Não obstante, como uma coisa não tão importante, se seguiu falando de alma, porém, além de posturas de condutas extremas, ou de algumas formas de monismo materialista psicobiologista. O mesmo Freud, contrariamente ao que se pode pensar, fez amplo uso tanto do termo alma (Seele), como também de espírito (Geist). A psicoterapia, segundo o professor de Viena, indica a alma no sentido estrito, é a cura da alma, ou eventualmente também do corpo, mas desde a alma.
Psiqué é uma palavra grega que em nossa língua significa alma[5]. Portanto, o “tratamento psíquico” [“psicoterapia”] há de chamar-se tratamento da alma. Poder-se-ia supor que se entende como tal o tratamento das manifestações mórbidas da vida anímica, mas não é esse o significado do termo. “Tratamento psíquico” denota melhor o tratamento a partir da alma, um tratamento – dos transtornos anímicos tanto como corporais - com métodos que atuam direta e imediatamente sobre o anímico do ser humano[6].
Todavia, afirma Freud, a psicologia, uma de cujas partes (seu fundamento, disse em outra obra sua[7]) é a psicanálise, é a ciência da alma: “A psicanálise é uma parte da ciência sobre a alma, da psicologia. Também a chama-se ‘psicologia do profundo’[8].” A psicanálise busca ser, não uma simples descrição experimental dos fenômenos psíquicos, mas sim “uma teoria abarcadora e coerente da vida anímica[9]”. Em psicanálise, como é sabido, o anímico é o inconsciente:
Não; a condição de consciente não pode ser a essência do psíquico, é somente uma qualidade sua, e por acréscimo uma qualidade inconstante, mas menos ausente que presente. O psíquico em si, qualquer que seja sua natureza das quais temos tomado notícia[10].
Neste postulado se encontra implícito o fundamento não humanista da psicanálise de Freud. Não basta pois falar de alma para que a postura psicológica possa ser qualificada de humanista ou de “personalista”, senão que é fundamental qual interpretação se dá da mesma. De fato, a postura de Freud dificilmente possa ser considerada uma forma de humanismo, nem sequer de humanismo ateu, pois Freud desconfia radicalmente das possibilidades de melhora do homem[11].
E antes que Freud, Nietzsche havia considerado útil aos fins da transvalorização conservar o milenário conceito de alma, mas reinterpretado, como instrumento fundamental para uma transformação cultural.
[5] N.d.T.: Tanto na língua espanhola, que é a original, como na nossa versão traaduzida para o português.
[6] S. Freud, "Psicoterapia (Tratamiento por el espíritu)", em Obras, vol. 1, Biblioteca Nueva, Madrid 1973, 1014.
[7] Cf. S. Freud, "¿Pueden los legos ejercer el análisis? Diálogos con un juez imparcial", em Obras completas, vol. XX, Amorrortu, Buenos Aires 1990, 236.
[8] S. Freud, "Algunas lecciones elementales sobre psicoanálisis" (1940), em Obras completas, vol. XXIII, Amorrortu, Buenos Aires 1996, 284.
[9] Ibidem, 288.
[10] Ibidem, 285.
[11] Consideramos, portanto, equivocada a interpretação que em sentido contrário já feito por E. Fromm, Ética y psicoanálisis, Fondo de Cultura Económica, México 1987, 50: "Em sua caracterologia Freud apresenta também uma posição que não é relativista, ainda que somente por sua implicação. Supõe-se que o desenvolvimento libido continua desde a fase oral através da anal e a genital, e que a orientação genital chega a ser predominante na pessoa sã. Ainda que Freud não se refere explicitamente aos valores éticos, existe alí uma conexão implícita: as orientações pré-genitais características das atitudes dependentes, insaciáveis e ganâncias, são eticamente inferiores à genital, ou seja, ao caráter maduro e produtivo. A caracterologia de Freud implica que a virtude é o fim do desenvolvimento do homem. Este desenvolvimento pode ser obstruído por circunstâncias específicas e geralmente externas e pode assim ocasionar a formação do caráter neurótico. O crescimento normal, não obstante, produzirá o caráter maduro, independente e produtivo, capaz de amar e de trabalhar; para Freud, em última análise, saúde e virtude são o mesmo. Entretanto esta conexão entre caráter e ética não é explícita. Teve que permanecer confusa, em parte, devido à contradição entre o relativismo de Freud e o reconhecimento implícito dos valores da Ética Humanista, e em parte, porque ocupando-se principalmente do caráter neurótico, Freud dispensou escassa atenção a análise e à descrição do caráter genital e maduro."
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