Entrevista com o Arcebispo Dom Mauro Piacenza 11/04/2008

Leia entrevista com o Arcebispo Dom Mauro Piacenza, Secretário da Congregação para o Clero

1. Na Quinta-feira Santa a Igreja celebra a Instituição da Eucaristia e do Sacerdócio. O que une estreitamente estas duas realidades que Cristo confiou à sua Igreja? No mistério do sacrifício eucarístico, afirma o Concílio Vaticano II, os sacerdotes exercem sua função principal. Não se pode entender o sacerdote sem a Eucaristia, nem poderia existir a Eucaristia sem o sacerdote. Segue-se que o sacerdote não pode realizar-se plenamente se a Eucaristia não constitui realmente o centro e a raiz de sua vida. Todo o esforço diário do sacerdote deve ser irradiação da Celebração Eucarística.

2. O que significa hoje, para o sacerdote, fazer memória do gesto do “lava-pés”, ou seja, servir?Para o sacerdote, o modo de prolongar a verdade do sacrifício litúrgico, convertendo-o em sacrifício de sua vida, é “servir”. O sacerdote não se pertence a si mesmo. Está a serviço do Povo de Deus, sem limites de horário, nem de calendário. Não é um funcionário, nem um empregado, mas um “consagrado”, um “Cristo” de Deus. O povo não vive em função do sacerdócio; é o sacerdote que vive em função do povo, em sua totalidade, sem jamais limitar seu serviço a um pequeno grupo. O sacerdote não pode escolher um lugar que o agrade, os métodos de trabalho que considere mais adequados, segundo a sua maneira de ser, as pessoas que lhe pareçam mais simpáticas, os horários mais cômodos, os divertimentos, ainda que sejam legítimos, quando tomam o tempo e as energias de sua missão pastoral específica. A missão remete a uma identidade, e a identidade remete à missão: iluminam-se reciprocamente.

3. O que um sacerdote tem a “oferecer” à humanidade?O sacerdote, é comovedor pensar, está sempre presente na Igreja; em todos os tempos, pela força do Espírito Santo, é instrumento essencial da permanência e da vida da Igreja. Como Cristo, o sacerdote oferece à humanidade um grande benefício: a inquietude. A inquietude que é o santo temor de Deus.

4. As circunstâncias atuais são particularmente complexas. Como devem ser afrontadas?Quando pensamos nas circunstâncias atuais e na necessidade de prepararmo-nos para afrontá-las, creio que o melhor método para responder às necessidades humanas é o de ser sacerdote segundo o Coração de Cristo. Se dirigimos um olhar para a história, vemos que, apesar de serem muito numerosas as mudanças no mundo, na sociedade, sempre é idêntico o desafio fundamental de ser radicalmente sacerdotes semelhantes a Cristo.Como demonstra a história, a Igreja pode resistir a todos os ataques, a todos os assaltos que possam lançar contra ela, as forças políticas, econômicas e culturais, mas não poderia resistir ao perigo que deriva do esquecimento das palavras de Cristo: “Vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo”.É o mesmo Jesus quem assinala as consequências deste esquecimento: “Se o sal se desvirtua, como o mundo se preservará da corrupção?Com efeito, para que serveria um sacerdote tão assimilado ao mundo que se mimetizara com ele e já não fosse fermento transformador? Diante de um mundo anêmico de oração e de adoração, de verdade e de justiça, o sacerdote é antes de tudo o homem da oração, da adoração, do culto, da celebração dos santos mistérios, “diante dos homens, em nome de Cristo”. A melhor contribuição que pode dar o sacerdote à causa da justiça e da paz, é continuar sendo sempre um homem de Deus.

5. Neste dia se renovam as promessas sacerdotais. Quais são os compromissos mais urgentes e atuais que um sacerdote deveria renovar diante de Deus e dos irmãos?Creio que o primeiro compromisso é o de ser testemunha, entendido etimológicamente como martírio: um compromisso missionário motivado com a certeza renovada de que Cristo normalmente vem a nós somente “na” Igreja e “pela” Igreja, a qual prolonga Sua presença no tempo.Deve-se recordar que a Igreja somente poderá evangelizar autenticamnete as realidades “naturais” se não renuncia a sua identidade sobrenatural. Custe o que custar, deve seguir sendo o que é: realidade transcendente e mistério.É difícil, mas estimulante. A Igreja tem a tarefa “negativa” de livrar o mundo do ateísmo, e a missão “positiva” de satisfazer a necessidade irrenunciável que tem o homem, de modo consciente ou inconsciente, de realizar-se, ou seja, de ser santo.E aqui entra o sacerdote. É aqui onde intervém como um emissário de Deus para saciar a sede ardente de uma humanidade sempre em busca.

6. O sacerdote celebra a Eucaristia “in persona Christi”. Como pode um sacerdote ser digno dessa responsabilidade?Só Deus, em sua misericórdia, pode “fazer dignos” os homens de uma tarefa tão extraordinária, inclusive inaudita. O sacerdote é a imagem do Salvador: deve tratar de assemelhar-se o mais possível a Ele, deve estar disposto a dar-se, a entregar-se totalmente, de corpo e alma, vontade e coração, ao serviço de Cristo e, portanto, dos irmãos. A totalidade da oblação a Deus é a garantia da totalidade do serviço aos irmãos, é a garantia da dinâmica missionária, como a castidade garante o caráter esponsal e a grande paternidade. Em tudo isso, não se pode dar um “não”, mas um “sim” grande e libertador.Esta é a chave para entender as promessas de obediência, de castidade vivida no celibato, no compromisso de um caminho de desprendimento das coisas, das situações, de si mesmos; no clima de uma fraternidade sacerdotal intensa e sacramental. Tudo isso se compreende se existe um grande amor, na lógica gozosa da entrega. O sacerdote jamais terá uma crise de identidade, nem de solidão, nem de frustração cultural se, resistindo à tentação de confundir-se com a multidão anônima, em sua intenção, em sua retidão moral e em seu estilo, não se separa jamais do altar do sacrifício do Corpo e do Sangue de Cristo.

7. Qual deve ser a correta relação entre fiéis leigos e sacerdotes?Devem ser irmãos em meio aos irmãos, ainda que com funções essencialmente diversas. Com efeito, alguns são chamados a ser padres e outros não, mas todos certamente são chamados à santidade em Cristo.

8. Hoje se fala muito de celibato sacerdotal. O que se pode dizer a este respeito?Com relação ao sagrado celibato, encontramo-nos diante de um ícone particularmente significativo do bom Pastor, que não guarda nada para si, mas que dá tudo pelo bem do rebanho. Uma atenta reflexão cristológica permite apreciar a oportuna conveniência de associar esta prática de vida ao estado sacerdotal.Poderíamos dizer que desde os tempos Apostólicos até os nossos dias existe uma significativa continuidade na doutrina do Magistério sobre o celibato. Certamente, desta riqueza deriva uma exigência de radicalidade evangélica, que favorece de modo especial o estilo de vida “esponsal”. Brota da configuração do sacerdote com Jesus Cristo através do sacramento da Ordem. O sacerdote é chamado a levar uma vida de imitação de Cristo que o eleva ao nível dos conselhos evangélicos: a continência perfeita, a exemplo da virgindade de Cristo, lhe permite exercer mais plenamente a caridade pastoral, até o ponto de que se pode ver no sacerdote um outro Cristo, “alter Christus”.

