobrir de ouro também todo o altar destinado ao recinto dos fundos.
"No recinto dos fundos o Rei mandou fazer de madeira de oliveira brava dois querubins, cada um com cinco metros de altura. Uma asa do querubim media dois metros e meio e outros tantos media sua segunda asa, de modo que entre uma e outra extremidade das asas havia cinco metros. Também o segundo querubim tinha cinco metros, de modo que os dois querubins tinham a mesma dimensão e aparência: a altura dos dois querubins era de cinco metros. Estes querubins, Salomão os colocou no meio do recinto interno; eles tinham as asas desdobradas, de modo que a asa de um tocava numa parede e a do outro tocava na outra parede, e no meio do recinto a asa de um encostava na do outro. Salomão mandou revesti-los de ouro.
“Mandara cobrir de baixos-relevos esculpidos, representando querubins, palmeiras e grinaldas de flores entreabertas, todo o âmbito das paredes do Templo, por dentro e por fora. Também o pavimento do Templo, revestiu-o de ouro por dentro e por fora.
“Na entrada para o recinto dos fundos mandou fabricar batentes de portas de madeira de oliveira brava, formando a padieira e o umbral a quinta parte da porta.Quanto às duas folhas da porta de madeira de oliveira brava, mandou esculpir nelas baixos-relevos com querubins, palmeiras e grinaldas de flores entreabertas e revesti-las de ouro; aplicou as folhas de ouro batido nos querubins e nas palmeiras.Do mesmo modo, fez para a entrada do recinto central umbrais de madeira de oliveira brava, formando um quarto do conjunto. Fez igualmente duas folhas de madeira de junípero; pôs duas almofadas giráveis numa das folhas da porta e duas almofadas giráveis na outra folha. Nas folhas mandou esculpir baixos-relevos de querubins, palmeiras e grinaldas de flores entreabertas, revestindo-os de ouro bem ajustado sobre os relevos.
“Salomão ainda construiu o muro do pátio interno com três carreiras de pedra esquadriadas e uma carreira de barrotes de cedro.
“No ano quarto, no mês de Ziv, tinham sido lançados os fundamentos da casa do Senhor, e no ano 11, no mês de Bul, que corresponde ao oitavo mês, estava terminada a casa, de acordo com todos os planos e requisitos. Salomão a levantou em sete anos."
Luxo a serviço de Deus
Como vemos, o luxo a serviço do louvor de Deus não somente não é condenável, mas é virtuoso e desejado por Ele mesmo. A riqueza e esplendor dos templos ajudam-nos a compreender melhor a beleza e a grandeza divinas, predicados de sua santidade sem limites. E é um tributo que a criatura presta ao Criador e Soberano Senhor de todas as coisas, de todas as riquezas, de tudo o que existe.
Os protestantes e os anticlericais que falam contra essa riqueza dos templos são, no fundo, igualitários com tendências socialistas e miserabilistas, como mostrou, aliás, o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em sua obra máxima Revolução e Contra Revolução.
Em relação aos protestantes, não devemos nos deixar enredar por seus sofismas e pretender rebater acusação por acusação, mas rejeitar em bloco sua doutrina – a do Livre Exame – segundo o qual cada um pode interpretar a Bíblia como bem entenda, e que não é preciso um magistério autêntico e uma autoridade instituída por Deus para ensinar, santificar e governar o povo fiel.
2- Como ensina a Doutrina Católica, toda pessoa é julgada moralmente pelos atos que praticou livremente e com pleno conhecimento de causa. Assim sendo, as pessoas que nasceram com graves deficiências mentais ou vieram a adquiri-las posteriormente, serão julgadas por Deus de acordo com a responsabilidade que tiveram por seu atos.
Se uma pessoa nasceu e viveu sem o uso das faculdades mentais, por demência, ou alguma outra anormalidade patológica, devemos considerá-la na mesma situação das crianças que morrem antes de atingir o uso da razão. Se elas foram batizadas, irão para o Céu; se não o foram, irão para o Limbo. Este é um estado e um lugar de felicidade natural perfeita, onde não se goza, entretanto, da visão beatifica de Deus e da felicidade sobrenatural da vida gloriosa do Céu.
Dementes não de nascimento
Quanto às pessoas que adquiriram a demência total depois de um período de lucidez -- por exemplo, um adolescente ou adulto que, em virtude de doenças ou acidente, perderam o uso da razão --, serão elas julgadas pelo que fizeram de virtuoso ou pecaminoso, no período anterior a esse novo estado de deficiência mental.
Entre a completa loucura e a plena lucidez, há estados intermediários, que, nos doentes mentais, é difícil de determinar. Mas Deus julga tudo com sua infinita sabedoria, justiça e misericórdia.
É bem evidente que após a morte cessam todas as enfermidades, mesmo as mentais, e quer a pessoa vá para o Céu, o Limbo ou o Inferno, nessa nova condição -- da vida eterna -- ela terá plena lucidez e uso das faculdades mentais.
Juízo Particular
O estado futuro da pessoa é decidido imediatamente após a morte, quando há o julgamento particular. As almas dos que morreram na amizade de Deus e com todas suas dívidas para com Deus saldadas, vão imediatamente para o Céu.Aquelas que têm pecados veniais ou não fizeram penitência suficiente pela pena devida aos pecados perdoados quanto à culpa, vão para o Purgatório por um tempo que varia de acordo com a necessidade de purgação. Por fim, aqueles que morrem na inimizade de Deus, em estado de pecado mortal, vão para o inferno eterno.
Juízo Final
Assim, tão logo morre, a pessoa já é julgada individualmente e a alma toma o seu destino eterno (juízo particular). Quando houver o Juízo Final, no fim dos tempos, haverá a ressurreição dos corpos e dar-se-á a nova e definitiva união da mesma alma e do mesmo corpo, ou para a felicidade sobrenatural, beatifica e eterna no Céu, ou para a felicidade natural no Limbo, ou para a terrível infelicidade sem remissão no Inferno.
Que Deus, pela intercessão de nossa Mãe bondosíssima, nos conceda as graças necessárias para que sejamos fiéis até o fim de nossa vida, e possamos gozar da bem-aventurança eterna.
“Creio na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém!”

