Vídeo raríssimo com a Ordenação Sacerdotal de S.S. Bento XVI

Catequese do Papa: Santo Afonso Maria de Ligório

Queridos irmãos e irmãs:
Hoje eu gostaria de vos apresentar a figura de um santo Doutor da Igreja, a quem devemos muito, pois foi um eminente teólogo e mestre de vida espiritual para todos, especialmente para as pessoas simples. Ele é o autor da letra e da melodia de uma das canções natalinas mais famosas da Itália, ‘Tu scendi dalle stelle', além de muitas outras coisas.
Pertencente a uma família napolitana rica e nobre, Afonso Maria de Ligório nasceu em 1696. Dotado de grandes qualidades intelectuais, com apenas 16 anos se graduou em direito civil e canônico. Era o advogado mais brilhante do fórum de Nápoles: durante oito anos, ganhou todas as causas que defendeu. No entanto, sua alma estava sedenta de Deus e desejosa da perfeição; assim, o Senhor fez-lhe compreender que era outra a vocação à qual o chamava. De fato, em 1723, indignado pela corrupção e injustiça que assolou o ambiente à sua volta, ele abandonou a sua profissão - com ela, a riqueza e sucesso - e decidiu se tornar sacerdote, apesar da oposição paterna. Teve excelentes professores, que o introduziram no estudo da Sagrada Escritura, da História da Igreja e da mística. Adquiriu uma vasta cultura teológica, que começou a dar frutos quando, alguns anos mais tarde, ele começou seu trabalho de escritor. Foi ordenado sacerdote em 1726 e entrou, para o exercício do seu ministério, na Congregação diocesana das Missões Apostólicas. Afonso iniciou a evangelização e catequese entre os estratos inferiores da sociedade napolitana, a quem gostava de pregar e instruía nas verdades fundamentais da fé. Muitas dessas pessoas, pobres e modestas, às quais se dirigiu, frequentemente se dedicavam aos vícios e a operações criminosas. Pacientemente, ensinava-as a orar, incentivando-as a melhorar a sua maneira de viver. Afonso obteve excelentes resultados: no bairro mais miserável da cidade, multiplicavam-se grupos de pessoas que, no final da tarde, se reuniam em casas particulares e nas oficinas, para rezar e meditar sobre a Palavra de Deus, sob a orientação de um catequista formado por Afonso e por outros sacerdotes, que visitavam regularmente esses grupos de fiéis. Quando, a pedido do arcebispo de Nápoles, estas reuniões começaram a ser realizadas nas capelas da cidade, receberam o nome de "capelas noturnas". Isso foi uma verdadeira e apropriada fonte de educação moral, de reparação social, de ajuda mútua entre os pobres: ele pôs termo aos roubos, duelos, prostituição, até quase desaparecerem.
Ainda que o contexto social e religioso da época de Santo Afonso tenha sido muito diferente do nosso, as "capelas noturnas" são um modelo de atividade missionária e também podem inspirar-nos hoje para uma "nova evangelização", em especial dos mais pobres, e para construir uma convivência humana mais justa e fraterna. Aos sacerdotes foi confiado o dever de ministério espiritual, enquanto os leigos bem formados podem ser eficazes animadores cristãos, verdadeiro fermento evangélico dentro da sociedade.
Depois de ter pensando em ir evangelizar os povos pagãos, Afonso, aos 35 anos, entrou em contato com agricultores e pastores das regiões interiores do Reino de Nápoles e, estupefato pelo seu desconhecimento da religião e o estado de abandono em que se encontravam, decidiu deixar a capital e dedicar-se a essas pessoas, que eram pobres espiritual e materialmente. Em 1732, fundou a Congregação Religiosa do Santíssimo Redentor, que ficou sob a tutela de Dom Tommaso Falcoia e da qual se tornou superior. Estes religiosos, dirigidos por Afonso, foram autênticos missionários itinerantes, chegaram até as aldeias mais remotas, exortando à conversão e à perseverança na vida cristã, sobretudo através da oração. Ainda hoje, os Redentoristas, espalhados por muitos países do mundo, com novas formas de apostolado, continuam esta missão de evangelização. Penso neles com o reconhecimento, exortando-os a ser sempre fiéis ao exemplo de seu Santo Fundador.
Apreciado pela sua bondade e seu zelo pastoral, em 1762 Afonso foi nomeado bispo de ‘Sant'Agata dei Goti', ministério que deixou em 1775 por causa das doenças que sofria, por concessão do Papa Pio VI. O próprio Pontífice, em 1787, ao receber a notícia de sua morte, que ocorreu com muito sofrimento, exclamou: "Era um santo!". E ele estava certo: Afonso foi canonizado em 1839 e, em 1871, foi declarado Doutor da Igreja. Este título lhe foi concedido por muitas razões. Primeiro, ele propôs um rico ensinamento de teologia moral, que expressa adequadamente a doutrina católica, a ponto de ser proclamado pelo Papa Pio XII como "padroeiro de todos os confessores e moralistas". Em sua época, difundiu-se uma interpretação muito rígida da vida moral, talvez por causa da mentalidade jansenista, que, ao invés de alimentar a confiança e a esperança na misericórdia de Deus, fomentava o medo e apresentava um rosto de Deus severo e rígido, muito longe do revelado por Jesus. Santo Afonso, especialmente em sua principal obra, intitulada "Teologia Moral", propõe uma síntese equilibrada e convincente entre as exigências da lei de Deus, gravada em nossos corações, revelada plenamente por Cristo e interpretada com autoridade pela Igreja, e os dinamismos da consciência e da liberdade do homem, que, na adesão à verdade e ao bem, permitem a maturação e realização pessoal. Aos pastores de almas e confessores, Afonso recomendava que fossem fiéis à doutrina moral católica, assumindo, ao mesmo tempo, uma atitude caritativa, compreensiva, doce, para que os penitentes se sentissem acompanhados, apoiados e incentivados em sua jornada de fé e de vida cristã. Santo Afonso não se cansava de dizer que os padres são um sinal visível da infinita misericórdia de Deus, que perdoa e ilumina a mente e o coração do pecador, para que se converta e mude de vida. Na nossa época, na qual são claros os sinais de perda da consciência moral e - deve ser admitido - certa falta de apreço pelo Sacramento da Confissão, o ensinamento de Santo Afonso é ainda muito atual.
Junto às obras de teologia, Santo Afonso compôs muitos outros escritos, destinados à formação religiosa do povo. Seu estilo é simples e agradável. Lidas e traduzidas em várias línguas, as obras de Santo Afonso contribuíram para moldar a espiritualidade popular nos últimos dois séculos. Alguns desses textos oferecem grandes benefícios, ainda hoje, tais como "Máximas eternas", "As glórias de Maria", "A prática do amor a Jesus Cristo", obra - esta última - que representa a síntese do seu pensamento e sua obra-prima. Insiste muito na necessidade da oração, que permite abrir-se à graça divina para cumprir cotidianamente a vontade de Deus e obter a própria santificação. Com relação à oração, escreve: "Deus não nega a ninguém a graça da oração, com a qual se obtém a ajuda para vencer toda concupiscência e toda tentação. E digo, replico e replicarei sempre, durante toda a minha vida, que toda a nossa salvação está em rezar". Daí seu famoso axioma: "Quem reza se salva", de "Do Grande Meio da Oração e opúsculos afins" (Obras Ascéticas II, Roma, 1962, p. 171). Vem à minha mente, a propósito disso, a exortação do meu predecessor, o Venerável Servo de Deus João Paulo II: "As nossas comunidades cristãs devem tornar-se autênticas ‘escolas de oração' (...). É preciso, portanto, que a educação na oração de alguma forma se torne um ponto determinante de toda a programação pastoral" (Carta Apostólica ‘Novo Millennio Ineunte', 33 e 34).
Entre as formas de oração fortemente recomendadas por Santo Afonso, destaca-se a visita ao Santíssimo Sacramento ou, como dizemos hoje, a adoração, curta ou longa, pessoal ou comunitária, diante da Eucaristia. "Certamente - escreve Afonso -, entre todas as devoções, esta de adorar Jesus sacramentado é precisamente, depois dos sacramentos, a mais querida por Deus e a mais útil para nós. (...) Oh! Que belo é estar na frente de um altar com fé (...), apresentando nossas necessidades, como faz um amigo a outro, em quem confia totalmente!" ("Visitas ao Santíssimo Sacramento, a Nossa Senhora e a São José para cada dia do mês". Introdução). A espiritualidade de Afonso é, de fato, eminentemente cristológica, centrada em Cristo e em seu Evangelho. A meditação sobre o mistério da Encarnação e da Paixão do Senhor muitas vezes é o tema de sua pregação. Nestes eventos, a Redenção é oferecida a todos os homens "copiosamente". E justamente porque é cristológica, a piedade afonsiana é também eminentemente mariana. Muito devoto a Maria, Afonso ilustra o seu papel na história da salvação: sócia da Redenção e mediadora da graça, mãe, advogada e rainha. Além disso, Santo Afonso diz que a devoção a Maria nos confortará no momento da nossa morte. Ele acreditava que meditar sobre o nosso destino eterno, sobre o nosso chamado a participar para sempre da bem-aventurança de Deus, assim como a possibilidade trágica da condenação, ajuda a viver com serenidade e compromisso, e a enfrentar a realidade da morte mantendo sempre a confiança na bondade de Deus.
Santo Afonso Maria de Ligório é um exemplo de pastor zeloso, que conquistou as almas pregando o Evangelho e administrando os sacramentos, combinados com uma maneira de fazer baseada em uma bondade humilde e suave, que nascia de uma relação intensa com Deus, que é a Bondade infinita. Ele teve uma visão realista e otimista dos recursos do bem que o Senhor dá a cada homem e deu importância aos afetos e aos sentimentos do coração, além a mente, para poder amar a Deus e ao próximo.
Em conclusão, eu gostaria de recordar que o nosso santo, à semelhança de São Francisco de Sales, de que falei há algumas semanas, insiste em que a santidade é acessível a todos os cristãos: "O religioso por religioso, o leigo por leigo, o sacerdote por sacerdote, o casado por casado, o comerciante por comerciante, o soldado por soldado, e assim falando em todos os estados" ("A prática do amor a Jesus Cristo". Obras Ascéticas I, Roma, 1933, p. 79). Agradeçamos ao Senhor que, na sua providência, suscita santos e doutores em diferentes épocas e lugares, que falam a mesma linguagem para nos convidar-nos a crescer na fé e a viver com amor e alegria o nosso ser cristãos nas ações simples de todos os dias, para caminhar na via da santidade, no caminho rumo a Deus e à verdadeira alegria. Obrigado.
[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:

