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| Santa Francisca Romana e o Santo Anjo |
É importante alimentar constantemente nossa devoção aos Santos
Anjos senão pouco a pouco iremos perdendo o entusiasmo e o fervor, e até
podemos esquecer de nossos Irmãos celestiais que tanto querem ajudar-nos, mas
só podem fazê-lo na medida em que nós deixamos e pedimos a sua ajuda. Por isso,
queremos nesta Carta apresentar Francisca Romana, uma santa que recebeu de Deus
a graça prodigiosa de ser acompanhada por três Anjos diferentes durante a sua
vida. Eles a guiaram, iluminaram, consolaram, mas também, corrigiram e exigiram
penitência de suas faltas. Nela encontramos o exemplo de uma vida de intimidade
muito grande com os Santos Anjos (este texto foi baseado no livro Vereint
mit den Engeln und Heilegen de Ferdinand Holböck, Stein am Rhein, 1984,
pág. 302 ss).
A ESCOLHA DA VIDA:
FAÇA-SE A VOSSA VONTADE, SENHOR
Santa Francisca nasceu em Roma no ano 1384, descendente da
distinta família “De Busci”. Era uma época turbulenta, pois havia um cisma na
Igreja e uma grande confusão no ocidente. A Cidade Santa encontrava-se em ruínas. No foro romano
transitavam vacas e a Basílica de São Paulo servia de estábulo aos pastores
para seus rebanhos. No entanto, Deus compadeceu-se da miséria daquela época, e
concedeu ao povo o consolo de Sua assistência através do surgimento de grandes
figuras santas, entre elas, Francisca Romana.
Francisca nutria o desejo ardente de entrar na vida religiosa,
mas os planos de seus pais eram bem diferentes. Desejavam para ela o matrimônio
e toda resistência de sua parte não resultou em nada; por fim, ela aceitou
esses planos obedecendo ao conselho de seu confessor. Já aos doze anos estava
casada com Lorenzo de Ponziani, um homem rico e nobre que a amava muito.
Junto com ela, no palácio, vivia sua cunhada Vanozza, que
encontrando-a uma vez chorando amargamente, perguntou o motivo dessas lágrimas,
e esta confessou seu enorme desejo de viver num convento. Descobriram, então,
que ambas tiveram a mesma sorte: Vanozza também quis entrar num mosteiro, mas
fora obrigada a casar-se. A partir de então começou uma grande amizade entre
elas, amizade esta que durou 36 anos. Juntas rezaram, jejuaram e fizeram obras
de caridade. Como havia uma sala em desuso no palácio, elas a transformaram em
uma capela de oração, onde dedicavam várias horas noturnas em prolongadas
orações.
Três anos depois do casamento, Francisca adoeceu gravemente. Já
se temia a morte da jovem esposa, quando então, apareceu-lhe santo Aleixo que,
colocando o seu manto cor de ouro ao redor dela, disse: “Terás a vida, pois o
Senhor quer que ainda fiques no mundo para a glória de Seu nome”. No mesmo
instante ficou curada. Isso aconteceu no ano 1399.
O PRIMEIRO ANJO - GUIA NO
CAMINHO DA PURIFICAÇÃO
Foi nesse mesmo ano que Francisca recebeu um Anjo do nono coro.
Ele não era visível para ela mas ficava constantemente a seu lado e ela podia
perceber sua presença por meio de sinais bem claros. Esse Anjo foi um grande
amigo e conselheiro, mas também, um severo admoestador que a castigava até
sensivelmente quando cometia pequenas faltas; vigiava todos seus pensamentos,
palavras e obras, guiando-a dessa forma no caminho da santidade. Quando ela,
por exemplo, uma vez não interrompeu uma conversa muito superficial devido ao respeito
humano, o Anjo lhe deu uma bofetada tão forte que em toda sala ouviu-se o
barulho e, por muito tempo, podiam-se ver os sinais que esta bofetada lhe
deixou em seu rosto.
