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| Ninguém espera a Inquisição Espanhola |
Isso pode ser percebido na página do livro What's So Great About Christianity, de Dinesh D'Souza, ou na página de Reasonable Faith, de William Lane Craig - para citar apenas os mais populares. E ainda que eu não concorde com alguns pontos de D'Souza, seu livro é uma boa leitura e a filosofia oferecida, mesmo não sendo particularmente sofisticada, está muito à frente da filosofia oferecida por Richard Dawkins, que, para ser justo, simplesmente não é filosofia. Mas, apesar disso, a página do livro The God Delusion conta com nada menos que, até o momento, 958 reviews de cinco estrelas (o máximo possível), uma porcentagem que excede assustadoramente o número de reviewsde uma estrela (em mais de 300%) - diferente do que acontece nos livros teístas.
Isso não surpreenderá os teístas familiarizados com debates acadêmicos entre cristãos e neo-ateus, como o protagonizado por Christopher Hitchens e William Lane Craig, ou por Dinesh D'Souza e John Loftus. Porque nesses debates os teístas se saíram, mesmo segundo outros ateístas, muito melhores e mais convincentes, o que não impediu que vários ateus alardeassem a superioridade de Hitchens - e se o leitor quiser exemplos, caso pense que estou atacando um espantalho, basta pedir -, ou que, no caso de Dawkins e Craig no painel de discussão no México, repetissem ataques sobre a fraqueza intelectual de Craig face ao brilhantismo do biólogo britânico - o mesmo que disse que não saber o nome dos livros da Bíblia torna as pessoas menos cristãs, e depois, quando perguntado se poderia dizer o título completo deA Origem das Espécies e responder que sim, não fez nada além de gaguejar.
Mas o melhor exemplo de quão curiosos e não confiáveis podem ser os reviews nas páginas da Amazonvem do caso do livro de Thomas E. Woods, How the Catholic Church Build Western Civilization. Há um usuário que acusa o autor de estar recebendo dinheiro do Vaticano para fazer propaganda positiva da Igreja Católica - de certa forma, uma acusação que também já caiu sobre meus próprios ombros (http://www.caosdinamico.com/2011/09/cinismo-extraterrestre.html), e que temo não ser rara. Outro acusa Woods de falar do bom e esquecer-se do ruim, e então cita o caso Galileu para justificar o ruim. Mas há um capítulo dedicado especialmente ao caso Galileu e à relação da Igreja com a Ciência desde a Idade Média no livro. O que deixa claro que alguns usuários não se deram ao trabalho de sequer ler o livro - algo que também já foi relatado nesse blog, exatamente na postagem sobre Igreja e Ciência, em que um rapaz condena o livro após ter lido sua contracapa (http://www.caosdinamico.com/2011/02/cristianismo-e-ciencia.html).
O que eu quero dizer com tudo isso é que, apesar de importantes, os reviews de uma obra não podem ser mais estimados que a obra em si, e por isso os reviews negativos do livro de Beale não representam um argumento contra ele - e, é válido ressaltar, também há vários reviews favoráveis ao livro. Obviamente, ainda não tive tempo de lê-lo inteiro, mas pude ler o subcapítulo dedicado à Inquisição espanhola, e o que pude observar é que a principal referência usada é o livro de Henry Kamen, considerado a maior autoridade nesse tópico. Portanto, a visão exposta por Beale está, ao menos nesse caso, de acordo com estudos acurados sobre o assunto, e não pode ser acusada de enganosa ou meramente propagandística pelos neo-ateus. Ademais, já que parece estar na moda associar qualquer referência a uma autoridade com a falácia do apelo à autoridade, vou ressaltar que o respeito por Kamen é fruto da sua pesquisa, e não da sua pessoa: ninguém está dizendo que alguma coisa ou fato são verdadeiros por terem sido apresentados por esse autor. (O livro A Inquisição em seu mundo, de Bernardino Gonzaga, contém várias citações da obra de Kamen, e é a melhor referência para aqueles que buscam algo em português).