As três Revoluções: etapas da destruição da Cristandade medieval

Apresentamos a seguir aos leitores excertos da conclusão da conferência do Prof.Plinio Corrêa de Oliveira, cuja primeira parte publicamos na edição de março sob o título "Idade Média: caluniada por ser realização da Cristandade na História"
Após a descrição da ordem medieval, torna-se muito mais fácil a exposição das Três Revoluções, ressaltando melhor o nexo existente entre elas.
Quando estudamos a Idade Média, verificamos que ela teve altos e baixos, que foram superados; e crises de orgulho e sensualidade, também dominadas.
Entre essas crises está a do séc. XIII, quando Nosso Senhor suscitou a Ordem dos Franciscanos, que praticava em grau exímio a humildade e a pureza. Suscitou a Ordem dos Dominicanos, para pregar essas mesmas virtudes num terreno mais intelectual. São Francisco, São Domingos, Santo Tomás de Aquino, São Boaventura, e tantos outros santos dessas Ordens, foram luzeiros que repeliram a maré montante do orgulho, da sensualidade e das heresias, salvando assim a Idade Média.
Por essas ou aquelas razões, no séc. XV o orgulho e a sensualidade cresceram de novo, de modo imenso, talvez sem precedentes. E não apareceram mais santos para apregoar a necessidade de uma reforma de costumes, para dar nova vida à pureza e à humildade, para pregar com o calor e o êxito de São Domingos, São Francisco e outros santos, que conseguiram desviar o curso das coisas na sociedade inteira.
O resultado foi que se levantou um santo, São Vicente Ferrer, que começou a pregar que estava próximo o fim do mundo, que ele era o anjo predito pelo Apocalipse para anunciar toda uma série de catástrofes. E as catástrofes de fato começaram no séc. XVI, com o Protestantismo.

