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Uma revolução igualitária movida pela inveja

Dr. Plínio Correa de Oliveira

Revolução Francesa! O tema ocupou as páginas de nossa revista, ininterruptamente de maio a dezembro de 1989, e em fevereiro do presente ano, a propósito das comemorações do bicentenário daquele trágico evento. Fatos diversos e centrais do período revolucionário (1789-1815) foram aqui lembrados, bem como noticiadas as comemorações realizadas no ano passado, sobretudo na França.
Hoje, apresentamos aos leitores uma análise do que foi o espírito da Revolução Francesa, e do modo pelo qual foi ela discutida desde seu desencadear até nossos dias.
O presente trabalho — o qual nos desvenda, em profundidade, o motor da Revolução Francesa — é o resultado de anotações extraídas de uma penetrante conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, proferida para sócios e cooperadores da TFP, em 23 de agosto do ano passado.
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Lutero pensa que é divino!


Não compreendo como homens da Igreja contemporâneos, inclusive dos mais cultos, doutos ou ilustres, mitifiquem a figura de Lutero, o heresiarca, no empenho de favorecer uma aproximação ecumênica, de imediato com o protestantismo, e indiretamente com todas as religiões, escolas filosóficas, etc.Não discernem eles o perigo que a todos nos espreita, no fim deste caminho, ou seja, a formação, em escala mundial, de um sinistro supermercado de religiões, filosofias e sistemas de todas as ordens, em que a verdade e o erro se apresentarão fracionados, misturados e postos em balbúrdia? Ausente do mundo só estaria – se até lá se pudesse chegar – a verdade total; isto é, a fé católica apostólica romana, sem nódoa nem jaça.
Sobre Lutero – a quem caberia, sob certo aspecto, o papel de ponto de partida nessa caminhada para a balbúrdia total – publico hoje mais alguns tópicos que bem mostram o odor que sua figura revoltada espargiria nesse supermercado, ou melhor, nesse necrotério de religiões, de filosofias, e do próprio pensamento humano.
Segundo em anterior artigo prometi, tiro-os da magnífica obra do padre Leonel Franca S. J., "A Igreja, a Reforma e a Civilização" (Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 3ª ed., 1934, 558 pp.).
Elemento absolutamente característico do ensinamento de Lutero é a doutrina da justificação independente das obras. Em termos mais chãos, que os méritos superabundantes de Nosso Senhor Jesus Cristo só por si asseguram ao homem a salvação eterna. De sorte que se pode levar nesta terra uma vida de pecado, sem remorsos de consciência, nem temor da justiça de Deus.
A voz da consciência era, para ele, não a da graça, mas a do demônio!
  1. Por isso escreveu a um amigo que o homem vexado pelo demônio, de quando em quando "deve beber com mais abundância, jogar, divertir-se e mesmo fazer algum pecado em ódio e acinte ao diabo, para lhe não darmos azo de perturbar a consciência com ninharias (...) Todo o decálogo se nos deve apagar dos olhos e da alma, a nós tão perseguidos e molestados pelo diabo"(M. Luther, "Briefe, Sends breiben und Bedenken", e. De Wette, Berlim, 1825-1828 – cfr. op. cit., pp. 199-200).
  2. Neste sentido, escreveu ele também: "Deus só te obriga a crer e a confessar.Em todas as outras coisas te deixa livre e senhor de fazeres o que quiseres, sem perigo algum de consciência; antes é certo que, de si, Ele não se importa, ainda mesmo se deixasses tua mulher, fugisses do teu senhor e não fosses fiel a vínculo algum. E que se lhe dá (a Deus), se fazes ou deixas de fazer semelhantes coisas?"("Werke", ed. de Weimar, 12, pp. 131 ss. – cfr. op. cit., p. 446).
  3. Talvez ainda mais taxativo é este incitamento ao pecado, em carta a Melanchton, de 1º de agosto de 1521: "Sê pecador, e peca a valer (esto peccator et pecca fortiter), mas com mais firmeza ainda crê e alegra-te em Cristo, vencedor do pecado, da morte e do mundo. Durante a vida presente devemos pecar. Basta que pela misericórdia de Deus conheçamos o Cordeiro que tira os pecados do mundo. Dele não nos há de separar o pecado, ainda que cometêssemos por dia mil homicídios e mil adultérios"(Briefe, Sendschreiben und Bedenken", ed. De Wette, 2, p. 37 – cfr. op. cit. p. 439).
  4. Tão descabelada é esta doutrina, que o próprio Lutero a duras custas nela conseguia acreditar: "Nenhuma religião há, em toda a terra, que ensine esta doutrina da justificação; eu mesmo, ainda que a ensine publicamente, com grande dificuldade a creio em particular"( Werke", ed. de Weimar, 25, p. 330 – cfr. op. cit., p. 158).
  5. Mas os efeitos devastadores da pregação assim confessadamente insincera de Lutero, ele mesmo os reconhecia: "O Evangelho hoje em dia encontra aderentes que se persuadem não ser ele senão uma doutrina que serve para encher o ventre e dar larga a todos os caprichos"("Wekw", ed. de Weimar, 33, p. 2 – cfr. po. cit., p. 212).
  6. E Lutero acrescentava, acerca de seus sequazes evangélicos, que "são sete vezes piores que outrora. Depois da pregação da nossa doutrina, os homens entregaram-se ao roubo, à mentira, à impostura, à crápula, à embriaguez e a toda espécie de vícios. Expulsamos um demônio (o papado) e vieram sete piores"("Werke", ed. de Weimar, 28, p. 763 – cfr. op. cit., p. 440).
    "Depois que compreendemos não serem as boas obras necessárias para a justificação, ficamos muito mais remissos e frios na prática do bem (...) E se hoje se pudesse voltar ao antigo estado de coisas, se de novo revivesse a doutrina que afirma a necessidade do bem fazer para ser santo, outra seria a nossa alacridade e prontidão no exercício do bem"("Werke", ed. de Weimar, 27, p. 443 – cfr. op. cit., p. 441).
  7. Todas essas insânias explicam que Lutero chegasse ao frenesi do orgulho satânico, dizendo de si mesmo: "Este Lutero não vos parece um homem extravagante? Quanto a mim, penso que ele é Deus. Senão, como teriam os seus escritos e o seu nome a potência de transformar mendigos em senhores, asnos em doutores, falsários em santos, lodo em pérolas!" (Ed. Wittemberg, 1551, t. 4, p. 378 – cfr. op. cit., p. 190).
  8. Em outros momentos, a opinião que Lutero tinha de si mesmo era muito mais objetiva: "Sou um homem exposto e implicado na sociedade, na crápula, nos movimentos carnais, na negligência e em outras moléstias, a que se vêm ajuntar as do meu próprio ofício"("Briefe, Sendschreiben und Bedenken", ed. De Wette, 1, p. 232 – cfr. op. cit., p. 198). Excomungado em Worms em 1521, Lutero entregou-se ao ócio e à moleza. E a 13 de julho escreveu a outro prócer protestante, Melanchton: "Eu aqui me acho, insensato e endurecido, estabelecido no ócio, oh dor!, rezando pouco, e deixando de gemer pela Igreja de Deus, porque nas minhas carnes indômitas ardo em grandes labaredas. Em suma, eu que devo ter o fervor do espírito, tenho o fervor da carne, da libidinagem, da preguiça, do ócio e da sonolência"(Briefe, Sendscheiben und Bedenken", ed. De Wette, 2, p. 22 – cfr. op. cit. p. 198).
Num sermão pregado em 1532: "quanto a mim confesso – e muitos outros poderiam sem dúvida fazer igual confissão – que sou desleixado assim na disciplina como no zelo, sou muito mais negligente agora que sob o papado; ninguém tem agora pelo Evangelho o ardor que se via outrora" ("Saemtliche Werke", ed. de Plochman-Irmischer, 28 (2), p. 353 – cfr. op. cit. p. 441).

