Ludwig Ott para Palm ou iSilo PC

Preconceitos contra a inteligência, e um antídoto

Sidney Silveira
 
As principais correntes da filosofia do século XX nasceram da confluência de diferentes intuicionismos — ou seja, de teorias que, de uma forma ou de outra, partiam de uma gnosiologia que começava por alguma espécie de “intuição”, ou da pressuposição de que a inteligência é inapta para alcançar as verdades e os valores fundamentais. Vemos nelas uma radical negação do estatuto ontológico da inteligência, o que fez crescer o subjetivismo de forma assustadora, como se a objetivação da realidade, por parte da inteligência, fosse sempre algo deformante. Por esta razão deveríamos, de acordo com essas filosofias (as quais têm fortíssimas ressonâncias, ainda hoje), deixar as coisas “falar por si”, captar “pré-intelectivamente’ as suas essências. Ou, nas palavras de Husserl, precisamos ir às coisas mesmas vazios de quaisquer conhecimentos ou pressuposições, deixar que elas se manifestem ou se revelem por si. Em suma: devemos, ainda nas palavras de Husserl, “suspender o juízo”, e, com essa suspensão (epoché), encontrar um atalho para chegar à essência, ao eidos, ao quid est das coisas. E o filósofo alemão vai ainda mais longe, ao afirmar que, para filosofar, é preciso colocar tudo entre parênteses, a começar pela existência do mundo. Não consigo conceber uma atitude mais solipsística do que esta.

Esse ataque contra a inteligência, uma verdadeira blitzkrieg, tem várias configurações, no meio das quais vemos o que alguns historiadores chamam de mentalidade, ou seja: a idéia ou as idéias prevalecentes que subjazem às ações e aos valores de uma época. E tal mentalidade, enraizada fortemente no século XIX e com frutos maduros no século XX, é configurada pela total descrença nos dois valores fundamentais, para o homem: o bem e a verdade — captáveis, respectivamente, por nossas duas potências principais, a vontade e a inteligência. Esses dois valores objetivos são os que configuram positivamente a relação do homem com o mundo (o mesmo mundo que Husserl diz ser preciso pôr entre parênteses, para filosofar). Perdidas essas duas colunas, o homem perde com elas a possibilidade de constuir uma civilização, razão pela qual não lhe restará outra coisa senão assistir ao aumento crescente da barbárie, ainda que sob as máscaras mais diversas.

Vejamos as premissas dessas teorias antiintelectualistas, algumas das quais retiradas do instigante livro de Derisi intitulado Tratado de existencialismo y tomismo:

Kant: abriu um abismo insuperável entre a inteligência e as coisas, com a tese da incognoscibilidade da coisa em si. Não lhe restou uma opção senão a de criar um apriorismo transcendental. Uma quimera sofisticada.

Bergson: diz que a relação da inteligência com as coisas se funda em uma intuição supra-racional, já que há, em sua opinião, uma verdadeira irredutibilidade entre a consciência e os nossos atos e/ou fatos vitais.

Nietzsche: em seu parecer, a vida deve desenvolver-se plenamente pela afirmação da vontade. Em suma, a vida não pode e não deve ter amarras gnosiológicas, e nem metafísicas, éticas ou morais. O homem é dotado de um instinto irracional, cuja base (a única válida) é a sua ânsia de domínio sobre os demais. Nietzsche ficou catatônico praticamente em todos os últimos dez anos de sua vida. O momento e o modo como a sua doença começa valem um texto à parte, o qual fica para outra ocasião.

Kierkegaard: A realidade, a verdadeira, não é objetiva, mas subjetiva. E a inteligência não é capaz de alcançar a verdadeira realidade, que é ininteligível para o homem e, em suma, não se ajusta a exigências racionais ou dialéticas. Diga-se que esse preconceito de Kierkegaard contra a inteligência é, diretamente, caudatário de sua visão protestante, segundo a qual o homem, depois do pecado original, corrompeu essencialmente todas as suas potências.

Husserl: O seu método fenomenológico parte da intuição direta das essências, de que já falamos em diferentes textos. Entre outras coisas, a sua filosofia tende a transformar o objeto em algo absolutamente irredutível ao sujeito dotado de inteligência — o que preparará a concepção de filosofias que lhe são diretamente devedoras, segundo as quais entre a realidade e o pensamento há uma espécie de desarticulação fundamental irresolvível.

Max Scheler: Aplicou a fenomenologia husserliana à vida espiritual. Para ele, os valores são essências alógicas, e não essências captáveis por um processo intelectivo. Em suma, as coisas são valiosas não porque a inteligência lhes tenha descortinado o valor real, mas porque as sentimos assim, e ponto final.

Heidegger: É outro para quem o método válido, para a análise do ser, é o fenomenológico. Ou seja: devemos fazer com que o ser se revele por si, descubra-nos ele mesmo a sua íntima estrutura. Trata-se de um método intuitivo pelo qual a existência se revela por si mesma. Malgrado alguns insights de sua obra Ser e Tempo, não se pode dizer que haja uma congruente teoria do conhecimento em Heidegger, pois o conhecimento que o Dasein (o qual, em sua filosofia, não é outro senão o ente humano) tem de si mesmo provém não da intelecção de si e dos demais entes, mas de uma angústia existencial — a angústia, segundo Heidegger, de se ver arrojado ao nada, que é o seu destino. Somos para o nada. Bonito.

Sartre: O método do qual parte Sartre é, com matizações, o mesmo de Husserl e de Heidegger: devemos ir às coisas mesmas. Vê-las como se manifestam e se revelam, sem maiores interferências da nossa inteligência. Até porque não há, em Sartre, um ser em si captável pela inteligência, mas apenas aparências, as únicas acessíveis ao entendimento humano.

Muitos outros autores intuicionistas ou irracionalistas poderiam ser arrolados ou citados aqui, para mostrarmos o quanto essa mentalidade propagada por filosofias quiméricas ainda é predominante: uma mentalidade para a qual os valores são meras criações arbitrárias do homem (não objetivamente captáveis pela vontade, apetite intelectivo do bem), e as verdades fundamentais, inacessíveis (ou seja, não captáveis pela inteligência). Esta é a mentalidade de hoje, e não lhe resta ser outra coisa senão: imoralista, voluntarista, individualista, sexualista, irracionalista e relativista. Em suma, liberal!

A dissolução das idéias e das coisas, já em marcha acelerada no mundo contemporâneo (talvez em estágio terminal), tem em Santo Tomás um grande antídoto — dado o seu realismo gnosiológico, a sua profunda antropologia filosófica e, principalmente, a sua metafísica do ser, que dá respostas a todos esses grandes preconceitos contra a inteligência.

Estudemos, pois, a obra de Santo Tomás de Aquino. Com método, disciplina e perseverança. E, sobretudo, com amor.

A dimensão espiritual e a intelectual, segundo Bento XVI


Reverendíssimo Dom Abade
Queridos Irmãos no Episcopado
Queridos monges cistercienses de Heiligenkreuz
Estimados irmãos e irmãs de vida consagrada
Ilustres hóspedes e amigos do Mosteiro e da Academia
Senhoras e Senhores!

Foi com prazer que vim, na minha peregrinação à Magna Mater Austriae, também à Abadia de Heiligenkreuz, a qual não é apenas uma etapa importante na Via Crucis rumo a Mariazell, mas o mais antigo mosteiro cisterciense que permaneceu activo sem interrupção. Quis vir a este lugar rico de história, para chamar a atenção para a directriz fundamental de São Bento, sob cuja Regula vivem também os cistercienses. Bento dispõe concisamente de "nada antepor ao Ofício divino" (Regula Benedicti, 43, 3).

Por isso, num mosteiro de orientação beneditina, o louvor a Deus, que os monges celebram como coral oração solene, tem sempre a prioridade. Sem dúvida e graças a Deus! não são apenas os monges que rezam; também rezam outras pessoas: crianças, jovens e idosos, homens e mulheres, pessoas casadas e solteiras cada cristão reza, ou pelo menos deveria fazê-lo!

Contudo, na vida dos monges a oração tem uma especial importância: é o centro da sua tarefa profissional. Eles, de facto, exercem a profissão do orante. Na época dos Padres da Igreja, a vida monástica era qualificada como vida à maneira dos anjos. E como característica fundamental dos anjos via-se o seu ser adoradores. A sua vida é adoração. Isto deveria ser válido também para os monges. Eles rezam antes de tudo não por esta ou aquela coisa, mas simplesmente porque Deus merece ser adorado. "Confitemini Domino, quoniam bonus! Celebrai o Senhor, porque ele é bom, porque eterna é a sua misericórdia!", exortam vários Salmos (por ex. Sl 106, 1). Uma oração assim sem uma finalidade específica, que deseja ser puro serviço divino é com razão chamado "officium". É o "serviço" por excelência, o "serviço sagrado" dos monges. Ele é oferecido a Deus trino que, acima de tudo, é digno "de receber a glória, a honra e o poder" (Ap 4, 11), porque criou o mundo de modo maravilhoso e de maneira ainda mais maravilhosa o renovou.

Ao mesmo tempo, o officium dos consagrados é também um serviço sagrado aos homens e um testemunho para eles. Cada homem tem no íntimo do seu coração, consciente ou inconscientemente, a nostalgia de uma satisfação definitiva, da máxima felicidade, portanto, no fundo a nostalgia de Deus. Um mosteiro, no qual a comunidade se reúne várias vezes ao dia para louvar a Deus, testemunha que este originário desejo humano não cai no vazio: o Deus Criador não nos colocou nas trevas assustadoras onde, às apalpadelas, deveríamos desesperadamente procurar um sentido último fundamental (cf. Act 17, 27); Deus não nos abandonou num deserto do nada, privado de sentido, no qual, em última análise, nos espera apenas a morte. Não! Deus iluminou as nossas trevas com a sua luz, por obra do seu Filho Jesus Cristo. N'Ele, Deus entrou no nosso mundo com toda a sua "plenitude" (cf. Cl 1, 19), n'Ele toda a verdade, da qual sentimos saudade, tem a sua origem e o seu ápice (cf. Concílio Vaticano II, Gaudium et spes, n. 22).

A nossa luz, a nossa verdade, a nossa meta, a nossa satisfação, a nossa vida tudo isto não é uma doutrina religiosa, mas uma Pessoa: Jesus Cristo. Muito além das nossas capacidades de procurar e de desejar Deus, antes já fomos procurados e desejados, aliás, encontrados e remidos por Ele!

O olhar dos homens de todos os tempos e povos, de todas as filosofias, religiões e culturas encontra por fim os olhos abertos do Filho de Deus crucificado e ressuscitado; o seu coração aberto é a plenitude do amor. Os olhos de Cristo são o olhar do Deus que ama. A imagem do Crucificado sobre o altar, cujo original romano se encontra na Catedral de Sarzano, mostra que este olhar se dirige para cada homem. O Senhor, de facto, vê no coração de cada um de nós.

O cerne do monaquismo é a adoração o viver como os anjos. Contudo, sendo os monges homens de carne e sangue nesta terra, São Bento ao imperativo central do "ora" acrescentou outro: o "labora". Segundo o conceito de São Bento como também de São Bernardo, uma parte da vida monástica, juntamente com a oração, é também o trabalho, a cultivação da terra em conformidade com a vontade do Criador. Assim, em todos os séculos os monges, partindo do seu olhar dirigido para Deus, tornaram a terra vivível e bela. A salvaguarda e o cuidado da criação provêm precisamente do seu olhar para Deus. No ritmo do ora et labora a comunidade dos consagrados dá testemunho daquele Deus que em Jesus Cristo olha para nós, quer para o homem quer para o mundo que, olhados por Ele, se tornam bons.