Corria o ano de 1732, quando Santo Afonso Maria de Ligório fundou a Congregação do Santíssimo Redentor. Autênticos missionários itinerantes, os padres redentoristas foram até às aldeias mais distantes, exortando à conversão e à perseverança na vida cristã, sobretudo por meio da oração. Assim aprenderam do seu Fundador, o qual lhes recomendava que fossem fiéis à doutrina moral católica, mas assumindo uma atitude cheia de caridade e compreensão com os pecadores. Os sacerdotes - ensinava ele - são um sinal visível da misericórdia infinita de Deus, que perdoa e ilumina a mente e o coração do pecador, para que se converta e mude de vida. Este ensinamento de Santo Afonso é de grande actualidade neste nosso tempo, em que há claros sinais de perda da consciência moral e - com preocupação, o reconhecemos - de falta de estima pelo sacramento da Reconciliação.

Amados peregrinos de língua portuguesa, queridos fiéis da paróquia de Santa Maria do Barreiro, na diocese de Setúbal: a minha saudação amiga para todos vós, com votos de um frutuoso empenho na caminhada quaresmal que estais fazendo. Que nada vos impeça de viver e crescer na amizade de Deus, e testemunhar a todos a sua bondade e misericórdia! Sobre vós e vossas famílias, desça a minha bênção apostólica.
[Tradução: Aline Banchieri.

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[Espiritualidade]: A INTIMIDADE DO CRISTO


R. Garrigou-Lagrange, O. P.

"Potestis bibere calicem quem ego bibiturus sum?"
"Podeis beber o cálice que hei de beber?" (Mt 20, 21)

Para melhor penetrar nas profundezas do mistério da Redenção, é preciso falar da intimidade do Cristo ou da amizade de predileção que Ele tem por certas almas mais fiéis e mais generosas. Entre essas almas, uma é chamada no Evangelho por essas simples palavras: "O discípulo que Jesus amava". Se queremos compreender o valor da amizade do Salvador, seu princípio, seu motivo, sua ternura, sua força, seus dons inestimáveis, contemplemos aquela que Ele teve por São João.

O mais amado de todos os apóstolos devia ser bem perfeito, para que Nosso Senhor experimentasse tal agrado por ele; sua pureza o encantava. Não era, no entanto, a perfeição de João que atraía o amor de Jesus; ela foi, ao contrário, o efeito, o resultado deste amor que encontrou agrado nessa perfeição, diz Bossuet, como o artista agrada-se com uma obra bem feita. O amor de Deus e de Jesus por nossas almas não pressupõe a amabilidade em nós, mas Ele a põe em nós, Ele a cria e aumenta, assemelhando-nos a Ele. Detendo-se sobre nós, o amor divino produz em nós a vida da graça e Ele não cessa de fazê-la crescer se não lhe opomos obstáculos [1].

Vejamos como Nosso Senhor, pela sua amizade, tornou São João cada vez mais parecido com Ele mesmo; vamos nos inspirar em Bossuet [2], que assinala que o Salvador deu ao discípulo bem amado três dons: sua cruz, sua mãe e seu coração. Mas parece preferível seguir a ordem inversa, que é a do tempo: ele mostra melhor o progresso da vida da graça em São João, e como o discípulo bem amado penetrou cada vez mais na intimidade de Cristo. Na Ceia, Jesus lhe deu seu coração; pouco depois, morrendo, deu-lhe sua Mãe; e em seguida, para fecundar seu ministério, Ele lhe deu sua Cruz.

Na última Ceia Jesus dá a São João seu coração.
Todos os apóstolos, nesse momento, são ordenados padres, recebem o caráter sacerdotal e também a Santa Comunhão. Mas João se aproxima mais do coração do Mestre, repousa sua cabeça sobre o peito sagrado do Salvador.

No momento da instituição do sacramento que tem por fim aumentar em nós o amor de Deus, Nosso Senhor quis que um dos seus apóstolos privilegiados sentisse mais vivamente as batidas de seu Coração, que não cessaria agora em diante de viver na Eucaristia, para a consolação e regeneração perfeita das almas.

Que graça interior recebeu então São João? Pode-se concebê-lo lembrando que do corpo de Jesus saía uma graça que vivificava os corações. Certamente, João recebeu então uma graça de luz e de amor: conheceu experimentalmente que o Coração do Salvador só vive por amor de Deus e das almas, compreendeu como a Eucaristia é, aqui embaixo, a grande manifestação desse amor e, sob aparências muito humildes, a própria vida de Deus sempre presente entre nós. Predestinado de toda a eternidade a ser o grande doutor da caridade, João vem beber a caridade na sua fonte mesmo, e receber a inspiração das palavras que os fiéis esperarão santamente até o fim dos tempos. Para melhor falar do amor do Salvador por nós, ele vem sentir de perto o ardor desse fogo espiritual que queima sem destruir e que quer nos transformar nEle.

Como São Paulo se lembra, ao escrever, que foi elevado ao terceiro céu, São João se recorda que ele repousou sobre o Coração do Mestre.

E como falou a águia dos Evangelistas! Ele vincula toda a doutrina cristã a esses pontos fundamentais: Deus é luz e amor. Ele é que, primeiro e gratuitamente, nos amou; nosso amor deve ser uma resposta àquele que Ele nos mostrou, e a caridade fraterna deve ser o grande sinal de nosso amor a Deus.

O próprio São João resume isto escrevendo na sua primeiro Epístola (4, 7-16): "Meus bem-amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus, e conhece Deus. Aquele que não ama não conheceu a Deus, porque Deus é amor. Ele manifestou seu amor por nós enviando seu Filho único ao mundo, para que nós vivamos por Ele. E este amor consiste em que não fomos nós que amamos a Deus, mas ele que nos amou e que enviou seu Filho como vítima de propiciação por nossos pecados. Meus bem-amados, se Deus nos amou assim, devemos também amarmo-nos uns aos outros... Deus é amor; e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele". É em resumo todo o dogma, e também toda a moral cristã reduzida a seu princípio: o amor de Deus e do próximo, a caridade que deve inspirar e animar todas as virtudes. "Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos nossos irmãos" (1 Jo 3, 14). É o grande sinal do amor de Deus.

O que João recebeu, o Coração do Mestre, nós o receberemos também. Na Comunhão, podemos receber todos os dias o Coração Eucarístico de Jesus. E se o recebemos, se Nele cremos, devemos imitá-lo. O Coração do Salvador se abre a todos os fiéis, Nele somos todos reunidos, para sermos consumados na unidade. Ele não descarta ninguém.

Para entrar na intimidade de Cristo, é preciso também, a seu exemplo, ter um coração que não exclua ninguém, que esqueça os defeitos do próximo, um coração sensível aos sofrimentos do outro, um coração generoso ou magnânimo, que não retenha nada só para si, que dê sua vida aos outros e a possua, no entanto, melhor. Lembremo-nos de que os bens de Deus se multiplicarão tanto mais quanto os dividirmos com nossos irmãos; não se perde a verdade, a bondade, quando as damos: nós as possuímos mais e santamente.

Alegremo-nos também de ver no próximo o que nos falta; longe de nos deixar levar pela inveja, gozemos com suas qualidades, que são nossas em um sentido, pois que somos um no Corpo Místico do Cristo. A mão pode se alegrar com o que o olho vê. A caridade enriquece assim nossa pobreza; ela nos dá todos os bens comuns; faz nossos em certo sentido todos os dons do Corpo Místico do Salvador, e nos faz participar desde já em certa medida de todos os bens da cidade de Deus.

Mas, para entrar mais ainda na intimidade de Cristo, é preciso ser da escola de Maria, que mais que nenhuma criatura penetrou nesse santuário. Por isso Jesus, no momento em que ia morrer, confiou sua Mãe a São João.