9. E a tão discutida solidão do sacerdote?A Igreja assiste hoje a uma dissolução cada vez mais acentuada dos vínculos entre as pessoas, em todos os âmbitos sociais. Precisamente tende-se a conceber a família como um lugar de passagem ou de relações pactuais, mas sempre revocáveis. É lógico que a figura do sacerdote celibatário sofra o impacto destas inumeráveis solidões.Igualmente torna-se necessário colocar no centro da vida cristã autênticas comunidades familiares, capazes de dar esperanças e de fazer brilhar o dom da comunhão, e sua fecundidade, também necessitamos sacerdotes que saibam mostrar a fecundidade da comunhão, a fecundidade comunitária de sua “solidão” virginal.A iniciativa da Congregação para o clero, de fazer uma grande “corrente” de adoração eucarística mundial pelos sacerdotes, deve interpretar-se também a partir da perspectiva essencialmente sobrenatural de comunhão. Certamente servirá aos sacerdotes como fonte inesgotável e divina de energias missionárias, mas também servirá aos fiéis leigos para que recuperem a verdade sobre o sacerdócio ministerial católico, que de forma alguma pode se reduzir a um mero “funcionarismo pastoral”, tão somente acolhido pela sua importância social que possa ter. E não é lícito generalizar, atribuindo a todo o clero, aquilo que corresponde a responsabilidade de uma pequena parte.

10. Como se explica a crise de vocações na sociedade atual?Sempre que se fala de “crise de vocações”, igualmente quando se fala de “crise do matrimônio”, deve-se pensar com mais precisão, em uma crise que está na raiz e que origina as demais: a crise de fé.Existe um dado real que todos podem constatar: os jovens, quando se lhes abrem, com fé na graça, os amplos horizontes da integridade do seguimento de Cristo, respondem em grande número e com autêntico entusiasmo, mas quando se tenta reduzir a identidade do sacerdote e do ministério pastoral, não se sentem motivados e se produz uma progressiva deserção. Às vezes constata-se, com muita tristeza, a decadência e se buscam soluções que não são mais que premissa da decadência em si mesma.Falta a humildade da verdade: saber reconhecer os próprios erros. Falta a coragem de saber colocar em evidência também as opções que não deram fruto ou que produziram uma devastação. Portanto, não há que se justificar, escondendo-se por detrás do pretexto de “novas estruturas”. Só se pode propor uma terapia quando se faz um diagnóstico claro, sem compaixão. É preciso pedir, pedir e pedir, para que não se caia no que diz o Salmo 134: “Têm olhos e não podem ver; têm ouvidos e não podem ouvir”, com a certeza de que Deus nunca abandonará a sua Igreja e não permitirá que lhe faltem pastores “segundo seu Coração”.

Arcebispo Dom Mauro Piacenza Secretário da Congregação para o Clero

Fonte: Congregação para o Clero

"A Eucaristia: fonte de santidade no ministério sacerdotal"


CONGREGAÇÃO PARA O CLERO
CARTA DO CARDEAL DARÍO CASTRILLON HOYOS POR OCASIÃO DO DIA MUNDIAL PARA A SANTIFICAÇÃO DOS SACERDOTES

"A Eucaristia: fonte de santidade no ministério sacerdotal"
Sexta-feira 18 de Junho de 2004

Solenidade do Sagrado Coração de Jesus

Estimados amigos sacerdotes
O Dia Mundial para a Santificação dos Sacerdotes, que será celebrado no clima jubiloso da próxima Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, oferece-me a ocasião para reflectir juntamente convosco sobre o dom do nosso ministério sacerdotal, compartilhando a vossa solicitude pastoral para com todos os fiéis e toda a humanidade, e de maneira particular para com a porção do Povo de Deus, confiado aos vossos respectivos Ordinários, de quem vós sois os colaboradores solícitos e generosos.
O tema que desejo propor-vos no corrente ano coloca-se em sintonia com a Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, que o Santo Padre João Paulo II quis entregar-nos na Quinta-Feira Santa do ano passado, na circunstância do vigésimo quinto aniversário do seu Pontificado e do Ano do Rosário: "A Eucaristia: fonte e ápice de santidade no ministério sacerdotal".

1. Criados para amar

"Sede santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo" (Lv 19, 2). O Livro do Levítico recorda-nos a graça e a finalidade de todo o fiel e, de modo particular, de cada ministro ordenado: a santidade, que é a intimidade com Deus, amor sem reservas pela Igreja e por todas as almas. A vocação ao sacerdócio "é essencialmente uma vocação à santidade, na forma que brota do sacramento da Ordem" (João Paulo II, Exortação Apostólica Pastores dabo vobis, 33). Nas circunstâncias que lhe são próprias, lá onde Deus o colocou, o sacerdote é chamado a encontrar, a conhecer e a amar Jesus Cristo no exercício do seu próprio ministério e a identificar-se cada vez mais com Ele.

Se, na iminente solenidade do Sagrado Coração de Jesus, mantivermos o nosso olhar voltado para o Senhor, para o seu único, sumo e eterno Sacerdócio, os nossos horizontes alargar-se-ão para além dos confins da nossa vida quotidiana e a nossa existência enriquecer-se-á com uma dimensão mais universal e missionária.

"Eis que vos digo: erguei o vosso olhar e contemplai os campos: eles já estão dourados para a colheita" (Jo 4, 35). Estas palavras do Senhor ressoam, mesmo nos dias de hoje, no nosso coração e mostram o imenso horizonte da missão de amor do Verbo encarnado, missão esta que se faz nossa: Ela entrega-a como herança a toda a Igreja e, de maneira específica, no seu interior, a nós que somos os seus ministros ordenados. É verdadeiramente grande o mistério de amor, de que nós, sacerdotes, somos feitos ministros!

Os Actos dos Apóstolos recordam-nos que aquele mesmo Jesus com que os Apóstolos tinham vivido, com quem haviam comido, compartilhando o cansaço de cada dia, agora continua a estar presente também na sua Igreja.

Jesus Cristo está presente na Igreja não só porque continua a atrair a si todos os fiéis junto daquele Trono de graça e de glória, que é a sua Cruz redentora (cf. Cl 1, 20), formando com todos os homens, de todos os tempos, um só Corpo, mas também porque Ele está sempre presente no tempo e de forma eminente como Chefe e Pastor que ensina, santifica e governa constantemente o seu Povo. E esta presença realiza-se através do Sacerdócio ministerial que Ele desejou instituir no seio da sua Igreja. Por isso, cada sacerdote pode repetir que foi escolhido, consagrado e enviado para fazer emergir a contemporaneidade de Jesus Cristo, de quem se torna um autêntico representante e mensageiro (cf. Congregação para o Clero, Directório para o ministério e a vida dos Presbíteros, Tota Ecclesia, de 31 de Janeiro de 1974, n. 1).

A vida de Cristo, de Quem somos portadores, Christo foroi, é como a água que corre no meio dos precipícios rochosos e da terra árida, tornando-a fecunda. Com a vinda de Jesus Cristo ao tempo e ao espaço do homem, a história deixou de ser uma terra estéril, como era antes da Encarnação, para assumir um significado e um valor de esperança universal.