Não só os monges dizem o officium, mas a Igreja inspirou-se na tradição monástica a recitação do Breviário para todos os religiosos, e também para sacerdotes e diáconos. Também aqui é válido que as religiosas e os religiosos, os sacerdotes e os diáconos e naturalmente também os Bispos na quotidiana oração "oficial" se apresentam diante de Deus com hinos e salmos, com agradecimentos e pedidos sem finalidades específicas.

Queridos irmãos no ministério sacerdotal e diaconal, estimados irmãos e irmãs na vida consagrada! Eu sei que é necessária disciplina, aliás, por vezes até a superação de si para recitar fielmente o Breviário; mas mediante este officium recebemos ao mesmo tempo muitas riquezas: quantas vezes, ao fazer isto, cansaço e desencorajamento dissipam-se! Onde Deus é louvado e adorado com fidelidade, não falta a sua bênção. Com razão se diz na Áustria: "Tudo depende da bênção de Deus!".

O vosso principal serviço para este mundo deve portanto ser a vossa oração e a celebração do Ofício. A predisposição interior de cada sacerdote, de cada pessoa consagrada deve ser a de "nada antepor ao Ofício divino". A beleza desta predisposição interior expressar-se-á na beleza da liturgia, a ponto que onde juntos cantamos, louvamos, exaltamos e adoramos Deus, torna-se presente na terra um pouco de céu. Deveras não é exagerado dizer que numa liturgia totalmente centrada em Deus, nos ritos e nos cânticos, se vê uma imagem da eternidade. De outra forma, como teriam podido os nossos antepassados há centenas de anos construir um edifício sagrado tão solene como este? Já a arquitectura só por si atrai para o alto os nossos sentidos para "aquelas coisas que nenhum olho viu, nenhum ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem, o que Deus preparou para aqueles que O amam" (cf. 1 Cor 2, 9). Em cada forma de empenho pela liturgia o critério determinante deve ser sempre o olhar dirigido para Deus. Nós estamos diante de Deus Ele fala-nos e nós falamos com Ele. Quando, nas reflexões sobre a liturgia, nos perguntamos como torná-la atraente, interessante e bela, o jogo já está feito. Ou ela é opus Dei com Deus como sujeito específico ou não o é. Neste contexto peço-vos: realizai a sagrada liturgia tendo o olhar em Deus na comunhão dos Santos, da Igreja vivente de todos os lugares e de todos os tempos, para que se torne expressão da beleza e da sublimidade do Deus amigo dos homens!

Por fim, a alma da oração é o Espírito Santo. Sempre, quando rezamos, na verdade é Ele que "vem em ajuda da nossa debilidade, intercedendo com insistência por nós, com gemidos indescritíveis" (cf. Rm 8, 26). Confiando nesta palavra do apóstolo Paulo garanto-vos, queridos irmãos e irmãs, que a oração suscitará em vós aquele efeito que outrora se expressava chamando sacerdotes e pessoas consagradas simplesmente "Geistliche" (isto é, pessoas espirituais). O Bispo Sailer de Ratisbona disse certa vez que os sacerdotes deveriam ser antes de tudo pessoas espirituais. Gostaria que a expressão "Geistliche" voltasse de novo a ser mais usada. Mas contudo é importante que se cumpra em nós aquela realidade que a palavra descreve: que no seguimento do Senhor, em virtude da força do Espírito, nos tornemos pessoas "espirituais".

A Áustria é, como se diz em sentido duplo, verdadeiramente "Klösterreich": reino de claustros e rica de claustros. As vossas antiquíssimas abadias com origens e tradições que remontam há muitos séculos são lugares da "preferência por Deus". Queridos irmãos, tornai muito evidente para os homens esta prioridade de Deus! Como oásis espiritual um mosteiro indica ao mundo de hoje o que é mais importante, aliás, no final a única coisa decisiva: existe uma razão última pela qual vale a pena viver, isto é Deus e o seu amor imperscrutável.

E peço-vos, queridos irmãos, considerai as vossas abadias e os vossos mosteiros aquilo que são e sempre desejam ser: não apenas lugares de cultura e tradição ou até simples empresas económicas. Estrutura, organização são necessárias também na Igreja, mas não são o essencial.

Um mosteiro é sobretudo um lugar de força espiritual. Ao entrar num dos vossos mosteiros aqui na Áustria tem-se a mesma impressão de quando, depois de uma caminhada sobre os Alpes que foi cansativa, finalmente podemos refrescar-nos num ribeiro de água nascente... Portanto, aproveitai destas nascentes da proximidade de Deus no vosso País, estimai as comunidades religiosas, os mosteiros e as abadias e recorrei ao serviço espiritual que os consagrados se disponibilizam a oferecer-vos!

Por fim, a minha visita dirige-se à Academia agora Pontifícia que já se encontra no 205º aniversário da sua fundação e que, no seu novo estado, recebeu do Abade o nome adjunto do actual sucessor de Pedro. Por muito que seja importante a integração da disciplina teológica na universitas do saber mediante as faculdades teológicas católicas nas universidades estatais, contudo é de igual modo importante que haja lugares de estudos, tão organizados como o vosso, onde é possível um vínculo aprofundado entre teologia científica e espiritualidade vivida. De facto, Deus nunca é simplesmente o Objecto da teologia, é sempre ao mesmo tempo o seu Sujeito vivo. A teologia cristã nunca é um discurso apenas humano sobre Deus, mas é sempre ao mesmo tempo também o Logos e a lógica na qual Deus se revela. Por isso, a intelectualidade científica e devoção vivida são dois elementos do estudo que, numa complementaridade irrenunciável, dependem uma da outra.

O pai da Ordem cisterciense, São Bernardo, no seu tempo lutou contra o afastamento de uma racionalidade objectiva da corrente da espiritualidade eclesial. A nossa situação hoje, mesmo sendo diversa, tem também semelhanças notáveis. Na ansiedade por obter o reconhecimento de cientificidade rigorosa no sentido moderno, a teologia pode perder o alcance da fé. Mas como uma liturgia que esquece de olhar para Deus está, como tal, definhando, assim também uma teologia que já não respira no espaço da fé, deixa de ser teologia; termina por se reduzir a uma série de disciplinas mais ou menos relacionadas entre elas. Ao contrário, onde se pratica uma "teologia de joelhos", como pedia Hans Urs von Balthasar (cf. Hans Hurs von Balthasar, Theologiae und Heiligkeit, Aufsatz von 1948 em: Verbum Caro. Schriften zur Theologie I, Einsiedeln 1960, 195-224), não faltará a fecundidade para a Igreja na Áustria e também noutras partes.

Esta fecundidade mostra-se no apoio e na formação de pessoas que têm em si uma chamada espiritual. Para que hoje uma chamada ao sacerdócio e ao estado religioso possa ser vivida com fidelidade por toda a vida, é necessária uma formação que integre fé e razão, coração e mente, vida e pensamento. Uma vida no seguimento de Cristo precisa da integração de toda a personalidade.

Onde se descuida a dimensão intelectual, nasce demasiado facilmente uma forma de paixão piedosa que vive quase exclusivamente de emoções e de estados de ânimo que não podem ser mantidos por toda a vida. E onde se descuida a dimensão espiritual, cria-se um racionalismo rarefacto que com base na sua frieza e no seu desapego nunca pode desembocar numa doação entusiasta de si a Deus. Não se pode basear uma vida no seguimento de Cristo sobre tais unilateralidades; com as meias medidas permanecer-se-ia pessoalmente insatisfeitos e, por conseguinte, talvez até espiritualmente estéreis. Cada chamada à vida religiosa ou ao sacerdócio é um tesouro tão precioso que os responsáveis devem fazer o possível por encontrar os caminhos de formação adequados para promover juntos fides et ratio a fé e a razão, o coração e a mente.

São Leopoldo da Áustria ouvimo-lo há pouco sob conselho do filho, o Beato Bispo Otto de Freising (celebra-se em Freising a sua festa), fundou em 1133 a vossa abadia dando-lhe o nome de "Unsere Liebe Frau zum Heiligen Kreuz" - Nossa Senhora da Santa Cruz. Este mosteiro não é dedicado a Nossa Senhora só tradicionalmente mas aqui arde o fogo mariano de um São Bernardo de Claraval. Bernardo que, juntamente com 30 companheiros entrou no mosteiro, é uma espécie de Padroeiro das vocações espirituais. Talvez tivesse uma influência muito entusiasmante e encorajadora sobre muitos jovens do seu tempo chamados por Deus, porque estava animado por uma particular devoção mariana. Onde está Maria, ali se encontra a imagem primordial da doação total e do seguimento de Cristo. Onde estiver Maria, ali está o sopro pentecostal do Espírito Santo, o início de uma renovação autêntica.

Deste lugar mariano na Via Crucis desejo a todos os lugares espirituais na Áustria fecundidade e capacidade de irradiação. Aqui, gostaria antes de partir, como já fiz em Mariazell, de pedir à Mãe de Deus mais uma vez que interceda por toda a Áustria. Com as palavras de São Bernardo convido cada um a fazer-se confiantemente "criança" diante de Maria, como o fez o próprio Filho de Deus. São Bernardo diz, e nós dizemos com ele: "Olha para a estrela, invoca Maria... Nos perigos, nas angústias, nas incertezas, pensa em Maria, invoca Maria. Não se afaste o seu nome dos teus lábios, não se afaste do teu coração... Se a seguires não te perdes, rezando a ela não desesperas, pensando nela não erras. Se ela te ampara, não cais; se ela te protege, não temes; se ela te guia, não te cansas, se ela te concede os seus favores, chegas ao teu fim" (Bernardo de Claraval, In Laudibus Virginis Matris, Homilia 2, 17).
 
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“Enamoremo-nos da Eucaristia!”, pede Bento XVI

Dedica a catequese da audiência geral a São Tomás de Aquino

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 23 de junho de 2010 (ZENIT.org) - Dirigindo-se aos milhares de fiéis e peregrinos presentes na Praça de São Pedro hoje, o Papa os exortou a enamorar-se da Eucaristia, ao dedicar sua terceira catequese a São Tomás de Aquino, aprofundando em vários aspectos do seu pensamento teológico.

Para o santo, explicou o Papa, o eixo do cristianismo é a Encarnação, com a qual a fé "chega a reforçar-se; a esperança se eleva mais confiada ao pensamento de que o Filho de Deus veio entre nós, como um de nós, para comunicar aos homens sua própria divindade; a caridade se reaviva, porque não existe sinal mais evidente do amor de Deus por nós que ver o Criador do universo tornar-se criatura, um de nós".

Na Summa Theologiae, obra prima do santo, "escreve páginas até agora não superadas sobre o mistério da Encarnação e da Paixão de Jesus, acrescentando depois um amplo tratado sobre os sete sacramentos, porque neles o Verbo divino encarnado estende os benefícios da Encarnação para a nossa salvação".

Falando dos sacramentos, Tomás refletiu de modo particular sobre a Eucaristia, pela qual tinha uma grande devoção. Inspirado pelo exemplo do santo, o Papa exortou: "Queridos irmãos e irmãs: na escola dos santos, enamoremo-nos deste sacramento! Participemos da Santa Missa com recolhimento, para obter seus frutos espirituais! Alimentemo-nos do Corpo e do Sangue do Senhor, para ser incessantemente alimentados pela graça divina!".

