Dionísio, Pseudo Areopagita

Raffaello Sanzio (São Paulo prega em Atenas)
Sidney Silveira
 
Falou-se noutro texto de quanto, durante toda a era Patrística, abundavam as admoestações contra a filosofia grega, particularmente as advertências para o perigo de assimilação, por parte dos cristãos, de elementos espúrios à fé. O exemplo para esta postura era buscado na Boa Nova trazida pelo Apóstolo aos escandalizados gregos (cfme. At. XVII, 23-29): a sabedoria dos homens havia sido suplantada por outra, divinamente revelada, que doravante seria o norte para todo e qualquer conhecimento humano, especulativo ou prático. Na culta Atenas de então, em meio aos juízes do Areópago — conselho de membros da aristocracia ateniense em cujo recinto havia várias imagens dos deuses pagãos —, Paulo anuncia eloqüentemente o ignoto Deus que veio ao mundo para pôr fim às humanas superstições e à adoração de falsos ídolos. A partir de então, não mais seria lícito aos homens procurar, fora da Revelação, a solução para os seus dilemas fundamentais, para os dramas que configuram a sua condição.

Neste momento decisivo para a história humana, como aconteceria tantas e tantas vezes ao longo dos séculos, ao simples anúncio da Palavra revelada distintos grupos se formaram: uma grande parte de zombeteiros; outra de pessoas céticas racionalistas, para quem a Cruz é simplesmente uma loucura; outra de gente que, como o rico do Evangelho (Lc. XVIII, 23), se sentiu atraída pela novidade, mas cujo apego ao mundo ou à carne impediu de abraçar a radicalidade da fé; e uma minoria que, com o auxílio da Graça, se abriu ao influxo benemerente da Palavra divina e produziu frutos de cem por um, de sessenta por um e de trinta por um (Mt. XIII, 8). Dentre estes estava Dionísio, depois cognominado “Areopagita”, um juiz que se converteu ali, no exato momento em que Paulo era avaliado por uma assembléia de pessoas atônitas a quem com firmeza dizia anunciar o Deus que a todos “deu a vida, o movimento e o ser” (At. XVII, 28).

Muitos anos depois — hoje se sabe que, provavelmente, no século V —, um homem que durante centenas de anos se acreditou ser o grego convertido por São Paulo, por razões que não cabe apontar neste breve texto, escreveu quatro livrinhos que influenciariam grandemente teólogos e filósofos cristãos: “Sobre a Hierarquia Celeste”; “Sobre a Hierarquia Eclesiástica”; “Sobre os Nomes Divinos”; e “Sobre a Teologia Mística”. Desde quando a crítica histórico-filológica apontou — já nos albores do século XIX — que essa obra não poderia ter sido escrita por São Dionísio Mártir, esse autor anônimo (um notável místico!) passou a ser conhecido pelos estudiosos como Dionísio Pseudo Areopagita.

Indico entusiasticamente aos leitores do Contra Impugnantes a leitura destas quatro pequenas obras de grande valor, que representam uma das maiores influências de um autor no decorrer dos séculos — e de forma quase subterrânea, por assim dizer. Eis alguns teólogos, Santos e filósofos que beberam desta fonte, com maior ou menor proveito:

São Máximo, o Confessor, autor das estupendas Centúrias da Caridade; Escoto Eurígena; Pedro Lombardo; ao que tudo indica, São Bernardo de Claraval; o notável Hugo de São Vítor; Santo Antônio de Lisboa; o grande cientista Robert Grosseteste; São Boaventura; Santo Alberto Magno; Santo Tomás de Aquino (em cuja obra, para se ter idéia da influência dionisiana, há 1.702 menções ao Areopagita); Nicolau de Cusa, cuja Douta Ignorância foi grandemente influenciada por nosso autor; toda a tradição dos cartuxos da Idade Média; Marsilio Ficino, já no Renascimento; São Thomas More; São João da Cruz, cuja Subida do Monte Carmelo tem algumas similitudes impressionantes com Sobre a Hierarquia Celeste e com Sobre os Nomes Divinos; etc.

Deixo, como tira-gosto, um trecho da Teologia Mística do Areopagita:

“Agora que escalamos desde o solo mais baixo até os mais altos cumes, [sabemos que] quanto mais subimos, mais escassas se tornam as palavras. Ao chegarmos ao cume, reina o mais completo silêncio. Estamos de todo unidos ao Inefável”. (Teologia Mística, III, 1033C)

Em tempo: Noutra ocasião, escreverei um pouco sobre a estrutura da Suma Teológica de Santo Tomás: do exitus e reditus. Ela é, segundo autores abalizados, de direta influência dionisiana. E também falarei um pouco sobre duas dessas obras do Pseudo Areopagita.

O progressismo - do Cardeal Giuseppe Siri (II)

A segunda está na auto-intitulada grande produção teológica hodierna, em que exatamente pelo esquecimento da lógica se afirma o contrário de tudo, não excluída a morte de Deus. O desígnio divino na instituição do Magistério, ao qual está conectado tudo quanto se acha na obra da história da salvação, se prova claro e necessário pelo redemoinho das desenfreadas coisas humanas.
 
O que hoje acontece é a demonstração ab absurdo da verdade e da necessidade do magistério eclesiástico!
 
O magistério eclesiástico canoniza outros instrumentos que se tornam assim “meios” para atingir com certeza a verdade teológica. Eles são: os Padres, os Doutores, os Teólogos, a Liturgia... na medida em que tenham sido consentidos e tenham tido a aprovação explícita ou implícita da Igreja. Tal aprovação torna patrimônio do próprio Magistério a verdade expressa pelas outras fontes. Nenhum Teólogo, nenhum grupo de Teólogos ou Doutores, sem esta aprovação segura do Magistério, conta alguma coisa na afirmação teológica. Tudo mais, se corresponder às regras ordinárias de um método científico, poderá levar a formular uma hipótese de trabalho. Como o campo permanece amplo. Aqueles que havíamos chamado “meios” de reflexão do magistério eclesiástico constituem, juntamente com o próprio, a “lógica” da teologia.
 
Esta lógica é abandonada por muitos. E é por isto que se lêem revistas e livros que contradizem tranquilamente o que o Concílio de Trento definiu, aceitam modos de pensar que são expressamente condenados na encíclica Pascendi de São Pio X, assim como no seu Decreto Lamentabili; promovem a reabilitação de Loisy; põem em dúvida o valor histórico dos Livros históricos da Sagrada Escritura, elevam a critério as teorias destrutivas do protestante Bultman, ouvem com indiferença as proposições de qualquer escritor transalpino, mesmo se tocam o centro da revelação divina, ou seja, a divindade de Cristo.
 
Naturalmente, tratados sem freio os princípios, tem-se aquilo que se quer da moral e da disciplina eclesiástica.
 
Sob este fundamental ângulo de visão, o progressismo consiste em tratar como relativa a verdade revelada, em mudá-la o mais rapidamente possível, em dar aos homens uma liberdade, com a qual em breve não saberão o que fazer, em face do Absoluto. Reduzido a esta fronteira, o “progressismo” coincide com o “relativismo”, e ao homem, “adorado”, não se deixa mais nada, nem mesmo suas esperanças!
 
Naturalmente nem todas as pessoas etiquetadas como progressistas conhecem estas coisas. Mas eles aceitam as consequências e as deduções lógicas daquilo que ignoram. Se têm alguma culpa – que os julgue Deus! – esta consiste em não perguntar o porquê daquilo por que são fanáticos.
 
De toda forma, o esquecimento da lógica teológica funciona, também se não conhecida, como permissão para as outras manifestações sobre as quais devemos discorrer. Tudo aquilo que lançámos através de catecismos de várias línguas, que inundou o ar, e que poderia vir a aparecer em catecismos futuros, significaria a lenta destruição da Fé e a fraude mais culpável perpetrada em prejuízo dos pequenos que crescem.

