Ricardo
da Costa (Ufes)
Artigo publicado (sem as imagens) em LAUAND, Jean (org.).
Filosofia e Educação – Estudos 13. São Paulo:
Editora SEMOrOc (Centro de Estudos Medievais Oriente & Ocidente da Faculdade de Educação da USP) –
Factash Editora, 2008., p. 07-18 (ISBN 978-85-89909-76-1).
Conferência de abertura da VI Semana de História da
Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), no dia 20 de novembro de 2006.
Conferência proferida no VI Encontro ANPUH-ES, na Ufes,
no dia 8 de novembro de 2006.
Artigo publicado (sem as imagens) em LAUAND, Jean (org.).
Filosofia e Educação – Estudos 13. São Paulo:
Editora SEMOrOc (Centro de Estudos Medievais Oriente & Ocidente da Faculdade de Educação da USP) –
Factash Editora, 2008., p. 07-18 (ISBN 978-85-89909-76-1).
Conferência de abertura da VI Semana de História da
Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), no dia 20 de novembro de 2006.
Conferência proferida no VI Encontro ANPUH-ES, na Ufes,
no dia 8 de novembro de 2006.
***
Imagens 1
e 2
À esquerda: porta da ampliação feita por Almançor (940-1002) da antiga mesquita de Córdoba. À direita: um de seus famosos ambientes internos, com seu característico estilo do arco em forma de ferradura vermelho e branco. “É inútil tentar descrever a energia quase cinética de um monumento poderoso como esse; seria como tentar parafrasear um poema.” – MENOCAL, 2004: 68.
À esquerda: porta da ampliação feita por Almançor (940-1002) da antiga mesquita de Córdoba. À direita: um de seus famosos ambientes internos, com seu característico estilo do arco em forma de ferradura vermelho e branco. “É inútil tentar descrever a energia quase cinética de um monumento poderoso como esse; seria como tentar parafrasear um poema.” – MENOCAL, 2004: 68.
Para que o vitorioso rei-conquistador pudesse
pôr os pés na cidade, ela deveria antes ser “limpa
das sujeiras de Maomé”. Assim, logo que os muçulmanos
se renderam e lhe entregaram Córdoba, Fernando ordenou que colocassem
sua bandeira e uma grande cruz na torre mais alta da magnífica
mesquita da cidade. Isso para que o nome de Jesus Cristo fosse louvado
e exaltado pelos cristãos, exatamente no mesmo lugar onde era louvado
“o nome do excomungado Maomé”.
Só depois desse significativo gesto é que
Fernando III de Leão e Castela (c. 1198-1252), mais tarde cognominado
o Santo, entrou na cidade de Córdoba – “que
a estória chama de a patrícia de todas as cidades”.
Solene, Fernando seguiu à frente de uma grande procissão,
em uma perfeita entrada real (LE GOFF, 2002: 396), com todos
cantando Te Deum laudamus, no mesmo dia da festa dos apóstolos
Pedro e Paulo, 29 de junho. Era sua primeira grande vitória contra
os mouros.
I.
“Louvado seja Deus! Cheguei a Córdoba, casa das ciências
e sede dos reis” (Al-Saqundi)
Córdoba, cidade de jardins e prados,
terra de esplendor e beleza. Nela, “os exércitos do Islã
foram favorecidos por Allah contra os seguidores da cruz”, é
o que nos conta al-Saqundi (Abu-I-Walid al-Saqundi, 1231-?), um dos mais
célebres escritores de al-Andaluz, em sua obra Rissla fi fadl
al-Andalus (Elogio do Islã espanhol, 1976).
Córdoba, capital do império omíada
(756-1031), então sede da maior mesquita do mundo (23.400 m2),
era uma cidade esplendorosa, com uma notável biblioteca (além
de dezenas de outras, pertencentes a aristocratas), onde acorriam estudantes
(especialmente médicos e filósofos, mas também astrônomos,
geógrafos e matemáticos) de toda a Península (MIQUEL,
1971: 182).
