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Santo Agostinho: "A verdadeira religião está na fé católica"

Trecho do livro "Sobre a verdadeira religião, Santo Agostinho".
Tradução do Espanhol por Fernanda Delgado | A VIDA SACERDOTAL

A verdadeira religião está na fé católica

VI. 10. Esta, pois, Igreja Católica, sólida e amplamente difundida por todos os cantos da terra, se serve de todos os afastados (da fé) para o seu proveito e para a correção destes, quando decidem deixar os seus erros (pecados). Porque se aproveita dos gentios/pagãos para prova da sua transformação, dos hereges para a prova de sua doutrina, dos separados (da Igreja) para registrar sua firmeza, de dos judeus para realçar sua beleza. À alguns, pois, convida, a outros, elimina; à estes desampara, àqueles privilegia; entretanto, a todos estes dá a capacidade de receber a graça divina, sejam os que ainda precisam de formação, ou os que já são formados. E aos seus filhos carnais, quer dizer, aos que assim vivem e o sentem, os tolera como palha, com a qual se protege melhor o grão da época até que se veja limpo da casca que o envolve. Porém, como nesta época cada qual é voluntariamente palha ou grão, sofre-se o pecado ou o erro de alguém até que se levante um acusador ou defenda sua opinião com obstinada ousadia. E os que são excomungados, ou se arrependem e voltam, ou se deslizam na maldade, abusando de seu livre-arbítrio, para alerta de nosso cuidado, ou alimentam discórdias para que se exercite nossa paciência, ou divulgam alguma heresia a fim de nos provar e estimular a nossa formação intelectual. Eis aqui os paradeiros dos cristãos carnais, que não puderam ser corrigidos tampouco provados.

11. Muitas vezes a Divina Providência permite também que homens justos sejam expulsos da Igreja Católica por causa de alguma revolução muito grave dos carnais. E, se suportam com paciência tal injustiça ou ultraje, prezando pela paz eclesiástica, sem introduzir novidades separatistas nem hereges, ensinarão aos demais com que verdadeiro afeto e sincera caridade se devem servir a Deus. O desejo desses homens é o retorno, passada a tempestade, ou, se não aceitam voltar, porque ainda não passou a tempestade ou há possibilidade de que se enfureça mais com seu retorno, eles se mantém na firme vontade de zelar pelo bem dos mesmos instigadores, cuja rebelião e agitação cederam, defendendo até morrer, sem originar separações, e ajudando com seu testemunho a manter aquela fé que sabem que a Igreja Católica professa. A estes, o Pai recompensa em segredo, que vê o interior, que está oculto. Estranha parece essa classe de homens, mas exemplos não faltam, e ainda são mais do que se pode acreditar. Assim, a Divina Providência se vale de todo gênero de homens e de exemplos para a saúde das almas e para a formação do povo espiritual.

Há que abraçar a Igreja Católica

VII. 12. Pelo qual, tendo prometido a ti há alguns anos, caríssimo amigo Romano, te escrever sobre o meu sentir sobre a verdadeira religião, acreditava que havia chegado o momento oportuno, depois de perceber a urgência das tuas necessárias perguntas, e, pelo laço de caridade que me une a ti, não posso suportar por mais tempo que continues oscilando sem rumo certo. Repudiando, pois, a todos os que separam a filosofia da religião e renunciam à luz dos mistérios na investigação filosófica, assim como aos que se desviaram da regra da Igreja, se assoberbando com alguma opinião maldosa ou discussão; rejeitados da mesma forma os que não quiseram abraçar a luz da divina revelação e a graça do povo espiritual que chama Novo Testamento, a todos aos quais resumidamente me referi, nós abraçaremos a religião cristã e a comunhão da Igreja que se chama Católica, não somente pelos seus, mas também pelos inimigos. Pois, queiram ou não, os mesmos hereges e protestantes, quando falam, não com seus seguidores, mas com os estrangeiros, não a chamam católica, mas “A Igreja Católica”. Pois não podem se fazer entender se não a discernir com esse nome, com o qual todos a reconhecem no mundo.

Santa Catarina de Sena: "A sede de alma nos pastores"

Santa Catarina de Sena: "A sede de alma nos pastores"
SANTA CATARINA DE SENA - CARTA 16
A sede de almas nos pastores

Para um importante prelado

1. Saudação e objetivo
Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, reverendo e caríssimo pai [1] no Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo crucificado, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver sedento da salvação das almas para a glória de Deus.