Em The Irrational Atheist, algumas comparações oferecidas pelo seu autor me pareceram realmente úteis mesmo para aqueles que costumam tratar a Inquisição como algo parecido com o Holocausto, ou por aqueles que a tratam como uma instituição carente de motivos para existir e criada para converter qualquer não cristão ao catolicismo. Vejamos algumas considerações de Beale (The Irrational Atheist, pág. 214):
Ele então explica (pág. 215) a história que começa em 9 de junho do ano 721, com a Batalha de Tolosa, e continua com a reação liderada por reis cristãos em resposta à expansão islâmica sobre a Península Ibérica que acontecia já há um século. Nos 760 anos seguintes, as conquistas dos Omíadas foram revertidas, e culminaram no fim da Reconquista, em 1492:
A Rainha estava particularmente preocupada com os conversos, cristãos que fingiam ter se convertido do judaísmo, mas ainda praticavam sua primeira religião. A preocupação vem do seguinte: se eles estavam mentindo sobre suas conversões, então seria razoável assumir que eles também estavam mentindo sobre sua lealdade à Coroa, e era amplamente temido que os judeus estivessem encorajando líderes islâmicos a recuperar o Al-Andalus - nome dado pelos islâmicos à Península Ibérica -, já que seus antecessores haviam encorajado a invasão original oito séculos antes [3].
Os monarcas espanhóis pediram que o Papa Sisto IV criasse uma ramificação da Inquisição Romana, que reportaria à Coroa Espanhola. Sisto IV negou o pedido, mas após as ameaças de Fernando II, ele emitiu, ainda que relutante, a bula Exigit Sinceras Devotiones Affectus em 1 de novembro de 1478. Em 27 de setembro de 1480 os dois primeiros inquisidores, Miguel de Morillo e Juan de San Martín, foram nomeados. Em 6 de fevereiro de 1481 seis falsos cristãos foram acusados, investigados, condenados e mortos no primeiro auto da fé da Inquisição Espanhola (The Irrational Atheist, pág. 216):
Os turcos então atacaram as cidades de Vieste, Lecce, Taranto, e Brindisi, e destruíram o grande Mostero di San Nicholas di Casole. Beale destaca (págs. 217-19):
Beale ainda comenta que surpreenderá aqueles que acreditam que milhões foram mortos na Inquisição Espanhola que durante os séculos XVI e XVII, menos de três pessoas foram sentenciadas à morte por ano em todo o Império Espanhol, que ia da Espanha à Sicília e Peru [6]. Considerando que em 345 anos menos de 1% dos 125.000 julgamentos da Inquisição Espanhola resultaram em execuções pela autoridade secular, Beale observa que o terrível tribunal foi, em base anual, quatorze vezes menos letal que bicicletas infantis [7]. Fiz uma versão em português do quadro fornecido por Beale, que é bastante prático visualmente.
Tenhamos em mente, em adição a tudo isso, que apenas no Terror Vermelho da Guerra Civil Espanhola, em 1936, foram mortos 6832 clérigos [8], mais de o dobro da Inquisição Espanhola, que durou mais de trezentos anos. Ressaltarei, também, que ninguém está dizendo que os crimes ateístas foram cometidos em nome do ateísmo: essa controvérsia não ganhará espaço nessa postagem, e o que está sendo afirmado é apenas o fato óbvio de que tais crimes foram cometidos por ateus. Também não será discutido o termo utilizado por Beale para se referir aos nazistas - teístas pagãos -, já que o debate seria simplesmente irrelevante ao propósito da postagem. Se o leitor estiver interessado em considerações sobre o "Hitler católico", recomendo a postagem "Supostamente", mas isso é o máximo que posso fazer no momento.