Nós "não podemos permitir-nos dar ao mundo a imagem de terra árida escrevia o Santo Padre, há pouco mais de quatro anos, na Bula de Proclamação do Grande Jubileu do Ano 2000 depois de termos recebido a Palavra de Deus como chuva descida do céu; nem jamais poderemos pretender tornar-nos um único pão, se impedirmos à farinha de se amalgamar pela água, que foi derramada sobre nós (cf. Santo Ireneu, Contra as heresias, III, 17: PG 7, 930)" (João Paulo II, Incarnationis mysterium, 4).

2. Com o Coração de Cristo

Aquilo que é necessário para alcançar a felicidade não é uma vida cómoda, mas um coração apaixonado, como o de Jesus Cristo. O Coração sacratíssimos e misericordioso de Jesus, traspassado por uma lança na Cruz, em sinal de entrega total de si mesmo, constitui uma fonte inesgotável da paz verdadeira, é uma manifestação integral daquele amor oblativo e salvífico com que Ele "nos amou até ao fim" (Jo 13, 1), lançando o fundamento da amizade de Deus com os homens.

A Solenidade do Sagrado Coração de Jesus convida-nos à alegria da caridade, numa entrega de nós mesmos aos outros: "Cantai ao Senhor um cântico novo, porque Ele realizou prodígios!" (Sl 97, 1).

Caros sacerdotes, os milagres são a vossa vida, mistério de predilecção divina e dom da sua misericórdia, expressos de maneira tão completa pelo profeta Jeremias: "Antes de te formar no ventre da tua mãe, Eu te conheci; antes que tu fosses dado à luz, Eu te consagrei, para fazer de ti profeta das nações" (1, 5). Não somente o sacerdócio, mas inclusivamente o caminho de preparação para o mesmo constitui uma dádiva que, como dizia São paulo, "ninguém pode atribuir-se a si mesmo, a não ser quem é chamado por Deus" (Hb 5, 4).

Pelo sacerdócio baptismal, todos nós somos servidores de Jesus Cristo. Como diz São Paulo, na segunda Carta aos Coríntios, somos os servidores da alegria dos homens (cf. 2 Cor 1, 24). Contudo, o ministério sacerdotal recordemo-lo com as palavras do Papa Paulo VI "não é uma profissão ou um serviço qualquer, exercido em benefício da comunidade eclesial, mas sim um serviço que participa de maneira absolutamente especial e com um carácter indelével no poder do sacerdócio de Cristo, graças ao sacramento da Ordem" (Paulo VI, Mensagem aos sacerdotes no encerramento do Ano da Fé, 30 de Junho de 1968).

Os homens desejam contemplar no sacerdote o rosto de Jesus Cristo, encontrar nele a pessoa que, "constituído para o bem dos homens nas coisas que se referem a Deus" (Hb 5, 1), possa dizer juntamente com Santo Agostinho: "A nossa ciência é Cristo e a nossa sabedoria é ainda Cristo. É Ele quem infunde em nós a fé em relação às realidades temporais e é Ele quem nos revela aquelas verdades que se referem às realidades eternas" (Santo Agostinho, De Trinitate, 13, 19, 24: NBA, 4, pág. 555).

3. Mediante a Eucaristia que é a nossa força e esperança

Os Evangelhos falam-nos da iniciativa de Jesus Cristo que, caminhando sobre a água, leva socorro e alívio aos Apóstolos, que se encontram na barca agitada pelas ondas do lago de Tiberíades (cf. Mt 14, 22-32)
Trata-se de um convite a vivificar a nossa plena confiança em Cristo. Ele repete também a nós a exortação que dirigiu aos navegantes: "Coragem, sou Eu, não tenhais medo" (Mt 14, 27)! Não nos deixemos amedrontar pelas dificuldades, tenhamos confiança nele! A vocação sacerdotal, implantada com eficácia por Cristo em vós e por vós acolhida com humildade generosa, como terra fecunda, sem dúvida dará frutos abundantes.

Como Pedro, vamos também nós ao encontro de Jesus Salvador, fixando o nosso olhar no seu Rosto misericordioso: somente o olhar do Crucificado e Ressuscitado, contemplado na nossa oração e no recurso à Confissão sacramental, pode superar a força de gravidade da nossa pequenez, dos nossos limites e dos nossos pecados. São João Crisóstomo, comentando este trecho do Evangelho, recorda-o afirmando: "Quando falta a nossa cooperação, também a ajuda da parte de Deus deixa de subsistir" (Comentário ao Evangelho de São Mateus, n. 50).

Especialmente na Eucaristia, descobrimos de novo a verdade e a eficácia das palavras e da acção de Jesus Cristo: "Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro e disse-lhe: "Homem de pouca fé, por que duvidaste?"" (Mt 14, 31). O braço de Deus sustém-nos e as águas obscuras, agitadas pela nossa soberba e pelo demónio, perderão o seu poder.

É da Eucaristia que nós havemos de haurir a força da caridade de Jesus Cristo. A este propósito, na Carta Encíclica sobre a Eucaristia, o Santo Padre escreveu: "Cada esforço de santidade, cada iniciativa para realizar a missão da Igreja, cada aplicação dos planos pastorais deve extrair a força de que necessita do mistério eucarístico e orientar-se para ele como o seu ponto culminante" (João Paulo II, Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, 17 de Abril de 2003, n. 60).

Deus pede-vos, a vós sacerdotes diocesanos, missionários e religiosos, que vos prodigalizeis com entusiasmo neste ministério sagrado, em vista de redescobrir, especialmente na Eucaristia, a beleza da vossa vocação sacerdotal. Cada um se torne educador de vocações, sem ter medo de propor opções radicais na santidade.

Como afirmava o Santo Cura d'Ars, conscientes de que "o sacerdote é o amor do Coração de Jesus" (Esprit du Curé d'Ars, Maria Vianney dans ses catéchismes, ses homélies et sa conversation, Edition de Téqui, Paris, 1935, pág. 117), como deixar de recordar aqui que nada é mais exaltante do que um testemunho apaixonado da nossa própria vocação? "O Sacerdote dizia ainda São João Maria Vianney é algo tão imenso que, se ele mesmo o compreendesse, morreria" (Esprit du Curé d'Ars..., op. cit., pág. 113).

Como sentinelas da Casa de Deus, que é a Igreja, velemos a fim de que em toda a vida eclesial das nossas paróquias se reviva o encontro com Cristo crucificado e ressuscitado. Evitemos os recifes do activismo onde, por vezes, naufragaram os melhores projectos apostólicos e pastorais, e onde se tornaram infecundas muitas vidas comprometidas num serviço não adequadamente irrigado pela Palavra de Deus e pela sua presença na Eucaristia. Com as palavras do Santo Padre, repitamos: "Nos sinais humildes do pão e do vinho transubstanciados no seu corpo e sangue, Cristo caminha connosco, como nossa força e nosso viático, e torna-nos testemunhas de esperança para todos" (João Paulo II, Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, 62).

Façamos com que os fiéis cristãos consigam reviver a experiência do Cenáculo que foi, num certo sentido, o primeiro Curso formativo dos Apóstolos. No Cenáculo o Mestre, depois de ter instruído os Doze, lavou-lhes os pés e, antecipando o Sacrifício cruento da Cruz, entregou-se a si mesmo inteiramente e para sempre, nos sinais do pão e do vinho. No Cenáculo, na expectativa do Pentecostes, os Apóstolos encontravam-se "assíduos e concordes na oração, juntamente com... Maria, Mãe de Jesus" (Act 1, 14).

