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O Ano Sacerdotal

Por ocasião dos 150 anos da morte do Santo Cura d’Ars, João Maria Vianney, “verdadeiro exemplo de Pastor ao serviço do rebanho de CRISTO”, como disse S. S. Bento XVI, somos convocados a adentrar no mistério sacerdotal de CRISTO. O Ano Sacerdotal, de 19 de Junho 2009 a 19 de Junho de 2010, terá como tema: "Fidelidade de Cristo, fidelidade do sacerdote".

Segundo Bento XVI, competirá à Congregação para o Clero, de acordo com os bispos diocesanos e com os superiores dos Institutos religiosos, “promover e coordenar as várias iniciativas espirituais e pastorais que pareçam úteis para fazer perceber cada vez mais a importância do papel e da missão do sacerdote na Igreja e na sociedade contemporânea”.

Um comunicado divulgado pela Sala de Imprensa da Santa Sé revela que o Papa abrirá este “ano sacerdotal”, presidindo à celebração das Vésperas, a 19 de Junho, solenidade do Coração de Jesus, na presença da relíquia de Cura d'Ars trazida pelo Bispo de Belley-Ars.

Bento XVI encerrará esta iniciativa a 19 de Junho de 2010, participando num "Encontro Mundial Sacerdotal", na Praça S. Pedro, do Vaticano.

Ainda de acordo com o comunicado, durante este ano jubilar, Bento XVI proclamará São João Maria Vianney como "Padroeiro de todos os sacerdotes do mundo".

Além disso, será publicado o "Diretório para os Confessores e os Diretores Espirituais", juntamente com uma coletânea de textos do atual Papa sobre temas essenciais da vida e da missão sacerdotal nos dias de hoje.

São João Maria Vianney, ou Cura d'Ars, nasceu em Dardilly, França, em 1786. Ordenado sacerdote, foi enviado para uma insignificante aldeia, com cerca de 230 paroquianos.

Mais tarde, João Maria Vianney tornou-se o cura de Ars-sur-Formans, no Leste de França. Rezava, fazia penitência, pregava e fazia caridade, cumprindo zelosamente o seu ministério sacerdotal. Permanecia horas e horas a fio atendendo em confissão os peregrinos que a ele acorriam de toda a França, a fim de pedir orientações. Morreu no ano de 1858.

S. João Maria Vianney, exemplo de pobreza evangélica


Primeiramente tendes o exemplo de pobreza, virtude pela qual o humilde cura d'Ars, se tornou digno êmulo do patriarca de Assis, de quem foi, na Ordem Terceira, discípulo fiel. (1) Rico para dar aos outros, mas pobre para si mesmo, viveu num total desprendimento dos bens deste mundo, e o seu coração verdadeiramente livre abria-se com generosidade a todos os que, afligidos por misérias materiais ou espirituais vinham até ele de toda a parte em busca de remédio. "O meu segredo é bem simples, dizia ele, é dar tudo e nada guardar".(2) O seu desinteresse fazia-o atender a todos os pobres, sobretudo os da sua paróquia, aos quais testemunhava extrema delicadeza, tratando-os "com verdadeira ternura, com os maiores cuidados e até com respeito".(3) Recomendava que nunca deixassem de ter atenções para com os pobres, porque tal falta recai sobre Deus; e, quando um miserável batia à sua porta, sentia-se feliz, ao recebê-lo, com bondade, por lhe poder dizer: "Sou pobre como vós; hoje sou um dos vossos!".(4) No fim da sua vida, comprazia-se em repetir: "Estou muito satisfeito; já não tenho nada de meu; Deus pode chamar-me quando quiser".(5) Por isso, veneráveis irmãos, podereis compreender como, de todo o coração, exortamos nossos queridos filhos do sacerdócio católico, a meditar num tal exemplo de pobreza e caridade. "A experiência cotidiana atesta - escrevia Pio XI, ao pensar no cura d'Ars - que a ação dos sacerdotes de vida modesta, os quais, segundo a doutrina evangélica, não procuram absolutamente seus próprios interesses, redunda em extraordinários benefícios para o povo cristão".(6) E o mesmo Pontífice, considerando o estado da sociedade contemporânea, dirigia também aos padres este grave aviso: "Ao ver que os homens vendem e compram, tudo pelo dinheiro, os padres caminhem desinteressadamente pelos engodos do vício, e desprezando todo baixo desejo de ganhar, busquem almas e não dinheiro, a glória de Deus e não a sua!" (7)

Aplicações aos padres de hoje

Estas palavras devem estar inscritas no coração de todos os padres. Se há alguns que possuem legitimamente bens pessoais, que não se prendam a eles! Que se lembrem, antes, da obrigação que formula o Direito Canônico, a propósito dos benefícios eclesiásticos, "de dispender o supérfluo com os pobres ou com as obras pias".(8) E queira Deus que nenhum mereça a censura do santo pároco às suas ovelhas: "Quantos têm dinheiro guardado, e tantos pobres a morrer de fome!".(9) Mas nós sabemos que muitos padres vivem, de fato, em condições de verdadeira pobreza. A glorificação de um dos seus, que voluntariamente se despojou de tudo e se regozijava com o pensamento de ser o mais pobre da paróquia, (10) será para eles um providencial estímulo para se dedicarem à prática de uma pobreza evangélica. E se a nossa paternal solicitude pode servir-lhes de conforto, saibam quanto nos regozijamos pelo seu desinteresse no serviço de Cristo e da Igreja.

Mas, ao recomendar esta heróica pobreza, não pretendemos, de forma nenhuma, veneráveis irmãos, aprovar a pobreza total a que, por vezes, são reduzidos os ministros do Senhor nas cidades e no campo. No seu comentário da exortação do Senhor ao desprendimento dos bens deste mundo, São Beda, o Venerável, previne-nos contra qualquer interpretação abusiva: "Não se deve crer que seja prescrito aos santos não conservar dinheiro para seu uso pessoal ou para dar aos pobres, visto ler-se que o próprio Senhor... tinha algum dinheiro para os gastos da Igreja nascente...; mas que não se sirva Deus por causa disso, nem se renuncie à justiça com receio da pobreza".(11) Pois o operário tem direito ao seu salário, (cf. Lc 10,7) e, fazendo nossas as preocupações do nosso predecessor imediato, pedimos instantemente a todos os fiéis que correspondam com generosidade ao louvável apelo dos bispos, desejosos de assegurar aos seus colaboradores recursos convenientes.(12)

1. Arch. Secret. Vat., 227, p.137.
2. Cf. Ibid, t. 227, p. 92.
3. Cf. Ibid. t. 3897, p. 510.
4. Cf. Ibid, t. 227, p. 334.
5. Cf. Ibid. t. 227, p. 305.
6. Carta Enc. Divini Redemptoris; AAS 29 (1937), p. 99.
7. Carta Enc. Ad catholici sacerdotii; AAS 28 (193), p. 28.
8. CIC., can.1473.
9. Cf. Sermons du B. Jean B. M. Vianney,1909, t, l, p. 364.
10. Cf. Arch. Secret. Vat., t. 227, p. 91.
11. In Lucae Evangelium Expositio, IV, in c.12; PL, 92, col. 494-495.
12. Cf. Exort. Apost. Menti Nostrae; AAS 42(1950), pp. 697-699.

Fonte:SACERDOTII NOSTRI PRIMORDIA - CENTENÁRIO DA MORTE DO CURA DE ARS, Beato João XXIII