O que de comum se pode encontrar, pois, entre esta moral, e a da Santa Igreja Católica Apostólica Romana?

São Tomás de Vilanova, O anti-Lutero

Quase na mesma época em que um ex-frade agostiniano, Martinho Lutero, pervertia a Alemanha com sua pseudo-reforma, outro agostiniano, São Tomás de Vilanova, promovia com firmeza a verdadeira reforma religiosa e de costumes na Espanha
Plinio Maria Solimeo
São Tomás de Vilanova nasceu em Fuenllana (Espanha) no ano de 1488 e criou-se em Villanueva de los Infantes, de onde tomou seu nome ao entrar na Ordem dos Agostinianos.
Seus pais, Alonso Tomás Garcia e Lucia Martinez de Castellanos, emulavam nas obras de caridade. Socorriam a toda espécie de necessidades e eram conhecidos na região como “os santos esmoleres”.
Tomás herdou dos pais essa virtude. Dava a seus coleguinhas mais necessitados tudo o que podia, inclusive suas próprias vestes e calçados. Um dia em que os pais não estavam em casa, chegaram seis pobres pedindo esmola. O menino, não encontrando nada para dar-lhes, foi ao galinheiro e pegou seis franguinhos, dando a cada um dos pobres um destes. E disse à mãe que, se houvesse mais um pobre, ter-lhe-ia dado também a galinha.
Seguindo o exemplo da mãe, desde muito cedo começou a jejuar, não só nos dias prescritos pela Igreja, como também em outros de sua devoção. Flagelava-se e fazia outras sortes de penitências como se fosse um adulto. Diz um seu biógrafo que Tomás “começou a praticar a mortificação a fim de fazer sentir à sua carne as dores da penitência, mesmo antes que ela fosse suscetível aos prazeres da concupiscência”.(1) Seu confessor, o Padre Tiago Montiel, depôs publicamente que ele guardou a inocência batismal até o túmulo.
Estudante modelar na universidade de Alcalá
Aos 15 anos, os pais enviaram-no à famosa Universidade de Alcalá, para cursar humanidades, retórica, filosofia e teologia.
Ele o fez com tanto sucesso, nos nove anos de estudos naquela instituição, que era aclamado por todo mundo. Mas sua virtude era ainda mais notável que sua ciência. Apesar do sucesso que obtinha, jamais perdeu sua modéstia e humildade, aceitando os elogios como se não fosse ele que estivesse em foco.
Aos 17 anos, a morte de seu pai obrigou-o a voltar temporariamente para casa, a fim de pôr em ordem os assuntos domésticos. Coube-lhe por herança uma grande residência, que transformou em hospital para os pobres. Sua mãe cumpriu sua vontade, encerrando-se ela mesma no hospital, para passar os seus anos de viuvez a serviço dos pobres.
De professor de filosofia a frade agostiniano
Voltando para Alcalá, passou a ensinar filosofia na Universidade aos 26 anos.Mas outras eram suas preocupações. Havia muito vinha ele pensando em consagrar-se inteiramente a Deus, mediante a vida religiosa. Por isso, deixou as glórias do mundo, pelo hábito agostiniano, fazendo sua profissão solene em 1517. É sintomático que neste mesmo ano, Lutero, ainda frade agostiniano, iniciou sua rebelião contra a Igreja Católica, afixando na porta da capela do Príncipe Eleitor da Saxônia, na cidade de Wittenberg, suas 95 proposições.Dentro da mesma Ordem, outro frade agostiniano, com sua profissão religiosa, iniciaria uma obra restauradora da fé e dos bons costumes — uma autêntica reforma — na Espanha. Tarefa completada posteriormente por Frei Tomás, como santo Arcebispo da cidade de Valência.
Ordenado sacerdote algum tempo depois, celebrou sua primeira Missa no dia de Natal, entrando em êxtase ao cantar o Glória. Ele conservaria para sempre uma terna devoção à Divina Infância e ao Santo Sacrifício do altar. Costumava dizer que é péssimo sinal para um sacerdote, quando ele é visto celebrar a Missa todos os dias sem se tornar melhor nem mais mortificado.
Não perdia um minuto durante o dia. Podia ser encontrado nos cinco diferentes lugares, que consagrou às cinco chagas de Cristo: no altar, no coro, em sua cela, na biblioteca ou na enfermaria, cuidando dos doentes.
O Santo não podia ver um religioso ocioso e inútil, comparando-o a um soldado sem armas e exposto ao ataque de seus inimigos.
Dizia que a ciência e grande erudição, sem a piedade, é como uma espada na mão de uma criança, arma que pode feri-la, pois não tira proveito daqueles dons de ciência para ninguém. Criticava também os religiosos que, sob pretexto de devoção, não se aplicavam suficientemente ao estudo.
Outro São Paulo ou Santo Elias
Designado à pregação, ele a fazia com tanto empenho, que o consideravam um outro São Paulo, pela profundidade de sua doutrina, ou um outro Elias da nova Lei, por causa do zelo que demonstrava em seus sermões. Reformou de tal maneira Salamanca que, segundo voz corrente, a cidade se havia tornado um mosteiro. Muitos jovens renunciaram ao mundo para seguir a Deus. O próprio Imperador Carlos V quis ouvi-lo, e depois escolheu-o para seu pregador. E quando Tomás pregava fora do palácio, o Rei ia disfarçado para ouvi-lo.
O santo não aprovava os pregadores que, para dar mostras de erudição, faziam longos e prolixos sermões. “É na oração, dizia ele, que o homem recebe as luzes que iluminam seu espírito e os ardores que aquecem sua vontade”. E é a esses sentimentos que se deve procurar levar o auditório.