Imagem
3
Mapa de Córdoba no período omíada. O palácio do califa encontra-se ao lado da mesquita e, curiosamente, o bairro judeu (que também dá nome a uma das portas da cidade) também está ao lado do palácio. Em SÁNCHEZ-ALBORNOZ, 1986, tomo I, p. 451.
Mapa de Córdoba no período omíada. O palácio do califa encontra-se ao lado da mesquita e, curiosamente, o bairro judeu (que também dá nome a uma das portas da cidade) também está ao lado do palácio. Em SÁNCHEZ-ALBORNOZ, 1986, tomo I, p. 451.
Com bairros de pergaminheiros, perfumistas
e sapateiros, a cidade contava com poderosos mercados de livros, de escravos
e de grãos, e para lá acorriam comerciantes de diferentes
partes (SÁNCHEZ-ALBORNOZ, 1986, tomo I: 450). Durante todo o período
omíada se desenvolveram notáveis manifestações
artísticas.
Imagem
4
Refinadíssima placa de marfim do período omíada (provavelmente uma produção cordovesa, final do séc. X). O motivo que compõe essa elaborada peça (10,8 x 20,3 cm) é o famoso locus amoenus literário, em que jovens casais apaixonados (no centro da placa e nas duas laterais também ao centro) se encontram furtivamente em um jardim paradisíaco. Cercados de plantas e casais de animais (também enamorados), os jovens, felizes, dão as mãos e se entregam ao amor, em uma curiosa dança, sob um emaranhado de árvores e flores. O tema era caro aos cordoveses: por exemplo, Ibn Hazm (384-456/994-1064), escreveu em 1022 "O Colar da Pomba", um dos primeiros tratados medievais sobre o tema do amor.
Refinadíssima placa de marfim do período omíada (provavelmente uma produção cordovesa, final do séc. X). O motivo que compõe essa elaborada peça (10,8 x 20,3 cm) é o famoso locus amoenus literário, em que jovens casais apaixonados (no centro da placa e nas duas laterais também ao centro) se encontram furtivamente em um jardim paradisíaco. Cercados de plantas e casais de animais (também enamorados), os jovens, felizes, dão as mãos e se entregam ao amor, em uma curiosa dança, sob um emaranhado de árvores e flores. O tema era caro aos cordoveses: por exemplo, Ibn Hazm (384-456/994-1064), escreveu em 1022 "O Colar da Pomba", um dos primeiros tratados medievais sobre o tema do amor.
Além disso, para deixar a capital
ainda mais fulgurante, os omíadas ergueram seu palácio nos
arredores de Córdoba, em Medina al-Zahra (HOURANI, 1994: 138),
outra belíssima construção que mostra a riqueza e
a opulência da vida islâmica cordovesa.
Imagem 5

Sítio arqueológico de Medina al-Zahra.
Sítio arqueológico de Medina al-Zahra.
A respeito desse palácio, o berbere
Ibn Idari (sécs. XIII-XIV), em sua História dos reis
de al-Andaluz (1306) nos conta que
Em 368 (9 de agosto de 978) Almançor fez construir um palácio chamado al-Zahra, quando sua posição era preponderante, sua chama brilhava em todo o seu esplendor, sua independência era manifesta, e numerosos eram os seus inimigos. Temeroso de arriscar sua vida mais tempo no palácio do príncipe e de se expor a alguma emboscada, tomou precauções (...)
Elegeu como instalação um lugar que fez seu, chamado al-Zahra, notável por seus palácios esplêndidos, situado na ponta de uma região que avançava sobre o grande rio de Córdoba, e ali dispôs e arrumou o que pôde para fazê-lo extraordinário... (IBN IDARI, Bayan al-Mugrib, em SÁNCHEZ-ALBORNOZ, 1986, tomo 2, p. 477-478).