Filosofia Tomista - Parte I



1. Origem: Historicamente foi o pensador itálico Pitágoras [570-490 a.C] quem inventou e utilizou por primeira vez a palavra filosofia, do grego filoj + sofia: em vez de se chamar sábio, como os demais, dizia-se apenas um amante, amigo da sabedoria. Daí passarem os sábios gregos a serem chamados filósofos. Como diziam os antigos, a filosofia começa pela admiração que se sente diante do fato de as coisas existirem e serem tais como são. Da admiração surge a curiosidade de saber as causas da existência da realidade. Alguns dizem que é a experiência da morte, o sofrimento, a angústia o que causaria esta admiração. Outros ainda colocam que a filosofia nasce da dúvida que o mundo nos causa. Outros ainda dizem que ela nasce de uma vocação natural do homem de procurar entender tudo o que lhe rodeia. Contudo, foi com a insatisfação racional diante das explicações alegóricas, mitológicas que o homem, com o passar dos tempos, tentou ir mais além das explicações fantasiosas dadas à natureza, na medida em que buscava demonstrar, fundamentar e verificar na própria natureza suas propostas de respostas dadas àqueles fenômenos naturais. Neste sentido a filosofia significa a passagem do mito ao logos. Foram os pensadores gregos Platão [427-347 a.C] e Aristóteles [384-322 a.C] que definiram propriamente a filosofia como um tipo de ciência nobre, pois se busca mediante a filosofia o conhecimento das causas mais profundas de toda a realidade, incluindo à do próprio homem. Para Platão a filosofia é o uso do saber em proveito do homem. Platão observa que nada serviria possuir a capacidade de transformar pedras em ouro a quem não soubesse utilizar o ouro; do mesmo modo, de nada serviria uma ciência que tornasse imortal a quem não soubesse utilizar a imortalidade. A filosofia é a ciência em que coincide o fazer e o saber utilizar o que é feito [Eutidemo, 208e 290d]. Para Aristóteles a filosofia é ciência da verdade. Segundo Aristóteles é justo chamar a filosofia de ciência da verdade, porque o fim da ciência teorética é a verdade. Ora, não se conhece a verdade sem conhecer a causa. Por isso, também, a filosofia é ciência das causas. Mas dentre as causas as mais nobres e verdadeiras são as causas eternas. Assim é necessário que as causas dos seres eternos sejam mais verdadeiras do que todas as outras. Por conseguinte, a filosofia é ciência do ser verdadeiro e eterno, já que cada coisa possui tanto de verdade quanto possui de ser. [Metafísica, I, c.1, 993b 19-30]. As opiniões de Platão e Aristóteles registram no pensamento da Grécia ocidental o surgimento da filosofia, onde o homem passa a buscar uma explicação racional para o mundo, não se contentando com as explicações míticas e lendárias, em que todos os fenômenos eram atribuídos aos deuses. O nascimento da filosofia marca o início da superação das explicações míticas, baseadas nos mitos ocidentais. Este amor ao conhecimento faz surgir no homem muitas propostas de explicações para distintas formas de fenômenos. Aparece assim a filosofia, que em sua origem imediata é ciência empírica, mas que logo pelo aprofundamento das questões vai cada vez mais transcendendo o sensível e empírico e apresentando cada vez mais fórmulas de explicações mais abstratas e universais. Assim, pois, a filosofia surge como superação do mito. A partir de então a filosofia é o desejo que nasce da vontade da alma de possuir pela razão o conhecimento certo de toda realidade que sentimos, vemos e não vemos, sem o interesse de receber nenhuma recompensa útil, sensível ou prática em troca, senão a felicidade mesma da alma, enquanto é o estado de satisfação da alma de sentir-se plena e em paz na posse de um saber que lhe seja um bem e de poder transmiti-lo aos demais. A filosofia por ser um conhecimento intelectual não aniquila ou reprova o conhecimento sensível do mundo, mas o ordena para uma síntese inteligível, tornando-o abstrato e compreensível de um modo intelectual. O filósofo torna-se então o sábio, pois o filósofo é aquele que ama o saber e o busca sem querer receber nada em troca, porque busca o saber pelo saber. O filósofo descobre que a felicidade da alma e a plenitude dos desejos se encontram na posse da sabedoria, por isso não deseja trocá-la ou subordiná-la a nenhum outro bem perecível. Pois, para o filósofo a sabedoria é o bem imperecível da alma. A filosofia torna-se sinônimo de sabedoria, pois é o filósofo quem vai julgar e ordenar qual saber é o mais próprio da alma: tanto mais imperecível, certo e bom para alma, quanto mais nobre e necessário a sua busca e posse. O filósofo mediante a filosofia busca a sabedoria, que é um conhecimento que a alma julga imperecível, certo, bom e verdadeiro e que causa nela mesma a felicidade pela posse deste conhecimento a que julga como um bem pleno e que lhe impulsiona a oferecê-lo aos demais que ainda não o possuem. Portanto, a partir de Platão e Aristóteles a filosofia é considerada como ciência, pois é conhecimento certo pelas causas, cujo objeto material são todas as coisas e o objeto formal, as suas causas últimas. Concluindo, podemos dizer que do mesmo modo que o homem, por sua natureza corpórea, deseja os sabores dos alimentos e os deleites sensíveis, assim, também, deseja, mais intensamente, segundo sua natureza espiritual, saborear os sabores dos alimentos e dos deleites espirituais, portanto, saborear, conhecer algum bem espiritual. Este bem espiritual que é o conhecimento pode ser alcançado pelo amor à sabedoria, enquanto hábito ou disposição de conquistar pelo esforço do estudo humano aqueles bens imperecíveis para alma. 

2. A Filosofia Tomista: A filosofia tomista é por excelência a metafísica ao serviço da teologia. Marcada pela forte influência do pensamento grego aristotélico, patrístico e especialmente latino agostiniano, árabe e judeu e dos seus predecessores escolásticos, sua filosofia é rica e inovadora, fruto de uma contemplação e reflexão intensa que revolucionou o vocabulário filosófico medieval e dispôs a mente humana a argumentar retamente numa ponte que liga as coisas da terra, com as do céu.

(a) A Filosofia Escolástica: No século XIII, o Ocidente Europeu foi o palco de uma Revolução Filosófica Medieval. A aquisição de novas fontes filosóficas exerceu forte influência sobre a vida intelectual. Do Oriente, as recém-chegadas filosofias árabes e judaicas, juntavam-se à tradição filosófica platônica e à vetus logica aristotélica, no Ocidente. Ampliou-se o legado aristotélico com a nova logica e as suas obras cosmológicas, política, ética e metafísica. Neste ambiente, a Escolástica estava munida de um leque incrível de fontes filosóficas. Logo, o estudo da filosofia aristotélica tomaria lugar de destaque nas universidades medievais, com novas versões e traduções para o latim dos inéditos textos gregos. Na Universidade de Nápoles, por exemplo, estudavam-se até seis anos de filosofia aristotélica, a ponto de ele vir a ser chamado 'o filósofo', hábito que herdou o próprio Tomás de Aquino [1225-1274] ao referir-se, em seus escritos, a Aristóteles. A famosa abertura do Livro I da Metafísica de Aristóteles: Todos os homens tem o desejo natural de conhecer [Met.I,980a 1-2] havia posto em evidência os estudos filosóficos. Neste contexto cresceu e desenvolveu-se o pensamento de Tomás de Aquino. 

(b) A Filosofia Tomista: Em virtude da excelência de sua teologia, há que se afirmar a importância de sua filosofia. Neste sentido, o Aquinate, embora não desejasse ser senão teólogo, foi verdadeiramente um grande filósofo, pois sabia que a razão não contrariaria a fé, se ela fosse retamente utilizada e fundamentada no princípios evidentes para, com os raciocínios válidos, pôr a própria razão ao serviço da fé. A autonomia da filosofia não o conduziu a apoiar-se, sem mais, na autoridade dos filósofos, embora não descuidasse de considerar os mestres e as suas principais doutrinas. Por isso, sustentou que o argumento de autoridade fundado sobre a razão humana é, de todos, o mais fraco [STh.I, q1,a8,c]. A sua autoridade é a teológica, baseada na autoridade divina e não na humana. O Aquinate efetivamente marcou a filosofia, mas não quis inovar em seus estudos filosóficos e sequer quis instituir um novo sistema filosófico, criar uma filosofia sua, mas uma da verdade das coisas, do ser das coisas. De fato, embora não o tenha querido, revolucionou a investigação filosófica. Neste sentido, o papel e a finalidade da filosofia não é saber o que os homens pensaram, mas qual é a verdade das coisas [In I De caelo, lec.22]. Disse o melhor que pôde e soube, o que as coisas são na realidade; se já alguém o tinha dito antes dele, não era motivo para não o repetir; se ninguém o tinha dito ainda, não era motivo para ele não o dizer, pois não procurava fazer obra pessoal, mas pesquisa objetiva e alicerçada no real.