Por uma visão interior, conhecia as necessidades espirituais de seus ouvintes, e o mais admirável era que, por mais diferentes que fossem seus interlocutores, todos saíam com maior piedade após ouvir seu sermão.
Preguiça e ociosidade: inimigas da virtude
Tomás foi eleito prior de Burgos e Valladolid, e duas vezes provincial da Andaluzia e uma de Castela. No governo de seus súditos, sua mansidão de coração e o atrativo de sua pessoa constituíam poderosas armas para exercer sua autoridade.
Nos seus conventos, desejava primeiro que os ofícios divinos fossem celebrados com toda a reverência e atenção possíveis; em segundo lugar, que os religiosos considerassem a meditação e a leitura espiritual como coisas invioláveis; terceiro, que a paz e a união na caridade fraterna fossem guardadas sem nenhuma alteração; e finalmente, que ninguém fosse dominado pela preguiça ou pelo ócio, vícios que são os maiores inimigos da virtude, a ruína da alma, o sorvedouro da castidade e a fonte de todas as desordens.
Com tais normas, fez ele florescer a observância em todas as casas sob sua jurisdição, ou seja, promoveu uma verdadeira reforma no sentido católico do termo.
Arcebispo de Valência, por inspiração divina
Carlos V já tentara inutilmente fazer Frei Tomás aceitar a Sé de Granada.Vagando a de Valência, o Imperador escolheu para o cargo um monge jerônimo.Entretanto, seu secretário apresentou-lhe o documento para assinar em nome de Frei Tomás de Vilanova. O Imperador perguntou por que havia o secretário alterado suas ordens. “Como, majestade! Eu ouvi claramente que vós dizíeis Frei Tomás de Vilanova. Entretanto, é fácil reparar, pois é só refazer o documento”. —“Não, respondeu o Imperador, o que está escrito permanecerá; vós fizestes melhor do que eu disse; ou eu disse melhor o que não pensava. É a mão de Deus”.
Compelido pela santa obediência e ameaçado de excomunhão, caso não aceitasse o cargo, Frei Tomás teve que curvar a cabeça e conformar-se com os desígnios da Providência. Tinha ele então 56 anos.
Pôs-se a caminho, a pé, acompanhado apenas de um frade e dois criados. Ora, estava havendo uma seca muito grande em Valência, mas a chegada do novo arcebispo ocorreu debaixo de chuva, o que muitos interpretaram como sinal das bênçãos que deveria trazer sua administração à arquidiocese.
Conservou como arcebispo seu hábito religioso, que ele mesmo remendava. O cabido da arquidiocese fez-lhe presente de quatro mil ducados, para que comprasse trajes mais condizentes com seu posto. Imediatamente enviou-os ao hospital, agradecendo muito ao cabido e dizendo que o bem que era feito aos doentes ele o tomava como para si.
Começou sua administração pela visita pastoral à sua circunscrição eclesiástica, pregando por toda parte, resolvendo litígios, reformando conventos, extirpando os vícios. Promoveu um sínodo para acabar com muitos abusos e reformar o clero. Os cônegos do cabido recalcitraram e apelaram ao Papa, alegando que deste dependiam diretamente. “Eles não querem obedecer ao meu sínodo e apelam ao Papa; e eu, eu apelo de sua resistência a Nosso Senhor Jesus Cristo. Que eles escapem, se quiserem, à minha justiça, mas não escaparão da d’Ele”. Isso foi suficiente para dobrar o cabido, que se submeteu.
São Tomás teve também que enfrentar o governador que, intrometendo-se na esfera eclesiástica, quis julgar e condenar dois clérigos antes que eles comparecessem ante o tribunal eclesiástico. Como o governador não quis voltar atrás, lançou contra ele as censuras eclesiásticas. O caso foi parar no Vice-Rei, que teve também que ceder diante da tenacidade do santo prelado.
Extraordinária caridade e milagres
A caridade de D. Tomás era insuperável. Atendia diariamente no palácio a mais de 500 pobres, não importava a hora do dia ou da noite em que acorressem pedindo seu auxílio. Freqüentemente acompanhava seus atos de caridade com milagres. A um paralítico que lhe pedia esmola, perguntou se preferia trabalhar e ganhar o sustento com as próprias mãos. À resposta afirmativa, ele lhe disse:“Em nome de Jesus Crucificado, deixa tuas muletas e anda”. No mesmo instante, o pobre começou a andar e a agradecer.
São Tomás de Vilanova tinha arroubos e êxtases em público, diante de seus diocesanos, o que contribuía para aumentar a veneração que por ele sentiam.Seus milagres também eram conhecidos por todo mundo.
Entretanto, como ele dizia, nunca temera tanto salvar-se como desde o momento em que se tornou arcebispo. Isso, devido às responsabilidades que lhe cabiam, pelo bem das almas de todos seus diocesanos. Por essa razão, aspirava ardentemente a renunciar ao cargo e voltar para sua cela de religioso.
Enfim, quando ele suplicava com lágrimas a Nosso Senhor que o livrasse desse pesado fardo, o Crucificado lhe respondeu: “Tenha ânimo, que no dia do nascimento de minha Mãe virás descansar”.
E no dia 8 de setembro de 1555, foi ele receber o prêmio demasiadamente grande de sua fidelidade.(2)
E-mail do autor: pmsolimeo@uol.com.br