2. A sede das almas em Jesus
O primeiro mestre neste assunto é Jesus Cristo, que por sua sede da nossa salvação morreu na cruz. Nisto, o Cordeiro imaculado parece insaciável. Saturado de dores, clamou na cruz: "Tenho sede" (Jo. 19,28). Sem dúvida ele estava com sede corporalmente, mas bem maior era sua sede da salvação das almas. Ó inestimável caridade! Embora sofrendo muito, até parece que não sofres o suficiente; parece que não esgotas o desejo que tens de padecer. E de tudo, o impulso vem do amor! Já não me maravilho disso, pois teu amor era infinito, ao passo que a dor era finita. Eis por que o desejo de sofrer superava o martírio do corpo.

3. Instruções de Jesus a Catarina
Recordo-me que certa vez o bom Jesus instruiu uma sua serva sobre esse assunto. [2] Vendo ela os sofrimentos físicos de Jesus e seu desejo de padecer, perguntou: "Bom Jesus, qual foi o teu sofrimento maior: a dor corporal ou a dor do desejo?" Jesus lhe respondeu: "Milha filha, digo-te e não duvides: é impossível comparar o finito com o infinito. Meu sofrimento físico foi finito, mas o desejo de sofrer não tinha limites. Carreguei também a cruz do desejo santo. Lembras-te de que um dia te fiz ver meu nascimento? Enxergavas uma criancinha, nascida com uma cruz no peito! Afirmo-te: logo que fui semeado no ventre de Maria como semente encarnada, iniciou-se meu desejo de cumprir a vontade do Pai para o bem da humanidade. Isto é: eu desejava que a humanidade recuperasse a graça divina e atingisse a finalidade para a qual fora criada. O sofrimento desse desejo era maior que todo outro que padeci durante a vida. Meu espírito alegrou-se, pois, quando me vi conduzido à paixão, especialmente na hora da Ceia na quinta-feira santa. Na ocasião eu disse: com desejo desejei fazer esta Páscoa (Lc. 22, 15), quer dizer: desejei muito oferecer ao Pai meu corpo em sacrifício. Senti uma grande alegria e grande consolação quando vi chegar o momento de tomar a cruz esperada. Quanto mais eu sentia aproximarem-se o flagelo e os tormentos físicos, mais diminuía minha pena. A dor corporal expulsava a dor do desejo, pois eu via realizado o que esperava".

A serva lhe perguntou: "Senhor, tu dizes que na cruz cessou o sofrimento do teu desejo. De que modo? Então, agora já não me queres?". O Senhor lhe respondeu: "Não, minha doce filha! Quando morri na cruz, terminou com a vida a dor do desejo; mas não cessaram o meu desejo e a minha sede da vossa salvação. Se houvesse acabado o amor que tive e tenho pela humanidade, vós nem existiríeis mais. Foi meu amor que vos tirou do seio do Pai, quando vos criou na sua sabedoria; esse mesmo amor vos conserva em vida; vós nada mais sois que fruto do amor. Se o Pai retirasse seu amor, dado no poder e na sabedoria, voltaríeis ao nada. Eu, Filho unigênito do Pai, sou um aqueduto que vos traz a agua da graça. Eu manifesto o amor do Pai. De fato, o que o Pai possui, eu também possuo, pois sou um com o Pai e o Pai um comigo. Por meio de mim o Pai se revela. Por isso afirmei: o que recebi do Pai, eu vos comuniquei. A razão de tudo é o amor".

Bem vedes, reverendo pai! Jesus, que é amor, morre de sede e fome da nossa salvação. Por amor a Cristo crucificado, peço que mediteis sobre tal sede do Cordeiro. Minha alma gostaria de vos ver morrendo de desejo santo, ou seja, tudo fazendo com amor pela glória de Deus e a salvação das almas, pela exaltação da santa Igreja.

Gostaria de vos ver crescendo em tal sede e por causa dela morrendo, como fez Jesus. Que morressem a vontade pessoal e o amor sensível. Que morrêsseis às honras, satisfações sociais e todo tipo de grandeza humana. Tenho certeza de que, se olhardes para o vosso íntimo, compreendereis que nada sois; entendereis que tudo vos foi dado por Deus numa grande chama de amor; vosso coração não oporia resistência ao ímpeto da caridade, mas eliminaria, todo amor próprio, não procuraria o que é útil à própria pessoa. Vós amaríeis a Deus por ele mesmo e também amaríeis o próximo, não por interesses pessoais, mas a fim de promover sua salvação eterna e a glória divina. Deus ama demais a humanidade. Também os servos de Deus devem amá-la, imitando o Criador. É condição da amizade que eu ame tudo aquilo que meu amigo ama. E os servos querem bem a Deus, não por interesse pessoal, mas porque Deus, bondade infinita, merece ser amado.

