1. Na Quinta-feira Santa a Igreja celebra a Instituição da Eucaristia e do Sacerdócio. O que une estreitamente estas duas realidades que Cristo confiou à sua Igreja? No mistério do sacrifício eucarístico, afirma o Concílio Vaticano II, os sacerdotes exercem sua função principal. Não se pode entender o sacerdote sem a Eucaristia, nem poderia existir a Eucaristia sem o sacerdote. Segue-se que o sacerdote não pode realizar-se plenamente se a Eucaristia não constitui realmente o centro e a raiz de sua vida. Todo o esforço diário do sacerdote deve ser irradiação da Celebração Eucarística.
2. O que significa hoje, para o sacerdote, fazer memória do gesto do “lava-pés”, ou seja, servir?Para o sacerdote, o modo de prolongar a verdade do sacrifício litúrgico, convertendo-o em sacrifício de sua vida, é “servir”. O sacerdote não se pertence a si mesmo. Está a serviço do Povo de Deus, sem limites de horário, nem de calendário. Não é um funcionário, nem um empregado, mas um “consagrado”, um “Cristo” de Deus. O povo não vive em função do sacerdócio; é o sacerdote que vive em função do povo, em sua totalidade, sem jamais limitar seu serviço a um pequeno grupo. O sacerdote não pode escolher um lugar que o agrade, os métodos de trabalho que considere mais adequados, segundo a sua maneira de ser, as pessoas que lhe pareçam mais simpáticas, os horários mais cômodos, os divertimentos, ainda que sejam legítimos, quando tomam o tempo e as energias de sua missão pastoral específica. A missão remete a uma identidade, e a identidade remete à missão: iluminam-se reciprocamente.
3. O que um sacerdote tem a “oferecer” à humanidade?O sacerdote, é comovedor pensar, está sempre presente na Igreja; em todos os tempos, pela força do Espírito Santo, é instrumento essencial da permanência e da vida da Igreja. Como Cristo, o sacerdote oferece à humanidade um grande benefício: a inquietude. A inquietude que é o santo temor de Deus.
4. As circunstâncias atuais são particularmente complexas. Como devem ser afrontadas?Quando pensamos nas circunstâncias atuais e na necessidade de prepararmo-nos para afrontá-las, creio que o melhor método para responder às necessidades humanas é o de ser sacerdote segundo o Coração de Cristo. Se dirigimos um olhar para a história, vemos que, apesar de serem muito numerosas as mudanças no mundo, na sociedade, sempre é idêntico o desafio fundamental de ser radicalmente sacerdotes semelhantes a Cristo.Como demonstra a história, a Igreja pode resistir a todos os ataques, a todos os assaltos que possam lançar contra ela, as forças políticas, econômicas e culturais, mas não poderia resistir ao perigo que deriva do esquecimento das palavras de Cristo: “Vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo”.É o mesmo Jesus quem assinala as consequências deste esquecimento: “Se o sal se desvirtua, como o mundo se preservará da corrupção?Com efeito, para que serveria um sacerdote tão assimilado ao mundo que se mimetizara com ele e já não fosse fermento transformador? Diante de um mundo anêmico de oração e de adoração, de verdade e de justiça, o sacerdote é antes de tudo o homem da oração, da adoração, do culto, da celebração dos santos mistérios, “diante dos homens, em nome de Cristo”. A melhor contribuição que pode dar o sacerdote à causa da justiça e da paz, é continuar sendo sempre um homem de Deus.
5. Neste dia se renovam as promessas sacerdotais. Quais são os compromissos mais urgentes e atuais que um sacerdote deveria renovar diante de Deus e dos irmãos?Creio que o primeiro compromisso é o de ser testemunha, entendido etimológicamente como martírio: um compromisso missionário motivado com a certeza renovada de que Cristo normalmente vem a nós somente “na” Igreja e “pela” Igreja, a qual prolonga Sua presença no tempo.Deve-se recordar que a Igreja somente poderá evangelizar autenticamnete as realidades “naturais” se não renuncia a sua identidade sobrenatural. Custe o que custar, deve seguir sendo o que é: realidade transcendente e mistério.É difícil, mas estimulante. A Igreja tem a tarefa “negativa” de livrar o mundo do ateísmo, e a missão “positiva” de satisfazer a necessidade irrenunciável que tem o homem, de modo consciente ou inconsciente, de realizar-se, ou seja, de ser santo.E aqui entra o sacerdote. É aqui onde intervém como um emissário de Deus para saciar a sede ardente de uma humanidade sempre em busca.