Contudo, a partir do século XI,
em um período relativamente curto todo esse esplendor do império
omíada e sua capital sofreram três violentos baques. Em primeiro
lugar, a fitna (1008-1031) – violenta guerra civil que
varreu Córdoba alguns anos após a morte de Almançor
(1002), uma das causas do posterior surgimento dos reinos de taifas. Depois,
o sítio, o saque e a destruição de parte da cidade
pelos muçulmanos berberes (que durou três meses).
Por fim, a conquista de Córdoba em 1070 por al-Mutamid
(Muhammad ibn 'Abbad al-Mu'tamid, 1040-1095), rei da taifa de Sevilha
(e poeta), fato de graves conseqüências, pois Córdoba
nunca mais recuperaria sua condição de capital califal (BENABOUD,
1988: 74).
II. Fernando
III (c. 1198-1252)
Imagem 6

Fernando III. Tumbo A da Catedral de Santiago.

Fernando III. Tumbo A da Catedral de Santiago.
Com pouco mais de cinqüenta anos,
Fernando está à beira da morte. É o momento da passagem,
a majestosa mudança de estado, a morte que nós hoje perdemos
(DUBY, 1988: 10).
Em seu leito, o rei fez vir seu filho, D. Filipe, e outros
homens da Igreja. Ordenou que trouxessem uma cruz, e “o santo sacramento
do corpo e do sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Quando as relíquias
chegaram, mesmo combalido, Fernando saiu da cama, se ajoelhou, tomou a
cruz e chorou muito, “com grande contrição”,
adorando Cristo, “que nela padecera tantos tormentos por nossos
pecados”.
Depois disso, despiu-se; chegava a hora da verdade. Tirou
sua roupa real e chamou os seus: Afonso, Frederico, Henrique, Filipe e
Manuel, todos filhos de D. Beatriz da Suábia (1202-1235), e também
Fernando, Leonor e Luís, filhos de sua segunda esposa, D. Joana
D’Aumalle, condessa de Ponthieu (1210-1279), e seus ricos-homens
de Castela. Pediu a mão de Afonso, seu primogênito e futuro
rei, e lhe deu muitos e sábios conselhos.
Então chegou o momento em que a alma “partiria
do corpo”: Fernando sentiu faltar-lhe as forças, alçou
as mãos e os olhos ao céu e disse:
Senhor Jesus Cristo, rei dos reis e senhor de toda a terra, Tu deste-me um reino para governar que eu não tinha, e me exaltaste em honra e poder mais do que eu merecia. Agora, Senhor, te entrego o reino que me deste com a melhoria que eu pude fazer e Te peço, por misericórdia, que receba a minha alma em Tua glória. (Crónica Geral de Espanha de 1344, cap. DCCCLVI).
O rei ainda teve tempo de pedir perdão aos homens
presentes por qualquer coisa que tivesse feito. Todos o perdoaram. Os
clérigos presentes então cantaram Te Deum laudamus,
a mesma da entrada triunfal em Córdoba dezesseis anos antes. Ele
“inclinou os olhos e deu seu espírito a Deus”.
*
Fernando fora um rei-guerreiro, um rei-conquistador,
alçado à glória maior da luta contra o infiel. Filho
de Afonso IX de Leão (1171-1230) e D. Berenguela (1180-1246, filha,
por sua vez, de Afonso VIII de Castela e neta, por linha materna, de Henrique
II da Inglaterra) (JESÚS FUENTE, 2003: 198), Fernando tinha tudo
para não ser rei. O casamento de seus pais foi anulado pelo papa
Inocêncio III (1198-1216) – Afonso IX era primo de segundo
grau de Berenguela; Fernando era o quinto filho de Afonso IX de Leão
e, em Castela, o menino Henrique (seu tio, irmão de Berenguela)
era o sucessor.
Contudo, uma série de acontecimentos inesperados
o alçou à coroa. Em Leão, morreu o primogênito
(também Fernando) e o rei Afonso IX estava disposto a deixar a
coroa para suas duas filhas, Sancha e Dulce – e, de fato, o fez;
em Castela, o herdeiro Henrique morreu ainda criança, em um acidente
(caiu uma telha em sua cabeça enquanto brincava com outras crianças),
e a coroa passou para Berenguela.