(c) Filosofia e ciência: Há de esclarecer que para todo o medievo, não há distinção entre filosofia e ciência; antes, ao contrário, a filosofia é a fonte de todo saber e é a ciência racional por excelência. Por esta razão, o estudo da filosofia é em si mesmo lícito e louvável, por causa da verdade que os filósofos buscam e acabam por descobri-la em Deus [STh.II-II,q167,a1,ad3]. Acerca da verdade que se alcançou no passado, a partir dos esforços de muitos filósofos, afirmou o Aquinate ser a filosofia perene já que a contribuição dum só homem, pelo seu trabalho e pelo seu gênio para o progresso da verdade é pouco comparada com o conjunto da ciência; no entanto, de todos esses elementos coordenados, escolhidos e reunidos, alguma coisa de grande se fez [In II Met, lec.1]. Por isso, para Tomás, é importantíssimo voltar às opiniões dos antigos, sejam as de quem for, pois isso é-nos duplamente útil, seja para guardarmos para o nosso uso o que disseram de bom, seja para nos defendermos do que disseram de mal [In I De anima, lec.2, n15]. De fato, a verdade que a razão perscruta lhe é natural e a sua investigação convém à filosofia. Mesmo pela razão pode-se alcançar as verdades referentes às realidades divinas inteligíveis, possíveis de serem investigadas pela razão humana [CG.I,4].

(d) Partes da Filosofia: Como o trabalho especulativo de toda a filosofia dirige-se para o conhecimento de Deus, a metafísica - também denominada filosofia primeira, sabedoria - que tem por objeto as verdades divinas, deve ser a última parte da filosofia [C.G. I, c.4]. Segundo o Aquinate, a razão se relaciona com a ordem das coisas de quatro modos, de cuja relação surge as partes da filosofia: a ordem que a razão não faz, mas a considera, como a das coisas naturais, cujo estudo próprio é o da Filosofia da Natureza da qual se seguem a Matemática, a Metafísica [e também, a Psicologia, a Antropologia]; a ordem que a razão faz em seu próprio ato, ordenando seus conceito, cujo estudo compete à Filosofia racional ou Lógica [In I Anal. lec.1, n.1/De pot. q.1, a.3,ad3] e aqui se inclui também a Gnosiologia; a ordem que a razão faz ao considerar as operações da vontade, cujo estudo compete à Filosofia Moral ou Ética [e também a Política] e a ordem que a razão faz ao considerar as realidades exteriores, das quais é causa, cuja competência é das Artes Mecânicas [In I Etic. lec.1, n.1-2] em que se inclui também a Estética. Feito isso, cabe colocar em evidência que para o Aquinate a filosofia é ciência especulativa, porque investiga acerca do próprio saber. Por isso, tal ciência, que é sabedoria, teve o seu nome mudado para o de filosofia [In I Met. lec.3, n.53]. Mas, sendo o estudo da filosofia uma ciência humana, isso não significa que ela seja uma ciência estritamente acerca das coisas que o homem sente, senão que tende, sobretudo, à verdade delas [In I De caelo, lec.22]. Ora, sendo Deus a Verdade última das verdades, toda a filosofia verte-se à consideração dela e a ela se ordena [CG.I,4].



Reginald Garrigou-Lagrange para baixar

Pe. R. Garrigou-Lagrange OP. 213 cópias (426 páginas com capa e folha de rosto). Encadernação espiral. Idioma espanhol. Ano 1976. Ediciones Palabra, Madrid, Espana. Tamanho 28.3MB.


La union del Sacerdote com Cristo Sacerdote y Victima – Pe. Reginald Garrigou-Lagrange O. P. Traduzida para o espanhol por Freio Generoso Gutiérrez O. P. Idioma espanhol. 1ª edição. Ano 1962. Ediciones


La Santificación del Sacerdote – Pe. Reginald Garrigou-Lagrange O. P.. Traduzida para o espanhol por Freio Generoso Gutiérrez O. P. Idioma espanhol. 2ª edição. Ano 1956. Ediciones Rialp, Madrid. 


Traduzida para o castelhano por Pe. Jorge de Riezu O. F. M. 181 cópias (362 páginas com capa e folhas de rosto). Encadernação espiral. Idioma espanhol. 2ª edição. Ano 1942. Ediciones Desclée de Brouwer.


Traduzida para o castelhano por Pe. José López Navio. Idioma espanhol. 1ª edição. Ano 1954. Ediciones Desclée de Brouwer, Buenos Aires. Tamanho 18.3MB.


Traduzida para o espanhol por José Antonio Millán. Idioma espanhol. 1ª edição. Ano 1977. Ediciones Rialp, Madrid (559 páginas com capa e folhas de rosto). Tamanho 27.8MB.


O Homem e a Eternidade – Pe. Reginald Garrigou-Lagrange OP (traduzido do francês por Januário Nunes).  Tamanho 17.3MB.


Pe. Reginald Garrigou-Lagrange O. P. 657 cópias (1313 páginas com capa e folhas de rosto). Encadernação espiral. Idioma espanhol. Ano 1944. Ediciones Deslclée de Brouwer, Buenos Aires. Tamanho 86MB.


Pe. Reginald Garrigou-Lagrange OP. 150 cópias (299 páginas com capa e folhas de rosto). Encadernação espiral. Idioma espanhol. Ano 1945. Ediciones Desclée de Brouwer, Buenos Aires. Tamanho 21.6MB.


Pe. R. Garrigou-Lagrange OP. 160 cópias (320 páginas com capa e folha de rosto). Encadernação espiral. Idioma espanhol. Ano 1976. Ediciones Palabra, Madrid, Espana. Tamanho 20.6MB.


Pe. Reginald Garrigou-Lagrange O. P. . Traduzido para o castelhano por Pe. Joaquín Fernandis, Escolapio. 143 cópias (285 páginas com capa e folhas de rosto). Encadernação espiral. Idioma espanhol. 


El sentido comun – la filosofia del ser y las formulas dogmáticas – Pe. Reginald Garrigou-Lagrange OP - Traduzido para o castelhano por Octavio Nicolas Derisi. Idioma espanhol. Ano 1944. Edição única.

Sacerdote de CRISTO, um Sinal de Amor (IV)

“E ninguém arrogue-se a si mesmo tal dignidade, senão aquele que é chamado por DEUS...”[1]

Quem poderia a si mesmo arrogar a eleição divina? Certamente, nenhum homem, senão o que por CRISTO é chamado. E é graças a Igreja que podemos confirmar e formar este chamado feito por Deus, que nasce no coração do vocacionado ao sacerdócio. Sem a Igreja, nenhuma homem poderia ter a certeza de ter sido chamado por DEUS para tão sublime missão[2]. Pois, tendo o pecado obscurecido a nossa inteligência e vontade, na primeira tempestade iríamos duvidar de tão sublime eleição, seja por presunção ou vão temor. E sendo o sacramento um sinal visível[3] da graça, não precisamos nos apoiar em nossas capacidades humanas, virtudes, fervor na vida devota e piedosa, uma vez que, comprometendo-se de todo coração, deixando-se ser formar por aqueles a quem a divina providência nos doou, ainda que frágeis e débeis, podemos assim, lançar-se inteiramente nos braços de Cristo e submeter o nosso juízo ao amor misericordioso que nos elevou a tão sublime vocação.


