Dionísio, Pseudo Areopagita
O progressismo - do Cardeal Giuseppe Siri (II)
Filosofia Tomista - Parte I

Reginald Garrigou-Lagrange para baixar
Sacerdote de CRISTO, um Sinal de Amor (IV)
Quem poderia a si mesmo arrogar a eleição divina? Certamente, nenhum homem, senão o que por CRISTO é chamado. E é graças a Igreja que podemos confirmar e formar este chamado feito por Deus, que nasce no coração do vocacionado ao sacerdócio. Sem a Igreja, nenhuma homem poderia ter a certeza de ter sido chamado por DEUS para tão sublime missão[2]. Pois, tendo o pecado obscurecido a nossa inteligência e vontade, na primeira tempestade iríamos duvidar de tão sublime eleição, seja por presunção ou vão temor. E sendo o sacramento um sinal visível[3] da graça, não precisamos nos apoiar em nossas capacidades humanas, virtudes, fervor na vida devota e piedosa, uma vez que, comprometendo-se de todo coração, deixando-se ser formar por aqueles a quem a divina providência nos doou, ainda que frágeis e débeis, podemos assim, lançar-se inteiramente nos braços de Cristo e submeter o nosso juízo ao amor misericordioso que nos elevou a tão sublime vocação.
A Ética Tomista - Parte I: Introdução
1. Origem: Ética foi provavelmente o nome dado ao conjunto de 10 livros que Aristóteles [384-322] escreveu como introdução à Política. O objetivo desta obra era investigar o bem, a perfeição e a felicidade, eudaimonia, que correspondem ao homem, com o intuito de orientá-lo na vida prática, discernindo a felicidade própria da vida humana dos demais prazeres da vida [Etica, I,2, 1095a 22-28]. Para tanto, as virtudes jogam papel fundamental na educação do homem livre, na medida em que o aperfeiçoa no que lhe é próprio, tornando-o melhor e boa a sua obra, enquanto também lhe corrigem os defeitos e vícios. O próprio Estagirita ou o seu editor valeu-se de um advérbio grego Hqika [Ethika] com o significado de 'segundo os costumes', 'conforme aos costumes', 'referente aos costumes', 'relativo aos costumes' derivada de hqoj [ethos] de significado 'hábito', 'costume', 'caráter', para dar nome a estes escritos esotéricos, ou seja, as anotações das aulas destinadas para o uso interno dos alunos de sua escola. O título da obra como nos chegou é: Ética a Nicômacos. Ora, se 'Ética' significa o que é relativo aos costumes, hábitos, o que significa a palavra 'Nicômacos' que completa o título desta obra? Trata-se de um nome de pessoa possivelmente ligado a Aristóteles ou à sua obra. Mas quem é Nicômacos? Ventilam-se duas hipóteses: a primeira possivelmente herdada de Alexandre de Afrodísias [198-211 d.C], comentador de Aristóteles, que indica ser Nicômacos o filho do Estagirita, que se encarregara de anotar e editar tais aulas; outra hipótese, defendida por W. Jaeger, refere-se a um possível editor destas anotações. Segundo este mesmo pesquisador, muito provavelmente não se tratou de obra dedicada em vida pelo próprio Aristóteles a seu filho, pois não era comum à época que isto ocorrera, nem a de que esta teria sido escrita por algum discípulo seu. A partir da sistematização aristotélica o estudo dos costumes humanos passaria designar a disciplina teórico-prática da filosofia que orienta a conduta moral do homem em sua vida privada, como condição de boa conduta na vida em sociedade, na vida da Pólis, na vida política. Eis a divisão e o conteúdo da obra:
Ética a Nicômacos
Livro II (B) Livro II: A virtude moral em geral. Como se gera e se corrompe. A definição de virtude. Descrição das virtudes e os vícios. Algumas recomendações para alcançar a virtude.
Livro III (G) Livro III: O voluntário e o involuntário. A fortaleza e suas classes. A temperança e os vícios extremos de ambas.
Livro IV (D) Livro IV: A liberalidade, a magnificência, a magnanimidade, o pudor, a mansidão, a cortesia, a veracidade, a eutrapelia, a vergonha e todos os seus extremos correspondentes.
