
Prof.
Hermes Rodrigues Nery durante palestra sobre Princesa Isabel. Na mesa:
Adolpho Lindenberg, D. Luiz de Orleans e Braganca, D. Bertrand, Mario
Navarro da Costa e José Carlos Sepulveda da Fonseca
“Cada
um de nós tem os seus sofrimentos próprios, o seu temperamento, a sua
capacidade para penetrar no sentido íntimo dos dramas da vida (…) e na
diversidade das nossas circunstâncias, devemos nos afinar no grande
concerto que a Igreja denomina com grande sabedoria ‘comunhão dos
santos’”.¹
“Os que permanecem fiéis à tradição é que podem abrir o caminho para o futuro”²
Caríssimos amigos,
Cumprimento
primeiramente S.A.I. Dom Luiz de Orléans e Bragança (Chefe da Casa
Imperial do Brasil), e seus irmãos aqui presentes, os Príncipes Dom
Bertrand e Dom Antonio, sua esposa a princesa de Ligne, Dona Cristina
Maria Isabel de Ligne e Orléans e Bragança, e S.A. Dom Casimiro de
Bourbon e Duas Sicílias, sacerdotes e leigos. Cumprimento ainda o Sr.
Adolpho Lindenberg, presidente do Instituto Plínio Correia de Oliveira, o
diretor do IPCO, Sr. Mário Navarro da Costa, o Sr. José Carlos
Sepúlveda da Fonseca, que compõem esta mesa, e demais participantes
deste encontro.
Gostaria de iniciar
esta exposição com aquela feliz expressão do anjo do Senhor aos pastores
de Belém na noite santa de Natal: “Eis que vos anuncio uma boa
notícia!” (Lc 2, 10). Temos hoje uma causa, atualíssima e imprescindível
na história do Brasil, no momento em que vivemos. A boa notícia, para
nós, católicos brasileiros, é o pedido para a abertura do processo de
beatificação da Princesa Dona Isabel Cristina de Orléans e Bragança,
feito em 19 de outubro, ao Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João
Tempesta, com a presença de S.A.I. Dom Antonio de Orléans e Bragança.
Foi feito um encaminhamento que há várias gerações, muitos desejavam
sinceramente que a Igreja acolhesse tal iniciativa e esperamos que agora
seja logo constituída a Comissão Especial para dar início aos estudos
que venham comprovar a sua vida de santidade, de reconhecidas virtudes
heroicas, fidelíssima que foi à fé católica e aos princípios e valores
do Evangelho. Fé com obras e frutos por todos conhecidos.
Pelo
que defendeu e amou na vida, como filha, esposa, mãe e amiga leal, como
governante mulher, e cristã de vivíssima consciência e convicção,
mulher da alegria e compassiva, operante em muitas obras oblativas,
“padeceu um dos maiores trabalhos, que é a contradição dos bons”3,
lembrando o que disse São Pedro de Alcântara sobre Santa Teresa de
Ávila.
E não lhe faltou a cruz, como não poderia lhe faltar,
justamente pelo seu amor ao crucificado. No seu exílio – o mais longo e
penoso já sofrido por uma autoridade política no Brasil, “a que foi
forçada e onde passou , impiedosamente, o resto de sua existência, que
se prolongou por 32 anos sem poder rever sua terra e sua gente,
experimentou ela, principalmente no começo, os mais rudes golpes que lhe
alancearam o coração.”4. Foi longe do Brasil que tanto amou e que tanto
se dedicou nos melhores anos de sua vida, que “ela deu toda a medida da
majestade e da magnanimidade do seu coração. Ela viveu no desterro como
símbolo da fraternidade, como afirmação da Pátria, acima dos partidos e
dos regimes. Debaixo de sua meiguice, da sua adorável simplicidade,
quanta fortaleza de caráter, quanto heroísmo, quantas obras
valorosas!”.5
O PRIMADO DE DEUS
Ela
tinha apenas 43 anos, estava pronta para viver tudo o que desejava que
era trabalhar por um Brasil capaz de assumir seu destino promissor,
quando lhe desabou o chão sob os pés, e ela perdeu quase tudo daquilo
que justificava sua vocação e missão, e diante de tantas perdas, soube
elevar os olhos e o coração a Deus e afirmar cada vez mais a sua fé, num
admirável exemplo de santificação.