Assim, em um ato de grandes conseqüências
políticas, em 1219 a rainha renunciou à coroa de Castela
em favor de seu filho:
Depois que todos foram juntos e deram o reino à D. Berenguela, ela rogou-lhes que recebessem seu filho como rei, e eles ficaram muito contentes com isso. Partiram logo com ele para uma igreja de Santa Maria e ali o alçaram como rei. Quando isso aconteceu, ele tinha dezoito anos de idade. E todo o clero cantava Te Deum laudamus (Crónica Geral de Espanha de 1344, cap. DCCCLVI).
Berenguela, que com “suas tetas cheias de virtude
lhe deu seu leite” sempre acompanhou Fernando, guiando-o no poder.
Ela foi “a sombra de seu filho, e Fernando a necessitava”
(JESÚS FUENTE, 2003: 204). Berenguela aconselhou seu filho “sempre
nos bons costumes, guardando-o com muito cuidado” (Crónica
Geral de Espanha de 1344, cap. DCCCLXXXII).
Fernando e Berenguela conseguiram sufocar a revolta dos
condes de Lara, importante família castelhana que se opunha a Fernando
– além de conter uma invasão leonesa comandada por
seu pai, Afonso IX. Assim pacificaram o reino de Castela. Enquanto isso,
Fernando reunia as mais importantes qualidades do bom rei e cavaleiro:
a difusão da fé católica e a guerra contra os mouros.
Em uma de suas primeiras “correrias” em terras
mouriscas, Fernando reuniu os concelhos de Cuenca, Orto, Alarcos e Amaya
e partiu para o coração do reino almôada, “queimando
muitas aldeias, matando muitos mouros, e trazendo um grande roubo”
(Crónica Geral de Espanha de 1344, cap. DCCCLXXXIII).
Algum tempo depois, partindo de Toledo, o rei chegou
a Las Navas de Tolosa, palco da vitória cristã de 1212 sobre
os almôadas (COSTA,
2004), e passou a Baeza e Jaén, mais ao sul, no coração
do território muçulmano. Nessa impetuosa razia, quatrocentos
cavaleiros cristãos fizeram as forças islamitas recuarem
de volta às portas de Jaén, quando então morreram
cento e oitenta mouros “dentre os mais honrados”, além
de dois mil “dos outros”. Nesse momento, a pressão
cristã era tamanha que o rei de Baeza pagou a Fernando a soma de
oitenta mil maravedis de prata. Além disso, presenteou-o com “cinqüenta
cavaleiros dos mais honrados, e cinqüenta e cinco senhoras mui formosas”
(Crónica Geral de Espanha de 1344, cap. DCCCLXXXIV).
Essa predestinação divina era percebida
pelo rei-conquistador, e ele deveria retribuir publicamente a graça,
reforçando e difundindo a fé católica. Assim, além
de erigir a catedral de Burgos (1221-1260), Fernando reparou e renovou
a de Toledo, “porque Deus lhe dava honra e vitória com tantas
boas conquistas contra os mouros” (Crónica Geral de Espanha
de 1344, cap. DCCXCIII).
Imagem 7

Imponente fachada dianteira da Catedral de Burgos
(obra iniciada em 1221 e consagração datada de 1260 - o que explica sua unidade e coerência artística).
Imponente fachada dianteira da Catedral de Burgos
(obra iniciada em 1221 e consagração datada de 1260 - o que explica sua unidade e coerência artística).
III. A
conquista de Córdoba (1236)
Com a morte de seu pai, e pelas hábeis
negociações de sua mãe (JESÚS FUENTE, 2003),
Fernando conseguiu o trono de Leão em 1230. A partir de então
os dois reinos nunca mais se separaram. Assim, tendo pacificado a revolta
nobiliárquica de Castela, anexado Leão e firmado um pacto
com Sancho II de Portugal (1209-1248) para a cruzada ibérica (MATTOSO,
s/d: 126), Fernando estava pronto para a grande aventura de sua vida.