Livro V (E) Livro V: A justiça e a injustiça. A eqüidade e o eqüitativo.
Livro VI (Z) Livro VI: Os princípios do agir, os hábitos intelectuais: ciência, arte, intelecto, sabedoria e prudência. As partes da prudência. A sagacidade. A virtude natural. As virtudes e a prudência e sua relação.
Livro VII (H) Livro VII: A continência e a incontinência. A malícia humana. A virtude heróica e a bestialidade. A preguiça, a perseverança, a contumácia e outras. O prazer, suas classes e a dor.
Livro VIII (Q) Livro VIII: A amizade honesta, a deleitável e a útil, entre iguais e entre desiguais. Segundo a idade e outras diferenças. A relação entre as distintas amizades e as distintas ordenações políticas. A amizade parental, filial, fraterna, familiar e entre marido e mulher. As querelas na amizade.
Livro IX (I) Livro IX: Como se conservam e se dissolvem as amizades. Efeitos da amizade: a benevolência, a concórdia, a beneficência. O amor de si mesmo, egoísmo e altruísmo. Se o homem feliz necessita de amigos.
Livro X(K) Livro X: O deleite na vida humana. O fim da virtude: a felicidade, contemplativa e ativa. A ponte para os livros da Política.
2. O Comentário de Tomás de Aquino à Ética aristotélica: o Aquinate dedicou-se ao comentário desta obra quando se encontrava em Nápoles, entre os anos de 1271 e 1272. Nele o Aquinate estabelece um estreito vínculo entre: a moral revelada [decálogo], os princípios morais e a metafísica. A liberdade é a chave da moralidade. Pela vontade livre as ações humanas tendem a um fim livre. A felicidade, enquanto bem-supremo, é o que todos buscam e tendem naturalmente. Tendo inscrito em sua natureza uma lei que o impele a buscar este bem, pela qual cada homem participa da lei eterna de Deus. A virtude se completa pela graça e ordena o homem a agir bem, para além de seu próprio benefício e o dispõe para Deus. Para destacar a originalidade da ética tomista abordaremos a sua principal contribuição, ou seja, os seus Comentários aos X livros da Ética a Nicômacos de Aristóteles [Edição de R. Spiazzi, Roma: Marietti,1964] sem que diminua a importância de sua exposição na Suma Teológica II e outras obras. O Comentário é uma explicação sumária e doutrinal da obra. Não é uma exposição crítica. Vale frisar que os termos latinos ethica e moralis traduzem adequadamente a palavra grega hqika. O Aquinate segue a divisão aristotélica de livros e capítulos, mas acrescentam-se as lectio, que aqui traduzimos mais por razão pedagógica como lições e não leituras. Eis, pois, o número de livros, a sua ordem e as principais doutrinas de seu comentário:
Livro II (B) Livro II: A virtude moral em geral. Como se gera e se corrompe. A definição de virtude. Descrição das virtudes e os vícios. Algumas recomendações para alcançar a virtude. Lições de I a XI, n. 245-381.
Livro III (G) Livro III: O voluntário e o involuntário. A fortaleza e suas classes. A temperança e os vícios extremos de ambas. Lições I a XXII, n. 382-648.
Livro IV (D) Livro IV: A liberalidade, a magnificência, a magnanimidade, o pudor, a mansidão, a cortesia, a veracidade, a eutrapelia, a vergonha e todos os seus extremos correspondentes. Lições I a XVII, n. 649-884.
Livro V (E) Livro V: A justiça e a injustiça. A eqüidade e o eqüitativo. Lições de I a XVII, n. 885-1108.
Livro VI (Z) Livro VI: Os princípios do agir, os hábitos intelectuais: ciência, arte, intelecto, sabedoria e prudência. As partes da prudência. A sagacidade. A virtude natural. As virtudes e a prudência e sua relação. Lições I a XI, n. 1109-1291.
Livro VII (H) Livro VII: A continência e a incontinência. A malícia humana. A virtude heróica e a bestialidade. A preguiça, a perseverança, a contumácia e outras. O prazer, suas classes e a dor. Lições I a XIV, n. 1292-1537.