“No particular dado o
seu temperamento enérgico e forte, o exílio se lhe representou uma longa
e dolorosa provação, além de constituir, no tocante às desapropriações
sofridas, um esbulho aos seus direitos de propriedade legítima, sem o
mínimo respeito aos preceitos constitucionais. (…) tudo isso, que lhe
foi tirado de chofre, não pode deixar de significar uma violência que
resultou no imediato esvaziamento de sua privilegiada condição social, e
assim despojada das mais puras e naturais alegrias que lhe enchiam a
alma de sensações verdadeiramente felizes.”6
E então,
naquele 15 de novembro, data de seu batizado, é certo que chorou, não
apenas porque estavam sendo solapados seus mais legítimos direitos, mas
ainda mais o seu projeto de Brasil que a República positivista iria
desfigurar, e não propiciar aquelas condições efetivas de promoção
social pautadas no humanismo cristão. Afinal, o que eles tanto temeram
na Princesa Isabel foi justamente o seu ultramontanismo, que significava
dizer fidelidade ao ministério petrino.
Poucos meses antes,
tendo vivido a sua entrada radiante em Jerusalém, com o glorioso 13 de
maio, sentiu no exílio, as dores do Getsemani, e a partir de então, se
associou ainda mais aos sofrimentos de Jesus, rei dos reis, despojado de
sua majestade, escarnecido e humilhado, até a morte de cruz. No exílio,
foi entendendo mais intensamente, as consequências da adesão àquele que
é o verdadeiro Mestre, pois “o seguimento é expressão de conversão
permanente a Jesus Cristo”.7 E na medida em que os anos no exílio foram
lhe mostrando que talvez nunca mais voltasse mesmo a ver o Brasil,
continuou perseverante e se dedicando muito aos brasileiros, pois na sua
vivência católica, de amor sempre universal, deu o testemunho de que
“seguir é viver, amar, crescer em fidelidade, comprometer-se na
construção do reino e solidarizar-se na justiça e na amizade”.8
A
princesa Isabel, pela sua formação e determinação, pelas suas opções e
decisões, pelo modo como suportou as perdas e dores e da maneira como
afirmou a fé, teve o sentido de Deus, numa época em que já se sentia
poderosas correntes culturais e políticas decretando a morte de Deus no
mundo, ela viveu e fez o que fez movida pela direção de Deus, que
“compreende e dinamiza a pessoa inteira com toda a sua força e sua
relação essencial”9, pois, a história mostra de modo claríssimo de que
“quem possui o sentido de Deus possui ao mesmo tempo o sentido da vida e
do ser humano. Assim unem-se em síntese a escuta e a prontidão para a
resposta existencial”.10
Como Samuel, a princesa Isabel ainda muito jovem já havia expressado em seu coração aquele feliz “Eis-me aqui Senhor!”11
E como Jó, diante da provação, pôde dizer:
“Quem me tornará tal como antes, nos dias em que Deus me protegia? (…)
Livrava o pobre que pedia socorro, e o órfão que não tinha apoio”
(…) Agora minha alma se dissolve, os dias de aflição me dominaram.
A noite transpassa meus ossos, consome-os; os males que me roem não dormem.
Com violência segura minha veste, aperta-me como o colarinho de minha túnica.
(…) Não chorei com os oprimidos? Não teve minha alma piedade dos pobres?