"Entretenhamo-nos com prazer e com frequência, de igual para igual, em companhia do Santíssimo Sacramento!", acrescentou, em referência à adoração eucarística, devoção muito querida também por Bento XVI.

Além das obras mais conhecidas de São Tomás, a Summa Theologiae e a Summa contra Gentiles, o Papa quis destacar a pregação do Aquinate, tão rigorosa e simples como suas obras científicas.

Referiu-se especialmente aos Opúsculos, uma série de pregações realizadas em 1273, um ano antes de sua morte, na igreja de São Domingos o Maior, em Nápoles.

"O conteúdo da pregação do Doctor Angelicus corresponde quase totalmente à estrutura do Catecismo da Igreja Católica."

"De fato - explicou -, na catequese e na pregação, em uma época como a nossa, de renovado compromisso pela evangelização, não deveriam faltar nunca estes temas fundamentais: o que nós cremos, e aí etá o Símbolo da Fé; o que nós oramos, e aí está o Pai Nosso e a Ave Maria; o que nós vivemos como nos ensina a Revelação Bíblica, e aí está a lei do amor a Deus e ao próximo e os Dez Mandamentos, como explicação desse mandato do amor."

Inclusive em suas pregações, São Tomás não deixava de lado a racionalidade da fé.
"A quem objeta que a fé é uma necedade, porque faz cair em algo que não cai sob a experiência dos sentidos, São Tomás oferece uma resposta muito articulada e recorda que esta é uma dúvida inconsistente, porque a inteligência humana é limitada e não pode conhecer tudo."

"Somente se pudéssemos conhecer perfeitamente todas as coisas visíveis e invisíveis, então seria uma autêntica necedade aceitar as verdades por pura fé", afirmou o Papa.

No demais, explicou, "é impossível viver, observa São Tomás, sem confiar na experiência dos demais, lá onde não chega o conhecimento pessoal. É razoável, portanto, ter Deus que se revela e no testemunho dos Apóstolos".

Os seguidores de Jesus "eram poucos, simples e pobres, aflitos por causa da crucifixão do seu Mestre; e, no entanto, muitas pessoas sábias, nobres e ricas se converteram à escuta da sua pregação".

"Trata-se, de fato, de um fenômeno historicamente prodigioso, ao qual dificilmente se pode dar outra resposta razoável, a não ser a do encontro dos Apóstolos com o Senhor ressuscitado."

Por último, o Papa aludiu à profunda devoção mariana de São Tomás, que definiu Nossa Senhora como "Triclinium totius Trinitatis, triclínio, isto é, lugar onde a Trindade encontra seu repouso".

"Em nenhuma criatura, como n'Ela, as três divinas pessoas inabitam e encontram delícia e alegria em viver em sua alma cheia de graça. Por sua intercessão, podemos obter toda ajuda", acrescentou.

O Pontífice concluiu sua catequese com uma oração que tradicionalmente se atribui a São Tomás e que reflete os elementos da sua profunda devoção mariana: "Ó beatíssima e dulcíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, (...) confio ao vosso coração misericordioso toda a minha vida (...). Alcançai, dulcíssima Senhora minha, caridade verdadeira, com a que possa amar com todo o coração vosso santíssimo Filho e a vós, depois d'Ele, sobre todas as coisas, e ao próximo em Deus e por Deus".

Os sentinelas da noite


Conforme nos anuncia A CASA DE SARTO, o belíssimo documentário dos monges de Barroux, França, foi recentemente laureado com o Prêmio Marcel Julian 2010, do Clube Audiovisual de Paris. Este vídeo, cujo vídeo só possuo o trailer que está no Youtube, mostra o austero quotidiano destes seguidores de São Bento.

O respectivo DVD pode ser encomendado directamente do sítio da própria Abadia (a entrega postal do exemplar foi feita em menos de uma semana para o resposável do blog  A CASA DE SARTO, que mora em Portugal).


Bento XVI aos sacerdotes: vocação vem de Deus

Diálogo entre o Papa e os sacerdotes do mundo inteiro
CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 21 de junho de 2010 (ZENIT.org) - A falta de vocações hoje é um "problema doloroso" que aflige a Igreja, reconheceu o Papa Bento XVI, na última pergunta durante a vigília realizada em São Pedro no dia 10 de junho, durante o encerramento do Ano Sacerdotal.

A questão apresentada por Anthony Denton, da Austrália, em nome dos sacerdotes da Oceania, supõe "um problema grande e doloroso da nossa época", admitiu Bento XVI.

É "a falta de vocações, razão pela qual as igrejas locais estão em perigo de tornar-se áridas, porque falta a Palavra da vida, falta a presença do sacramento da Eucaristia e dos demais sacramentos".

No entanto, advertiu o Papa, diante desse problema existe uma "grande tentação", que consiste em "transformar o sacerdócio - o sacramento de Cristo, o ser escolhidos por Ele - em uma profissão normal, em um emprego que tem suas horas e que, no resto do tempo, a pessoa pertence somente a si mesma; e fazer isso como qualquer outra vocação: torná-lo acessível e fácil".

Mas - sublinhou - esta "é uma tentação, não resolve o problema".

A propósito disso, citou a história bíblica de Saul, que realiza um sacrifício no lugar do profeta Samuel porque este não se apresenta a tempo antes de uma batalha.

Este rei, explicou o Papa, "pensa em resolver assim o problema, que naturalmente não se resolve, porque tenta fazer o que não pode fazer sozinho; considera-se Deus ou quase Deus; e não se pode esperar que as coisas aconteçam do jeito que Deus quer".

"Assim também nós, se exercêssemos somente uma profissão como as demais, renunciando à sacralidade, à novidade, à diversidade do sacramento que só Deus dá, que pode vir somente da sua vocação e não do nosso fazer, não resolveríamos nada."

O único que é preciso fazer, insistiu, é "rezar com grande insistência, com grande determinação, com grande convicção também", clamar "ao coração de Deus, para que nos dê sacerdotes".

Três conselhos

O Papa indicou três "receitas" para promover as vocações. A primeira: cada sacerdote "deveria fazer o possível para viver seu próprio sacerdócio de tal maneira que este se tornasse convincente".

"Acho que nenhum de nós teria chegado a ser sacerdote se não tivesse conhecido sacerdotes convincentes, nos quais ardia o fogo do amor de Cristo", sublinhou.

A segunda: oração; e a terceira: "ter o valor de falar com os jovens sobre o possível chamado de Deus, porque com frequência uma palavra humana é necessária para abrir a escuta da vocação divina".

"O mundo de hoje é tal que quase parece excluído o amadurecimento de uma vocação sacerdotal; os jovens precisam de ambientes nos quais se viva a fé, nos quais apareça a beleza da fé, nos quais apareça que este é um modelo de vida."

Física e matemática subalternadas à metafísica

Trabalho de Robert Grosseteste sobre a refração da luz

Sidney Silveira
Como se assinalou neste vídeo, há em linhas gerais três graus principais de abstração: o da física, que aborda o ente na perspectiva do movimento; o das matemáticas, que considera o ente na perspectiva das relações; e o da metafísica, que considera o ente enquanto ente — desprovido de todo e qualquer modus. Isto implica dizer que a física está subordinada à matemática e à metafísica; a matemática, à metafísica; e a metafísica, a nenhuma das duas, pois representa o grau máximo de abstração que a inteligência humana pode lograr*, razão pela qual merece ela o título de ciência por excelência, pois todas as demais a supõem fundamentalmente.

Quando se diz subordinação, quer-se dizer que uma ciência busca em outra os seus princípios. Santo Tomás dá o exemplo disso quando, no começo da Suma Teológica (I. q. 1., a. 2, resp), lembra-nos que a perspectiva parte dos princípios que proporciona a geometria, e a música, dos que lhe proporciona a aritmética, e assim por diante É exatamente este o sentido em que se afirma que uma ciência supõe a outra, à qual se subordina.

Para a mentalidade moderna, isto não parece óbvio, dada a subdivisão das ciências em especificidades cada vez mais minuciosas, o que, a par de trazer grandes avanços particulares, prejudica sobremaneira a visão do conjunto das ciências. Isto fica bastante evidente quando observamos físicos contemporâneos abordar questões (como a da origem do universo) que transcendem em absoluto à sua ciência, apoiados em mal-disfarçadas muletas metafísicas.

Tomemos por exemplo a teoria do Big Bang. E pressuponhamos, a título de exercício dialético, que esteja certa em suas linhas principais. Ainda neste caso, ficaria fundamentalmente por explicar de onde veio a matéria prima inicial que, no começo do universo, teria explodido em razão de sua máxima concentração, proporcionando o cosmos hoje em expansão. Em resumo, a teoria do Big Bang parte de um dado para o qual precisa apoiar-se numa premissa de cariz metafísico (ou teológico), sem no entanto esboçar uma resolução para o problema inicial. A propósito, a solução foi dada com razões suficientes pela metafísica do Ser de Tomás de Aquino.

Abra-se um parêntese para lembrar que a teoria do Big Bang ganhou uma primeira formulação com o bispo católico Robert Grosseteste, na virada dos séculos XII para o XIII (obviamente, com diferenças em relação às atuais variáveis da tese do universo em expansão). O fato é que, como bom realista, Grosseteste não aceitara sustentar toda a sua tese sobre uma hipótese para a qual não houvesse uma evidência ou, ao menos, um elemento corroborante. Por isso, afirmara no tratado De luce seu de inchoatione formarum, que a matéria prima seria uma substância sutil luminosa próxima do incorpóreo... criada por Deus!

A característica dessa luz primeva de Grosseteste seria o perpetuamente engendrar-se a si mesma pela difusão esférica em torno de pontos luminosos. Em síntese: dado o primeiro ponto luminoso criado por Deus, instantaneamente se engendrou, ao redor dele, tomado como centro, uma esfera luminosa, e esta se propagou em outros pontos luminosos e assim por diante, ad infinitum; esta difusão circular da luz seria o princípio ativo de todas as coisas, inclusive da corporeidade. Primeira forma criada por Deus na matéria prima, tal luz se multiplicaria indefinidamente por si mesma e se estenderia em todas as direções, distendendo a porção de matéria prima que leva consigo desde o princípio dos tempos e constituindo, assim, o universo em movimento e expansão que contemplamos.

Voltemos ao tema da subalternação das ciências. A física se subordina à matemática e à metafísica; a matemática não se subordina à física, mas sim à metafísica; e esta última não se subordina a nenhuma delas, muito menos a qualquer outra ciência, com exceção da teologia, conforme dissemos. Como diz o tomista Carlos A. Casanova no instigante livro Reflexiones metafísicas sobre la ciencia natural, nos tratados de matemática, por exemplo, não se discute o princípio de não-contradição, que está pressuposto desde o começo em todas as equações. Tudo supõe o axioma sem o qual nem haveria matemáticas. Ademais, quando o matemático ou o físico consideram-no de modo explícito, saem do seu campo de competência e têm por hábito errar bastante.

Assim, algumas proposições sobre as quais versa a matemática (axiomas chamados circa quæ, como o que afirma: duas quantidades iguais a uma terceira são iguais entre si) não podem ser provadas por ela, mas supõem outra disciplina. Casanova aponta também os axiomas ex quibus**, como o princípio de não-contradição. Sem eles sequer poderia a matemática avançar um passo.

Na física matemática ocorre de maneira semelhante. Suas convenções, diz Casanova, se referem à realidade e ajudam a conhecê-la se são aplicadas de modo sistemático, pois nos remetem a relações quantitativas reais. Quando se trata de um fenômeno qualitativo, como uma descarga elétrica ou o calor, sempre há algo que escapa às fórmulas.