Entre todos os apóstolos, só João está ao pé da cruz. Ele lá está, o coração triturado, testemunha de todas as torturas físicas e morais do Mestre. Jesus o atraiu invisivelmente ao pé da Cruz, para fazê-lo ouvir suas últimas palavras e para lhe dar uma última prova de seu amor.

Aqueles que vão morrer deixam aos que lhes são mais caros um testemunho de afeição, o mais expressivo possível. No momento de morrer, o que deixará Jesus a São João? Ele não tem mais nada; está despojado de tudo, abandonado por todos. Parece mesmo repelido por Seu Pai, quando, vítima em nosso lugar, diz a primeira palavra do Salmo: "Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?" Nessa completa nudez, o que deixará Jesus a São João?

Deixa-lhe uma lembrança viva, a alma Santíssima que Ele quis mais que todas as outras juntas. Ele lhe deixa Maria: "Filho, diz Ele, eis vossa Mãe", e a Maria: "Mulher, eis vosso filho" (Jo 19, 27). "E depois dessa hora, diz o quarto Evangelho, o discípulo a levou para sua casa".

Se o contato do Coração de Jesus na última Ceia vivificou espiritualmente o coração de João, esta palavra do Salvador, dita do alto da Cruz, produz, como uma palavra sacramental, o que ela significa. É dita por Aquele que vai morrer, mas que é ainda bastante forte para tocar os corações e os enriquecer como lhe agrada.

Esta palavra criou, entre Maria e João, por assim dizer, um laço espiritual muito íntimo, análogo àquele que une Jesus à Sua Santa Mãe. Ela deu a Maria uma afeição toda maternal e muito profunda que cobrirá de agora em diante a alma de João, e ao discípulo uma ternura toda filial e respeitosa que faz dele verdadeiramente o filho espiritual de Maria.

Nesta hora de agonia, esta palavra do Cristo moribundo entra no fundo de suas almas como um bálsamo para suavizar seus sofrimentos e acalmar os ferimentos de seus corações. Foi uma imensa consolação para São João, e também para Maria, por que Els, que via as almas, descobriu no discípulo bem-amado, o que ele mesmo não via, a imagem viva do Salvador, alter Christus, imagem que Maria foi encarregada de aperfeiçoar, de tornar cada vez mais semelhante ao Divino Modelo.

Assim, muitas vezes na história das almas, quando Jesus parece se retirar para provar a confiança de seus amigos, Ele lhes deixa sua Santa Mãe, confia-os a Maria.

Não se saberia dizer tudo o que São João recebeu da Virgem. Se as conversas de Santo Agostinho e de Santa Mônica em Ostia foram tão elevadas, o que pensar daquelas de Maria e de São João?

Pela plenitude da graça que ela tinha recebido, a Mãe de Deus era superior aos Anjos; seu coração queimava de uma caridade cuja intensidade a arrebatava sobre a de todos os santos reunidos; esta viva chama não cessava um instante de se elevar a Deus, mesmo durante seu sono, onde se verificava a palavra do Cântico (5, 2): "Ego dormio, sed cor meum vigilat..."(Eu durmo, mas meu coração vigia).

Em semelhante intimidade sobrenatural, quanto deve ter crescido também a caridade de São João, sobretudo quando celebrava a Santa Missa em presença de Maria, em suas intenções, e lhe dava a comunhão! Não sabia ele que a Virgem lhe era incomparavelmente superior pela compreensão do Sacrifício do Altar que perpetua em substância Aquele da Cruz? Maria não tinha o caráter sacerdotal e não podia consagrar, mas "Ela tinha recebido a plenitude do espírito do sacerdócio, que é o espírito do Cristo Redentor" [3]. Mediadora universal e Corredentora, ela não cessava de elevar a Deus a alma do apóstolo que se encantou, assim, pela vida escondida e se tornou o modelo dos contemplativos.

É a pureza que tinha preparado São João para viver na intimidade de Cristo; é ela que o qualificou para herdar o amor de Cristo por Maria, que foi profundamente sua verdadeira Mãe espiritual.

Seguindo o exemplo de São João, ponhamo-nos sob a direção imediata da Virgem, como nos convidava S. Grignion de Montfort. Ela é nossa mediadora aos pés de Cristo, como Ele mesmo é nosso mediador aos pés de Seu Pai. Ela será nosso conselho e nossa força, nossa defesa contra o demônio; aumentará o valor de nossos méritos oferecendo-os, ela mesma, a seu Filho; abandonemos a Maria o valor satisfatório e impetratório de nossas ações, de nossas lutas, de nossas orações para que ela consiga com isso, segundo seu agrado, benefícios para as almas que têm mais necessidade. Despojarmo-nos assim será nos enriquecer. Sob a direção de Maria, caminharemos mais seguramente pela via traçada pelo Verbo, que lhe obedeceu sobre a terra; corremos assim pela via dos mandamentos de Deus, porque recebemos a graça que dilata o coração, segundo a palavra do Salmo: "Viam mandatorum tuorum cucurri, cum dilatasti cor meum". A bem-aventurança da Virgem nos ensinará mil coisas por suas inspirações, como um boa mãe entrega a seu filho, com um simples olhar, sem ruído de palavras, o tesouro de sua vida interior. Com ela e na sua intimidade faremos mais progresso em alguns dias do que durante anos de trabalho pessoal cumprido longe dela. Assim fala São Luiz Grignion de Montfort, verdadeiro filho espiritual de Maria, como foi São João [4].

Nosso Senhor deu a São João seu Coração e sua Mãe, que lhe dará ainda para fecundar seu ministério apostólico? Ele lhe dará sua Cruz e progressivamente o fará compreender qual é o seu valor inestimável.

A amizade de Jesus só tem doçuras e complacências; ela é tão forte quanto terna, tende a purificar pela provação e a se associar às almas no mistério da Redenção pelo sofrimento.

Os apóstolos não compreenderam tudo de início. Como Jesus falava da fundação do reino de Deus, os apóstolos se perguntavam um dia quem dentre eles seria o maior nesse Reino. Então, como conta São Mateus (18, 3), "Jesus, tomando uma criança, colocou-a no meio deles e lhes disse: Eu vos digo, em verdade, se vós não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis de modo algum no Reino dos Céus." Muitas vezes também o Mestre havia dito: "Se alguém quiser vir atrás de mim, que renuncie a si mesmo, carregue a sua cruz e me siga." [5] Mas os apóstolos não compreendiam ainda todo o sentido dessa palavra: a cruz. Eles não podiam imaginar que Jesus seria crucificado embora Ele o houvesse predito para eles várias vezes.

Um dia, subindo a Jerusalém com eles, Nosso Senhor renova a profecia da sua Paixão, de sua Crucificação, de sua Ressurreição; Ele queria gravá-la mais profundamente no espírito de João e de seu irmão. Nesse momento, a mãe destes se aproxima de Jesus e se prosterna como para pedir alguma coisa. Como o conta São Mateus (20, 21), Jesus lhe diz: "O que queres?" Ela responde: "Ordene que meus dois filhos que aqui estão se sentem um à Vossa direita, outro à Vossa esquerda, no Vosso Reino". Jesus diz-lhes: "Vós não sabeis o que pedis. Podereis beber do cálice que Eu hei de beber?" — "Podemos", lhe dizem eles. Ele lhes responde: "Vós bebereis com efeito do meu cálice, quanto a estardes sentado à minha direita ou à minha esquerda, não cabe a mim vo-lo conceder, mas será para aqueles para quem meu Pai o preparou". Desde esse dia, Jesus deu sua Cruz a seu discípulo bem-amado.

Essa palavra do Salvador, como as duas outras ditas a São João, produziu na alma do discípulo o que ela significava. A partir desse instante, João não procurou mais ser o primeiro; começou a amar o sofrimento, a humilhação e este amor não cessou de crescer em seu coração sob a influência da graça.

Jesus o tornou cada vez mais semelhante a Ele; ora, Ele veio para sofrer como vítima da salvação, para nos salvar pela Sua agonia mais que pelos seus discursos. Ele unirá então, cada vez mais, São João à sua vida laboriosa e crucificada. "Quando Jesus entra em algum lugar, diz Bossuet, Ele ali entra com sua cruz e seus espinhos; Ele concede parte nisso àqueles que O amam". Ora, João é seu apóstolo bem-amado, Ele lhe faz então presente desta enorme graça que é o amor da Cruz.

João cria de início que, para ter um lugar escolhido no Reino do Filho de Deus, era preciso estar sentado à sua direito e revestido de sua glória. Ele vai aprender porém que entra-se profundamente no Reino, desde aqui embaixo, pelo sofrimento; Ele saberá como a provação nos torna clarividentes para contemplar Jesus nas almas. A aflição lhe abrirá os olhos, João compreenderá o sentido profundo da mais alta das bem-aventuranças, a mais surpreendente para a razão humana: "Bem-aventurados aqueles que sofrem perseguição pela justiça, porque é deles o Reino dos Céus". Ele é deles desde aqui embaixo, no meio mesmo da perseguição, pela paz profunda que Jesus lhes dá.

