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União Europeia: Manto imperial, ou camisa de força? - II Parte


Gabriel J. Wilson


A Irlanda votou contra o Tratado de Nice em 2001, e contra o Tratado de Lisboa em 2008

Os referendos: a “asa negra” de Bruxelas

No artigo Les référendums, bêtes noires de Bruxelles, colocado on line em 2-5-11 por “Mémoire des luttes”, o cronista Bernard Cassen comenta que os membros da Comissão Européia e os altos funcionários da UE detestam os referendos.


Primeiro, porque eles são organizados em âmbito nacional, em dissonância com a lógica supranacional da construção européia.


Segundo, porque eles constituem a expressão direta da soberania popular, sem os filtros das instituições da democracia representativa, com as quais muitos arranjos são possíveis. Os plebiscitos lembram que os povos ainda existem no Velho Continente.

União Europeia: Manto imperial, ou camisa de força?


Gabriel J. Wilson

Após longa e acidentada história, a estrutura artificial que vem eliminando as gloriosas tradições cristãs de 27 países europeus enfrenta dois perigos: desastre interno e maciça invasão islâmica.
Um conglomerado de 27 nações — algumas das quais entre as mais importantes da Terra, com uma população acima de 500 milhões de habitantes — acaba de obter o direito de pronunciar-se em uníssono no concerto das organizações internacionais. Em 3 de maio, a União Européia (UE) ganhou o direito de falar, perante as Nações Unidas, em nome de seus 27 países-membros.


Seu peso cultural, político, tecnológico, econômico e militar não pode ser ignorado. Sua ação sobre as almas vai desde o fato de a UE ser um relicário do que de melhor se produziu em matéria de civilização e cultura no mundo, até o eldorado do bem-estar tecnológico prometido pela modernidade. Uma análise dos rumos que esse bloco vai tomando e sua influência sobre todo o orbe torna-se assim imperativa.

A unidade européia: fundo de quadro para uma análise

A idéia de uma Europa unida não é novidade. Sobre vários povos hoje extintos que antes de Cristo habitaram esse mesmo território já se impusera a disciplina do Império Romano: da Inglaterra ao Mediterrâneo, das margens do Reno aos Bálcãs. Porém, as sucessivas invasões de bárbaros vindos do norte e do leste fizeram com que desse passado pouco restasse.


Graças ao trabalho civilizador empreendido nos primeiros tempos do Cristianismo por missionários cristãos, bispos santos e monges do Ocidente, a Europa começou a adquirir sua fisionomia atual. Basta recordar alguns nomes: São Patrício (389-461), evangelizador da Irlanda e ilhas britânicas; São Bento, fundador da Ordem beneditina (480-547); São Columbano (543-615) e São Bonifácio (680-754).

Carlos Magno



Mas quem propriamente deu unidade política à parte mais significativa da Europa foi Carlos Magno, cujo império e dependências estendiam-se pelos territórios correspondentes hoje à Alemanha, França, Países Baixos, Bélgica, Luxemburgo, Suíça, Áustria, norte da Itália e partes da Eslováquia, Hungria, Croácia e Península ibérica até os rios Ebro e Douro.

A partir desse núcleo floresceu o que chamamos a Cristandade medieval, com toda a sua riqueza de instituições e regimes de governo: reinos, principados, senhorias, hospitais, universidades, cidades livres, repúblicas. Ela constituía um só todo, que transcendia os vários países cristãos sem os absorver. Nessa realidade viva a influência da Igreja e dos princípios cristãos deu origem a uma civilização que ainda em nossos dias podemos admirar nas suas obras primas, como as catedrais góticas, abadias, cidades e castelos. A Ordem beneditina de Cluny (séculos IX a XII) contribuiu notavelmente para sua formação.