(…) Nunca violei o direito de meus escravos,
ou de minha serva, em suas discussões comigo. (…)
Não recusei aos pobres aquilo que desejavam, não fiz desfalecer os olhos da viúva (…)
Pois o temor a Deus me invadiu, e diante de sua majestade não posso subsistir!”12
E ouvindo em seu coração o que Deus respondeu a Jó:
“Conheces as leis do céu, regulas sua influência sobre a terra?”13
Daí
a força e a energia com que se moveu, desde o início para promover a
liberdade dos escravos no Brasil, num processo que exigiu sabedoria e
prudência, coragem e precisão decisória, que ela tão bem foi capaz de
conduzir, até alcançar a glória da Lei Áurea. E mesmo assim, mesmo
querendo fazer mais pelo Brasil, as dores do exílio lhe fizeram entender que o comando da história está nas mãos de Deus,
que Ele permite tudo o que está debaixo do sol, e que um dia haverá Seu
juízo, resplandecendo tudo o que de bom fizeram os que verdadeiramente O
amaram, pois, “enquanto Jó rezava por seus amigos, o Senhor o
restabeleceu de novo em seu primeiro estado e lhe tornou em dobro tudo
quanto tinha possuído.”14
As decisões que a Princesa Isabel tomou como regente, tornaram evidente que reconheceu antes de mais nada, o primado de Deus. Em seu tempo, surgiram e se intensificaram forças ideológicas contrárias à doutrina social cristã
(cabe lembrar que o Manifesto Comunista é de 1848). E que ela perdeu o
trono justamente no enfrentamento destas forças espirituais (cujas
tensões ficaram evidentes no próprio movimento abolicionista, e que tal
movimento só foi bem sucedido porque teve na Princesa Isabel a firmeza
de fazer valer a fé católica no processo. E por isso é que foi possível
evitar derramamento de sangue, e conter os ímpetos dos que queriam que
se repetisse no Brasil as violências ocorridas, por exemplo, no Haiti e
nos Estados Unidos. Foi o catolicismo defendido pela Princesa
Isabel, que permitiu o êxito do maior movimento social da história
deste país, e com um resultado jubilante. Tudo isso porque
prevaleceu no processo o primado de Deus, que ela tão bem expressou em
suas ações decisivas. No exílio, ela pôde melhor compreender o alcance
do significado do mistério da fé na história.
“O Senhor
nos diz: ‘procurai antes de mais nada o Reino (de Deus) e a sua justiça,
que tudo o mais vos será dado’ (Mt 6,33). Com esta expressão é
estabelecida uma ordem de prioridades para a ação humana, para a nossa
atitude no cotidiano. De modo nenhum nos é prometida uma terra de
delícias para o caso de sermos piedosos ou de desejarmos de algum modo o
Reino de Deus. Não é apresentado nenhum automatismo de um mundo a
funcionar como o apresentaram as utopias de uma sociedade sem classes,
na qual tudo andaria bem por si só, apenas porque não há nenhuma
propriedade privada. Jesus não nos fornece receitas tão simples. Mas Ele
estabelece – como foi dito – uma decisiva prioridade. ‘Reino de Deus’
quer dizer ‘Soberania de Deus’, e isso significa: é aceito o critério da
sua vontade. Esta vontade cria justiça, à qual pertence que nós damos a
Deus o seu direito e assim a medida para encontrar o direito entre os
homens”.15
![]() |
| Prof. Hermes Rodrigues Nery e sua mãe, dona Idalina, durante o evento em homenagem à Princesa Isabel |
A
princesa Isabel sabia que “para a Igreja (…) foi desde o princípio
fundamental a defesa da família como o núcleo de toda ordem social”.16 Por isso a causa de sua beatificação hoje é tão atual, num momento em que a instituição familiar está tão ameaçada.
E este princípio e valor foi vivido por ela, de modo tão marcante, na
relação com seus pais, com o esposo e com os filhos e netos, e com todos
a sua volta, ainda mais com a extensão natural de quem era o seu
próximo. Por isso que via a todos como membros de uma mesma família, e por isso todos os brasileiros a amaram como mãe e futura rainha.
