Série: Os Jesuítas na América latina III

Os Jesuítas na América latina

Por Prof. Carlos Ramalhete 


A América Portuguesa


Na América Portuguesa a situação foi bastante diferente. Nas terras cuja evangelização foi confiada aos portugueses, a leste das Tordesilhas, não haviam nenhuma civilização avançada. Centenas de tribos indígenas primitivíssimas, inimigas umas das outras, digladiavam-se e entregavam-se ao canibalismo. Nestas circunstâncias, não havia evidentemente um governo central ao qual a chegada dos portugueses fosse noticiada, não houve tropas enviadas do interior para a costa, não houve, em suma, nenhum motivo para uma rápida penetração além da costa. Somando-se ainda o fato de Portugal ser um país pequeno, já engajado em colonização e comércio costeiros com enorme parcela da África e do Sul da Ásia o que fazia com que os recursos humanos portugueses já estivessem esticados ao limite é fácil perceber a razão por que a colonização portuguesa inicialmente restringiu-se a uma estreitíssima faixa costeira. Até a chegada dos primeiros missionários jesuítas, havia apenas dois franciscanos em Porto Seguro, chegados em 1516, e outros dois em São Vicente (litoral paulista), chegados em 1530.

Com a chegada dos jesuítas à obra da evangelização americana, porém, esta situação se modificou em grande parcela. Levados pelo desejo de evangelizar os índios, livrando-os do canibalismo e de similares costumes bárbaros, os jesuítas rapidamente encetaram fascinante obra de evangelização dos territórios em domínio português. Foram eles os primeiros a avançar a pé pelo litoral, buscando evangelizar as tribos indígenas e inculturar para aqueles povos a mensagem do Salvador. Devemos aos jesuítas a fundação e o estabelecimento não só de grande parcela da povoação costeira no Brasil, como a costa capixaba, como também a fundação de São Paulo, o primeiro estabelecimento ocidental no interior brasileiro. Desta vila, porém, em amarga ironia, viriam mais tarde ataques assassinos contra as futuras reduções jesuítas no Paraguai.

No Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1549, no dia de Santo Inácio (1o de fevereiro) partiu de Lisboa a primeira missão jesuíta portuguesa para a terra do Brasil. Seis eram os jesuítas que nela vieram, incluindo o superior, Pe. Manuel da Nóbrega. No ano seguinte seis mais padres vieram. Sendo tal número de padres insuficiente para tão vasto território, foram enviados em 1553 mais dois padres e quatro irmãos, dentre eles o Bem Aventurado José de Anchieta (1534-1597), o mais novo da expedição.

Contrariamente ao que ocorria nas terras espanholas, a evangelização do Brasil começou principalmente com os jesuítas. Apesar de terem os reis de Portugal direito também de Padroado, só muito indiretamente era este direito exercido; não foram por estes reis nomeados vice-reis que pudessem exercê-lo, o que fazia com que fossem necessárias ordens vindas da Europa (viagem de meses de barco em cada sentido) para a ereção canônica de uma paróquia. Assim, continuou o Brasil por muito tempo a ser território de Missão. Até 1676 a única diocese em território brasileiro era a da Bahia, fundada em 1551.



A penetração do território português


Em aberta desobediência às determinações da Igreja, era costume entre os portugueses a escravização de indígenas. Somando-se este mau e criminoso hábito às tremendas guerras movidas pelos colonizadores e às doenças provocadas nos índios pelo contato com os brancos, houve rapidamente grande diminuição da povoação indígena no território brasileiro. As tribos do sertão foram exterminadas quando do início da criação de gado na região, com os colonos acusando os nativos de roubar-lhes o gado. Poucas foram as zonas em que a colonização portuguesa foi feita em paz com os índios. Um exemplo é a colonização do Ceará, que nos primeiros anos do século XVII foi pacificado sem morticínios por um jovem capitão, Martim Soares Moreno, acompanhado por apenas cinco soldados e um capelão.

