Eis a pergunta que não quer calar e início esta reflexão com as palavras de Nosso Senhor no Santo Evangelho: "Todo reino internamente dividido ficará destruído; e toda cidade ou família internamente dividida não se manterá." (Mt 12,25).
Desde que tomei contato com a Missa Gregoriana duas realidades antagônicas me chamam a atenção.
A primeira delas é a Sagrada Liturgia em seu Usus Antiquor, que é um belo tesouro e um precioso dom de Deus a nós homens. Por esta Missa oferecemos junto com o sacerdote que é o oferente por excelência o Santo e Perpétuo Sacrifício da Cruz.
O rito é dotado de toda uma esfera de silêncio, sacralidade e encontro com Deus de forma intima. Em cada Missa somos colocados aos pés de Nosso Senhor no calvário e cada Missa Ele mesmo se faz presente e nos comunica a sua graça através do seu presciosíssimo corpo e sangue.
Tão sublime sacramento que reúne todos diante de si como que cumprindo a profecia de Cristo: "Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também será levantado o Filho do Homem, a fim de que todo o que nele crer tenha vida eterna." (Jo 3, 14-15), colocando lado a lado ricos e pobres, doentes e sãos, santos e pecadores. Intelectuais e pessoas simples, todos diante do altar formam o mistério do Corpo Místico de Cristo. Todos diante do Cristo levantado tem suas culpas lavadas, suas forças revigoradas e brilham luminosos como portadores da graça de Deus.
Todos, como Maria, recebem o Senhor e tornam-se verdadeiros tabernáculos pela presença do Senhor que passa a habitar em nós como Divino Prisioneiro que se sujeita estar nas espécies tão simples do pão que não é mais pão, mas sua própria carne, e no vinho que é seu sangue.
Porém é ai que mora o grande escândalo e a grande discrepância.
O mundo dito tradicional é fragmentado. É como que uma bela obra de arte só que completamente desmontada como que num quebra cabeças. E o problema é que nesse quebra cabeças, muitas peças não fazem a mínima questão de comporem essa linda obra que em nosso caso é a obra mais bela de todas, que diz respeito à salvação das almas.
Um dos grandes motivos para que a Missa não cresça no Brasil e não tenha ainda mais católicos tomando desta fonte passa pelo nosso egoísmo e pela nossa falta de espírito apostólico.
Muitos se dão por satisfeitos por terem conseguido a Missa Gregoriana para o seu grupo, faço questão de grifar isso. Pois muitos de nós nos trancamos em pequenos guetos de 30 a 60 pessoas talvez e ali vivemos um mundinho particular e sem frutos.
A vida cristã não se limita a uma experiência intimista, por mais que a salvação seja questão particular, mas se enxergarmos o cristianismo assim caímos no erro protestante que muitos tanto criticam e atiram pedras. E vejam bem, os protestantes são hereges, são pessoas fora da comunhão com o Corpo Místico de Cristo. Muitos de nós somos assim. Não somos protestantes de fato, mas somos protestantes nos atos vivendo uma religião particular.
Fruto disso passamos a rotular os outros, até mesmo outros irmãos que amam a tradição.
E muitas vezes por motivos tolos nos achamos mais romanos que o próprio papa.
E aqui entra outra questão, fala-se tanto de obediência ao papa, mas faltamos muitas vezes com a caridade com nossos bispos e padres.
Independente de suas posições estarem corretas ou por vezes equivocadas, não podemos fugir jamais da caridade.
Nas críticas a regra é a caridade. Podemos criticar, podemos denunciar, podemos tudo, mas com caridade e humildade.
Falamos tanto de modernistas e materialistas, liberais e socialistas, mas muitas vezes vivemos um cristianismo meramente ideológico e a partir disso caímos num ativismo que se assemelha e muito àqueles que tanto criticamos.
Às vezes escrevemos e palestramos verdadeiros tratados criticando posições de membros do clero e também leigos, mas esquecemos de que Deus age por duas vias. A natural e a sobrenatural.
Devemos empreender as obras de apostolado sim, temos o dever de defender a fé, mas também temos de dobrar nossos joelhos e rezar, rezar muito, oferecer penitência e mortificações nas intenções das almas e da Santa Igreja de Deus.
Nos evangelhos também encontramos que uma das coisas que mais indignava Nosso Senhor era o fato da grande murmuração que havia entre os judeus. Deus já se indignara disso no antigo testamento.
Olha quantos murmuradores temos entre nós. Mas e aí planejadores estratégicos e mestres de análise de conjuntura, o que nós fazemos?
O que de prático temos feito no mundo católico para acabar com o secularismo, imoralidades, desvios de caráter e tantas outras coisas que entristecem o coração de Jesus? O que temos feito de prático para a edificação do reino de Jesus Cristo nos corações e na sociedade?
Vemos muitas denúncias e poucas ações. E assim muitos de nós nos enveredamos pelo caminho da lamúria dizendo que o mundo é péssimo, que a Igreja é uma instituição prestes a se desmantelar. E da parte alguns até parece que isso é um desejo mesmo.
Enfim, é momento de deixar de pensar no "meu grupo" e passar a pensar nas almas, em todas elas, ou o Santo Padre escreveu o Motu Próprio só para um grupinho de eleitos?
É passada à hora de deixar os guetos e somar forças pela promoção do Reino de Deus na Terra de Santa Cruz.
É hora de leigos e sacerdotes do Brasil unir-se para que mais e mais almas possam beber dessa fonte que são todas as riquezas da Igreja.
Mas isso depende de nós. E aqui retorno ao raciocínio inicial, todo o reino e família que se dividem não sobrevivem. Ou nos unimos ou seremos submergidos, cedo ou tarde. Ou pensamos na salvação de todos e levamos a sério ser católico que quer dizer universal, ou fugimos da nossa missão e vivemos como pessoas isoladas em ilhas.
E aqui volta a pergunta que não quer calar. A quem interessa esta divisão?
Estejam certos que esta divisão interessa ao próprio demônio, ao diabo. Aliás, a etimologia da palavra demônio e diabo quer dizer justamente aquele que acusa, calunia e divide.
Só interessa ao maligno essa fragmentação, a mais ninguém. As pessoas e suas ações pecaminosas são só um joguete na mão desse estatuto ser das trevas.
E num texto com tantas perguntas devemos nos perguntar se estamos sendo divisores, acusadores ou estamos sendo católicos, universais e apostólicos.
Que a Santíssima Mãe de Deus nos auxilie nessa batalha, ela que é a grande vencedora contra o mal, que a exemplo de Maria sejamos humildes portadores de Cristo e que como Maria estejamos todos unidos, pois com Maria e os apóstolos unidos foi que o Espírito Santo se derramou sobre a Igreja e a fez chegar até os confins do mundo.
In Corde Jesu et Mariae, Semper!
Luciano Mendes
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