Conceitos que se situam entre os mais fundamentais da física matemática, como massa, tempo e temperatura, são precisos dentro de esquemas que os utilizam em cadeias dedutivas matemáticas, mas estas pressupõem os princípios metafísicos de que falamos.

* Não é o caso aqui de abordar a separatio, que para alguns tomistas contemporâneos, apoiados num trecho do comentário de Santo Tomás ao De Trinitate de Boécio, seria um grau de abstração superior ao da metafísica.
** Essa expressão pode ser encontrada no Comentário aos Analíticos Posteriores de Aristóteles, escrito por Santo Tomás.

Nota de falecimento:


Nesta madrugada, à meia-noite, faleceu o Rev. Pe. Hélio Buck. O velório está acontecendo no Cemitério da Araçá, Av. Doutor Arnaldo 666, próximo a estação de metrô Clínicas. A missa de Réquiem será às 14hrs em seguida o enterro, às 15hrs.

Pe. Helio Buck lutava contra o câncer.
Requiescat in pace.

O sacerdócio é imergir-se na vontade de Deus, lembra o Papa

Aquele que busca poder e prestígio “não compreendeu o significado deste ministério”
CIDADE DO VATICANO, domingo, 20 de junho de 2010 (ZENIT.org) – Ser sacerdote não é seguir os próprios desejos nem buscar por prestígio e poder pessoais, mas entregar-se plenamente à vontade de Deus.

Foi que enfatizou o Papa Bento XVI nesta manhã de domingo ao presidir, na Basílica Vaticana, a missa na qual conferiu a ordenação presbiterial a 14 diáconos da diocese de Roma.

“A Igreja necessita de cada um de vós, ciente que é dos dons que dos vos oferece e da absoluta necessidade do coração de cada homem de encontrar-se com Cristo, único e universal salvador do mundo, para dele receber a vida nova e eterna, a verdadeira liberadade e a alegria plena”, disse a eles.

Ingressar na verdade de si

Em sua homilia, o Papa sublinhou que o sacerdócio “não pode mais representar um meio de se alcançar segurança na vida ou para conquistar status social”.

Quem é motivado por tais objetivos ou busca “prestígio pessoal ou poder”, portanto, “não compreendeu em sua raiz o significado deste ministério”.

“Aquele que pretende realizar principalmente suas próprias ambições, alcançar o próprio sucesso, será sempre escravo de si mesmo e da opinião pública. Para ser considerado, deverá sempre adular; deverá dizer aquilo que apraz às pessoas; deverá adaptar-se às mudanças das modas e das opiniões e, assim, se privará da relação vital com a verdade, e fadado a condenar amanhã aquilo que louva hoje”.

Um homem que viva nestes termos, um “sacerdote que veja nestes termos seu próprio ministério, não ama verdadeiramente a Deus nem aos demais, mas apenas a si mesmo, e assim, paradoxalmente, acaba por perder a si mesmo”.

O sacerdócio, de fato, “fundamenta-se na coragem de dizer sim a uma outra vontade, na consciência, alimentada dia após dia, de que, conformando-se à vontade de Deus, ‘imersos’ nesta vontade, não apenas não se cancela nossa própria originalidade, mas, ao contrário, ingressaremos cada dia mais na verdade de nosso ser e de nosso ministério”.

A importância da oração


O Pontífice então ofereceu “uma indica bastante precisa para a vida e a missão do sacerdote”: o fato de que “na oração ele é chamado a redescobrir a face sempre nova de seu Senhor e o conteúdo mais autêntico de sua missão”.

“Somente aquele que nutre uma relação com o Senhor e permanece a ele ligado, pode levá-lo aos demais, pode ser enviado”, reconheceu.

 Esta deve ser a dimensão “central, também e principalmente nos momentos difíceis, quando parece que os ‘afazeres’ têm prioridade.

A Eucaristia


O Bispo de Roma lembrou em seguida os novos sacerdotes que, com a ordenação, é doado a eles presidir a Eucaristia.

“A vós é confiado o sacrifício redentor de Cristo, a vós é confiado seu corpo e seu sangue derramado”, disse ele.

“Quando celebramos a santa Missa, temos em nossas mãos o pão do Céu, o pão de Deus, que é Cristo, grão triturado para multiplicar-se e tornar-se o verdadeiro alimento da vida para o mundo”.

“É sempre uma experiência fascinante ver que em minhas mãos e em minha voz o Senhor realiza este mistério de Sua presença!”, exclamou.

“Ao cuidado no que se refere à celebração eucarística deve sempre acompanhar o empenho por uma vida eucarística, vivida na obediência a uma única grande lei, aquela do amor que se doa em sua totalidade e que serve com humildade, uma vida que a graça do Espírito Santo torna cada vez mais semelhante a de Cristo Jesus, Sumo e eterno Sacerdote, servo de Deus e dos homens”, acrescentou.

Nesta missão, o exemplo por excelência é o da Virgem Maria, “que submeteu sua vontade àquela de Deus, que gerou Cristo e o entregou ao mundo, que seguiu o Filho até aos pés da cruz, no supremo ato de amor”.

Graças a seu afeto, disse finalmente o Papa aos novos presbíteros, “podeis ser alegremente fiéis à tarefa que, como presbíteros, vos é hoje confiada: aquela de submeter-vos ao Cristo Sacerdote, que soube obedecer à vontade de Deus e amar o homem até o fim”.

Teologia sagrada, teologia natural e o tipo de subordinação das ciências humanas a ambas


Sidney Silveira
Afirmou-se noutro texto que, de acordo com o grau de abstração de determinada ciência e, sobretudo, em razão do fato de ela buscar os seus princípios em outra, é estabelecida uma subalternação ou ordenação. Neste contexto, conforme frisa a escola tomista da melhor cepa (Cardeal Caetano, João de S. Tomás, Santiago Ramírez, Garrigou-Lagrange, G. Manser, etc.), a física ordena-se à matemática e esta, à metafísica, etc. Pois muito bem: como foi dito também que a metafísica é subalternada à teologia, cabe fazer alguns esclarecimentos, que me ocorreram após uma frutuosa conversa com o meu querido amigo e companheiro de blog, Carlos Nougué.

Na verdade, quando se frisa que a metafísica se ordena à teologia, é preciso fazer algumas distinções importantes, para que as coisas não fiquem nas brumas da obscuridade. Em primeiro lugar, destaque-se que toda ciência possui um tríplice objeto:

> Material;
> Formal-terminativo; e
> Formal-motivo.

Objeto material é tudo aquilo que, de alguma forma, cai sob a consideração da ciência. Lancemos mão de um exemplo afirmando que o objeto material da visão são todas as coisas que o olho vê: o cavalo, o céu, a pedra, etc. Por sua vez, o objeto material da física (que aborda o ente na perspectiva do movimento) são todas as coisas que se movem: o cavalo, o céu, a pedra, etc. Portanto, um mesmo objeto material pode ser comum a ciências distintas.

Objeto formal-terminativo é aquela formalidade ou perfeição que a ciência considera e estuda em todos os seus objetos materiais. No caso da visão, para prosseguirmos no exemplo, podemos dizer que é a cor (e também a forma) das coisas vistas: a do cavalo, a do céu, a da pedra, etc. No caso da física, é a consideração do motor das coisas que se movem e movem umas às outras: o cavalo, o céu, a pedra, etc. E, assim como acontece no caso do objeto material, frise-se que o mesmo objeto formal-terminativo pode ser considerado por diferentes ciências. Santo Tomás dá o exemplo disto no começo da Suma (I q.1, a.1, ad. 2), quando aponta que o fato de a terra ser redonda pode ser demonstrado por ciências como a astronomia e a física.

Objeto formal-motivo, por fim, é o meio a partir do qual uma ciência considera o seu objeto formal-terminativo. No caso do olho, é a luz pela qual a cor e a forma das coisas vistas são percebidas. No caso da física, é o movimento enquanto orientado a um fim (via ad terminum), que nos entes naturais é o primeiro na intenção e o último na realização*. Esse termo final é propriamente a razão de ser (ratio essendi) de o motor mover as coisas movidas. Vale registrar que o objeto formal-motivo, ao contrário dos outros dois, jamais pode ser compartilhável por duas ou mais ciências, pois, se o fosse, na verdade essas ciências transformar-se-iam numa só.

Assim, como afirma Santiago Ramírez em alguns de seus escritos, o objeto que especifica uma ciência é propriamente o formal-motivo ou, então, o objeto formal-terminativo enquanto afetado pelo formal-motivo.

Pois muito bem: qual seria o objeto formal-terminativo da teologia? O Angélico Doutor responde que é Deus, mas não sob a razão comum de ser, de bondade, de verdade, de unidade, etc., mas sim sob a razão própria de Divindade. Ou seja: sub ratione deitatis. É Deus em si mesmo, ou, se se preferir, todos os atributos de Deus que só podem ser conhecidos pelo homem graças à Revelação. Por esta razão é a teologia o hábito intelectivo pelo qual se estuda Deus em sua recôndita e íntima realidade. E qual seria, por sua vez, o objeto formal-motivo da sagrada teologia? Nenhum outro senão a Revelação mesma, responde Santo Tomás. Neste contexto, a sagrada teologia se distingue radicalmente da teologia natural ou teodicéia, dado que esta última procede dos princípios informados pela razão, enquanto a teologia sagrada parte dos princípios que lhe subministra a fé.

Sendo assim, quando se diz que a metafísica se ordena à teologia, como eu fiz no texto aludido, está-se afirmando que esta ordenação é, primeiramente, em relação à teologia natural, e não à teologia sagrada, pois esta última, tendo como objeto a Deus conhecido pela Revelação, não pode subordinar as outras ciências a si, se se consideram apenas os princípios de que estas partem, embora seja a mais digna e nobre de todas as ciências, dado o seu objeto formal — tanto terminativo, como motivo. Em resumo: a sagrada teologia não empresta os seus princípios à metafísica, nem as matemáticas, nem à física, etc. Contudo há mais, como veremos, mas por ora destaque-se o que afirma o Doutor Angélico, tendo em vista todas essas coisas: a sagrada teologia é uma participação da ciência de Deus no homem (Suma, I, q.1, a.3, ad.2).

Outra distinção importante: a teologia natural é a parte mais nobre da metafísica, o cume, por assim, dizer, desta última. Por isso, quando eu disse que ela subordina a si a metafísica, eu o estava fazendo por meio de uma espécie de analogia, na medida em que o conhecimento de Deus a partir dos entes é muito superior ao conhecimento do ente enquanto ente, objeto próprio da metafísica. Em suma, todo estudioso sério de metafísica, a partir de determinado ponto, ordenará as suas pesquisas ao conhecimento natural que é dado ao homem ter de Deus, o Próprio Ser Subsistente.

Refaçamos o caminho. Dissemos acima que a sagrada teologia — infinitamente superior à teologia natural — não subordina a si as demais ciências, se se consideram apenas os princípios destas. Isto porque nenhum matemático parte de um dado de fé para provar o teorema de Pitágoras, e nenhum metafísico o faz para provar que os entes participam do Ser. No entanto, se se consideram não os princípios das ciências, mas os fins, a coisa se inverte totalmente: neste caso, a sagrada teologia subordina a si todas as ciências humanas, porque o seu fim não é outro senão o conhecimento de Deus e de todas as coisas em Deus.