Qual foi a cruz de João? Vendo as coisas de fora, parece que, de todos os apóstolos, ele tenha tido a mais leve. Só ele não foi morto nos sofrimentos do martírio. Sofreu, no entanto, a perseguição, sob Domiciano; foi mergulhado, em Roma, num banho de óleo fervendo. Mas este óleo se transformou em orvalho, ele saiu dali refrescado e purificado. Foi em seguida exilado para Patmos, onde Nosso Senhor glorificado lhe apareceu e lhe revelou seus segredos, ordenando-lhe que os escrevesse nesse livro, o mais misterioso de todos os livros sagrados, o Apocalipse.

Vendo as coisas de fora, a cruz de São João parece ter sido mais leve que a dos outros apóstolos. Mas como diz Bossuet [6]: "A cruz de São João foi a maior de todas no interior. Consideremos o mistério, as duas cruzes de Nosso Salvador. Uma se vê no calvário, e ela parece a mais dolorosa; a outra é aquela que Ele levou durante todo o curso de sua vida, é a mais penosa". Jesus diz várias vezes a Santa Catarina de Sena, esta cruz interior é aquela do desejo da salvação das almas, desejo combatido pelo espírito do mal, pelo espírito do mundo, pela cobiça que arrasta milhares de almas para sua perda. Na vida de Jesus segue-se o progresso da malícia daqueles que se encarniçam contra Ele, o que torna mais ardente a sede da salvação das almas que O queima e O consome. O martírio do coração é muitas vezes mais doloroso que o outro e pode durar, não somente algumas horas, mas longos anos.

É sobretudo esta cruz interior do desejo da glória de Deus e da salvação das almas que Jesus deu a São João. Ela não atingia pois os sentidos, mas estava impressa por Deus no fundo da alma com o vivo desejo da salvação dos pecadores. Para tornar o apóstolo capaz de carregar esta cruz interior, Jesus lhe inspirava o amor dos sofrimentos, que avivava o desejo mas acalmando-o e impedia a alma de repousar fora de Deus. O mesmo acontece a certas almas chamadas à santidade: se se detém de um modo natural demais numa satisfação que vem das criaturas, logo Nosso Senhor derrama sobre tal satisfação uma gota de amargura; e esta amargura ultrapassa de muito o prazer experimentado; é uma graça crucificante e purificadora.

Enfim a cruz interior para São João veio sobretudo das heresias que mutilaram a Santa Igreja negando a divindade de Jesus. Quanto esta negação deve ter torturado o coração daquele que escreveu o quarto Evangelho, que tinha por finalidade mostrar o Verbo feito carne em toda sua glória! Esta cruz interior vinha também das divisões que se produziram na Igreja nascente, para grande detrimento da caridade. Assim, o apóstolo, com oitenta anos, fazia-se levar pelos seus discípulos à Igreja de Éfeso e, não podendo mais pregar longamente, dizia: "Meus filhinhos, amai-vos uns aos outros". Ele que, na sua juventude, por causa do seu ardor, tinha sido chamado por Nosso Senhor, junto com seus irmãos, boarnerges, filhos do trovão, ele não sabia mais falar a não ser da caridade fraterna, o grande sinal do amor de Deus. João não tinha perdido nada do seu ardor, da sua sede de justiça, mas esta estava espiritualizada e era acompanhada de uma grande doçura. E como os ouvintes lhe perguntavam por que ele repetia sempre a mesma coisa, João respondia: "É o preceito do Senhor e se vós o cumprirdes, é suficiente".

Tal foi a cruz de João, sobretudo interior.

O Senhor no-la dá também. Há três espécies de cruz: aquelas que ficam inúteis como a do mau ladrão; aquelas que se carrega para reparar as próprias faltas e para merecer a salvação, como a do bom ladrão; e aquelas que fazem pensar na Cruz do Salvador, e que se carrega para trabalhar com Ele para a salvação das almas. A cruz bem carregada nos carrega por sua vez; ela abre os olhos e conduz à contemplação, a ver Deus escondido nas almas. Se ela nos parece por vezes bem pesada, peçamos ao Salvador dar-nos o amor do sofrimento, orientar-nos, pelo menos, neste caminho.

É o que Ele quer, pois que nos deu Seu Coração, o qual é um coração sofrido. Ele nos deu também Sua Mãe, e uma das maiores graças que Nossa Senhora das Dores possa nos obter é a de saborear a cruz que o Senhor nos impôs para nos purificar e nos fazer trabalhar para a salvação das almas[7]. Isto é verdadeiramente entrar na intimidade de Cristo e participar de sua vida escondida e dolorosa antes de termos parte na sua vida gloriosa no Céu[8].

Notas:
[1] Cf. S. Tomás, I, q. 20, a. 2: "Amor Dei est infundens et creans bonitatem in rebus". É a este princípio que S. Tomás liga todo o tratado da graça; cf. Ia. IIae, q. 110, a. 1, c et ad 1m: "Causatur ex dilectione divina, quod est in homine Deo gratum".
[2] Panegírico de S. João.
[3] São palavras de M. Olier.
[4] Ver seu "Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem", cap. IV, a. 5; cap. V, a. 2, e o resumo que fez sob o título: "O Segredo de Maria".
[5] Mateus, 16, 24.
[6] Panegírico de S. João, primeiro ponto.
[7] A expressão "saborear a cruz" lembra que Nosso Senhor declarou: "Muitos não provarão a morte antes que vejam vir o Filho do homem no seu reino" (Mt 16, 28). Santo Tomás diz a este respeito (in Mathaeum, 16, 28): "Pecatores absorbentur morte sed justi gustabunt mortem": Os pecadores são absorvidos, como engolidos pela morte, os justos saboreiam a morte, que é a entrada na vida eterna.
[8] Para entrar na intimidade de Cristo, releiamos às vezes o hino composto por uma abadessa beneditina do século XIV:
Jesus dulcis memoria,
Dans vera cordis gaudia;
sed super mel et omnia,
ejus dulcis praesentia.
Nil canitur suavius,
Nil auditur jucundius,
Nil cogitatur dulcius.
quam Jesus Dei Filius.

Jesu, spes poenitentibus,
Quam pius es petentibus!
Quam bonus te quarentibus!
Sed quid invenientibus?

Doce é a lembrança de Jesus,
Ele dá as verdadeiras alegrias do coração;
Mais que o mel e todas as coisas
doce é a sua presença
Não se canta nada mais suave
nada se ouve de mais agradável
nenhum pensamento é mais doce
que Jesus o Filho de Deus.

Oh Jesus! esperança dos penitentes.
como Vós sois terno para os que vos imploram
como sois bom para os que Vos procuram
mas o que não sois para os que Vos encontram!

   
Não menos bela é essa oração alemã cantada há muito tempo pelos fiéis:

"Ich danke dir, Herr Jesu Christ
Dass du für mich gestorben bist
Lass dein Glut und deine Pein
An mir doch nicht verloren sein
O liebe, o unendliche Liebe Gottes!
Obrigado Senhor Jesus
Por terdes morrido para nos salvar
Não permiti que Vosso sangue e Vossa Cruz
Sejam para sempre perdidos por mim
Ó amor, Ó amor infinito de Deus por nós!
     
Digamos como Santo Nicolau de Flüe: "Nimm mich mir, und gib mich Dir" — "Senhor, tomai-me de mim e dai-me a Vós".

PADRE PIO: “OS ANJOS NOS INVEJAM DE UMA SÓ COISA: QUE ELES NÃO PODEM SOFRER”

Aqui vemos que o Anjo não nos livra da Cruz, mas sente e compadece conosco. Mas também se alegra com nossas dores, enquanto as aceitamos dignamente para a glória de DEUS. Outra vez quando o Padre Pio foi muito atacado pelos demônios, o Anjo lhe disse: “Agradece a Jesus por te estar tratando como a um escolhido para subir o caminho escarpado para o Calvário. Alma confiada por Jesus aos meus cuidados, eu guardo com alegria e profunda comoção este comportamento de Jesus contigo. Acaso pensas que estaria tão feliz se não te visse tão maltratado? Eu, que em santo amor desejo teu bem, começo a jubilar mais e mais ao ver-te neste estado. Jesus permite estes assaltos do diabo porque Sua compaixão te faz querido a Ele e Ele quer que te pareças com ELE no deserto, no Jardim (das Oliveiras) e na Cruz” (Ibid., 330–331).

Isso combina muito bem com o que o Padre Pio disse uma vez: “Os Anjos nos invejam de uma só coisa: que eles não podem sofrer por DEUS” (Send me your Angel, 65).

Queremos nos deixar inspirar por este grande Santo e pôr em prática os seus conselhos a respeito dos Anjos. E mesmo que ele não viva mais e, por isso, não possamos enviar mais os nossos Anjos da Guarda a San Giovanni Rotondo, não quer dizer que acabou a grande ajuda deste grandioso Santo. Muito mais podemos enviar agora os nossos Anjos da Guarda para o Padre Pio no céu, confiando que ele tem agora ainda mais poder para nos ajudar.

LOS ORÍGENES DE LA VIDA SOBRENATURAL

LOS ORÍGENES DE LA VIDA SOBRENATURAL

   51. El fin de este capítulo es darnos a conocer lo que hay de gratuito y excelente en la vida sobrenatural, así como las excelsas dotes y las flaquezas del hombre a quien se ha hecho partícipe de dicha vida. Para mejor entenderlo, consideramos:

                I.             Qué cosa sea la vida natural del hombre;
                II.            Su elevación al estado sobrenatural;
                III.          Su caída,
                IV.          Su restauración por el Divino Redentor.