Nesse sentido, seu pensamento solidamente cristão e seus atos deixavam
claro que a “a orientação social é uma orientação teológica e esta tem
caráter social – amor de Deus e o amor do próximo são inseparáveis, e o
amor do próximo recebe aqui uma definição muito prática, isto é, como
percepção da presença direta de Deus nos pobres e fracos”.17 Daí também atualmente o sentido da defesa da vida, especialmente do nascituro, que é hoje o mais fragilizado.
As suas decisões tomadas refletiram o seguimento a Jesus. Em sua vida
ficou explícito claramente “o grande problema da relação entre fé e
ordem social, entre fé e política”18. Daí o seu envolvimento e
comprometimento com a abolição da escravatura.
A influência do rosário no movimento abolicionista
Há
muito o que descobrir da relevante atuação da princesa Isabel no
movimento abolicionista, muito mais do que apenas ter assinado as Leis
do Ventre Livre (1871) e a Lei Áurea (1888). Não tivesse ela assumido a
regência e dado o tom tanto na gestão quanto na metodologia de trabalho e
o movimento teria tido um rumo mais drástico e explosivo. Foi o
componente católico que ela imprimiu e que a voz vigorosa de Joaquim
Nabuco expressou, entre outras, que ressoou e influiu
significativamente, não somente entre os proprietários rurais
resistentes à abolição, mas principalmente entre os negros devotos
organizados nas irmandades religiosas, especialmente a de Nossa Senhora
do Rosário. Os antropólogos ficam admirados de ver como as
irmandades católicas, de origem dos tempos medievais e instituídas tanto
em Portugal quanto na África foram um elo de ligação entre os negros
que queriam a sua libertação, mas sem o apelo à violência. As
irmandades católicas, portanto foram decisivas para que o movimento
abolicionista fosse bem sucedido, pois teve à frente uma governante
mulher e cristã, que tão bem entendeu a alma do povo brasileiro.
Conta Didier Lahon que “na viragem do séc. XV para o XVI, alguns
escravos negros já eram membros da confraria do Rosário de Lisboa. Essa
opção pela Virgem do Rosário advinha de que ‘ a devoção ao Rosário, e a
confraria que lhe estava confiada, pregava assim, como ainda hoje, o
mais amplo ecumenismo social e racial, tentando derrubar, no seio da
comunidade espiritual dos irmãos, as barreiras que os separavam na vida
cotidiana”.19
Foi o papa Pio V quem instituiu em 1573 a festa
de Nossa Senhora do Rosário da Vitória para celebrar o êxito dos
cristãos na Batalha de Lepanto. Desde então a devoção do rosário
cresceu até os dias de hoje exercendo uma força misteriosa nos destinos
dos países cristãos, especialmente na luta contra as forças hostis à
Cristandade. Ainda hoje para nós católicos, é significativa a
assinatura da Lei Áurea no dia 13 de maio, quase trinta anos antes, no
mesmo dia, da aparição de Nossa Senhora de Fátima, oferecendo o rosário como arma contra os inimigos da Igreja.
“Segundo
o Papa Pio V a vitória teria se dado graças à interseção da Virgem, em
resposta aos Rosários a ela oferecidos, e Gregório XIII, seu sucessor,
mudou o nome da festa para Nossa Senhora do Rosário, reforçando o
Rosário como arma da vitória”.20
A devoção ao
rosário – sempre extremamente popular – foi muito difundida e aceita
pelos escravos no Brasil, e foi esta devoção que exerceu grande
influência – através da atuação das irmandades católicas – no movimento
abolicionista. Isso é o que estão descobrindo os antropólogos e
acadêmicos da atualidade.