4. O exemplo de Paulo apóstolo
De fato, pai, os servos de Deus como que se esquecem da própria vida. Não pensam em si mesmos. Desejam sofrimentos, dificuldades, torturas, injúrias. Desprezam as dificuldades do mundo. A maior cruz e a maior dor, para eles, é ver Deus ofendido e as almas que se condenam. Por isso, deixam no esquecimento as preocupações pessoais. Não evitam as dificuldades, até as procuram e alegram-se com elas. Pensam no apóstolo Paulo, que se gloriava nos sofrimentos por amor a Cristo crucificado (Rm. 5, 3). Pois bem, quero que vós os imiteis.

5. Triste situação na hierarquia
Ai de mim, ai de mim! Como é infeliz a minha alma! Olhai e vede a realidade que caiu sobre o mundo, especialmente sobre a hierarquia da Igreja. Ai de mim! Explodem nossos corações e nossas almas ao perceber tanta ofensa feita a Deus. Vede, pai, o lobo infernal leva consigo pessoas que vivem na hierarquia da santa Igreja, e ninguém procura libertá-las. Dormem os pastores, cuidando de si mesmos na ganância e na impureza. Dormem ébrios de orgulho, sem notar que o lobo infernal, o diabo, lhes retira a graça, bem como aos seus súditos. Dessas coisas, pouco se preocupam. Tudo lhes serve de ocasião para a maldade e o egoísmo. Como é prejudicial o egoísmo nos prelados e nos súditos! Nos prelados, porque não corrigem os defeitos dos súditos. De fato, quem vive no egoísmo ama a si mesmo e nada corrige nos outros. Mas quem ama a si mesmo em Deus, foge do amor interesseiro, denuncia corajosamente os defeitos nos súditos, nunca se cala ou finge não ver.

6. Maldito o pastor que se cala. Conclusão
De semelhante amor desejo vos ver livre, querido pai. Rogo-vos não vos comporteis assim, a fim de que, não se aplique a vós aquela dura palavra divina: "Maldito sejas, porque te calaste". Ai de mim! Calar, jamais! Gritai em cem mil línguas! Vejo que, por ter alguém calado, o mundo se arruinou e a santa Igreja encontra-se sem cor, sem sangue nas veias. Quero dizer: sem o sangue de Cristo, derramado por nós gratuitamente, sem mérito algum nosso. Devido ao orgulho, os pastores roubam a Deus a honra, atribuindo-a a si mesmos. Rouba-se por simonia com a venda de dons espirituais, a nós concedidos gratuitamente pelos méritos do sangue de Cristo. Ai de mim, morro e não consigo morrer! Não durmais por negligência. Aproveitai o tempo presente quanto possível. Outros tempos virão, acredito, em que podereis fazer outras coisas. Convido-vos ao tempo atual. Afastai da alma todo egoísmo, revesti-a com a sede de almas e com verdadeiras virtudes, para a glória divina e a salvação das almas. Fortalecei-vos no amor de Cristo. Logo veremos aparecer as flores. Esforçai-vos para que logo se erga o estandarte da Cruzada. [3] Que o vosso coração não se esfrie diante de nenhuma dificuldade emergente. Fortalecei-vos pensando que Jesus crucificado realizará os inflamados desejos dos seus servidores.

Nada mais digo. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Afogai-vos no sangue de Cristo, pregai-vos na cruz com ele, banhai-vos no seu sangue. Pai, perdoai minha presunção. Jesus doce, Jesus amor.

[1]: Pedro Cardeal d'Estaing, criado cardeal e nomeado legado pontifício pelo Papa Gregório XI (1370-1378), que residia em Avinhão, para governar o patrimônio de São Pedro na Itália.
[2]: A serva de que fala o texto e a própria Catarina, que conta ao prelado um diálogo com Jesus no tempo da sua juventude.
[3]: Em 1375 o papa Gregório XI (1370-1378) promulgou uma bula em favor de uma Cruzada para libertar os Lugares santos da Palestina. Catarina tornou-se grande estimuladora da idéia.

Santa Catarina de Sena. Cartas Completas. São Paulo: Paulus, 2005. Ps. 54-57.