ART. I. DE LA VIDA NATURAL DEL HOMBRE

   52. Toca aquí decir del hombre tal como hubiera existido en el estado de pura naturaleza, tal como nos le pintan los filósofos. Porque la vida sobrenatural se asienta sobre nuestra vida natural y al perfeccionarla la conserva, importa mucho recordar brevemente cuanto acerca de ella nos enseña la recta razón.

   1º Es el hombre un compuesto misterioso de cuerpo y de alma, de materia y de espíritu que en él se juntan íntimamente para formar una sola naturaleza y una sola persona. Es, pues, por así decirlo, el punto de unión, el lazo que junta los espíritus y los cuerpos, un compendio de las maravillas de la creación, un mundo pequeño, resumen de todos los mundos, una manifestación de la sabiduría divina que supo juntar en uno dos seres de suyo tan separados.

   53. Es un mundo lleno de vida: según el dicho de S. Gregorio Magno, distínguense tres vidas, la vegetativa, la animal y la intelectual: «Homo habet vivere cum plantis, sentire cum animantibus, inteligere cum angelis»[1]. Como la planta, el hombre se nutre, crece y se reproduce; como el animal, conoce los objetos sensibles, dirígese a ellos por el apetito sensitivo, con sus emociones y pasiones, y muévese con movimiento espontáneo; como el ángel, pero en grado inferior y de diferente manera, conoce intelectualmente el ser suprasensible, lo verdadero, y su voluntad se dirige libremente hacia el bien racional.

   54.  2º Estas tres vidas no están sobrepuestas, sino que se compenetran, se coordinan y subordinan para concurrir a un mismo fin, que es la perfección de todo el ser. Es ley racional y biológica a la vez que, en todo ser compuesto, no puede conservarse la vida ni desarrollarse sin la condición de coordinar y, por ende, de subordinar sus diversos elementos al elemento principal, de hacerlos siervos para servirse de ellos. En el hombre, por lo tanto, las facultades inferiores, vegetativas y sensitivas, deberán estar sometidas a la razón y a la voluntad. Absoluta es esta condición: a compás de su falta, debilitase la vida o desaparece; cuando cesa en realidad la subordinación, comienza la disociación de los elementos, o sea el desmoronamiento del sistema, y, por último, la muerte[2].

   55.  3º Es, pues, la vida una lucha: porque nuestras facultades inferiores se inclinan con fuerza hacia el placer, mientras que las superiores tienden hacia el bien honesto. Mas entre estos dos suele haber conflicto: lo que nos agrada, lo que es, o nos parece ser útil para nosotros, no es siempre bueno moralmente; será menester que la razón, para imponer el orden, reprima las tendencias contrarias y las venza: ésta es la lucha del espíritu contra la carne, de la voluntad contra la pasión. Muy dura es esta lucha: así como en la primavera sube con fuerza la savia por los árboles, también en la parte sensitiva de nuestra alma levántanse impulsos violentos hacia el placer sensible.

   56. Mas no son de suyo irresistibles; la voluntad, ayudada por el entendimiento, ejerce sobre estos movimientos pasionales un cuádruple poder: 1) poder de previsión, que consiste en prever y prevenir, por medio de una sabia y constante vigilancia, muchas de las imaginaciones, impresiones y movimientos peligrosos; 2) poder de inhibición y de moderación, por el que tenemos a raya o, cuando menos, moderamos los movimientos violentos que se alzan dentro de nuestra alma; así yo puedo impedir que mis ojos se fijen en un objeto peligroso, que mi imaginación guarde representaciones malsanas; si surgiere en mí un movimiento de ira, puédole moderar; 3) poder de estimular, que excita o intensifica, por medio de la voluntad, movimientos pasionales; 4) poder de dirección, por el que dirigimos esos movimientos hacia el bien, y, por ende, los apartamos del mal.

   57.  Además de estas luchas intestinas, puede haber otras entre el alma y su Criador. Cierto que por la recta razón conocemos ser obligación nuestra estar sometidos en todo a la voluntad del que es nuestro soberano Dueño. Pero esta obediencia nos cuesta mucho; hay en nosotros una sed ardiente de independencia y autonomía que nos inclina a emanciparnos de la divina autoridad; es la soberbia, a la que no podemos vencer sino por la humilde confesión de nuestra indignidad e impotencia, reconociendo los derechos imprescriptibles del Criador sobre su criatura.

   Así, pues, en el estado mismo de la naturaleza pura, siempre hubiéramos tenido que pelear contra la triple concupiscencia.

   58. 4º Cuando el hombre, en vez de dejarse llevar de sus malas inclinaciones, hace lo que debe; puede con justicia esperar una recompensa: será ésta para su alma inmortal un conocimiento más amplio y profundo de la verdad y de Dios, pero siempre en conformidad con su naturaleza, esto es, analítico o discursivo, y un amor más puro y duradero. Si, por el contrario, quebranta la ley en materia grave, y no se arrepiente antes de morir, pierde el fin suyo y merece un castigo, que será la privación de Dios, junta con tormentos proporcionados a la gravedad de sus culpas.

   Tal hubiera sido la suerte del hombre en el estado que se llama de naturaleza pura, en el que, por lo demás, jamás se hubo; por haber sido elevado el hombre al estado sobrenatural, ya en el momento mismo de su creación, como dice Santo Tomás, ya inmediatamente después, como dice S. Buenaventura.

   No se contentó Dios, en su infinita bondad, con otorgar al hombre los dones naturales, sino que quiso además elevarle a un estado superior, confiriéndole dones preternaturales y sobrenaturales.

ART. II. DE LA ELEVACIÓN DEL HOMBRE AL ESTADO SOBRENATURAL [3]

I. Noción de lo sobrenatural

   59.  Recordemos brevemente que en teología se distinguen dos clases de sobrenatural absoluto: sobrenatural absoluto por esencia, quoad substantiam, y sobrenatural absoluto en cuanto al modo, quoad modum.

   1º Lo sobrenatural por esencia es un don divino otorgado a la criatura inteligente, y que está por encima de toda la naturaleza, en cuanto que ésta no puede producirlo, ni aun pedirlo, exigirlo ni merecerlo; está, pues, no solamente por encima de toda su potencia activa, sino también de todos sus derechos y exigencias. Es algo finito, por ser un don otorgado a una criatura; pero juntamente es algo divino, porque sólo lo divino puede estar por encima de las exigencias de toda criatura. Es algo divino, mas comunicado, participado por la criatura, y así huimos de caer en el panteísmo. Realmente no hay sino dos formas de sobrenatural por esencia: la Encarnación y la gracia santificante.

   A) En el primer caso, únese Dios a la humanidad en la persona del Verbo, de manera que la naturaleza humana de Jesús tiene por sujeto personal la segunda persona de la Santísima Trinidad, sin padecer alteración alguna en cuanto naturaleza humana; así, pues, Jesús que es hombre por su naturaleza humana, es verdaderamente Dios por su personalidad. Es ésta una unión sustancial, que no confunde dos naturalezas en una sola, sino que las une, conservándolas en su integridad, en una sola persona, que es la del Verbo; es, pues, una unión personal o hipostática. Es el grado más elevado de sobrenatural quoad substantiam.

   B) La gracia santificante es un grado menor de ese mismo sobrenatural. Con ella realmente el hombre conserva su propia personalidad, pero modificada a lo divino, aunque accidentalmente, en su naturaleza y potencia activa; no será Dios, mas es deiforme, o sea, semejante a Dios, divinae consors naturae, capaz de esperar la posesión de Dios directamente por medio de la visión beatifica, cuando la gracia se transforme en gloria, y de verle cara a cara, como se ve a sí mismo: privilegio que a todas luces está por encima de las exigencias de las criaturas más perfectas, puesto que nos hace partícipes de la vida intelectual de Dios, de su misma naturaleza.

   60.  2º Lo sobrenatural absoluto en cuanto al modo es en sí algo que de suyo no está por encima de la potencia activa ni de la exigencia de todas las criaturas, sino solamente de alguna naturaleza particular. Tal es la ciencia infusa, que supera la potencia activa del hombre, mas no la del ángel.

   Comunicó Dios al hombre estas dos clases de sobrenatural: pues otorgó a nuestros primeros padres el don de integridad (sobrenatural quoad modum) que, completando la naturaleza de ellos, la disponía para recibir la gracia, y juntamente la gracia misma, don sobrenatural quoad substantiam el conjunto de estos dos dones es lo que se llama justicia original.

II. Dones preternaturales conferidos a Adán

   61.  El don de integridad perfecciona la naturaleza del hombre sin elevarla hasta el orden divino; es ciertamente un don gratuito, preternatural, que supera las exigencias y las fuerzas de aquella; pero que aún no es lo sobrenatural por esencia. Encierra en sí tres sublimes privilegios, que, sin mudar en el fondo la naturaleza humana, le dan una perfección a la cual no tenía derecho alguno, y que son: la ciencia infusa, el dominio de las pasiones, o sea, estar libre de la concupiscencia, y la inmortalidad del cuerpo.