O mistério da iniqüidade

Esta oferta de si a DEUS por meio deste Fiat tem um itinerário que deve ser rigorosamente vivido desde sua concepção até o seu fim último: a santidade, único meio para a plena União com DEUS. Itinerário sem o qual não há como dar bons frutos e consequentemente não há como viver a identidade sacerdotal por excelência, a de pontífice entre DEUS e os homens.

Como entender então, que desde a primeira ordenação sacerdotal realizada por CRISTO, alguns homens são sequazes do maligno e traem Aquele que é a Fonte do Amor? É realmente um mistério. Onde só podemos compreender que, se DEUS assim o permite, é para a Sua glória e a salvação das almas[4].

Qual homem, chamado à santidade[5], pode assegurar-se que jamais há de negar a DEUS? Ou que sua vida de virtudes, sua fervorosa devoção e suas obras, ainda que grandes, lhe darão segurança no seguimento de sua vocação rumo ao céu?

Na Igreja, Corpo de CRISTO, vivem juntamente os bons e os maus, freqüentam os mesmos sacramentos, e homem algum, exceto o HOMEM-DEUS, CRISTO JESUS, poderá afirmar quem é quem. Somente depois da morte pode-se afirmar que um homem pertenceu ao mistério da piedade, por meio da canonização. Contudo, nunca se ouviu dizer, infalivelmente, que algum homem possa ter morrido sendo sequaz do mistério da impiedade sem arrependimento algum. Sendo acusados somente os atos, e jamais a pessoa e o fim que lhe sucedeu tais obras.

Tanto eu como você, caro leitor, podemos pertencer ao mistério da iniqüidade e ninguém está seguro neste vale de lágrimas de arrogar a si a glória do mistério da piedade até a morte.

Somente o amor de DEUS que nos criou pode nos assegurar, por meio da graça e misericórdia de CRISTO, que o céu nos espera! E é deste amor que somos sedentos. Amor aos pecadores, amor de si, em DEUS; amor aos doentes, pobres e cativos no corpo e na alma, pois somos todos iguais: ovelhas perdidas que necessitam de um pastor, do Divino Pastor.

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[1] Hebreus 5, 4.

[2] Nem mesmo o Verbo Divino a si arrogou a glória do Sumo Sacerdócio, mas, chamado pelo Pai por amor aos homens disse: Eis que venho! (Hebreus 5, 5)

[3] E infalível. Embora os frutos dependam das disposições interiores etc.

[4] É importantíssimo salientar que as desgraças, infortúnios e mesmos os castigos divinos são para a Sua maior Glória e a salvação das almas, nada mais.

[5] Lumem Gentium, Cap. V.

A Ética Tomista - Parte I: Introdução


por Paulo Faitanin - UFF

1. Origem: Ética foi provavelmente o nome dado ao conjunto de 10 livros que Aristóteles [384-322] escreveu como introdução à Política. O objetivo desta obra era investigar o bem, a perfeição e a felicidade, eudaimonia, que correspondem ao homem, com o intuito de orientá-lo na vida prática, discernindo a felicidade própria da vida humana dos demais prazeres da vida [Etica, I,2, 1095a 22-28]. Para tanto, as virtudes jogam papel fundamental na educação do homem livre, na medida em que o aperfeiçoa no que lhe é próprio, tornando-o melhor e boa a sua obra, enquanto também lhe corrigem os defeitos e vícios. O próprio Estagirita ou o seu editor valeu-se de um advérbio grego Hqika [Ethika] com o significado de 'segundo os costumes', 'conforme aos costumes', 'referente aos costumes', 'relativo aos costumes' derivada de hqoj [ethos] de significado 'hábito', 'costume', 'caráter', para dar nome a estes escritos esotéricos, ou seja, as anotações das aulas destinadas para o uso interno dos alunos de sua escola. O título da obra como nos chegou é: Ética a Nicômacos. Ora, se 'Ética' significa o que é relativo aos costumes, hábitos, o que significa a palavra 'Nicômacos' que completa o título desta obra? Trata-se de um nome de pessoa possivelmente ligado a Aristóteles ou à sua obra. Mas quem é Nicômacos? Ventilam-se duas hipóteses: a primeira possivelmente herdada de  Alexandre de Afrodísias [198-211 d.C], comentador de Aristóteles, que indica ser Nicômacos o filho do Estagirita, que se encarregara de anotar e editar tais aulas; outra hipótese, defendida por W. Jaeger, refere-se a um possível editor destas anotações. Segundo este mesmo pesquisador, muito provavelmente não se tratou de obra dedicada em vida pelo próprio Aristóteles a seu filho, pois não era comum à época que isto ocorrera, nem a de que esta teria sido escrita por algum discípulo seu. A partir da sistematização aristotélica o estudo  dos costumes humanos passaria designar a disciplina teórico-prática da filosofia que orienta a conduta moral do homem em sua vida privada, como condição de boa conduta na vida em sociedade, na vida da Pólis, na vida política. Eis a divisão e o conteúdo da obra:


Ética a Nicômacos

Livro I (A) Livro I: O bem humano. A felicidade, fim e sumo bem do homem. As partes da alma e a divisão das virtudes.
Livro II (B) Livro II: A virtude moral em geral. Como se gera e se corrompe. A definição de virtude. Descrição das virtudes e os vícios. Algumas recomendações para alcançar a virtude.
Livro III (G) Livro III: O voluntário e o involuntário. A fortaleza e suas classes. A temperança e os vícios extremos de ambas.
Livro IV (D) Livro IV: A liberalidade, a magnificência, a magnanimidade, o pudor, a mansidão, a cortesia, a veracidade, a eutrapelia, a vergonha e todos os seus extremos correspondentes.
Livro V (E) Livro V: A justiça e a injustiça. A eqüidade e o eqüitativo.
Livro VI (Z) Livro VI: Os princípios do agir, os hábitos intelectuais: ciência, arte, intelecto, sabedoria e prudência. As partes da prudência. A sagacidade. A virtude natural. As virtudes e a prudência e sua relação.
Livro VII (H) Livro VII: A continência e a incontinência. A malícia humana. A virtude heróica e a bestialidade. A preguiça, a perseverança, a contumácia e outras. O prazer, suas classes e a dor.
Livro VIII (Q) Livro VIII: A amizade honesta, a deleitável e a útil, entre iguais e entre desiguais. Segundo a idade e outras diferenças. A relação entre as distintas amizades e as distintas ordenações políticas. A amizade parental, filial, fraterna, familiar e entre marido e mulher. As querelas na amizade.
Livro IX (I) Livro IX: Como se conservam e se dissolvem as amizades. Efeitos da amizade: a benevolência, a concórdia, a beneficência. O amor de si mesmo, egoísmo e altruísmo. Se o homem feliz necessita de amigos.
Livro X(K) Livro X: O deleite na vida humana. O fim da virtude: a felicidade, contemplativa e ativa. A ponte para os livros da Política.

2. O Comentário de Tomás de Aquino à Ética aristotélica: o Aquinate dedicou-se ao comentário desta obra quando se encontrava em Nápoles, entre os anos de 1271 e 1272. Nele o Aquinate estabelece um estreito vínculo entre: a moral revelada [decálogo], os princípios morais e a metafísica. A liberdade é a chave da moralidade. Pela vontade livre as ações humanas tendem a um fim livre. A felicidade, enquanto bem-supremo, é o que todos buscam e tendem naturalmente. Tendo inscrito em sua natureza uma lei que o impele a buscar este bem, pela qual cada homem participa da lei eterna de Deus. A virtude se completa pela graça e ordena o homem a agir bem, para além de seu próprio benefício e o dispõe para Deus. Para destacar a originalidade da ética tomista abordaremos a sua principal contribuição, ou seja, os seus Comentários aos X livros da Ética a Nicômacos de Aristóteles [Edição de R. Spiazzi, Roma: Marietti,1964] sem que diminua a importância de sua exposição na Suma Teológica II e outras obras. O Comentário é uma explicação sumária e doutrinal da obra. Não é uma exposição crítica. Vale frisar que os termos latinos ethica  e moralis traduzem adequadamente a palavra grega hqika. O Aquinate segue a divisão aristotélica de livros e capítulos, mas acrescentam-se as lectio, que aqui traduzimos mais por razão pedagógica como lições e não leituras. Eis, pois, o número de livros, a sua ordem e as principais doutrinas de seu comentário:


Comentários de São Tomás aos X Livros da Ética a Nicômacos de Aristóteles

Livro I (A) Livro I: O bem humano. A felicidade, fim e sumo bem do homem. As partes da alma e a divisão das virtudes. Lições de I a XX, n. 1-244.
Livro II (B) Livro II: A virtude moral em geral. Como se gera e se corrompe. A definição de virtude. Descrição das virtudes e os vícios. Algumas recomendações para alcançar a virtude. Lições de I a XI, n. 245-381.
Livro III (G) Livro III: O voluntário e o involuntário. A fortaleza e suas classes. A temperança e os vícios extremos de ambas. Lições I a XXII, n. 382-648.
Livro IV (D) Livro IV: A liberalidade, a magnificência, a magnanimidade, o pudor, a mansidão, a cortesia, a veracidade, a eutrapelia, a vergonha e todos os seus extremos correspondentes. Lições I a XVII, n. 649-884.
Livro V (E) Livro V: A justiça e a injustiça. A eqüidade e o eqüitativo. Lições de I a XVII, n. 885-1108.
Livro VI (Z) Livro VI: Os princípios do agir, os hábitos intelectuais: ciência, arte, intelecto, sabedoria e prudência. As partes da prudência. A sagacidade. A virtude natural. As virtudes e a prudência e sua relação. Lições I a XI, n. 1109-1291.
Livro VII (H) Livro VII: A continência e a incontinência. A malícia humana. A virtude heróica e a bestialidade. A preguiça, a perseverança, a contumácia e outras. O prazer, suas classes e a dor. Lições I a XIV, n. 1292-1537.
Livro VIII (Q) Livro VIII: A amizade honesta, a deleitável e a útil, entre iguais e entre desiguais. Segundo a idade e outras diferenças. A relação entre as distintas amizades e as distintas ordenações políticas. A amizade parental, filial, fraterna, familiar e entre marido e mulher. As querelas na amizade. Lições I a XIV, n. 1538-1756.
Livro IX (I) Livro IX: Como se conservam e se dissolvem as amizades. Efeitos da amizade: a benevolência, a concórdia, a beneficência. O amor de si mesmo, egoísmo e altruísmo. Se o homem feliz necessita de amigos. Lições I a XIV, n. 1757-1952.
Livro X(K) Livro X: O deleite na vida humana. O fim da virtude: a felicidade, contemplativa e ativa. A ponte para os livros da Política. Lições I a XVI, n. 1953-2180.


Sacerdote de Cristo, um sinal do Amor (III)

A essência humana e as resoluções a ela correspondentes
Por Allan Lopes
Este Amor de que temos sede, que é Cristo, é uma Pessoa, como já dito acima, e não um poema ou uma especulação meramente racional. Ora, onde então encontrá-lo quando os sentidos clamam por sinais, quando nossa afetividade brada por Ele já aqui na terra, aqui e agora?
O homem é um composto de corpo e alma, não somente uma alma prisioneira de um corpo, nem somente um corpo sem alma. Somos afetivos e inteligentes, materiais e espirituais; e nenhuma solução que não corresponda a esta necessidade hilermórfica poderá nos saciar por inteiro, senão, aparente e temporalmente, aumentando a nossa angústia e dores por não alcançar Quem tanto anseia nossa alma. Assim, nos deixou o Senhor o Seu Corpo e Seu Sangue, Sua alma e Sua Divindade como alimento, comida e bebida. Isso mesmo! O Senhor nos deixou um sinal sensível para a fome e a sede de nossa alma! Assim, não precisamos ficar iludindo-nos somente com poemas ou altíssimas especulações, belos até, mas que são meras palavras; não precisamos somente de bens materiais, úteis, mas insuficientes em si mesmos. Pois Aquele que é a razão e causa de nossa sede é bebida e comida, é Ele mesmo o nosso Único e Necessário!
No entanto, para que não somente os apóstolos e discípulos tivessem este grande dom, o Senhor escolheu do meio destes mesmos homens, pecadores e frágeis, alguns para participar do Sacerdócio de Seu Filho único, tornando-os perpetuadores dos frutos da Redenção realizada para a nossa salvação no alto do Calvário[1].
Agora, a fonte de amor que sacia a nossa sede não está somente no passado, e tão pouco é apenas um dom para o futuro, na vida eterna reservada aos seus eleitos. É agora, neste instante que esta fonte está jorrando; o Coração Aberto está jorrando Seu amor nas mãos de algum sacerdote na face da terra exatamente neste momento em estás lendo este texto! Nos sacrários está não um pão abençoado, mas o Coração aberto de Cristo, um Coração de Carne, que bate de amor em cada palpitar, que está quente, pois o Sangue que lá contém é um Sangue Vivo e Divino! Todo este mistério está velado, por misericórdia[2], aos nossos sentidos, assim como a Glória do Calvário estava velada aos homens que viam o pobre Cristo nu, aparentemente vencido, não velada porém, aos anjos, onde uns O adoravam neste sublime ato de amor, e outros eram definitivamente derrotados.
Diante deste mistério de amor incomensurável, não há como não ver a sublimidade e singularidade da vocação sacerdotal, penso. O sacerdote fiel, por participação no Único Sacerdote por essência, Cristo, é uma imagem viva do amor de DEUS pela sua criação, e de modo particular pelo homem. É uma grande prova de amor o Senhor escolher alguns homens para salvar uma multidão! E esta é a chave para entender o sacerdócio: uns se sacrificam para a salvação de muitos, repovoando o céu, de onde a terça parte dos espíritos puríssimos desceram por negarem a DEUS, com as almas impetradas e expiadas por meio de seu sacrifício unido ao de Cristo no altar da Cruz.
A Fonte de Amor, que se fez Homem no seio da Virgem, viveu entre os homens nos tornando assim filhos de DEUS, ainda hoje, de forma sensível santifica nossos lábios em cada comunhão eucarística, cura nossas iniqüidades e pecados na confissão sacramental, confirma-nos no Paráclito Santificador, une homens e mulheres para a glória de DEUSe nos guia para a eternidade, nossa vocação última, nosso fim: tudo isso por meio da sacerdócio. É um grande mistério!

[1] Em verdade, todo pontífice é escolhido entre os homens e constituído a favor dos homens como mediador nas coisas que dizem respeito a DEUS, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados (Hebreus V, 1).
[2] Pois se víssemos, desfaleceríamos diante da Glória de DEUS em todo seu esplendor.

Sacerdote de CRISTO, um Sinal de Amor (II)