A regra nas terras sob domínio português era a barbárie aberta contra os índios. Contra isso levantaram-se logo os jesuítas, o que lhes causou não poucos problemas. O Pe. António Vieira (1608-1697), nascido em Lisboa mas criado no Brasil desde tenra idade, ao voltar em 1653 de sua formação em Portugal (onde chegou a ser confessor do Rei D. João IV) e ver a situação dos índios no Maranhão e no Pará, causou furor ao dizer com todas as letras aos portugueses que estavam todos em pecado mortal e iriam diretamente para o Inferno.

Quando voltou a Portugal exigiu do Rei que fossem protegidos os índios, conseguindo então em 1655 nova legislação coibindo os fortíssimos abusos cometidos contra estes povos. Com este poderoso auxílio, foi possível para os jesuítas evangelizar e aldear em 54 reduções cerca de duzentos mil índios. O próprio Pe. Antônio Vieira conseguiu pacificar, pela prédica sincera da Palavra, quarenta mil nativos da Ilha de Marajó. Os nativos eram aldeados e dedicavam-se, sob a tutela espiritual dos bons padres jesuítas, à criação de gado. Cedo, porém, a riqueza em gado e em terras dos índios provocou a inveja dos colonos portugueses, que viam seus antigos escravos em situação melhor que a deles próprios. Em 1661, os jesuítas (inclusive Pe. Antônio Vieira) foram expulsos do Maranhão e tiveram que voltar a Portugal. Cedendo aos colonos, o Rei permitiu que os índios fossem distribuídos para o serviço dos colonos. Apenas dezessete anos mais tarde, em 1680, conseguiu Pe. Antônio Vieira do novo Rei, D. Pedro II, nova legislação concedendo a terra aos índios "como senhores originais e naturais dela".

Em 1684, contudo, estourou nova revolta. Os colonos maranhenses, encabeçados por Manoel Beckman (o "Bequimão") e Jorge Sampaio, conseguiram novamente expulsar os jesuítas. Depois de debelada a rebelião e devidamente punidos (com a pena de morte) os líderes desta insurreição escravagista, os jesuítas viram-se contudo forçados a ceder parcialmente e permitir que os índios trabalhassem para os colonos seis meses por ano. Infelizmente foram também autorizadas expedições armadas para o interior, que na prática nada mais eram que expedições em busca de escravos em tempo integral.

Pe. Antônio Vieira foi também o responsável pela redação do Regimento das Missões, o regulamento que foi desde 1686 a regra a ser seguida pelos missionários, que passaram a buscar a evangelização e aldeamento dos índios nos seus lugares de origem, mantendo-os longe dos colonos. Quando chegaram outras congregações missionários, foi também por elas adotado este Regimento. A imensa maioria das cidades mais antigas do Norte brasileiro começou como aldeamento jesuíta.

É impressionante notar a relação direta entre a atividade missionários jesuíta e a formação étnica das regiões brasileiras. Nas regiões onde o contato inicial foi feito pelos jesuítas e por eles mantido (ou ao menos segundo o Regimento jesuítico), a imensíssima maioria da população é de origem étnica indígena; nas regiões onde os jesuítas chegaram após os colonizadores brancos, a população é mestiça de índio e branco; onde os jesuítas foram expulsos cedo, ou onde não houve presença jesuíta, a população indígena foi praticamente dizimada.

O mesmo pode ser dito acerca das regiões espanholas em que as tribos indígenas não estavam organizadas. Enquanto nas áreas sob domínio Inca e Asteca foi possível aos espanhóis a manutenção de uma estrutura hierárquica local, reformada para ser posta a serviço da Coroa espanhola, nas áreas anteriormente ocupadas por índios selvagens só persiste um largo componente étnico ameríndio nas regiões cuja evangelização foi feita pelos jesuítas. No Paraguai, território de responsabilidade quase exclusiva dos jesuítas, não apenas foi mantida ilesa a população nativa, como sua língua nativa é até hoje a língua comum.

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