Ora, Deus é o fim último do homem e, portanto, de todo e qualquer conhecimento humano. Portanto, a supremacia da sagrada teologia é absoluta, porque se trata de ciência: a) universalíssima, pois se estende a todas as coisas às quais são aplicáveis os primeiros e universais princípios da razão; b) certíssima, porque demonstra as suas conclusões pela primeira e mais segura causa no plano ontológico; c) suprema, já que demonstra a partir das causas mais elevadas. Por isso Santo Tomás assinala três propriedades importantíssimas da sagrada teologia:

1- Julgar todas as demais ciências, dado que considera as supremas causas ontológicas (Suma, I, q.1, a.6, corpus; etc);
2- Ordenar todas as demais ciências ao seu fim próprio, porque considera o fim último ao qual se devem ordenar todas as coisas, sem exceção, e que lhes deve servir de norte (Suma I, q.1, a.6, corpus; etc);
3- Utilizar todas as demais ciências em seu proveito próprio, pois todas são em relação a ela um meio ou instrumento que deve conduzir ao fim último.

Além disso tudo, à sagrada teologia cabe julgar os princípios e conclusões de todas as ciências, rechaçando como errônea e inadmissível toda conclusão que contrarie ou seja incompatível com os seus ensinamentos, pois Deus não pode de maneira alguma errar.

Noutra oportunidade, quando divulgarmos certo material que está sendo preparado, falaremos de outras propriedades da sagrada teologia, de acordo com Santo Tomás e com o Magistério infalível da Igreja.
* Não é o caso de abordar neste texto a intentio que há nos entes naturais desprovidos de inteligência, como o rio, o sol, a pedra — intentio esta posta por Deus em cada criatura. Isto valeria um curso inteiro, e não desenvolvo aqui a idéia para não mudar de assunto. Infelizmente, cada vez mais a física moderna se restringe ao estudo do movimento em sua perspectiva puramente material-local. 
 
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Estava falando exatamente sobre esta distinção entre estudantes de teologia e teólogos com o Sidney por telefone.

Obrigado amigo por este post.

Em CRISTO,
Allan Lopes.

Catequese do Papa: Tomás de Aquino, defensor da razão humana

Intervenção na audiência geral de quarta feira.

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 16 de junho de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Praça de São Pedro para a audiência geral.

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Queridos irmãos e irmãs:

Hoje eu gostaria de continuar a apresentação de São Tomás de Aquino, um teólogo de tal valor que o estudo do seu pensamento foi explicitamente recomendado pelo Concílio Vaticano II em dois documentos, o decreto Optatam totius, sobre a formação para o sacerdócio, e a declaração Gravissimum educationis, que trata sobre a educação cristã. No demais, já em 1880, o Papa Leão XIII, grande admirador seu e promotor de estudos tomistas, quis declarar São Tomás como padroeiro das escolas e das universidades católicas.

O principal motivo desse apreço reside não somente no conteúdo do seu ensinamento, mas também no método adotado por ele, sobretudo a nova síntese e distinção entre filosofia e teologia. Os Padres da Igreja se encontravam diante de diversas filosofias de tipo platônico, nas quais se apresentava uma visão completa do mundo e da vida, incluindo a questão de Deus e da religião. Na confrontação com estas ideologias, eles mesmos haviam elaborado uma visão completa da realidade, partindo da fé e usando elementos do platonismo, para responder a questões essenciais dos homens. Esta visão, baseada na revelação bíblica e elaborada com um platonismo corrigido à luz da fé, eles chamam de "nossa filosofia".

A palavra "filosofia" não era, portanto, expressão de um sistema puramente racional e, como tal, diferente da fé, mas indicava uma visão completa da realidade, construída à luz da fé, mas feita e pensada pela razão; uma visão que, certamente, ia muito além das capacidades próprias da razão, mas que, como tal, era também satisfatória para ela. Para São Tomás, o encontro com a filosofia pré-cristã de Aristóteles (que morreu por volta de 322 a.C.) abria uma perspectiva nova. A filosofia aristotélica era, obviamente, uma filosofia elaborada sem conhecimento do Antigo e do Novo Testamentos, uma explicação do mundo sem revelação, pela simples razão. E esta racionalidade conseguinte era convincente. Assim, a velha forma da "nossa filosofia" dos Padres já não funcionava. A relação entre filosofia e teologia, entre fé e razão, precisava ser repensada.

Existia uma "filosofia" completa e convincente em si mesma, uma racionalidade que precedia a fé e depois a "teologia", um pensar com a fé na fé. A questão urgente era esta: o mundo da racionalidade, a filosofia pensada sem Cristo e o mundo da fé são compatíveis? Ou se excluem? Não faltavam elementos que afirmavam a incompatibilidade entre os dois mundos, mas São Tomás estava firmemente convencido da sua compatibilidade; mais ainda, estava convencido de que a filosofia elaborada sem conhecimento de Cristo quase esperava a luz de Jesus para ser completa. Esta foi a grande "surpresa" de São Tomás, que determinou seu caminho de pensador. Mostrar essa independência entre filosofia e teologia e, ao mesmo tempo, sua recíproca racionalidade, foi a missão histórica do grande mestre. E assim se entende que, no século XIX, quando se declarava fortemente a incompatibilidade entre razão moderna e fé, o Papa Leão XIII indicasse São Tomás como guia no diálogo entre uma e outra. Em seu trabalho teológico, São Tomás supõe e concretiza essa racionalidade. A fé consolida, integra e ilumina o patrimônio de verdade que a razão humana adquire. A confiança que São Tomás outorga a estes dois instrumentos do conhecimento - a fé e a razão - pode ser reconduzida à convicção de que ambas procedem de uma única fonte de verdade, o Logos divino, que opera tanto no âmbito da criação como no da redenção.

Junto com o acordo entre razão e fé, deve-se reconhecer, por outro lado, que estas se valem de procedimentos cognoscitivos diferentes. A razão acolhe uma verdade em virtude da sua evidência intrínseca, mediata ou imediata; a fé, no entanto, aceita uma verdade com base na autoridade da Palavra de Deus que se revela. São Tomás escreve no começo da sua Summa Theologiae: "Cumpre saber que há dois gêneros de ciências. Umas partem de princípios conhecidos à luz natural do intelecto, como a aritmética, a geometria e semelhantes. Outras provêm de princípios conhecidos por ciência superior: como a perspectiva, de princípios explicados na geometria, e a música, de princípios aritméticos. E deste modo é ciência a doutrina sagrada, pois deriva de princípios conhecidos à luz duma ciência superior, a saber: a de Deus e dos santos" (I, q. 1, a. 2).

Esta distinção assegura a autonomia tanto das ciências humanas como das ciências teológicas. Esta, no entanto, não equivale à separação, e sim implica em uma colaboração recíproca e vantajosa. A fé, de fato, protege a razão de toda tentação de desconfiança em suas próprias capacidades, estimula-a a abrir-se a horizontes cada vez mais amplos, tem viva nela a busca dos fundamentos e, quando a própria razão se aplica à esfera sobrenatural da relação entre Deus e o homem, enriquece seu trabalho. Segundo São Tomás, por exemplo, a razão humana pode com certeza chegar à afirmação da existência de um só Deus, mas somente a fé, que acolhe a Revelação divina, é capaz de chegar ao mistério do amor de Deus uno e trino.

Por outro lado, não é somente a fé que ajuda a razão. Também a razão, com seus meios, pode fazer algo importante pela fé, prestando-lhe um triplo serviço que São Tomás resume no prólogo do seu comentário ao De Trinitate, de Boécio: "Demonstrar os fundamentos da fé: explicar mediante similitudes as verdades da fé; rejeitar as objeções que se levantam contra a fé" (q. 2, a. 2). Toda a história da teologia é, no fundo, o exercício deste empenho da inteligência, que mostra a inteligibilidade da fé, sua articulação e harmonia internas, sua racionabilidade e sua capacidade de promover o bem do homem. A correção dos raciocínios teológicos e seu significado cognoscitivo real se baseiam no valor da linguagem teológica, que é, segundo São Tomás, principalmente uma linguagem analógica. A distância entre Deus, o Criador, o ser de suas criaturas é infinita; a dissimilitude é sempre maior que a similitude (cf. DS 806). Apesar disso, em toda a diferença entre Criador e criatura, existe uma analogia entre o ser do criado e o ser do Criador, que nos permite falar com palavras humanas sobre Deus.

São Tomás fundou a doutrina da analogia, além das suas argumentações profundamente filosóficas, também no fato de que, com a Revelação, o próprio Deus nos falou e nos autorizou a falar d'Ele. Considero importante recordar esta doutrina. Ela, de fato, nos ajuda a superar algumas objeções do ateísmo contemporâneo, que nega que a linguagem religiosa esteja provista de um significado objetivo e sustenta, no entanto, que tem um valor subjetivo ou simplesmente emotivo. Esta objeção nasce do fato de que o pensamento positivista está convencido de que o homem não conhece o ser, mas somente as funções experimentais da realidade. Com São Tomás e com a grande tradição filosófica, nós estamos convencidos de que, na verdade, o homem não conhece somente as funções, objeto das ciências naturais, mas conhece algo do próprio ser - por exemplo, conhece a pessoa, o "tu" do outro, e não somente o aspecto físico e biológico do seu ser.

À luz deste ensinamento de São Tomás, a teologia afirma que, ainda sendo limitada, a linguagem religiosa está dotada de sentido - porque tocamos o ser -, como uma flecha que se dirige à realidade que significa. Este acordo fundamental entre razão humana e fé cristã é visto em outro princípio fundamental do pensamento do Aquinate: a graça divina não anula, mas sim supõe e aperfeiçoa a natureza humana. Esta última, de fato, inclusive depois do pecado, não está completamente corrompida, mas ferida e enfraquecida. A graça, dada por Deus e comunicada por meio do mistério do Verbo encarnado, é um dom absolutamente gratuito, com o qual a natureza é curada, potenciada e ajudada a buscar o desejo inato no coração de cada homem e de cada mulher: a felicidade. Todas as faculdades do ser humano são purificadas, transformadas e elevadas pela graça divina.

Uma importante aplicação desta relação entre a natureza e a graça é descoberta na teologia moral de São Tomás de Aquino, que é de grande atualidade. No centro do seu ensinamento neste campo, ele coloca a lei nova, que é a lei do Espírito Santo. Com um olhar profundamente evangélico, insiste no fato de que esta lei é a graça do Espírito Santo dada àqueles que creem em Cristo. A esta graça se une o ensinamento escrito e oral das verdades doutrinais e morais, transmitidas pela Igreja. São Tomás, sublinhando o papel fundamental, na vida moral, da ação do Espírito Santo, da Graça, da qual brotam as virtudes teologais e morais, ajuda a compreender que todo cristão pode alcançar as altas perspectivas do "Sermão da Montanha" se viver uma relação autêntica de fé em Cristo, se se abrir à ação do seu Santo Espírito. Mas - acrescenta o Aquinate -, "ainda que a graça seja mais eficaz que a natureza, contudo, a natureza é mais essencial para o homem" (Summa Theologiae, Ia, q. 29, a. 3); por isso, na perspectiva moral cristã, há um lugar para a razão, a qual é capaz de discernir a lei moral natural. A razão pode reconhecê-la considerando o que é bom fazer e o que é bom evitar para alcançar essa felicidade que está no coração de cada um e que implica também em uma responsabilidade com relação aos demais e, por conseguinte, à busca do bem comum. Em outras palavras, as virtudes do homem, teologais e morais, estão arraigadas na natureza humana. A graça divina acompanha, sustenta e conduz o compromisso ético, mas, em si mesmos, segundo São Tomás, todos os homens, crentes ou não, estão chamados a reconhecer as exigências da natureza humana expressas na lei natural e a inspirar-se nela na formulação de leis positivas, isto é, as formuladas pelas autoridades civis e políticas para regular a convivência humana.