No corrente ano celebra-se o Sesquicentenário da definição dogmática da Imaculada Conceição de Maria, proclamada pelo Beato Papa Pio IX no dia 8 de Dezembro de 1854. Por conseguinte invoquemos com particular confiança a Bem-Aventurada Virgem Imaculada. Peçamos-lhe, a Ela, Mulher "eucarística", que sustente sempre em nós o desejo de nos identificarmos plenamente com o seu Filho, de sermos ipse Christus, alter Christus, a fim de sermos em todos os lugares arautos do Evangelho, peritos em humanidade, conhecedores do coração do homem contemporâneo, partícipes das suas alegrias e esperanças, das suas angústias e tristezas, e para sermos, ao mesmo tempo, contemplativos, apaixonados de Deus.

Dirijamo-nos a Maria, Rainha dos Apóstolos e Mãe dos sacerdotes. E peçamos-lhe que nos acompanhe ao longo do nosso caminho ministerial, como acompanhou os Apóstolos e os primeiros discípulos no Cenáculo.

A Ela, Estrela da evangelização, dirijamo-nos com confiança a fim de que, pela sua intercessão, o Senhor conceda a cada um o dom da fidelidade à vocação presbiteral. Que a Imaculada Conceição resplandeça no centro das nossas comunidades eclesiais e as transforme num sinal elevado entre os homens, "como uma cidade construída sobre um monte", e também como "uma lâmpada colocada no candeeiro, que brilhe para a todos" (cf. Mt 5, 14-15)!

Cardeal Eugênio Sales - A Vida Diocesana



O Eminentíssimo Cardeal Sales gravou este simples vídeo de meu celular para o blog, incentivando a colaboração do sacedote diocesano junto do bispo.

Cardeal Eugênio Sales - A Vida Sacerdotal Diocesana





Segue um artigo de sua eminênia sobre vocações.


VOZ DO PASTOR

D. Eugênio de Araújo Sales
04/05/2001

Rezar pelas vocações

No 4º Domingo da Páscoa é celebrada a Jornada Mundial de Orações pelas Vocações Sacerdotais e Religiosas. O Evangelho da Missa dominical é o relato do Bom Pastor. Deus, no Antigo Testamento, é apresentado como Aquele que conduz o rebanho, seu povo. São João, em seu Evangelho, (10, 1ss) nos mostra Jesus como o Bom Pastor: “Eu sou o bom pastor, conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem”. A Igreja é vista pelos Livros Sagrados como o “redil”, o “rebanho” entregue ao guarda vigilante. A mais antiga escultura do Salvador, do século IV, bem como um afresco na catacumba de São Calisto, do século III, representam-no transportando no ombro uma ovelha. Essa conduta pastoral é confiada às pessoas consagradas ao serviço do Senhor. Elas são chamadas, recebem a missão de continuar, na terra, a presença do Redentor. Apesar de tão alta incumbência, permanecem criaturas humanas, com todas as suas fraquezas e limitações. A graça para bem exercer seu encargo não falta, mas fica na dependência do reto uso da liberdade.

Logo aparece a importância do bom sacerdote, de pessoas consagradas que vivam intensamente seu chamamento e a corresponsabilidade de todo o rebanho no desempenho dessa missão. A Igreja é santa, por ser a continuação de Jesus e, ao mesmo tempo, formada por pecadores, criaturas passíveis de ofender a Deus e ao próximo.

Neste domingo de maio celebramos o XXXVIII Dia Mundial de Orações pelas Vocações. São duas as vertentes: pedimos ao Senhor que o número dos consagrados seja suficiente, pois, caso contrário, faltará quem apascente o rebanho. Igualmente rogamos, com fervor, que a santidade de vida brilhe em cada um dos que foram chamados por Deus para tão nobre mister, fundamental à Igreja.

Dada a significação da data, o Romano Pontífice, com alguma antecedência, divulga um documento. Na primeira celebração deste novo milênio, aborda o tema: “A vida como vocação” e traz a data de 14 de setembro de 2000. O Papa, no início, nos convida: “desejo deter-me para refletir convosco sobre um assunto de indiscutível importância na vida cristã” (Mensagem, nº 1). Por toda parte, os cristãos, mergulhados em um ambiente pleno de erotismo, que vivem um projeto de vida inteiramente edificado à margem dos princípios evangélicos, necessita de maior resistência para apresentar, em seus atos, a viabilidade da mensagem que o Senhor veio trazer à terra.
Ora, um elemento fundamental para ajudar os fiéis a serem verdadeiros seguidores de Cristo, em um mundo tão adverso, sem dúvida está na vida consagrada ao Evangelho. Enumera-se aí a santidade do clero, dos religiosos. Por maior que seja o esforço da Igreja, a fraqueza humana estará sempre presente. Faz-se mister uma contribuição de todos, sacerdotes e leigos, para reduzir as deficiências, promover o fortalecimento de uma autêntica vida espiritual a serviço da comunidade dos homens, impedindo a decomposição. Não é sem motivo que o elemento inteiramente doado ao serviço religioso é comparado ao sal que preserva e à luz que ilumina as trevas.

Por essa razão, nem todos são chamados a esse projeto de vida que pode raiar ao heroísmo. A vocação é dada por Deus que, ao mesmo tempo, faz a outorga dos meios para superar os obstáculos. Infelizmente, quem a recebe, por gozar do uso da liberdade, nem sempre aproveita da graça recebida; então o estrago é enorme, para toda a Igreja. Pensa erradamente quem afirma ser a solução suprimir a exigência do celibato aos que se entregam totalmente ao serviço de Deus e dos homens. A transgressão à castidade, infelizmente, existe e é freqüente entre os que não prometeram uma vida integralmente casta. O remédio à fraqueza humana está também na ajuda dos demais fiéis, pois a força da graça divina não falta, hoje também uma adequada formação no Seminário e amparo no período subseqüente. A fraqueza humana não é resolvida por concessões.

Em sua Mensagem, o Santo Padre chama a atenção dos Pastores do Povo de Deus, no despertar de vocações, citando o Concílio Vaticano II (“Presbyterorum Ordinis”, nº 1): “Os presbíteros, em primeiro lugar, se empenhem em fazer com que os fiéis conheçam a excelência e a necessidade do sacerdócio (...) “Ela (a voz do Senhor) precisa ser reconhecida e examinada, através daqueles sinais de que todos os dias o Senhor se serve para fazer com que os cristãos prudentes entendam a sua vontade; e cabe aos presbíteros estudar atentamente esses sinais”.
Ao lado desse trabalho dos Pastores do Povo de Deus em favor das vocações, o Papa conclama, no mesmo sentido, os pais cristãos para que ajudem os filhos a escutarem o chamado de Deus. Juntamente com o suporte à ação da família, cabe aos catequistas e professores cristãos promover nos jovens, a importância da vocação.

A toda a Igreja é endereçado o apelo do Senhor: “A messe é grande mas os operários são poucos! Rogai, pois, ao Senhor da messe que envie operários!” (Mt 9,37-38; Lc 10,2). O florescer das vocações ao sacerdócio e vida consagrada é um sinal claro da vitalidade religiosa em uma comunidade. Posso assegurar que Deus distribui os dons conforme as necessidades espirituais dos fiéis. Cabe, no entanto, a estes cooperar, com orações, apoio e manutenção das casas de formação para que o chamado do Senhor floresça e frutifique. Por isso, benemérito é o trabalho da Obra das Vocações Sacerdotais, da Comissão de Pastoral Vocacional e do Serra Clube em favor de tão nobre causa.