O auxílio do Anjo para
assumir as obrigações de seu estado de vida
No que diz respeito ao seu matrimônio o Anjo ajudou-a a
encontrar as atitudes e os valores positivos desse estado de vida, de maneira
que ela começou a viver essa união sacramental muito conscientemente. Assim,
também ajudou-a a cumprir os deveres de uma dona-de-casa, aliás, de uma das
casas mais ricas de Roma, mostrando-lhe que isso não era perda de tempo, mas,
dever de estado. E quando, pela primeira vez, deu à luz um filho, a quem chamou
de Batista, foi o Anjo que a fez deixar as severas mortificações por amor a seu
filho. Ela recebeu também uma forte iluminação interior que a tornou capaz de
compreender o quanto vale diante de Deus, como verdadeira oração, quando se
cumpre com amor os deveres de mãe e da educação dos filhos.
Esses fatos nos mostram que este Anjo tinha a tarefa de cuidar
da purificação de Francisca. Mostra também como os nossos deveres de estado e
nossas tarefas cotidianas fazem parte dessa purificação, e como o seu
cumprimento tem preferência diante das mortificações particulares. Em primeiro
lugar, a nossa penitência é o cumprimento de nossos deveres, é o amor fraterno,
o amor aos nossos irmãos e aos nossos filhos, é o trabalho que devemos
realizar. E, como fundamento de tudo isso, o Anjo conduziu-a a aceitar
totalmente o seu estado de vida. Com certeza, foi um passo duro para ela deixar
aquele ardente desejo de vida religiosa que sempre tinha aspirado. Mas, já
estava incluído nos planos de Deus esse outro estado de vida, na missão que Ele
tinha para ela.
É interessante notar que ela nunca pôde ver esse Anjo, enquanto
os outros dois companheiros celestiais ficaram visivelmente a seu lado. Isso
indica que ela ainda precisava crescer na fé. “A fé é a certeza daquilo que não
se vê” define a Carta aos Hebreus esta virtude teologal (11,1), em que se baseia
toda a nossa relação com Deus, pois, “é impossível agradar a Deus sem ter fé”
(Heb 11,6).
Devemos também ter uma fé
viva em nosso Anjo
Por isso, o Anjo quer em primeiro lugar fortificar a nossa fé,
pois um ato de fé vale mais diante de Deus do que muitas aparições. Queremos,
portanto, manter firme a nossa fé, não somente em Deus, mas também no Anjo.
Devemos acreditar nele, na sua presença ao nosso lado, na sua força e poder que
recebe de Deus para proteger-nos e que ele quer comunicar a nós; sim, ele deseja
um contato íntimo com a nossa alma que é a sua grande amiga.
Nós devemos exprimir essa fé em palavras, orações, atos e
agradecimentos. Quanto mais viva e firme for a nossa fé tanto mais íntima será
a nossa relação com o Anjo. Poderíamos dizer também que esse Anjo ajudou
Francisca a viver de forma exemplar os seus compromissos batismais que é
expressão de nossa fé.
O SEGUNDO ANJO – GUIA NO
CAMINHO DA ILUMINAÇÃO
No ano 1413, quando Francisca uma vez estava rezando na capela,
apareceu-lhe Evangelista, seu filho muito querido que já havia falecido. Ao
lado dele estava um rapaz que parecia ter a mesma idade e o mesmo tamanho, mas
que era muito mais belo. “És realmente tu, filho do meu coração?” perguntou a
santa, ao que respondeu o filho: “Mãe, saiba que estou no segundo coro da
primeira hierarquia, entre os Arcanjos, junto com este companheiro, que vedes
ao meu lado e que é muito mais belo do que eu. Este espírito celeste é enviado
à senhora, para consolá-la na peregrinação terrestre. Dia e noite o verás ao teu
lado e ele te assistirá em tudo”.
Durante os próximos 24 anos este Arcanjo acompanhou-a dia e
noite, e seu rosto brilhava tão fortemente que a santa não podia contemplá-lo.
Somente quando se encontrava em oração, na luta contra os demônios, ou no colóquio
com o confessor, ela então podia ver o seu rosto. Na luz desse Anjo foi
possível para ela até ler e trabalhar durante a noite. O Anjo serviu-lhe também
de espelho no qual ela podia ver sua pequenez.