Livro VIII (Q) Livro VIII: A amizade honesta, a deleitável e a útil, entre iguais e entre desiguais. Segundo a idade e outras diferenças. A relação entre as distintas amizades e as distintas ordenações políticas. A amizade parental, filial, fraterna, familiar e entre marido e mulher. As querelas na amizade. Lições I a XIV, n. 1538-1756.
Livro IX (I) Livro IX: Como se conservam e se dissolvem as amizades. Efeitos da amizade: a benevolência, a concórdia, a beneficência. O amor de si mesmo, egoísmo e altruísmo. Se o homem feliz necessita de amigos. Lições I a XIV, n. 1757-1952.
Livro X(K) Livro X: O deleite na vida humana. O fim da virtude: a felicidade, contemplativa e ativa. A ponte para os livros da Política. Lições I a XVI, n. 1953-2180.

Sacerdote de Cristo, um sinal do Amor (III)
Por Allan Lopes
Este Amor de que temos sede, que é Cristo, é uma Pessoa, como já dito acima, e não um poema ou uma especulação meramente racional. Ora, onde então encontrá-lo quando os sentidos clamam por sinais, quando nossa afetividade brada por Ele já aqui na terra, aqui e agora?
O homem é um composto de corpo e alma, não somente uma alma prisioneira de um corpo, nem somente um corpo sem alma. Somos afetivos e inteligentes, materiais e espirituais; e nenhuma solução que não corresponda a esta necessidade hilermórfica poderá nos saciar por inteiro, senão, aparente e temporalmente, aumentando a nossa angústia e dores por não alcançar Quem tanto anseia nossa alma. Assim, nos deixou o Senhor o Seu Corpo e Seu Sangue, Sua alma e Sua Divindade como alimento, comida e bebida. Isso mesmo! O Senhor nos deixou um sinal sensível para a fome e a sede de nossa alma! Assim, não precisamos ficar iludindo-nos somente com poemas ou altíssimas especulações, belos até, mas que são meras palavras; não precisamos somente de bens materiais, úteis, mas insuficientes em si mesmos. Pois Aquele que é a razão e causa de nossa sede é bebida e comida, é Ele mesmo o nosso Único e Necessário!
No entanto, para que não somente os apóstolos e discípulos tivessem este grande dom, o Senhor escolheu do meio destes mesmos homens, pecadores e frágeis, alguns para participar do Sacerdócio de Seu Filho único, tornando-os perpetuadores dos frutos da Redenção realizada para a nossa salvação no alto do Calvário[1].
Agora, a fonte de amor que sacia a nossa sede não está somente no passado, e tão pouco é apenas um dom para o futuro, na vida eterna reservada aos seus eleitos. É agora, neste instante que esta fonte está jorrando; o Coração Aberto está jorrando Seu amor nas mãos de algum sacerdote na face da terra exatamente neste momento em estás lendo este texto! Nos sacrários está não um pão abençoado, mas o Coração aberto de Cristo, um Coração de Carne, que bate de amor em cada palpitar, que está quente, pois o Sangue que lá contém é um Sangue Vivo e Divino! Todo este mistério está velado, por misericórdia[2], aos nossos sentidos, assim como a Glória do Calvário estava velada aos homens que viam o pobre Cristo nu, aparentemente vencido, não velada porém, aos anjos, onde uns O adoravam neste sublime ato de amor, e outros eram definitivamente derrotados.
Diante deste mistério de amor incomensurável, não há como não ver a sublimidade e singularidade da vocação sacerdotal, penso. O sacerdote fiel, por participação no Único Sacerdote por essência, Cristo, é uma imagem viva do amor de DEUS pela sua criação, e de modo particular pelo homem. É uma grande prova de amor o Senhor escolher alguns homens para salvar uma multidão! E esta é a chave para entender o sacerdócio: uns se sacrificam para a salvação de muitos, repovoando o céu, de onde a terça parte dos espíritos puríssimos desceram por negarem a DEUS, com as almas impetradas e expiadas por meio de seu sacrifício unido ao de Cristo no altar da Cruz.