   62.  A) La ciencia infusa. No tenemos nosotros derecho a ella por nuestra naturaleza, porque es propia de los ángeles; la ciencia no podemos conseguirla sino progresiva y difícilmente, según las leyes psicológicas. Mas, para que el hombre pudiera fácilmente cumplir su oficio de cabeza y educador del género humano, concedió Dios gratuitamente el conocimiento infuso de cuantas verdades le convenía saber, y cierta facilidad para adquirir la ciencia experimental: acercábase así a los ángeles.

   63.  B) El dominio de las pasiones, o el estar libre de la tiránica concupiscencia que hace tan difícil el ejercicio de la virtud. Ya dijimos que, por la constitución misma del hombre, hay en éste una terrible lucha entre el deseo sincero del bien y el apetito desordenado de los placeres y de los bienes sensibles, y, además, una fuerte inclinación a la soberbia: esto es lo que llamamos la triple concupiscencia. Para remediar esta imperfección natural, otorgó Dios a nuestros primeros padres cierto dominio de las pasiones, por el que, sin llegar a ser impecables, tenían cierta facilidad en practicar la virtud. No había en Adán la tiranía despótica de la concupiscencia que inclina violentamente al mal, sino sólo cierta tendencia al placer subordinado a la razón. Porque estaba su voluntad sujeta a Dios, sujetas estaban sus facultades inferiores a la razón, y el cuerpo al alma: esto era el orden, la rectitud perfecta.

   64.  C) La inmortalidad corporal. Por su naturaleza está el hombre sujeto a la enfermedad y a la muerte; mas, por una providencia especial, fue preservado de esta doble flaqueza, para que pudiera el alma dedicarse con mayor libertad al cumplimiento de sus deberes más excelsos.

   Todos estos privilegios tenían por fin preparar al hombre para recibir un don mucho más precioso, entera y absolutamente sobrenatural, la gracia santificante, y para hacer buen uso de ella.

III. Los privilegios sobrenaturales

   65.  A) Por su naturaleza es el hombre siervo de Dios, cosa y propiedad suya. Por una insigne bondad, que nunca podremos agradecer harto, quiso Dios darle entrada en su familia, adoptarle por su hijo, hacerle su presunto heredero guardándole un puesto en su reino; y, para que esta adopción no fuera una simple formalidad, le comunicó una participación de vida divina, una cualidad criada, es cierto, pero real, por la que podía disfrutar en la tierra de las lumbres de la fe, muy superiores a las de la razón, y poseer a Dios en el cielo por la visión beatífica y un amor proporcionado a la claridad de esta visión.

   66.  B) A esta gracia habitual, que perfeccionaba y divinizaba, pudiéramos decir, la sustancia misma del alma, juntábanse virtudes infusas y dones del Espíritu Santo, que divinizaban las facultades de ella, y una gracia actual que ponía en movimiento todo el organismo este sobrenatural, para que pudiera hacer obras sobrenaturales, deiformes y meritorias de vida eterna.

   Esta gracia es sustancialmente la misma que se nos da en la justificación, y por esto no decimos de ella ahora por menudo, sino que diremos más adelante cuando hablemos del hombre regenerado.

   Todos estos privilegios, menos la ciencia infusa, fueron dados a Adán, no como un bien personal, sino como un patrimonio de familia que había de pasar a toda su descendencia, si él se mantuviera fiel a Dios.

ART. III. LA CAÍDA Y EL CASTIGO [4]

I. La caída

   67.  Aun dotado de todos estos privilegios seguía el hombre siendo libre, y fue sometido a una prueba para que, con la ayuda de la gracia, pudiera merecer el cielo. Consistía esta prueba en el cumplimiento de las leyes divinas, y, en particular, de un precepto positivo sobreañadido a la ley natural, y que expresa el Génesis bajo la forma de la prohibición de comer del fruto del árbol de la ciencia del bien y del mal. Cuenta la Escritura cómo el demonio, tomando la forma de la serpiente, se llegó a tentar a nuestros primeros padres, moviendo en su ánimo dudas acerca de la legitimidad de tal prohibición. Intentó persuadirles de que, lejos de morir, si comieran del fruto aquel, serían como dioses, sabiendo por sí mismos el bien y el mal, sin necesidad de acudir para ello a la ley divina: «eritis sicut dii, scientes bonum et malum» [5]. Tentación de soberbia era ésta y de rebelión contra Dios. Rindióse a ella el hombre, y cometió formalmente un acto de desobediencia, como advierte S. Pablo6], pero inspirado por la soberbia, y seguido muy pronto de otros pecados. Era una falta grave, porque era un no querer someterse a la autoridad divina, una especie de negación de su dominio supremo y de su sabiduría infinita, que dispuso el mandamiento aquel como medio de probar la fidelidad del primer hombre; pecado tanto más grave cuanto que nuestros primeros padres sabían la infinita liberalidad de Dios para con ellos, los derechos imprescriptibles de su Hacedor, la gravedad del precepto manifestada por la gravedad de la sanción con que se amenazaba, y que, no obrando con ímpetu en ellos las pasiones, tenían tiempo para considerar las consecuencias irreparables de su acto.

   68.  Preguntáronse algunos cómo pudieron pecar, si estaban libres de las concupiscencia. Para entender cómo pudo ser esto, es menester recordar que ninguna criatura libre es impecable; puede realmente apartar su consideración del bien verdadero y ponerla en el bien aparente, abrazarse con este último y preferirle a aquél; y esta preferencia es precisamente lo que constituye el pecado. Como advierte Santo Tomás, sólo es impecable aquel cuya voluntad es una misma cosa con la ley moral, lo cual es exclusivo privilegio de Dios.

II. El castigo

   69.  No tardó en venir el castigo, en la persona de nuestros primeros padres y en su descendencia.

   A) El castigo personal de nuestros primeros padres se halla descrito en el Génesis; pero aun en él mismo se echa de ver la bondad de Dios: pudo aplicarles inmediatamente la pena de muerte, mas no lo hizo por misericordia. Contentóse con privarles de los privilegios especiales que les había otorgado, esto es, del don de integridad y de la gracia habitual: conservaron, pues, su naturaleza con los dones naturales; cierto que su voluntad quedó debilitada en comparación a como se había con el don de integridad; mas no ha podido probarse que sea más débil que lo hubiera sido en el estado de naturaleza pura; con todo, sigue siendo libre y puede escoger entre el bien y el mal. Quiso aún Dios dejarles la fe y la esperanza, e hizo brillar al mismo tiempo ante sus desmayados ojos la espera de un libertador, que había de salir de su descendencia, vencer al demonio y reparar al hombre caído. También con su gracia actual movió los corazones de ellos a la penitencia y vino tiempo en que les perdonó el pecado.

   70.  B) Mas ¿qué habría de ser del género humano que naciera de la unión de ellos? Habría de nacer privado de la justicia original, o sea, de la gracia santificante y del don de integridad. Estos dones puramente gratuitos, que eran como el patrimonio familiar, no habían de pasar a la posteridad de Adán, sino sólo en el caso de que hubiera permanecido fiel a Dios; no habiéndose cumplido la condición ésta, nace el hombre privado de la justicia original. Cuando Adán hizo penitencia y recobró la gracia, recobróla como persona privada y para su cuenta particular, no podía, pues, transmitirla a su descendencia. Guardado estaba para el Mesías, para el nuevo Adán, que habría de ser ya para siempre cabeza del género humano, el expiar nuestros pecados e instituir el sacramento de la regeneración para comunicar a cada uno de los bautizados la gracia perdida por Adán.

   71.  Los hijos, pues, de Adán nacen privados de la justicia original, o sea, de la gracia santificante y del don de integridad. La privación de esta gracia constituye lo que se llama el pecado original; pecado en sentido lato, que no supone acto alguno culpable por nuestra parte, sino un estado de degradación, y, atendiendo al fin sobrenatural al cual seguimos destinados, una privación, la falta de una cualidad esencial que deberíamos poseer, y, por consiguiente, una mancha, una suciedad moral, que nos excluye del reino de los cielos.

   72.  Y porque también perdimos el don de integridad, revuélvese vigorosa dentro de nosotros la concupiscencia, y, si no resistimos esforzadamente a ella, nos arrastra al pecado actual. Nos hallamos, pues, en comparación con el estado primitivo, mermados y heridos, sujetos al error, inclinados al mal, débiles para resistir a las tentaciones. La experiencia demuestra no ser igual la concupiscencia en todos los hombres: no todos, en verdad, tienen el mismo temperamento y carácter, ni, por lo tanto, las pasiones igualmente hirvientes; roto, pues, el freno de la justicia original, que las domeñaba, recobraron las pasiones su libertad, y serán más violentas en unos, y en otros más templadas; tal es la explicación que de ello da Santo Tomás [7].

   73.  ¿Habremos de ir más allá, y admitir, con la escuela agustiniana, una cierta merma y disminución de nuestras facultades y energías naturales? No es menester y no puede probarse.