O mistério da piedade: a Fonte de Amor é uma Pessoa

 Por Allan Lopes
Na plenitude dos tempos, nasce em Belém a Fonte do Amor que inundou a terra com as suas torrentes, vive no meio dos homens, angustia-se no jardim das oliveiras, é flagelado, coroado de espinhos, morre no alto da Cruz como um ladrão, ressuscita ao terceiro dia e dá a vida eterna aos que Lhe são fiéis à sua amizade: a salvação chegou para nós! Eis a grande Boa Nova[1]!
Como entender nos dias de hoje o que é esta salvação? Ora, o salvador do gênero humano nasce frágil e no cocho dos animais! Como se não bastasse esta humilhação, Ele vem até os pecadores e diz: Tenho sede! E é esta a salvação que nos foi dada: o Criador se faz criatura, o Médico se faz enfermo. Nosso orgulho e amor próprio, até então invencíveis, mesmo aos mais heróicos dos homens, é dobrado e aniquilado pela simples lágrima do Menino Deus, e das humildes e doces palavras do filho do carpinteiro que nos diz: Vinde a mim todos vós que estais cansados, e Eu vos darei descanso[2]! Diante deste amor que orgulho e amor próprio pode resistir? Diante do Sol em seu máximo esplendor, que sobra o pode conter?
Mas de que sede teria o salvador dos homens? De que teria sede o Senhor do céu e da terra? De quem teria sede a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade? Ele é o Único e o Necessário: é um grande mistério! Difícil de compreender a luz da razão natural, e mesmo sob a luz da graça. Somente quando a graça for transformada em glória, poderemos mergulhar neste oceano de amor que é o Coração de Jesus. Ele tem sede de almas, sede de amor.
E foi este mistério da piedade, manifestado e revelado por Cristo, que levou tantos homens a se consagrarem por inteiro, corpo e alma. Ele chamou-nos a unir as nossas angústias às d’Ele, nossas tristezas às d’Ele, nossas dores às d’Ele. Os que outrora eram dignos de ignomínia, agora são membros do Corpo, do qual Cristo é a cabeça.
O amor, descrito por poetas, especulado pelos filósofos, agora é uma Pessoa, mas não uma pessoa envolta de fracassos como nós! Não, mas uma Pessoa Divina, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Homem como nós, e ao mesmo tempo, Deus. Afinal, quem poderia saciar esta sede de amor que há em cada homem se não fosse o próprio Deus de Amor?! Ele veio até nós, se compadeceu de nossas fraquezas. O Verbo se fez carne: “Et Verbum caro factum est et habitavit in nobis; et vidimus gloriam eius, gloriam quasi Unigeniti a Patre, plenum gratiae et veritatis[3]”.
E sob seu mandamento de amor é que se encontra a resposta para as nossas angústias. É amando a Deus, sendo amado por Ele, e amando ao próximo por causa dele que encontramos a razão de nossa existência. Os nossos problemas se resolvem no amor.

[1] “O Filho de Deus trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu
com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-
Se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado” (Cf. Catecismo, n° 470)
[2] Mt 11, 28.
[3] Jo 1, 1.

O progressismo - do Cardeal Giuseppe Siri (I)

in «Rivista Diocesana Genovese», janeiro de 1975, pp. 22-36

Vivemos na época das “palavras”. Para vencer batalhas civis (e não somente estas) cunham-se palavras e ditos icásticos, resumidos (slogans). Para vencer homens se emprega qualquer termo ou classificação que as circunstâncias sugerem ser aptos ao escopo de destruir. Para anestesiar cidadãos e fiéis cunham-se palavras. Aquilo que surpreende é o fato de os homens, em vez de se deixarem abater por autênticas espadas, se deixam abater tão somente por palavras. Por isso os termos, os slogans, as classificações da moda devem ser avaliadas, entendidas, eventualmente desmascaradas. Começo, portanto, a publicar notas esclarecedoras. Espero que o nosso clero as queira ler bem, para evitar uma sorte inglória. Comecemos pelo termo mais em voga, usado como um divisor ou como uma proteção para o próprio agente: “progressismo”. De tantas pessoas se diz que são ou não são “progressistas”. Vejamos claramente e, se tivermos de restituir um termo à exata função, não coagida, como é sereno e doce o nosso italiano falado, não é necessário recusar tal mérito.

Elenquemos, portanto, os casos mais frequentes nos quais se usa o termo “progressista”. Ofereçamos um espelho para que cada um nele se mire.

1. Ser independentes da lógica teológica
Muitas vezes o “progressismo” significa isto, ou ainda mais, quando se atribui a si uma tal independência, há quem se glorie de ser “progressista”. Vejamos pois o que quer significar. Conclusões para depois. O que é este “desinteresse total pela lógica teológica”?
Lógica teológica é o conjunto das normas pelas quais, sendo aplicadas, se pode embasadamente chegar a afirmar como revelada, ou também como simplesmente certa, uma proposição.
Estas normas, que constituem a lógica teológica, na realidade se reduzem (falamos, note-se bem, da “lógica”, não da Revelação) a um princípio: o magistério infalível da Igreja. De fato é ao magistério infalível da Igreja, seja solene, seja ordinário, que é confiada a interpretação certa e autêntica tanto da Escritura quanto da divina tradição. E é lógico. De fato, se Deus tivesse entregado aos homens uma quantidade de rolos escritos ou de fitas magnéticas para fazer ouvir a palavra viva e se tivesse parado aí, a um certo ponto nada teria funcionado, se encontraria um modo de fazer com que a Palavra divina diga tudo o que se quer, o contrário daquilo que se quer, o contraditório daquilo que se quer e não se quer, infinitamente. A verdade salvífica não teria podido funcionar entre os homens. As provas? Nós as temos diante dos olhos e apelamos somente para duas.

A primeira é que com uma natureza imensamente nítida, a história humana teve continuamente filosofias turvas, o contrário, o contraditório desse. A demonstração do que o homem sabe fazer com o seu pensamento, entregue a si mesmo e aos estímulos do próprio eu ou das próprias trevas, nos dá a história da filosofia e, ainda melhor, a filosofia da história da filosofia.

Jornalista português, agnóstico, fala sobre Pedofilia

LAVS DEO!
Prezados leitores, eis um incitante artigo de um agnóstico sobre 'pedofilia'.
Salve MARIA!


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É arriscado escrever sobre estas coisas.  Não estão na moda.

"Público", 2010 04 02 José Manuel Fernandes

Não sou crente. Educado na fé católica, passei pelo ateísmo militante e hoje defino-me como agnóstico. Talvez não devesse, por isso, pôr-me a discutir os chamados "escândalos de pedofilia" na Igreja Católica. Até porque não sei se, como escreveu António Marujo neste jornal - no texto mais informado publicado sobre o tema em jornais portugueses -, estamos ou não perante "A maior crise da Igreja Católica dos últimos 100 anos".

Tendo porém a concordar com um outro agnóstico, Marcello Pera, filósofo e membro do Senado italiano, que escreveu no Corriere della Sera que se, sob o comunismo e o nazismo, "a destruição da religião comportou a destruição da razão", a guerra hoje aberta visa de novo a destruição da religião e isso "não significará o triunfo da razão laica, mas uma nova barbárie". Por isso acho importante contrariar muitas das ideias feitas que têm marcado um debate inquinado por muita informação errada ou manipulada.

Vale por isso a pena começar por tentar saber se o problema da pedofilia e dos abusos sexuais - um problema cuja gravidade ninguém contesta, ocorram num colégio católico, na Casa Pia ou na residência de um embaixador - tem uma incidência especial em instituições da Igreja Católica. Os dados disponíveis não indicam que tenha: de acordo com os dados recolhidos por Thomas Plante, professor nas universidades de Stanford e Santa Clara, a ocorrência de relações sexuais com menores de 18 anos entre o clero do sexo masculino é, em proporção, metade da registada entre os homens adultos. É mesmo assim um crime imenso, pois não deveria existir um só caso, mas permite perceber que o problema não só não é mais frequente nas instituições católicas, como até é menos comum. Tem é muito mais visibilidade ao atingir instituições católicas.

Uma segunda questão muito discutida é a de saber se existe uma relação entre o celibato e a ocorrência de abusos sexuais. Também aqui não só a evidência é a contrária - a esmagadora maioria dos abusos é praticada por familiares próximos das vítimas - como o tema do celibato é, antes do mais, um tema da Igreja e de quem o escolhe. Não existiu sempre como norma na Igreja de Roma e hoje esta aceita excepções (no clero do Oriente e entre os anglicanos convertidos). Pode ser que a norma mude um dia, mas provavelmente ninguém melhor do que o actual Papa para avaliar se esse momento é chegado - até porque talvez ninguém, no seio da Igreja Católica, tenha dedicado tanta atenção ao tema dos abusos sexuais e feito mudar tanta coisa como Bento XVI.

Se algo choca na forma como têm vindo a ser noticiados estes "escândalos" é o modo como, incluindo no New York Times, se tem procurado atingir o Papa. Não tenho espaço, nem é relevante para esta discussão, para explicar as múltiplas deturpações e/ou omissões que têm permitido dirigir as setas das críticas contra Bento XVI, mas não posso deixar de recordar o que ele, primeiro como cardeal Ratzinger e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, depois como sucessor de João Paulo II, já fez neste domínio.

