ENCÍCLICA
“IN DOMINICO AGRO”
DE CLEMENTE XIII
O PAPA CLEMENTE XIII
a seus Venerandos Irmãos, Patriarcas,
Primazes, Arcebispos e Bispos
Primazes, Arcebispos e Bispos
Veneráveis Irmãos, saudação e bênção apostólica.
[I. O múnus pastoral exige, do Papa, vigilância...]
No campo do Senhor, cuja cultura nos cabe dirigir, pelo agrado da
Divina Providência, nada requer tão atenta vigilância, nem tão zelosa
perseverança, como a guarda da boa semente nele lançada; noutros termos,
a guarda da doutrina católica que Jesus Cristo e os Apóstolos legaram e
confiaram ao Nosso ministério.
Se por preguiça e incúria [Nossa], a sementeira ficasse abandonada, o
inimigo do gênero humano poderia espalhar cizânia de permeio, enquanto
os obreiros dormissem a bom dormir (Mt 13, 25). Por conseguinte, no dia da ceifa, mais erva haveria para queimar ao fogo, do que trigo para recolher nos celeiros.
Na verdade, o bem-aventurado Apóstolo Paulo exorta-nos, com
instância, a guardarmos a fé que, uma vez por todas, foi confiada aos
Santos (Iud 3). Escreve, pois, a Timóteo que guarde o bom depósito (2Tm 1, 14), porque instariam tempos perigosos (2Tm 3, 1ss), durante os quais haviam de erguer-se, na Igreja de Deus, homens maus e sedutores (2Tm 3, 1ss).
Valendo-se de tal cooperação, o ardiloso tentador tudo faria por
induzir os ânimos incautos em erros contrários à Verdade do Evangelho.
[e prudência]
Como muitas vezes acontece, na Igreja de Deus surgem perniciosas
opiniões que, apesar de contrárias entre si, são concordes na tendência
de abalar, de qualquer maneira, a pureza da fé.
Muito difícil será, então, brandir a palavra de tal forma, por entre
um e outro adversário, que a nenhum deles pareça termos voltado as
costas, mas antes repelido e condenado, da mesma maneira, ambos os
grupos inimigos de Cristo.
Sucede também, algumas vezes, que a ilusão diabólica facilmente se
oculta em erros disfarçados pelas aparências de verdade; como também um
leve acréscimo ou troca de palavras corrompem o sentido da verdadeira
doutrina. Assim é que a profissão de fé, em lugar de produzir a
salvação, leva por vezes o homem à morte, em virtude de alguma
alteração, que sutilmente lhe tenha sido feita.
[II. Finalidade do Catecismo Romano:]
Devemos, pois, afastar os fiéis, mormente os que forem de engenho
mais rude ou simples, destes escabrosos e apertados atalhos, por onde
mal se pode firmar em pé, nem andar sem perigo de queda.
Não devem as ovelhas ser levadas às pastagens por caminhos não
trilhados. Por isso, não devemos expor-lhes opiniões singulares de
doutores embora católicos, mas unicamente aquilo que tenha o sinal
inequívoco, e certo de verdadeira doutrina católica, a saber:
universalidade, antigüidade, consenso doutrinário.
[Expôr com sobriedade...]
Além do mais, como não pode o vulgo subir ao monte, do qual desce a glória do Senhor (Ex 19, 12),
como vem a perecer, se para a ver ultrapassa certos limites – devem os
guias e mestres marcar ao povo balizas para todos os lados, de sorte que
a exposição da doutrina não vá além do que é necessário, ou sumamente
útil para a salvação. Assim, os fiéis também obedecerão ao preceito do
Apóstolo: “Não saibam mais do que convém saber, e sabê-lo com moderação”
(Rm 12, 3).
[doutrinas seguras e práticas...]
Possuídos desta convicção, os Pontífices Romanos, Nossos
Predecessores, empregaram toda a energia não só para cortar, com o
gládio da excomunhão, os venenosos germes do erro que às ocultas iam
vingando; mas também para cercear a expansão de algumas opiniões que,
pela sua redundância, impediam o povo cristão de tirar da fé frutos mais
copiosos; ou que, pela parentela com o erro, podiam ser nocivas às
almas dos fiéis.
Depois de condenar, por conseguinte, as heresias que, naquela época,
tentavam ofuscar a luz da Igreja; depois de assim dispersar as nuvens
dos erros, o Concílio Tridentino fez rebrilhar, com mais fulgor, a
verdade católica.