1ª Revolução 

O protestantismo: revolução religiosa provocada pelo orgulho e a sensualidade.
A Igreja Católica, segundo ensinamento de São Pio X, é uma Igreja de desiguais.Uns foram instituídos para ensinar, governar e santificar. E outros para serem ensinados, governados e santificados. Estes últimos são os leigos. (cfr. EncíclicaVehementer, de 11-2-1906)
Nesta sociedade de desiguais há uma hierarquia: Cardeais, Arcebispos, Bispos, cônegos, párocos e coadjutores. Em baixo, o povo fiel, que está para a Igreja, como a plebe para a sociedade civil.
O protestantismo nega a autoridade doutrinária da Hierarquia eclesiástica. Cada qual tem o direito de interpretar a Bíblia como quer. A partir desse momento deixa de haver hierarquia. Todas as seitas protestantes têm esse denominador comum igualitário: não há mestres para interpretar o Evangelho, cada um é mestre de si mesmo.
Elas negaram o monarca da Igreja Católica, o Papa, exceto os anglicanos, que reconhecem ao Papa um vago primado de honra, mas não jurídico.  Na seita protestante anglicana continuaram os arcebispos, bispos, certos dignitários eclesiásticos à maneira de cônegos, párocos, coadjutores.
A seita luterana também admite esses graus. Mas Calvino, que foi um heresiarca pouco posterior a Lutero, negou os Arcebispos e Bispos, admitindo apenas os padres; são os chamados presbiterianos.
Surgiu depois uma outra seita, a dos niveladores, também conhecidos porquackers, que não admitiam sequer os padres. Ficaram abolidos todos os graus, restando apenas o povo. É uma hierarquia que se destruiu.
Dentro das próprias seitas protestantes esse trabalho de demolição continuou.Na igreja anglicana como na luterana, a autoridade dos  homens que continuaram a se dizer bispos e arcebispos foi reduzida a quase a zero. Não tem comparação com a autoridade de um Bispo católico. Os bispos anglicanos não passam de figuras decorativas. O título ainda existe, mas nada significa. Também entre os presbiterianos o título de padre, de ministro, ainda existe, mas quase nada significa. Eles não têm autoridade doutrinária sobre seus fiéis.
Esse movimento igualitário não ficou apenas dentro do protestantismo, mas tentou penetrar várias vezes na Igreja Católica. E acabou penetrando e triunfando por meio do progressismo, que quer reduzir a Igreja a uma república, em que o povo fiel tem o direito soberano de mandar, e o Papa e os bispos fazerem o que o povo quer. Portanto, o contrário da organização hierárquica que estudamos; no fundo não haveria governo, seria a anarquia, o fim da Igreja.
Os protestantes acabaram com as ordens religiosas. Confiscaram, saquearam, fecharam. Algumas se mantiveram na aparência, mas com um ar de mero pensionato. O estado religioso desapareceu nas seitas protestantes. Toda a hierarquia eclesiástica começou a sofrer uma corrosão, cujo termo último é o progressismo em nossos dias.
Tendência igualitária atinge o plano político.
Em meados do século XVII houve uma primeira manifestação de igualitarismo político: a revolução inglesa, chefiada por Cromwell, mandou decapitar o rei Carlos I, proclamou a república na Inglaterra, e virtualmente aboliu os títulos de nobreza. A seita de Cromwell não admitia desigualdades religiosas; e, coerentemente, insurgiu-se também contra as desigualdades civis. Porque, se alguém odeia toda desigualdade por causa do orgulho, este se molesta tanto com a desigualdade civil quanto com a religiosa, e acaba se atirando contra ambas.
A revolução inglesa foi relativamente efêmera. Morto Cromwell, seu filho governou muito pouco tempo e veio logo o restabelecimento da monarquia,  com o rei Carlos II.
Mas essa tendência igualitária na ordem política explodiu sobretudo na França, país que fora fortemente trabalhado pelo protestantismo. No século XVI grande parte da França tornou-se protestante. Se não fosse o auxílio de Felipe II, Rei da Espanha, e a intervenção dos Papas, a França ter-se-ia tornado protestante. 
Em seu aspecto religioso, a Revolução manifestou-se então na   heresia jansenista, que foi uma forma larvada de protestantismo. Depois vieram os   enciclopedistas, que primeiramente se diziam deístas, só acreditando em Deus.Depois declararam-se ateus.
Foi nos meios enciclopedistas que se gerou, sobretudo através de  Rousseau, a doutrina da igualdade civil completa e do contrato social. A idéia de Rousseau é que os homens eram felizes quando viviam em anarquia, na natureza. A civilização foi um mal e a sociedade nasceu de um contrato estabelecido entre os homens. O povo seria então o verdadeiro soberano e a verdadeira lei a da igualdade.

