Série: Os Jesuítas na América latina II


Os Jesuítas na América latina

Por Prof. Carlos Ramalhete

A questão ética

Quando foram descobertas as novas terras das Américas, os Reis de Espanha e Portugal receberam permissão papal para evangelizar estes territórios. Os soldados que haviam sido enviados, porém, por mais religiosos que fossem, não eram de modo algum a elite moral da sociedade ibérica. Eram bandidos anistiados, eram aventureiros em busca de fortuna, eram, em suma, a escória da sociedade.

Dois foram os modos de exploração econômica e evangelização das novas terras. Portugal manteve-se na costa, buscando primordialmente o comércio com as tribos nativas. A Espanha, que encontrou quase imediatamente grandes impérios, procurou dominá-los e submetê-los à Coroa. O raciocínio que foi empregado para justificar esta dominação era multiforme. Por um lado, os nativos deveriam ser evangelizados, o que fazia com que fosse necessário manter uma presença forte na terra nova para garantir a segurança dos missionários. Por outro, os nativos tinham hábitos que provocavam nos espanhóis uma justa indignação, como o sacrifício humano. Assim, fazia-se necessário intervir violentamente para fazer cessar estes sacrifícios, que atingiam a casa das dezenas de milhares de pessoas por ano. Ao mesmo tempo, a cobiça dos soldados fazia com que estas razões, que por si seriam justas em algumas circunstâncias, fossem freqüentemente invocadas sem razão.

O Rei da Espanha estabeleceu então um sistema de comendas, que deveria assegurar ao mesmo tempo os interesses financeiros dos espanhóis e o bem-estar dos índios. Os índios seriam empregados pelos espanhóis, a força se preciso fosse, mas sendo sempre pagos, alimentados e educados por seus patrões. A escravização deles não seria permitida. Em breve, porém, os supostos “empregos” tornaram-se mais e mais semelhantes a condições de real escravidão, o que provocou a justa indignação do Bispo de Chiapas, D. Bartolomeu de Las Casas, OP, que chegou a excomungar os maus patrões.

A questão do modo como estavam sendo tratados os índios chegou então às Universidades espanholas, centro do pensamento moral e teológico da época. Vivas questões foram suscitadas acerca do tratamento dado aos índios. Os professores que eram ligados à Corte ou que de alguma maneira tinham ligação com as forças colonizadoras procuravam minimizar a gravidade dos crimes. Os teólogos mais independentes, como Francisco de Vitória e Molina, aplicavam de maneira mais justa a Teologia Moral no tocante a estes casos.

A importância destes debates não pode ser hoje menosprezada, assim como não podemos deixar de perceber a enorme importância e gravidade de que era revestida a excomunhão ministrada por D. Bartolomeu, ou uma simples definição de que tal ou tal ação constitui pecado mortal. Mesmo os mais gananciosos e empedernidos criminosos apavoravam-se com a simples idéia de serem excomungados.

As possessões espanholas eram governada por vice-reis, que detinham prerrogativas de Padroado; a eles competia nomear bispos e instalar dioceses e paróquias. O clero que acompanhava estes vice-reis e era posto sob sua tutela direta pertencia predominantemente às ordens mendicantes (franciscanos e dominicanos). Os jesuítas, porém, operavam de maneira bastante diferente. A Companhia de Jesus operava sob as ordens diretas do Papa, não estando portanto sujeita à tutela direta dos vice-reis espanhóis. Os jesuítas eram aceitos de bom grado pelos espanhóis, mas não faziam parte do sistema. Ainda que obedecendo às determinações legais de colocar os índios sob a suserania do Rei de Espanha, eles não procuraram em momento algum mesclar as populações indígenas às populações espanholas, como havia sido e era ainda feito pelo clero diretamente às ordens dos vice-reis.

Tendo percebido os horrores advindos do sistema de comendas e da exploração da mão-de-obra indígena por parte dos colonos espanhóis, os jesuítas preferiram agir em prol dos índios. A entrada de espanhóis nas reduções jesuíticas só podia ocorrer em circunstâncias especiais, requerendo permissão. Os índios não eram entregues aos colonos, nem tampouco o eram as terras indígenas.

Neste contexto histórico, é fácil perceber tanto a importância do trabalho dos jesuítas quanto as dificuldades por eles enfrentadas.
A América Espanhola

Quando os espanhóis chegaram às Américas continentais, eles encontraram civilizações relativamente avançadas, de alto nível de organização: os Astecas e os Incas. Para os padrões europeus, ambas eram extremamente primitivas em termos tecnológicos; a tração animal era-lhes desconhecida, assim como não conheciam nem as armas de fogo nem o ferro, fundamental para a construção das armaduras que tornavam os espanhóis virtualmente imunes às flechas e espadas de obsidiana dos nativos.

Aproveitando-se das rivalidades tribais, os conquistadores espanhóis lograram subjugar, em tremenda inferioridade de números, os numerosíssimos e aguerridos exércitos idólatras. Em sua justa indignação, causada pelo horrendo espetáculo dos morticínios rituais astecas, os conquistadores desfizeram em grande medida as instituições e a hierarquia social presente antes de sua chegada. Esta organização, porém, não tinha uma história muito longa. Os povos do México haviam sido subjugados pelos astecas há relativamente pouco tempo, e o domínio asteca não estava demasiadamente imbricado no tecido social. Cada povo não-asteca ainda tinha seus próprios reis e príncipes, que pagavam aos astecas impostos em homens e mulheres a serem sacrificados aos ídolos. 

Havia porém uma sociedade organizada, de tal forma que a chegada dos espanhóis às praias rapidamente chegavam aos ouvidos dos governantes no altiplano. Isso forçou um confronto maior e levou a uma rápida penetração espanhola em território asteca. Esta penetração, seguida por sucessivas vitórias militares com o auxílio dos povos subjugados pelos astecas, incentivados pelos espanhóis a levantar-se contra seus opressores, fez com que uma governança espanhola fosse logo estabelecida. 

Devido ao direito de Padroado de que gozavam os reis de Espanha, foram imediatamente estabelecidas circunscrições não apenas administrativas civis e militares, mas também religiosas. As dioceses eram estabelecidas à medida que o era o governo civil. Enviados em autoridade pelo governo espanhol, os vice-reis tinham o poder de estabelecer novas dioceses e paróquias, facilitando tremendamente o trabalho de evangelização.

Quando da chegada espanhola na costa oeste sul-americana, foi igualmente encontrada uma civilização de grande complexidade administrativa. Assim, a chegada dos primeiros espanhóis foi imediatamente levada ao conhecimento dos Incas em Cuzco, nas altas montanhas andinas. Enviados espanhóis foram imediatamente buscar a conversão dos príncipes, sendo recebidos com injúrias e desprezo. Os espanhóis então atacaram com força. Movidos igualmente pelo desejo de reparar o ultraje a Nosso Senhor e pelo desejo do ouro, farto naquelas terras, imediatamente encetaram a conquista dos territórios dominados pelos Incas, destruindo assim o outro grande Império latino-americano pré-colombiano.

Neste primeiro contato com as civilizações mais avançadas das Américas, cabe lembrar, ainda não estavam presentes os jesuítas. As primeiras excursões espanholas tiveram como seus capelães principalmente franciscanos e, em menor quantidade, dominicanos.




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