John Thorton chamou atenção no meio acadêmico da “importância do catolicismo na África Centro-ocidental nos séculos XVI, XVII e XVIII”21
e “o lugar nada desprezível do catolicismo na relação que os africanos e
afrodescendentes brasileiros mantinham com as terras de seus
antepassados.”22 Marina de Mello e Souza, a partir de pistas
indicadas por Thorton, afirma que “no Brasil em algumas ocasiões o
catolicismo, por estar presente na região do antigo reino do Congo desde
o final do século XV, serviu de ligação com um passado africano que era
importante elemento na composição das novas identidades das comunidades
afrodescendentes no contexto da diáspora.”23
E
também os estudiosos perceberam entre os escravos no Brasil, duas formas
de expressão religiosa que estarão manifestas no modo como atuaram no
movimento abolicionista. Esta distinção resultará em duas opções de
resistência: a do negro revoltoso e fugido, aquilombado, que se insurge
contra o sistema escravista, pela via da violência. A outra opção foi a
assumida pelas irmandades católicas, que agregou também em quilombos
muitos negros devotos do rosário: a do negro alforriado, organizado para
prestar auxílio aos demais, sem violência, agindo pela via
institucional. Estas duas distinções têm relação as duas formas de
expressão religiosa existentes durante a escravidão: “No primeiro caso
estão os calundus, nos quais ritos eram realizados em torno de altares
que abrigavam objetos mágico-religiosos, havendo a oferenda de sangue de
animais, bebida e comida, ao som de tambores e com a possessão de
algumas pessoas por entidades sobrenaturais. No segundo caso estão os
cortejos e danças que acompanhavam a coroação de um rei negro pelo
padre, por ocasião de festas em torno dos santos padroeiros de
irmandades nas quais a comunidade negra se agrupava. Enquanto os
primeiros eram no geral seriamente perseguidos, assim como os quilombos e
as tentativas de rebelião, os segundos eram quase sempre aceitos e
muitas vezes estimulados, uma vez que eram vistos como formas de
integração do negro na sociedade colonial escravista.”24 Foi em
meio a este contexto que se deu a mobilização popular pela abolição,
cujo papel das irmandades religiosas católicas foi decisivo para que o
processo culminasse com a Lei Áurea. A Princesa Isabel
percebeu, desde o início, tais tensões, e juntamente com outras
lideranças, atuou para que o gradualismo não se estendesse demais, para
não acirrar os conflitos (tanto dos proprietários rurais quanto dos
escravos aquilombados que fugiam e partiam para a resistência com
violência).
No entrechoque das posições assumidas
pelos grupos atuantes, prevaleceu a solução católica, não imposta pelo
governo nem por eclesiásticos, mas aceita naturalmente (e aí a
importância do dado antropológico) por aqueles que sofriam a tragédia da
escravidão e queriam se libertar da opressão, para serem aceitos como
pessoas e não mercadoria, e não serem discriminados socialmente. Esse
aspecto foi fundamental para preservar até hoje em grande parcela da
população negra do País, uma devoção especial à Princesa Isabel, uma
veneração imbuída de um profundo sentimento de gratidão, e é desta
parcela significativa que vieram os primeiros testemunhos de sua fama de
santidade, ainda em vida.
Fidelidade à Igreja
Fidelidade
esta que constatamos em tantos gestos, como, por exemplo, estive no mês
passado em Ouro Preto, num domingo, e fui à missa pela manhã. Ainda
antes da celebração, uma senhora contou-me que a princesa Isabel também
estivera naquela mesma igreja e ainda hoje guardam de recordação uma
toalha que ela trouxera para ornamentar a mesa do Senhor. Nas suas visitas que fez pelo Brasil, em cada cidade há sempre uma história, uma atitude sua, de tocante devoção. Na
visita que fez à Basílica de Nossa Senhora da Conceição Aparecida (em 6
de novembro de 1888) deixou de presente como pagamento de uma promessa
feita em sua primeira visita vinte anos antes, uma coroa de ouro com
diamantes e rubis, como também um belíssimo manto azul.
