Por Leandro Mariani | Tradução: Paula Torrini
E se, contrariamente
ao estabelecido pela onda midiática, os obstáculos mais árduos à ação do novo
Pontífice não surgissem na cúria romana, mas no resto do Orbe católico? Certo,
é muito fácil assumir a resistência da burocracia vaticana a qualquer tipo de
reforma que lança dúvidas sobre a conservação. Mais quantas burocracias
similares se encontram no resto do mundo eclesial? Basta imaginar, mesmo só
aproximadamente, quantas são as Conferências Episcopais nacionais e regionais
que há décadas vivem uma vida própria ou quase isso, como se Roma não
existisse.
A burocracia é sempre um monstro para qualquer inovador. Imaginemos quando há
centenas de exemplares que passaram a funcionar em sentido inverso ao modo original.
Concebidas e criadas como uma correia de transmissão do governo romano nas mais
diversas regiões, as Conferências Episcopais se transformaram em organismos que
se permitem pôr Roma em votação. Na verdade, literalmente, se permitem colocar
em questão o que foi estabelecido por Roma. E não falo de uma Conferência
qualquer perdida em alguma região equatorial
Basta pensar na
Conferência Episcopal Italiana, a única que não tem um presidente eleito pelos
próprios membros, mas nomeado diretamente pelo Papa. Uma segurança, se poderia dizer. No entanto, há não
muito tempo, em 2010, a
CEI colocou em votação a Instrução da Congregação para o Culto Divino que, pro
indicação do Papa, solicitava que nos missais nacionais fosse substituída a
tradução “por todos” para a mais correta “por muitos” na fórmula da consagração
do Sangue de Nosso Senhor onde o texto latino recita “pro multis”. Resultado:
de 187 votantes, só 11 se expressaram a favor daquilo que foi solicitado pelo
Papa.
Além do mérito,
evidentemente gravíssimo, tendo em vista o que deverá fazer o novo Pontífice,
não se pode calar o método. E se tal método é adotado na Itália em uma matéria tão delicada como a
fórmula da consagração das espécies eucarísticas, é de se pensar o que pode
acontecer no resto do mundo em outras questões, a começar pelas morais. Há
pouco mais de um mês foi noticiado que a Conferência Episcopal Alemã, presidida
pelo Mons. Robert Zoellitsch, expressou parecer favorável ao uso da chamada
pílula do dia seguinte por mulheres que o requeiram após terem sido vítimas de
uma violência.
Mas a resistência a
qual deverá fazer frente uma eventual ação do novo Pontífice não se refere
somente as matérias dos casos singulares, mas à origem de tal atitude. Hoje as Conferências Episcopais se transformaram em
organismos que visam sua própria sobrevivência exprimindo à maioria uma linha
da qual não é possível desviar e usurpando os bispos isolados da autonomia que
sempre caracterizou suas ações. Subtraída, de fato, a relação com Roma, um
bispo acaba por adaptar-se à linha decidida em plenária ou em qualquer comissão
da qual talvez nem mesmo conheça a existência ou o funcionamento. Tudo isto,
longe de ser um instrumento que apóia e reforça a ação do Papa, mostra-se
sempre mais um obstáculo ao efetivo governo da Igreja.
O fato que Francisco I insista na sua qualidade de bispo
de Roma poderá talvez ajudá-lo nas relações com a Conferência Episcopal Italiana,
da qual deve nomear o presidente. Mas é de se perguntar se enfatizar este
aspecto não o colocaria em uma dificuldade ainda maior em relação às outras
Conferências Episcopais. A menos que, em nome e por conta da pobreza
franciscana que parece ter subitamente conquistado um consenso unânime dentro e
fora da Igreja, as Conferências aceitem se auto-desmantelar e economizar no
custo dos tantos escritórios que mantêm. Mas chegará a tanto o carisma do Papa
Francisco?
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