6. O sacerdote celebra a Eucaristia “in persona Christi”. Como pode um sacerdote ser digno dessa responsabilidade?Só Deus, em sua misericórdia, pode “fazer dignos” os homens de uma tarefa tão extraordinária, inclusive inaudita. O sacerdote é a imagem do Salvador: deve tratar de assemelhar-se o mais possível a Ele, deve estar disposto a dar-se, a entregar-se totalmente, de corpo e alma, vontade e coração, ao serviço de Cristo e, portanto, dos irmãos. A totalidade da oblação a Deus é a garantia da totalidade do serviço aos irmãos, é a garantia da dinâmica missionária, como a castidade garante o caráter esponsal e a grande paternidade. Em tudo isso, não se pode dar um “não”, mas um “sim” grande e libertador.Esta é a chave para entender as promessas de obediência, de castidade vivida no celibato, no compromisso de um caminho de desprendimento das coisas, das situações, de si mesmos; no clima de uma fraternidade sacerdotal intensa e sacramental. Tudo isso se compreende se existe um grande amor, na lógica gozosa da entrega. O sacerdote jamais terá uma crise de identidade, nem de solidão, nem de frustração cultural se, resistindo à tentação de confundir-se com a multidão anônima, em sua intenção, em sua retidão moral e em seu estilo, não se separa jamais do altar do sacrifício do Corpo e do Sangue de Cristo.
7. Qual deve ser a correta relação entre fiéis leigos e sacerdotes?Devem ser irmãos em meio aos irmãos, ainda que com funções essencialmente diversas. Com efeito, alguns são chamados a ser padres e outros não, mas todos certamente são chamados à santidade em Cristo.
8. Hoje se fala muito de celibato sacerdotal. O que se pode dizer a este respeito?Com relação ao sagrado celibato, encontramo-nos diante de um ícone particularmente significativo do bom Pastor, que não guarda nada para si, mas que dá tudo pelo bem do rebanho. Uma atenta reflexão cristológica permite apreciar a oportuna conveniência de associar esta prática de vida ao estado sacerdotal.Poderíamos dizer que desde os tempos Apostólicos até os nossos dias existe uma significativa continuidade na doutrina do Magistério sobre o celibato. Certamente, desta riqueza deriva uma exigência de radicalidade evangélica, que favorece de modo especial o estilo de vida “esponsal”. Brota da configuração do sacerdote com Jesus Cristo através do sacramento da Ordem. O sacerdote é chamado a levar uma vida de imitação de Cristo que o eleva ao nível dos conselhos evangélicos: a continência perfeita, a exemplo da virgindade de Cristo, lhe permite exercer mais plenamente a caridade pastoral, até o ponto de que se pode ver no sacerdote um outro Cristo, “alter Christus”.
9. E a tão discutida solidão do sacerdote?A Igreja assiste hoje a uma dissolução cada vez mais acentuada dos vínculos entre as pessoas, em todos os âmbitos sociais. Precisamente tende-se a conceber a família como um lugar de passagem ou de relações pactuais, mas sempre revocáveis. É lógico que a figura do sacerdote celibatário sofra o impacto destas inumeráveis solidões.Igualmente torna-se necessário colocar no centro da vida cristã autênticas comunidades familiares, capazes de dar esperanças e de fazer brilhar o dom da comunhão, e sua fecundidade, também necessitamos sacerdotes que saibam mostrar a fecundidade da comunhão, a fecundidade comunitária de sua “solidão” virginal.A iniciativa da Congregação para o clero, de fazer uma grande “corrente” de adoração eucarística mundial pelos sacerdotes, deve interpretar-se também a partir da perspectiva essencialmente sobrenatural de comunhão. Certamente servirá aos sacerdotes como fonte inesgotável e divina de energias missionárias, mas também servirá aos fiéis leigos para que recuperem a verdade sobre o sacerdócio ministerial católico, que de forma alguma pode se reduzir a um mero “funcionarismo pastoral”, tão somente acolhido pela sua importância social que possa ter. E não é lícito generalizar, atribuindo a todo o clero, aquilo que corresponde a responsabilidade de uma pequena parte.
10. Como se explica a crise de vocações na sociedade atual?Sempre que se fala de “crise de vocações”, igualmente quando se fala de “crise do matrimônio”, deve-se pensar com mais precisão, em uma crise que está na raiz e que origina as demais: a crise de fé.Existe um dado real que todos podem constatar: os jovens, quando se lhes abrem, com fé na graça, os amplos horizontes da integridade do seguimento de Cristo, respondem em grande número e com autêntico entusiasmo, mas quando se tenta reduzir a identidade do sacerdote e do ministério pastoral, não se sentem motivados e se produz uma progressiva deserção. Às vezes constata-se, com muita tristeza, a decadência e se buscam soluções que não são mais que premissa da decadência em si mesma.Falta a humildade da verdade: saber reconhecer os próprios erros. Falta a coragem de saber colocar em evidência também as opções que não deram fruto ou que produziram uma devastação. Portanto, não há que se justificar, escondendo-se por detrás do pretexto de “novas estruturas”. Só se pode propor uma terapia quando se faz um diagnóstico claro, sem compaixão. É preciso pedir, pedir e pedir, para que não se caia no que diz o Salmo 134: “Têm olhos e não podem ver; têm ouvidos e não podem ouvir”, com a certeza de que Deus nunca abandonará a sua Igreja e não permitirá que lhe faltem pastores “segundo seu Coração”.
Arcebispo Dom Mauro Piacenza Secretário da Congregação para o Clero
Fonte: Congregação para o Clero
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