“Neo-maoização” da China


Em julho último, o presidente chinês Xi Jinping peregrinou até a luxuosa casa de campo às margens de um lago, onde Mao Zedong passava suas férias nos anos 1950 enquanto ordenava exterminar classes sociais inteiras. Para Xi, o sítio de lazeres do cruel líder comunista deveria ser declarado centro de educação da juventude no espírito da revolução.

Com efeito, a retórica “mística” maoísta de Xi vem se reforçando nos últimos meses, constatou reportagem do “The Wall Street Journal”.

Ele se vale do “livro vermelho” de Mao para fazer um expurgo no Partido Comunista Chinês, além de montar um cerco a princípios como democracia, Estado de direito e aplicação da Constituição.

Visando reforçar o espírito igualitário intrínseco ao comunismo, o presidente ordenou que os generais e os membros mais antigos do governo trabalhem como domésticos pelo período mínimo de cinco dias a fim de aprenderem a se reconectar com as “massas”. A atitude de Xi parece decisiva, pois a China está entrando numa crise econômica e pipocam as revoltas populares.

Para Xi Jinping que passa horas lendo livros de teoria marxista e maoista, “isto é apenas o início”. Em dezembro passado, ele declarara que a União Soviética havia entrado em colapso pela falta de convicção ideológica marxista de seus líderes e pelo fato de não haver um “homem” para estancar o processo de liberalização.