No início de 1236, alguns cavaleiros fidalgos
e almogávares (tanto a cavalo quanto a pé) fizeram uma cavalgada
até Córdoba, e capturaram alguns mouros. Os prisioneiros
confessaram que a cidade estava desguarnecida e que, mesmo em pleno inverno,
não seria difícil tomar um de seus subúrbios (conhecido
como Ajarquia – Axarquía).
Imagens 7
e 8
Cantiga 63 (Iluminura das Cantigas de Santa Maria). Uma típica cena de combate cavaleiresco entre cristãos e muçulmanos.
Cantiga 63 (Iluminura das Cantigas de Santa Maria). Uma típica cena de combate cavaleiresco entre cristãos e muçulmanos.
O grupo decidiu empreender a escalada de um dos muros
à noite. Disfarçados como mouros, rogaram a Deus, à
Santa Maria e ao apóstolo Santiago o sucesso daquela arriscada
investida.
Liderados por Pedro Ruiz Tafur, Martin Ruiz d’Argot
e Domingo Muñoz, o adalid (líder), eles construíram
três escadas de madeira para a escalada. Os primeiros a subir foram
Álvaro Colodro e Bento de Baños – ambos conhecedores
da língua árabe (algarabiados). Com os seus, conseguiram
tomar uma das torres, graças à traição de
um dos muçulmanos que ali dormia (Estoria de España
que mando componer Alfonso el Sábio, 729, § 1046, em
SÁNCHEZ-ALBORNOZ, 1986, tomo 2, p. 417).
Durante a noite eles escalaram a torre. Ao alvorecer,
o grupo cristão já controlava todo o subúrbio cordovês.
D. Pedro Ruiz Tafur entrou a cavalo pelo portão de Martos, quando
então os muçulmanos fugiram para dentro da vila e passaram
a lutar contra os invasores.
Acossados, eles decidiram pedir socorro “a seu
senhor, o rei Dom Fernando” e a Dom Álvaro Perez de Castro
“um dos grandes homens do reino de Castela, poderoso e nobre”
(Estoria de España que mando componer Alfonso el Sábio,
729, § 1046, em SÁNCHEZ-ALBORNOZ, 1986, tomo 2, p. 417).
Fernando estava em Benavente (hoje Zamora). Assim que
recebeu a notícia, saiu apressado, com cem cavaleiros, e ordenou
que avisassem seus vassalos, nas cidades e castelos. Apesar do mau tempo
(era inverno e chovia muito) eles deveriam sair até a fronteira,
até Córdoba, para ajudar os seus a conquistar a cidade.
Em sua viagem, Fernando parou em Benquerença
(entre Salamanca e Coimbra, hoje pequena freguesia portuguesa do concelho
de Penamacor), que então pertencia a “um alcaide mouro que
era um excelente cavaleiro”. Quando soube que o rei castelhano estava
em sua terra, o muçulmano ordenou que colocassem uma tenda negra
perto de seu castelo e próxima de uma fonte, para acolhê-lo.
Ele recebeu Fernando com todas as honras, dando-lhe “pão
e vinho, carne e cevada”. O rei pediu o castelo do mouro, que respondeu
em íntimo tom de ironia: “Tu vais agora ganhar Córdoba.
Até que tu tenhas concluído isso, não te darei o
castelo. Mas se conseguires, eu te darei o castelo e te servirei com tudo
o que tenho” (Crónica Geral de Espanha de 1344,
cap. DCCCII).
Sua chegada a Córdoba, no início
de fevereiro, revigorou o ânimo dos cristãos. Desde janeiro
eles estavam encurralados na Ajarquia. No entanto, apesar do número
cada vez maior de cavaleiros que acorriam às hostes cristãs,
eles ainda não eram páreo para as forças do rei Abetihen
(ou Abenhut) – “rei dos mouros de além-mar”.