A Fonte de Amor, que se fez Homem no seio da Virgem, viveu entre os homens nos tornando assim filhos de DEUS, ainda hoje, de forma sensível santifica nossos lábios em cada comunhão eucarística, cura nossas iniqüidades e pecados na confissão sacramental, confirma-nos no Paráclito Santificador, une homens e mulheres para a glória de DEUSe nos guia para a eternidade, nossa vocação última, nosso fim: tudo isso por meio da sacerdócio. É um grande mistério!
Sacerdote de CRISTO, um Sinal de Amor (II)
O mistério da piedade: a Fonte de Amor é uma Pessoa
Na plenitude dos tempos, nasce em Belém a Fonte do Amor que inundou a terra com as suas torrentes, vive no meio dos homens, angustia-se no jardim das oliveiras, é flagelado, coroado de espinhos, morre no alto da Cruz como um ladrão, ressuscita ao terceiro dia e dá a vida eterna aos que Lhe são fiéis à sua amizade: a salvação chegou para nós! Eis a grande Boa Nova[1]!
Como entender nos dias de hoje o que é esta salvação? Ora, o salvador do gênero humano nasce frágil e no cocho dos animais! Como se não bastasse esta humilhação, Ele vem até os pecadores e diz: Tenho sede! E é esta a salvação que nos foi dada: o Criador se faz criatura, o Médico se faz enfermo. Nosso orgulho e amor próprio, até então invencíveis, mesmo aos mais heróicos dos homens, é dobrado e aniquilado pela simples lágrima do Menino Deus, e das humildes e doces palavras do filho do carpinteiro que nos diz: Vinde a mim todos vós que estais cansados, e Eu vos darei descanso[2]! Diante deste amor que orgulho e amor próprio pode resistir? Diante do Sol em seu máximo esplendor, que sobra o pode conter?
Mas de que sede teria o salvador dos homens? De que teria sede o Senhor do céu e da terra? De quem teria sede a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade? Ele é o Único e o Necessário: é um grande mistério! Difícil de compreender a luz da razão natural, e mesmo sob a luz da graça. Somente quando a graça for transformada em glória, poderemos mergulhar neste oceano de amor que é o Coração de Jesus. Ele tem sede de almas, sede de amor.
E foi este mistério da piedade, manifestado e revelado por Cristo, que levou tantos homens a se consagrarem por inteiro, corpo e alma. Ele chamou-nos a unir as nossas angústias às d’Ele, nossas tristezas às d’Ele, nossas dores às d’Ele. Os que outrora eram dignos de ignomínia, agora são membros do Corpo, do qual Cristo é a cabeça.
O amor, descrito por poetas, especulado pelos filósofos, agora é uma Pessoa, mas não uma pessoa envolta de fracassos como nós! Não, mas uma Pessoa Divina, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Homem como nós, e ao mesmo tempo, Deus. Afinal, quem poderia saciar esta sede de amor que há em cada homem se não fosse o próprio Deus de Amor?! Ele veio até nós, se compadeceu de nossas fraquezas. O Verbo se fez carne: “Et Verbum caro factum est et habitavit in nobis; et vidimus gloriam eius, gloriam quasi Unigeniti a Patre, plenum gratiae et veritatis[3]”.
E sob seu mandamento de amor é que se encontra a resposta para as nossas angústias. É amando a Deus, sendo amado por Ele, e amando ao próximo por causa dele que encontramos a razão de nossa existência. Os nossos problemas se resolvem no amor.
[1] “O Filho de Deus trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu
com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-
Se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado” (Cf. Catecismo, n° 470)
[2] Mt 11, 28.
[3] Jo 1, 1.
O progressismo - do Cardeal Giuseppe Siri (I)
Elenquemos, portanto, os casos mais frequentes nos quais se usa o termo “progressista”. Ofereçamos um espelho para que cada um nele se mire.
1. Ser independentes da lógica teológica
Muitas vezes o “progressismo” significa isto, ou ainda mais, quando se atribui a si uma tal independência, há quem se glorie de ser “progressista”. Vejamos pois o que quer significar. Conclusões para depois. O que é este “desinteresse total pela lógica teológica”?
Lógica teológica é o conjunto das normas pelas quais, sendo aplicadas, se pode embasadamente chegar a afirmar como revelada, ou também como simplesmente certa, uma proposição.
