O Governo de Deus

Via CIEEP
Padre James V. Schall S.J.
Professor da Georgetown University
Membro do Conselho Acadêmico e Editorial do CIEEP

Publicado em 09 de outubro de 2012
Os homens estão sujeitos a tentações sutis. A mais perigosa de tais tentações sugere que, pelo próprio poder e habilidade, possamos identificar a raiz do problema causador dos males humanos bem como eliminá-lo. No fundo, é uma técnica e não um problema pessoal. Não podemos resolvê-lo sem resolver o problema de nossas almas.

Das muitas frases memoráveis da "Deus Caritas Est" (25 de dezembro de 2005), primeira encíclica a respeito da caridade, do papa Bento XVI, a seguinte é a que mais me toca: "A experiência da incomensurabilidade das necessidades pode [...] fazer-nos cair na ideologia que pretende realizar agora aquilo que o governo do mundo por parte de Deus [...] não consegue: a solução universal de todo o problema" (DCE #36). Obviamente, a caridade cristã é precisamente compreendida contra essa presunção de solucionar todos os problemas. É uma presunção porque sugere que podemos melhorar o governo de Deus no mundo, quando a própria divindade falhar nessa tarefa.

Dentre as pessoas piedosas, ativas e liberais, é comum, hoje, estar alerta para o restante do mundo, com todos os problemas, e sinceramente exigir que alguma coisa seja feita a respeito disso e logo. Ao pensar em larga escala, resolveremos todos os problemas de todas as pessoas, em especial, dos pobres e fracos, caso possamos determinar as causas e eliminá-las. Talvez seja o direito de propriedade? A família? O Estado? Tudo o que precisamos fazer é identificaro problema e erradicá-lo. Uma espécie de secularismo místico parece entrar em ação.

No entanto, temos agora o Papa nos advertindo, de modo preciso, a respeito de tal solução fácil. Chega até a sugerir que não é o cristianismo, mas a "ideologia" que objetivaria tal empreendimento grandioso, como se existisse alguma ligação entre uma solução errada e uma proposição teológica.

Qual proposição teológica está em jogo nesse momento? A de que o governo divino é, realmente, a raiz do que há de errado com a condição humana. Somos malfeitos desde o início. Toda a ideologia política, portanto, passa a figurar como uma proposta melhor, como a cura para algo que o próprio Deus poderia, mas não quis, solucionar. Daí deriva o implacável sentimento "antidivindade" que muitas vezes vemos na ideologia -- a vontade de impor ao mundo as ideias que nós mesmos geramos.

Bento XVI não está sugerindo que não devamos fazer o possível para solucionar os terríveis problemas humanos, embora compreenda que não irão desaparecer por completo, mesmo que façamos o melhor. Apenas não crê qye o governo e a justiça possam resolver tudo. Os resultados da justiça não são alcançados sem a caridade. É por isso que a encíclica é a defesa da caridade prática que fia-se na resposta pessoal do indivíduo diante de pessoas reais, onde quer que estejam.

Por que o Sumo Pontífice faz uma conexão entre a ideologia e a suposta falha do governo de Deus no universo? Porque o governo de Deus abrange o mal. O lugar do mal não está na matéria, na natureza ou nas instituições, mas no poder de nossas vontades escolherem o que é errado, ainda que em nome da escolha de algo bom. Já que o propósito supremo do governo divino é que escolhamos livremente amar a Deus ao longo de nossas vidas terrenas, eliminar essa liberdade iria, ao mesmo tempo, eliminar nosso contato com nosso destino último.

A obra do governo divino é pessoal. Busca salvar-nos exatamente na nossa liberdade, uma liberdade que encessa o pecado como uma possibilidade. A ideologia nos salva ao fazer que neguemos qualquer necessidade de escolher livremente a única salvação que nos é oferecida, a única que terá êxito no propósito do governo divino -- que possamos amar a Deus e que Deus nos ame como pessoas que também se amam umas às outras.
Traduzido do inglês por Márcia Xavier de Brito

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