Como julgassem que aquela Santa Assembléia da Igreja Universal usara
de tanta prudência e moderação, abstendo-se até de reprovar opiniões,
que por si tivessem a autoridade de doutores eclesiásticos, quiseram os
Nossos mesmos Predecessores que outra obra fosse feita, segundo a mente
do mesmo Sagrado Concílio, abrangendo toda a doutrina necessária à
instrução dos fiéis, mas de maneira absolutamente livre de qualquer
erro.
Eis o motivo de terem publicado o presente livro, com o título de “C a
t e c i s m o R o m a n o”. Empresa que acarreta louvor, sob dois
pontos de vista.
Por um lado, reuniram no Catecismo a doutrina, que é comum na Igreja,
e isenta de qualquer perigo de erro. Por outro, determinaram
expressamente que esta mesma doutrina serviria para a instrução pública
do povo. Obedeciam ao preceito de Cristo Nosso Senhor, que aos Apóstolos
mandou “dissessem às claras o que Ele próprio lhes dissera nas trevas; e
dos telhados apregoassem o que ao ouvido tinham escutado” (Mt 10, 27).
Obedeceram, também, à vontade de sua esposa a Igreja que clama: “Mostra-me, onde descansas ao meio-dia” (Ct 1, 6).
Onde não for meio-dia, e não houver luz tão clara, que se distinga
perfeitamente a verdade, fácil será que por ela se tome uma falsa
doutrina, na aparência de verdadeira. Na obscuridade, dificilmente se
logra distinguir uma da outra.
Sabiam, pois, Nossos Predecessores que já houve, e futuramente sempre
haveria homens, que procuram atrair a si as ovelhas, e lhes prometem
pastagens mais ricas de sabedoria e ciência; e que muitos haveriam de
segui-los, porquanto as águas furtivas são mais doces, e o pão escondido
mais suava (Pr 9, 17).
[Limitadas aos pontos essenciais]
Assim, para evitar que a Igreja, vítima de tal sedução, fosse em pós os rebanhos de companheiros (Ct 1, 6)
igualmente desnorteados, que não se apóiam em nenhuma certeza da
verdade, que “sempre aprendem, sem nunca chegarem ao conhecimento da
verdade” (2Tm 3, 7), os Papas mandaram expor no Catecismo
Romano, de maneira clara e luminosa, somente as verdades necessárias, ou
as mais proveitosas para a salvação, as que devem ser explicadas à
Cristandade.
[III. Nova edição:
1. Ensejo]
1. Ensejo]
Este livro, porém, feito com muito esforço e trabalho, aprovado por
consenso geral, acolhido com os maiores aplausos, caiu por assim dizer
das mãos dos pastores, graças ao amor de inovações que, em nossos dias,
enaltece vários e diversos Catecismos, que de modo algum podem
comparar-se com o Romano.
Desse fato resultaram dois males. O primeiro foi de quase se destruir
a uniformidade no modo de ensinar. Isto causou certo escândalo aos
espíritos fracos, que já não pareciam viver em país de uma só boca (Gn 11, 1), ou da mesma linguagem.
Da divergência, que há nos métodos, de expor a doutrina católica,
nasceu o segundo mal, que são as contendas. E da porfia com que um se
desvanece de seguir a Apolo, outro a Cefas, aquele outro a Paulo (1Cor 1, 12),
surgiram separações de ânimos e grandes discórdias. A nosso entender, a
crueza de tais lutas é o que há de pior, para atalhar a glória de Deus,
o que há de mais fulminante, para destruir os frutos, que os fiéis
deveriam tirar da disciplina cristã.
[2. Finalidade]
No intento de remover, finalmente, estes dois males da Igreja,
julgamos, pois, necessário que se tornasse à fonte, da qual apartaram,
desde muito, o povo fiel; uns por falta de prudência, outros por
soberba, a fim de se vangloriarem de maior sabedoria, no seio da Igreja.
Portanto, houvemos por bem entregar outra vez aos pastores das almas o
mesmo Catecismo Romano, pelo qual a fé católica tomara nova vida
anteriormente, e os corações dos fiéis se consolidaram nos ensinamentos
da Igreja, coluna e firmeza da verdade (1Tm 3, 15). Da mesma
maneira, sejam agora os fiéis preservados, o mais possível, de novas
opiniões, não abonadas pelo consenso comum, nem pela antigüidade.
Para facilitar a aquisição deste livro, e para emendá-lo dos erros,
que se haviam introduzido por descuido dos tipógrafos, mandamos fazer em
Roma esmerada reimpressão, conforme o exemplar da edição que Pio V,
Nosso Predecessor, promulgara em virtude do decreto baixado pelo
Concílio Tridentino. A tradução em língua vulgar, feita e editada por
ordem do mesmo São Pio, será agora reimpressa e lançada à publicidade,
por iniciativa Nossa (nota: É a tradução autêntica de Figliucci).