Quando a lei natural e a responsabilidade que esta implica se negam, abre-se dramaticamente o caminho ao relativismo ético no âmbito individual e ao totalitarismo do Estado no âmbito político. A defesa dos direitos universais do homem e a afirmação do valor absoluto da dignidade da pessoa postulam um fundamento. Não é precisamente a lei natural este fundamento, com os valores não-negociáveis que ela indica? O venerável João Paulo II escrevia em sua encíclica Evangelium vitae palavras que continuam sendo de grande atualidade: "Para bem do futuro da sociedade e do progresso de uma sã democracia, urge, pois, redescobrir a existência de valores humanos e morais essenciais e congênitos, que derivam da própria verdade do ser humano, e exprimem e tutelam a dignidade da pessoa: valores que nenhum indivíduo, nenhuma maioria e nenhum Estado poderá jamais criar, modificar ou destruir, mas apenas os deverá reconhecer, respeitar e promover" (n. 71).

Em conclusão, Tomás nos propõe um conceito da razão humana amplo e confiado: amplo porque não está limitado aos espaços da chamada razão empírico-científica, mas aberto a todo o ser e, portanto, também às questões fundamentais e irrenunciáveis do viver humano; e confiado porque a razão humana, sobretudo quando acolhe as inspirações da fé cristã, promove uma civilização que reconhece a dignidade da pessoa, a intangibilidade dos seus direitos e a força dos seus deveres. Não surpreende que a doutrina sobre a dignidade da pessoa, fundamental para o reconhecimento da inviolabilidade dos direitos do homem, tenha amadurecido em ambientes de pensamento que recolheram a herança de São Tomás de Aquino, que tinha um conceito altíssimo da criatura humana. Ele a definiu, com sua linguagem rigorosamente filosófica, como "o mais perfeito que existe em toda a natureza, isto é, um sujeito subsistente em uma natureza racional" (Summa Theologiae, Ia, q. 29, a. 3).

A profundidade do pensamento de São Tomás de Aquino brota - não nos esqueçamos disso jamais - da sua fé viva e da sua piedade fervorosa, que ele expressava em orações inspiradas, como esta, na qual pede a Deus: "Concedei-me, eu vos peço, uma vontade que vos busque, uma sabedoria que vos encontre, uma vida que vos agrade, uma perseverança que vos espere com confiança e uma confiança que no final chegue a possuir-te".

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:
A confiança que São Tomás de Aquino deposita nos dois instrumentos do nosso conhecimento - a fé e a razão -, assenta na convicção de que ambas provêm da mesma e única fonte da verdade, o Verbo divino, que age tanto no âmbito da criação como no da redenção. Este acordo fundamental entre razão humana e fé cristã transparece ainda noutro princípio basilar do seu pensamento: a Graça divina não anula, mas supõe e aperfeiçoa a natureza humana. Esta, com o pecado, não ficou totalmente corrompida, mas apenas ferida e debilitada. Com a Graça, a natureza é curada, fortalecida e ajudada a alcançar a felicidade, que é o anseio natural de toda a pessoa humana. São Tomás propõe-nos um conceito amplo da razão humana, porque não se limita aos espaços da chamada razão empírico-científica, mas abre-se a todo o ser e às questões fundamentais e irrenunciáveis do viver humano.

Saúdo cordialmente todos os peregrinos lusófonos, em particular os brasileiros da paróquia São Vicente Mártir de Porto Alegre e os irmãos da Misericórdia de Maringá, como também os professores e alunos portugueses do Centro Cultural Sénior de Braga, para todos implorando uma vontade que procure a Deus, uma sabedoria que O encontre, uma vida que Lhe agrade, uma perseverança que por Ele espere e a confiança de chegar a possuí-Lo. São os meus votos e também a minha bênção.

[Tradução: Aline Banchieri
©Libreria Editrice Vaticana]

Bento XVI aos sacerdotes: a verdadeira teologia

Diálogo entre o Papa e os presbíteros de todo o mundo
CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 16 de junho de 2010 (ZENIT.org) – A teologia atual, muitas vezes, aparece como mera especulação intelectual, separada da doutrina e da vida espiritual. Para um sacerdote, para quem o trabalho deixa tempo livre apenas para sua formação, como guiar-se no labirinto de ideias e opiniões que por vezes parecem contradizer o magistério?
Esta foi a segunda pergunta dirigida ao Papa Bento XVI durante a vigília de 10 de junho, na cerimônia de encerramento do Ano Sacerdotal, colocada por uma sacerdote proveniente da Costa do Marfim (África), Mathias Agnero.

O Papa concordou que se trata de um problema “difícil e doloroso”, porém “não novo”: o próprio São Boaventura sustentava haver “dois tipos de teologia”, uma que procede “da arrogância da razão” e outra que busca “aprofundar o conhecimento do amado”.

“Existe de fato uma teologia que pretende ser acadêmica, parecer científica, e se esquece da realidade vital, a presença de Deus, sua presença entre nós, seu discurso de hoje, não apenas do passado”, explicou o Papa aos presentes.

“Esta teologia provém da arrogância da razão, que a tudo deseja dominar, fazendo com que Deus passe de sujeito a objeto de estudo, enquanto deveria ser sujeito que nos fala e nos guia”, de modo que “não nutre a fé, e sim obscurece a presença de Deus no mundo”.

“Modas”

Nos dias de hoje, comentou Bento XVI, “impõe-se a assim chamada ‘visão moderna do mundo’ (Bultmann), que se converte no critério de decisão do que é possível e do que é impossível”, afirmando que “tudo se passa como sempre, que os acontecimentos históricos são do mesmo tipo”, de modo que “se exclui precisamente o caráter de novidade do Evangelho, se exclui a irrupção de Deus, a verdadeira novidade que é alegria de nossa fé”.

No entanto, o Papa quis “desmistificar” estas teologias “da moda”, segundo sua própria experiência.

“Iniciei meus estudos de teologia em janeiro de 1946, e tendo testemunhado assim a passagem de três gerações de teólogos, posso dizer: as hipóteses que naquele tempo, e mais tarde nos anos 60 e 80 eram as mais novas, absolutamente científicas, absolutamente dogmáticas, com o tempo envelheceram e já não valem! Muitas delas parecem hoje ridículas”, afirmou.

Por isso, convidou os teólogos a “não temer o fantasma da cientificidade”, mantendo a coragem de “não se submeter a todas as hipóteses do momento, pensando a partir da grande fé da Igreja, que se faz presente em todos os tempos e que nos abre o acesso para a verdade”.

Em especial, destacou a importância de “não se pensar que a razão positivista, que exclui o transcendente – que não pode ser acessível – seja a razão verdadeira. Esta razão débil, que apresenta apenas as coisas experimentáveis, é na verdade uma razão insuficiente”.

“Nós, teólogos, devemos fazer uso da grande razão, aquela que está aberta à grandeza de Deus. Devemos ter a coragem de ir além do positivismo, até a questão das raízes do ser”, acrescentou.

Teologia por amor

Existe também “uma teologia que quer conhecer mais por amor ao amado, que, estimulada pelo amor e guiada pelo amor, que conhecer mais do amado. Esta é a verdadeira teologia, que provém do amor de Deus, de Cristo, e que deseja entrar em comunhão mais profunda com Cristo”, explicou o Papa.

“A formação é muito importante. Porém, devemos também ser críticos: o critério de fé é o critério pelo qual devemos também avaliar os teólogos e as teologias”, enfatizou.

O pontífice recomendou, tanto aos sacerdotes como aos seminaristas, consultar, sempre que necessário, o Catecismo da Igreja Católica: “ali vemos a síntese de nossa fé, e este Catecismo constitui o verdadeiro critério para avaliar se uma teologia é aceitável ou não”.

Neste sentido, pediu aos presente que sejam “críticos no sentido positivo”, isto é, “críticos contra as ‘tendências da moda’ e abertos às verdadeiras novidades, à profundidade inesgotável de Palavra de Deus, que se revela nova em todos os tempos, também em nosso tempo”.

Finalmente, o Papa convidou todos os sacerdotes a “manter a confiança no Magistério permanente da comunhão dos bispos com o Papa”.

Neste sentido, lembrou que a Sagrada Escritura “não é um livro isolado: está vivo na comunidade da Igreja, que é o próprio sujeito em todos os séculos e que garante a presença da Palavra de Deus".

“O Senhor nos deu a Igreja como sujeito vivo, com a estrutura dos bispos em comunhão com o Papa, e esta grande realidade dos bispos do mundo em comunhão com o Papa nos garante o testemunho da verdade permanente”.

“Há abusos, como sabemos, porém, em todas as partes do mundo há muitos teólogos que vivem verdadeiramente a Palavra de Deus, nutrem-se da meditação, vivem a fé da Igreja e desejam contribuir para que esta fé se faça presente nos dias de hoje. A estes teólogos gostaria de dizer um grande ‘obrigado’, concluiu o pontífice.

Razão humana: antídoto contra relativismo e totalitarismo

Catequese sobre São Tomás de Aquino
CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 16 de junho de 2010 (ZENIT.org).- A razão humana "é capaz de discernir a lei moral natural". No entanto, quando se nega esta possibilidade, abra-se a porta ao relativismo e ao totalitarismo.

O Papa Bento XVI quis dedicar sua segunda catequese sobre São Tomás de Aquino - após o parêntese da viagem apostólica a Chipre - a aprofundar em uma das maiores contribuições do santo à teologia e à cultura ocidentais, que é, segundo explicou, o ter separado a filosofia e a teologia, sem que uma negue a outra.

Com sua incorporação do pensamento de Aristóteles, frente ao sistema precedente baseado em Platão, São Tomás introduziu uma autonomia na razão, afirmando que, por si mesma, poderia chegar à existência de Deus - ainda que, sem a Revelação, este conhecimento seria insuficiente para chegar a Ele.

São Tomás, explicou o Papa, "estava firmemente convencido da compatibilidade" entre a filosofia de Aristóteles e a teologia. "Mais ainda, estava convencido de que a filosofia elaborada sem conhecimento de Cristo quase esperava a luz de Jesus para ser completa".

"Esta foi a grande ‘surpresa' de São Tomás, que determinou seu caminho de pensador. Mostrar essa independência entre filosofia e teologia e, ao mesmo tempo, sua recíproca racionalidade, foi a missão histórica do grande mestre."

A diferença entre ambas é que "a razão acolhe uma verdade em virtude da sua evidência intrínseca, mediata ou imediata; a fé, no entanto, aceita uma verdade com base na autoridade da Palavra de Deus que se revela".
Mas esta autonomia "não equivale à separação, e sim implica em uma colaboração recíproca e vantajosa".

"Toda a história da teologia é, no fundo, o exercício deste empenho da inteligência, que mostra a inteligibilidade da fé, sua articulação e harmonia internas, sua racionabilidade e sua capacidade de promover o bem do homem."

Lei natural

Uma das principais consequências desta relação entre a natureza e a graça, explicou o Papa, é precisamente que a razão "é capaz de discernir a lei moral natural".

"A razão pode reconhecê-la considerando o que é bom fazer e o que é bom evitar para alcançar essa felicidade que está no coração de cada um e que implica também em uma responsabilidade com relação aos demais e, por conseguinte, à busca do bem comum."

