Por
Edward Feser
Eu tinha a intenção de incluir no primeiro capítulo do meu
livro, Aquinas: a Beginner's Guide, um breve resumo da história do
tomismo, mas, no final das contas, o livro acabou ficando longo demais, e, uma
vez que a seção em questão não se encaixava perfeitamente no capítulo, meu
editor e eu decidimos cortá-la. Ainda assim, podendo ser útil para os leitores
à procura de um resumo rápido sobre a variedade (muitas vezes confusa) de
escolas de pensamento que se desenvolveram dentro da tradição tomista,
apresento-o aqui. O texto começa um pouco abruptamente, pois deveria aparecer
imediatamente após a seção sobre "a vida de Tomás de Aquino e
funciona", e remete a algumas questões levantadas ali. Eu o dividi em duas
partes: a primeira aborda a história do tomismo até meados do século XX e a
segunda parte cobrirá tomismo analítico, oferecendo algumas recomendações para
outras leituras.
A controvérsia sobre aristotelismo não acabou com o trabalho
de Tomás de Aquino, muito menos com a sua morte. Em 1270, enquanto Santo Tomás
ainda estava vivo, Stephen Tempier, o bispo de Paris, havia condenado várias
proposições associadas averroísmo, embora entre elas não houvesse qualquer tese
defendida pelo Aquinate. Depois de sua morte, contudo, em 1277, Tempier
condenou 219 proposições, algumas das quais eram claramente encontradas em
Santo Tomás. Isso levou Santo Alberto Magno a Paris para defender seu ex-aluno,
ao mesmo tempo que outros dominicanos também se lançaram à tarefa de defender a
doutrina de seu irmão da Ordem dos Pregadores. Na verdade, o estudo de Santo
Tomás tornaria-se obrigatório dentro da ordem. A defesa dominicana e a
consolidação do ensinamento de Santo Tomás, que começaram logo após a sua
morte, às vezes são tomadas pelos historiadores como início do primeiro dos
três períodos na história do tomismo. Que ela foi uma empreitada bem-sucedida
torna-se evidente pelos fatos de Tomás de Aquino ser declarado santo pelo Papa
João XXII em 1323, e de dois anos depois, em 1325, as condenações Tempier de
1277 terem sido revogadas pelo seu sucessor.
Da mesma maneira que os dominicanos em geral haviam
defendido Santo Tomas, os membros da ordem franciscana estavam entre os seus
mais ferozes críticos. A rivalidade entre as duas ordens se tornariam ainda mais
amargo com a influência dos pensadores franciscanos João Duns Scoto (1266-1308)
e Guilherme de Ockham (1287-1347). Scoto e Ockham tendiam para o voluntarismo,
que enfatiza a vontade de Deus sobre o Seu intelecto e, portanto, torna Suas
ações mais impenetráveis para nossa compreensão racional do que o são na visão
de Santo Tomás. Ockham é notoriamente associado ao nominalismo, que nega a
existência dos universais. Do ponto de vista tomista, essas doutrinas ameaçavam
minar a inteligibilidade do mundo e os fundamentos racionais da ética e do
nosso conhecimento de Deus. As posições do Aquinate foram habilmente defendidas
pelas teses similares de João Capreolo (1380-1444), que ficou conhecido como Princeps
Thomistarumor, o Primeiro dos Tomistas.
O segundo período na história do tomismo tem seu início às
vezes datado aproximadamente na época da Reforma protestante e do Concílio de
Trento (1545-1563), que foi convocado em reação a Reforma. Tomás de Vio, também
conhecido como o Cardeal Caetano (1469-1534), produziu um comentário importante
sobre a Suma Teológica que exerceria uma influência decisiva sobre a
compreensão geral das doutrinas de Santo Tomás. A ênfase de Caetano na
continuidade com as posições de Santo Tomás foi seguida pelos comentaristas
posteriores, como Domingos Báñez (1528-1604) e João Poinsot (1589-1644), que
viria a ser conhecido como João de Santo Tomás. Isto contrastou com a tendência
dos pensadores da nova ordem jesuíta, como Luís de Molina (1535-1600) e
Francisco Suárez (1548-1617), de combinar o pensamento de Tomás de Aquino com
vários elementos não-tomista. Essas tendências diferentes, grosseiramente
associadas aos dominicanos e jesuítas, respectivamente, deram origem às
disputas doutrinárias por vezes calorosas, sendo a mais famosa a controvérsia
sobre a graça, o livre-arbítrio e a presciência divina.