2ª Revolução 

Revolução Francesa: na ordem civil, ação análoga à do protestantismo
Essa doutrina social dos enciclopedistas degenerou em idéias políticas, que se propagaram  na França, dando origem, em 1789, à Revolução Francesa. Esta fez, na ordem civil, aquilo que o protestantismo fizera na ordem espiritual.
Levados pelo orgulho, pelo igualitarismo, os republicanos franceses - muito coadjuvados pelos protestantes - proclamaram a república e aboliram  os títulos de nobreza. Mais ainda. Sendo a França um país católico, promulgaram uma lei que visava obrigar a Igreja Católica a aceitar a mentalidade e a estrutura de uma Igreja protestante.
De acordo com essa Constituição Civil do Clero, a Igreja da França ficava independente de Roma. E os cargos eclesiásticos - como os de Arcebispos, Bispos, etc. - tornavam-se mais ou menos eletivos, introduzindo o republicanismo na Igreja. Como os padres católicos, na sua imensa maioria, não aceitaram essa lei, a Revolução Francesa proibiu o funcionamento da verdadeira Igreja Católica na França.
Isto mostra como a Revolução Francesa é o outro lado da medalha da Revolução Protestante. Ela proveio de protestantes antigos e tentou implantar na França um neoprotestantismo.
Ainda segundo os ideólogos da mesma Revolução, sendo os homens iguais perante a lei, são também iguais politicamente. E declaravam que a monarquia era o furto do poder do povo em benefício de uma família, e a aristocracia o furto do poder político em benefício de um grupo de famílias. E concluíam que a única ordem de coisas moral e legítima é a ordem igualitária e popular.
Resultado: quando a Revolução Francesa estava no seu declínio, mostrou-se quase comunista: editou leis contra as propriedades, perseguiu os ricos, etc. Não chegou a declarar formalmente abolida a propriedade privada, mas os discursos dos deputados jacobinos contra a mesma, nessa fase, eram tipicamente comunistas. E logo depois houve a revolução de Babeuf, declaradamente comunista, para implantar a propriedade coletiva.

3ª Revolução 

Marx: igualitarismo quanto à propriedade privada - o comunismo
Mesmo depois de extinta a Revolução Francesa, continuou a haver pela Europa um número enorme de pessoas que se diziam favoráveis à propriedade coletiva, com base no princípio da igualdade: se os homens são iguais em tudo, têm que sê-lo também em fortuna.
Quando Marx publicou seu Manifesto em 1848, o número desses socialistas chamados utópicos era bem grande na Europa, os quais já haviam tentado várias revoluções. Marx deu uma formulação e uma organização a essas tendências, surgindo então o comunismo, último surto da igualdade que derrubou o poder restante. E da velha estrutura medieval nada mais restou.
Os senhores têm aí as Três Revoluções que se consumaram. É o apogeu do orgulho que chegou à plenitude do igualitarismo.
Do exposto resulta claro o nexo profundo que existe entre a primeira Revolução, que é a Revolução Protestante, e a última, que é a Revolução Comunista.