   ¿Será preciso admitir, con algunos tomistas, una merma o disminución extrínseca de nuestras energías, en el sentido de que tenemos mayor número de dificultades que vencer, en especial la tiranía que el demonio ejerce sobre los que venció, y la carencia de ciertos auxilios naturales que nos hubiera otorgado Dios en el estado de naturaleza pura? Posible es y muy probable; mas también se ha de decir que el aumento ese de dificultades, se halla abundantemente compensado con las gracias que Dios Nuestro Señor nos concede, en virtud de los méritos de su Hijo, con la tutela de los ángeles buenos y especialmente la de nuestros ángeles de la guarda.

   74.  Conclusión. Sobre la caída original puede decirse en suma que el hombre perdió el justo equilibrio que Dios le había concedido de sus facultades y potencias, y que, en comparación con el estado primitivo, es un herido y un desequilibrado, cual nos lo muestra el estado actual de nuestras facultades.

   A) Échase de ver esto primeramente en nuestras facultades sensitivas. a) Los sentidos externos: los ojos se nos van tras de lo llamativo y curioso; los oídos están siempre prestos a escuchar novedades; el tacto busca las sensaciones agradables, sin cuidarse para nada de las leyes de la moral. b) Lo mismo ha de decirse de nuestros sentidos internos: tráenos la imaginación mil representaciones más o menos sensuales; corren con ardor y aún con violencia hacia el bien sensible nuestras pasiones, sin atender al aspecto moral del mismo, y procuran arrastrar a la voluntad a que consienta. Cierto que todas estas inclinaciones no son de suyo irresistibles; porque las facultades, de donde proceden, siguen, en cierto modo, sometidas al imperio de la voluntad; mas, ¡cuánta fuerza y estrategia son necesarias para sujetar a todas esas gentes rebeldes!

   75.  B) También las facultades intelectuales, que constituyen el hombre propiamente dicho, el entendimiento y la voluntad, fueron dañadas por el pecado original. a) Cierto que nuestro entendimiento siguió siendo capaz de conocer la verdad, y de adquirir, aun sin la ayuda de la revelación, a costa de paciente trabajo muchas de las verdades fundamentales del orden natural. Mas, ¡cuán flacamente se ha con respecto a la verdad! 1) En vez de correr de suyo hacia Dios y las cosas divinas, en vez de alzarse del conocimiento de las criaturas a conocer al Criador, como hubiera hecho en su primer estado, tiende a abismarse en el estudio de las cosas criadas sin remontarse a la causa de ellas, a poner toda su atención en lo que sacia su apetito desordenado de saber, y a no cuidar de lo que toca a su fin propio; los cuidados temporales le estorban muy a menudo para pensar en la eternidad. 2) Y ¡cuán propenso es al error! Los mil prejuicios que nos atraen, las pasiones que conmueven nuestra alma y la ciegan para que no vea la verdad, hartas veces nos hacen caer en el error, y precisamente en las cuestiones más importantes de las que depende toda nuestra vida moral. b) La misma voluntad nuestra, en vez de someterse a la de Dios, tiene sus pujos de independencia; cuéstale mucho obedecer a Dios, y, aún más, a los representantes de Dios. Y, cuando ha de vencer los obstáculos que se oponen al ejercicio del bien, ¡cuán floja y cuán inconstante se muestra! ¿Cuántas veces no se deja arrastrar por el sentimiento y por las pasiones? Con vivos colores describe S. Pablo tan triste flaqueza: «Por cuanto no hago el bien que quiero; antes bien, hago el mal que no quiero... De aquí es que me complazco en la Ley de Dios según el hombre interior, mas echo de ver otra ley en mis miembros, la cual resiste a la ley de mi espíritu, y me sojuzga a la ley del pecado, que está en los miembros de mi cuerpo. ¡Oh, qué hombre tan infeliz soy yo! ¿Quién me libertará de este cuerpo de muerte? La gracia de Dios por Jesucristo Señor nuestro» [8]. El remedio, pues, de tan desdichado estado, es, según el testimonio del Apóstol, la gracia de la Redención, de la que vamos ahora a decir.

ART. IV. LA REDENCIÓN Y SUS EFECTOS [9]

   76.  Obra maravillosa es la Redención, la obra maestra de Dios, que rehace al hombre desfigurado por el pecado, y le pone en estado en cierta manera más excelente que aquel del que cayó, ya que la Iglesia no tiene reparo, en su liturgia, en bendecir la culpa que tuvo tan alto Redentor como el Hombre-Dios: «O felix culpa quae talem ac tantum meruit habere Redemptorem!»

I. Su naturaleza

   77.  Dios, que desde la eternidad previó la caída del hombre, también desde la eternidad preparó un Redentor de los hombres en la persona de su Hijo; el cual se hizo hombre para ser cabeza de la humanidad y así poder pagar enteramente por nuestro pecado, y volvernos con la gracia el derecho que perdimos al cielo. Supo sacar bien del mal y juntar la justicia con la misericordia.

   No estaba obligado a ejercer su derecho estricto de justicia; bien pudo haber perdonado al hombre, contentándose con la reparación imperfecta que éste hubiera podido ofrecerle. Mas juzgó ser más digno de su gloria, y provechoso para el hombre, poner a éste en estado en que pudiera reparar completamente su culpa.

   78.  A) Exigía la perfecta justicia una reparación adecuada, igual a la ofensa, y prestada por un representante legítimo de la humanidad. Así lo llevó Dios enteramente al cabo por medio de la Encarnación y la Redención.

   a) Hizo Dios que encarnara su Hijo, y constituyóle, por ende, jefe de la humanidad, cabeza de un cuerpo místico del cual todos nosotros somos miembros; tiene, pues, el Hijo el poder de hacer sus obras en nombre de los miembros suyos y de reparar las culpas de éstos.

   b) Tal reparación, no solamente es iguala la ofensa, sino que la supera con mucho; tiene realmente un valor moral in finito; porque, midiéndose el valor moral de una acción por la dignidad de la persona, tienen valor infinito todas las obras del Hombre-Dios. Una sola de sus obras hubiera bastado para reparar adecuadamente todos los pecados de los hombres. Mas ha hecho Jesús obras sin cuento reparadoras, inspiradas por el purísimo amor suyo, y las ha acabado con la más sublime y heroica, con el sacrificio entero de sí mismo en su dolorísima Pasión y en la cima del Calvario; ha satisfecho, pues, abundante y sobreabundantemente: «Ubi abundavit delictum, superabundavit gratia» [10].

   c) Esta reparación es del mismo género que la culpa: pecó Adán por desobediencia y soberbia; paga Jesús con humilde obediencia, inspirada por el amor, hasta la muerte y muerte de cruz «factus obediens usque ad mortem, mortem autem crucis» [11]. Y así como en la caída intervino una mujer, que arrastró a Adán a la culpa; también en la Redención interviene una mujer, con su poder de intercesión y con sus méritos [12] María, la Virgen inmaculada, Madre del Salvador, con el que coopera, aunque secundariamente, a la obra reparadora.

   Así quedó enteramente satisfecha la justicia, pero aún más la bondad y misericordia.
   79.  B) A la misericordia infinita de Dios y al excesivo amor que nos tiene atribuye la Sagrada Escritura la Redención: «Dios, escribe S. Pablo, que es rico en misericordia, movido del excesivo amor con que nos amó... nos dio vida juntamente en Cristo; Deus qui dives est in misericordia, propter nimiam caritatem qua dilexit nos..., convivificavit nos in Christo» [13].

   Las tres divinas personas concurren a la obra de la Redención y cada una de ellas con un amor que parece llegar hasta el exceso.

   a) El Padre no tiene sino un solo Hijo, igual a sí mismo, al que como a sí mismo ama, y del que es infinitamente amado; y a este Hijo único nos le da y le sacrifica por nosotros, para devolvernos la vida que perdimos por el pecado: «Sic Deus dilexit mundum ut Filium suum unigenitum daret, ut omnis qui credit in eum non pereat, sed habeat vitam aeternam» [14]. ¿Pudo haberse más generosamente con nosotros y darnos más que su propio Hijo? ¿Y no nos dio todas las cosas con Él? : «Qui etiam proprio Filio non pepercit, sed pro nobis tradidit illum, quomodo non etiam cum illo omnia nobis donavit?» [15].

   80.  b) Acepta el Hijo gozosa y generosamente la obra que se le confía; ofrécese a su Padre, desde el primer momento de la Encarnación, como víctima que reemplace todos los sacrificios de la antigua Ley, y su vida entera no será sino un continuo sacrificio, rematado por el supremo del Calvario, sacrificio inspirado por el amor que nos tiene: «(Christus) dilexit nos et tradidit semetipsum pro nobis oblationem et hostiam Deo [16] ; Cristo nos amó, y se ofreció a sí mismo a Dios en oblación y hostia de olor suavísimo.»

   81. c) Para acabar su obra, nos envía el Espíritu Santo, amor consustancial del Padre y del Hijo, que, además de derramar en nuestras almas la gracia y las virtudes infusas, especialmente la caridad, se nos dará a sí mismo, para que podamos gozar, no solamente de su presencia y de sus dones, sino aun de su misma persona: «La caridad de Dios ha sido derramada en nuestros corazones por medio del Espíritu Santo que se nos ha dado: Caritas Dei diffusa est in cordibus nostris per Spiritum Sanctum qui datus est nobis» [17].
   Es, pues, la Redención la obra del amor por excelencia, de donde ya podemos deducir sus efectos.