Até ao final do século XX o Vaticano não tinha qualquer responsabilidade no julgamento e punição dos padres acusados de abusos sexuais (e não apenas de pedofilia). A partir de 2001, por influência de Ratzinger, o Papa João Paulo II assinou um decreto - Motu proprio Sacramentorum Sanctitatis Tutela - de acordo com o qual todos os casos detectados passaram a ter de ser comunicados à Congregação para a Doutrina da Fé. Ratzinger enfrentou então muitas oposições, pois passou a tratar de forma muito mais expedita casos que, de acordo com instruções datadas de 1962, exigiam processos muito morosos. A nova política da Congregação para a Doutrina da Fé passou a ser a de considerar que era mais importante agir rapidamente do que preservar os formalismos legais da Igreja, o que lhe permitiu encerrar administrativamente 60 por cento dos casos e adoptar uma linha de "tolerância zero".

Depois, mal foi eleito Papa, Bento XVI continuou a agir com rapidez e, entre as suas primeiras decisões, há que assinalar a tomada de medidas disciplinares contra dois altos responsáveis que, há décadas, as conseguiam iludir por terem "protectores" nas altas esferas do Vaticano. A seguir escolheu os Estados Unidos - um dos países onde os casos de abusos cometidos por padres haviam atingido maiores proporções - para uma das suas primeiras deslocações ao estrangeiro e, aí (tal como, depois, na Austrália), tornou-se no primeiro chefe da Igreja de Roma a receber pessoalmente vítimas de abusos sexuais. Nessa visita não evitou o tema e referiu-se-lhe cinco vezes nas suas diferentes orações e discursos.

Agora, na carta que escreveu aos cristãos irlandeses, não só não se limitou a pedir perdão, como definiu claramente o comportamento dos abusadores como "um crime" e não apenas como "um pecado", ao contrário do que alguns têm escrito por Portugal. Ao aceitar a resignação do máximo responsável pela Igreja da Irlanda também deu outro importante sinal: a dureza com que o antigo responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé passou a tratar os abusadores tem agora correspondência na dureza com que o Papa trata a hierarquia que não soube tratar do problema e pôr cobro aos crimes.

De facto - e este aspecto é muito importante - a ocorrência destes casos de abusos sexuais obriga à tomada de medidas pelos diferentes episcopados. Quando isso acontece, a situação muda radicalmente. Nos Estados Unidos, país onde primeiro se conheceu a dimensão do problema, a Conferência de Dallas de 2002 adoptou uma "Carta para a Protecção de Menores de Abuso Sexual" que levaria à expulsão de 700 padres. No Reino Unido, na sequência do Relatório Nolan (2001), acabou-se de vez com a prática de tratar estes assuntos apenas no interior da Igreja, passando a ser obrigatório dar deles conta às autoridades judiciais. A partir de então, como notava esta semana, no The Times, William Rees-Mogg, a Igreja de Inglaterra e de Gales "optou pela reforma, pela abertura e pela perseguição dos abusadores em vez de persistir no segredo, na ocultação e na transferência de paróquia dos incriminados".

Bento XVI, que não despertou para este problema nas últimas semanas, não deverá precipitar decisões por causa desta polémica. No passado domingo, durante as cerimónias do Domingo de Ramos, pediu aos crentes para não se deixarem intimidar pelos "murmúrios da opinião dominante", e é natural que o tenha feito: se a Igreja tivesse deixado que a sua vida bimilenar fosse guiada pelo sentido volátil dos ventos há muito que teria desaparecido.

Ao mesmo tempo, como assinalava John L. Allen, jornalista do National Catholic Reporter, em coluna de opinião no New York Times, "para todos os que conhecem a experiência recente do Vaticano nesta matéria, Bento XVI não é parte do problema, antes poderá ser boa parte da solução".

Uma demonstração disso mesmo pode ser encontrada na sua primeira encíclica, Deus Caritas Est, de 25 de Dezembro de 2005, ano em que foi eleito. Boa parte dela ocupa-se da reconciliação, digamos assim, entre as concepções de "eros", o termo grego para êxtase sexual, e de "ágape", a palavra que o cristianismo adoptou para designar o amor entre homem e mulher. Se, como referia António Marujo na sua análise, o teólogo Hans Küng considera que existe uma "relação crispada" entre catolicismo e sexualidade, essa encíclica, ao recuperar o valor do "eros", mostra que Bento XVI conhece o mundo que pisa.

Por isso eu, que nem sou crente, fui informar-me sobre os casos e sobre a doutrina e escrevi este texto que, nos dias inflamados que correm, se arrisca a atrair muita pedrada. Ela que venha.

Oração de Pio XII pelas vocações sacerdotais

Ó Jesus, que na ternura do teu Coração divino deste o primeiro brado de compaixão pela pobre humanidade que suspira por um guia nos ásperos caminhos do mundo para a luz e para a vida, reveste de justiça os teus sacerdotes para que exultem os teus santos. Tu que conheces todos os corações, mostra quais são os escolhidos, a quem queres confiar o sublie ministério da verdade e do amor.
 
Ilumina a sua mente para que conheçam a inestimável graça da tua divina vocação; fortificai a sua vontade para que não se deixem vencer pela tibieza e pelos prazeres; não se acomodem à displicência dos divertimentos; não se afundem nos pantanais velados por nevoeiros da cobiça humana; não tremam diante do sacrifício, mas abram as asas e voem como águias reais para as alturas serenas e radiosas do teu eterno sacerdócio. Revela aos pais quanto é grande e incomparavelmente belo dar-te os próprios filhos, e conceder-lhes a força de vencer os afetos e interesses puramente humanos.
 
Inspira às almas generosas o desejo eficaz de socorrer caridosamente os teus escolhidos a quem a pobreza impede de seguir a tua voz.
 
Dá aos educadores as luzes necessárias para cultivarem em seus corações juvenis a delicada planta da sua vocação, até o dia em que possam subir, ardentes e puros, o teu santo altar. E então, ó Jesus, sejam eles verdadeiros anjos para o teu povo. Anjos de pureza, que ao teu amor divino posponham todo o outro amor humano, por terno e santo que seja. Anjos de caridade, que renunciem às doçuras da família terrena para formar outra família maior, da qual serão pais e pastores na qual os pequenos, os infelizes, os cansados, os abandonados serão objeto das suas predileções. Anjos de luz, que façam resplandecer uma fé profunda nas inteligências dos homens. Anjos de sacrifício, que como chamas de hoocausto se consumam pelo bem de seus irmãos. Anjos de conselho e de conforto, que os consolem na dor os sustentem nas lutas, e lhes apontem na hora angustiosa da dúvida a senda da virtude e do dever.
 
Anjos da graça, que purifiquem, elevem e unam as almas distribuindo-lhes o pão da vida. Anjos de paz, que no momento do último suspiro nelas derramem a suavidade inexpremivel do desejo do teu amor, e lhes abram no extase do teu ósculo divino as portas do céu onde tu és a luz e alegria infinita dos corações, por todos os séculos dos séculos. Amém.

Discurso do Papa Bento XVI aos Bispos da Regional Norte II da CNBB

Com júbilo, reproduzimos com destaques em preto e [comentários em vermelho]
(aos moldes do Pe. Z),o discurso do Papa Bento XVI aos bispos brasileiros da Regional Norte 2 da CNBB. Alegramo-nos muito em saber que nós, em nosso trabalho no Salvem a Liturgia, estamos andando no passo do Papa nesta seara.Cum Petro et sub Petro! Em nosso apostolado litúrgico queremos sempre ter o Papa como nosso modelo.


***

Amados Irmãos no Episcopado,

A vossa visita ad Limina tem lugar no clima de louvor e júbilo pascal que envolve a Igreja inteira, adornada com os fulgores da luz de Cristo Ressuscitado. Nele, a humanidade ultrapassou a morte e completou a última etapa do seu crescimento penetrando nos Céus (cf. Ef 2, 6). Agora Jesus pode livremente retornar sobre os seus passos e encontrar-Se como, quando e onde quiser com seus irmãos. Em seu nome, apraz-me acolher-vos, devotados pastores da Igreja de Deus peregrina no Regional Norte 2 do Brasil, com a saudação feita pelo Senhor quando se apresentou vivo aos Apóstolos e companheiros: «A paz esteja convosco» (Lc 24,36).