Nesse ponto de suas narrativas, tanto a Crónica
de Espanha de 1344 quanto a Primera Crónica General
contam a curiosa estória de um exilado, Dom Lorenzo Suárez,
expulso de Castela por D. Fernando, e que agora vivia com o rei muçulmano.
“Com a ajuda de Deus”, D. Lorenzo foi o protagonista
decisivo na conquista de Córdoba. Abetihen era muito precavido:
apesar de saber que as forças cristãs eram em menor número,
ele pediu o conselho de D. Lorenzo, a quem confiava por saber que “queria
mal a D. Fernando”. E perguntou: “Lorenzo, o que me aconselhas
a fazer a esse respeito?”. Para que pudesse dar um bom conselho,
Lorenzo pediu ao rei mouro três homens a cavalo para espionar a
hoste do rei castelhano – e ter uma idéia mais precisa do
número de combatentes inimigos.
Ao chegar ao acampamento do rei castelhano, D. Lorenzo
ordenou aos três cavaleiros que aguardassem, e se infiltrou hoste
adentro. Chegou à tenda do rei e pediu para falar-lhe. O rei, estupefato,
perguntou:
– Como ousastes vir até mim?
– Senhor, vós me expulsastes para a terra dos mouros por meu mal, e esse mal tornou-se um bem para vós e para mim.
(Estoria de España que mando componer Alfonso el Sábio, 729, § 1046, em SÁNCHEZ-ALBORNOZ, 1986, tomo 2, p. 420).
Disposto a trair Abetihen, Lorenzo recebeu o perdão
do rei castelhano, que o aceitou novamente como vassalo. O ex-renegado
aconselhou ainda D. Fernando a fazer “muitas fogueiras”, para
dar a impressão aos mouros que a hoste real era poderosa.
Ao voltar ao acampamento muçulmano, Lorenzo disse
a Abetihen que D. Fernando estava com um forte exército. No dia
seguinte, o rei muçulmano recebeu um pedido de socorro do rei de
Valência, que estava sendo atacada por Jaime I de Aragão
(1208-1276). Abetihen reuniu seu conselho e, após ouvir todas as
deliberações – inclusive a de D. Lorenzo – decidiu
“lidar com o rei D. Jaime, que tinha um poder menor, e, se o vencesse,
poderia depois socorrer Córdoba” (Crónica Geral
de Espanha de 1344, cap. DCCCII).
Essa decisão equivocada selou o destino de Córdoba
– e de Valência, pois Jaime I conseguiu tomá-la. Para
piorar ainda mais a situação dos muçulmanos, antes
de socorrer Valência Abetihen foi assassinado por “um mouro
seu privado”, e suas hostes logo depois se dispersaram.
Lorenzo pôde assim voltar com todos os cristãos
que trazia consigo para fortalecer o exército de D. Fernando no
cerco a Córdoba. Nesse ínterim, vieram companhias de Castela,
de Leão, além de forças concelhias. Os cordoveses,
vendo o poderio cristão aumentar, e depois de saberem da morte
de Abetihen, decidiram entregar a cidade a Fernando, “muito quebrantados
em seus corações”, com a condição de
poderem sair sãos e salvos.
Assim, em uma impressionante seqüência de
acasos fortuitos favoráveis, Fernando conquistou Córdoba.
E quando a fama que a Cidade de Córdoba era dos cristãos ecoou por toda a Espanha, vieram povoadores de todas as partes para ela. Os que vieram para povoá-la foram tantos, que lhes faltaram casas, pois mais foram os moradores que as casas (...) Depois que a cidade de Córdoba foi povoada por cristãos e abastecida de homens de armas (...)