O XXXVIII Dia Mundial de Orações pelas Vocações, no Domingo do Bom Pastor seja acolhido com carinho e generosidade. Nobre é a causa, importante todo esforço pelo aumento e santificação dos Pastores do Povo de Deus.

Especial Adolph Tanquerey para sacerdotes - Parte IX

1º. O SACERDOTE, RELIGIOSO DE DEUS, DEVE SER SANTO

393. Em virtude da sua missão, o sacerdote deve glorificar a Deus em nome de todas as criaturas e, mais especialmente, do povo cristão. É, pois, verdadeiramente, em virtude do sacerdócio, tal como Nosso Senhor o instituiu, o religioso de Deus: “pro hominibus constituitur in iis quæ sunt ad Deum, ut offerat dona et sacrificia”. É sobretudo, pelo santo sacrifício da Missa e pela recitação do Ofício divino que ele se desempenha desse dever; mas todas as suas ações, ainda as mais comuns, podem contribuir para isso, como dissemos mais acima, se são feitas para lhe agradar. Ora, esta missão não pode ser convenientemente desempenhada senão por um sacerdote santo, ou ao menos apostado a ser.

394. A) Que santidade se não requere para o Santo Sacrifício?! Os sacerdotes da Antiga Lei, que se queriam aproximar de Deus, deveriam ser santos (trata-se, sobretudo da santidade legal), sob pena de serem castigados: “Sacerdotes, qui accedunt ad Dominum, sanctificentur, ne percutiat eos” [Ex 19, 22]. Para oferecerem o incenso e os pães destinados ao altar, deviam ser santos: “Incensum enim Domini et panes Dei sui offerunt, et ideo sancti erunt” [Lv 21,6].Quanto mais santos, mas de santidade interior, não devem ser aqueles que oferecem, não já sombras e figuras, senão o sacrifício por excelência, a vítima infinitamente santa? Tudo é santo neste divino sacrifício a vítima e o sacerdote principal. Que outro não é senão Jesus Cristo, o qual, no dizer de S. Paulo, “é santo, inocente, imaculado, segregado dos pecadores, e mais elevado do que os céus: Talis decebat ut nobis esset pontifex, sanctus, innocens, impollutus, segregatus a peccatoribus et excelsior coelis factus” [Hb 7,26]; a Igreja, em cujo nome o sacerdote oferece a Missa, e que Jesus santificou com o seu sangue “seipsum tradidit pro eâ ut illam sactificaret... ut sit sancta et immaculata”; o fim, que é glorificar a Deus e produzir nas almas frutos de santidade; as orações e cerimônias, que o sacrifício do Calvário e os efeitos de santidade por ele merecidos; a comunhão sobretudo que nos une à fonte de toda a santidade. – Não será, pois, indispensável que o sacerdote, que em nome de Jesus Cristo e da Igreja oferece este augusto sacrifício, esteja revestido de santidade? Como poderia ele representar dignamente a Jesus Cristo, a ponto de ser alter Christus, se levasse uma vida medíocre, sem aspirar à perfeição? Como seria ministro da Igreja imaculada, se a sua alma, presa ao pecado venial, não cuidasse de progredir em espírito? Como glorificaria a Deus, se o seu coração estivesse vazio de amor e sacrifício? Como santificaria as almas, se ele mesmo não tivesse desejo sincero de se santificar?

Especial Adolph Tanquerey para sacerdotes - Parte VIII

III. A natureza das funções sacerdotais exige a santidade.


392. Conforme o testemunho do Apóstolo S. Paulo, o sacerdote é mediador entre o homem e Deus, entre a terra e o céu: escolhido entre os homens, para ser seu representante, deve ser aceito a Deus, chamado por Ele, para ter direito de aparecer na sua Presença a oferecer-Lhe as homenagens dos homense a obter Dele benefícios: “Omnis namque Pontifex, ex hominibus assumptus, pro hominbus constituitur in iis quæ sunt ad Deum, ut offerat dona et sacrificia pro peccatis... Nec quisquam sumit sibi honorem, sed qui vocatur a Deo tanquam Aaron” [Hb 5, 1-4]. As suas funções podem-se reduzir a duas principais: é o Religioso de Deus [no sentido de oficialmente é encarregado dos deveres de religião], encarregado de O glorificar em nome de todo o povo cristão; é um Salvador, um Santificador de almas, que tem missão de colaborar com Jesus Cristo na slavação e santificação do próximo. Ora, este duplo título, deve ser santo [1], e por conseguinte, tender incessantemente a plenitude da santidade que as suas funções reclamam.
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[1] E ainda o que diz SANTO TOMÁS (IV Sent., dist. 24, q. 2); “Qui divinis mysteriis applicatur regiam dignitatem assequuntur et perfecti in virtute esse debent”.

Especial Adolph Tanquerey para sacerdotes - Parte VII


390. 5º. E contudo exige ainda mais do presbítero. Já que ele oferece o Santo Sacrifício da Missa, é mister que seja vítima no mesmo tempo que sacrificador: sê-lo-á, imolando as suas paixões: “Agnoscite quod agitis; imitamini quod tractatis; quatenus mortis dominicæ mysterium celebrantes, mortificare membra vestra a vitiis et concupiscentiis omnibus procuretis”:sê-lo-á, renovando incessantemente em si o espírito de santidade: “innova in visceribus eorum spiritum sanctitatis”. Para isso mediará dia e noite a lei de Deus, para a ensinar aos outros e para ele mesmo a praticar, dando assim o exemplo de todas as virtudes cristãs: “ut in lege tua die ac nocte meditantes, quod legerint, credant; quod crediderint, doceant; quod docuerint, imitentur; justitiam , constantiam, misericordiam, fortitudem, ceterasque virtutes in se ostendat”. E, como tem de se consumir pelas almas, praticará a caridade fraterna sob forma de dedicação: “accipe vestem sacerdotalem per quam caritas inteligitur”; como S. Paulo, desprender-se-á completamente pelas almas: “Ego autem libentissime impendam et superimpendar ipse pro animabus vestris” [2 Cor 12,15]. É, aliás, o que vai ressaltar das funções sacerdotais que passamos a expor.

391. Assim, pois, a cada novo passo para o sacerdócio, exige o Pontifical mais virtude . mais amor e sacrifício; e, quando chega ao sacerdócio, é a santidade que ele reclama, diz Santo Tomás [q. 35, a. 1, ad 3], a fim de que o sacerdote possa oferecer dignamente o Santo Sacrifício e santificar as almas que lhe são confiadas. O Ordinário é livre para dar ou não o passo à frente; mas, se recebe as Ordens, é que evidentemente aceita as condições tão explicitamente formuladas pelo Pontífice, isto é, a obrigação de tender à perfeição, obrigação que, longe de ser diminuída pelo exercício de santo ministério, não faz senão, tornar-se mais urgente, como vamos mostrar.