No
auge da crise entre a Igreja e a Maçonaria no Brasil, pediu a
libertação de Dom Vital da prisão. Solicitou à Santa Sé, em 1877, a
canonização do Pe. José de Anchieta. Contam ainda que, logo após a
abolição, quiseram-lhe homenagear com um monumento que se chamaria
“Isabel, a Redentora”, sugerindo coloca-lo no cume do Corcovado, no Rio
de Janeiro, sua cidade natal. Ao que ela respondera que se o monumento
fosse feito um dia que levasse não o seu nome, mas o de Jesus. E anos
depois lá foi erguido o Cristo Redentor.
Em carta ao Papa Leão
XIII (de quem recebeu a Rosa de Ouro, única brasileira a ser
homenageada, em vida, com tão excelsa insígnia), somou sua voz aos que
solicitavam ao Sumo Pontífice a decretação do dogma da Assunção de Nossa
Senhora, exclamando que “a proclamação da Assunção acrescentará em
particular um novo lustre ao Santo Rosário, imprimindo aos dois
mistérios que o terminam o caráter de uma verdade infalível”.25 Expressou em diversos escritos seu amor e devoção mariana,
tendo visitado inúmeros santuários, entre eles, o de Nossa Senhora de
Lourdes e o de Aparecida. Francisco Lemes Lopes conta que o “relicário
de brasilidade e fé. Jóia da paisagem e da arte religiosa. Receptáculo
das confidências de seu coração magnânimo (…) o Santuário de Nossa
Senhora da Glória”26 foi a “última visita de Isabel antes de partir para
o exílio”.27 Em seu testamento, constatamos sua inequívoca profissão de
fé: “Quero morrer na Religião Católica, Apostólica, Romana, no amor de
Deus e no dos meus e de minha Pátria.”28
“Nosso Senhor não tardará em mimosear-me em presença de todos os Santos…”29
Há
muitas coisas que gostaria de ressaltar nesta exposição, mas o tempo é
exíguo e há outros palestrantes ainda para fazerem uso da palavra. Trago
apenas aqui mais alguns brevíssimos apontamentos para reflexão, e dizer
que os estudos estão sendo aprofundados e a cada dia mais dados nos
surpreendem sobre o quanto desconhecemos da vida Princesa Isabel e do
muito que ela fez pelo Brasil e pela Igreja. Quando Jacques Le Goff se
debruçou sobre a vida de São Luís IX, se surpreendeu dele ser “o menos
conhecido dos grandes reis da França medieval”30, assim a Princesa
Isabel surpreenderá muito os pesquisadores sérios, pois os estudos estão
um campo aberto. Assim como São Luís, a princesa Isabel foi capaz de
“decisões pesadas de consequências”31 e de bons resultados.
Antes de encerrar gostaria de salientar uma breve palavra sobre o sentido da santidade, graça de salvação da pessoa humana.