Ele tem a pretensão de ser o “homem” que impedirá qualquer abrandamento de uma ditadura que já ceifou pelo menos cem milhões de vidas da sofrida nação chinesa...

Verdades esquecidas, na consideração da natureza

AMBIENTES, COSTUMES, CIVILIZAÇÕES




Toda a natureza nos fala de Deus, e da lei moral por Ele instituída para o homem.
É esta uma verdade muito conhecida, mas da qual habitualmente só se fazem aplicações unilaterais. A influência do sentimentalismo nos leva a omitir os aspectos da natureza que instruem o homem sobre a beleza da coragem, da audácia e de todos os predicados, enfim, que ele deve possuir na luta, - na luta que, quando voltada contra o mal, constitui dever sublime. E o liberalismo nos impede de dar a devida atenção a todos os aspectos da natureza que nos trazem à mente a própria noção de mal.
Ora, quanto nos fala a respeito de um ou outro ponto o reino animal! Não que os animais sejam capazes de vícios ou virtudes. Nem que neles possa haver algum princípio bom ou mau que transcenda de qualquer forma a sua natureza de simples animais. A serpente, por exemplo, é uma criatura de Deus absolutamente tão boa quanto o cordeiro. E isto não obstante, a primeira, por uma série de riquíssimas analogias, por sua falsidade, sua nocividade para o homem, sua marcha rastejante e seu poder de sedução, é utilizada como símbolo adequado da vilania e da maldade, tendo até por meio dela o demônio falado a Eva; - e o cordeiro, também por uma série de analogias riquíssimas, por sua alvura, sua mansidão, sua inocência, é tido como símbolo adequado de Nosso Senhor Jesus Cristo e do cristão. Os animais, todos igualmente bons como obras de Deus, nos instruem sobre o bem e o mal, para que amemos àquele e odiemos a este. Mas em qualquer caso são meros animais.
Perdoem-nos os leitores a banalidade desta última asserção. Hoje em dia a confusão dos conceitos é tal, que é sempre melhor dizer-se que a água é água e não pólvora ou granito, quando se conta a alguém que se vai tomar um copo de água...
Este falcão, que baixa majestoso sobre um coelho que foge espavorido, nos faz sentir a forte e nobre beleza da luta, por ser um admirável símbolo das virtudes do guerreiro: calma, força, agilidade e precisão. Ele se move no ar com um equilíbrio, um "à vontade" tal, que se diria que a lei da gravidade para ele não existe. Sua velocidade está proporcionada de tal maneira à do coelho, que o atingirá forçosamente. Suas garras possantes já estão abertas, seu bico também, mas no auge do ataque ele mantém uma sobranceria simbolizada de modo admirável pelas asas nobremente abertas num vôo que se diria idealmente sereno.
Ai, dirá um sentimental, e o pobre coelhinho, será lícito ao falcão agredi-lo?Não se irrite demais esse sentimental, nem com o falcão, nem com a nossa resposta: é por vontade de Deus que os bichos se comem uns aos outros. E que os falcões comem coelhos... Não se deve ver um bicho que devora outro, como se veria um antropófago.
Deus, que manda aos homens que se amem uns aos outros, manda neste vale de lágrimas aos animais, que se entredevorem, e nos permite que comamos os animais. E com isto ensina aos homens que eles são incomensuravelmente mais do que simples animais.
Deus não é igualitário... outra grande, muita grande lição.
Haverá algo que nos faça sentir melhor o horror da cupidez, do orgulho, da falsidade, do que a "fisionomia" da segunda foto? A "fronte" baixa e fugidia, o porte orgulhoso da cabeça, o olhar frio e "desalmado", a boca desdenhosa, o bico adunco e agressivo, uma mobilidade terrível que parece toda feita para atacar, tudo enfim incute horror, neste abutre.
Horror, do que? Do mal moral, que nos afasta de Deus.
Um liberal não gosta de pensar nisto. E é porque muitos homens não são propensos a admitir a existência do mal, que Deus os instrui por símbolos como este.
E assim, ao considerar a natureza, se aprende a não ser, nem sentimental, nem liberal.

Entrevista: “A melhor resposta ao império do dinheiro é a lei da honra”

Revista Catolicismo | Retorno à ordem cristã para superar uma economia baseada na “intemperança frenética” — espírito inquieto e precipitado que provoca violenta aceleração no ritmo de vida.
John Horvat:

“A família surge de alguns princípios gerais que se fundam no Direito natural, como seu caráter de união monogâmica entre pessoas de sexos opostos”
O Sr. John Horvat II é pesquisador, educador, palestrante internacional, articulista e autor do livro Retorno à ordem, lançado recentemente nos Estados Unidos pela Sociedade Americana de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), da qual é vice-presidente e diretor do website (www.tfp.org).
Seus escritos têm sido reproduzidos em publicações como “The Wall Street Journal”, “FOX News”, “The Christian Post”, “The Washington Times”, “ABC News”, “C-SPAN”, além de outros órgãos de imprensa e sites.
As pesquisas, escritos e conferências do Sr. Horvat sobre a crise sócio-econômica dos Estados Unidos se estendem por mais de duas décadas, culminando no lançamento de sua obra inovadoraRetorno à ordem, útil não só para os americanos, mas para todos os nossos contemporâneos.
O Sr. Horvat reside na sede da TFP americana em Spring Grove, Pennsylvania, onde lidera a Comissão de Estudos Americanos Tradição, Família e Propriedade. Foi nessa bela propriedade que ele concedeu a presente entrevista a Catolicismo, na qual responde a questões sobre temas tratados no referido livroEle defende que não bastam as leis para a solução dos graves problemas de nosso século, como os econômicos, mas cumpre restaurar os valores culturais, morais e religiosos, como, por exemplo, a prática das virtudes cardeais e a consideração da lei natural. 
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Catolicismo — O que há de novo na solução proposta em seu livroRetorno à ordem?
John Horvat Quando a maior parte das pessoas excogita soluções, pensa em termos de sistema, isto é, em um plano a ser posto em prática para resolver todos os problemas. As soluções propostas no livro Retorno à ordem partem de um pressuposto totalmente diferente. Elas são orgânicas e derivam de alguns princípios básicos da Lei natural e da doutrina católica. Porém, tais princípios se desenvolvem depois de maneira imprevisível, adaptando-se às circunstâncias concretas de cada realidade, muito variáveis. Não é um sistema rígido, uma espécie de plano quinquenal socialista que impõe uma série de normas e regulamentos para a sociedade inteira. Não é uma solução planejada sobre uma mesa. Eis o aspecto novo e, ao mesmo tempo, antigo das soluções propostas no livro. Propomos soluções que levam em consideração o lado humano das coisas, ou seja, soluções flexíveis, mas, ao mesmo tempo, com uma base sólida.

 Catolicismo — Poderia dar um exemplo de uma solução cristã orgânica?
John Horvat Vem-me à mente a família. Não se pode inventar um novo tipo de família e impô-la a um povo. A família surge de alguns princípios gerais que se fundam no Direito natural, de onde provém o seu caráter de união monogâmica entre pessoas de sexos opostos.

 Catolicismo — O que não funciona no atual sistema econômico?
John Horvat — Hoje, temos um tipo de economia constantemente voltado para o frenesi. É o que chamamos de “intemperança frenética”, um termo cunhado para descrever o espírito inquieto e precipitado que domina atualmente vários setores da economia. Tal espírito anula toda restrição legítima e visa somente satisfazer as paixões desordenadas.
A crise das hipotecas anterior a 2008 é um exemplo. Bastou que a bolha se desinflasse e os juros aumentassem para que o sistema viesse abaixo

“A economia tornou-se fria e impessoal, veloz e frenética, mecânica e inflexível. Cumpre reintroduzir o elemento humano na economia e na sociedade”
A intemperança frenética produz não só avidez e ambição, mas também uma expansão explosiva de desejos humanos além do limite da razão e da moral. Leva a realizar atividades econômicas que anulam a própria ideia de moderação e os valores espirituais, religiosos, morais e culturais que normalmente deveriam temperá-las, introduzindo um elemento quase irracional, causador de relações agitadas, especulação e risco exagerado.
É impossível resolver nossos problemas econômicos com leis ou com regras. O problema está no homem, em sua alma. A única resposta real à intemperança frenética é um retorno à temperança. E isto exige uma conversão espiritual.

Catolicismo — Poderia citar um exemplo do que o Sr. denomina “intemperança frenética”?
John Horvat — Nos Estados Unidos, a crise das hipotecas anterior a 2008 é um exemplo. A fim de adquirir uma casa a qualquer custo — a famosa bolha imobiliária — um número enorme de pessoas fez uma hipoteca bancária sem ter como pagá-la. Pensando apenas no lucro, os banqueiros não se preocuparam em controlar os riscos. Vieram em seguida os operadores financeiros, introduzindo essa hipoteca má em pacotes de títulos para revender aos investidores. A prudência foi literalmente atirada às urtigas. Bastou que a bolha se desinflasse e os juros aumentassem para que o sistema viesse abaixo.
Apreciamos o uísque, o queijo Camembert e o champanhe, por entender que constituem expressões de cultura local

“Nos dias de hoje, comecemos por difundir na sociedade princípios, valores morais e veremos como a influência do dinheiro começará a desaparecer”
A intemperança frenética tende a eliminar toda restrição, visando somente vantagens e interesses pessoais. Ora, são exatamente essas restrições de ordem moral que devem temperar a economia, humanizando-a e mantendo-a no limite do razoável. Por outro lado, a intemperança frenética provoca uma violenta aceleração no ritmo de vida, que ela tende a manter anulando o elemento humano pela utilização de máquinas cada vez mais velozes e reduzindo as pessoas à condição de engrenagens de uma gigantesca economia. Essa intemperança também elimina o calor das relações humanas na economia, torna a vida brutal, exclui os aspectos morais e extingue o senso de comunidade. Quando as pessoas se comunicam exclusivamente por celular ou via Internet, o contato humano de outrora deixa de existir. Anula-se aquilo que alguns economistas chamam de “capital social”. Praticamente perdemos a ideia de comunidade orgânica, isto é, de uma estrutura social onde as pessoas se relacionam com laços de confiança e amizade, sem as quais não se pode garantir um caráter humano à economia.