Estas normas, que constituem a lógica teológica, na realidade se reduzem (falamos, note-se bem, da “lógica”, não da Revelação) a um princípio: o magistério infalível da Igreja. De fato é ao magistério infalível da Igreja, seja solene, seja ordinário, que é confiada a interpretação certa e autêntica tanto da Escritura quanto da divina tradição. E é lógico. De fato, se Deus tivesse entregado aos homens uma quantidade de rolos escritos ou de fitas magnéticas para fazer ouvir a palavra viva e se tivesse parado aí, a um certo ponto nada teria funcionado, se encontraria um modo de fazer com que a Palavra divina diga tudo o que se quer, o contrário daquilo que se quer, o contraditório daquilo que se quer e não se quer, infinitamente. A verdade salvífica não teria podido funcionar entre os homens. As provas? Nós as temos diante dos olhos e apelamos somente para duas.
A primeira é que com uma natureza imensamente nítida, a história humana teve continuamente filosofias turvas, o contrário, o contraditório desse. A demonstração do que o homem sabe fazer com o seu pensamento, entregue a si mesmo e aos estímulos do próprio eu ou das próprias trevas, nos dá a história da filosofia e, ainda melhor, a filosofia da história da filosofia.
Jornalista português, agnóstico, fala sobre Pedofilia
Prezados leitores, eis um incitante artigo de um agnóstico sobre 'pedofilia'.
Salve MARIA!
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Oração de Pio XII pelas vocações sacerdotais
Discurso do Papa Bento XVI aos Bispos da Regional Norte II da CNBB
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Amados Irmãos no Episcopado,
A vossa visita ad Limina tem lugar no clima de louvor e júbilo pascal que envolve a Igreja inteira, adornada com os fulgores da luz de Cristo Ressuscitado. Nele, a humanidade ultrapassou a morte e completou a última etapa do seu crescimento penetrando nos Céus (cf. Ef 2, 6). Agora Jesus pode livremente retornar sobre os seus passos e encontrar-Se como, quando e onde quiser com seus irmãos. Em seu nome, apraz-me acolher-vos, devotados pastores da Igreja de Deus peregrina no Regional Norte 2 do Brasil, com a saudação feita pelo Senhor quando se apresentou vivo aos Apóstolos e companheiros: «A paz esteja convosco» (Lc 24,36).
A vossa presença aqui tem um sabor familiar, parecendo reproduzir o final da história dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 33-35): viestes narrar o que se passou no caminho feito com Jesus pelas vossas dioceses disseminadas na imensidão da região amazônica, com as suas paróquias e outras realidades que as compõe como os movimentos e novas comunidades e as comunidades eclesiais de base em comunhão com o seu bispo (cf. Documento de Aparecida, 179). Nada poderia alegrar-me mais do que saber-vos em Cristo e com Cristo, como testemunham os relatórios diocesanos que me enviastes e que vos agradeço. Reconhecido estou de modo particular a Dom Jesus Maria pelas palavras que acaba de me dirigir em nome vosso e do povo de Deus a vós confiado, sublinhando a sua fidelidade e adesão a Pedro. No regresso, assegurai-o da minha gratidão por tais sentimentos e da minha Bênção, acrescentando: «Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão» (Lc 24,34).
Nesta aparição, palavras - se as houve - diluíram-se na surpresa de ver o Mestre redivivo, cuja presença diz tudo: Estive morto, mas agora vivo e vós vivereis por Mim (cf. Ap 1,18). E, por estar vivo e ressuscitado, Cristo pode tornar-Se «pão vivo» (Jo 6, 51) para a humanidade. Por isso sinto que o centro e a fonte permanente do ministério petrino estão na Eucaristia, coração da vida cristã, fonte e vértice da missão evangelizadora da Igreja. Podeis assim compreender a preocupação do Sucessor de Pedro por tudo o que possa ofuscar o ponto mais original da fé católica: hoje Jesus Cristo continua vivo e realmente presente na hóstia e no cálice consagrados.