A filosofia antiga e medieval em geral, e o tomismo em
particular, enfatizava a metafísica sobre epistemologia, e a realidade objetiva
sobre a nossa consciência subjetiva dela. A ordem correta de investigação,
desde esse ponto de vista, é primeiro determinar a natureza do mundo e o lugar
dos seres humanos dentro dele, para então, nessa base, investigar como os seres
humanos adquirem o conhecimento do mundo. A filosofia moderna, começando com René
Descartes (1596-1650), inverte essa abordagem, tendendo a começar com perguntas
a respeito de como podemos ter conhecimento do mundo, e só então passar a
considerar o mundo como tal, baseada em nosso conhecimento sobre ele. Em
particular, tanto o racionalismo de Descartes quanto o empirismo de escritores
como Locke, Berkeley e Hume, começam
com o sujeito individual consciente ou o Eu, desenvolvem uma teoria sobre como
esse Eu pode saber alguma coisa, e então determinam o que deve ser a realidade
em geral, de acordo com as suas respectivas teorias do conhecimento.
Um dos resultados desse método subjetivista foi
problematizar a realidade objetiva e senso comum de uma forma que não havia
sido para Aristóteles e Tomás de Aquino. Dessa maneira, o ceticismo começou a
parecer uma ameaça séria, e o idealismo (a visão de que o mundo material é uma
ilusão e que só a mente em si é real) também se colocou como uma opção séria.
Outra conseqüência foi que, mesmo quando algum tipo de realidade objetiva era
reconhecida, eram levantadas dúvidas sobre a possibilidade de conhece-la além
do que os sentidos podiam nos dizer diretamente. Assim, os grandes sistemas
metafísicos, do tipo apresentado por Platão, Aristóteles e Tomás de Aquino,
foram colocados em dúvida. A filosofia de Emmanuel Kant (1724-1804) foi uma
expressão especialmente influente da hostilidade à metafísica tradicional, ao
distinguir entre "fenômenos" (o mundo como ele aparece para nós, dos
quais podemos ter conhecimento) e "noumena" (o mundo como ele
existe em si, que não podemos conhecer).
Tomistas do século XIX, como Joseph Kleutgen (1811-1883),
tentaram reavivar a tradição aristotélico-tomista em face destes
desenvolvimentos modernos, e seus esforços foram amplamente auxiliados pela
encíclica Aeterni Patris (1879), do Papa Leão XIII, que clamava por uma
renovação do tomismo e da filosofia escolástica em geral. O resultado foi um
movimento neo-tomista e neo-escolástico, que marcou uma terceira fase na
história do tomismo, dominando o pensamento católico romano até o Concílio
Vaticano II (1962-65), e que tem influenciado significativamente a compreensão
moderna do pensamento de Santo Tomás até os dias de hoje. Várias das escolas de
pensamento que se descrevem como "tomista" se desenvolveram ao longo do
século passado, cada uma representando uma resposta diferente aos temas e
pressupostos característicos da filosofia moderna. Uma vez que tiveram uma
influência tão profunda no debate contemporâneo sobre o pensamento de Santo
Tomás, valerá a pena descrever brevemente as principais posições:
1. O neo-tomismo escolástico: tendência dominante no tomismo
durante as primeiras décadas após o renascimento provocado pela encíclica de
Leão XIII, essa abordagem se reflete em muitos dos manuais e livros didáticos
amplamente utilizados em colégios católicos e seminários antes do Concílio
Vaticano II. Devido a sua ênfase em seguir a tradição interpretativa dos
grandes comentadores de Santo Tomás (como Capreolo, Caetano e João de Santo
Tomás) e a sua desconfiança das tentativas de sintetizar o tomismo com
categorias e pressupostos não-tomistas, ela também tem sido por vezes rotulada
como "tomismo de estrita observância". Ademais, seu foco era menos
sobre a exegese histórica dos textos do Aquinate do que sobre a execução do
programa de desenvolvimento de um sistema rigorosamente trabalhado da
metafísica tomista numa crítica geral da filosofia moderna. Sua fé filosófica
central está resumida nas famosas "Vinte e quatro teses tomistas"
aprovadas pelo Papa Pio X. Reginald Garrigou-Lagrange (1877-1964) talvez seja o
seu maior representante.