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| The Irrational Atheist, pág. 219. Ver segunda nota completa no original. |
Para quem está familiarizado com o tema da Inquisição e a abordagem de Kamen, a análise de Beale da Inquisição Espanhola não nos revela nenhuma novidade - com exceção da informação sobre os acidentes causados por bicicletas -, mas oferece detalhes que podem ser úteis para a melhor compreensão do contexto e de como os danos causados, se analisados em comparação a episódios anticatólicos ou antirreligiosos em geral, foram praticamente insignificantes. Se os neo-ateus ousarem culpar um cristão pela Inquisição ainda que este nunca tenha passado perto de uma fogueira, essa postagem será útil de duas maneiras: não só o cristão poderá argumentar sobre o quão absurda é a tentativa de responsabilizá-lo por algo que ele sequer viveu, como também poderá aproveitar e mostrar ao acusador que a Inquisição foi uma instituição tão dramática quanto o risco de se machucar na infância. E já que Theodore Beale não é católico, podemos perguntar, ainda, quanto ele deve estar recebendo do Vaticano por fazer propaganda a favor da Igreja... Certo?
Notas do autor:
- Sam Harris, The End of Faith, pág. 79. O outro sendo o Holocausto. Harris está aceitando uma falsa visão das inquisições criada por propagandístas protestantes do século XVI e moldado por romancistas do século XIX. Não há evidência que indique que as formas de tortura descritas por Harris foram realmente usadas pela Inquisição Espanhola, e o mais divertido, um dos três métodos que realmente foram usados pelos inquisidores, a toca, é praticamente idêntico ao uso do "afogamento simulado" que Sam Harris defende. "Eu sou uma das poucas pessoas que eu conheço que argumentou que a tortura pode ser uma necessidade ética na nossa guerra ao terror". Harris, Sam. "In Defense of Torture". The Huffington Post, 17 Outubro 2005.
- A Inquisição Romana ainda existe; o atual Grande Inquisidor é Vossa Eminência William Joseph Levada, um cardeal de Long Beach, California. Mas ele não atende por "Grande Inquisidor", seu verdadeiro título é Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.
- "Continua um fato que os judeus, seja diretamente ou através de seus correligionários na África, encorajaram os maometanos a conquistar a Espanha... As cidades conquistadas de Córdoba, Málaga, Granada, Sevilha e Toledo foram colocadas sob controle de habitantes judeus, que foram armados pelos árabes". The Jewish Encyclopedia (1906). Vol. XI, pág. 485.
- Henry Kamen, The Spanish Inquisition, pág. 189. A maioria dos crimes não era considerada séria o suficiente para justificar a tortura. A incidência da tortura variava dependendo do tribunal, com as taxas mais baixas em Valência, em que metade de 1% daqueles investigados foi torturada; a maior taxa conhecida era de Sevilha, onde 11% sofreram o tratamento.
- "De acordo com o professor Agostino Borromeo, historiador do Catolicismo na Universidade Sapienza, em Roma, e curador do volume de 783 páginas realizado ontem, apenas 1% das 125.000 pessoas investigadas pelos tribunais da Igreja como hereges suspeitos fora executados... O que a Igreja iniciou como um processo estritamente regulado saiu de controle quando outros corpos foram envolvidos". Arie, Sophie. "Historians Say Inquisition Wasn't That Bad". The Guardian, 16 Junho 2004.
- Kamen, Henry, The Spanish Inquisition: A Historical Revision. New Haven: Yale University Press, 1997, pág. 203.
- "Em 2002, 130 crianças de 14 anos ou menos morreram em acidentes de bicicleta. A taxa de dano mortal de bicicletas em crianças de 14 anos ou menos diminuiu 70% de 1987 para 2002". Facts About Injuries To Children Riding Bicycles. Safe Kids Worldwide.
- Julio de la Cueva, "Religious Persecution, Anticlerical Tradition and Revolution: On Atrocities against the Clergy during the Spanish Civil War", Journal of Contemporary History, 3 (1998): págs. 355-369.

