Redescobrir São Tomás de Aquino
Hoje, grande parte da classe docente da Igreja, sem excluir mesmo o corpo episcopal, se afastou, alguns mais outros menos, de São Tomás de Aquino, por vezes em nome de outros teólogos relevantes, mais frequentemente em nome da modernidade e de suas exigências no campo do pensamento. Para muitos, então, se é pretenso de integrar certas instâncias de tomismo em sistemas baseados no imanentismo, criando uma enorme confusão, especialmente entre os jovens estudantes de teologia.
A lista de autores e teólogos que caminham neste sentido seria longuíssima e, portanto, inútil. Pode-se perguntar, no entanto, como as autoridades eclesiásticas não conseguiram evitar uma verdadeira reviravolta, em especial nos seminários e nas faculdades católicas, ou seja, propriamente nos lugares mais adequados para estudá-lo, aprofundá-lo e servir-se dele como escudo na custódia do pensamento relativista dos nossos tempos. Sinteticamente, como escreveu João Paulo II, “nos anos posteriores ao Concílio Vaticano II, pôde observar-se, em muitas escolas católicas, um certo declínio nesta matéria, devido à menor estima sentida não apenas pela filosofia escolástica, mas pelo estudo da filosofia em geral.” (Fides et ratio, 61)
O excelente tomista que foi o padre dominicano Reginald Garrigou-Lagrange (1877-1964) explica, porém, em um breve texto recentemente publicado (cf. R. Garrigou-Lagrange, Essência e atualidade do tomismo, Fé e Cultura, Verona 212, PP. 98, € 15), as razões da devida manutenção da teologia de São Tomás, contra as idéias de “superação” que circulavam já abundantemente antes das mudanças conciliares. Neste sentido, o opúsculo demonstra como “a doutrina de São Tomás permanece e permanecerá sempre atual, precisamente porque essa (...) conversa a verdade imutável sem a qual é impossível ter uma justa idéia de Deus, da alma, do mundo; porque a doutrina de são Tomás é, além disso, uma defesa filosófica do real valor das primeiras verdades ensinadas pelo senso comum, que não sabe, porém, defender-se sozinho” (p.11).
Com efeito, findo o tomismo em nome do espírito crítico e da atualização (aggiornamento), tornaram-se evanescentes muitos conceitos uma vez fixos e claramente inteligíveis, como in primis propriamente os conceitos de Deus, alma, mundo, homem, verdade, bem: termos hoje usados em milhares de acepções diversas dos teólogos enfeudados em milhares de filosofias religiosas distantes da Tradição (como o kantismo, o fideísmo, o evolucionismo, o pragmatismo, as escolas insidiosas de Husserl, Bonhoeffer, Heidegger etc.). Ainda recentemente no “Osservatore Romano “(18/01/2013, p. 4) se atacava tanto São Tomás quanto as célebres 24 Teses tomistas do padre Guido Mattiussi, aprovadas notavelmente pela Sagrada Congregação dos Seminários em 1925 com aval explícito do Papa Pio XI (e reportada no livro nas pp. 86-90)
Se, porém, como escrevia Paulo VI, São Tomás é por antonomásia “o Apóstolo da Verdade” (Lumen Ecclesiae, 8) e se sua filosofia “é verdadeiramente uma filosofia do ser, e não do simples aparecer” (Fides et ratio, 44), eis que a trahison des clercs ocorrida depois do Vaticano II, tem na rejeição de Tomismo uma das principais causas endógenas. Analogamente, a retomada do pensamento de São Tomás em todos os campos do conhecimento (teologia, filosofia, ética, direito, política, economia etc.), à luz do qual analisar, purificar e contestar os sistemas espúrios da filosofia contemporânea, só pode levar a uma nova geração de guardiões do pensamento católico, isto é, os cultores da verdade.
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