A vossa presença aqui tem um sabor familiar, parecendo reproduzir o final da história dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 33-35): viestes narrar o que se passou no caminho feito com Jesus pelas vossas dioceses disseminadas na imensidão da região amazônica, com as suas paróquias e outras realidades que as compõe como os movimentos e novas comunidades e as comunidades eclesiais de base em comunhão com o seu bispo (cf. Documento de Aparecida, 179). Nada poderia alegrar-me mais do que saber-vos em Cristo e com Cristo, como testemunham os relatórios diocesanos que me enviastes e que vos agradeço. Reconhecido estou de modo particular a Dom Jesus Maria pelas palavras que acaba de me dirigir em nome vosso e do povo de Deus a vós confiado, sublinhando a sua fidelidade e adesão a Pedro. No regresso, assegurai-o da minha gratidão por tais sentimentos e da minha Bênção, acrescentando: «Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão» (Lc 24,34).

Nesta aparição, palavras - se as houve - diluíram-se na surpresa de ver o Mestre redivivo, cuja presença diz tudo: Estive morto, mas agora vivo e vós vivereis por Mim (cf. Ap 1,18). E, por estar vivo e ressuscitado, Cristo pode tornar-Se «pão vivo» (Jo 6, 51) para a humanidade. Por isso sinto que o centro e a fonte permanente do ministério petrino estão na Eucaristia, coração da vida cristã, fonte e vértice da missão evangelizadora da Igreja. Podeis assim compreender a preocupação do Sucessor de Pedro por tudo o que possa ofuscar o ponto mais original da fé católica: hoje Jesus Cristo continua vivo e realmente presente na hóstia e no cálice consagrados.

Uma menor atenção que por vezes é prestada ao culto do Santíssimo Sacramento é indício e causa de escurecimento do sentido cristão do mistério, como sucede quando na Santa Missa já não aparece como proeminente e operante Jesus, mas uma comunidade atarefada com muitas coisas em vez de estar recolhida e deixar-se atrair para o Único necessário: o seu Senhor [Por isso nossa ênfase no Salvem a Liturgia em sinais sensíveis: paramentos, crucifixos, candelabros, que apontem para o sentido real da liturgia eucarística]. Ora, a atitude primária e essencial do fiel cristão que participa na celebração litúrgica não é fazer, mas escutar, abrir-se, receber… É óbvio que, neste caso, receber não significa ficar passivo ou desinteressar-se do que lá acontece, mas cooperar – porque tornados capazes de o fazer pela graça de Deus – segundo «a autêntica natureza da verdadeira Igreja, que é simultaneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na ação e dada à contemplação, presente no mundo e, todavia, peregrina, mas de forma que o que nela é humano se deve ordenar e subordinar ao divino, o visível ao invisível, a ação à contemplação, e o presente à cidade futura que buscamos» (Const. Sacrosanctum Concilium, 2). Se na liturgia não emergisse a figura de Cristo, que está no seu princípio e está realmente presente para a tornar válida, já não teríamos a liturgia cristã, toda dependente do Senhor e toda suspensa da sua presença criadora.

Como estão distantes de tudo isto quantos, em nome da inculturação, decaem no sincretismo introduzindo ritos tomados de outras religiões ou particularismos culturais na celebração da Santa Missa (cf. Redemptionis Sacramentum, 79)! O mistério eucarístico é um «dom demasiado grande – escrevia o meu venerável predecessor o Papa João Paulo II – para suportar ambigüidades e reduções», particularmente quando, «despojado do seu valor sacrificial, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro fraterno ao redor da mesa» (Enc. Ecclesia de Eucharistia, 10). Subjacente a várias das motivações aduzidas, está uma mentalidade incapaz de aceitar a possibilidade duma real intervenção divina neste mundo em socorro do homem. Este, porém, «descobre-se incapaz de repelir por si mesmo as arremetidas do inimigo: cada um sente-se como que preso com cadeias» (Const. Gaudium et spes, 13). A confissão duma intervenção redentora de Deus para mudar esta situação de alienação e de pecado é vista por quantos partilham a visão deísta como integralista, e o mesmo juízo é feito a propósito de um sinal sacramental que torna presente o sacrifício redentor. Mais aceitável, a seus olhos, seria a celebração de um sinal que corresponda a um vago sentimento de comunidade.

Mas o culto não pode nascer da nossa fantasia; seria um grito na escuridão ou uma simples auto-afirmação[por isso, pedir fidelidade às rubricas não é "rubricismo", mas um desejo de uma mística mais profunda na vida dos cristãos]. A verdadeira liturgia supõe que Deus responda e nos mostre como podemos adorá-Lo. «A Igreja pode celebrar e adorar o mistério de Cristo presente na Eucaristia, precisamente porque o próprio Cristo Se deu primeiro a ela no sacrifício da Cruz» (Exort. ap. Sacramentum caritatis, 14). A Igreja vive desta presença e tem como razão de ser e existir ampliar esta presença ao mundo inteiro.



«Fica conosco, Senhor!» (cf. Lc 24, 29): estão rezando os filhos e filhas do Brasil a caminho do XVI Congresso Eucarístico Nacional, daqui a um mês em Brasília, que deste modo verá o jubileu áureo da sua fundação enriquecido com o "ouro" da eternidade presente no tempo: Jesus Eucaristia. Que Ele seja verdadeiramente o coração do Brasil, donde venha a força para todos homens e mulheres brasileiros se reconhecerem e ajudarem como irmãos, como membros do Cristo total. Quem quiser viver, tem onde viver, tem de que viver. Aproxime-se, creia, entre a fazer parte do Corpo de Cristo e será vivificado! Hoje e aqui, tudo isto desejo à esperançosa parcela deste Corpo que é o Regional Norte 2, ao conceder a cada um de vós, extensiva a quantos convosco colaboram e a todos os fiéis cristãos, a Bênção Apostólica. [Amém!]

Posted via email from Allan Lopes

“O culto não pode nascer da nossa fantasia” – Bento XVI


via Deus lo Vult! de Jorge Ferraz em 15/04/10


Se na liturgia não emergisse a figura de Cristo, que está no seu princípio e está realmente presente para a tornar válida, já não teríamos a liturgia cristã, toda dependente do Senhor e toda suspensa da sua presença criadora.
Como estão distantes de tudo isto quantos, em nome da inculturação, decaem no sincretismo introduzindo ritos tomados de outras religiões ou particularismos culturais na celebração da Santa Missa (cf. Redemptionis Sacramentum, 79)! O mistério eucarístico é um «dom demasiado grande – escrevia o meu venerável predecessor o Papa João Paulo II Ecclesia de Eucharistia, 10). Subjacente a várias das motivações aduzidas, está uma mentalidade incapaz de aceitar a possibilidade duma real intervenção divina neste mundo em socorro do homem. Este, porém, «descobre-se incapaz de repelir por si mesmo as arremetidas do inimigo: cada um sente-se como que preso com cadeias» (Const. Gaudium et spes, 13). A confissão duma intervenção redentora de Deus para mudar esta situação de alienação e de pecado é vista por quantos partilham a visão deísta como integralista, e o mesmo juízo é feito a propósito de um sinal sacramental que torna presente o sacrifício redentor. Mais aceitável, a seus olhos, seria a celebração de um sinal que corresponda a um vago sentimento de comunidade. – para suportar ambigüidades e reduções», particularmente quando, «despojado do seu valor sacrificial, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro fraterno ao redor da mesa» (Enc.
Mas o culto não pode nascer da nossa fantasia; seria um grito na escuridão ou uma simples auto-afirmação. A verdadeira liturgia supõe que Deus responda e nos mostre como podemos adorá-Lo. «A Igreja pode celebrar e adorar o mistério de Cristo presente na Eucaristia, precisamente porque o próprio Cristo Se deu primeiro a ela no sacrifício da Cruz» (Exort. ap. Sacramentum caritatis, 14). A Igreja vive desta presença e tem como razão de ser e existir ampliar esta presença ao mundo inteiro.
In Corde IESU,
Allan Lopes.
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