Quando vacilava na confiança em Deus, ou se deixava oprimir
pelas preocupações, ou cometia faltas, imediatamente perdia esse contato
visível com o Arcanjo. Mas, ao arrepender-se pedindo perdão a Deus, novamente
podia vê-lo, ainda mais belo e feliz, de maneira que recuperava novamente a paz
interior. Em caso de dúvida, ou medo, um olhar benevolente do companheiro
celeste bastava para dissipá-los.
O conhecimento dos
pensamentos dos corações
Na luz que saía desse Anjo, Francisca conhecia os pensamentos
mais íntimos dos corações dos homens e sabia o estado de sua alma. Recebeu
também o discernimento dos espíritos. Sem dúvida, essas graças foram de muito
proveito ao dar conselhos às pessoas e ao reconduzir os pecadores desviados.
Seus conselhos ficaram de tal forma conhecidos que era procurada também pelos
teólogos e doutores daquela época.
“Dia e noite o verás ao
teu lado e ele te assistirá em tudo”
Em 1414 Francisca ficou contaminada ao cuidar dos doentes de
peste. Foi então que quase todos os amigos a abandonaram, enquanto o Arcanjo
ficou a seu lado, tornando-se desse modo uma fonte de consolo na miséria. Ainda
doente, uma vez entrou em êxtase e lhe foi mostrado como, após a morte, o Anjo
da Guarda de uma pessoa apresenta todas as suas boas obras diante de Deus.
Poucos dias após essa visão foi repentinamente curada.
Os dons de Francisca não puderam ficar escondidos. Sempre mais
era solicitada quando havia brigas ou quando cônjuges queriam separar-se. Um
olhar para o Arcanjo bastava para ela conhecer os pensamentos de vingança, de
raiva no coração ou outros pecados que causavam divisões. E a presença dela,
acompanhada de suas palavras, tinha uma força tão grande que ninguém conseguia
resistir aos seus conselhos.
Somente uma coisa temo:
ofender a Deus
Santa Francisca também foi introduzida na luta contra os poderes
do mal. Os conselhos, e até profecias, as curas, milagres e exorcismos tinham
seu preço. Esse preço ela pagou lutando com os demônios, que também podia ver
da mesma forma que o Arcanjo; este, muitas vezes, colocou-se entre ela e os
demônios, afastando-lhe muitos golpes. Quando movimentava seus cabelos
dourados, saíam raios de luz e os demônios se afastavam. Contudo, isso não quer
dizer que ela não teve de lutar. Muitas vezes o Arcanjo permitiu uma longa luta
antes de intervir. Aconteceu também que esses inimigos infernais procuraram
lançar-se sobre Francisca em formas horrorosas de animais. Entretanto, o Anjo a
envolveu em luz radiante e ela ficou invisível para os inimigos. Sempre
encontrava consolo ao olhar para o seu companheiro celeste. Isso enfurecia
ainda mais os demônios que, então, lançavam areia contra ela causando-lhe
grandes dores. Ela, porém, corajosamente protestava contra esses atacantes: “Eu
não vos temo! Uma só coisa eu temo: ofender a Deus. Vós somente podeis fazer o
que Ele vos permite, e Ele permite tão somente o que serve para a Sua glória e
a minha salvação”.
Certa vez aconteceu que, enquanto segurava seu neto nos braços,
de repente, recebeu um forte golpe dum demônio que queria vingar-se por causa
da conversão de sua nora que se deveu principalmente à santa. O golpe foi tão
duro que também a criança começou a chorar. Ela então fez o sinal da cruz na
testa, pronunciou o nome de Jesus e começou a recitar o início do Evangelho de
São João. Mas, como o demônio não queria afastar-se, o Arcanjo deixou seu lugar
à direita de Francisca, tomou o menino nos braços, e colocou-o suavemente no
berço. Com seus cabelos, que brilhavam como ouro, formou uma cortina que
protegeu o menino de novos ataques. Aí então o inimigo afastou-se. Todos os
presentes foram testemunhas de como o menino voltou para o berço, parecendo
pairar no ar, pois não podiam ver o Anjo.