Neste sentido, afirmou, a graça divina "acompanha, sustenta e conduz o compromisso ético, mas, em si mesmos, segundo São Tomás, todos os homens, crentes ou não, estão chamados a reconhecer as exigências da natureza humana expressas na lei natural e a inspirar-se nela na formulação de leis positivas, isto é, as formuladas pelas autoridades civis e políticas para regular a convivência humana".

No entanto, "quando a lei natural e a responsabilidade que esta implica se negam, abre-se dramaticamente o caminho ao relativismo ético no âmbito individual e ao totalitarismo do Estado no âmbito político".

Por isso, explicou, a doutrina da Igreja, com a contribuição de São Tomás, continua ensinando que "a defesa dos direitos universais do homem e a afirmação do valor absoluto da dignidade da pessoa postulam um fundamento".

Citando a encíclica Evangelium vitae, de João Paulo II, o Papa recordou que ,"para bem do futuro da sociedade e do progresso de uma sã democracia, urge, pois, redescobrir a existência de valores humanos e morais essenciais e congênitos, que derivam da própria verdade do ser humano, e exprimem e tutelam a dignidade da pessoa".

Por isso, convidou os fiéis a conhecerem a obra do Aquinate, seguindo as "indicações explícitas" do Concílio Vaticano II, no decreto Optatam totius, sobre a formação para o sacerdócio, e a declaração Gravissimum educationis, que trata sobre a educação cristã.

"Não surpreende que a doutrina sobre a dignidade da pessoa, fundamental para o reconhecimento da inviolabilidade dos direitos do homem, tenha amadurecido em ambientes de pensamento que recolheram a herança de São Tomás de Aquino, que tinha um conceito altíssimo da criatura humana", concluiu.

Bento XVI aos sacerdotes: não basta “fazer”

Diálogo entre o Papa e os presbíteros do mundo inteiro
CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 15 de junho de 2010 (ZENIT.org) – Os sacerdotes hoje, em geral, encontram-se sobrecarregados de trabalho. Muitos dirigem várias paróquias ao mesmo tempo, as dificuldades aumentam e o contexto social não ajuda. Como fazer?

Esta foi a primeira pergunta – vinda do Brasil – feita ao Papa Bento XVI durante a Vigília de Oração realizada na Praça de São Pedro, na quinta-feira, 10 de junho, no encerramento do Ano Sacerdotal.

O Pe. José Eduardo Oliveira e Silva, em nome dos sacerdotes da América, sublinhou que muitos se sentem “superados”: “Com toda a boa vontade, tentamos enfrentar as necessidades de uma sociedade muito transformada, já não mais inteiramente cristã, mas percebemos que nosso ‘fazer’ não é suficiente”.

“Para onde ir, Santidade? Em que direção?”, perguntou ao Papa.

É difícil ser pároco

O Papa admitiu que hoje “é muito difícil ser pároco, também e sobretudo nos países de antiga cristandade”.

“As paróquias são cada vez mais extensas, unidades pastorais... É impossível conhecer todos, é impossível fazer todos os trabalhos que são esperados de um pároco”, acrescentou.

A causa, explicou o Papa, é que “nossas forças são limitadas e as situações são difíceis em uma sociedade cada vez mais diversificada, mais complicada”.

O Pontífice quis dar alguns conselhos aos presbíteros. O primeiro foi a “doação total”.

Se os fiéis veem que o sacerdote “não realiza apenas um ofício, horas de trabalho, e depois está livre e vive só para si mesmo, mas sim que é um homem apaixonado por Cristo”, se “veem que está repleto da alegria do Senhor, compreendem também que não pode fazer tudo, aceitam seus limites e ajudam o pároco”.
“Este me parece o ponto mais importante: que se possa ver e sentir que o pároco realmente se sente um chamado pelo Senhor; que está repleto de amor pelo Senhor e pelos seus”, acrescentou.
Em segundo lugar, o Papa aconselhou estabelecer prioridades, “ver o que é possível e o que é impossível”.
As três prioridades fundamentais, disse o Papa, “são as três colunas do nosso ser sacerdotes. Primeiro a Eucaristia, os sacramentos: tornar possível e presente a Eucaristia”. Depois, “o anúncio da Palavra em todas as dimensões: desde o diálogo pessoal até a homilia”. O terceiro ponto é “a caritas, o amor de Cristo”.

Outro aspecto que não se pode desatender, advertiu o Papa, é “a relação pessoal com Cristo”.
“A relação com Cristo, o diálogo pessoal com Cristo é uma prioridade pastoral fundamental, é condição para nosso trabalho pelos demais! E a oração não é algo marginal: orar é precisamente a ‘profissão’ do pároco.”

E a terceira recomendação do Papa foi a humildade: “reconhecer nossos limites”.

“Recordemos uma cena de Marcos, no capítulo 6, na qual os discípulos estavam ‘estressados’, queriam fazer tudo, e o Senhor disse: ‘Vinde também vós à parte, a um lugar solitário, para descansar um pouco’. Também este é trabalho – eu diria – pastoral: encontrar e ter a humildade, o valor de descansar.”

“Portanto, penso que a paixão pelo Senhor, o amor pelo Senhor, nos mostra as prioridades, as decisões, ajuda-nos a encontrar o caminho.”

Bento XVI concluiu animando os presentes: “Sei que há muitos párocos no mundo que realmente oferecem todas as suas forças pela evangelização, pela presença do Senhor e dos seus sacramentos”.

“A estes párocos fiéis, que trabalham com todas as forças da sua vida, do nosso ser apaixonados pro Cristo, eu gostaria de dizer um grande ‘obrigado’ neste momento.”

Homilia de encerramento do Ano Sacerdotal, S. S. Bento XVI

Prezados irmãos no ministério sacerdotal,
Amados irmãos e irmãs,

O Ano Sacerdotal que celebrámos 150 anos depois da morte do Santo Cura d’Ars, modelo do ministério sacerdotal no nosso mundo, está para terminar. Deixámo-nos guiar pelo Cura d’Ars, para voltarmos a compreender a grandeza e a beleza do ministério sacerdotal. O sacerdote não é simplesmente o detentor de um ofício, como aqueles de que toda a sociedade tem necessidade para nela se realizarem certas funções. É que o sacerdote faz algo que nenhum ser humano, por si mesmo, pode fazer: pronuncia em nome de Cristo a palavra da absolvição dos nossos pecados e assim, a partir de Deus, muda a situação da nossa vida. Pronuncia sobre as ofertas do pão e do vinho as palavras de agradecimento de Cristo que são palavras de transubstanciação – palavras que O tornam presente a Ele mesmo, o Ressuscitado, o seu Corpo e o seu Sangue, e assim transformam os elementos do mundo: palavras que abrem de par em par o mundo a Deus e o unem a Ele. Por conseguinte, o sacerdócio não é simplesmente «ofício», mas sacramento: Deus serve-Se de um pobre homem a fim de, através dele, estar presente para os homens e agir em seu favor. Esta audácia de Deus – que a Si mesmo Se confia a seres humanos; que, apesar de conhecer as nossas fraquezas, considera os homens capazes de agir e estar presentes em seu nome – esta audácia de Deus é o que de verdadeiramente grande se esconde na palavra «sacerdócio». Que Deus nos considere capazes disto; que deste modo Ele chame homens para o seu serviço e Se prenda assim, a partir de dentro, a eles: isto é o que, neste ano, queríamos voltar a considerar e compreender. Queríamos despertar a alegria por termos Deus assim tão perto, e a gratidão pelo facto de Ele Se confiar à nossa fraqueza, de Ele nos conduzir e sustentar dia após dia. E queríamos assim voltar a mostrar aos jovens que esta vocação, esta comunhão de serviço a Deus e com Deus, existe; antes, Deus está à espera do nosso «sim». Juntos com a Igreja, queríamos novamente assinalar que esta vocação devemos pedi-la a Deus. Pedimos operários para a messe de Deus, mas este pedido a Deus é simultaneamente Deus que bate à porta do coração de jovens que se considerem capazes daquilo de que Deus os considera capazes. Era de esperar que este novo resplendor do sacerdócio não fosse visto com agrado pelo «inimigo»; este teria preferido vê-lo desaparecer, para que em definitivo Deus fosse posto fora do mundo. E assim aconteceu que, precisamente neste ano de alegria pelo sacramento do sacerdócio, vieram à luz os pecados dos sacerdotes – sobretudo o abuso contra crianças, no qual o sacerdócio enquanto serviço da solicitude de Deus em benefício do homem se transforma no contrário. Também nós pedimos insistentemente perdão a Deus e às pessoas envolvidas, enquanto pretendemos e prometemos fazer tudo o possível para que um tal abuso nunca mais possa suceder; prometemos que, na admissão ao ministério sacerdotal e na formação ao longo do caminho de preparação para o mesmo, faremos tudo o que pudermos para avaliar a autenticidade da vocação, e que queremos acompanhar ainda mais os sacerdotes no seu caminho, para que o Senhor os proteja e guarde em situações penosas e nos perigos da vida. Se o Ano Sacerdotal devesse ser uma glorificação do nosso serviço humano pessoal, teria ficado arruinado com estas vicissitudes. Mas, para nós, tratava-se precisamente do contrário: sentir-se agradecidos pelo dom de Deus, dom que se esconde em «vasos de argila» e que sem cessar, através de toda a fraqueza humana, concretiza neste mundo o seu amor. Assim consideramos tudo o que sucedeu como um serviço de purificação, um serviço que nos lança para o futuro e faz agradecer e amar muito mais o grande dom de Deus. Deste modo, o dom torna-se o compromisso de responder à coragem e à humildade de Deus com a nossa coragem e a nossa humildade. Nesta hora, a palavra de Cristo, que proclamámos no cântico de entrada desta liturgia, pode dizer-nos o que significa tornar-se e ser sacerdotes: «Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de Mim, que Eu sou manso e humilde de Coração» (Mt 11, 29).