Especial Adolph Tanquerey para sacerdotes - Parte VI

I. A autoridade do Pontifical


385. Seria fácil mostrar que os SS. Padres, ao comentarem o Evangelho e as Epistolas, desenvolveram e fixaram com precisão estes ensinamentos; poderíamos até acrescentar que escreveram Cartas e Tratados inteiros sobre a dignidade e santidade do sacerdócio [1]. Para não nos alongarmos, porém, demasiado, limitar-nos-emos a invocar a autoridade do Pontifical, que é como o Código sacerdotal da Nova Lei, e contém o resumo do que a Igreja católica exige dos seus ministros. Esta simples exposição mostrará o alto grau de perfeição que se requere dos Ordinários e, com maior força de razão, dos pastores de almas.

387. 2º. Com as Ordens Menores, recebe o clérigo um duplo poder: um sobre o Corpo eucarístico de Jesus, outro sobre o seu corpo místico, isto é, sobre as almas; mas exigi-se dele, além do desprendimento, um duplo amor, o amor do Deus do sacrário, e o amor das almas, cada um dos quais supõe o sacrifício.


Acólito, desapega-se dos prazeres sensuais, para praticar já aquela pureza que o serviço dos altares requere. Ao mesmo tempo vai-se robustecendo o seu amor para com Deus: ama o Deus do sacrário, cuja guarda lhe está confiada, ama o Verbo oculto debaixo do véu das letras na Sagrada Escritura, ama Aquele que impera aos espíritos malignos, ama Aquele que se imola no altar. E este amor desabrocha em zelo: ama as almas, e por isso a sua felicidade é levá-las a Deus pela palavra e pelo exemplo, edificá-las pelas suas virtudes, purificá-las pelos seus exorcismos, santificá-las, santificá-las pela parte que toma no Santo Sacrifício. E assim vai a pouco avançando para a perfeição.

389. 4º Aos diáconos, que são constituídos cooperadores do presbítero na oblação do santo Sacrifício “comministri et cooperatores estis corporis et sanguinis Domini”, o Pontifical exige pureza mais perfeita ainda: “Estote nitidi, mundi, puri, casti”. E, como tem o direito de pregar o Evangelho, exige-se-lhes que o pregue com o exemplo mais ainda que com a boca: “curate ut quibus Evangelium ore annuntiatis, vivis operibus exponatis”. A sua vida deve, pois , ser uma tradução viva do Evangelho, e por isso mesmo uma imitação constante das virtudes de nosso Senhor Jesus Cristo. E assim, ao orar para que o Espírito Santo desça sobre eles, com todos os seus dons, e sobre tudo com o da fortaleza, o Pontífice dirige a Deus esta bela oração: “Abundet in eis totius forma virtutis, auctoritas modesta, pudor, constans, innocentiæ puritas, et spiritualis observantia disciplinæ”. Não é isto pedir para eles a prática das virtudes que conduzem à santidade? Na oração final, o Bispo pede efetivamente que eles sejam ornados de todas as virtudes “virtutibus universis ... instructi”.

Especial Adolph Tanquerey para sacerdotes - Parte V

380. B) É, aliás, o que se resulta dos ensinamentos do divino Mestre. Durante os três da vida pública, a sua obra capital é a formação dos Doze: é a sua ocupação habitual. A pregação às turbas não é mais que um acessório, e, por assim dizer, um modelo da maneira como os discípulos deverão pregar. Daqui fluem as conclusões seguintes:

a) Os ensinamentos tão elevados sobre a bem-aventurança, a santidade interior, a abnegação, o amor de Deus e do próximo, a prática da obediência, humildade, mansidão e todas as demais virtudes, tantas vezes inculcadas no Evangelho, dirigem-se incontestavelmente a todos os cristãos que aspiram à perfeição, mas antes de tudo aos Apóstolos e seus sucessores: são eles, com efeito, os encarregados de ensinar aos simples fiéis estes graves deveres, pelo exemplo, mais ainda que pela palavra: é o que o Pontifical recorda aos diáconos: “Curate ut quibus Evangelium ore annuntiatis, vivis operibus exponatis”. Ora, não há ninguém que não reconheça que estes ensinamentos formam um código de perfeição, e de altíssima perfeição. Os sacerdotes são, pois, obrigados, por dever de estado, a aproximar-se da santidade.

381. b) É muito particularmente aos Apóstolos e sacerdotes que se dirigem estas exortações a mais elevada perfeição, contidas em muitas páginas do Evangelho: “Vós sois o sal da terra... vós sois a luz do mundo: Vos estis sal terrae... Vos estis lux mundi [Mt 15, 13-14]. A luz. De que se trata aqui, não é somente a ciência, é também e sobretudo o exemplo que ilumina e arrasta mais que a ciência: “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras, e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus: Sic luceat vestra coram hominibus, ut videant opera vestra bona, et glorificent Patrem vestrum qui in coelis est [Mt 5, 16]". É a eles também, e de modo especial, que se dirigem os conselhos, sobre a pobreza e a continência, porque, em virtude da sua vocação, são obrigados a seguir a Jesus Cristo mais de perto e até o fim.

382. c) Enfim, há uma série de ensinamentos que direta e explicitamente são reservados aos apóstolos e a seus sucessores [1]: são os que Ele ministra aos Doze e aos Setenta e dois, ao enviá-los a pregar na Judéia, e os que pronunciou na Última Ceia. Ora, estes discursos contêm um código de perfeição sacerdotal tão elevada que daí resulta para os sacerdotes um dever absoluto de tender incessantemente à perfeição. E, com efeito, eles deverão praticar o desinteresse absoluto, o espírito de pobreza e a pobreza efetiva, contentando-se do necessário, o zelo, a caridade, a dedicação completa, a paciência, a humildade no meio das perseguições que o esperam, a fortaleza para confessar a Cristo e pregar o Evangelho a todos e contra todos, o desapego do mundo e da família, o amor prático da Cruz, a abnegação completa.

383. Na Última Ceia dá-lhes aquele mandamento novo que consiste em amar os seus irmãos como Ele os amou, isto é, até à imolação completa; recomenda-lhes uma fé viva, uma confiança absoluta na oração feita em Seu nome; o amor de Deus manifestado no cumprimento dos preceitos; a paz da alma para receberem e gostarem dos ensinamentos do Espírito Santo; a união íntima e habitual com o próprio Jesus, condição essencial de santificação e apostolado; a paciência no meio das perseguições do mundo, que os odiará como odiou o Divino Mestre; a docilidade para com o Espírito Santo que os virá consolar nas tribulações; a firmeza na fé e o recurso à oração no meio das provações; numa palavra, as condições essenciais do que nós chamamos hoje a vida interior ou a vida perfeita. E termina por aquela oração sacerdotal, tão cheia ternura, em que pede ao seu Pai que guarde os seus discípulos como Ele próprio os guardou durante a sua vida mortal; que os preserve do mal, no meio desse mundo que eles devem evangelizar, e que os santifique em toda a verdade. Esta oração ele fez não somente pelos Apóstolos em pessoa, mas também por todos os que nele haviam de crer, afim de que eles sejam sempre unidos pelos laços da caridade fraterna, como são unidas as três Divinas pessoas, e sejam todos unidos a Deus e todos unidos a Cristo, para que o amor com que Vós me amastes esteja neles e eu também esteja neles.

Não é isto um programa completo da perfeição, traçado de antemão pelo Sumo Sacerdote, de quem somos representantes na terra? E não é consolador ver que Ele orou para que nós o possamos realizar?