Catolicismo — No livro, o Sr. trata da importância da moeda, do império do dinheiro.
John Horvat — Quando a intemperança frenética prepondera, o dinheiro tende a governar. Os homens colocam à parte os valores culturais e morais e adotam um sistema diverso de valores que sobrepõe a quantidade à qualidade, o útil ao belo, a matéria ao espírito. Seu efeito trágico foi que a economia moderna tornou-se fria e impessoal, veloz e frenética, mecânica e inflexível. Cumpre reintroduzir o elemento humano na economia e na sociedade. Impõe-se um retorno à ordem cristã.

Catolicismo — Qual é a melhor resposta ao império do dinheiro?
John Horvat — A melhor resposta ao império do dinheiro é a lei da honra. A honra afirma valores que não podem ser comprados nem vendidos. Pressupõe a valorização das coisas de qualidade. Difunde no mercado um clima de tranquilidade e temperança. A lei da honra conduz naturalmente os homens a estimar e procurar as coisas excelentes. Introduz no mercado uma série de valores como qualidade, beleza, bondade e caridade. Na honra encontramos a influência temperante das virtudes cardeais.
Alguém poderá objetar: mas é possível implementar tal lei nos dias de hoje? Comecemos por difundir princípios, ideias, valores morais na sociedade e veremos como a influência do dinheiro começará a desaparecer.

Catolicismo — O Sr. é contrário ao sistema capitalista?
John Horvat — Não, eu defendo muitos dos princípios básicos da economia de mercado: a propriedade privada, a livre empresa, o governo limitado e a fiscalização contida. O problema é que a palavra capitalismo tem muitos significados difíceis de avaliar. A esquerda utiliza-a para descrever os erros ou os excessos do atual sistema de mercado, enquanto alguns libertários usam-na para promover uma anarquia radical. Este é o motivo pelo qual evitei acuradamente essa palavra no livro. Preferi seguir o sábio conselho do jesuíta Pe. Bernard Dempsey, segundo o qual é impossível definir cientificamente o capitalismo. Ele mesmo utiliza o termo com muita relutância, dizendo: “Só um general demente aceitaria a batalha no terreno escolhido pelo adversário”.

Catolicismo — O que aqui é um sistema orgânico de mercado?
John Horvat — A concepção orgânica de mercado repele o gigantismo na indústria, no comércio e nas finanças, em favor de uma economia de proporção humana. A concepção orgânica rejeita a padronização em massa dos produtos, porque esta empobrece culturalmente a sociedade, diminuindo a tendência de cada região a desenvolver sua própria riqueza cultural com os recursos de seu território. Apreciamos o uísque, o queijo Camembert e o champanhe, por entender que constituem expressões de cultura local. A vida proporcionaria uma riqueza muito maior se houvesse mais produtos locais.

Catolicismo — Como definir essa visão da economia?
John Horvat — É certamente diversa da visão moderna. Creio que a economia deve basear-se nos princípios que norteavam a sociedade pré-industrial. Entendamo-nos, não digo voltar atrás historicamente, mas falo de retomar aqueles princípios perenes que constituem a base de uma economia sã e equilibrada. Os problemas começam quando o pensamento econômico se desliga da filosofia moral. Esta ruptura tornou-se evidente com o advento da Revolução Industrial (1760-1840). Os economistas começaram a sustentar que a economia não deveria estar sujeita a nenhuma norma ética superior. Quer dizer, trouxe consigo a intemperança frenética da qual falei acima.
         Um segundo problema da economia moderna é sua dissociação de toda legítima consideração social. Na visão católica, economia e sociedade são realidades complementares. Precisamos reintroduzir retamente o elemento social na economia. Necessitamos de uma ordem econômica vinculada aos princípios gerais das relações sociais, da caridade e da justiça. Cumpre dar maior relevo às instituições que auxiliam a reforçar tal ordem social: a família, a comunidade, o Estado cristão e a Igreja. Ao invés de ser um instrumento para ajudar o homem a alcançar seu fim último, a economia tornou-se um patrão autoritário. Devemos reconduzi-la ao seu limite natural. Eis por que o livro propõe um retorno à ordem.

Catolicismo — A solução para a atual crise, portanto, seria um retorno à ordem cristã?
John Horvat — Para resolver a atual crise não necessitamos de novas leis, mas de algo mais profundo. Precisamos redefinir as nossas prioridades, reordenar a nossa vida, começar a praticar a temperança e outras virtudes cardeais. Impõe-se um retorno à sociedade orgânica cristã, que não trata as pessoas como peças de uma máquina, mas como seres humanos que somos. Ela repõe o elemento humano no centro da sociedade moderna e favorece o papel temperante da tradição, da moral, da família e da comunidade, ajudando a reconstruir o tecido social e acalmar o mercado. Essa sociedade será cristã, isto é, fundada sobre as virtudes cristãs; guiar-se-á pela Lei natural, orientada ao bem comum e à vida virtuosa em comunidade; será cheia de matizes, poesia e paixões ordenadas.