Uma menor atenção que por vezes é prestada ao culto do Santíssimo Sacramento é indício e causa de escurecimento do sentido cristão do mistério, como sucede quando na Santa Missa já não aparece como proeminente e operante Jesus, mas uma comunidade atarefada com muitas coisas em vez de estar recolhida e deixar-se atrair para o Único necessário: o seu Senhor [Por isso nossa ênfase no Salvem a Liturgia em sinais sensíveis: paramentos, crucifixos, candelabros, que apontem para o sentido real da liturgia eucarística]. Ora, a atitude primária e essencial do fiel cristão que participa na celebração litúrgica não é fazer, mas escutar, abrir-se, receber… É óbvio que, neste caso, receber não significa ficar passivo ou desinteressar-se do que lá acontece, mas cooperar – porque tornados capazes de o fazer pela graça de Deus – segundo «a autêntica natureza da verdadeira Igreja, que é simultaneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na ação e dada à contemplação, presente no mundo e, todavia, peregrina, mas de forma que o que nela é humano se deve ordenar e subordinar ao divino, o visível ao invisível, a ação à contemplação, e o presente à cidade futura que buscamos» (Const. Sacrosanctum Concilium, 2). Se na liturgia não emergisse a figura de Cristo, que está no seu princípio e está realmente presente para a tornar válida, já não teríamos a liturgia cristã, toda dependente do Senhor e toda suspensa da sua presença criadora.
Como estão distantes de tudo isto quantos, em nome da inculturação, decaem no sincretismo introduzindo ritos tomados de outras religiões ou particularismos culturais na celebração da Santa Missa (cf. Redemptionis Sacramentum, 79)! O mistério eucarístico é um «dom demasiado grande – escrevia o meu venerável predecessor o Papa João Paulo II – para suportar ambigüidades e reduções», particularmente quando, «despojado do seu valor sacrificial, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro fraterno ao redor da mesa» (Enc. Ecclesia de Eucharistia, 10). Subjacente a várias das motivações aduzidas, está uma mentalidade incapaz de aceitar a possibilidade duma real intervenção divina neste mundo em socorro do homem. Este, porém, «descobre-se incapaz de repelir por si mesmo as arremetidas do inimigo: cada um sente-se como que preso com cadeias» (Const. Gaudium et spes, 13). A confissão duma intervenção redentora de Deus para mudar esta situação de alienação e de pecado é vista por quantos partilham a visão deísta como integralista, e o mesmo juízo é feito a propósito de um sinal sacramental que torna presente o sacrifício redentor. Mais aceitável, a seus olhos, seria a celebração de um sinal que corresponda a um vago sentimento de comunidade.
Mas o culto não pode nascer da nossa fantasia; seria um grito na escuridão ou uma simples auto-afirmação[por isso, pedir fidelidade às rubricas não é "rubricismo", mas um desejo de uma mística mais profunda na vida dos cristãos]. A verdadeira liturgia supõe que Deus responda e nos mostre como podemos adorá-Lo. «A Igreja pode celebrar e adorar o mistério de Cristo presente na Eucaristia, precisamente porque o próprio Cristo Se deu primeiro a ela no sacrifício da Cruz» (Exort. ap. Sacramentum caritatis, 14). A Igreja vive desta presença e tem como razão de ser e existir ampliar esta presença ao mundo inteiro.
«Fica conosco, Senhor!» (cf. Lc 24, 29): estão rezando os filhos e filhas do Brasil a caminho do XVI Congresso Eucarístico Nacional, daqui a um mês em Brasília, que deste modo verá o jubileu áureo da sua fundação enriquecido com o "ouro" da eternidade presente no tempo: Jesus Eucaristia. Que Ele seja verdadeiramente o coração do Brasil, donde venha a força para todos homens e mulheres brasileiros se reconhecerem e ajudarem como irmãos, como membros do Cristo total. Quem quiser viver, tem onde viver, tem de que viver. Aproxime-se, creia, entre a fazer parte do Corpo de Cristo e será vivificado! Hoje e aqui, tudo isto desejo à esperançosa parcela deste Corpo que é o Regional Norte 2, ao conceder a cada um de vós, extensiva a quantos convosco colaboram e a todos os fiéis cristãos, a Bênção Apostólica. [Amém!]
“O culto não pode nascer da nossa fantasia” – Bento XVI
via Deus lo Vult! de Jorge Ferraz em 15/04/10
em visita ad limina apostolorum
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