O rei D. Fernando retornou para Toledo, onde estava sua mãe, a rainha D. Berenguela, que o esperava com grande desejo de vê-lo, como aquela que o criara com muito cuidado, o ensinara com muito trabalho, o guardara com grande diligência, e estava muito alegre com sua vinda e pelas muitas bem-aventuranças que Deus sempre lhe dera contra os mouros, especialmente em lhes tomar Córdoba, que era a melhor cidade que eles tinham, e que os reis mouros mais prezavam. (Crónica Geral de Espanha de 1344, cap. DCCCII).
IV. O
silêncio das fontes islâmicas sobre a perda de Córdoba
Infelizmente, não há contraposição
às duas narrativas cristãs apresentadas, pois nenhuma fonte
islâmica narra a perda de Córdoba. Isso é muito intrigante,
já que a cidade fora a capital do império omíada.
Ademais, as sólidas tradições muçulmanas (historiográfica
e poética) peninsulares fazem com que esse silêncio seja
ainda mais paradoxal.
Não há nenhum documento do século
XIII que trate do tema. Nem mesmo do século XIV: Ibn Idari, em
sua já mencionada obra História dos reis de al-Andaluz
(1306), não menciona a conquista cristã; tampouco o autor
anônimo do texto al-Hulal al-Mawsiyya (séc. XIV).
Outro que omite esse acontecimento é Ibn al-Jatib (1313-1375),
apesar de ter escrito uma obra histórica no final de sua vida (A’mal
al-A’lam).
A única passagem existente – mesmo assim
brevíssima e muito posterior – encontra-se no texto Nafh
at Tib, do historiador Al-Maqqari (1577-1632): “A ocupação
da cidade de Córdoba pelo inimigo – que Allah o
destrua – ocorreu no domingo do dia vinte e três de Shawwal
do ano 636” (citado em BENABOUD, 1988: 77).
O historiador marroquino M’hammad
Benaboud sugere quatro hipóteses para essa intrigante omissão:
1) a historiografia islâmica do século XIII é qualitativa
e quantitativamente muito inferior à do século XI; 2) devido
à escassez historiográfica do século XIII, os escritores
posteriores não tiveram material para comentar os acontecimentos
daquele período; 3) os autores medievais consideraram a primeira
queda de Córdoba no século XI mais importante que a segunda,
e 4) o papel secundário da cidade no momento de sua caída
(Sevilha era então mais importante) (BENABOUD, 1988: 75-76).
Quero propor uma quinta possibilidade,
mais humana: estupefação e vergonha das elites literárias
por uma perda tão significativa e ocorrida de uma forma tão
banal. Pois se dermos crédito às narrativas cristãs,
a cidade caiu por três fatores conjugados: 1) uma traição
de um muçulmano que guardava uma das torres, 2) a equivocada decisão
de Abetihen de socorrer Valência e deixar Córdoba indefesa,
e 3) a maneira com que ocorreu a rendição dos cordoveses,
que não ofereceram nenhuma resistência ou mesmo combate.
V. Conclusão
A surpreendente conquista de Córdoba
foi apenas o início de uma notável seqüência
de vitórias de Fernando III, que culminaram com a conquista de
Sevilha (1248). É muito difícil imaginar o grande impacto
que esse acontecimento teve nas mentes de então; talvez o próprio
silêncio islâmico seja um indício disso.
Seja como for, a triunfante entrada
do rei-conquistador cristão na outrora capital omíada
e centro da memória de al-Andaluz (MENOCAL, 2004: 199) foi a
definitiva ponta de lança militar que impulsionou o avanço
cristão. Esse ímpeto derradeiro, levado adiante por Fernando
III, traçou indelevelmente o futuro da Península Ibérica.
Isolados a partir de então em Granada, os muçulmanos nunca
mais recuperariam seus domínios, nem a outrora glória
dos tempos do califado.
*
Fontes
AL-SAQUNDI. “Elogio del Islam Español”. In: Andalucía contra Berbería. Reedición de traducciones de Ben Hayyan, Saqundi y Ben Al-Jatib, con um Prólogo por Emilio García Gómez. Barcelona: Publicaciones del Departamento de Lengua y Literatura Árabes, 1976.