[3. Exortação aos bispos]
Nestes tempos tão difíceis para a cristandade, nós oferecemos assim,
com toda a solicitude, um meio eficacíssimo de remover os enganos de
falsas opiniões, de propagar e consolidar a doutrina sã e verdadeira. A
vós pertence agora, veneráveis Irmãos, fazer que o livro tenha boa
acolhida entre os fiéis. Quiseram os Pontífices Romanos fosse ele
proposto aos párocos, a fim de se manter uma unidade geral no método de
ensinar.
Portanto, muito vos recomendamos, veneráveis Irmãos, e
encarecidamente vos exortamos no Senhor a que mandeis usá-lo, na
explicação da doutrina católica, todos os que se ocupam com o ministério
das almas, a fim de conservarem não só a unidade de método, como também
o amor e a concórdia nos corações. Sendo estas afinal as suas
atribuições, deve o Bispo, por isso mesmo, tomar tento que se não
ensoberbeça de suas honras, e venha a provocar cismas, e a romper os
vínculos da unidade.
[IV. Condições para o uso salutar:
1. Ciência e humildade]
1. Ciência e humildade]
Nenhum, todavia, ou minguado proveito traria este livro, se menos
hábeis fossem para ensinar, os que devem propô-lo e explicá-lo.
Muito vai, portanto, que para o cargo de ensinar escolhais homens,
não só instruídos nas ciências sagradas, mas sobretudo humildes, e
ardentes de zeloso amor pela santificação das almas.
Não é, pois, em catadupas de palavras, nem na agudeza de
controvérsias, nem na ambição de louvor e glória, que consiste toda a
ciência cristã, mas em verdadeira e voluntária humildade (Leo M. sermo 37 in Epiph. c 3.).
[2. caridade]
Existem pessoas a quem uma ciência mais profunda engrandece, ao mesmo
tempo que as separa do convívio dos outros. Tanto mais sabem, tanto
mais ignoram tais pessoas a virtude da concórdia. Cabe-lhes, pois, a
admoestação da própria Sabedoria Divina: “Tende sal em vós, e entre vós
conservai a paz!” (Mc 9, 49) Devemos possuir o sal da sabedoria, de maneira que sua força nos faça guardar o amor ao próximo e suportar-lhe (nota: Em latim é mais expressivo: infirmitates condiantur) as fraquezas.
[3. espírito de concórdia]
Se largarem, porém, o desejo de sabedoria e edificação do próximo, e
passarem a promover discórdias, essas pessoas terão sal sem paz. Nisso
não vai dom de virtude, mas um sinal de condenação.
Quanto mais instruídas forem, tanto maior será também o seu pecado.
Certamente que as condena esta palavra de São Tiago: “Se, todavia,
abrigais no coração um ciúme desabrido e o espírito de contenda, não vos
glorieis nem mintais, em contradição com a verdade. Não é, pois, esta a
sabedoria que desce do céu, mas é terrena, sensual, diabólica. Pois
onde reina ciúme e discórdia, aí há desordem e toda sorte de maldade. No
entanto, a sabedoria que vem do céu, é em primeiro lugar pudica, depois
pacífica, modesta, dócil, acessível ao bem, cheia de compaixão e de
bons frutos, não faz juízos, não é invejosa” (Tg 3, 14).
[V. Súplica e bênção do Papa]
Rogamos a Deus, na humildade de Nosso coração e na angústia de Nosso
espírito, que aos esforços de Nosso zelo e diligência advenha a largueza
de Sua graça e misericórdia, a fim de que não surja nenhuma desavença a
perturbar o povo cristão, mas que antes, em vínculo de paz e em
espírito de caridade, todos nós unicamente conheçamos, unicamente
louvemos e glorifiquemos a Jesus Cristo, nosso Deus e Senhor. Com este
desejo é que vos saudamos num ósculo santo, veneráveis Irmãos, e com a
maior afeição vos concedemos a Bênção Apostólica, a vós e a todos os
fiéis de vossas igrejas.
Dado e passado no Castelo Gandolfo, aos 14 de junho de 1761, no terceiro ano de Nosso Pontificado.
[Clemente XIII,
in "Catecismo Romano",
"Nova Versão Portuguesa baseada na edição autêntica de 1566"
Aliança Missionária Eucarística Mariana]
in "Catecismo Romano",
"Nova Versão Portuguesa baseada na edição autêntica de 1566"
Aliança Missionária Eucarística Mariana]
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