Catolicismo — Quais são as perspectivas?
John Horvat — As soluções orgânicas não podem ser impostas; devem desenvolver-se de modo natural. Nosso livro demonstra que o atual modelo sócio-econômico está em crise, com os dias contados, e que haverá naturalmente uma procura de outros modelos. Temos, portanto, necessidade de procurar um modelo alternativo que nos permita superar a crise. Devemos estar prontos para afastar os modelos que serão propostos pelo socialismo, por ecologistas e outros, e apresentar aqueles derivados de uma concepção católica das coisas. Devemos voltar aos princípios da ordem cristã, que fazem parte do nosso patrimônio e de nossas tradições. São princípios que funcionaram no passado. O livro coloca esta opção sobre a mesa e mostra como já é possível mover-se nessa direção.

Catolicismo — O que o Sr. entende por princípios que funcionaram no passado?
John Horvat — O testemunho da História vem em defesa de tais princípios, cujos antecedentes são extraordinários. As pessoas tendem a pensar que a civilização anterior à Revolução Industrial era primitiva e retrógrada. Isso está longe da verdade. De fato, a civilização cristã preparou o caminho para o verdadeiro progresso.
         Os princípios do Cristianismo muito têm contribuído para inaugurar um período de incrível dinamismo e enorme progresso tecnológico. O historiador Samuel Lilley, por exemplo, demonstra que o progresso tecnológico foi proporcionalmente muito maior na Idade Média do que em toda a história precedente. A Idade Média não era inimiga da tecnologia. Na Europa medieval foram introduzidas máquinas em uma escala desconhecida de qualquer civilização anterior. Alguns historiadores sustentam que a Revolução Industrial foi na realidade um prolongamento (eu diria uma corrosão) do processo iniciado na Idade Média. O historiador Lynn White afirma que a Cristandade foi a primeira civilização não construída sobre os ombros de escravos. Esse progresso dinâmico não se limitava à tecnologia, mas se estendia também ao campo do direito, da instrução, da medicina, da economia e do governo. Os que não confiam nos livros de História poderão visitar os monumentos da época: catedrais, universidades, castelos. Aí terão uma ideia do que se fez.

Catolicismo — Seu livro foi escrito só para os norte-americanos?
John Horvat — Todos nós individualmente fazemos parte da cultura da intemperança frenética. Ou melhor, sob alguns aspectos, somos seu elemento mais ativo. O livro Retorno à ordem trata também de como devemos agir em nossa vida pessoal para nos desligarmos dos ritmos frenéticos que criamos. Ele foi escrito não somente para os americanos, mas também para todas as pessoas do mundo moderno. Creio que estamos em condições de rejeitar o império do dinheiro e a lógica dos mercados de massa que alimentam a intemperança frenética. E também de restabelecer o contato com o elemento humano deficiente na sociedade e na economia. Seja a medida qual for, se ela concorrer para reforçar a família e a comunidade local, para aumentar nosso apreço pela reflexão, pela beleza, pelo dever e pela virtude, ela será uma medida positiva para o retorno à ordem. Temos por isso necessidade de entender a crise e participar do debate sobre o futuro da civilização cristã. O livro Retorno à ordem nos convida a participar desse debate, o qual acreditamos que vai crescer em importância na medida em que a crise se agravar. 
Ainda a propósito de sua pergunta, gostaria de acentuar que meu livro é dedicado ao Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, pensador católico, um brasileiro campeão da luta pela Civilização Cristã cujo exemplo de grande virtude e coragem serviu de inspiração para muitos. Foi sua visão católica que inspirou o livro, o qual está profundamente irrigado pelos pensamentos contidos nas dezenas de reuniões que ele de bom grado condescendeu em ter com a Comissão de Estudos norte-americanos.

Catolicismo — Por que o retorno à ordem é tão urgente neste momento?
Os que não confiam nos livros de História poderão visitar os monumetos da Idade Média: catedrais, universidades, castelos, como transparence na foto acima 

“Creio que a economia deve basear-se nos princípios que norteavam a sociedade pré-industrial. Entendamo-nos, não digo voltar atrás historicamente”
John Horvat — Um dos principais motivos que o torna urgente é o fato de o bissecular modelo ocidental moderno parecer ter entrado em declínio. Mesmo o American way of life não é mais aquele de outrora. Quando se evidenciar o declínio de nossa sociedade, com seus fundamentos sendo postos em discussão, creio que muitos compreenderão a importância do retorno à ordem.
         Mas tal retorno só será possível mediante um retorno a Deus e à Santa Igreja. Uma sociedade ordenada é necessariamente virtuosa, confia na Providência e nos leva a amar a Deus. Ela é possível e para ela devemos retornar.