2. Tomismo existencial: Etienne Gilson (1884-1978), o
principal proponente dessa abordagem do tomismo, enfatizava a importância da
exegese histórica, mas também tirava a ênfase na continuidade do Aquinate com a
tradição aristotélica, destacando ao invés a originalidade de sua doutrina do
ser ou da existência. Ele também criticou o foco dos neo-escolásticos na
tradição dos comentadores, e dado aquilo que ele considerava como sua ênfase
insuficiente sobre o ser ou a existência, acusou-os de
"essencialismo" (para aludir a outra metade da distinção de Santo
Tomás entre o ser e a essência). A leitura de Santo Tomás feita por Gilson, ao
apresentar uma distinta "filosofia cristã" tendia, pelo menos na
visão de seus críticos, a embaçar a distinção de Santo Tomás entre a filosofia
e a teologia. Jacques Maritain (1882-1973) introduziu na metafísica tomista a
noção de que a reflexão filosófica começa com uma "intuição do ser",
e na ética e na filosofia social, procurou harmonizar tomismo com o
personalismo e com a democracia pluralista. Apesar de o "tomismo
existencial" ser por vezes apresentado como um contraponto ao
existencialismo moderno, a razão principal para a etiqueta “existencial” é a
ênfase que esta abordagem coloca na doutrina da existência de Santo Tomás.
Proponentes contemporâneos incluem Joseph Owens e John F. X. Knasas.
3. Tomismo de Laval ou Forest River: Esta corrente enfatiza
os fundamentos aristotélicos da filosofia de Santo Tomás, em particular a idéia
de que a construção de uma metafísica coerente deva ser precedida por uma
sólida compreensão da ciência natural, tal como interpretada à luz de uma
filosofia aristotélica da natureza. Dessa forma, ela faz questão de mostrar que
às ciências físicas modernas pode e deve
ser dada tal interpretação. Charles De Koninck (1906-1965), James A. Weisheipl
(1923-1984), William A. Wallace, e Benedict Ashley são alguns de seus
representantes. A corrente é por vezes chamada "tomismo de Laval",
por conta da Universidade de Laval, em Quebec, onde De Koninck era professor. O
rótulo alternativo "tomismo de Forest River" vem de um subúrbio de
Chicago, onde fica o Albertus Magnus Lyceum para a Ciência Natural,
cujos membros estão associados a essa corrente. Ela também é por vezes chamada
"tomismo aristotélico" (para realçar o contraste com o tomismo
existencial de Gilson), embora, uma vez que neo-tomismo escolástico também
enfatiza a continuidade do Aquinate com Aristóteles, este rótulo parece um
pouco inapropriado. (Há escritores, como o tomista contemporâneo Ralph
McInerny, que apresentam influências tanto do neo-tomismo escolástico quanto do
tomismo de Laval ou River Forest, já que as abordagens não são necessariamente
incompatíveis.)
4. Tomismo transcendental: diferentemente das primeiras três
escolas, essa corrente, associada a Joseph Marechal (1878-1944), Karl Rahner
(1904-1984) e Bernard Lonergan (1904-1984), não se opõe numa ataque à filosofia
moderna, mas procura conciliar o tomismo com uma abordagem cartesiana subjetivista
do conhecimento em geral, e com a epistemologia kantiana em particular. Parece
justo dizer que a maioria dos tomistas que, de modo geral, toleram diversas
abordagens do pensamento de Santo Tomás de Aquino, consideram que o tomismo
transcendental cedeu demais para a filosofia moderna para contar genuinamente
como uma variedade de tomismo, estritamente falando. Essa escola de pensamento
tem, em todo caso, sido muito mais influente entre os teólogos do que entre os
filósofos.
5. Tomismo de Lublin: Essa corrente, cujo nome deriva da
Universidade de Lublin, na Polônia, onde ela se condensou, às vezes também é
chamada de "tomismo fenomenológico". Como o tomismo transcendental,
ela procura combinar o tomismo com certos elementos da filosofia moderna, embora
de uma forma que seja menos radicalmente revisionista. Em particular, ela busca
utilizar o método fenomenológico de análise filosófica associada com Edmund
Husserl e o personalismo de escritores como Max Scheler para articular a
concepção tomista da pessoa humana. Seu proponente mais conhecido é Karol
Wojtyla (1920-2005), que se tornou o papa João Paulo II.