Rezamos
em nosso Credo a convicção da comunhão dos santos, porque “é essencial
para o cristianismo manter viva e intensificar a esperança e o desejo da
outra vida”32, da vida verdadeira, da vida eterna, é esta que interessa
mais, porque “esta vida é escolha da outra, e a outra é realização
desta”.33 A partir de então, entendemos o que Santa Teresinha tão bem
exprimiu: “quero passar o meu Céu a fazer bem à terra!”34
Sabemos que aqui, na vida penúltima, “em tudo somos atribulados, mas não
esmagados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não
desamparados; abatidos, mas não destruídos…”35 E em tudo, o
bem-aventurado sabe o que responder, a exemplo de Santa Maria Micaela:
“Deixo a Deus que me defenda”.36 Nesse sentido cremos com júbilo,
n’Aquele que nos dá força, que tudo opera, que é Jesus Cristo, Nosso
Senhor e Nosso Salvador, pois sabemos, que “as bem-aventuranças são um
paradoxo – os critérios mundanos são subvertidos, desde que as coisas
sejam vistas na perspectiva correta, nomeadamente a partir do valor de
Deus, que é diferente do valor do mundo”.37 Com essa compreensão,
entendemos melhor a vida da virtuosíssima Dona Isabel Cristina de
Orleáns e Bragança, cujo itinerário terrestre a preparou para a glória
celeste, especialmente pela perseverança no bem: a começar na vida em
família, no ardor ético e cívico do bem comum, no cumprimento de sua
missão como governante mulher, na fidelidade à Igreja. E esta
perseverança traz exigências, pois, como já dissemos, “a bem-aventurança
é um convite para o seguimento do crucificado – dirigido a cada um e a
toda Igreja”.38
Às vezes temos a impressão de que ser santo é
algo inacessível, reservado apenas a algumas almas eleitas, etc. Mas a
verdade é que todos nós somos chamados à santidade. Cada um com os
talentos recebidos. O que importa é a resposta de Pedro ao Mestre: “Sim,
Senhor! Tu és o Deus vivo”, o Deus da vida, que quer vida em abundância
para todos, “em plena posse de uma alegria eterna”.39 Daí o chamado à
santidade. É sempre Pedro que “responde em nome dos doze”,40 que
reconhece e ama Jesus, e toma-o “como guia da própria vida”.41
Aquela que já em vida foi chamada de “A Redentora” poderá, com a graça de Deus, ser declarada venerável, beata e um dia ser elevada à honra dos altares.
Bibliografia:
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- Georges Suffert, Tu és Pedro, Ed. Objetiva, 2001, p. 57.
- José Miguel Cejas, Os Santos, pedras de escândalo, Ed. Quadrante, 1997, p. 29.
- Hermes Vieira – Princesa Isabel – Uma Vida de Luzes e Sombras, Edições GRD, São Paulo, 1990, pp. 231-232.
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- Dalmazio Mongillo, Dicionário de Espiritualidade, Seguimento, Paulus, 2ª edição, 1993, p. 1041
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- B. Häring, Dicionário de Espiritualidade, Sentido de Deus, Paulus, 2ª edição, 1993, p. 1049
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- I Sam 3, 4
- Jó 29, 2,12;30,16-18,25; 31,13,16,23.
- Jó 38,33.
- Jó 42, 10.
- Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré, Ed. Planeta do Brasil Ltda, São Paulo, 3ª reimpressão, 2007, pp. 134-135.
- Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré, Ed. Planeta do Brasil Ltda, São Paulo, 3ª reimpressão, 2007, p. 115.
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- Francisco Leme Lopes, S.J., Isabel, a Católica, Anuário do Museu Imperial, Volume 32, Petrópolis (RJ), 1973, p. 70.
- Jacques le Goff, São Luis – Biografia, Editora Record, Rio de Janeiro, 2002, p. 19.
- Jacques le Goff, São Luis – Biografia, Editora Record, Rio de Janeiro, 2002, p. 24.
- Júlian Marías, Problemas do Cristianismo, Editora Convívio, São Paulo, 1979, p. 35.
- Júlian Marías, Problemas do Cristianismo, Editora Convívio, São Paulo, 1979, p. 38.
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- José Miguel Cejas, Os Santos, pedras de escândalo, Ed. Quadrante, 1997, p. 23.
- Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré, Ed. Planeta do Brasil Ltda, São Paulo, 3ª reimpressão, 2007, p. 77.
- Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré, Ed. Planeta do Brasil Ltda, São Paulo, 3ª reimpressão, 2007, p. 91.
- Santa Teresinha do Menino Jesus, História de uma Alma, Livraria Apostolado da Imprensa, Braga, 1990, p. 170.
- Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré, Ed. Planeta do Brasil Ltda, São Paulo, 3ª reimpressão, 2007, p. 247.
- Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré, Ed. Planeta do Brasil Ltda, São Paulo, 3ª reimpressão, 2007, p. 251.
* Prof. Hermes Rodrigues Nery é Coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e Movimento Legislação e Vida, da Diocese de Taubaté.

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