Crónica Geral de Espanha de 1344 (ed. crítica de Luís Filipe Lindley Cintra). Lisboa: MCMXC, vol. IV.
SÁNCHEZ-ALBORNOZ, Cláudio. La España Musulmana – según los autores islamitas y cristianos medievales. Madrid: Espasa-Calpe, 1986, 2 tomos.
AL-SAQUNDI. “Elogio del Islam Español”. In: Andalucía contra Berbería. Reedición de traducciones de Ben Hayyan, Saqundi y Ben Al-Jatib, con um Prólogo por Emilio García Gómez. Barcelona: Publicaciones del Departamento de Lengua y Literatura Árabes, 1976.
Crónica Geral de Espanha de 1344 (ed. crítica de Luís Filipe Lindley Cintra). Lisboa: MCMXC, vol. IV.
SÁNCHEZ-ALBORNOZ, Cláudio. La España Musulmana – según los autores islamitas y cristianos medievales. Madrid: Espasa-Calpe, 1986, 2 tomos.
Bibliografia
BENABOUD, M’Hammad. “La caída
de Cordoba según las fuentes andalusies”. In: Andalucia
entre Oriente y Occidente. Actas del V Coloquio Internacional de Historia
Medieval de Andalucia (coord. Emilio Cabrera). Córdoba, 1988,
p. 71-77.
COSTA, Ricardo da. “ Amor e Crime, Castigo e Redenção na Glória da Cruzada de Reconquista: Afonso VIII de Castela nas batalhas de Alarcos (1195) e Las Navas de Tolosa (1212)”. In: OLIVEIRA, Marco A. M. de (org.). Guerras e Imigrações. Campo Grande: Editora da UFMS, 2004, p. 73-94.
Department of Islamic Art. “ The Art of the Umayyad Period in Spain (711-1031 A.D.)”. In: Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000.
DUBY, Georges. Guilherme Marechal – ou o melhor cavaleiro do mundo. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1987.
HOURANI, Albert. Uma História dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
JESÚS FUENTE, María. Reinas medievales en los reinos hispánicos. Madrid: La esfera de los libros, 2003.
LE GOFF, Jacques. “Rei”. In: LE GOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude (coord.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval II. Bauru, São Paulo; EDUSC, São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2002, p. 395-414.
MATTOSO, José (coord.). História de Portugal – A Monarquia Feudal (1096-1480). Lisboa: Editorial Estampa, s/d.
MENOCAL, Maria Rosa. O ornamento do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2004.
MIQUEL, André. O Islame e sua civilização. Lisboa: Edições Cosmos 1971.
COSTA, Ricardo da. “ Amor e Crime, Castigo e Redenção na Glória da Cruzada de Reconquista: Afonso VIII de Castela nas batalhas de Alarcos (1195) e Las Navas de Tolosa (1212)”. In: OLIVEIRA, Marco A. M. de (org.). Guerras e Imigrações. Campo Grande: Editora da UFMS, 2004, p. 73-94.
Department of Islamic Art. “ The Art of the Umayyad Period in Spain (711-1031 A.D.)”. In: Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000.
DUBY, Georges. Guilherme Marechal – ou o melhor cavaleiro do mundo. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1987.
HOURANI, Albert. Uma História dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
JESÚS FUENTE, María. Reinas medievales en los reinos hispánicos. Madrid: La esfera de los libros, 2003.
LE GOFF, Jacques. “Rei”. In: LE GOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude (coord.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval II. Bauru, São Paulo; EDUSC, São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2002, p. 395-414.
MATTOSO, José (coord.). História de Portugal – A Monarquia Feudal (1096-1480). Lisboa: Editorial Estampa, s/d.
MENOCAL, Maria Rosa. O ornamento do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2004.
MIQUEL, André. O Islame e sua civilização. Lisboa: Edições Cosmos 1971.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
DIVULGUE nosso blog: sacerdotibus.blogspot.com/
www.facebook.com/avidasacerdotal