Esse Anjo ajudava não somente a Francisca, mas todas pessoas ao
seu redor. O conhecimento das almas, o dom do bom conselho, e muitas graças que
ela recebeu desse Anjo não eram para ela, mas sim, para poder mais eficazmente
ajudar a outros. Vendo tudo isso, temos a impressão de que esse Anjo ajudou a
santa a viver conseqüentemente o sacramento do Crisma, no qual somos ungidos
para espalhar e lutar pelo Reino de Deus aqui na terra.
No ano 1425 Francisca fundou a Ordem das “Oblatas de Maria”. Em
1433, doze companheiras começaram a vida comunitária, enquanto a santa
fundadora ficou ainda por três anos cuidando de seu marido. Quando este faleceu
em 1437, realizou-se o desejo de seu coração: ingressou na comunidade no dia 25
de março do mesmo ano e, por ordem de seu Anjo, ela aceitou o encargo de
superiora. Nesse mesmo dia o seu fiel companheiro despediu-se dela com um
amoroso sorriso.
O TERCEIRO ANJO – AUXÍLIO
PARA A UNIÃO COM DEUS
Então, o Senhor mandou-lhe um outro companheiro, ainda muito
mais belo e poderoso, que trazia uma veste branca de diácono, ricamente
enfeitada. Durante os últimos três anos de sua vida este Anjo ficou com ela.
Foi notável a sua força; bastava a sua presença e os demônios
fugiam. Na mão esquerda ele segurava três ramos de uma palmeira, dos quais
saíam fios dourados que punha em ordem num trabalho misterioso e constante,
noite e dia, sem interrupção. Uma vez apareceu São Bento e explicou que o ouro
significava o amor a Deus e ao próximo com o qual Francisca deveria dirigir as
suas filhas. As palmas significavam que ela deveria agir com coragem e sem
falso respeito humano, enquanto o trabalho constante e regular do Anjo
significava que ela deveria cuidar constantemente da ordem e do progresso de
sua comunidade.
Incessantemente o Anjo estava a trabalhar com esses fios, exceto
quando Francisca admoestava suas filhas, quando rezava o credo, ou o ofício de
Nossa Senhora. Só então o Anjo parava, escutando ou rezando, e adorando com
ela. Quando ele rezava uma coluna luminosa erguia-se de sua cabeça até o céu.
No dia 3 de março de 1440 foi chamada para a casa dos seus para
tratar do filho Batista que adoecera gravemente. A santa ficou vigiando ao seu
lado até à tarde. Quis, então, voltar para o mosteiro, mas as forças a
abandonaram e ela voltou para o palácio de sua família, tremendo de febre e,
ainda, com uma pleurisia. Nesses dias ela afirmou: “Não vejo mais os demônios.
Deus é Vencedor. O inimigo foi vencido e lançado no abismo!” O Anjo permaneceu
constantemente ao seu lado e tornou-se cada vez mais radiante.
No dia 9 de março de 1440 ela rezou: “Entrego o meu corpo, meu
espírito, minha vida nas Vossas mãos, Senhor Jesus!” E expirou com as palavras:
“Os céus estão abertos. O Anjo completou sua obra. Ele está na minha frente e
cordialmente faz-me um sinal para segui-lo”.
Vemos nesse terceiro Anjo um auxiliador para uma vida mais
retirada. Seu trabalho incessante significa que de nossas boas obras o Anjo nos
faz uma veste para o céu. E também: quanto mais estamos unidos com o Senhor,
tanto mais força o Anjo tem na luta contra o poder das trevas, e ainda, que o
próprio Deus envia um Anjo mais forte àqueles que mantêm um contato mais íntimo
com Ele.
Por isso, peçamos a ajuda desse Anjo quando nos aproximamos da
mesa do Senhor – momento em que se realiza concretamente em nossa vida a união
mais profunda entre Deus e nossa alma, entre nosso Salvador e nós, por meio da
Santíssima Eucaristia. As nossas vestes para o banquete celeste serão tanto
mais esplêndidas quanto mais amorosamente nos unirmos ao nosso Bom Senhor na
sagrada comunhão. E não é isso também a tarefa mais nobre de nosso Anjo:
unir-nos sempre mais com o Deus de Amor que nos espera em cada Santa Missa ,
que renova cada vez conosco a Sua aliança?




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