384. 2º. É por isso que São Paulo se inspira deste ensino de Jesus, quando por seu turno descreve as virtudes apostólicas. Depois de haver advertido que os sacerdotes são dispensadores dos mistérios de Deus e seus ministros, embaixadores de Cristo, mediadores ente Deus e os homens, enumera nas Epístolas Pastorais as virtudes de que devem ser adornados os diáconos, os presbíteros e os bispos. Não lhes basta haverem recebido a graça da ordenação; devem ressuscitá-la, fazê-la reviver não seja caso que ela diminua: “Admoneo te ut resuscites gratiam quae est in te per impositionem manuum mearum” [2 Tm 1,6]. Os diáconos devem ser castos e púdicos, sóbrios, desinteressados, discretos e leais; devem saber governar a sua casa com prudência e dignidade. Mas perfeitos ainda devem ser os presbíteros e os bispos: a sua vida deve ser tal modo pura que sejam irrepreensíveis; devem, pois, combater com cuidado o orgulho, a ira, a intemperança, a cobiça, e cultivar as virtudes morais e teologais, a humildade, a sobriedade, a continência, a santidade, a bondade, a hospitalidade, a paciência, a doçura, e sobretudo a piedade, que é útil a tudo a fé e a caridade. É necessário até dar exemplo destas virtudes, e por conseqüência praticá-las em grau elevado: “In hominibus teipsum praebe exemplum bonorum operum” [Tt 2,7]. Todas estas virtudes supõem não somente certo grau de perfeição já adquirida, mas alem disso um esforço generoso e constante para a perfeição.

Especial Adolph Tanquerey para sacerdotes - Parte IV


378. O Código sancionou estas idéias de Pio X, insistindo, mais do que o havia feito a legislação antiga, sobre a necessidade da santidade para o sacerdote e os meios de alcançá-la. Declara sem rodeios que “os clérigos devem levar uma vida interior e exterior mais santa que os leigos, e dar-lhes bom exemplo pela sua virtude e boas-obras”. E acrescenta que os Bispos devem procurar “que todos os clérigos se aproximem frequentemente do sacramento da Penitência, para se purificarem das suas faltas; que consagrem todos os dias certo tempo à oração mental, visite o SS.mo Sacramento, recitem o Terço em honra da Virgem Mãe de Deus, e façam exame de consciência. Todos os três anos, ao menos, devem os sacerdotes seculares fazer um retiro durante o tempo determinado pelo seu Bispo, em uma casa pia ou religiosa; não podem ser dispensados dessa obrigação senão, em algum caso particular, por uma causa grave e com licença explícita do Ordinário. Todos os clérigos, mas sobretudo, os sacerdotes são especialmente obrigados a ter para com o seu Ordinário respeito e obediência [1].


Ademais a necessidade que tem o sacerdote de tender à perfeição prova-se: 1.º pela autoridade de N. S. Jesus Cristo e de S. Paulo; 2.º pelo Pontifical; 3.º pela mesma natureza das funções sacerdotais.

I. A doutrina de Jesus e de S. Paulo.

379. 1.º N. S. Jesus Cristo ensina eloqüentemente, tanto pelos seus exemplos como pelas suas palavras, a necessidade de ser santo que tem o sacerdote.


A) Dá o exemplo. Ele, que desde o princípio era cheio de graça e de verdade, “vidimus eum... plenum gratiae et veritatis”, quis submeter-se, na medida do possível, à lei do progresso: “Jesus progredia, diz S. Lucas, em sabedoria, em idade e em graça diante de Deus e dos homens: “proficiebat sapientia et aetate et gratia apud Deum et homines” [2]. E durante trinta anos preparou-se para o seu ministério público pelo exercício da vida oculta com todas as usas conseqüências: oração, mortificação, humildade e obediência. Três palavras resumem trinta anos da vida do Verbo Encarnado: “Erat subditus illis” [3]. Para pregar com mais eficácia as virtudes cristãs, começou as por em prática: “coepit facere et docere” [4]; e tão perfeitamente as exercitou que poderia dizer de todas as virtudes o que disse da mansidão e da humildade: “discite a me, quia mitis sum et humilis corde” [5]. E assim, ao fim ao fim de sua vida, declara com toda a simplicidade que se santifica e sacrifica (a palavra sanctifica tem este duplo sentido). Para que os seus apóstolos e sacerdotes, seus sucessores, se santifiquem em toda a verdade: “Et pro eis ego sanctifico meipsum, ut sint et ipisi sanctificati in veritate” [6]. Ora, o sacerdote é o representante de Jesus Cristo na terra, outro Cristo: “pro Christo ergo legatione fungimur” [7]. Logo também nós devemos tender incessantemente à santidade.


[1] – Antigo CDC, Can. 124-127.
[2] – Lc 2, 52.

[3] – Lc 2, 51.

[4] – Atos 1,1.
[5] – Mt 11,29.
[6] – Jo 17,19.
[7] – 2 Cor 5,20.

Especial Adolph Tanquerey para sacerdotes - Parte III


378. O Código sancionou estas idéias de Pio X, insistindo, mais do que o havia feito a legislação antiga, sobre a necessidade da santidade para o sacerdote e os meios de alcançá-la. Declara sem rodeios que “os clérigos devem levar uma vida interior e exterior mais santa que os leigos, e dar-lhes bom exemplo pela sua virtude e boas-obras”. E acrescenta que os Bispos devem procurar “que todos os clérigos se aproximem frequentemente do sacramento da Penitência, para se purificarem das suas faltas; que consagrem todos os dias certo tempo à oração mental, visite o SS.mo Sacramento, recitem o Terço em honra da Virgem Mãe de Deus, e façam exame de consciência. Todos os três anos, ao menos, devem os sacerdotes seculares fazer um retiro durante o tempo determinado pelo seu Bispo, em uma casa pia ou religiosa; não podem ser dispensados dessa obrigação senão, em algum caso particular, por uma causa grave e com licença explícita do Ordinário. Todos os clérigos, mas sobretudo, os sacerdotes são especialmente obrigados a ter para com o seu Ordinário respeito e obediência [1].


Ademais a necessidade que tem o sacerdote de tender à perfeição prova-se: 1.º pela autoridade de N. S. Jesus Cristo e de S. Paulo; 2.º pelo Pontifical; 3.º pela mesma natureza das funções sacerdotais.

I. A doutrina de Jesus e de S. Paulo.

379. 1.º N. S. Jesus Cristo ensina eloqüentemente, tanto pelos seus exemplos como pelas suas palavras, a necessidade de ser santo que tem o sacerdote.


A) Dá o exemplo. Ele, que desde o princípio era cheio de graça e de verdade, “vidimus eum... plenum gratiae et veritatis”, quis submeter-se, na medida do possível, à lei do progresso: “Jesus progredia, diz S. Lucas, em sabedoria, em idade e em graça diante de Deus e dos homens: “proficiebat sapientia et aetate et gratia apud Deum et homines” [2]. E durante trinta anos preparou-se para o seu ministério público pelo exercício da vida oculta com todas as usas conseqüências: oração, mortificação, humildade e obediência. Três palavras resumem trinta anos da vida do Verbo Encarnado: “Erat subditus illis” [3]. Para pregar com mais eficácia as virtudes cristãs, começou as por em prática: “coepit facere et docere” [4]; e tão perfeitamente as exercitou que poderia dizer de todas as virtudes o que disse da mansidão e da humildade: “discite a me, quia mitis sum et humilis corde” [5]. E assim, ao fim ao fim de sua vida, declara com toda a simplicidade que se santifica e sacrifica (a palavra sanctifica tem este duplo sentido). Para que os seus apóstolos e sacerdotes, seus sucessores, se santifiquem em toda a verdade: “Et pro eis ego sanctifico meipsum, ut sint et ipisi sanctificati in veritate” [6]. Ora, o sacerdote é o representante de Jesus Cristo na terra, outro Cristo: “pro Christo ergo legatione fungimur” [7]. Logo também nós devemos tender incessantemente à santidade.