Celebramos a festa do Sagrado Coração de Jesus e, com a liturgia, por assim dizer lançamos um olhar dentro do Coração de Jesus que, na morte, foi aberto pela lança do soldado romano. Sim, o seu Coração está aberto por nós e aos nossos olhos; e deste modo está aberto o Coração do próprio Deus. A liturgia dá-nos a interpretação da linguagem do Coração de Jesus, que fala sobretudo de Deus como pastor dos homens e, deste modo, manifesta-nos o sacerdócio de Jesus, que está radicado no íntimo do seu Coração; indica-nos assim o perene fundamento e também o critério válido de todo o ministério sacerdotal, que deve estar sempre ancorado no Coração de Jesus e ser vivido a partir dele. Hoje queria meditar principalmente sobre os textos com que a Igreja em oração responde à Palavra de Deus apresentada nas leituras. Nestes cânticos, compenetram-se palavra e resposta; por um lado, são tirados da Palavra de Deus, mas, por outro e simultaneamente, são já a resposta do homem à referida Palavra, resposta na qual a própria Palavra se comunica e entra na nossa vida. O mais importante destes textos na liturgia de hoje é o Salmo 22 (23) – «O Senhor é meu pastor» –; nele Israel acolheu em oração a auto-revelação de Deus como pastor e dela fez a orientação para a sua própria vida. «O Senhor é meu pastor, nada me falta»: neste primeiro versículo, exprimem-se alegria e gratidão pelo facto de Deus estar presente e Se ocupar de nós. A leitura tirada do Livro de Ezequielcomeça com o mesmo tema: «Eu próprio tomarei cuidado das minhas ovelhas, Eu é que hei-de olhar por elas» (Ez 34, 11). Deus, pessoalmente, cuida de mim, de nós, da humanidade. Não fui deixado sozinho, perdido no universo e numa sociedade onde se fica cada vez mais desorientado. Ele cuida de mim. Não é um Deus distante, para Quem contaria muito pouco a minha vida. As religiões da Terra, por aquilo que nos é dado ver, sempre souberam que, em última análise, só há um Deus; mas este Deus era distante. Aparentemente, Ele deixava o mundo abandonado às outras potestades e forças, às outras divindades. Com estas, era preciso encontrar um acordo. O Deus único era bom, mas distante. Não constituía um perigo, mas tampouco oferecia uma ajuda. Assim, não era necessário ocupar-se d’Ele. Não era Ele que dominava. Por estranho que pareça, este pensamento ressurgiu no Iluminismo. Que o mundo pressupõe um Criador, ainda se compreendia. Este Deus teria construído o mundo, mas depois, evidentemente, retirou-se dele. Agora o mundo tinha um conjunto próprio de leis, segundo as quais se desenvolvia e nas quais Deus não intervinha, nem podia intervir. Deus era apenas uma origem remota. Muitos talvez não desejassem sequer que Deus cuidasse deles. Não queriam ser incomodados por Deus. Mas, sempre que a solicitude e o amor de Deus são sentidos como incómodo, o ser humano acaba subvertido. É bom e consolador saber que há uma pessoa que me ama e cuida de mim; mas muito mais decisivo é que exista um Deus que me conhece, me ama e Se preocupa comigo. «Conheço as minhas ovelhas, e elas conhecem-Me» (Jo 10, 14): diz a Igreja, antes do Evangelho, tomando uma palavra do Senhor. Deus conhece-me, preocupa-Se comigo: este pensamento deveria fazer-nos verdadeiramente felizes; deixemo-lo penetrar profundamente no nosso íntimo. Então compreenderemos também o que significa isto: Deus quer que nós, como sacerdotes, num pequenino ponto da história, compartilhemos as suas preocupações pelos homens. Como sacerdotes, queremos ser pessoas que, em comunhão com a sua solicitude pelos homens, cuidamos deles e lhes fazemos experimentar concretamente esta solicitude de Deus. E o sacerdote, no âmbito que lhe está confiado, deveria poder dizer juntamente com o Senhor: «Conheço as minhas ovelhas, e elas conhecem-me». O sentido deste «conhecer», na Sagrada Escritura, nunca é simplesmente o de um saber exterior, como quando se conhece o número do telefone de uma pessoa; mas «conhecer» significa estar interiormente próximo do outro, amá-lo. Nós havemos de procurar «conhecer» os homens por parte de Deus e em ordem a Deus; havemos de procurar caminhar com eles pela estrada da amizade de Deus.

Voltemos ao nosso Salmo. Lá se diz: «Ele me guia pelo caminho mais seguro para glória do seu nome. Passarei ravinas tenebrosas e não temo; Vós estais comigo, o vosso cajado me sossega» (22, 3-4). O pastor indica a estrada certa àqueles que lhe estão confiados. Vai à sua frente e guia-os. Por outras palavras: o Senhor mostra-nos como se realiza de modo justo o ser homens. Ensina-nos a arte de ser pessoa. Que devo fazer para não me afundar, para não desperdiçar a minha vida com o que não tem sentido? Esta é precisamente a pergunta que cada homem se deve colocar a si mesmo, válida em cada período da vida. E como é grande a escuridão à volta de tal pergunta, no nosso tempo! Vem-nos sempre de novo à mente aquela atitude de Jesus, que Se enchera de compaixão pelos homens, porque eram como ovelhas sem pastor. Senhor, tende piedade também de nós! Indicai-nos a estrada! A partir do Evangelho, sabemos isto: Ele mesmo é o caminho. Viver com Cristo, segui-Lo: isto significa encontrar o caminho certo, para que a nossa vida ganhe sentido e possamos dizer um dia: «Sim, foi bom viver». O povo de Israel sentia-se, e sente-se, agradecido a Deus, porque lhe indicou, nos Mandamentos, o caminho da vida. O longo Salmo 118 (119) é todo ele uma expressão de alegria por este facto: não titubeamos na escuridão. Deus mostrou-nos qual é o caminho, como podemos caminhar de modo certo. O que dizem os Mandamentos foi sintetizado na vida de Jesus e tornou-se um modelo vivo. Compreendemos assim que estas directrizes de Deus não são algemas, mas o caminho que Ele nos indica. Podemos alegrar-nos por elas, e exultar porque em Cristo nos aparecem como realidade vivida. Ele mesmo nos tornou felizes. Caminhando juntamente com Cristo, fazemos a experiência da alegria da Revelação, e, como sacerdotes, devemos comunicar às pessoas a alegria pelo facto de nos ter sido indicado o caminho certo da vida.

Aparece depois a palavra que nos fala de «ravinas tenebrosas», através das quais o homem é guiado pelo Senhor. O caminho de cada um de nós conduzir-nos-á um dia às ravinas tenebrosas da morte, onde ninguém pode acompanhar-nos. Mas Ele estará lá. O próprio Cristo desceu à noite escura da morte. Mesmo lá, Ele não nos abandona. Mesmo lá, Ele nos guia. «Se descer aos abismos, ali Vos encontrais»: diz o Salmo 138 (139). Sim, Vós estais presente mesmo no último transe; e assim o nosso Salmo Responsorial pode dizer: mesmo lá, nas ravinas tenebrosas, não temo mal algum. Mas, ao falar de ravinas tenebrosas, podemos pensar também nas ravinas tenebrosas da tentação, do desânimo, da provação, que cada pessoa humana tem de atravessar. Mesmo nestas ravinas tenebrosas da vida, Ele está presente. Sim, Senhor, nas trevas da tentação, nas horas de ofuscamento quando todas as luzes parecem apagar-se, mostrai-me que estais presente. Ajudai-nos, a nós sacerdotes, para podermos nessas noites escuras estar ao lado das pessoas que nos foram confiadas, para podermos mostrar-lhes a vossa luz.

«O vosso cajado me sossega»: o pastor precisa de usar o cajado como um bastão contra os animais selvagens que querem irromper no meio do rebanho; contra os salteadores que procuram o seu botim. A par de bastão, o cajado serve também de apoio e ajuda para atravessar sítios difíceis. As duas coisas fazem parte também do ministério da Igreja, do ministério do sacerdote. Também a Igreja deve usar o bastão do pastor, o bastão com que protege a fé contra os falsificadores, contra as orientações que, na realidade, são desorientações. Por isso mesmo este uso do bastão pode ser um serviço de amor. Hoje vemos que não se trata de amor, quando se toleram comportamentos indignos da vida sacerdotal. E também não se trata de amor, se se deixa proliferar a heresia, a deturpação e o descalabro da fé, como se tivéssemos nós autonomamente inventado a fé; como se já não fosse dom de Deus, a pedra preciosa que não deixaremos arrebatar. Ao mesmo tempo, porém, o bastão deve continuar a ser o cajado do pastor, cajado que ajude os homens a poderem caminhar por sendas difíceis e a seguirem o Senhor.

A parte final do Salmo fala da mesa preparada, do óleo com que se unge a cabeça, do cálice transbordante, de poder habitar junto do Senhor. No Salmo, tudo isto exprime, antes de mais nada, a dimensão da alegria pela festa de estar com Deus no templo, ser hospedados e servidos por Ele mesmo, poder habitar junto d’Ele. Para nós, que rezamos este Salmo com Cristo e com o seu Corpo que é a Igreja, esta dimensão de esperança adquiriu uma amplidão e profundidade ainda maiores. Por assim dizer, vemos nestas palavras uma antecipação profética do mistério da Eucaristia, no qual Deus mesmo nos acolhe como seus comensais oferecendo-Se-nos a Si mesmo como alimento, como aquele pão e aquele vinho refinados que são os únicos capazes de constituir a derradeira resposta à fome e sede íntima do homem. Como não sentir-se feliz por poder cada dia ser hóspede à própria mesa de Deus, por habitar junto d’Ele? Como não sentir-se feliz pelo facto de Ele nos ter mandado: «Fazei isto em memória de Mim»? Felizes porque Ele nos concedeu preparar a mesa de Deus para os homens, dar-lhes o seu Corpo e o seu Sangue, oferecer-lhes o dom precioso da sua própria presença. Sim, com todo o coração podemos rezar juntos as palavras do Salmo: «A vossa bondade e misericórdia me acompanham no caminhar da minha vida» (22, 6).

Por último lancemos, ainda que brevemente, um olhar sobre os dois cânticos da comunhão propostos pela Igreja na sua liturgia de hoje. Em primeiro lugar, temos as palavras com que São João conclui a narração da crucifixão de Jesus: «Um dos soldados abriu o seu lado com uma lança e dele brotou sangue e água» (Jo 19, 34). O Coração de Jesus é trespassado pela lança. Aberto, torna-se uma fonte; a água e o sangue que saem remetem para os dois Sacramentos fundamentais de que vive a Igreja: o Baptismo e a Eucaristia. Do lado trespassado do Senhor, do seu Coração aberto brota a fonte viva que corre através dos séculos e faz a Igreja. O Coração aberto é fonte de um novo rio de vida; neste contexto, João certamente pensou também na profecia de Ezequiel que vê brotar do novo templo um rio que dá fecundidade e vida (cf. Ez 47): o próprio Jesus é o novo templo, e o seu Coração aberto a fonte da qual jorra um rio de vida nova, que se nos comunica no Baptismo e na Eucaristia.

Mas a liturgia da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus prevê como cântico de comunhão ainda outra frase, ligada à primeira, tirada do Evangelho de João: «Se alguém tem sede, venha a Mim e beba, diz o Senhor. Se alguém acredita em Mim, do seu coração brotará uma fonte de água viva» (cf. Jo 7, 37-38). Na fé, por assim dizer bebemos da água viva da Palavra de Deus. Deste modo o próprio fiel torna-se uma fonte, dá à terra sequiosa da história água viva. Vemo-lo nos Santos. Vemo-lo em Maria que, como grande mulher de fé e de amor, se tornou ao longo dos séculos fonte de fé, amor e vida. Cada cristão e cada sacerdote deveriam, a partir de Cristo, tornar-se fonte que comunica vida aos outros. Devemos dar água da vida a um mundo sedento. Senhor, nós Vos agradecemos porque nos abristes o vosso Coração; porque, na vossa morte e na vossa ressurreição, Vos tornastes fonte de vida. Fazei que sejamos pessoas que vivem, que vivem da vossa fonte, e concedei-nos a possibilidade de sermos também nós fontes capazes de dar a este nosso tempo água da vida. Nós Vos agradecemos pela graça do ministério sacerdotal. Senhor, abençoai-nos a nós e abençoai todos os homens deste tempo que estão sedentos e andam à procura. Amen.


Saudações no final da Santa Missa

Queridos sacerdotes dos países de língua oficial portuguesa, dou graças a Deus pelo que sois e pelo que fazeis, recordando a todos que nada jamais substituirá o ministério dos sacerdotes na vida da Igreja. A exemplo e sob o patrocínio do Santo Cura d’Ars, perseverai na amizade de Deus e deixai que as vossas mãos e os vossos lábios continuem a ser as mãos e os lábios de Cristo, único Redentor da humanidade. Bem hajam!
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