II. Los efectos de la Redención

   82.  Además de reparar, con la satisfacción, la ofensa hecha a Dios, y de reconciliarnos con Él, merécenos Jesús todas las gracias que habíamos perdido por el pecado y otras muchas más.

   Devuélvenos primeramente los bienes sobrenaturales perdidos por el pecado: a) la gracia habitual, con su acompañamiento de virtudes infusas y de los dones del Espíritu Santo; y, para mejor acomodarse a la humana naturaleza, instituye los sacramentos, signos sensibles que nos confieren la gracia en las circunstancias más importantes de nuestra vida, y, de esta manera, nos dan mayor seguridad y confianza; b) gracias actuales muy abundantes, tanto que podemos considerarlas más abundantes que en el estado de inocencia, en virtud de las palabras de S. Pablo: «ubi autem abundavit delictum superabundavit gratia» [18].

   83.  c) Muy cierto es que el don de integridad no se nos devolvió inmediata sino progresivamente. La gracia de la regeneración nos deja aún presos en las cadenas de la triple concupiscencia y de todas las miserias de la vida, mas nos da la fuerza necesaria para vencerla; nos hace más humildes, más vigilantes y más despiertos para prevenir y vencer las tentaciones; nos confirma en la virtud, y nos da ocasión de adquirir mayores méritos, poniéndonos delante de los ojos los ejemplos de Jesús, que con tanta abnegación llevó su cruz y la nuestra, estimula nuestro ardor en la pelea y mantiene nuestra constancia en el esfuerzo; y las gracias actuales que nos ha merecido y nos concede con santa prodigalidad, favorecen singularmente nuestros esfuerzos y victorias. Según que peleamos, gobernados y sostenidos por nuestro Capitán, disminuye la concupiscencia, nuestra fuerza en el resistir crece, y llegan algunas almas privilegiadas a ser tan sólidamente confirmadas en la virtud, que, aun sin perder la libertad para pecar, no cometen falta alguna venial con propósito deliberado. La victoria completa no la alcanzaremos sino cuando vayamos al cielo; pero será tanto más gloriosa, cuanto más duros esfuerzos nos haya costado. ¿No diremos con razón: O felix culpa?

   84.  d) A estos auxilios internos añade Dios Nuestro Señor otros externos, en especial esta Iglesia visible que ha fundado y organizado para iluminar nuestro entendimiento con la luz de su autoridad doctrinal, fortificar nuestra voluntad con el poder legislativo y judicial, y santificar nuestras almas por medio de los sacramentos, los sacramentales y las indulgencias. ¿No hallamos en todo esto un auxilio poderoso, por el que debemos dar muchas gracias a Dios? O felix culpa!

   85.  e) Por último, no es enteramente cierto que el Verbo se hubiera encarnado aunque el hombre no hubiera pecado. Y es un don de tanto precio la Encarnación, que él solo bastaría para justificar y explicar el cántico de la Iglesia: O felix culpa!

   En vez de un jefe supremo, con grandes dotes, sin duda alguna, pero siempre falible y pecador de suyo, tenemos por cabeza nuestra al Hijo de Dios eterno, que, por haberse vestido de nuestra naturaleza, es tan verdadero hombre como verdadero Dios. Es el mediador ideal, mediador de religión y de redención, que presta adoración a su Padre, no solamente en nombre propio, sino también en nombre de la humanidad entera, y aún más, en nombre de los ángeles, que gozan en alabar a Dios por Él «per quem laudant angeli» [19]; es el sacerdote perfecto, que puede llegarse libremente a Dios por razón de su divina naturaleza, y volverse hacia los hombres, que son sus hermanos, a los cuales trata con indulgencia, porque está rodeado de las mismas flaquezas que ellos: «qui condolere possit iis qui ignorant et errant, quoniam et ipse circumdatus est infirmitate» [20].

   Con Él y por medio de Él podemos rendir a Dios la honra infinita a que tiene derecho; con Él y por medio de Él podemos alcanzar todas las gracias que hemos menester para nosotros y para nuestros hermanos: cuando rendimos adoración, ríndela Él en nosotros y por nosotros; cuando pedimos auxilio al cielo, apoya Él nuestras demandas, y por esta razón nos es concedido todo cuanto pedimos al Padre en su nombre.

   Debemos pues, gozarnos de tener tan excelso Redentor y medianero, y poner en Él toda nuestra confianza.

CONCLUSIÓN

   86.  El resumen histórico, que acabamos de hacer, pone maravillosamente ante los ojos de nuestra consideración la excelencia de la vida sobrenatural, tanto como la grandeza y flaqueza del que es partícipe de ella.
    1º Excelente es la vida sobrenatural, porque:
   a) Tiene su origen en un pensamiento amoroso de Dios, que desde toda la eternidad nos amó y quiso juntarnos consigo con la unión más íntima y grata: «In caritate perpetua dilexi te; ideo attraxi te miserans» [21]: «Con amor eterno te amé; por lo cual te traje a mí, apiadado de ti.»
    b) Es una participación real aunque finita, de la naturaleza y de la vida de Dios, «divinae consortes naturae» (Véase el n. 106).
   c) Estímala Dios en tan subido precio que, para dárnosla, sacrifica el Padre a su único Hijo, el Hijo se inmola enteramente, y el Espíritu Santo pone en nuestra alma su morada, para comunicárnosla.

   Es el bien más preciado de todos; «maxima et pretiosa nobis promissa donavit» [22], que debemos estimar sobre todas las cosas, guardarle y cuidar de él celosamente: tanti valet quanti Deus!

   87.  2º Mas, con todo, llevamos tan precioso tesoro en vaso frágil. Si nuestros primeros padres, aun con el don de integridad, y rodeados de tantos privilegios, tristemente le perdieron para sí y para su descendencia, ¿qué no habremos de temer nosotros, que, a pesar de nuestra regeneración, llevamos dentro la triple concupiscencia? Verdad es que hay en nosotros tendencias nobles y levantadas, que proceden de lo que hay de bueno en nuestra naturaleza, y, sobre todo, de nuestra incorporación a Cristo; pero seremos siempre débiles e inconstantes [23], si no nos apoyamos en el que es nuestro brazo derecho al mismo tiempo que nuestra cabeza; el secreto de nuestra fuerza no está en nosotros, sino en Dios y en Jesucristo. La historia de nuestros primeros padres, y de su caída, nos muestra que el mal inmenso, el único mal que hay en el mundo, es el pecado, que, por lo tanto, hemos de estar siempre vigilantes, para rechazar al punto y con toda energía los primeros ataques del enemigo, sea quien fuere, de dentro o de fuera. Por lo demás, estamos bien armados para la defensa, como diremos en el capítulo segundo acerca de la naturaleza de la vida cristiana.

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NOTAS:

CAPÍTULO 1



1. Además de los tratados de Filosofia, Cf. CH. DE SMEDT, Notre vie surnaturelle, 1912, Introducción, pp. 1-37; J. SCHRYVERs, Les principes de la Vie spirituelle, 1922, p. 3 1.

2. A. EYMIEU, Le gouvernement de soi-meme, t. III, La loi de la vie, libro III p. 128.

3. Para este artículo, véase nuestra Synopsis Theologicae dogmaticae, t. II nn. 859-894, y los autores allí indicados, en particu ar: S. THOMAS, I, q. 93-102; P. BAINVEL, S. J., Nature et surnaturel, cap. I-IV; L'ABBÉ DE BROGLIE, Conférences sur la vie surnaturelle, t. II, pp. 3-80; L. LABAUCHE, Leçons de théol dogmatique, t. II, L'Homme, p. 1, cap. I-II.

4. S. THOM, IIa. IIae q. 163-165; de Malo, q. 4; BAINVEL, Nature et Surnaturel, cap. VI-VII, A. DE BROGUE, op. cit., pp. 133-346; L. LABAUCHE, op. Cit., Part. H, cap. I-V; AD. TANOUFREY, Syn. theol. dogm, t. H, nn. 895-950.

5. Gen., HI, 5.

6. Rom, V.

7. Sum Theol, Ia 2ae, q. 82, a. 4, ad. I.

8. Rom, VII, 19-25.

9. S. THOM., III. q. 46-49; HUGON, O. P., Le Mystere de la Rédemption; BAINVEL, op. cit., cap. VIII; J. RIVIÉRE, Le Dogme de la Rédemption, étude théologique, 1914; AD. TANQUEREY, Synopsis theol, dogm t. II, nn. 1119-1202; L. LABAUCHE Leç. de Théol, t. IIIa. P.

10. Rom., V, 20.

11. Philip., II, 8.

12. Este mérito es el de conveniencia que se llama de congruo, el cual expondremos más adelante.

13. Ephes., II, 4.

14. Joan., III, 16.

15. Rom, VIII, 32.

16. Ephes., V, 2.

17. Rom, V, 5.

18. Rom, V, 20.

19. Prefacio de la Misa.

20. Hebr., V, 2.

21. Jer., XXXI, 3.

22. 2 Petr., 1, 4.

23. Esta grandeza y esta vileza Dei hombre han sido muchas veces descritas por los filósofos cristianos, especialmente por PASCAL, Pensées, nn. 397-424, ed. Brunschvigg.