4ª Revolução que nasce 

O último esboroamento: a revolução anarquista após o comunismo
Poder-se-ia ainda acrescentar mais algo. O comunismo parece o termo final, mas dentro dele ainda há um esboroamento.
Os comunistas tipo Marx, Lenine, Stalin e outros reconheciam que o Estado, o Poder Público com sua máquina, sua administração, etc., ainda era um resto de desigualdade. E deveria vir o dia em que não existiria mais o Poder Público, todas as autoridades seriam supressas e haveria apenas cooperativas, e nada mais.
Esse é o objetivo da revolução marcusiana, a revolução hippie, que é anarquista e visa suprimir até o Estado. Eis o último esboroamento que dentro do comunismo ainda se pode dar.
Papel da sensualidade nessa tríplice Revolução
O protestantismo estabeleceu o divórcio, que é uma satisfação ao instinto desregrado da sensualidade, acabando com a monogamia. Pois o que é o divórcio, se não a poligamia a prestações?
Lutero aliás - e esse documento se descobriu muito tempo após sua morte e nem mesmo os protestantes o negam - autorizou o landgrave de Hasse, na Alemanha a ter mais de uma esposa ao mesmo tempo. Esse nobre escreveu uma carta a Lutero e a outros corifeus do luteranismo, explicando que ele tinha de viajar muito - nuns estadinhos comparáveis a pequenos municípios brasileiros - para administrá-los, e que ficava muito caro deslocar-se com a princesa, porque, de acordo com os protocolos do tempo, esta precisava ir com um séquito, etc. De um lado, não podia levar a sua esposa, mas de outro, era muito duro permanecer sozinho durante as viagens. Não via outro meio senão ter uma esposa suplementar.
Lutero, que necessitava muito dele naquela ocasião para defender-se contra a investida política dos católicos, redigiu e assinou, juntamente com vários outros teólogos protestantes de Wittemberg, um documento - ao qual o Pe. Leonel Franca S.J. alude em sua obra A Igreja, a Reforma e a Civilização (**) - autorizando-o a prática da bigamia, "contanto que o caso se mantivesse secreto". Mas, no rigor de sua doutrina, isso era permitido e ele mesmo contraiu um pseudo-casamento com uma ex-freira.
O protestantismo acabou com o celibato sacerdotal, conseqüência forçosa da explosão sensual.
Além disso, generalizou-se no mundo inteiro uma tolerância para com a impureza e uma intolerância pelo contrário. Ou seja, a idéia de que o homem  tem o direito de cometer o pecado de impureza, não é condenável. Pelo contrário, o homem casto é um atrofiado, um cretino, um complexado, quando não um homossexual. Todos já ouviram zumbir essa infâmias em torno de si e, quando eu era menino, elas já eram velhas.
Tal erro estabeleceu uma tolerância para com a prostituição.   Porque quem diz que o homem não peca procurando uma prostituta, não pode achar que a prostituta peca entregando-se ao homem. Que sincera condenação da prostituição propugnará um homem que acha que pode procurar a prostituta?
Pior ainda: depois de casado, habituar-se-á ele à fidelidade conjugal? Quem se habituou à pluralidade e à fantasia das relações sexuais, poderá depois habituar-se à fidelidade conjugal? Que ascese precisará ter para ser fiel!
Pelo argumento da igualdade de direitos entre o homem e a mulher, se a impureza é lícita ao homem, também o será à mulher. O igualitarismo leva assim a uma autorização do amor livre para ambos os sexos. O divórcio gerou o amor livre; a sensualidade, muitas vezes, gerou o amor livre sem passar pelo divórcio.
O que visa o comunismo em matéria de casamento? É o amor livre. Se se pode dizer, em alguma medida, que o divórcio é a condição de casamento própria ao mundo posterior à Revolução Francesa, pode-se dizer que o amor livre é a condição de casamento, de relação entre os sexos, própria ao comunismo.
Vamos mais longe. Porque a partir do momento em que se permite o amor livre entre homens e mulheres, ele também deverá ser permitido entre pessoas do mesmo sexo, porque é esse o amor livre em toda a sua força. Há de chegar o momento, desejado pelos marcusianos e pelos anarquistas, do nudismo total e da inteira total liberdade de relações sexuais, como entre os animais.
Falei do nudismo. Não vamos caminhando para lá também? A exigüidade cada vez maior dos trajes não caminha para o nudismo? Onde estamos? Estamos, pois, na apoteose do orgulho e da sensualidade, nas vésperas da anarquia total, se Nossa Senhora não intervier, tendo pena do mundo.
Do reino da Revolução ao Reino de Maria
Os homens que representavam a ordem medieval pecaram de mil modos, inclusive por moleza. Essa ordem foi destruída: no comunismo, radicalmente; no que resta de países não comunistas, quase até suas últimas fímbrias.
Por causa daquela idéia da perenidade do poder de Jesus Cristo, da realeza de Cristo na Terra, acredito que esse triunfo da Revolução não poderá realizar-se completamente. E que haverá a implantação de uma ordem de coisas que vai ser o contrário de tudo isto.
De um extremo se volta ao outro extremo. No relógio, quando o pêndulo chega até um extremo, ele volta depois ao outro lado. Nós, do mesmo modo, vamos passar do reino da Revolução ao Reino de Maria.
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Cfr. A Igreja, a Reforma e a Civilização, Indústria Tipográfica Romana,Roma, 1923, p.p. 451 e 452
(*) - Este é o título original de conferências que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira pronunciou a partir da década de 40. Ao repetir a mesma exposição para sócios e cooperadores da TFP em 25 de março de 1965, o orador, discernindo uma 4ª etapa, então nascente, do processo revolucionário, denunciou a revolução anarquista hippie.