[1] – Antigo CDC, Can. 124-127.
[2] – Lc 2, 52.
[3] – Lc 2, 51.
[4] – Atos 1,1.
[5] – Mt 11,29.
[6] – Jo 17,19.
[7] – 2 Cor 5,20.

Especial Adolph Tanquerey para sacerdotes - Parte II

378. O Código sancionou estas idéias de Pio X, insistindo, mais do que o havia feito a legislação antiga, sobre a necessidade da santidade para o sacerdote e os meios de alcançá-la. Declara sem rodeios que “os clérigos devem levar uma vida interior e exterior mais santa que os leigos, e dar-lhes bom exemplo pela sua virtude e boas-obras”. E acrescenta que os Bispos devem procurar “que todos os clérigos se aproximem frequentemente do sacramento da Penitência, para se purificarem das suas faltas; que consagrem todos os dias certo tempo à oração mental, visite o SS.mo Sacramento, recitem o Terço em honra da Virgem Mãe de Deus, e façam exame de consciência. Todos os três anos, ao menos, devem os sacerdotes seculares fazer um retiro durante o tempo determinado pelo seu Bispo, em uma casa pia ou religiosa; não podem ser dispensados dessa obrigação senão, em algum caso particular, por uma causa grave e com licença explícita do Ordinário. Todos os clérigos, mas sobretudo os sacerdotes são especialmente obrigados a ter para com o seu Ordinário respeito e obediência [1].

Ademais a necessidade que tem o sacerdote de tender à perfeição prova-se: 1.º pela autoridade de N. S. Jesus Cristo e de S. Paulo; 2.º pelo Pontifical; 3.º pela mesma natureza das funções sacerdotais.

I. A doutrina de Jesus e de S. Paulo.

379. 1.º N. S. Jesus Cristo ensina eloqüentemente, tanto pelos seus exemplos como pelas suas palavras, a necessidade de ser santo que tem o sacerdote.

A) Dá o exemplo. Ele, que desde o princípio era cheio de graça e de verdade, “vidimus eum... plenum gratiae et veritatis”, quis submeter-se, na medida do possível , à lei do progresso: “Jesus progredia, diz S. Lucas, em sabedoria, em idade e em graça diante de Deus e dos homens: “proficiebat sapientia et aetate et gratia apud Deum et homines” [2]. E durante trinta anos preparou-se para o seu ministério público pelo exercício da vida oculta com todas as usas conseqüências: oração, mortificação, humildade e obediência. Três palavras resumem trinta anos da vida do Verbo Encarnado: “Erat subditus illis” [3]. Para pregar com mais eficácia as virtudes cristãs, começou as por em prática: “coepit facere et docere” [4]; e tão perfeitamente as exercitou que poderia dizer de todas as virtudes o que disse da mansidão e da humildade: “discite a me, quia mitis sum et humilis corde” [5]. E assim, ao fim ao fim de sua vida, declara com toda a simplicidade que se santifica e sacrifica (a palavra sanctifica tem este duplo sentido). Para que os seus apóstolos e sacerdotes, seus sucessores, se santifiquem em toda a verdade: “Et pro eis ego sanctifico meipsum, ut sint et ipisi sanctificati in veritate” [6]. Ora, o sacerdote é o representante de Jesus Cristo na terra, outro Cristo: “pro Christo ergo legatione fungimur” [7]. Logo também nós devemos tender incessantemente à santidade.
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[1] – Antigo CDC, Can. 124-127.
[2] – Lc 2, 52.
[3] – Lc 2, 51.
[4] – Atos 1,1.
[5] – Mt 11,29.
[6] – Jo 17,19.
[7] – 2 Cor 5,20.

Especial Adolph Tanquerey para sacerdotes - Parte I

1.1. Da obrigação que têem os sacerdotes de tender à perfeição

Extraído do Livro "Compêndio de Teologia Ascética e Mística" de Ad. Tanquerey 1925.

PRIMEIRA PARTE: Os Princípios

Cap. IV. Da obrigação de tender à perfeição

Art. III. PARA OS SACERDOTES

ART. III. Da obrigação que têem os sacerdotes de tender à perfeição [1].


377. Os sacerdotes, em virtude das suas funções e da missão que lhes incumbe de santificar as almas, são obrigados a uma santidade interior mais perfeita que os simples religiosos, que não foram elevados ao sacerdócio. É esta a doutrina expressa de Santo Tomás, confirmada pelos documentos eclesiásticos mais autênticos: “quia per sacrum ordinem aliquis deputatur ad dignissima ministaria, quibus ipsis Christo servitur in sacramento altaris; ad quod requiritur major sanctitas interior, quam requeritat etiam religionis status” [2]. Os Concílios, em particular o de Trento [3], os SS. Pontífices,especialmente Leão XIII [4] e Pio X [5], insistem de tal modo sobre a necessidade da santidade para o sacerdote que negara nossa tese é pôr-se em contradição flagrante com estas autoridades irrefragáveis. Baste-nos relembrar que Pio X, por ocasião do qüinquagésimo aniversário do seu sacerdócio, publicou uma Carta dirigida ao clero católico, em que demonstra a necessidade da santidade para o sacerdote, e indica com precisão os meios necessários para alcançar, meios que, para o dizer de passagem, são precisamente os que inculcamos nos nossos Seminários. Depois de haver descrito a santidade interior (vitae morumque sanctimonia), declara que só esta santidade nos torna tais quais o exige a nossa vocação divina: homens crucificados ao mundo, revestidos do homem novo, que não aspiram senão aos bens celestes e se esforçam por todos os meios possíveis, por inculcar aos outros os mesmos princípios: “ Sanctitas uma nos efficitquales vocatio divina exposcit: homines videlicet mundo crucifixos... homines in novitate vitae ambulantes... qui unice in caelestia tendant et alios eodem adducere omni ope contendant”.
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[1] - Além dos autores citados, cf. ARVISENET, Memoriale vitae sacerdotalis; MOLINA LE CHARTREUX, L' Instruction des prêtres, 2º Traité; J.J OLIER, Traité des SS. Ordres; TRANSON, Exam. Particuliers; DUBOIS, Le saint Prête; CAUSSETTE, Manrèse du Prêtre; GIBBONS, L'ambassadeur du Christ; GIRAUD, Préte et Hostie; MANNING, Le Sacerdoce éternel; MGR. LELONG, Le Prêtre; CARD. MERCIER, La Vie intérieure, 1919, p. 149 - 226. [2] - Sum. Theol., 2. 2. q. 184, a. 8 . [3] - Sess. XXII, de Reform. c. 1. [4] - Enc. Quod muntum, 22 de agost. de 1886; Lettre encycl. Depuis le jour, 8 Sept. 1889. [5] - Exhortatio ad clerum catholicum, 4 de Agosto de 1908. Deve-se ler toda esta Exortação.