A psicologia anticristã, anti-humanista e pós-moral de F. Nietzche e sua influência na psicanálise (II)

Não obstante, como uma coisa não tão importante, se seguiu falando de alma, porém, além de posturas de condutas extremas, ou de algumas formas de monismo materialista psicobiologista. O mesmo Freud, contrariamente ao que se pode pensar, fez amplo uso tanto do termo alma (Seele), como também de espírito (Geist). A psicoterapia, segundo o professor de Viena, indica a alma no sentido estrito, é a cura da alma, ou eventualmente também do corpo, mas desde a alma.

Psiqué é uma palavra grega que em nossa língua significa alma[5]. Portanto, o “tratamento psíquico” [“psicoterapia”] há de chamar-se tratamento da alma. Poder-se-ia supor que se entende como tal o tratamento das manifestações mórbidas da vida anímica, mas não é esse o significado do termo. “Tratamento psíquico” denota melhor o tratamento a partir da alma, um tratamento – dos transtornos anímicos tanto como corporais - com métodos que atuam direta e imediatamente sobre o anímico do ser humano[6].

Todavia, afirma Freud, a psicologia, uma de cujas partes (seu fundamento, disse em outra obra sua[7]) é a psicanálise, é a ciência da alma: “A psicanálise é uma parte da ciência sobre a alma, da psicologia. Também a chama-se ‘psicologia do profundo’[8].” A psicanálise busca ser, não uma simples descrição experimental dos fenômenos psíquicos, mas sim “uma teoria abarcadora e coerente da vida anímica[9]”. Em psicanálise, como é sabido, o anímico é o inconsciente:

Não; a condição de consciente não pode ser a essência do psíquico, é somente uma qualidade sua, e por acréscimo uma qualidade inconstante, mas menos ausente que presente. O psíquico em si, qualquer que seja sua natureza das quais temos tomado notícia[10].

Neste postulado se encontra implícito o fundamento não humanista da psicanálise de Freud. Não basta pois falar de alma para que a postura psicológica possa ser qualificada de humanista ou de “personalista”, senão que é fundamental qual interpretação se dá da mesma. De fato, a postura de Freud dificilmente possa ser considerada uma forma de humanismo, nem sequer de humanismo ateu, pois Freud desconfia radicalmente das possibilidades de melhora do homem[11].

E antes que Freud, Nietzsche havia considerado útil aos fins da transvalorização conservar o milenário conceito de alma, mas reinterpretado, como instrumento fundamental para uma transformação cultural.


[5] N.d.T.: Tanto na língua espanhola, que é a original, como na nossa versão traaduzida para o português.
[6] S. Freud, "Psicoterapia (Tratamiento por el espíritu)", em Obras, vol. 1, Biblioteca Nueva, Madrid 1973, 1014.
[7] Cf. S. Freud, "¿Pueden los legos ejercer el análisis? Diálogos con un juez imparcial", em Obras completas, vol. XX, Amorrortu, Buenos Aires 1990, 236.
[8] S. Freud, "Algunas lecciones elementales sobre psicoanálisis" (1940), em Obras completas, vol. XXIII, Amorrortu, Buenos Aires 1996, 284.
[9] Ibidem, 288.
[10] Ibidem, 285.
[11] Consideramos, portanto, equivocada a interpretação que em sentido contrário já feito por E. Fromm, Ética y psicoanálisis, Fondo de Cultura Económica, México 1987, 50: "Em sua caracterologia Freud apresenta também uma posição que não é relativista, ainda que somente por sua implicação. Supõe-se que o desenvolvimento libido continua desde a fase oral através da anal e a genital, e que a orientação genital chega a ser predominante na pessoa sã. Ainda que Freud não se refere explicitamente aos valores éticos, existe alí uma conexão implícita: as orientações pré-genitais características das atitudes dependentes, insaciáveis e ganâncias, são eticamente inferiores à genital, ou seja, ao caráter maduro e produtivo. A caracterologia de Freud implica que a virtude é o fim do desenvolvimento do homem. Este desenvolvimento pode ser obstruído por circunstâncias específicas e geralmente externas e pode assim ocasionar a formação  do caráter neurótico. O crescimento normal, não obstante, produzirá o caráter maduro, independente e produtivo, capaz de amar e de trabalhar; para Freud, em última análise, saúde e virtude são o mesmo. Entretanto esta conexão entre caráter e ética não é explícita. Teve que permanecer confusa, em parte, devido à contradição entre o relativismo de Freud e o reconhecimento implícito dos valores da Ética Humanista, e em parte, porque ocupando-se principalmente do caráter neurótico, Freud dispensou escassa atenção a análise e à descrição do caráter genital e maduro."

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